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terça-feira, 8 de outubro de 2019

Assim como no Brasil Colonial, havia falta de dinheiro amoedado no Paraguai

Não só no Brasil é que dinheiro amoedado era escasso nos tempos coloniais. Também no Paraguai havia falta de moeda. Falando da cidade de Asunción, na qual se supunha haver dez mulheres para cada homem, o padre Antonio Ruiz de Montoya, missionário jesuíta,  afirmou: 
"[...] não tem minas de prata nem de ouro, nem circula dinheiro algum. O comprar e o vender se fazem pela troca de uma coisa por outra. Há, contudo, um gênero inventado de pesos ocos, porque assim são chamados frequentemente os pesos pelos quais se avaliam as coisas; e assim, por um patacão (¹) de oito reais de prata, dão três pesos ocos em frutos da terra, que é muito fértil." (²) 
É fácil perceber que, ao declarar inexistentes as minas de ouro e prata, Montoya justificava, por consequência, a falta de dinheiro amoedado em Asunción. Ora, meus leitores, se o Brasil, com um vasto litoral que facilitava o comércio com a Metrópole, fazia do açúcar e de outras mercadorias sua moeda, que dizer, então, do Paraguai, região colonial espanhola situada no interior da América do Sul? 

(1) Moeda antiga recunhada.
(2) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus. A edição original foi impressa na Espanha em 1639. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


terça-feira, 5 de março de 2019

Império das formigas

Formigas da América do sul e seus hábitos curiosos


A formiga era "o rei do Brasil" nos tempos coloniais, como bem sabem os leitores deste blog. Digo, porém, que, a seu modo, as muitas espécies de formigas eram bem mais que um reino: constituíam verdadeiro império, e, insolentes, faziam questão de ignorar restrições de fronteira, fato tanto mais grave porque, nesse tempo, portugueses e espanhóis querelavam por traçar limites no que deveria ser possessão de seus respectivos monarcas. 
Não vai aqui nenhuma troça indevida: posso comprovar o que acabo de dizer com as palavras de Félix de Azara, que esteve na América do Sul entre 1789 e 1801, na posição de comandante da Comissão de Limites enviada pela Espanha para, ao lado de representantes de Portugal, demarcar as terras que deveriam pertencer a uma e outra monarquia. Tarefa ingrata, essa...
Sem mais delongas, vamos às formigas de Azara (¹). Tratando de uma espécie a que denominou araraá, que, como a maioria das formigas, era apaixonada por doces (²), escreveu: "Há casas em que é impossível conservar açúcar ou melado [de cana]. Para preservar ditos objetos, se veem obrigados a pô-los sobre uma mesa cujos pés estão dentro de cântaros cheios de água." (³) 
Prossigamos, que Azara era bom contador de histórias. Outra espécie, chamada por ele tahy-ré, existente no Paraguai, era capaz de façanhas ainda mais portentosas: "A espécie chamada tahy-ré, que quer dizer formiga fedorenta, porque quando esmagada cheira muito mal, não tem habitação conhecida e não se sabe qual seja seu alimento habitual, porque só é vista quando sai. No Paraguai [...] ela costuma sair quase sempre à noite, dois dias antes de alguma mudança climática significativa, e se espalha, cobrindo o chão, as paredes e o teto dos quartos, por grandes que sejam. Consomem em um instante as aranhas, grilos, besouros e quantos insetos encontram, não deixando baú, canto ou fenda que não visitem. Se essas formigas encontram uma ratazana, esta se põe a correr como louca e, se não consegue sair do quarto (⁴), logo é coberta pelas formigas, que [...] a devoram. Afirma-se que essas formigas fazem a mesma coisa com as cobras. O fato é que elas obrigam até os homens a abandonar cama e quarto, correndo em camisa para fora. [...]" (⁵). Podem imaginar a cena, leitores?
Como já demos a Azara a oportunidade de falar das formigas; vamos, então aos formigueiros, ou pelo menos, a um formigueiro, mas não a um qualquer: "Uma mula que me pertencia", disse ele, "passando por um destes formigueiros que, devido a chuvas abundantes, havia amolecido, afundou, de modo que a vinte passos de distância não se via dela mais que a cabeça, embora estivesse em pé. Tal é a profundidade do túnel formado por esses formigueiros". (⁶)
É hora de concluir, assegurando, de passagem, que Azara era um homem sério, não dado a incluir lorotas em seus escritos. Qual seria a altura da pobre mula? Espero que nenhum dos leitores tenha pesadelos com formigas!

