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terça-feira, 5 de outubro de 2021

Obsoletos

Estas coisas foram vistas em uma caçamba, diante de uma loja em que se vendem e consertam equipamentos de informática:


Eram restos mortais de computadores, impressoras, monitores, scanners, e mais equipamentos afins. Alguns inteiros, outros desmontados, todos obsoletos, a caminho da reciclagem (¹). A revolução da informática se fez acompanhar de uma incrível perícia em gerar obsolescência e novas necessidades. Não é impossível que aquele celular caríssimo, que algum de vocês, leitores, comprou há pouco mais de um mês, pareça ultrapassado na próxima semana.
Façamos um pequeno retorno ao passado. Um anúncio publicado na revista carioca O Malho (²) em outubro de 1930, apontava para a modernização em algumas áreas - iluminação, transportes (esqueçam o óleo de fígado de bacalhau): 


Já este
cartoon, que apareceu em maio de 1924 na revista paulistana A Cigarra (³), fazia troça das muitas invenções que marcaram a terceira década do Século XX, e que, daí por diante, se tornaram mais e mais frequentes, ainda que a grande crise econômica de 1929 tenha, durante alguns anos, encolhido um pouco o mercado para novos produtos:

Dizia a legenda:
"- Acabo de inventar um novo sistema de fósforos...
- Bravo! E como são?
- Iguais aos outros, só que têm a cabeça no outro lado..."
À parte o aspecto cômico, parece que há nisso alguma coisa que lembra certas inovações eletrônicas de nosso tempo, não é?

(1) Assim espero. 
(2) O MALHO, Ano XXIX, nº 1466, 18 de outubro de 1930. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) A CIGARRA, Ano XII, nº 231, p. 43, 1º de maio de 1924. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Uniformes escolares de antigamente

"O Ateneu era invejado. Vítimas do uniforme, os discípulos de Aristarco passeavam entre os grupos dos colégios rivais, sofrendo dichotes, com uma paciência recomendada pela boa educação."
Raul Pompeia, O Ateneu

Há tempos, alguns adolescentes me contaram, com muito desgosto, que o uniforme adotado para aquele ano no colégio em que estudavam fazia com que eles, alunos, parecessem um bando de "gaviões calçudos" (¹). Ora, leitores, como desconheço que aparência tem um gavião calçudo, fiquei sem saber se a reclamação era ou não procedente. 
Seja por certo espírito de contestação próprio da idade ou por outro motivo qualquer, é fato que estudantes tendem a detestar uniformes escolares. Até parece contraditório, mas alguns que não hesitam em andar devidamente paramentados com a camisa do time de futebol favorito são os primeiros a ruminar protestos contra as exigências das escolas que, quase sempre, são impostas por razões de organização, conforto, higiene e segurança dos próprios alunos. 
Por outro lado, entre as coisas que têm passado por sucessivas revoluções nos últimos duzentos anos encontram-se os uniformes escolares, juntamente com o vestuário em geral. Já tiveram a aparência de trajes militares (em tempos em que a disciplina exigida rezava pela mesma cartilha), em outros casos faziam lembrar a indumentária típica das ordens religiosas e, no extremo oposto, houve e há muitas instituições que simplesmente dispensaram/dispensam qualquer tipo de uniforme. Diferentes ideologias marcaram presença também nessa questão. 
Não vem ao caso discutir, agora, as vantagens e desvantagens desses extremos (já sei que muitos leitores irão dizer que a sensatez reside no meio-termo). A diversão será outra: reuni algumas fotos - já seculares, ou quase - de estudantes com seus uniformes. Estão em ordem cronológica, e com exceção do estabelecimento de ensino citado na quarta fotografia, todos os demais eram localizados na cidade de São Paulo. Sim, senhores, quanta mudança!

1. Alunos da Escola Profissional Masculina durante uma aula de marcenaria. (²)


2. Alunas da Escola Normal (para formação de professoras), acompanhadas por alunos da Escola Modelo Anexa. (³)


3. Demonstração de ginástica por alunos do Ginásio Anglo-Brasileiro. (⁴)


4. Alunos do Ginásio Diocesano de Campinas desembarcando na Estação Ferroviária de Limeira para uma excursão. (⁵)


5. Alunas da Escola Profissional Feminina de São Paulo. (⁶)


6. Alunas do Colégio Sttaford, turma de 1923. (⁷)


(1) Nada a ver com o maxixe de mesmo nome.
(2) A CIGARRA, Ano I, nº 15, 31 de dezembro de 1914.
(3) A CIGARRA, Ano II, nº 20, 21 de abril de 1915.
(4) A CIGARRA, Ano III, nº 54, 9 de novembro de 1916.
(5) A CIGARRA, Ano IV, nº 78, 31 de outubro de 1917.
(6) A CIGARRA, Ano X, nº 197, 1º de dezembro de 1922.
(7) A CIGARRA, Ano XII, nº 223, 1º de janeiro de 1924.


