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terça-feira, 23 de novembro de 2021

Método cruel de caça às onças usado na América do Sul

Onças, fossem pardas ou pintadas, despertaram a curiosidade dos primeiros exploradores europeus que chegaram à América do Sul (¹). Como muitos deles nunca tinham visto leões e tigres de verdade, acharam que a onça-parda (Puma concolor) era leão, e a pintada (Panthera onca), tigre. Estavam errados, é claro, mas isso não muda o fato de que tiveram medo delas. Lindas e ferozes, as onças eventualmente atacavam pessoas e animais domésticos. Não demorou até que fossem impiedosamente caçadas, de um modo diferente do método empregado por indígenas.
Há uma descrição interessante da caça às onças feita por Félix de Azara, espanhol que viajou pela América do Sul no Século XVIII. Segundo ele, era desta maneira extremamente cruel que estancieiros, aborrecidos com ataques de onças ao gado na Argentina e no Paraguai, abatiam as felinas:
"O modo de caçá-las é perseguindo-as com dois homens montados em bons cavalos. Ao encontrar árvore ou macega a onça se senta, e um dos cavaleiros investe contra ela para que fuja [...], enquanto o outro atira o laço [e, estando presa], corre em disparada, até que veja que [a onça] já está morta, e [se não], o outro prende-a também com o laço, puxando, um de cada lado, até matá-la." (²)
É razoável supor que método semelhante de caça fosse, ao menos ocasionalmente, empregado também no Brasil. Justifica-se essa hipótese por uma gravura de Debret, na qual uma onça, presa por laços, parece ser puxada por vários cavalos. Vejam abaixo, leitores, e tirem suas conclusões.

Caça à onça, conforme Debret (³)

De acordo com Debret (⁴), nos campos do atual Estado do Paraná onças eram caçadas a laço e, quando capturadas, abatidas por um caçador pedestre.

(1) Podem ser encontradas também em outras áreas do Continente Americano.
(2) AZARA, Félix de. Viajes Inéditos de D. Félix de Azara. Buenos Aires: Imprenta y Librería de Mayo, 1873, p. 25. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) Cf. DEBRET, J. B. Op. cit., p. 134.


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sexta-feira, 3 de junho de 2016

Como D. Pedro I reagia a um sermão desagradável

D. Pedro I, de acordo com Debret (¹)
A intriga palaciana vem de C. Schlichthorst, um mercenário alemão que, entre 1824 e 1826, serviu como oficial no Segundo Batalhão de Granadeiros do Exército Imperial. A par do aspecto pitoresco, tem lá sua utilidade, se quisermos entender um pouco do clima político que reinava - oh, não, que imperava na Corte do Rio de Janeiro ao tempo do primeiro imperador.
D. Pedro, como se esperava do monarca de um país que tinha uma religião oficial, ostentava a devoção conveniente que o obrigava a comparecer às missas e outras cerimônias da Igreja, em especial em datas festivas, celebradas com solenidade. Seguimos com a descrição de Schlichthorst:
"O imperador senta-se no trono, ao pé do altar-mor. Junte dele, o bispo. Em frente, os cônegos da Capela Imperial. Se a imperatriz comparece, fica só ou em companhia da filha, a princesa Maria da Glória, na tribuna imperial. Uma ou duas damas da Corte ocupam uma tribuna maior ao lado." (²)
Engana-se, porém, quem imagina que, em tal situação, o imperador era, para seus leais súditos, um exemplo acabado de bom comportamento. Tudo dependia, como já veremos, do teor do sermão. "Se a prédica agrada ao imperador", escreveu C. Schlichthorst, "ele a ouve com a maior atenção. Se, porém, escapa ao orador uma expressão que desagrada a Sua Majestade, acabou-se a sua devoção. O imperador jamais esconde sua suscetibilidade e, nessas ocasiões, vira as costas para o pregador, pigarreia, brinca com o sabre e, por outros sinais inequívocos, demonstra seu aborrecimento." (³)
A despeito da imperial falta de compostura, os oradores sacros eram, com frequência, bastante destemidos, e sua audácia tinha imperial utilidade:
"Graças, no entanto, à franqueza e destemor do clero brasileiro, os pregadores lhe fazem ouvir coisas que, cercado por uma corte escravizada, só assim poderia saber." (⁴)
Ao tempo de Pedro I havia, no Rio de Janeiro, frades notáveis pela erudição e pelo talento na oratória. Portanto, não devia ser tanto a forma que caia mal aos ouvidos de Sua Imperial Majestade, e sim o conteúdo. Todos sabemos, porém, que não escasseavam os motivos para uns puxões (exclusivamente verbais) nas imperiais orelhas. Compreende-se, compreende-se...

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 3. Paris: Firmin Didot Frères, 1839. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro Como É (1824 - 1826). Brasília: Senado Federal: 2000, p. 114.
(3) Ibid., pp. 114 e 116.
(4) Ibid., p. 116.


