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quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Taipa de pilão e taipa de mão

É muito comum, em autores do Período Colonial, a referência a construções que eram feitas de taipa. O Padre Anchieta, por exemplo, ao tratar das fortificações que se faziam no Rio de Janeiro na luta contra os franceses (que também queriam ficar por lá), informou que "...tinham já feito um baluarte mui forte de taipa de pilão com muita artilharia dentro, com quatro ou cinco guaritas de madeira e taipa de mão, todas cobertas de telha que trouxe de São Vicente, e faziam-se outras e outros baluartes, e os índios e mamelucos faziam já suas casas de madeira e barro, cobertas com umas palmas feitas e cavadas como calhas e telhas, que é grande defensão contra o fogo." (¹) Essa carta, datada de 9 de julho de 1565, tendo o Padre Diogo Mirão como destinatário, foi escrita estando Anchieta na Bahia.
Já no Século XIX, o Padre Ayres de Casal observou, sobre os edifícios da cidade de São Paulo de seus dias, que eram "quase geralmente de taipa, isto é, de terra como greda acalcada entre duas pranchas, e branqueadas com tabatinga." (²) Antes de prosseguir, talvez seja útil lembrar que tabatinga é um tipo de argila que, naqueles dias, era comumente empregada para pintura de paredes, se não houvesse cal disponível.
Fragmento de construção em taipa de mão (pau a pique)
Ora, que coisa, afinal, é a taipa, à qual fazem referência tanto Anchieta quanto Ayres de Casal?
A chamada "taipa de pilão", empregada em construções de maior porte, consistia em argila que, posta em caixas, era socada até tornar-se uma massa muitíssimo resistente. Não há aqui exagero nenhum: construções de taipa de pilão (como igrejas, por exemplo, dos Séculos XVII e XVIII) têm chegado em boa forma até hoje, e isso sempre enfrentando as adversidades climáticas. Já a "taipa de mão", mais conhecida no Sudeste do Brasil como pau a pique, era frequentemente empregada para a construção de pequenas residências. As paredes eram feitas a partir de grades de madeira fixadas no solo e devidamente preenchidas com argila. Em localidades do interior do Brasil ainda é possível encontrar casas feitas de acordo com essa técnica.
Tanto a taipa de pilão quanto a de mão não são técnicas desenvolvidas no Brasil. Elas foram trazidas pelos colonizadores portugueses e, como é lógico, adaptadas para uso local. Podem ser encontradas em muitos lugares do mundo, já que requerem pouco material e o resultado, principalmente no caso da taipa de pilão, é bastante satisfatório.

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 253.
(2) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 234.


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terça-feira, 8 de abril de 2014

Guarás


Guará, em ilustração
 do Século XVII (²)
Guarás, aqui, é bom esclarecer, não são os "lobos", e sim aves litorâneas, de penas vermelhas (Eudocimus ruber), que causaram forte impressão nos colonizadores europeus. Há, por exemplo, o relato é do Padre Fernão Cardim, que acompanhou o visitador jesuíta, Padre Cristóvão Gouvêa, em suas viagens pelo Brasil, e refere-se a acontecimento do ano de 1585:
"Ao dia seguinte, depois de jantar, partimos para São Vicente, e caminhando três léguas por um grande e formoso rio cheio de uns pássaros vermelhos que chamam guará, dos formosos desta terra, os quais são como pegas; os bicos são de um bom palmo e na ponta revoltos, e têm mui compridas pernas; [...]. Vivem junto d'água salgada e nela se criam e sustentam." (¹)
Já no Século XIX, outro clérigo, o Padre Ayres de Casal, iria escrever em sua Corografia Brasílica:
"Os formosos guarás, que são numerosíssimos na proximidade do mar, onde só habitam, quando pousam em bando sobre alguma árvore seca ou despida de folhas, esta fica vistosíssima." (³)
Mas acrescentaria esta nota, obviamente triste:
"As espingardas têm feito maior destruição nestes viventes em três séculos do que as taquaras dos indígenas em toda a antiguidade." (⁴)

Um glorioso descendente das aves que sobreviveram às taquaras e às espingardas

(1) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 98 e 99.
(2) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 203.
(3) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 2. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, pp. 262 e 263.
(4) Ibid., p. 263.