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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Acessórios dispensados e/ou dispensáveis

A moda só é moda porque é passageira - coisas que todo mundo usa em uma certa época tornam-se ridículas posteriormente. Ou, mesmo que não venham a ser pretexto para riso, são, pelo menos, totalmente dispensáveis, a não ser para quem gosta de vestir-se à antiga ou, talvez, em alguma festa em que se requer o uso de fantasia.
Temos aqui três itens que hoje poderiam bem ser classificados como acessórios dispensados e/ou dispensáveis, mas que no passado já foram parte obrigatória do traje de gente refinada. Vejamos:

a) Suspensórios
O próprio corte das calças já pressupunha o uso de suspensórios. Eles eram, portanto, imprescindíveis no vestuário masculino, e não simplesmente um adorno. Quando as calças mudaram, os suspensórios caíram em desuso.

Propaganda de suspensórios, datada de 1929 (¹)

b) Alfinetes para colarinho
Já neste caso, nem todo mundo usava (até porque, antigamente, havia colarinhos postiços, que eram apenas "encaixados" nas camisas). Alfinetes eram, pois, assim como as abotoaduras, um acessório para ocasiões especiais ou para aqueles que, por razões profissionais, estavam obrigados a usar diariamente um vestuário mais requintado.

Alfinetes para colarinho, de acordo com propaganda de 1930 (²)

c) Luvas femininas
Não estamos a falar de luvas de inverno, mas sim de peças muito delicadas, um verdadeiro luxo, feitas para as madames que não saíam de casa sem elas (assim como eram, pela mesma época, considerados indispensáveis os chapéus). 
Cumpre assinalar que muitos homens também usavam luvas, o que acontecia mesmo sob o sol do verão. Terrível, é certo, mas era o resultado óbvio da mania de copiar a moda vigente em terras distantes. 

Luvas finas para mulheres, propaganda de 1923 (³)
Para quem achar interessante o costume das luvas, devo recordar que a etiqueta recomendava enfaticamente que, ao estender a mão para cumprimentar alguém, era necessário, antes, tirar a luva. Não se esqueçam, portanto, senhores leitores!

(1) A CIGARRA, Ano XVI, nº 362, 1ª quinzena de dezembro de 1929.
(2) A CIGARRA, Ano XVII, nº 373, 2ª quinzena de maio de 1930.
(3) A CIGARRA, Ano XI, nº 222, 15 de dezembro de 1923.


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segunda-feira, 29 de junho de 2015

Deuses adormecidos

Como eram castigados os deuses gregos que contavam mentiras


Os deuses gregos estavam longe de ser modelos de virtude, ética ou moralidade. Eram briguentos, ciumentos, invejosos, armavam as maiores intrigas e não conheciam limites às perversões. Mas não podiam ser mentirosos. Jurar falso era, entre eles, crime gravíssimo, punido por Zeus Olímpico com grande severidade. 
A regra que proibia mentir valia para toda a multidão de divindades  do panteão grego, e não apenas para os mais famosos, até porque, ao longo dos séculos, os deuses, assim como os homens, sofreram variações de popularidade.
Conta-nos Hesíodo, em sua Teogonia, que Íris era encarregada por Zeus de trazer, em uma vasilha de ouro, a água gelada do juramento, sempre que alguma querela entre os imortais sugeria que um deles estava proferindo uma inverdade.
Ora, o que sucedia é que o mentiroso, ao derramar a água do juramento, era, no mesmo instante, acometido por um sono profundo, a tal ponto que deixava de respirar. Esse estranho fenômeno durava exatamente um ano. Néctar ou ambrosia? Nem pensar! O mentiroso estava de castigo.
Transcorrido um ano, o deus ou deusa acordava, mas, por longos nove anos, não podia conviver com as demais deidades, muito menos participar de seus formidáveis banquetes ou, ainda, dar palpites nas reuniões do Conselho do Olimpo. 
Ao décimo ano, porém, o suplício acabava, e o ex-mentiroso voltava a desfrutar das prerrogativas divinas.
Ora, senhores leitores, imaginem que alguma coisa semelhante ocorresse entre os mortais - em pouquíssimo tempo este planeta seria transformado em um vasto dormitório... Convenhamos que a água do juramento, com a qual Zeus era capaz de manter um mínimo de respeito em meio à algazarra do Olimpo, até que poderia ser útil para fins políticos se, por acaso, seu uso estivesse facultado aos humanos.
Por falar em mentira, alguém dos leitores já experimentou óleo de fígado de bacalhau? Eu não. Nunca. Mas todo mundo que eu conheço e que diz que, quando criança, era obrigado pelos pais a engolir tal coisa, afirma que tem sabor detestável, e não tenho nenhuma razão para crer que seja peta. Mas vejam só este anúncio que apareceu em uma edição (*) da revista paulistana A Cigarra, no ano de 1929:


"Em forma saborosa"? Não sei, não, mas acho que Zeus Olímpico não iria gostar.