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quarta-feira, 6 de abril de 2016

Crianças escravizadas no Brasil

Refeição em casa de uma família proprietária de escravos, de acordo com Debret (¹)

Os filhos das escravas eram, legalmente, também escravos (²), a menos que fossem libertados pelo proprietário da mãe. Era costume que, a contar da data do parto, uma escrava ficasse três dias sem trabalhar. Depois, voltava às suas tarefas rotineiras.
A maioria dos senhores não tinha qualquer constrangimento em exigir trabalho dos pequenos escravos, tão logo fossem considerados capazes de fazer alguma coisa. Na prática, meninos e meninas de seis, sete anos de idade, eram já postos a trabalhar.
É verdade que tal desgraça não era duvidoso privilégio apenas de um país no qual vigorava o escravismo. Basta lembrar que na Inglaterra da Revolução Industrial era absolutamente comum que crianças trabalhassem na limpeza de chaminés (³), nos apertadíssimos túneis periféricos das minas de carvão, nas tecelagens e em muitos outros ramos de ocupação. Lá, ainda que as crianças fossem legalmente de condição livre, eram forçadas a trabalho penoso, fisicamente degradante e por longas jornadas (⁴), em decorrência da pobreza extrema em que viviam, como parte da população operária residente nos bairros miseráveis das grandes cidades industriais.
Mas retornemos, leitores, à questão das crianças escravizadas no Brasil. Dois exemplos serão úteis para quem desejar uma visualização do que ocorria. O segundo barão de Paty do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, que fazia experiências com o cultivo de chá em suas terras, disse: "Tenho adotado o método de trazerem as folhas misturadas e, neste serviço, emprego negros, rapazes, mulheres e até crianças de seis anos para cima, que entre os outros também fazem algum serviço." (⁵) Esse relato, é bom mencionar, foi publicado pela primeira vez na década de quarenta do Século XIX.
Retrocedendo no tempo, temos um testemunho pungente, obra de Saint-Hilaire, da ocasião em que esse naturalista francês fazia suas andanças pelo Rio Grande do Sul, pouco antes da Independência. A coisa acontecia na casa de um charqueador de certa importância: 
"Há sempre na sala um negrinho de dez a doze anos, que permanece de pé, pronto a ir chamar os outros escravos, a oferecer um copo de água e a ir prestar pequenos serviços caseiros. Não conheço criatura mais infeliz do que esta criança. Não se assenta, nunca sorri, jamais se diverte, passa a vida tristemente apoiado à parede e é, frequentemente, martirizado pelos filhos do patrão. Quando anoitece, o sono o domina, e quando não há ninguém na sala, põe-se de joelhos para poder dormir; não é esta casa a única onde há este desumano hábito de se ter sempre um negrinho perto de si para dele utilizar-se, quando necessário." (⁶)
Sim, leitores, é de causar espanto o entorpecimento moral que a escravidão produzia. Quem, no entanto, saberá dizer quantas misérias sociais são toleradas mesmo hoje, sem que uma só palavra de desaprovação seja dita?

Escrava vendedora de frutas carregando seu bebê (⁷)

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Sobre a Lei do Ventre Livre e a libertação dos filhos de escravas, veja, também neste blog: "Quem Foi Libertado Pela Lei do Ventre Livre?"
(3) Eram consideradas perfeitas para a tarefa, justamente porque eram pequenas.
(4) Seis dias por semana, 12 horas por dia, e mesmo mais, em alguns casos.
(5) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, pp. 147 e 148.
(6) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, pp. 119 e 120.
(7) __________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 26 de junho de 2015

A mortalidade infantil entre filhos de escravas no Brasil do Século XIX

No Século XIX a mortalidade infantil era muito alta. Isso não era coisa apenas de lugares paupérrimos. Embora não haja estatísticas totalmente confiáveis, sabe-se que em alguns países da Europa só um pouco mais da metade dos bebês que vinham ao mundo conseguia crescer o suficiente para alcançar o final da adolescência. Os restantes iam "ficando pelo caminho", em grande parte até os sete ou oito anos de idade, ainda que crianças maiores também fossem vitimadas por doenças e desnutrição severa. 
Mesmo na primeira metade do Século XX as condições não eram muito melhores. Idosos contavam - ou ainda contam - de como em sua infância os funerais de meninos e meninas - seus companheiros de brinquedo ou estudo - eram uma realidade nada incomum. Detalhes como a roupa ou o caixão usual para os pequenos falecidos ainda fazem parte das memórias dos sobreviventes.
Essa situação passaria por transformações radicais ao longo do Século XX. Vacinas, antibióticos, desenvolvimento da puericultura, maior escolaridade materna, melhoria no padrão nutricional, foram alguns fatores que contribuíram para que a mortalidade infantil, em muitos lugares, despencasse.
Mas vamos retornar ao Século XIX. Se a mortalidade infantil era alta entre crianças de condição livre, o que não ocorreria aos filhos nascidos de escravas no Brasil?
Fato é que, antes da abolição do tráfico de africanos, a maioria dos senhores não dava a menor importância ao nascimento dos filhos de suas escravas. O motivo era simples: parecia pouco econômico ter despesas com a criação de alguém que somente aos dezesseis ou dezoito anos poderia, enfim, trabalhar como um adulto. Era preciso também levar em conta que não poucos dentre esses meninos e meninas podiam morrer antes de atingir a "idade produtiva". Muito mais barato era comprar um escravo forte e saudável, que saia do mercado de cativos e ia direto para a roça. Um relato feito por Cristiano B. Ottoni, no calor dos debates que cercaram a chamada Lei do Ventre Livre, dá uma ótima ideia de qual era o raciocínio de um típico senhor de escravos:
"Em todas as palestras entre fazendeiros se ouvia este cálculo: "Compra-se um negro por 300$000; colhe no ano cem arrobas de café, que produzem líquido pelo menos o seu custo; daí em diante tudo é lucro; não vale a pena aturar as crias que só depois de dezesseis anos darão igual serviço."" (¹)
A crueza da argumentação talvez venha a causar espanto aos leitores, mas trata-se de um retrato fidedigno do que ocorria nas fazendas de café. Escravas gestantes continuavam a ir diariamente ao trabalho na roça, não recebiam, como regra, qualquer cuidado especial com a alimentação, e os bebês, quando nasciam, dificilmente eram alvo de alguma consideração. Cresciam junto às mães, partilhando, com elas, as péssimas condições de vida das senzalas. Testemunhavam quotidianamente a opressão a que estavam submetidos os cativos, prenúncio da vida desgraçada e sem perspectivas favoráveis a que estavam destinados. Alguns, por sorte ou robustez natural, acabavam sobrevivendo. A maior parte morria na infância. Mesmo sem dados exatos vê-se que, sob tais condições, a mortalidade infantil entre escravos era brutal.