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quarta-feira, 17 de julho de 2013

Guará, o "lobo" da América do Sul

Lobo-guará
(isto seria um sorriso... Ou não?

Talvez estivesse com sono...)
O guará (Chrysocyon brachyurus) não é, tecnicamente, um lobo (Canis lupus), embora desde os primeiros tempos da colonização, em virtude de algumas aparentes semelhanças, tenha sido chamado de lobo-guará. Sem pretensões a rigor científico, o Conde de Azambuja, que viajou em uma monção pelo Tietê e outros rios, durante o Século XVIII, registrou, quando da passagem pelo rio Pardo:
"A 17 se matou um lobo, que era do tamanho de um cão ordinário, e pelo avermelhado, a cabeça mais curta, a boca menos rasgada, e os dentes mais pequenos que os nossos costumam ter; e também parece não serem tão sagazes, porque o mataram à queima-roupa, parado de um perdigueiro, e quieto." (¹)
Vale notar, porém, que o Conde faz referência à sagacidade atribuída aos lobos cinzentos (veja a postagem anterior) e, em seu entendimento, o guará não se lhes equiparava neste atributo. Mas não é só. Ao lado de muitas outras dessemelhanças, cumpre notar que o guará tem hábitos solitários. Não se verá, por aí, nenhuma alcateia de guarás...
Em obra publicada na segunda década do Século XIX, o Padre Ayres de Casal também mencionou o guará, apontando, igualmente,  algumas distinções entre ele e os lobos conhecidos na Europa:
Crânio de lobo-guará (⁵)
"O guará tem a figura do lobo, com a diferença de uma pequena clina das espáduas até o coruto inclinada para diante; só se encontram nas províncias centrais, onde não são numerosos, nem tão daninhos como a sua espécie na Europa (²), sendo contudo roubadores de bezerrinhos; em algumas partes não duvidam chamar-lhe lobo; estimam-se-lhe a pele e os dentes." (³)
Estimam-se-lhe a pele e os dentes!!! Neste caso, as eventuais semelhanças entre o guará e os lobos devem ter valido ao pobre canídeo da América do Sul a perseguição implacável que a legislação do Reino fomentava, mediante premiação à caça, que se movia aos lobos de Portugal, conforme se mencionou na postagem anterior. Não se espanta, pois, que já no começo do século XIX, Ayres de Casal dissesse não serem os guarás muito numerosos.
A caça ao guará podia, também, ser motivada, digamos, por interesse científico, conforme se depreende deste relato de Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff, realizada entre 1825 e 1829:
"Fez-se alto de jantar às 10 horas, para ter tempo de empalhar um lobo que fora morto à bala. Era do tamanho dos da Europa e estava bastante magro, prova de que apesar da abundância de veados e caititus, cuja carne é deliciosa, pouco achava que comer." (⁴)

Lobo-guará

Sim, meus leitores, mais uma evidência de que a vida destes animais não era nada fácil. E continua a não ser. Não são raras, atualmente, as notícias na imprensa de São Paulo, relativas a guarás atropelados e mortos nas rodovias que cruzam o Estado. É que, em busca de alimento, esforçam-se por ir de um pequeno trecho de mata a outro (nas poucas áreas florestadas que ainda restam) em meio às imensas extensões cultivadas e/ou habitadas e, para isso, arriscam-se à morte, principalmente nas horas da noite, quando acabam atingidos por algum veículo. Já se sugeriu que a existência de "corredores verdes" entre as áreas de mata poderia ser útil à preservação de uma grande variedade de espécies, e não apenas de guarás. Seja como for, é inegável que a crescente urbanização e expansão agrícola, sem o necessário planejamento em termos de preservação ambiental tem feito muitas vítimas, sendo o guará uma dentre elas.

(1) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 204.
(2) Está claro que Ayres de Casal não tinha qualquer compreensão quanto à taxonomia do guará e do lobo cinzento, daí supor, erroneamente, que pudessem ser da mesma espécie.
(3) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, pp. 63 e 64.
(4) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 60.
(5) O esqueleto de guará aqui retratado pertence ao acervo do Museu de História Natural de Itapira - SP.