(*) Primeira quinzena de junho de 1929, Ano XVI, nº 350

quarta-feira, 22 de abril de 2015

O primeiro contato entre portugueses e indígenas, sob a ótica de Pero Vaz de Caminha

Um modo muito proveitoso de estudar o que aconteceu em um tempo diferente daquele em que vivemos é a comparação de escritos da época, nos quais são expressos diferentes pontos de vista. Sobre a chegada dos portugueses ao Brasil em 1500 e os primeiros contatos entre europeus e indígenas, porém, não podemos, infelizmente, realizar esse tipo de estudo. A razão para isso é que os nativos do Brasil não usavam nenhum sistema de escrita e, portanto, não deixaram documentos que pudéssemos comparar, por exemplo, à Carta de Pero Vaz de Caminha. Aliás, de acordo com Caminha, foi assim que, pela primeira vez, os portugueses viram ameríndios:
"E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte. Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel."
Veio, em seguida, o primeiro contato "oficial":
"E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos, e eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio."
Quebrando o mar na costa ou não, Nicolau Coelho e sua gente não teriam mesmo qualquer "entendimento que aproveitasse", já que ninguém conhecia o falar dos indígenas. Outra coisa que salta aos olhos é que a aproximação não foi assim tão próxima, uma vez que Nicolau Coelho arremessou o barrete, a carapuça e o sombreiro, e o mesmo fez o ameríndio com o cocar de penas. Ora, arremessar é atirar a alguma distância... Devia haver temor de ambas as partes.
Mais tarde, com a ajuda forçada dos dois condenados a degredo que vinham com Cabral (e que ficaram no Brasil), portugueses e índios chegaram a ganhar maior confiança. Jovens da terra foram à embarcação onde estava Cabral, experimentaram a comida dos navegadores e até dormiram. Sabe-se que, nas duas missas relatadas por Caminha, indígenas estavam entre a assistência.
É verdade que Caminha também relatou a existência de um índio que se opunha à aproximação, mas parece, ao menos dessa vez, ter sido um caso isolado:
"Andava lá um que falava muito aos outros que se afastassem (¹), mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que assim os andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e contas pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia, antes, quando saía da água, era mais vermelho."
Como terá sido a despedida? Sabe-se que os dois condenados ficaram em terra contra a vontade, extremamente chorosos, receando nunca mais voltar a Portugal (²). Terão os navegadores acenado, quem sabe com lenços, à medida que as embarcações se afastavam rumo ao alto mar? Teriam os índios tentado acompanhar com os olhos, até que a última nau desapareceu?
Não sabemos. Se ao menos tivéssemos um relato indígena...


***

Ainda sobre o Descobrimento, muitos anos depois, por obra de um cartunista, na edição de 1º de maio de 1921, Ano VIII, nº 159, da revista paulistana A Cigarra:


Diz a legenda:
Pedro Álvares Cabral - Então que é isso? Ainda se encontram nesse estado?
O Cacique-guaçu - Não estranhe: nós somos nacionalistas.

(1) Provavelmente o gestual é que deve ter levado Caminha a concluir que o índio pintado de vermelho queria afastar os demais do contato com os navegadores.
(2) Há relatos que dizem que um deles, pelo menos, chegou a voltar ao Reino.


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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Quem deveria amamentar os bebês?