Em imagem de Debret (²), o cortejo fúnebre de um menino negro (³)
Há quem imagine que a estapafúrdia Lei do Ventre Livre, com todas as suas contradições, pôs fim ao problema, mas não foi assim. Afinal, a escravidão, que nunca deveria ter existido, estava com os dias contados e, se durou ainda alguns anos, foi, entre outras razões, pela pressão política dos que detinham o poder econômico e que morriam de medo que suas fazendas ficassem desprovidas de mão de obra. Sofriam de severa falta de imaginação, que os tornava incapazes de visualizar um mundo sem a existência do trabalho compulsório.

(1) OTTONI, Cristiano Benedito. A Emancipação dos Escravos. Rio de Janeiro: Typographia Perseverança, 1871, p. 67.
(2) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 3. Paris: Firmin Didot Frères, 1839. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Cortejo fúnebre para negros, particularmente escravos, ocorriam, em geral, apenas em áreas urbanas, nas quais as confrarias existentes (como de N. Sra. do Rosário ou de Santa Ifigênia, por exemplo) zelavam pela assistência religiosa quando algum de seus membros falecia. Escravos que morriam em fazendas eram, quase sempre, sepultados em alguma área que o proprietário destinava para cemitério dos cativos. A consequência prática é que, nesse caso, sequer havia um registro legal dos óbitos.


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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Escravos que usavam sapatos

Escravos podiam, no Brasil, ter um profissão específica - já tratei desse assunto aqui no blog. O que vou mostrar, hoje, é que esse costume era muito antigo, não se restringindo apenas aos dias do Império, quando a escravidão, afinal de contas, já declinava.
Pedro Taques de Almeida Paes Leme escreveu a sua Nobiliarchia Paulistana no Século XVIII. Tratando de um sujeito por nome João Pires das Neves, falecido em São Paulo no ano de 1720, informou:
"João Pires das Neves foi nobre cidadão de São Paulo, muito abastado e com grande tratamento. A sua fazenda era um como arraial, pelas casas que tinha, com numerosa escravatura de pretos e mulatos, e estes oficiais de artes fabris e mecânicas, os quais trajavam calçados."
Se tivermos paciência para dissecar esse trechinho, poderemos chegar a algumas constatações interessantes.
Em fins do Século XVII e início do XVIII a escravidão era usual na Capitania de São Vicente, imperando a escravidão de índios, não de negros e mulatos. Temos, portanto, um caso que fugia à regra, uma vez que os escravos de João Pires das Neves, de acordo com Pedro Taques, eram "pretos e mulatos". Para isso era preciso que fosse muito rico, já que a carência de moeda corrente em São Paulo é que, ao menos em parte, levava os colonizadores à escravização de índios, na impossibilidade de comprar africanos.
Acrescenta a Nobiliarchia que os escravos de João Pires eram "oficiais de artes fabris e mecânicas". Para manter cativos especializados em dedicação exclusiva a certas tarefas, devia haver muito trabalho para eles o tempo todo, o que nos leva a conjecturar se não atenderiam a serviços de terceiros, sendo a renda em proveito do ilustre fazendeiro. É certo que não se pode afirmar tal coisa, mas também seria imprudência descartar completamente a possibilidade, uma vez que há registros, ainda que não muito numerosos, de gente que mantinha oficinas nas quais escravos eram os "funcionários".
Finalmente, há o detalhe de que os escravos "trajavam calçados". Pedro Taques não mencionaria este pormenor não fora o fato de que era absolutamente incomum. No Brasil, o costume era que escravos andassem descalços, a fim de evidenciar diante da sociedade a sua condição servil. É bom recordar: o costume não foi inventado na Colônia. Vinha dos antigos romanos, que assim o faziam porque, de outro modo, poderia ser difícil, à primeira vista, distinguir um homem livre de um escravo. Afinal, em Roma não havia a possibilidade, com raríssimas exceções, de estigmatizar escravos com base na cor da pele. Além disso, muitos escravos tinham origem social elevada (gregos, por exemplo, derrotados em combate) e eram ocupados na educação de jovens patrícios romanos. A ausência de calçados era, então, a marca da perda da liberdade.
Por tudo isso, pode-se dizer, em conclusão, que, de fato, João Pires das Neves e seus escravos deviam ser, senão um espanto, ao menos um componente algo incomum na pequena São Paulo de seus dias.


*****

Debret também retratou uma dessas exceções, em que, aos escravos, permitia-se o uso de sapatos. É o que se vê nesta cena de casamento de escravos de uma família rica (*) no Século XIX. Nela, as personagens não só usam roupas apropriadas para uma ocasião especial como exibem, nos pés, os calçados que sua condição servil habitualmente proibia.


