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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Um lugar para o treinamento de ciclistas no final do Século XIX

"Ponho de lado igualmente as corridas de bicicletas e velocípedes, por serem recentes, o que não quer dizer que não tenham graça."
Machado de Assis, Gazeta de Notícias, 29 de março de 1896

Em parte por influência estrangeira, em  fins do Século XIX crescia o interesse por esportes no Brasil. Havia controvérsias, no entanto, não faltando quem achasse que exercícios atléticos, qualquer que fosse a modalidade, não passavam de um modismo ou perda de tempo para desviar a juventude, e mesmo os de mais idade, de ocupações reputadas, então, mais nobres e cerebrais. O partido oposto se desdobrava em argumentos a favor dos esportes como promotores da saúde e do desenvolvimento físico, qualidades desejáveis em bons cidadãos para a República que o Brasil, há pouco, se tornara.
Com tal cenário, não é difícil imaginar que os apaixonados por algum esporte enfrentavam problemas para encontrar lugar adequado às suas atividades. Ciclistas, por exemplo: onde treinar, sem atrapalhar o trânsito ou colocar em risco a segurança dos pacatos caminhantes? Parece-me que, nesse tempo, a maioria das pessoas olhava para as bicyclettes, mais ou menos menos como nós olharíamos, hoje, na hipótese da aparição de alguma bike voadora...
De acordo com o jornal Semana Sportiva, na edição de 18 de novembro de 1899 (¹), ciclistas do Rio de Janeiro, capital do Brasil na época, que gostavam de pedalar na Praça da República, enfrentavam restrições quanto ao horário para suas práticas. Dizia o jornal: 
Na edição de 18 de novembro de 1899,
o jornal Semana Sportiva protestava
contra as restrições aos ciclistas (²)
"Ainda está vigorando o edital mandando que seja permitido o ingresso de ciclistas no jardim da praça da República somente das 11 horas da manhã às 4 da tarde.
Reconhecido o inconveniente dessa ordem, expedida em virtude de abusos cometidos por alguns ciclistas sem critério, estamos certos de que o ilustre diretor geral dos jardins públicos, Sr. Dr. Júlio Furtado, espírito culto e cordato como é, a revogará, pois é sabido que o parque da praça da República é hoje o único ponto do centro desta capital onde se pode fazer o salutar e higiênico exercício do pedal, tão preconizado e aceito em todo o mundo civilizado." (³)
Não era implicância a recusa do horário oferecido (ainda que, como já visto, o jornal reconhecesse que havia alguns ciclistas de comportamento inadequado). É que das 11 às 16 horas os atletas amadores estavam, com toda certeza, cada um em seu respectivo local de trabalho ou estudo, conforme a Semana Sportiva iria ainda lembrar: "A limitação, como está feita, equivale quase a uma interdição, pois das 11 às 4 horas só os desocupados poderão aproveitar-se da licença, e é considerável o número de cavalheiros distintos que usam a bicyclette e têm ocupações nesse interregno."
Observem, leitores, que as palavras do jornal mostram que bicicletas, nesse tempo, não eram ainda vistas como um meio de transporte, e, ao que parece, não passaria pela cabeça de quase ninguém a ideia de ir ao trabalho pedalando. O correr do tempo se encarregaria de trazer mudanças: hoje é sugerido o uso de bicicletas para desafogar o trânsito caótico gerado por automóveis nas cidades.

(1) Ano XI, nº 360.
(2) O original pertence à BNDigital. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Essa afirmação é facilmente compreensível no contexto do Brasil que se desejava na época. Na prática, o recado seria este: se queremos ser civilizados, precisamos admitir as bicicletas. Está dada a licença para o riso, leitores!


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Boxe!

Desconheço, leitores, a existência de algum modo meigo de narrar uma luta de boxe. Porém, nesta descrição, que apareceu na revista paulistana A Cigarra em 15 de janeiro de 1924, o cronista esportivo arranhou o extremo da crueza, em uma legenda que vai aqui transcrita exatamente como foi publicada: 
"O campeão brasileiro Benedicto levado em triumpho pela multidão após o seu encontro de box, nesta capital (¹), contra o campeão tcheque-sloveno Frank Rose, a quem bateu, applicando-lhe um fortíssimo e magistral "cross" acima da sobrancelha esquerda em direcção à fronte, produzindo-lhe profunda ferida e atirando-o sobre o tapete." (²)

Na foto publicada em A Cigarra, o pugilista Benedicto é aclamado por uma multidão,
após derrotar seu oponente (¹)

No Brasil desse tempo, o boxe, assim como outros esportes, ainda engatinhava. Contudo, a foto permite a inferência de que era, já, capaz de despertar interesse de um público considerável. 