Durante muito tempo amamentar bebês humanos foi tarefa delegada a amas de leite, livres ou escravas. As mães, quando tinham posição social elevada, jamais faziam isso. Houve até filósofo que abordasse a questão, tentando mostrar que meninos destinados a liderar a sociedade nunca deveriam ser amamentados pelas próprias mães, pois tal contato com elas seria prejudicial à sua educação.
Diante dessa mentalidade, não deve surpreender a ninguém o fato de que, no Brasil, até boa parte do Século XIX, a amamentação de crianças livres fosse confiada a escravas. A Literatura está repleta de referências a esse costume. Veja-se este trecho, a título de exemplo, da obra As Vítimas-Algozes, de Joaquim Manuel de Macedo:
"Uma noite, por exemplo, levou o crioulo a conversar no terreiro da venda.
Depois de fácil ajuste para um de seus frequentes deboches em senzalas de escravas e sítios ocupados por gente depravada, o Barbudo perguntou:
– Simeão, donde diabo veio o favor que conseguiste de teus senhores? Olha que deveras eles te estimam!
– Minha mãe foi ama de leite da menina – respondeu o crioulo."
Ainda outro exemplo, também de Macedo, em Uma Pupila Rica:
"Não consentem que eu tenha uma amiga, nem que eu desça sozinha ao jardim, nem que saia uma vez de casa, ao menos para levarem-me à igreja: despediram a minha ama de leite que meu pai libertara com a condição de acompanhar-me até o meu casamento: enclausurada e suspeita, as criadas espiam-me..."
Ama de leite (*)
Em uma época na qual havia poucas ocupações socialmente aceitáveis para mulheres de condição livre, mas pobres, e que, portanto, precisavam ganhar o próprio sustento, ser ama de leite era uma solução, temporária, é verdade, mas à qual não poucas recorriam. Valendo-nos, mais uma vez, da Literatura, encontramos em O Cortiço, de Aluísio Azevedo, este trecho:
" - Olha! pediu ela, faze-me um filho, que eu preciso alugar-me de ama de leite... Agora estão pagando muito bem as amas! A Augusta Carne Mole, nesta ultima barriga, tomou conta de um pequeno aí na casa de uma família de tratamento, que lhe dava setenta mil reis por mês... E muito bom passadio!..."
Aos poucos, porém, sob influência do pensamento médico e com o fim da escravidão, as expectativas da sociedade iriam mudar. Por um lado, verificou-se que a amamentação era, de fato, muito importante para a saúde do bebê; por outro, passou-se a deplorar que, para isso, as tenras criancinhas fossem entregues aos cuidados de pessoas estranhas. Em nome da higiene e da necessidade, aquilo que se condenara, ou seja, que as mães de elevada posição social amamentassem seus pimpolhos, passou-se a recomendar como um dever sagrado e intransferível. A propaganda logo faria uso desse novo ideário, como, a seguir, constatarão os senhores leitores, através de dois anúncios que ilustram muito bem a questão.
Neste primeiro caso, o anúncio publicado na revista paulistana A Cigarra em dezembro de 1924 afirma sem rodeios o dever materno da amamentação, oferecendo um produto que "realiza este ideal":
 

Já neste outro anúncio, que apareceu em A Cigarra em janeiro de 1928, um outro produto é apresentado na suposição de que favoreceria a saúde das mães que amamentavam seus bebês:



(*) _______________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence ao acervo da BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Para quem quiser tirar o chapéu

Vez por outra, quando alguém faz algo notável, ouve-se a observação: "É de tirar o chapéu!..."
Mas que chapéu, se ninguém, ou quase ninguém mais usa chapéu, a não ser em raríssimas ocasiões, como cerimônias especiais ou em folias de carnaval? Acabou-se, já se vê, a história de tirar o chapéu, a título de cumprimento.
Era o ano de 1892, e Machado de Assis observou, em sua coluna "A Semana", no jornal carioca Gazeta de Notícias:
"...se a gente fosse a amar todas as pessoas a quem tem obrigação de tirar o chapéu, este mundo era vale de amores, em vez de ser um vale de lágrimas."
Podem rir, senhores leitores; agora, voltemos aos chapéus, que quase ninguém mais usa, ainda que, no passado, fossem coisa não apenas usual, mas indispensável. Portanto, os anúncios de chapéus de todos os tipos, destinados ao público masculino, eram frequentes nas revistas que então circulavam. Vão aqui dois exemplos, o primeiro deles publicado na revista paulistana A Vida Moderna (¹), no ano de 1907, e o segundo, que saiu na também paulistana A Cigarra (²), em agosto de 1915:



É certo que, sendo considerados indispensáveis no trajar masculino, os chapéus deviam receber alguns cuidados para sua perfeita conservação e limpeza, havendo, portanto, quem, para isso, oferecesse o produto ideal, ao menos segundo esta propaganda que apareceu na revista O Echo (³), no ano de 1916:


Ora, não eram apenas os homens que usavam chapéus quotidianamente. Meninos e senhoras respeitáveis também não saíam de casa sem eles, e os anúncios seguintes, impressos em A Cigarra (⁴), são uma lembrança dos costumes então vigentes:



Entretanto, em virtude das normas de etiqueta, aquela história de tirar o chapéu era, em geral, restrita a indivíduos do sexo masculino,  mesmo porque a mão de obra para remover, em público, verdadeiras edificações instaladas nas cabeças das senhoras seria excessiva...
Finalmente, para quem quiser ter uma ideia de quão indispensáveis eram os chapéus, vai aqui uma foto (⁵), datada de 1919, na qual se vê o público em uma partida de futebol. Como notarão os senhores leitores, estava toda a gente - eles e elas - com seus respectivos chapéus, completando a rebuscada indumentária, e isso em pleno verão paulistano. Tentem imaginar a mesma situação quase cem anos depois, em algum dos estádios durante a competição mundial de futebol recentemente encerrada. Sim, leitores, tirar o chapéu, só se for para esta postagem, não é mesmo? (⁶)



(1) Ano II, números 29 e 30, 25 de dezembro de 1907.
(2) 1º de agosto de 1915.
(3) Julho de 1916.
(4) Respectivamente, Ano II, nº 32 de 8 de dezembro de 1915 e Ano I, nº 4 de 6 de maio de 1914.
(5) A CIGARRA, Ano V, nº 106, 15 de fevereiro de 1919.
(6) Vê-se que, ao escrever esta postagem, a blogueira estava de bom humor.


