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domingo, 1 de julho de 2012

Machado de Assis e os jogos olímpicos da era moderna

Os leitores deste blog sabem muito bem que os esportes são, atualmente, um grandíssimo negócio, que movimenta montanhas de dinheiro a cada ano. Além disso, malgrado as ideias fundadoras do Barão Pierre de Coubertin, já vão longe os dias em que o estrito amadorismo era exigência para atletas que pretendiam competir nas Olimpíadas. Investir, pois, nos desportos, é quase sempre garantia de bom retorno. Mas, na aurora dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, havia quem duvidasse disso.
O que vem a seguir é uma prova acabada que, por mais inteligente e perspicaz que alguém seja, às vezes não dá pra enxergar o que está à frente. Não é questão de QI - é apenas consequência de estarmos limitados a determinada conjuntura, ao tempo e lugar em que vivemos e que, aliás, nenhum de nós escolhe. Quer ver? O  texto abaixo, que transcrevo sem mais comentários, foi escrito por ninguém menos que Machado de Assis, sendo  publicado em A Semana, em março de 1895 (portanto, no ano que precedeu a realização da "primeira edição" dos Jogos Olímpicos da Era Moderna). Vejamos:
"Também a arqueologia é ciência, mas há de ser com a condição de estudar as coisas mortas, não ressuscitá-las. Se quereis ver a diferença de uma e outra ciência, comparai as alegrias vivas do nosso Jardim Zoológico com o projeto de ressuscitar em Atenas, após dois mil anos, os jogos olímpicos. Realmente, é preciso ter grande amor a essa ciência de farrapos para ir desenterrar tais jogos. Pois é do que trata agora uma comissão, que já dispõe de fundos e boa vontade. Está marcado o espetáculo para abril de 1896. Não há lá burros nem cavalos; há só homens e homens. Corridas a pé, luta corporal, exercícios ginásticos, corridas náuticas, natação, jogos atléticos, tudo o que possa esfalfar um homem sem nenhuma vantagem dos espectadores, porque não há apostas. Os prêmios são para os vencedores e honoríficos. Toda a metafísica de Aristóteles. Parece que há ideia de repetir tais jogos em Paris, no fim do século, e nos Estados Unidos em 1904. Se tal acontecer, adeus, América! Não valia a pena descobri-la há quatro séculos, para fazê-la recuar vinte." (*)
 
(*) ASSIS, Joaquim Maria Machado de, em A Semana, GAZETA DE NOTÍCIAS, 17 de março de 1895.


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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Os esportes no Brasil do Século XIX e início do Século XX - Parte 1

Em tempos remotos, atividades que hoje classificaríamos como "esportivas" eram, frequentemente, desenvolvidas mais pelo aspecto militar que pelo recreativo, ainda que este último não fosse descartado. Afinal, lançar dardos, cavalgar, lutar, saltar, correr velozmente, eram habilidades que contribuíam com eficácia para a formação de bons soldados. Eventualmente, como no caso da Antiga Grécia, os desportos tinham também um aspecto religioso - as competições realizavam-se em honra dos deuses, o que acabava sendo uma razão a mais para lutar até o limite das forças.
Bem diversos eram os combates de gladiadores nos circos romanos. Se um atleta grego competia pela honra dos deuses, de sua cidade e de si mesmo, os gladiadores já não tinham essa opção - não eram livres, mas escravos, e escravos obrigados a lutar até a morte. Nesse sentido, eram, sim, atletas, mas não desportistas, como hoje o entendemos.
Como tudo passa, passaram os Jogos Olímpicos, Panatenaicos, Ístmicos, e outros mais. Passaram também as lutas de gladiadores em Roma. Deles restaram apenas lembranças, particularmente nas esculturas que ainda assombram o mundo pela beleza e perfeição das formas, aliadas à certeza de que tais obras somente foram esculpidas porque eram reais os modelos em que seus autores se inspiraram.
Em tempos posteriores a negação do corpo tornou-se parte da visão de mundo dominante e, como resultado, a ideia das competições atléticas como exibição da beleza física sofreu um sério abalo. Ainda aconteciam competições, mas estas eram essencialmente relacionadas às habilidades militares e sempre disputadas com muita seriedade, de modo que as mortes de competidores não eram raras. A capacidade física era vista, nesse contexto, como um reflexo das virtudes morais que deviam compor o caráter de um autêntico guerreiro proveniente da nobreza.
Como tudo passa, passaram também as justas medievais. Ainda há, em alguns lugares, quem as realize, mas é só diversão, ao menos para quem assiste.
Aula de esgrima no Quartel da Luz para oficiais
da Força Pública de São Paulo.
Em virtude de sua aplicação militar, a esgrima é
esporte muito conceituado desde longa data. (¹)
Esportes, hoje, são vistos como um importante fator de saúde, parte essencial da educação dos jovens, além, é claro, do aspecto essencialmente competitivo no nível a que se denomina "de alto rendimento", que quase sempre envolve considerável importância econômica, como é o caso das grandes competições profissionais do futebol, tênis, basquete, hipismo, corridas automobilísticas, por exemplo. Ocorre que nem sempre foi assim, e talvez alguém se surpreenda com o fato de que, até meados do século XIX, a maioria das pessoas achava que os esportes eram coisa de crianças e de adultos infantilizados, ou de de gente exibicionista e suficientemente desocupada, com tempo de sobra para andar cultivando os músculos. Havia em alguns países, além disso, desde o século XVII, uma linha de pensamento religioso que considerava um pecado absurdo gastar tempo com esportes, quando coisas mais importantes, relacionadas à salvação da alma, é que deveriam ocupar a mente de pessoas ajuizadas e responsáveis.
Como tudo passa, passaram também as dúvidas quanto à sanidade mental dos desportistas, de modo que atividades físicas - como ginástica e natação - passaram a ser incluídas gradualmente nos programas educacionais, primeiro apenas para rapazes e, mais tarde, não sem um certo escândalo da sociedade, também para meninas. O certo é que, num conjunto de mudanças que sobrevieram em fins do século XIX e início do XX, associadas ao ritmo acelerado da urbanização e industrialização em muitos lugares, os velhos preconceitos relacionados aos esportes foram varridos pouco a pouco, para isso contribuindo bastante o renascimento do olimpismo, em especial desde os primeiros Jogos da era moderna, os de Atenas em 1896(²). Nesse aspecto (como em muitos outros...), o Brasil foi na onda, conforme veremos nas próximas postagens. (³)

(1) A CIGARRA, 21 de abril de 1915.
(2) Os Jogos de Atenas, celebrados em 1896, incluíram Atletismo, Ciclismo, Esgrima, Ginástica, Halterofilismo, Luta Greco-Romana, Natação, Tênis e Tiro, apenas para homens, já que o Barão Pierre de Coubertin tinha verdadeira alergia à presença de mulheres na competição.
(3) Já postei neste blog, há algum tempo, uma pequena série sobre o futebol no início do século XX, razão pela qual me deterei em outras modalidades.


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