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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Como o látex era usado para iluminação nos tempos coloniais

A exploração do látex, extraído da Hevea brasiliensis (seringueira, se preferirem) da região amazônica, proporcionou, em fins do Século XIX e início do Século XX, um período de prosperidade para o norte do Brasil que é, frequentemente, chamado surto ou ciclo da borracha (¹). 
A Hevea brasiliensis não é, contudo, a única árvore fornecedora de látex (²). Das explorações conduzidas por Félix de Azara (³) no Século XVIII ficaram registros que demonstram a importância do látex extraído em áreas de colonização espanhola na América do Sul:
"O mangaysy é uma árvore [...] cuja resina é bastante conhecida no mundo todo com o nome de goma elástica. [...] Neste país (⁴) só a vi ser empregada para fazer bolas com que os meninos brincam e para iluminação à noite no deserto (⁵)." (⁶)
É pouco provável que Azara falasse da Hevea brasiliensis, que, como já disse, é nativa da região amazônica, mas, havendo outras árvores que produzem látex, ainda que de qualidade inferior, não surpreende que crianças logo encontrassem aplicação para tão útil recurso natural. Como, porém, seria o látex usado na iluminação? Voltemos a Azara:
"[...] faz-se desta resina uma bola que é posta na água; observando-se o lado que flutua, apertam-na para fazer uma espécie de mecha à qual se põe fogo e, acesa, é colocada na água, onde queima a noite toda, até que se consome inteiramente." (⁷)
Distantes da Europa, colonizadores precisavam improvisar (muitas vezes) e investigar, entre a população nativa, materiais que suprissem a falta dos recursos a que estavam acostumados. O uso do látex para iluminação parece, assim, ser um exemplo interessante a comprovar tal fato (⁸). 

(1) Há divergências quanto à nomenclatura.
(2) Embora o látex dela extraído seja considerado da mais alta qualidade.
(3) Viveu entre 1742 e 1821. Ao liderar a Comissão Demarcadora de Limites da Espanha entre 1789 e 1801, teve a oportunidade de fazer inúmeras observações quanto às condições geográficas no Paraguai, Argentina e Uruguai, bem como sobre a fauna e a flora dessa região.
(4) Referia-se ao território atual do Paraguai.
(5) Deserto, aqui, significa uma área desabitada.
(6) AZARA, Félix de. Viajes por la América del Sur 2ª ed. Montevideo: Imprenta del Comércio del Plata, 1850, pp. 80 e 81.
(7) Ibid., p. 81. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(8) Não foi o único meio de iluminação obtido mediante o uso de recursos naturais conhecidos pela população indígena da América do Sul.


terça-feira, 16 de maio de 2017

Brinquedos que já fizeram a alegria da criançada

Vejam isto, leitores, e digam se concordam ou não com José de Alencar:
"Nunca reparaste numa coisa. O menino a quem se dá um brinquedo, começa por mordê-lo e espedaçá-lo; se o brinquedo resiste, joga-o fora; se quebra-se, então o amima e afaga." (¹)
Bem, dirão alguns de vocês, isso era no Século XIX!... Sim, de acordo, mas quem é que nunca viu um pequeno triste por um brinquedo quebrado, ao qual, até então, não dera grande importância?
Mas falemos de brinquedos - não dos que se vendem, agora, em qualquer loja especializada, mas daqueles que eram comercializados há mais ou menos um século. Vem, a seguir, uma pequena coleção deles, em imagens que, algum dia, foram publicadas em revistas, com a intenção de atrair as boas graças dos pais. Eles, como sempre, é que pagavam a conta.

1. Tricicleta com cavalinho e carrinho sport (²)


2. Triciclo (³)


3. Trenzinho a corda (⁴)


4. Bonecas de porcelana (⁵)


5. Carrinho de corridas para crianças (⁶)


Não podemos deixar de notar que todos esses brinquedos, agora centenários, mas que já foram novidade, têm legítimos sucessores. Há alguns brinquedos, no entanto, que, mesmo sendo muito simples, têm atravessado os séculos. Séculos? Melhor dizer milênios. Aqui e ali, ainda podemos ver crianças brincando com bonecas de pano, com piões, com bolinhas de gude. Isso me dá a ideia de lançar um desafio aos leitores: qual seria o segredo da longevidade desses brinquedinhos que se recusam a desaparecer?


(1) A Expiação (comédia).
(2) O ECHO, Ano VIII, nº 75 - São Paulo, maio de 1908.
(3) A CHRONICA, Ano I, nº 2, p. 39 - São Paulo, fevereiro de 1908.
(4) PARA TODOS, Ano XII, nº 615 - Rio de Janeiro, 27 de setembro de 1930.
(5) O ECHO, Ano XV, nº 2 - São Paulo, Agosto de 1916.
(6) O ECHO, Ano XV, nº 4 - São Paulo, outubro de 1916.