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domingo, 21 de julho de 2013

O papel do cinema na formação de padrões de comportamento durante a República Velha

Bruzundanga, o país imaginário (ou nem tanto) do qual nos conta Lima Barreto, dava a seus presidentes o título de "Mandachuvas". Pois um Mandachuva era, quase sempre, um sujeito roceiro, mais preocupado com suas lavouras que integrado à cultura urbana da capital em que, como chefe de Estado e de Governo, devia viver. Assim é que um Mandachuva típico odiava deveres do ofício, tais como ir a concertos ou assistir a peças de teatro. Para ele, bom mesmo era o gramofone (que podia ouvir em casa) ou, quem sabe, ir ao cinema. Nada de peças cujo sentido não conseguia apreender: "As necessidades artísticas de sua natureza se cifram no gramofone doméstico e nos cinemas urbanos ou do arrabalde em que reside. Faz coleção dos programas destes últimos e, com eles, organiza a sua opulenta biblioteca literária." (¹)
Desnecessário é lembrar que, na crítica mordaz de Lima Barreto, retratava-se nada menos que o Brasil da República Velha. Mas seria inútil qualquer tentativa de ser convincente quanto às virtudes de uma representação teatral - ao vivo, por suposto - em oposição ao que, na época - se chamava de "cena muda". O nascente cinema caiu rapidamente no gosto da população brasileira e, com ele, vieram mudanças significativas no comportamento das pessoas.
Antes do cinema, o auge do luxo era a "última moda em Paris", que chegava ao Brasil com meses de atraso e, portanto, já não era a última de jeito nenhum. Agora, o padrão passava a ser o dos atores e atrizes dos Estados Unidos, e isso não apenas no vestuário, mas também nos penteados, nas maneiras, até nas estudadas expressões fisionômicas que o público adorava imitar. Bastava anunciar que esta ou aquela celebridade das telas usava o perfume X, o sabonete Y, o cigarro Z, este ou aquele cosmético, para que todo mundo que tivesse recursos para tanto, corresse a comprar tais coisas, na esperança de tornar-se mais parecido ou parecida com seu herói ou heroína do cinema. As atrizes apareciam de cabelos curtos? Então os cabeleireiros tinham serviço, não importando o quanto os novos cortes escandalizassem os mais conservadores. Valia a mesma regra para o vestuário ou para qualquer outra coisa que tivesse a mínima possibilidade de tornar alguém semelhante às novas estrelas cinematográficas.
Em vão a crítica censurou a mania de copiar costumes estrangeiros - de resto, isso sempre havia acontecido. Era evidente uma certa disposição para mudanças, o que acabou por refletir-se até na vida política (²). O fato é que, qual uma onda gigantesca, os novos ícones do capitalismo, propostos sutil mas persistentemente nos cinemas (ainda que não só neles), invadiram a vida de gente comum, nas ruas e nos lares, estabelecendo paradigmas substancialmente diversos dos que haviam imperado até então. Para bem e/ou para mau? Eis aí uma coisa que pode dar a você o que pensar, leitor.
Para se ter uma ideia de como as "novidades" eram percebidas nos anos vinte, sob uma perspectiva algo conservadora, veja abaixo dois cartuns de Belmonte, que apareceram na revista paulistana A Cigarra:

Cabelos e roupas curtíssimos, de evidente inspiração nos novos modelos propostos pelo cinema (³)

Cabelos curtos para elas, nem tanto para eles... (⁴)

(1) BARRETO, Afonso Henriques de Lima. Os Bruzundangas.
(2) Cabe aqui uma consideração de não pouca importância. Era inevitável que a sociedade, assim predisposta a aceitar ou pelo menos a tolerar  novos padrões de comportamento se tornasse mais questionadora, mais consciente de que direitos civis não deviam ser apenas um enfeite na Constituição e acabasse rumando para novas tendências políticas, que culminaram com a supressão da hegemonia cafeeira, que já durava várias décadas, até porque a grande crise econômica que afetou o mundo no final da década de vinte deu uma contribuição relevante para isso. Não por acaso, os anos vinte foram tempos de grande agitação, com uma sequência de revoltas militares (o "Tenentismo") ou a proposição de novos parâmetros culturais (a Semana de Arte Moderna de 1922, por exemplo). Por outro lado, não se pode esquecer que todas as mencionadas transformações, por razões bastante evidentes, afetavam muito mais os centros urbanos, do que a população do Brasil rural, que ainda predominava.
(3) A CIGARRA, nº 209, Ano 11, 1º de junho de 1923.
(4) Ibid., nº 240, Ano 13, 1º de novembro de 1924.


