domingo, 19 de junho de 2011

O Vestuário dos Escravos no Brasil - Parte 3

"Fazia de rainha Florência, que nesse dia triunfava sobre a rival, a mucama Rosa. O rei era o pajem de um ricaço da vizinhança; e todos os outros personagens, cativos das fazendas próximas.
O luxo que ostentavam fora pago, parte com as suas economias, e parte com dádivas dos senhores, cuja vaidade se personificava nos próprios escravos. Cada um desses ricos fazendeiros se desvanecia da admiração que sentia o povo pelas roupas vistosas que traziam galhardamente seus pajens, e pelos soberbos cavalos que eles meneavam com certo donaire."
José de Alencar, Til


Se, nos antigos engenhos açucareiros, os escravos eram, com frequência, deixados em situação precária quanto ao vestuário, nas fazendas de café, ao longo do século XIX, a situação variava, já que alguns senhores de escravos mais bem posicionados tanto social quanto politicamente começaram a preocupar-se com o que trajavam seus escravos, ao menos em eventos públicos. Tornava-se constrangedor que um fazendeiro poderoso permitisse que, diante da sociedade, seus escravos aparecessem usando pouco mais que trapos, principalmente quando serviam junto à família escravocrata, na sede da fazenda. Vale o mesmo para escravos que trabalhavam nas residências de figuras de destaque em áreas urbanas, particularmente na Corte. Assim, não são de todo incomuns as representações de época em que escravos aparecem bem vestidos, ao lado de seus senhores e/ou senhoras, como nestas cenas registradas por Debret:

Funcionário importante saindo a passear com a família. Os escravos acompanham. (*)

Bebê branco é levado por escravos para ser batizado. (**)

Dama é levada por escravos em uma cadeirinha de arruar. (**)

Observe bem, leitor: há, apesar de tudo, um sinal óbvio de que eram escravos, e não libertos, por melhores que fossem as roupas. Já descobriu? A marca da escravidão está estampada no fato de que, devido à sua condição, não usavam sapatos.


(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil, v. 2
Paris: Firmin Didot Frères, 1835 / Brasiliana USP
(**) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil, v. 3
Paris: Firmin Didot Frères, 1839 / Brasiliana USP


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2 comentários:

  1. Achei interessante as publicações, pois sou baiana , e aqui temos uma forma peculiar de nos vestirmos em ´particular em Salvador, e acredito ser importante toda informação sobre a participação da cultura africana na construção dos nossos costumes

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    1. Sim, a cultura africana tem uma participação vasta e decisiva na formação da riqueza cultural do Brasil; fico pensando, porém, se não seríamos mais justos se disséssemos "culturas africanas", no plural, já que várias etnias foram trazidas ao Brasil... Foi uma ideia que me ocorreu :-)))

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