(1) São Paulo.
(2) A CIGARRA, Ano XII, nº 224, 15 de janeiro de 1924.
(3) Ibid. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Bicicletas faziam muito sucesso em fins do Século XIX

Aperfeiçoadas ao longo do Século XIX (¹), as bicicletas começaram a fazer muito sucesso desde que a elas foram adicionados pedais. Hoje eles podem parecer óbvios, mas os primeiros veículos de duas rodas não tinham esses acessórios. 
Pois bem, pelos fins do Século XIX as bicicletas eram moda no Brasil, tanto para passeio como para competições, que atraíam os mais arrojados. E, para que os interessados tivessem bicicletas, devia haver quem as vendesse. Vejam este anúncio, publicado no jornal carioca Semana Sportiva (²) em 1899: 


Notem, leitores, que o veículo era referido pelo nome em francês, uma mania do Brasil na época. Mais intrigante, porém, é o traje da dama ao lado da bicicleta: tenho dificuldade em imaginar como era possível pedalar com um vestido desses. É que no Brasil as roupas longas (e dispendiosas) ainda eram usuais, a despeito  do clima, que insistia em recomendar outra coisa. A influência americana nesse sentido demoraria um pouco a pegar (³).
Já este outro anúncio, publicado no mesmo jornal (²), oferecia não só serviços de manutenção para aqueles que tivessem bicyclettes (coisa necessária, reconheçamos), como alugava algumas por hora e por dia, solução conveniente para quem não pudesse ou não quisesse comprar uma delas: 



(2) SEMANA SPORTIVA, Ano X, nº 355, 14 de outubro de 1899. O original pertence à BNDigital; as imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog. 
(3) Mas pegou, principalmente a partir do advento do cinema. As modas lançadas por atores e atrizes logo passaram a ditar comportamentos, em lugar dos velhos costumes supostamente atrelados à moral e/ou à tradição, em detrimento da higiene e da saúde.


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terça-feira, 12 de julho de 2011

Esportes do passado e do futuro

Os esportes cedo demonstraram
seu 
potencial na propaganda. (¹)
Que me perdoem os que pensam diferente, mas acho que os esportes também estão sujeitos aos caprichos da moda. Tente imaginar, leitor, um mundo sem futebol - pode parecer impossível, mas já foi assim e poderá perfeitamente vir a ser novamente - quem é que pode adivinhar?
Se procurarmos no passado, encontraremos diversas modalidades das quais quase ninguém mais se recorda, enquanto outras, reputadas outrora como menos nobres, ocupam agora uma parte considerável dos cadernos esportivos dos jornais e revistas especializados. Ainda que alguém julgue tudo isso cultura inútil, é interessante saber que já houve, por exemplo, competições de salto em distância sem impulso (o atleta não corria para saltar) e salto em distância com pesos (esse os gregos apreciavam: o atleta carregava um peso em cada mão ao realizar o salto), modalidades que quase ninguém mais pratica, a não ser como parte do treinamento de algum outro esporte. A cada olimpíada, vemos esportes sendo testados e, se alguns permanecem, outros já não retornam na competição seguinte.
Por outro lado, mesmo modalidades mais duradouras passam por mudanças substanciais nas regras ao longo do tempo, de modo que praticantes de cem anos atrás talvez tivessem dificuldade em reconhecer os esportes que amavam se os vissem como são realizados hoje (e nem precisamos ir tão longe, basta comparar o voleibol de uns vinte anos atrás ao que se joga atualmente). 
Consideremos, também, as modificações introduzidas à medida que a indústria aperfeiçoa e desenvolve os materiais específicos de cada atividade esportiva. Para nós, que só conhecemos as raquetes de tênis de alta tecnologia, torna-se quase impossível disputar uma partida com as antigas raquetes de madeira, aliás nem tão antigas assim. Que dizer então da evolução pela qual passaram as chuteiras e bolas de futebol?
É nesse sentido que cabe bem a reflexão de que nossas maiores paixões esportivas, como atletas e/ou como torcedores, podem perder o encanto no futuro, como outras do passado já não significam nada para nós. Assinale-se ainda que nossas preferências estão profundamente ligadas à cultura e aos valores da época em que vivemos. O esporte, afinal, não é, ao menos nesse aspecto, muito diferente de outras facetas da história da humanidade.