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terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sete de setembro de 1922 - As comemorações do centenário da Independência não eram para todos...

Festejos no Monumento do Ipiranga em 7 de setembro de 1922 (*)

Comemorações de datas nacionais são, usualmente, mais ou menos semelhantes em muitos lugares: desfiles militares, acompanhados de bandas de música, bandeiras, talvez a inauguração de um monumento, sempre muita gente pelas ruas e praças para assistir a tudo. Em São Paulo, no ano de 1922, centenário da Independência do Brasil, foi mais ou menos isso o que ocorreu, pelo que se vê nas páginas da edição especial publicada pela revista A Cigarra (Ano X, nº 193, 1º de outubro de 1922). Houve desfile de tropas do Exército e da Força Pública na Avenida Paulista, missa campal (a Catedral da Sé estava em construção), cerimônia no Monumento do Ipiranga.

Desfile de tropas do Exército e da Força Pública de São Paulo na Avenida Paulista
em 7 de setembro de 1922 (*)
Embora a capital do Brasil fosse, na época, o Rio de Janeiro, as comemorações do centenário tiveram em São Paulo um grande destaque porque foi nela que, oficialmente, a Independência foi proclamada pelo príncipe D. Pedro.

Público presente às comemorações no Monumento do Ipiranga em
7 de setembro de 1922 (*)
Presume-se que, com tantos preparativos, muita gente tenha aguardado os festejos com grande expectativa, principalmente as crianças. Entretanto, na mesma edição já citada de A Cigarra apareceu este cartoon, que é, no mínimo, bastante revelador sobre o que se considerava, naquele tempo, uma família "comum", sobre quem tomava as decisões, sobre o que se considerava, "independência" pessoal, e quem, no fim das contas, podia tê-la ou não. Ou seja, é possível que esse cartoon estivesse a revelar mais sobre o Brasil "de verdade" do que as pomposas cerimônias oficiais planejadas para a data. Veja por si mesmo, leitor, e tire suas conclusões.


(*) A CIGARRA, Ano X, nº 193, 1º de outubro de 1922.


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terça-feira, 31 de julho de 2012

Anúncios curiosos das primeiras décadas do Século XX - Parte 11

Teriam os pequenos brasileiros que se divertiam com o jogo "A Caminho de Berlin" alguma noção da realidade da guerra na Europa, aquela que seus pais chamavam de "A Grande Guerra" e à qual nós nos referimos como "Primeira Guerra Mundial"?
Anunciado (*) como "A Guerra em Família", esse joguinho nada pacifista tinha a seguinte regra básica:
"Imagine-se que cada jogador dispõe, no começo da partida, de 550 homens e, se a bola no percurso para Berlin cair num dos orifícios que nele se encontram, o jogador perderá o número de homens marcado nesse orifício. O jogador que chegar a Berlin com maior número de homens ganhará a partida."
O anúncio em questão foi publicado em setembro de 1917, enquanto o conflito armado persistiu por ainda mais de um ano. Quando finalmente acabou, a Gripe Espanhola, em seu rastro, já se espalhara pelo mundo, chegara ao Brasil e nunca saberemos quantos dos inocentes jogadores de "A Caminho de Berlin" terão sido atingidos pela pandemia. Seria, em todo o caso, um modo amargo de compreender que as guerras, grandes ou pequenas, não são brincadeiras de crianças.

(*) A CIGARRA, 8 de setembro de 1917.


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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Superlotação hospitalar, um problema muito antigo

Basta correr os olhos pelos jornais, é quase todo dia a mesma coisa: um bebê que morre por não haver UTI neonatal disponível, um idoso que acaba morrendo na entrada do hospital, sem receber qualquer atendimento, gente espalhada em macas nos corredores das unidades hospitalares por falta de leitos, médicos e outros profissionais da saúde sobrecarregados com longas jornadas de trabalho e um número de pacientes a atender muito acima do razoável.
Novidade? Nenhuma. Exclusividade dos nossos dias? Não! A foto abaixo (*) é de 1914. Diz a legenda original: "Santa Casa - Interior de uma das enfermarias do importante estabelecimento de caridade, onde existe tal acumulação de doentes, que estes são estendidos pelo chão, nos intervalos dos leitos."


Sem muitas palavras mais, uma observação importante: Os grandes problemas cuja solução é de interesse público, se não resolvidos, ficam sempre maiores à medida que a população aumenta. E como poderia ser diferente?