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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Tatus

Pra falar a verdade, acho repugnante a mania de ver os animais simplesmente como recurso para as panelas, mas é preciso admitir que, à vista dos colonizadores europeus que vieram viver no Brasil, era importante e até indispensável um conhecimento de que coisas eram "comestíveis", já que a sobrevivência na América dependia, ao menos em parte, desse saber. Nisso, os povos indígenas do Brasil eram excelentes mestres, dominando, com igual eficiência, diferentes métodos de caça. E, a crermos no que escreveram autores dos séculos XVI e XVII, a mais apreciada dessas refeições ambulantes eram os tatus.
Tatu ("Dattu"), de acordo com Hans Staden (¹)
Hans Staden, o aventureiro alemão que andou pela América do Sul por meados do século XVI (¹), referiu-se ao "Dattu", animalzinho dotado de uma armadura que em tudo lembrava aquelas usadas por guerreiros medievais, com uma couraça que lhe cobria as costas, firme e resistente como um chifre. Deixou bem claro que havia provado sua carne muitas vezes.
Também Pero de Magalhães Gândavo, que queria incentivar a vinda de portugueses ao Brasil, observou:

Tatu-Galinha (Dasypus novemcinctus) (⁵)
"Uns bichos há nesta terra que também se comem e se têm pela melhor caça que há no mato. Chamam-lhes tatus, são tamanhos como coelhos e têm um casco à maneira da lagosta como de cágado, mas é repartido em muitas juntas como lâminas; parecem totalmente um cavalo armado, têm um rabo do mesmo casco comprido, o focinho é como de leitão, e não botam mais fora do casco que a cabeça, têm as pernas baixas e criam-se em covas, a carne deles tem o sabor quase como de galinha. Esta caça é muito estimada na terra." (²)

Tatu-Peba (Euphractus sexcinctus) (⁵)
Finalmente, Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (³), observou:
"Há tatus, a que os espanhóis chamam armadillos, porque são cobertos de uma concha não inteiriça como a das tartarugas, mas de peças a modo de lâminas, e sua carne assada é como de galinha."
Notaram, senhores leitores, quantas comparações?
Concha semelhante a armadura, casco de tartaruga, como lagosta, focinho de leitão, semelhante a cavalo armado, carne como a de galinha... É que diante da surpreendente diversidade natural da América, os autores viam-se às voltas com palavras que pareciam por vezes insuficientes para uma descrição acurada, daí a necessidade de apontar similaridades, que dessem à gente da Europa alguma ideia daquilo que se queria descrever. Em alguns casos, só mesmo um bom desenho para ajudar, como é o caso deste que aparece na Historia naturalis Brasiliae, de Willen Piso e Georg Markgraf:

Tatu, de acordo com a Historia naturalis Brasiliae (Piso e Markgraf) (⁴)
 
(1) Hans Staden escapou, por muito pouco, de também ele virar refeição. Veja-se: STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.
(2) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, pp. 61 e 62.
(3) O manuscrito foi concluído por volta de 1627.
(4) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 231. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) Os tatus fotografados para esta postagem pertencem ao acervo do Museu de História Natural de Itapira - SP (tatu-galinha) e do Museu do Eucalipto, em Rio Claro - SP (tatu-peba), este último novamente aberto ao público, depois de um longo tempo fechado. Se puder, visite!


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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Formigas, mosquitos, piolhos e outros bichos