(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil, vol. 3, Paris: Firmin Didot Frères, 1839. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Índios guaicurus - Parte 2

Os guaicurus estavam para a América do Sul como os comanches para a América do Norte. Ferozes e destemidos, afeiçoaram-se grandemente aos cavalos, animais que não eram nativos do Continente Americano (foram trazidos pelos colonizadores europeus) e que tanto comanches como guaicurus passaram a apreciar, desenvolvendo método próprio de conduzi-los. Se devemos crer em testemunhos de contemporâneos, pensavam que tinham pleno direito a todos os cavalos do Universo. Portanto, assumindo que os cavalos eram seus, nada mais justo que capturá-los de quem estivesse com eles. Não constituiria roubo. Os outros é que os roubavam...
Devemos, todavia, como já afirmei na postagem anterior, ser cautelosos, mesmo com relatos provenientes dos tempos coloniais. Tanto comanches quanto guaicurus tiveram as terras nas quais viviam sistematicamente ocupadas por colonizadores, que tinham voz, através de seus escritos, de modo que podemos, ainda hoje, saber seu ponto de vista nos confrontos com indígenas; já os nativos da América, muitos deles não dispondo de escrita e muito menos de registros sistemáticos, não deixaram testemunhos equivalentes aos dos colonizadores. É difícil, pois, estabelecer uma avaliação imparcial. Certo, mesmo, é que os confrontos foram sangrentos, tanto na América do Norte quanto na América do Sul.

*****

No Brasil do Século XIX os enfrentamentos entre gente de origem europeia e índios guaicurus já haviam diminuído bastante de intensidade, quando comparados a combates ocorridos no século precedente, durante o período das chamadas monções cuiabanas. Não obstante,  o relato feito por Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff, é ainda muito similar aos que aparecem em obras mais antigas. Embora seja razoável supor que Florence tenha lido Ayres de Casal e outros autores, ele deveria ter também material de primeira mão a apresentar a seus leitores:
"Estão, com efeito, os anais de Mato Grosso cheios das traições desses infiéis. Errantes nas margens do Paraguai e Taquari e estendendo suas excursões em vastíssimo território, fizeram no princípio do descobrimento grande dano às monções que por entre eles passavam. Foram já por vezes até Camapuã e, não há muito tempo, arrebataram de lá perto de 500 cavalos. Costumam também entranhar-se pelo país dos caiuás e caiapós perto do Paraná, a fim de reduzi-los à escravidão."(¹)
"Não poupam em suas devastadoras correrias nem sequer os espanhóis das margens do Paraguai, indo mesmo em tempo de paz saquear-lhes as povoações, cujos despojos vendem aos brasileiros. Não sei se depois de pacificados continuam nessas práticas." (²)
Não deixa de ser curioso que um europeu, francês, supusesse que os indígenas da América tinham a obrigação de respeitar as fronteiras que representantes de países europeus (no caso, Portugal e Espanha), haviam combinado entre si ainda no Século XVIII. Aliás, fronteiras combinadas depois de uma quantidade de tratados e guerras... Isso demonstra o quanto pode ser difícil romper com a mentalidade reinante.

Guaicurus indo ao comércio com europeus, de acordo com Debret (³)

Segue H. Florence contando sobre uma menina branca que fora raptada e criada pelos guaicurus:
"Esses bárbaros levam tão longe a ousadia que não trepidam meter nos ferros da escravidão até os próprios espanhóis. Vi chegar a Cuiabá uma menina branca dessa nacionalidade e de 12 anos de idade, que o Tenente-Coronel Jerônimo tinha tirado de entre os guaicurus, onde vivia em cativeiro. Fora com a mãe raptada de sua aldeia natal no Paraguai, ainda criança de peito, ficara só no mundo e tomara todos os hábitos dos índios, cuja língua se tornara a dela." (⁴)
Finalmente, passa a tratar da notável habilidade que havia levado os colonizadores a atribuírem aos guaicurus o apelido de “gentio-cavaleiro”:
"Os guaicurus são todos cavaleiros e bons corredores. Possuem numerosa cavalhada roubada aos espanhóis ou criada nos campos. Às vezes vão vender em Cuiabá animais de sela por 9$000 ou 10$000. Há índios que têm dois, três e mais. Montam na anca, o que faz com que usem de rédeas muito compridas." (⁵)
Nesse aspecto é possível outra comparação entre guaicurus e comanches: aos europeus e/ou seus descendentes causava estranheza o método pelo qual os indígenas controlavam e conduziam os cavalos.

(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 83.
(2) Ibid., pp. 83 e 84.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) ,FLORENCE, Hércules. Op. cit., p. 84.
(5) Ibid., p. 84.


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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Índios guaicurus - Parte 1

Os guaicurus estavam entre os indígenas mais temidos do período colonial - a própria menção a seu nome era suficiente para provocar calafrios entre os monçoeiros, que eram frequentemente por eles atacados - era o "gentio cavaleiro", como então se dizia, gente que montava de um modo estranho, ao menos segundo as regras de equitação seguidas por europeus e seus descendentes. Não causa espanto, pois, que Ayres de Casal não tivesse, sobre esses indígenas, uma visão lá muito favorável, como, de resto, não a tinham muitos dos autores da época sobre quaisquer dos povos nativos da América:
"São os guaicurus de mediana estatura, bem feitos, sadios, nutridos, e ao parecer adaptados a qualquer trabalho penoso; mas poltrões. Comem muitas vezes no dia, e mui devagar; seus manjares são muito cozinhados e sem asseio. Jamais padecem indigestões. É notável a dieta de que usam nas suas raras moléstias. Jamais apareceu um escorbutado entre eles, nem memória de mortes repentinas.
[...].
Pintam o corpo com tinta de urucum e jenipapo, no que guardam assaz de simetria. No cabelo os moços não têm uso certo; os velhos trazem a cabeça rapada em roda à semelhança dos leigos franciscanos. As mulheres também rapam a cabeça em redondo e despontam o cabelo [...]." (¹)
Depois, prossegue o padre Ayres de Casal:
"Os homens cuidam na caça, pesca, em tirar mel, frutas silvestres, palmitos, dos cavalos, feitura de armas e canoas [...]; as mulheres fiam, tecem panos e cintas de algodão, fazem cordas, louça e esteiras. Ambos os sexos se ocupam igualmente no mister da cozinha." (²)