(1) Ainda que não fosse naturalista, Félix de Azara procurou observar tudo o que podia quanto aos seres vivos da América do Sul; seus escritos, embora não isentos de erros e mesmo de alguns preconceitos, têm a virtude impagável de ter, como autor, uma testemunha ocular. 
(2) Algum leitor ousa contestar?
(3) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 101. Todos os trechos aqui citados desta obra foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Parece que algumas residências coloniais tinham uma população que ia além dos seres humanos.
(5) AZARA, Félix de. Op. cit. p. 102.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Como eram os arcos usados por meninos guaranis

A educação ministrada às crianças indígenas era essencialmente prática, conforme observaram aqueles que tiveram oportunidade de conviver com ameríndios nos primeiros tempos da colonização. Assim, desde cedo os pequenos eram estimulados a adquirir os saberes que garantiam a subsistência de sua comunidade e, nesse cenário, a imitação do que faziam homens e mulheres adultos era importante. Visto que a divisão sexual do trabalho era a regra, às meninas ensinava-se o preparo de alimentos, confecção de redes, cestaria, arte cerâmica e, se o grupo desenvolvia alguma atividade agrícola, deviam aprender também o cultivo de vegetais, já que eram geralmente as mulheres que faziam a maior parte desse trabalho. Aos meninos, por sua vez, estimulavam-se as virtudes guerreiras, incluindo a fabricação de armas e canoas, essenciais, essas últimas, para um deslocamento veloz em caso de guerra. Portanto, todo menino indígena deveria, tão logo tivesse idade para isso, aprender a empunhar um arco com destreza.
Entre os guaranis do Paraguai (que Félix de Azara pôde observar quando exercia o cargo de comandante da Comissão de Limites Espanhola entre 1789 e 1801), meninos que não tinham idade suficiente para a aprendizagem do uso de flechas exercitavam-se com um arco pequeno, dotado de uma rede, tendo bolas de argila endurecidas como projéteis, e isso para lástima entre os pássaros, conforme se lê em Viajes por la América del Sur:
"Os meninos, que se divertem com a caça de pássaros e pequenos animais, empregam outra espécie de arco (¹), mais fraco, de madeira mais flexível e elástica, mais fino e com cerca de três pés de comprimento. Eles ajustam as cordas, que se mantêm separadas paralelamente a menos de uma polegada de distância por meio de pequenas forquilhas de pau, através das quais passam as cordas. Pela metade de ditas cordas formam uma rede com fios, que serve para que se coloquem bolas de argila cozidas no fogo, do tamanho de uma noz, que fazem para essa finalidade." (²)
Não se pode negar o quanto o procedimento era engenhoso. Sigamos com a descrição de Azara, agora explicando como eram usadas as bolas de argila:
"Eles levam consigo uma bolsa cheia de ditas bolas; quando querem atirar, tomam quatro ou cinco com a mão esquerda, tendo o arco na mão direita, põem as bolas, umas depois das outras, na rede, e, em seguida, arqueando quanto podem, disparam juntos todas as bolas contra os pássaros que voam à distância de quarenta passos, e matam muitos (³), mas não fazem uso deste arco para atirar flechas nem para combater, ainda que uma de ditas bolas possa quebrar uma perna a 30 passos. [...]" (⁴)
Sem nenhuma cerimônia, Azara ainda ousou acrescentar esta observação horripilante: "Se os meninos da Europa aprendessem este exercício, não haveria tantos pardais." (⁵)

(1) Azara compara o arco usado pelos meninos àquele empregado por adultos.
(2) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 195.
Os trechos citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Quem esperaria outra coisa?
(4) AZARA, Félix de. Op. cit. pp. 195 e 196.
(5) Ibid., p. 196.