Já tratei neste blog do medo que tinham os colonizadores tanto de grandes felinos quanto das serpentes que encontravam no Brasil. Ocorre que, quase tão temidos quando e, talvez até mais odiados, havia insetos que tornavam difícil a vida dos europeus que se aventuravam em busca da sobrevivência na Colônia.
É só uma formiguinha...
Ainda no século XVI, Pero de Magalhães Gândavo observou:
"Toda esta terra do Brasil é coberta de formigas pequenas e grandes, estas fazem algum dano às parreiras dos moradores, e às laranjeiras que têm nos quintais; e se não foram estas formigas houvera porventura muitas vinhas no Brasil ainda que lá são pouco necessárias porque deste Reino vai tanto vinho que sempre a terra dele está provida. Também há muita infinidade de mosquitos, principalmente ao longo de algum rio entre umas árvores que se chamam mangues, não pode nenhuma pessoa esperá-los; e pelo mato quando não há viração são muito sobejos e perseguem muito a gente." (¹)
Deixando de lado essa história da quantidade de vinho que vinha ao Brasil (!), deve-se notar que, em alguns casos, os insetos, além das incômodas picadas, eram transmissores de doenças que, pouco conhecidas dos europeus, causavam estragos entre a população, mesmo porque as práticas médicas da época não eram muito eficazes.
Vale recordar: Gândavo dizia escrever para estimular a vinda de colonos ao Brasil...
Duzentos e tantos anos depois, o Padre Ayres de Casal, louvando as virtudes da cidade de Belém (Pará), observou: "Há poucos dos insetos que se introduzem no corpo humano." (²)
Para os leitores que já sentem coçar até o cérebro, só resta dizer que havemos de prosseguir. Sim, piolhos, foi deles que falou Saint-Hilaire em sua Segunda Viagem a São Paulo, datada de época próxima à da Independência. O trecho refere-se ao Vale do Paraíba:
"Paramos no sítio de um agricultor que nos permitiu, muito delicadamente, pousássemos em sua casa. Está coberta de telhas, é a melhor que vimos depois de Jacareí. Entretanto, veste-se seu dono, tal qual os demais roceiros: camisa e calção de algodão. Não parece mais inteligente e ativo do que o resto de seus compatriotas, e enquanto conversava comigo catava piolhos à cabeça e matava-os sem cerimônia.
Em nenhuma outra parte do Brasil tal sevandija é tão frequente quanto aqui. As crianças e mulheres têm a cabeça cheia. Veem-se umas e outras a matarem reciprocamente os piolhos, tranquilamente sentadas à soleira das portas e não pensando em interromper tal ocupação quando os transeuntes as encaram." (³)
Saint-Hilaire não percorreu todo o Brasil, portanto essa observação de que havia ali mais piolhos que em outros lugares somente poderia valer para as regiões que visitou. Mas vamos logo terminar, que o que se tem até aqui já é de provocar calafrios.
Outro viajante, Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff (1825 - 1829), anotou em seu diário, como parte do relatório sobre o encontro com índios apiacás, na região do rio Juruena:
"Como nós, tinha aquela pobre gente o rosto, as mãos e os pés, não só pintados de picadas de piuns (inseto alado também chamado mosquito-pólvora, porque em tamanho não excede o de um grão de pólvora), senão também cobertos de feridas provenientes dessas ferroadas. Mais fazem sofrer outros insetos também alados, mas de maior tamanho, os borrachudos, porque a parte do corpo tocada inflama-se logo, sobrevindo tal prurido que é de coçar-se até verter sangue. Vieram-nos martirizando desde o rio Preto.
Por toda a parte víamo-nos cercados de nuvens desses malfazejos bichinhos, entrando-nos pelos olhos, nariz, orelhas e boca, nas horas de refeição. Malgrado o excessivo calor, cobríamo-nos todos, e ainda assim era preciso estar agitando o dia inteiro um pano ou um espanador de penas para afugentá-los. Com a noite desaparecem, mas voltam, mal raia a madrugada, para recomeçarem a diabólica tarefa.
Por vezes causaram-nos essa praga e a febre acessos de raiva e recriminações inconvenientes." (⁴)
Nem era preciso dizer, não é mesmo? Imprecações, neste caso, eram compreensíveis e mais que perdoáveis. E depois ainda há quem imagine tais expedições como aventuras românticas!

(1) GÂNDAVO, Pero de. Magalhães Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p. 72.
(2) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 2. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 299.
(3) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 96.
(4) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, pp. 225 e 226.