(*) A CIGARRA, 6 de maio de 1914.


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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O Dia de Finados como evento social

"- Talvez fosse ao cemitério. Muitas sepulturas bonitas?
- Bastantes; entre elas a do marido de Fidélia. As coroas e flores que ela encomendou há dias lá estavam [...] e faziam grande efeito; parece que o desembargador mandou também o seu ramo; estava escrito numa fita."
                                                                                              Machado de Assis, Memorial de Aires

Anúncio na revista
A Cigarra, 24 de agosto
de 1915
Por seu caráter de celebração lutuosa (*), o Dia de Finados, 2 de novembro, deveria ser, para quem o tem em alguma conta, data de recolhimento e, em algumas tradições religiosas, tempo para preces, pelos mortos e pelos vivos. Deveria.
Acontece que, à medida que cemitérios públicos se estabeleciam, ter um túmulo bem conservado, de certa pompa, como uma espécie de monumento de família, tornou-se um fator de distinção social (veja postagem anterior). Por isso, era preciso, com a devida antecedência, prover a manutenção do jazigo e, na data apropriada, cercá-lo de flores que, acompanhadas do ostensivo comparecimento da gens ao cemitério, atestasse diante da sociedade o respeito e consideração em que se tinham os mortos, acarretando, naturalmente, uma boa reputação aos vivos... Acrescente-se ainda que os devotos que piedosamente rezavam diante dos túmulos deviam estar dignamente trajados e bem visíveis ao público, e ter-se-á algo da dimensão que uma data como Finados podia assumir, quer em centros maiores, com seus vastos cemitérios, quer em pequenas comunidades, nas quais, talvez com muito maior intensidade, os hábitos e costumes da população fossem bem vigiados, pelos informais mas não menos eficientes olhos da chamada opinião pública. Não estou dizendo que não houvesse ou que não há verdadeiro sentimento de luto e perda por parte dos que iam ou vão visitar os túmulos de seus familiares nos cemitérios - apenas aponto o fato de que essa não é e nem nunca foi a única dimensão. Lembremo-nos, por exemplo, do culto aos lares em Roma!

(*) É assim no Brasil. Há lugares nos quais o Dia dos Mortos é uma data festiva, na qual as pessoas celebram a vida, enquanto a têm.

Fotos do Dia de Finados na revista paulistana A Cigarra, edição de
9 de novembro de 1916

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terça-feira, 4 de outubro de 2011

A persistência da mentalidade escravista no Brasil após a Abolição - Parte 2

Concluindo o assunto iniciado na postagem anterior, veremos aqui as duas últimas imagens associadas à persistência da mentalidade escravista no Brasil, mesmo após a abolição do trabalho escravo. Diria, mesmo após muito tempo da abolição, já que essas duas imagens são, respectivamente, de 1919 e 1916, ambas publicadas na revista paulistana A Cigarra.

Imagem 1


Chega a ser repugnante fazer comentários, mas vale observar nesta propaganda, que apareceu na edição de 1º de dezembro de 1919 e em diversas edições posteriores, o detalhe da "reprodução da fala" do "moleque Benjamin". Note, a edição é de 1919, não um ou dois, porém mais de trinta anos após a Abolição.

Imagem 2 


Finalmente, para "coroar" esse capítulo absolutamente inglório da História do Brasil, esta imagem que foi capa de A Cigarra, edição da segunda quinzena de junho de 1926. Diz a Legenda: "Quando a patroa sai..."
Leitor, considerei aqui apenas umas poucas imagens que apareceram em uma única publicação. Quem convive com a realidade brasileira por certo não terá muita dificuldade em lembrar-se de trechos de músicas, de obras literárias e de outros cartuns que seguiam a mesma linha. O fato de que tudo isso não costumava gerar quaisquer protestos dá bem a ideia de quanto a mentalidade escravista ainda prevalecia, décadas após a abolição. Consegue identificar alguma coisa na mesma linha ainda hoje?

***

Sei que é perfeitamente possível que haja alguém, dentre meus leitores, que não concorde com a divulgação das imagens contidas nesta postagem e na anterior. A este leitor ou leitora gostaria de expor meu ponto de vista: as jovens gerações somente aprenderão a reconhecer o que há de abominável na apropriação do trabalho e até da própria existência de seres humanos por outros humanos, o que há de nojento nas manifestações racistas, se puderem estudar e conhecer o que ocorreu no passado. Não se trata, evidentemente, de nenhum "julgamento da História", como querem alguns, mas da convicção de que apenas quando se pode estudar livremente também é possível, com igual liberdade, reconhecer o que há de errado e o que deve ser mudado, a bem do ideal de uma sociedade verdadeiramente democrática, com iguais direitos, obrigações e oportunidades para todos os cidadãos.