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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

De que brincavam as crianças que viviam no Império do Brasil

"Misturava tudo; o espírito ia de um para outro lado como bola de borracha entre mãos de crianças."
Machado de Assis, Quincas Borba

Brinquedos e brincadeiras infantis fazem parte das mais variadas culturas. Mesmo quando os pequenos são submetidos precocemente ao trabalho, sempre é possível notar a intensa criatividade para o que é lúdico, tão própria da infância, seja na invenção de jogos, seja na imitação da vida adulta, com ou sem o uso de brinquedos. É recreação, mas é também aprendizado, através do qual os elementos da cultura, incluindo os estereótipos, são assimilados, repetidos e, bons ou maus, perpetuados.
De um livro com propósitos educativos, Entretenimentos Sobre os Deveres de Civilidade, usado em aulas de leitura na segunda metade do Século XIX, depreendemos quais eram alguns dos brinquedos comuns aos meninos brasileiros da época:
"Se te agrada mais, vai jogar a peteca ou a bola de borracha, ou soltar aos ares o papagaio.
Podes fazer tudo isso, dou-te licença, visto teres cumprido bem teus deveres." (¹)
A peteca talvez ande em desuso, mas a bola e o papagaio (²) são familiares a qualquer guri. O mesmo livro ainda trazia:
"Não negues a teus camaradas o que lhes podes ceder, nem escondas da sua vista o boneco, o soldadinho de chumbo ou outro qualquer brinquedo." (³)
Aqui, meus leitores, temos que reconhecer que soldadinhos de chumbo são, agora, apenas objetos para colecionadores. Os brinquedos de hoje são quase todos de plástico, e os meninos preferem os superpoderes dos super-heróis à fadiga de comandar exércitos. Mas vamos adiante, pois da Literatura podemos, também, extrair informação relevante quanto aos hábitos infantis do Século XIX. Foi Machado de Assis quem escreveu, nas Memórias Póstumas de Brás Cubas:
"Só, só, nhonhô, só, só, dizia-me a mucama. E eu, atraído pelo chocalho de lata, que minha mãe agitava diante de mim, lá ia para a frente, cai aqui, cai acolá; e andava, provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando."
Ora, alguém perguntará, e por onde andam os brinquedos das meninas? Já vão aqui, mas não quaisquer brinquedos, e sim os de uma pequena filha de um fazendeiro escravocrata do Vale do Paraíba, conforme descritos por José de Alencar em O Tronco do Ipê:
"D. Elisa e o Dr. Oscar eram um lindo casal de bonecos, vindos diretamente de Paris por encomenda do barão. Alice os tinha recebido havia alguns meses; foi o presente do pai no dia de seus anos. D. Elisa era um anjo de bonita e o Dr. Oscar um serafim, na opinião de Eufrosina; Felícia porém comparava-o a um cabeleiro francês, para ela o tipo da suprema elegância parisiense.
- A noiva está pronta! disse Adélia mirando a boneca enfeitada.
- O noivo também! acudiu a Felícia."
Para contentar quem acha que esta postagem tomou rumos demasiadamente aristocráticos, termino com uma brincadeira dos meninos que perambulavam pelas ruas de Campinas (SP), observando os tropeiros que iam e vinham com suas mulas. Não era questão de apenas assistir ao trabalho dos mais velhos. É que uma travessura estava sempre nos planos. Foi Daniel P. Kidder, pastor metodista americano, quem observou e teve o cuidado de escrever, ainda na primeira metade do Século XIX:
"Aí [em Campinas] viam-se diariamente animais carregando e descarregando. À medida que esvaziavam os jacás onde transportavam os sacos de sal, eram postos de lado como imprestáveis. Sobre eles caíam então os garotos em animada disputa a fim de empilhá-los, e, à noite, ver qual deles fazia a fogueira mais alta." (⁴)
Crianças, crianças...

Escrava vendedora de bonecas (⁵)

(1) NEVES, Guilhermina de Azambuja. Entretenimentos Sobre os Deveres de Civilidade 2ª ed. Rio de Janeiro: 1875, p. 88. O exemplar consultado pertence ao acervo da BNDigital.
(2) Ou pipa, ou pandorga, ou arraia, ou capucheta, de acordo com o falar regional.
(3) NEVES, Guilhermina de Azambuja. Op. cit., p. 92.
(4) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 223.
(5) BARROS, Joaquim Lopes de. Costumes do Brasil (1840 - 1841). O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional; a imagem foi editada e restaurada digitalmente para facilitar a visualização neste blog.