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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O lugar ideal para uma universidade no Brasil

Ao contrário das colônias espanholas na América, que cedo tiveram suas respectivas universidades, o Brasil, colônia portuguesa, não teve nenhuma, não apenas antes da Independência, mas mesmo em todo o Império, ainda que cursos superiores hajam sido criados a partir da chegada de D. João e toda a Família Real lusitana ao Brasil, em 1808.
Todavia, desde esses tempos que antecederam a emancipação política já se discutia a conveniência da implantação de uma universidade em solo brasileiro. Quem queria, de fato, estudar, precisava deslocar-se até alguma das universidades europeias, o que já reduzia bastante o número de candidatos, fosse pela distância ou, principalmente, pelos altos custos que deviam ser assumidos.
Onde, porém estabelecer uma universidade, em território tão vasto, de modo a contentar os potenciais estudantes, sem ferir sensibilidades políticas regionais?
Os inconfidentes de Minas tinham sugerido que Ouro Preto era um ótimo lugar; o Rio de Janeiro parecia, por outro lado, uma escolha natural, já que era a capital do Brasil e, naquele momento, hospedava D. João VI e todo o seu séquito, além de ser uma cidade populosa - para os padrões da época, claro.
O Padre Ayres de Casal tinha, porém, outras ideias. Para ele, São Paulo era a cidade ideal para a implantação de uma universidade.
Por quê?
Era a cidade mais populosa do Brasil?
Não.
Era de fácil acesso?
Também não.
Era a mais rica, economicamente falando?
Ainda não.
Escreveu ele, em sua Corografia Brasílica:
"A salubridade e temperamento do clima, a abundância e barateza dos víveres, fazem julgar que se lhe dará preferência para a premeditada fundação da Universidade, que lhe dará crescimento, lustre, comércio e celebridade." (¹)
E acrescentou, mostrando preocupação com a saúde não só dos futuros estudantes, como também dos livros:
"Os corpos têm aqui mais vigor para a aplicação, e os insetos danificam menos as bibliotecas." (²)
A tal universidade, no entanto, ficou apenas nos planos. Levaria ainda muito tempo para que as primeiras universidades, dignas, de fato, de serem assim denominadas, se concretizassem.

(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 236.
(2) Ibid.


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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A produção de frutas de origem europeia e asiática no Rio Grande do Sul na primeira metade do Século XIX

Referindo-se ao Rio Grande do Sul, o Padre Ayres de Casal escreveu, em obra publicada em 1817:
"As árvores frutíferas da Europa meridional prosperam aqui melhor que as comuns dentre os trópicos; nenhumas são tão fecundas e tão prodigiosamente multiplicadas como os pessegueiros. A videira frutifica com abundância e perfeição, mas o vinho não merece ainda o nome de passageiro; também ainda não se fizeram as diligências para o melhorar." (¹)
Concordando com ele, seu contemporâneo, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, com a experiência de seus conhecimentos de Botânica, aliada ao fato de estar presente à região descrita, observou, em relação às adjacências de Porto Alegre:
"As amendoeiras, os pessegueiros, as ameixeiras, as macieiras, as pereiras e as cerejeiras desenvolvem-se muito bem nos arredores de Porto Alegre, produzindo bons frutos; mas só um número reduzido de pessoas se dedica a essas plantações e, em geral, as espécies trazidas para aqui são de qualidade inferior. Plantaram-se algumas oliveiras que produziram muito bons frutos, mas em pequena quantidade. A vinha medra muito bem; há quem fabrique vinho, mas de qualidade inferior e sem aceitação." (²)
Voltaria, mais tarde, a tratar do cultivo de oliveiras:
"As oliveiras dão muito bem nos arredores de Porto Alegre e, ali, pude comer deliciosas azeitonas; contudo, não passam de objeto de curiosidade; mas quando a população aumentar e o número de propriedades tornar-se maior, a cultura da oliveira poderá vir a ser para esta região uma nova fonte de renda." (³)
Ora, como todo mundo sabe, as oliveiras são, mesmo hoje, de pequeno cultivo no Brasil, embora experiências significativas estejam produzindo alguns bons resultados. Já é possível encontrar no mercado azeite de muito boa qualidade, de produção integralmente brasileira, embora esteja, pela escala diminuta em que se produz, ainda restrito ao âmbito de uma curiosidade - como as azeitonas que o naturalista francês provou. Já quanto aos vinhos, não se pode dizer o mesmo. O progresso tem sido notável.
Acertadamente observou Saint-Hilaire: "A falta de braços impede atualmente que os brasileiros aproveitem todos os recursos que o país oferece, mas será bom que os conheçam, para que possam aproveitá-los no momento oportuno." (⁴) Note-se que esse conselhinho nada desprezível se escreveu no início do terceiro decênio do século XIX.