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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Como guaranis usavam o arco para lançar flechas

Félix de Azara, que liderou a Comissão de Limites Espanhola no Paraguai entre 1789 e 1801, teve oportunidade de observar o modo como os guaranis disparavam flechas. Ao informar que o arco por eles empregado tinha uso duplo, descreveu-o como "um bastão resistente, pouco flexível, liso, grosso no centro como uma mão fechada, mas diminuindo gradualmente em direção às extremidades, que são muito pontiagudas, de modo que podem servir de lança" (¹). Para encaixe das flechas que se pretendia lançar, cada arco era, por suposto, dotado de uma corda.
Europeus que estiveram no Continente Americano nos primeiros tempos da colonização notaram que indígenas se revelavam, como regra geral, extremamente habilidosos quando atiravam flechas. Essa capacidade não vinha do acaso: treinavam desde a infância, daí resultando, também, a força extraordinária que demonstravam para vergar um arco. Contudo, os guaranis tinham, de acordo com Azara, uma técnica específica, diferente da utilizada por vários outros povos indígenas: "Para atirar [...] encaixam um pouco na terra uma das extremidades do arco e, apoiando-o com o pé, dobram-no tanto quanto possível, e é sabido como estes selvagens [sic] sabem apontar e atirar." (²)
Embora a capacidade de lançar flechas com precisão fosse muito útil em caso de guerra, atirar bem era fator de sobrevivência, porquanto muitos ameríndios - não apenas os guaranis - faziam uso de arcos e flechas para a caça. Alguns povos usavam essas armas também para a pesca. Um bom arqueiro podia, assim, prover alimento para si mesmo e para seu grupo. Era daí que lhes vinha parte do sustento quotidiano.

(1) AZARA, Félix de Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, p. 195.
(2) Ibid.  Os trechos citados de Viajes por la América del Sur, de Félix de Azara, foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Como o látex era usado para iluminação nos tempos coloniais

A exploração do látex, extraído da Hevea brasiliensis (seringueira, se preferirem) da região amazônica, proporcionou, em fins do Século XIX e início do Século XX, um período de prosperidade para o norte do Brasil que é, frequentemente, chamado surto ou ciclo da borracha (¹). 
A Hevea brasiliensis não é, contudo, a única árvore fornecedora de látex (²). Das explorações conduzidas por Félix de Azara (³) no Século XVIII ficaram registros que demonstram a importância do látex extraído em áreas de colonização espanhola na América do Sul:
"O mangaysy é uma árvore [...] cuja resina é bastante conhecida no mundo todo com o nome de goma elástica. [...] Neste país (⁴) só a vi ser empregada para fazer bolas com que os meninos brincam e para iluminação à noite no deserto (⁵)." (⁶)
É pouco provável que Azara falasse da Hevea brasiliensis, que, como já disse, é nativa da região amazônica, mas, havendo outras árvores que produzem látex, ainda que de qualidade inferior, não surpreende que crianças logo encontrassem aplicação para tão útil recurso natural. Como, porém, seria o látex usado na iluminação? Voltemos a Azara:
"[...] faz-se desta resina uma bola que é posta na água; observando-se o lado que flutua, apertam-na para fazer uma espécie de mecha à qual se põe fogo e, acesa, é colocada na água, onde queima a noite toda, até que se consome inteiramente." (⁷)
Distantes da Europa, colonizadores precisavam improvisar (muitas vezes) e investigar, entre a população nativa, materiais que suprissem a falta dos recursos a que estavam acostumados. O uso do látex para iluminação parece, assim, ser um exemplo interessante a comprovar tal fato (⁸). 