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terça-feira, 31 de julho de 2012

Anúncios curiosos das primeiras décadas do Século XX - Parte 11

Teriam os pequenos brasileiros que se divertiam com o jogo "A Caminho de Berlin" alguma noção da realidade da guerra na Europa, aquela que seus pais chamavam de "A Grande Guerra" e à qual nós nos referimos como "Primeira Guerra Mundial"?
Anunciado (*) como "A Guerra em Família", esse joguinho nada pacifista tinha a seguinte regra básica:
"Imagine-se que cada jogador dispõe, no começo da partida, de 550 homens e, se a bola no percurso para Berlin cair num dos orifícios que nele se encontram, o jogador perderá o número de homens marcado nesse orifício. O jogador que chegar a Berlin com maior número de homens ganhará a partida."
O anúncio em questão foi publicado em setembro de 1917, enquanto o conflito armado persistiu por ainda mais de um ano. Quando finalmente acabou, a Gripe Espanhola, em seu rastro, já se espalhara pelo mundo, chegara ao Brasil e nunca saberemos quantos dos inocentes jogadores de "A Caminho de Berlin" terão sido atingidos pela pandemia. Seria, em todo o caso, um modo amargo de compreender que as guerras, grandes ou pequenas, não são brincadeiras de crianças.

(*) A CIGARRA, 8 de setembro de 1917.


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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Um sonho de Natal - os brinquedos de antigamente

Tente lembrar, leitor, qual foi, em sua infância, o presente de Natal mais esperado. Não cometerei a indiscrição de perguntar se recebeu-o ou não... Como se sabe, Papai Noel não traz presentes para crianças desobedientes e pouco estudiosas. Em vez disso, e fazendo jus ao propósito desde blog, trataremos de descobrir quais eram os presentes mais almejados nas primeiras décadas do século XX.
Nessa empreitada, vêm em nosso socorro dois anúncios publicados em diferentes edições de A Cigarra, sendo a primeira  do dia 1º de dezembro de 1919 e a segunda de 27 de setembro de 1930. Vai, portanto, pouco mais de uma década de distância entre uma e outra.
O primeiro caso, como se vê abaixo, é um anúncio de página inteira, com ilustrações bem interessantes das mercadorias oferecidas:


Bonecas, instrumentos musicais, bolas, cavalinhos de madeira sobre rodas, velocípede - aos jovens leitores, explico que velocípede era o nome dado a uma bicicleta de três rodas. Tive um mais ou menos assim, embora, obviamente não tenha vivido em 1919. Posso assegurar que era muito divertido correr com ele. O caso é que, em última instância, são brinquedos que, em suas respectivas versões contemporâneas, podemos encontrar em qualquer boa loja. Mas vamos adiante.
O segundo anúncio, também de página inteira, mostra brinquedos que seriam entregues a título de premiação para os vencedores de um concurso (o título diz: "Alguns dos ricos prêmios do Grande Concurso de Natal de "O Tico-Tico"" (*)).


Imagino que devia haver prêmios específicos para meninas, já que estes, pelo menos na época, pareciam ser destinados aos guris. Vemos modelos de automóveis, ônibus (de um tipo mais conhecido como "jardineira" aqui em São Paulo), um barco a motor, uma tuba, um caminhão de bombeiros. Esses são brinquedos que até hoje fariam a alegria de um colecionador. Infelizmente, o concurso foi há oitenta anos...
Dadas as condições econômicas do Brasil ao tempo desses anúncios, dado também o fato de ser a população eminentemente rural, sem acesso a lojas especializadas, é provável que brinquedos assim tenham sido presenteados a bem poucos meninos e meninas, àqueles cujas famílias, vivendo em áreas urbanas, tinham recursos suficientes para admitir tal luxo. Para a maioria das crianças, os presentes de Natal eram, no máximo, bonecas de pano feitas pelas mães ou avós, um cavalinho de pau feito pela habilidade paterna, talvez algum brinquedo barato. Seriam felizes os que recebiam tais presentes? Não podemos ter nenhuma ideia dos casos individuais, mas sabe-se que, ao menos no Brasil, ainda não predominava nenhuma regrinha capitalista obrigando a crer que "quanto mais caro, melhor". O que não impedia, que, vez por outra, uma belíssima boneca que abria e fechava os olhinhos brilhantes ou um modelo perfeito de automóvel pudesse frequentar os sonhos da criançada.

(*) TICO-TICO era uma revista infantil que, na época, fazia muito sucesso.


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