(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 119.
(2)SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 58.
(3) Ibid., p. 77.
(4) Ibid.


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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

As secas no Nordeste brasileiro e o Dia de Santa Luzia

As secas que ocorrem de tempos em tempos no Nordeste brasileiro chamaram a atenção de diversos autores desde a época colonial. À medida que exploradores rompiam a "regra" de ocupar apenas o litoral, alguns chegaram a encontrar lugares muito diferentes daquilo que constituía a verdejante paisagem litorânea. E, já no século XIX, o Padre Ayres de Casal iria observar, em relação à Bahia:
"Por toda a parte se cria gado vacum, que seria mais que suficiente para o consumo de toda a Província, se houvesse inverno (¹) e as trovoadas fossem regulares no verão. Já dissemos que os invernos do beira-mar não se estendem a mais de trinta léguas para o interior do Continente, onde só chove havendo trovoadas e proporcionalmente a elas, as quais de ordinário não são abundantes e às vezes quase falham de todo em partes do Norte. O sol duas vezes vertical sobre cada lugar deixa a terra como calcinada: chovendo, o chão cobre-se de erva em poucas semanas e o gado engorda, mas logo que a seca aperta, a verdura desaparece, e os animais só pastam a rama dos arbustos que a conservam, e vão tenteando, tendo água; se os tanques, que as trovoadas encheram, e as torrentes secam, há mortandades." (²)
O mesmo terrível fenômeno da seca foi descrito por Capistrano de Abreu em seus célebres Capítulos de História Colonial:
"[...] Secam os rios, exceto em alguns poços e depressões, murcham os pastos, permanecem nuas as árvores, sucumbe o gado à sede ou à inanição, e a gente morre à fome quando só dispõe dos recursos locais. A necessidade de lutar contra a calamidade inspirou a construção de açudes, a cultura das vazantes, a retirada do gado, a distribuição de ramas para alimentá-lo, as grandes levas de retirantes." (³)
Já se assinalou que parece haver uma certa periodicidade nas secas que afetam o Nordeste - não estritamente exata, por suposto, mas obedecendo a uma lógica ainda não totalmente compreendida. O sertanejo, por sua vez, o grande afetado pelo drama da falta de chuvas, esse intentou um pequeno "experimento", com o qual se supôs prever o futuro, a ser realizado na noite que antecede o dia de Santa Luzia, 13 de dezembro. A descrição de Euclides da Cunha em Os Sertões é simples e precisa:
"No dia 12 ao anoitecer expõe ao relento, em linha, seis pedrinhas de sal, que representam, em ordem sucessiva da esquerda para a direita, os seis meses vindouros, de janeiro a junho. Ao alvorecer de 13 observa-as: se estão intactas, pressagiam a seca; se a primeira apenas se deliu, transmudada em aljôfar límpido, é certa a chuva em janeiro; se a segunda, em fevereiro; se a maioria ou todas, é inevitável o inverno benfazejo."
Ninguém imagine que semelhante teste pode, de fato, prever as condições climáticas com rigor científico. É parte da tradição local, e ainda há quem creia nele. Entretanto, séculos têm transcorrido e, novamente, os meios de comunicação têm noticiado, a todo instante, fatos relacionados à seca neste ano. A despeito dos grandes avanços nos conhecimentos meteorológicos, nada consegue, ainda, realizar aquilo que o sertanejo sempre almejou com a Prova de Santa Luzia. Chega a ser irritante, porém, que tanto tempo se passe, tantas obras contra a seca sejam anunciadas, e chegada a seca, novamente, as calamidades se repitam. Não haverá, mesmo, nada mais definitivo que se possa fazer?
 