Carga de cavalaria guaicuru, de acordo com Debret (³)

E, se devemos crer no que escreveu Ayres de Casal, não era apenas com os portugueses colonizadores que os célebres guaicurus entravam em confronto:
"São tão soberbos que a todas as nações dos gentios confinantes tratam com desprezo; a todas fazem crua guerra, sendo delas de alguma sorte respeitados e temidos pela vantagem que têm na cavalaria e armas de que usam [...]." (⁴)
Lembro aqui, no entanto, que, sem escrita, os guaicurus não deixaram seus próprios relatos para que pudéssemos compará-los aos dos colonizadores. De qualquer modo, percebe-se que havia interesses conflitantes: europeus e seus descendentes buscavam explorar novos territórios e riquezas, não importando, muitas vezes, os métodos empregados na execução de seus projetos; populações indígenas aí anteriormente estabelecidas sentiam-se ameaçadas e viam os colonos como invasores, passando então à defesa e/ou tomando a iniciativa do ataque. Nada muito diferente do que tem ocorrido em boa parte da história da humanidade neste planeta. Como sempre, quem tinha melhores armas acabou levando vantagem - não sem muitas perdas, porém.

(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica,  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 277.
(2) Ibid., pp. 278 e 279.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) CASAL, Manuel Ayres de. Op. cit., p. 279.


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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Como as índias faziam cerâmica

De acordo com Hans Staden (¹), alemão que esteve no Brasil no Século XVI, a técnica empregada por mulheres indígenas para a confecção das vasilhas de barro de que precisavam era a seguinte: primeiro o barro era bem amassado e, em seguida, moldado segundo a forma desejada e o uso a que se destinava; postas a secar, essas peças eram depois pintadas, isso segundo a tradição da tribo.
Devem perguntar, no entanto, os leitores que sabem algo da fabricação de vasos de argila: como eram queimadas as vasilhas? Sim, porque é a queima que dá a elas a durabilidade necessária!
Correto, em seguida vinha a queima. As peças, uma vez secas, eram colocadas sobre pedras, tendo-se o cuidado de, ao redor delas, fazer um monte de cascas de árvores. Punha-se então fogo nas cascas, deixando que se convertessem em brasas, para concluir a queima desejada.
Desse modo, terminava o engenhoso processo, que, com limitados recursos, permitia que se fizessem objetos de barro cuja finalidade, entre outras, podia ser para cozinhar, guardar ou ainda transportar alimentos.
É bom notar, porém, que esse processo se empregava, no Século XVI, entre indígenas do litoral dos atuais Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. No entanto, a diversidade de povos indígenas da América era, na época, considerável e, por consequência, era muito grande também a variação de técnicas empregadas por eles nas diversas tarefas diárias.

Cerâmica indígena, de acordo com Debret (²)

(1) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.
(2) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 26 de maio de 2013

Fraudes e corrupção nos tempos coloniais - Parte 5

Expedientes fraudulentos no apresamento de índios para escravização


Se os colonizadores que viviam no Brasil praticavam fraudes cabeludas em suas relações comerciais (veja postagem anterior), não seria razoável supor que, no trato com os povos indígenas, agissem segundo maior lisura. Pelo contrário.
A ideia que em geral se tem de brancos e/ou mamelucos aprisionando índios para a escravidão é a dos ataques brutais às reduções nas quais padres praticavam a catequese. Desarmados, esses índios podiam oferecer muito pouca resistência aos seus algozes, e é fato que ataques assim aconteciam e não eram raros. Mas não eram a única forma de aprisionar índios e obrigá-los a trabalhar de graça, nem eram apenas paulistas os que se aventuravam sertão adentro para "descimento do gentio" ou buscar o "remédio do sertão", como então se usava dizer. A fraude era, também, uma rotina, e Frei Vicente do Salvador fez dela uma relato pungente.
Antes de mais nada, por questões formais, era preciso obter das autoridades uma permissão para o apresamento. Esta se dava, igualmente formal, para os casos de índios que faziam guerra aos colonos e se recusavam a receber a catequese. Hipocritamente, era a chamada "guerra justa". A partir daí, os interessados na captura de ameríndios agiam com astúcia, de preferência a pegar em armas. Algum mameluco que bem sabia a língua dos índios era enviado a "negociar a paz" e, conforme explicou Frei Vicente do Salvador, "ordinariamente bastava a língua do parente mameluco, que lhes representava a fartura do peixe e mariscos do mar, de que lá careciam (¹), a liberdade de que haviam de gozar, a qual não teriam se os trouxessem por guerra." (²)
Em suma, a proposta era simples: aceitar a escravidão (pintada como favorável), ou encarar a guerra. Os índios eram valentes, mas a essa altura já tinham conhecimento de que suas armas pouco podiam contra as dos colonizadores.
A tática funcionava. O engano prevalecia. Segue Frei Vicente do Salvador:
"Com estes enganos, e com algumas dádivas de roupas e ferramentas que davam aos principais, e resgates que lhes davam pelos que tinham presos em cordas para os comerem [sic!], abalavam aldeias inteiras, e em chegando à vista do mar, apartavam os filhos dos pais, os irmãos dos irmãos, e ainda às vezes a mulher do marido, levando uns o capitão mameluco, outros os soldados, outros os armadores, outros os que impetraram a licença e alguns os vendiam [...]." (³)
Tudo isso tão cristãmente...
O caso é que esses índios, do ponto de vista legal, não eram exatamente escravos. Podia-se requerer deles apenas trabalho, mas não eram mercadoria, e quem com eles ficava sabia disso e o declarava ao recebê-los. Entretanto, havia um subterfúgio muito empregado para mergulhá-los de vez na escravidão:
"...quem os comprava, pela primeira culpa ou fugida que faziam, os ferrava na face, dizendo que lhe custaram seu dinheiro, e eram seus cativos; quebravam os pregadores os púlpitos sobre isto, mas era como se pregassem em deserto." (⁴)