(1) Há divergências quanto à nomenclatura.
(2) Embora o látex dela extraído seja considerado da mais alta qualidade.
(3) Viveu entre 1742 e 1821. Ao liderar a Comissão Demarcadora de Limites da Espanha entre 1789 e 1801, teve a oportunidade de fazer inúmeras observações quanto às condições geográficas no Paraguai, Argentina e Uruguai, bem como sobre a fauna e a flora dessa região.
(4) Referia-se ao território atual do Paraguai.
(5) Deserto, aqui, significa uma área desabitada.
(6) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, pp. 80 e 81.
(7) Ibid., p. 81. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(8) Não foi o único meio de iluminação obtido mediante o uso de recursos naturais conhecidos pela população indígena da América do Sul.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A carruagem de Carlos Antonio López, governante paraguaio

⁴⁴Ildefonso Antonio Bermejo era espanhol de nascimento. Convidado por Francisco Solano López, a quem conheceu na Europa, chegou a Asunción como uma espécie de conselheiro político, especialmente para assuntos externos, no ano de 1855. Foi de mala e cuia, como diriam os antigos, levando consigo a jovem esposa que, diante do que viu logo à chegada, quase perdeu os sentidos. De qualquer modo, Bermejo lá permaneceu por cinco anos, tempo mais que suficiente para fazer muitas observações que resultaram na publicação de um livro intitulado Repúblicas Americanas - Episodios de la Vida Privada, Política y Social en la República del Paraguay.
Carlos Antônio López (⁴)
Em 1855 o Paraguai era governado por Carlos Antonio López, pai de Francisco Solano, este último mais conhecido, é certo, por ter governado o Paraguai durante os anos da guerra contra o Brasil. Não é disso, no entanto, que agora nos ocuparemos.
Ildefonso Bermejo, tendo feito suas formais apresentações ao governante paraguaio - oficialmente, o Paraguai era uma República - teve a oportunidade de ver como é que tão importante personagem se conduzia pelas ruas de Asunción. E conta:
"Achei à porta da residência presidencial uma carruagem, (...) à qual estavam presos seis cavalos, cujos arneses eram cordéis (...). Em cada cavalo dos três da esquerda ia montado um soldado da escolta; o primeiro levava um chicote tremendo, e os outros dois controlavam o bridão na mão esquerda, e com a direita empunhavam uma grande espada, que apoiavam sobre o ombro." (¹)
Não imaginem os leitores que, estando a carruagem à porta, saía o presidente e, sem mais cerimônias, tomava seu lugar. Nada disso. Continua Bermejo:
"Quando subi aos corredores da casa do presidente, este saía, vestido de capitão-general e, assim que chegou à porta, soaram as duas trombetas de sua escolta. (...) Os sons das trombetas da escolta estavam muito próximos e, mesmo quando o presidente me falava, eu não o entendia, impedido pelo ruído desagradável daquela marcha estrambótica que tocavam, até que o presidente, exasperado, voltou-se para os trombeteiros e exclamou: Quietos, demônios! Não veem que estamos conversando?" (²)
As surpresas do dia não tinham, porém, acabado. Diante de todo o exagero do cerimonial, Bermejo faria, ainda, uma hilária constatação, ao notar que, de uma janela, três ministros observavam a cena, loucos para correr às respectivas casas, tão logo o presidente se fosse:
"Não estavam ociosos, pois tinham sobre o peitoril da janela um montão de laranjas, que estavam chupando"!!! (³)

(1) BERMEJO, Ildefonso Antonio. Repúblicas Americanas - Episodios de la Vida Privada, Politica y Social en la República del Paraguay. Madrid: R. Labajos, 1873, p. 39.
(2) Ibid., p. 40.
(3) Ibid., pp. 39 e 40. As traduções desta postagem destinam-se ao uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.
(4) WASHBURN, Charles A. The History of Paraguay vol. 1. Boston: Lee and Shepard, 1871.


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