(1) Aqui inverno não é uma das quatro estações em que tradicionalmente se divide o ano, mas uma referência à temporada de chuvas.
(2) AYRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica, vol. 2. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 133.
(3) ABREU, J. Capistrano de. Capítulos de História Colonial: 1500 - 1800. Brasília, Ed. Senado Federal, 1998, pp. 18 e 19.


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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Carros de bois - Parte 1

O uso de carros de bois no Brasil


"O caminho barrento, pegajoso e úmido, cheio de sulcos de carro de boi, desprendia um cheiro de lama e estrume. Da estrada pelo morro acima o terreno era inculto, coberto de matapasto crescido, e sobre ele se viam bois agitando com o movimento inquieto das cabeças a sineta que traziam ao pescoço, bufando e catando insofridos a erva."
                                                                                                                                   Graça Aranha, Canaã
 
Carro de bois, de acordo com Debret (¹)

Durante muito tempo - séculos, na verdade - cargas de todos os tipos foram, no Brasil, transportadas em carros de bois. Isso, claro, quando havia algum caminho praticável, porque não havendo, era às costas de escravos, negros ou índios, que as cargas seguiam, fosse rumo ao interior (como no Caminho do Mar), fosse para algum porto, onde eram embarcadas em navios que para isso mesmo já lá estavam.
Vejamos um exemplo. Ao descrever Icó, no Ceará, o Padre Ayres de Casal, depois de relatar que produzia arroz, milho, feijão, melancias e melões, diz que, no entanto, farinha, açúcar e rapadura, bem como sal, provinham de outros lugares: "A farinha, açúcar e rapaduras vêm-lhe do Crato, o sal do Açu, tudo em carros." (²)
E, se tudo isso vinha em carros, lá vinham também os bois, que puxavam os carros... Afinal, de que outro modo seria?
Além disso, várias juntas de bois podiam ser usadas em um único carro, de modo a ampliar a capacidade de transporte de carga mesmo em terrenos difíceis. Ou, pelo andar lento e cadenciado dos bovinos, podia um carro ser usado para o transporte de passageiros, em particular para moças e senhoras que, antigamente, não eram incentivadas a exercitar habilidades atléticas.

Família de fazendeiro viajando em carro de bois, de acordo com Rugendas (³)

Não se imagine, porém, que carros de bois eram usados apenas em estradas, ou em algo que se parecesse com elas. Nas ruas das cidades e vilas também se podia ouvir o ruído característico das rodas dos carros.
O advento das ferrovias e, um pouco depois, dos automóveis, foi, aos poucos, lançando os carros de bois no desuso, pelo menos na maior parte do Brasil. Havia sempre, porém, quem preferisse carros de bois aos trens, conforme se depreende deste trechinho de Coelho Neto em A Bico de Pena:
"Quem viaja a cavalo ou em carro de bois sente um alegrão doido quando vê na estrada ao longe, outro cavaleiro ou quando ouve o rincho de outro carro de bois; e no trem? Se a gente vê vir, na mesma linha, outro comboio em sentido contrário, só tem uma coisa a fazer: é encomendar a alma ao Criador, porque está frito."

(1) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 2. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 230.
(3) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 30 de setembro de 2012