Indígenas aprisionados, de acordo com Debret (⁵).
Chama a a atenção o fato de Debret ainda ter visto tal horror
na primeira metade do 
século XIX!

(1) Isto quando se ia fazer apresamento no interior da Colônia.
(2) História do Brasil, c. 1627.
(3) Ibid.
(4) Ibid.
(5) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 7 de abril de 2013

Superstições no Brasil - Parte 2

Cobra que mamava, cirurgião que benzia os doentes


Há coisas em que muita gente acredita - mesmo sabendo racionalmente que não passam de tolices - e que acabam passando de uma geração a outra (¹). São as chamadas superstições, a respeito das quais uma investigação do passado do Brasil pode revelar coisas interessantes e curiosas, quer através dos documentos históricos clássicos, quer através de passagens da literatura, sempre úteis neste caso.
Reuni aqui uma pequena coleção dessas crendices, para quem quiser ter uma ideia de quão longe podia ir a fantasia popular. Vejamos: 

1. Frei Vicente do Salvador, cujo manuscrito de sua História do Brasil data de c. de 1627, relatou vários absurdos a respeito das cobras que podiam ser encontradas na colônia portuguesa na América, dentre os quais o que segue adiante:
"Também me contou uma mulher de crédito na mesma Capitania de Pernambuco, que estando parida lhe viera algumas noites uma cobra mamar nos peitos, o que fazia com tanta brandura, que ela cuidava ser a criança, e depois que conheceu o engano o disse ao marido, o qual a espreitou na noite seguinte e a matou." (!!!)
Primeiro, chama a atenção que alguém instruído como era Frei Vicente do Salvador acreditasse em semelhante lorota; depois, não é difícil imaginar que, em tempos de poucas luzes intelectuais entre a gente comum, uma história dessas, repetida com muita convicção, acabasse passando ao acervo de lendas tidas e aceitas como estrita realidade, a despeito do absurdo que hoje só pode nos fazer rir. 

2. Dando um salto no tempo, vamos ao caso 2, desta vez relatado por Saint-Hilaire. Aqui o naturalista francês mostra-se indignado ao observar um cirurgião que, ao fazer seu trabalho médico, acrescentava a ele o hábito de benzer ferimentos:
"Entre eles um cirurgião que se apressou em me dar a conhecer os seus títulos tomando ares de importância que pareciam dizer "Senhores, respeitem-me". Cada qual se apressou em consultá-lo e entre outros um moço que o comandante de Rio Preto pediu-me que levasse a Barbacena e sofre de não sei que doença de pele. O honrado cirurgião disse-lhe que lhe ia dar um remédio. No dia seguinte estaria são. Misturou efetivamente pólvora ao sumo do algodão; com semelhante droga esfregou as partes enfermas a que benzeu depois mandando o paciente deitar-se, a assegurar-lhe o êxito de sua medicação.
Já tive diversos ensejos de falar, no meu diário, da confiança que os brasileiros dispensam aos amuletos e remédios de simpatia. Um dos meios de cura que empregam, também muito frequentemente, é o benzimento de seus males. O charlatão terapeuta deve ao mesmo tempo repetir uma fórmula devocional. Uma multidão de indivíduos encarrega-se assim de benzer as pessoas e isto na maior boa-fé; mas não posso conceber que um homem que se intitula cirurgião e por conseguinte deve ter sido diplomado, sancione com o exemplo as práticas supersticiosas." (²) 
Deixando de lado o remédio empregado (!!!!!!), como não sabemos quem era o cirurgião, até porque Saint-Hilaire não lhe menciona o nome, não temos ideia quanto a ser ele de fato diplomado ou não. O que Saint-Hilaire talvez não tenha considerado é que, no Brasil daqueles tempos (primeira metade do século XIX) havia pouquíssimos médicos com a devida formação e o povo, em geral, chamava "cirurgião", a qualquer indivíduo que se apresentasse dizendo ser capaz de aplicar medicamentos ou realizar procedimentos como tratar feridas, extrair dentes ou efetuar as famosas "sangrias" (que por si sós, já dariam uma postagem). Era, inclusive, nada incomum que barbeiros exercessem essas funções. Não é, pois, espantoso, que pessoas sem qualquer instrução formal em medicina fizessem seus "tratamentos", misturando crendices populares a supostos fármacos. A propósito, há sobre isso uma interessantíssima imagem de Debret (veja abaixo), na qual é retratada a loja de um barbeiro, cuja placa indica também serviços de "dentista" e "sangrador" (³).