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domingo, 2 de outubro de 2011

A persistência da mentalidade escravista no Brasil após a Abolição - Parte 1

A escravidão - ensina-se aos escolares - foi, no Brasil, abolida "por etapas": primeiro a abolição do tráfico de africanos com a Lei Eusébio de Queirós, depois a condição livre para os filhos das escravas com a Lei do Ventre Livre, então a liberdade dos escravos idosos com a estapafúrdia Lei dos Sexagenários e, finalmente, a abolição total do sistema escravista com a Lei Áurea. O que poucas vezes se ensina é que, abolida formalmente a escravidão, a mentalidade escravista continuou a existir, seja nas relações sociais, na imagem do negro que se divulgava na imprensa, na música, na literatura e nas artes em geral, ou ainda nas regras não explícitas mas nem por isso menos compreendidas que regiam o mercado de trabalho em fins do século XIX e início do século XX.
Para ilustrar essa questão, selecionei quatro imagens que apareceram na revista paulistana A Cigarra. Os leitores não terão, por certo, dificuldades em identificar como a mentalidade escravista nelas sobrevive, século XX adentro. Chegam a ser chocantes, mas talvez fossem menos se em nossos dias tais coisas houvessem desaparecido por completo. Infelizmente, não é o caso.
As duas primeiras imagens estão logo abaixo. As duas últimas virão na próxima postagem.

Imagem 1


O cartum acima foi publicado na edição de 6 de março de 1914. Nessa época, Wenceslau Brás era vice-presidente (a presidência era então ocupada pelo Marechal Hermes da Fonseca), mas logo depois seria presidente da República, com mandato de novembro de 1914 a novembro de 1918. A legenda diz: "Como hoje se trata um pequeno que é parente de um quase parente do Wenceslau Brás".

Imagem 2


Este segundo cartum, publicado em 30 de março do mesmo ano de 1914, é daqueles que chegam a tornar doloroso o trabalho do historiador. A referência é à Lei Rivadávia Corrêa, de 1911, uma reforma do ensino que tinha a pretensão de dar a mais ampla liberdade às instituições escolares, de modo que até a frequência às aulas tornava-se facultativa - aliás uma evidência de que ideias cabeludas quanto à educação não são absolutamente novidade. Não seria nenhum absurdo criticar a tal Lei como verdadeira "fábrica de diplomas", não fora o fato de que a crítica introduzia um escandaloso elemento de preconceito racial. O maior problema, no entanto, é que ninguém notava - parecia, para a maioria das pessoas, até muito "natural"!


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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Os esportes no Brasil do Século XIX e início do Século XX - Parte 4


Regatas em Santos, A Cigarra,
15 de junho de 1914.
Compreende-se facilmente que em um país com vastíssimo litoral como é o Brasil, as regatas já tenham ocupado uma posição de destaque entre os esportes. Para dizer a verdade, chega a surpreender que não alcancem hoje tanta importância quanto tiveram no passado. Embora não se possa relacionar a canoagem indígena à prática essencialmente esportiva, sendo antes uma habilidade de caráter prático, vem a ser proverbial a facilidade que tinham os indígenas do século XVI em remar suas canoas a grande velocidade, o que lhes dava uma vantagem extra quando em confronto com tribos inimigas.
Como esportes, o remo e a canoagem despertaram muito interesse do público, isso desde os anos que precederam a virada do século até às décadas de 1920 e 1930. Não é, pois, estranho, que muitos clubes brasileiros, nos quais hoje o futebol é hoje a atividade mais importante, conservem ainda nomes do tipo "Clube de Regatas..." ou "Sociedade de Regatas...".

Canoa a quatro remos construída nas oficinas do "Club Esperia",
A Cigarra, 31 de outubro de 1917.
À semelhança de muitos outros esportes, nesse caso também a influência britânica foi marcante. As regatas aconteciam no mar, embora rios como o Tietê (pode acreditar!) também fossem palco de competições que atraíam vasta assistência e despertavam as paixões dos torcedores, com o mesmo ímpeto que hoje observamos em outras modalidades.
Ora, não se pode negar que, em uma época na qual as polêmicas sobre a relevância dos esportes eram acaloradas, havia também quem, desdenhando o interesse dos torcedores, olhasse com azedume para as regatas. Para que meus leitores tenham um exemplo disso, vai aqui um trechinho curioso, escrito por Lima Barreto:
"O segundo filho não quisera ir além do curso primário.
Empregara-se logo em um escritório comercial, fizera-se remador de um clube de regatas, ganhava bem e andava pelas tolas festas domingueiras de esporte, com umas calças sungadas pelas canelas e um canotier muito limpo, tendo na fita uma bandeirinha idiota." (*)
Já se vê que o escritor não era adepto da modalidade, não é?

(*) LIMA BARRETO. A Biblioteca, in Histórias e Sonhos.


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