(1) A CIGARRA, 15 de dezembro de 1924.

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domingo, 10 de julho de 2011

Os esportes no Brasil do Século XIX e início do Século XX - Parte 5

"O voltarete, o dominó e o whist são remédios aprovados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silêncio, que é a forma mais acentuada da circunspecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da ginástica, embora elas façam repousar o cérebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a atividade perdidas. O bilhar é excelente."
                                                                            Machado de Assis, Teoria do Medalhão, 1882

Atletas do Club Internacional de Regatas 
(Santos - SP) (¹)
No início desta série mencionei o fato de que a questão da prática de esportes suscitava uma certa polêmica em fins do século XIX e início do século XX, e o exemplo citado (sobre as regatas) na postagem anterior é bem ilustrativo da posição de quem se opunha ao dispêndio de tempo em competições.
É bom lembrar que esse debate estava inserido no panorama mais amplo da formação de uma identidade nacional e da instrução para a cidadania, incluindo-se aí a questão da obrigatoriedade universal ao serviço militar. Nossa jovem República via sua intelectualidade oscilar entre os que, a exemplo dos antigos gregos, criam que o esporte fazia bons cidadãos e bons soldados, e aqueles que julgavam tudo isso resultado de influência estrangeira, que impedia o surgimento de uma mentalidade autenticamente nacional.
O escritor Coelho Neto, nos primeiros anos do século XX, foi um dos grandes defensores das atividades esportivas como instrumento para educação dos jovens. Dou-lhe a palavra, para que meus leitores conheçam, por si mesmos, quais eram, à época, os argumentos desse partidário dos esportes:
Grupo de tenistas, revista A Cigarra
edição de 25 de maio de 1914
"Felizmente parece que a mocidade já se vai insurgindo contra o regime desmoralizador. Coalha-se o mar de embarcações esguias que disputam a carreira na arena verde e móbil; corpos arrojam-se ao encontro da vaga e lá vão por ela às braçadas rijas, ora levantados nas cristas espumantes, ora desaparecendo nos sulcos; as bicicletas afrontam os andurriais, trepam às serras, descem aos vales, atravessam florestas em viagens longas, de Estado a Estado; a pela elástica parte como uma bala da cesta dos fundibulários ; cruzam-se floretes e sabres em punhos de esgrimistas; turmas flanqueiam as paralelas, correm outras ao lawn-tennis. Ali é um trapézio que oscila, além é um corpo que volteia na barra; mais longe vai o ginete sorvendo o ar dos prados frescos, levando um cavaleiro louro e moço e no campo, sobre a erva rasa, correm os teams, disputando a bola que bate, salta e voa perseguida, indo dum a outro, repelida, em ânsia desensofrida de vitória que dá à face dos lutadores a cor alegre e formosa da saúde. É exercitando-se nesses jogos enérgicos que o homem aprende a vencer na vida. O hoplita dançava a pírrica sob o peso derreante das armas." (²)

(1) A CIGARRA, 1º de dezembro de 1919; pela ordem, Minhoca, Coruja, Sabiá, Xereta e Chops. Está aqui um bom exemplo do hábito bem brasileiro (ainda que não exclusivamente) de dar apelidos aos atletas.
(2) COELHO NETO,  A Bico de Pena (1902-1903).



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quinta-feira, 7 de julho de 2011

Os esportes no Brasil do Século XIX e início do Século XX - Parte 4


Regatas em Santos, A Cigarra,
15 de junho de 1914.
Compreende-se facilmente que em um país com vastíssimo litoral como é o Brasil, as regatas já tenham ocupado uma posição de destaque entre os esportes. Para dizer a verdade, chega a surpreender que não alcancem hoje tanta importância quanto tiveram no passado. Embora não se possa relacionar a canoagem indígena à prática essencialmente esportiva, sendo antes uma habilidade de caráter prático, vem a ser proverbial a facilidade que tinham os indígenas do século XVI em remar suas canoas a grande velocidade, o que lhes dava uma vantagem extra quando em confronto com tribos inimigas.
Como esportes, o remo e a canoagem despertaram muito interesse do público, isso desde os anos que precederam a virada do século até às décadas de 1920 e 1930. Não é, pois, estranho, que muitos clubes brasileiros, nos quais hoje o futebol é hoje a atividade mais importante, conservem ainda nomes do tipo "Clube de Regatas..." ou "Sociedade de Regatas...".