Loja de barbeiro, segundo Debret (³), na qual também se ofereciam serviços
de "dentista" e "sangrador"

(1) Veja a postagem Superstições no Brasil - Parte 1: Casa mal-assombrada
(2) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, pp. 31 e 32.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Carros de bois - Parte 1

O uso de carros de bois no Brasil


"O caminho barrento, pegajoso e úmido, cheio de sulcos de carro de boi, desprendia um cheiro de lama e estrume. Da estrada pelo morro acima o terreno era inculto, coberto de matapasto crescido, e sobre ele se viam bois agitando com o movimento inquieto das cabeças a sineta que traziam ao pescoço, bufando e catando insofridos a erva."
                                                                                                                                   Graça Aranha, Canaã
 
Carro de bois, de acordo com Debret (¹)

Durante muito tempo - séculos, na verdade - cargas de todos os tipos foram, no Brasil, transportadas em carros de bois. Isso, claro, quando havia algum caminho praticável, porque não havendo, era às costas de escravos, negros ou índios, que as cargas seguiam, fosse rumo ao interior (como no Caminho do Mar), fosse para algum porto, onde eram embarcadas em navios que para isso mesmo já lá estavam.
Vejamos um exemplo. Ao descrever Icó, no Ceará, o Padre Ayres de Casal, depois de relatar que produzia arroz, milho, feijão, melancias e melões, diz que, no entanto, farinha, açúcar e rapadura, bem como sal, provinham de outros lugares: "A farinha, açúcar e rapaduras vêm-lhe do Crato, o sal do Açu, tudo em carros." (²)
E, se tudo isso vinha em carros, lá vinham também os bois, que puxavam os carros... Afinal, de que outro modo seria?
Além disso, várias juntas de bois podiam ser usadas em um único carro, de modo a ampliar a capacidade de transporte de carga mesmo em terrenos difíceis. Ou, pelo andar lento e cadenciado dos bovinos, podia um carro ser usado para o transporte de passageiros, em particular para moças e senhoras que, antigamente, não eram incentivadas a exercitar habilidades atléticas.

Família de fazendeiro viajando em carro de bois, de acordo com Rugendas (³)

Não se imagine, porém, que carros de bois eram usados apenas em estradas, ou em algo que se parecesse com elas. Nas ruas das cidades e vilas também se podia ouvir o ruído característico das rodas dos carros.
O advento das ferrovias e, um pouco depois, dos automóveis, foi, aos poucos, lançando os carros de bois no desuso, pelo menos na maior parte do Brasil. Havia sempre, porém, quem preferisse carros de bois aos trens, conforme se depreende deste trechinho de Coelho Neto em A Bico de Pena:
"Quem viaja a cavalo ou em carro de bois sente um alegrão doido quando vê na estrada ao longe, outro cavaleiro ou quando ouve o rincho de outro carro de bois; e no trem? Se a gente vê vir, na mesma linha, outro comboio em sentido contrário, só tem uma coisa a fazer: é encomendar a alma ao Criador, porque está frito."

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 2. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 230.
(3) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O que era "bando", antigamente

O que é bando? Dependendo do contexto, pode ser um grupo de aves em revoada, ou uma dúzia de guris descendo a rua após as aulas, além de muitas outras coisas... Quando jogadores de futebol atuavam mal, sem qualquer cooperação entre si, meu pai dizia que eram um bando em campo, não uma equipe. Os exemplos nos dicionários seguem mais ou menos a mesma linha.
Se mudássemos, no entanto, a pergunta, e em lugar de "o que é" viesse "o que era um bando?", o significado poderia, também, ser um outro: antigamente, quando não havia métodos mais eficazes para comunicar ao povo de uma cidade alguma nova lei ou decisão dos governantes, lançava-se um bando, ou seja, uma pequena procissão, quase sempre acompanhada de fanfarra, que percorria a localidade, fazendo paradas em vários lugares, aos quais a população acorria para ouvir ler as ordens ou leis que se divulgavam. É o que se vê neste trechinho da Nobiliarchia Paulistana, escrita no século XVIII por Pedro Taques de Almeida Paes Leme: "...e como já tinha mandado lançar bando a som de caixas no Rio de Janeiro, prometendo o perdão em nome de Sua Majestade aos delinquentes..."
Já na primeira metade do século XIX, Debret (*) registrou o "Bando ou Proclamação Municipal" nesta imagem:

 
(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 3. Paris: Firmin Didot Frères, 1839. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

terça-feira, 3 de julho de 2012

O uso do algodão pelos tupinambás, de acordo com Hans Staden

Algodão, de acordo
com Debret (*)
Hans Staden, em sua permanência nada voluntária entre os índios tupinambás, observou que seus hospedeiros praticavam o cultivo de alguns vegetais, tais como mandioca e pimenta, além de algodão. A variedade de algodão cultivada era, segundo ele próprio descreveu, arbustiva e ramosa. Podia chegar a ter cerca de dois metros de altura, não havendo erro na interpretação da medida antiga que empregou. Dava botões que, uma vez amadurecidos, se abriam, revelando o branco algodão, preso às sementes.
Em Zwei Reisen nach Brasilien (edição de Marburg, 1557) Staden assevera que os tupinambás, no que se refere ao vestuário, usavam simplesmente pinturas e adornos, principalmente de penas coloridas. Por que motivo, então, davam-se ao trabalho de cultivar algodão?
Isso se explica pelo fato de as fibras de algodão terem outros usos, dentre os quais Hans Staden menciona um: usavam-nas para a fabricação das redes nas quais dormiam.