Canoa a quatro remos construída nas oficinas do "Club Esperia",
A Cigarra, 31 de outubro de 1917.
À semelhança de muitos outros esportes, nesse caso também a influência britânica foi marcante. As regatas aconteciam no mar, embora rios como o Tietê (pode acreditar!) também fossem palco de competições que atraíam vasta assistência e despertavam as paixões dos torcedores, com o mesmo ímpeto que hoje observamos em outras modalidades.
Ora, não se pode negar que, em uma época na qual as polêmicas sobre a relevância dos esportes eram acaloradas, havia também quem, desdenhando o interesse dos torcedores, olhasse com azedume para as regatas. Para que meus leitores tenham um exemplo disso, vai aqui um trechinho curioso, escrito por Lima Barreto:
"O segundo filho não quisera ir além do curso primário.
Empregara-se logo em um escritório comercial, fizera-se remador de um clube de regatas, ganhava bem e andava pelas tolas festas domingueiras de esporte, com umas calças sungadas pelas canelas e um canotier muito limpo, tendo na fita uma bandeirinha idiota." (*)
Já se vê que o escritor não era adepto da modalidade, não é?

(*) LIMA BARRETO. A Biblioteca, in Histórias e Sonhos.


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terça-feira, 5 de julho de 2011

Os esportes no Brasil do Século XIX e início do Século XX - Parte 3

Dentro do universo de personagens da obra de Machado de Assis, Escobar não é o único nadador, mas é, de longe, o mais famoso:
" — Você entra no mar amanhã?
— Tenho entrado com mares maiores, muito maiores. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. É preciso nadar bem, como eu, e ter estes pulmões, disse ele batendo no peito, e estes braços; apalpa.
Apalpei-lhe os braços, como se fossem os de Sancha. Custa-me esta confissão, mas não posso suprimi-la; era jarretar a verdade. Não só os apalpei com essa ideia, mas ainda senti outra coisa; achei-os mais grossos e fortes que os meus, e tive-lhes inveja; acresce que sabiam nadar." (*)
Deixemos, por hora, Escobar, Bentinho, Sancha, Capitu - a natação é o que nos interessa, já que sempre foi, dentre os esportes aplicados à educação da juventude, um dos mais valorizados, pois nenhuma mente sensata haveria de negar sua utilidade prática, desde que o nadador não desafiasse mares encapelados.
Há algum tempo escrevi uma postagem sobre trajes de banho de antigamente. Vão aqui mais algumas imagens bastante elucidativas sobre o mesmo tema.
A primeira delas, que apareceu em O Malho, publicação carioca de 16 de dezembro de 1922, mostra vários campeões em provas de natação. Fortes, atléticos, olhar determinado, esses jovens se parecem muito com os nadadores atuais, a não ser pelos trajes de banho (ainda que lembrem, remotamente, os maiôs tecnológicos há pouco proibidos em competições oficiais, que ajudaram muita gente a obter tempos excelentes em suas provas.


Já a segunda foto, leitor... Apareceu em A Cigarra, edição de 29 de agosto de 1914, e retrata, nem mais e nem menos, que um grupo de banhistas no Guarujá. A data está absolutamente correta, não era carnaval, não! Em se tratando de modelitos para banho, temos aqui, a meu ver, um grupo recordista.


(*) MACHADO DE ASSIS.  Dom Casmurro.