(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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terça-feira, 1 de maio de 2012

Uma embarcação chamada pelota

Sabe o que é pelota? No sentido a ser usado nesta postagem, poderia ser definida como uma embarcação improvisada, feita geralmente de couro de boi. Quem a descreve com mais detalhes é Saint-Hilaire, que precisou servir-se de uma ao passar de uma margem a outra do rio Butuí. Ele é quem conta, com uma pitada de humor, a despeito da rabugice habitual:
"Ao nascer do dia, começamos a descarregar a carroça, e minhas bagagens passaram para uma piroga improvisada, tão em uso na Capitania de Montevidéu e de Rio Grande, onde não há ponte.
A pelota, nome dado a estas pirogas, é simplesmente um couro cru ligado nas quatro pontas e que, desse modo, forma um barco que se pode confundir, pela aparência, com as sacolas de papel onde se põem biscoitos. Enche-se a pelota de objetos, ata-se nela uma corda ou tira de couro; um homem, a nado, prende a corda entre os dentes e faz passar assim a piroga. Para facilitar o trabalho, meus homens estenderam uma corda de um lado a outro do rio, com a intenção de ajudá-los na travessia a nado. Eu mesmo atravessei o rio sentado numa pelota e cheguei felizmente à outra margem, bem como as minhas bagagens e a carroça. Matias, José Mariano e Firmiano ajudaram, alternadamente, a pelota a passar." (¹)
Um fato interessante é que Debret também deixou um registro desse tipo de embarcação, não em palavras, mas em uma bela imagem, que pode ser vista abaixo.

Embarcação feita com couro de boi, de acordo com Debret (²)

Tanto Saint-Hilaire quanto Debret estiveram no Brasil quando o período colonial se encerrava, e o país estreava como nação independente. Nesse tempo, a pelota tinha uso em muitos lugares, já que permitia que rios sem pontes fossem atravessados por viajantes. Era uma embarcação compatível com as condições muitas vezes difíceis do povoamento da América do Sul - os transportes, por qualquer método então disponível, eram precários, e as viagens, muito perigosas. Quem tinha de percorrer distâncias consideráveis devia arriscar-se pelas péssimas trilhas existentes (quando existiam...) submetendo-se às condições abjetas que reinavam na maior parte dos pousos de tropeiros, quase os únicos lugares em que era possível aos viajantes encontrar abrigo à noite ou em caso de tempestades.

(1) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 327.
(2) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 15 de abril de 2012

A visão da costa do Brasil, por viajantes de antigamente

"Neste dia", escreveu Pero Vaz de Caminha, referindo-se à data de 22 de abril do ano de 1500, "a horas de véspera, houvemos vista de terra. Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo, e doutras serras mais baixas ao sul dele, e de terra chã, com grandes arvoredos. Ao monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal, e à Terra, a Terra de Vera Cruz". Embora seja perfeitamente possível que Cabral e seus companheiros de expedição não tenham sido os primeiros europeus, talvez sequer os primeiros portugueses que puseram os pés em terras brasileiras, é esse, no entanto, o primeiro relato formal que temos, ao que até agora se conhece, descrevendo o avistar do litoral brasileiro.
Da segunda metade do século XVII temos o registro feito pelo missionário Padre Simão de Vasconcelos, segundo o qual a impressão de navegadores e cosmógrafos a respeito do aspecto da costa do Brasil era esta:
"Quanto à vista exterior aos que vêm de mar em fora, depuseram aqueles capitães e cosmógrafos que não viram coisa igual no universo todo à perspectiva desta nova terra, porque ao longo parece uma glória o avultar dos montes e serranias, com tal compostura e altura que representam formar muito para ver, e sobem, parece, à região segunda do ar, levando consigo os olhos e os corações ao céu. À meia vista começa a aparecer o alegre dos bosques, campos e arvoredos, verdes sempre, e sempre aprazíveis. Mais ao perto, alvejam as praias formosas, e vão logo aparecendo nelas uma imensidade de portos, barras, enseadas, rios e ribeiras despenhadas, e com tão grande variedade, que é um espanto da natureza. De tudo disseram alguma coisa, que tudo não lhes era possível." (¹)
Infelizmente, há pouquíssimas imagens dos primeiros tempos coloniais, e o pouco que existe é grandemente devido aos artistas holandeses que andaram pelo Brasil à época do governo de Nassau. Somente no século XIX, quando a paisagem, ao menos na faixa litorânea, já havia sofrido importantes modificações, é que houve maior preocupação em fixar, através de desenhos, aquarelas ou gravuras, por exemplo, o que se via em terras do Brasil. Embora tardias, essas imagens são significativas por nos permitirem um estudo, por comparação, de transformações posteriores resultantes do processo de ocupação do território. Nas últimas décadas do século XIX os meios informativos tornaram-se mais abundantes, à medida que a fotografia passou a integrar o arsenal de  recursos disponíveis  para o registro de acontecimentos e lugares. Assim justapostos, desenhos, aquarelas e fotografias nos permitem analisar as graduais alterações na paisagem brasileira, principalmente em áreas de grande urbanização.
Para que se tenha ideia do que isso significa, estão a seguir três imagens, todas da primeira metade do século XIX (editadas para melhor visualização), conforme o registro por três diferentes artistas.

Vista do litoral da Bahia, por Rugendas (²)

Vista do alto do Corcovado, Rio de Janeiro, por Thomas Ender (³)

Vista da entrada da baía do Rio de Janeiro, por Debret (⁴)

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, pp. 28 e 29.
(2) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. 
O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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