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domingo, 3 de julho de 2011

Os esportes no Brasil do Século XIX e início do Século XX - Parte 2

"Ainda bem que a ginástica já entra seriamente no sistema de educação pública, e na província do Rio de Janeiro adotou-se até a ginástica apropriada para o sexo feminino na escola normal. Declaro em defesa prévia que não acabo de fazer censura, nem epigrama. Eu reconheço a conveniência e aplaudo a aplicação do ensino da ginástica."
                                              Joaquim Manuel de Macedo, Memórias da Rua do Ouvidor

"Leandro foi sempre um rapaz bem equilibrado: coração generoso, caráter sério, inteligência regular, sobriedade nos costumes e tino para arranjar a vida. Do nosso grupo era ele o mais moço e também o mais forte e bem apessoado. Tinha excelente educação física, adquirida num colégio da Inglaterra; conhecimento perfeito da esgrima e jogos de exercício; destreza na montaria e plena confiança nos seus músculos."
                                                                                             Aluísio Azevedo, Livro de Uma Sogra

A ginástica, ainda que com um aspecto quase militar (isso soa a algo conhecido?), esteve entre as primeiras atividades físicas que conseguiram estabelecer-se no currículo de algumas escolas brasileiras ao longo do século XIX, devido à influência de práticas adotadas na Inglaterra, Alemanha, França e Estados Unidos. Sabemos, por exemplo, os nomes de alguns professores que a lecionavam no Imperial Colégio Pedro II, segundo nos conta Joaquim Manuel de Macedo:
"Têm ensinado ginástica os Srs. Guilherme Luís de Taube, Frederico Hoppe, Antônio Francisco da Gama e Pedro Guilherme Mayer; e dança, os srs. João José da Rocha, que a ensina ainda no internato, e Júlio Toussain, que a ensina no externato." (¹)
Quem é que não se recorda daquele trecho absolutamente legendário de O Ateneu, no qual Raul Pompeia descreve a "Festa da Ginástica"? Transcrevo apenas uma parte, que ilustra muito bem o papel importante que essa atividade ganhou na educação de rapazes ao longo do século XIX:
Demonstração de Ginástica Rítmica
para moças, Rio de Janeiro, 1923. (³)
"Acabadas as evoluções, apresentaram-se os exercícios. Músculos do braço, músculos do tronco, tendões dos jarretes, a teoria toda do corpore sano foi praticada valentemente ali, precisamente, com a simultaneidade exata das extensas máquinas. Houve após, o assalto aos aparelhos. Os aparelhos alinhavam-se a uma banda do campo, a começar do palanque da Regente. Não posso dar ideia do deslumbramento que me ficou desta parte. Uma desordem de contorções, deslocadas e atrevidas; uma vertigem de volteios à barra fixa, temeridades acrobáticas ao trapézio, às perchas, às cordas, às escadas; pirâmides humanas sobre as paralelas, deformando-se para os lados em curvas de braços e ostentações vigorosas de tórax; formas de estatuária viva, trêmulas de esforço, deixando adivinhar de longe o estalido dos ossos desarticulados; posturas de transfiguração sobre invisível apoio; aqui e ali uma cabecinha loura, cabelos em desordem cacheados à testa, um rosto injetado pela inversão do corpo, lábios entreabertos ofegando, olhos semicerrados para escapar à areia dos sapatos, costas de suor, colando a blusa em pasta, gorros sem dono que caíam do alto e juncavam a terra; movimento, entusiasmo por toda a parte e a soalheira, branca nos uniformes, queimando os últimos fogos da glória diurna sobre aquele triunfo espetaculoso da saúde, da força, da mocidade." (²)
Gradualmente, com muitas precauções e, sem dúvida, com um pouco de discórdia, foram introduzidas aulas de ginástica também para moças. Não os mesmos exercícios dos rapazes, já que a prática da época era fugir de qualquer semelhança na educação de meninos e meninas, mas outros compatíveis com a suposta "fragilidade" das educandas. Aos poucos, a resistência foi sendo vencida e até o glorioso Barão Pierre de Coubertin teve de engolir mulheres nas suas amadas Olimpíadas. Ainda que tardiamente, as meninas brasileiras puderam ter aulas de Educação Física menos entediantes. Mas demorou!

(1) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro.
(2) A "Regente" a que o texto se refere é, naturalmente, a Princesa Isabel.
(3) PARA TODOS, 24 de novembro de 1923.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Os esportes no Brasil do Século XIX e início do Século XX - Parte 1

Em tempos remotos, atividades que hoje classificaríamos como "esportivas" eram, frequentemente, desenvolvidas mais pelo aspecto militar que pelo recreativo, ainda que este último não fosse descartado. Afinal, lançar dardos, cavalgar, lutar, saltar, correr velozmente, eram habilidades que contribuíam com eficácia para a formação de bons soldados. Eventualmente, como no caso da Antiga Grécia, os desportos tinham também um aspecto religioso - as competições realizavam-se em honra dos deuses, o que acabava sendo uma razão a mais para lutar até o limite das forças.
Bem diversos eram os combates de gladiadores nos circos romanos. Se um atleta grego competia pela honra dos deuses, de sua cidade e de si mesmo, os gladiadores já não tinham essa opção - não eram livres, mas escravos, e escravos obrigados a lutar até a morte. Nesse sentido, eram, sim, atletas, mas não desportistas, como hoje o entendemos.
Como tudo passa, passaram os Jogos Olímpicos, Panatenaicos, Ístmicos, e outros mais. Passaram também as lutas de gladiadores em Roma. Deles restaram apenas lembranças, particularmente nas esculturas que ainda assombram o mundo pela beleza e perfeição das formas, aliadas à certeza de que tais obras somente foram esculpidas porque eram reais os modelos em que seus autores se inspiraram.
Em tempos posteriores a negação do corpo tornou-se parte da visão de mundo dominante e, como resultado, a ideia das competições atléticas como exibição da beleza física sofreu um sério abalo. Ainda aconteciam competições, mas estas eram essencialmente relacionadas às habilidades militares e sempre disputadas com muita seriedade, de modo que as mortes de competidores não eram raras. A capacidade física era vista, nesse contexto, como um reflexo das virtudes morais que deviam compor o caráter de um autêntico guerreiro proveniente da nobreza.
Como tudo passa, passaram também as justas medievais. Ainda há, em alguns lugares, quem as realize, mas é só diversão, ao menos para quem assiste.
Aula de esgrima no Quartel da Luz para oficiais
da Força Pública de São Paulo.
Em virtude de sua aplicação militar, a esgrima é
esporte muito conceituado desde longa data. (¹)
Esportes, hoje, são vistos como um importante fator de saúde, parte essencial da educação dos jovens, além, é claro, do aspecto essencialmente competitivo no nível a que se denomina "de alto rendimento", que quase sempre envolve considerável importância econômica, como é o caso das grandes competições profissionais do futebol, tênis, basquete, hipismo, corridas automobilísticas, por exemplo. Ocorre que nem sempre foi assim, e talvez alguém se surpreenda com o fato de que, até meados do século XIX, a maioria das pessoas achava que os esportes eram coisa de crianças e de adultos infantilizados, ou de de gente exibicionista e suficientemente desocupada, com tempo de sobra para andar cultivando os músculos. Havia em alguns países, além disso, desde o século XVII, uma linha de pensamento religioso que considerava um pecado absurdo gastar tempo com esportes, quando coisas mais importantes, relacionadas à salvação da alma, é que deveriam ocupar a mente de pessoas ajuizadas e responsáveis.
Como tudo passa, passaram também as dúvidas quanto à sanidade mental dos desportistas, de modo que atividades físicas - como ginástica e natação - passaram a ser incluídas gradualmente nos programas educacionais, primeiro apenas para rapazes e, mais tarde, não sem um certo escândalo da sociedade, também para meninas. O certo é que, num conjunto de mudanças que sobrevieram em fins do século XIX e início do XX, associadas ao ritmo acelerado da urbanização e industrialização em muitos lugares, os velhos preconceitos relacionados aos esportes foram varridos pouco a pouco, para isso contribuindo bastante o renascimento do olimpismo, em especial desde os primeiros Jogos da era moderna, os de Atenas em 1896(²). Nesse aspecto (como em muitos outros...), o Brasil foi na onda, conforme veremos nas próximas postagens. (³)

(1) A CIGARRA, 21 de abril de 1915.
(2) Os Jogos de Atenas, celebrados em 1896, incluíram Atletismo, Ciclismo, Esgrima, Ginástica, Halterofilismo, Luta Greco-Romana, Natação, Tênis e Tiro, apenas para homens, já que o Barão Pierre de Coubertin tinha verdadeira alergia à presença de mulheres na competição.
(3) Já postei neste blog, há algum tempo, uma pequena série sobre o futebol no início do século XX, razão pela qual me deterei em outras modalidades.


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