Gente de má fama

"Os paulistas de hoje", escreveu o Padre Ayres de Casal no início do século XIX, "passam por uma boa gente; mas seus avoengos não o foram certamente." (¹) O que é que fazia o padre escritor ter deles opinião tão desfavorável?
A resposta vem com facilidade: era guiada pelo estigma de que paulistas eram a mesma coisa que bandeirantes, e estes, tidos como pouco melhores que demônios, principalmente por parte dos religiosos, que muito tempo depois ainda não esqueciam o desaforo de terem os jesuítas sido expulsos de São Paulo em 1640, quando o confronto entre padres e colonizadores, a respeito da escravização de índios, chegou ao auge.
Já o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire parecia ver as coisas de outro modo, com seu olhar de estrangeiro, (ao menos para esse propósito)  algo mais imparcial, ainda que contemporâneo de Ayres de Casal:
Monumento em Santana de Parnaíba que 
homenageia os 
bandeirantes que expandiram
os limites do território brasileiro (³)
"Sem nenhuma razão têm sido considerados como um vil ajuntamento de bandidos os primeiros habitantes da referida colônia, quando é certo que entre os companheiros de Martim Afonso contavam-se fidalgos de Portugal e da ilha da Madeira; todos, entretanto, deveriam, naturalmente, participar assim de vícios como das brilhantes qualidades dos homens de sua época; eram o que foram pelos meados do século XVI os outros portugueses. A uma fé ardente, mas pouco esclarecida, a uma generosidade levada à imprevidência, juntavam um espírito empreendedor e aventureiro, uma grande intrepidez, muito orgulho, o amor da glória, o desejo de adquirir riquezas para dispensá-las e brilhar, e sobretudo, uma rudeza de costumes contra a qual lutava, em vão, a inefável doçura do Cristianismo. Nenhum povo europeu era, na mesma época, isento dessa rudeza, e, se os paulistas a conservaram por tempo mais dilatado, foi devido à circunstância de se entreterem, continuadamente, com gigantescas incursões pelos sertões e com as constantes caçadas que organizavam contra os selvagens durante muitíssimos anos." (²)
Lembremo-nos, porém, que nem Ayres de Casal e nem Saint-Hilaire viveram no tempo dos bandeirantes. Suas opiniões eram fruto de analisar o que tinham ouvido ou lido a respeito. Talvez suas ideias fossem influenciadas pelos paulistas com que tinham alguma convivência, o que poderia ser matéria para outras considerações, além dos limites desta postagem.
Contrastes desconcertantes norteavam, no entanto, a vida desses paulistas-bandeirantes: iam ao sertão para apresar índios, levando como companheiros de "caçada" e mestres nas trilhas e nas manhas das selvas outros índios que já haviam escravizado; enfrentavam sem nenhum respeito os religiosos que tentavam, frequentemente em vão, defender os nativos que, nas reduções, eram catecúmenos, mas não raro levavam consigo, mato adentro, religiosos como capelães, e eram particularmente zelosos em fazer disposições quanto a serem sepultados no interior de igrejas, provendo ainda os recursos que assegurariam a contínua celebração de missas em favor de suas almas. Odiados como bandos de verdadeiras feras selvagens em forma humana, acabaram transformados em heróis que fizeram do território brasileiro o gigante de hoje, muito além da linha de Tordesilhas, independente de onde se considerasse que ela devia passar. Em suma, eram humanos, e quanto a serem vilões ou heróis, é uma questão que depende da perspectiva.
 
(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 222.
(2) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 140.
(3) A escultura em bronze é obra de Murilo Sá Toledo.


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terça-feira, 26 de junho de 2012

Pedra-sabão

Sobre a pedra-sabão escreveu Ayres de Casal em sua Corografia Brasílica:
"... pedra-sabão de cor de pérola, alguma veiada de escuro, compacta, pesadíssima, facílima de trabalhar, cedendo à unha; fazem-se dela imagens, castiçais, escrivaninhas e ainda panelas ao torno. Dá excelentes gizes, o seu finíssimo pó é procurado pelos viandantes." (*)
Esse trechinho faz parte de uma obra publicada na segunda década do século XIX, mas quem quer que ande, ainda hoje, pelas chamadas Cidades Históricas de Minas Gerais, logo perceberá um amplo comércio de objetos em pedra-sabão, destinado principalmente a atender turistas, com peças que incluem desde expressões típicas da religiosidade popular até aquelas de cunho decorativo e/ou de uso doméstico. A variedade é enorme.

Jarra e bacia, exemplos de artesanato em pedra-sabão

Entretanto, a pedra-sabão (esteatito), justamente por ser fácil de trabalhar, como bem assinalou o Pe. Ayres de Casal, tem-se prestado a obras de arte sobremodo expressivas e, embora a produção do Barroco colonial brasileiro seja numerosa, os "Doze Profetas", que estão diante do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas do Campo (MG) são, de longe, o conjunto mais famoso. Esculpidos entre fins do século XVIII e início do XIX por Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho), são parte do notável impulso para as artes, em particular no âmbito da arquitetura e da escultura principalmente de natureza sacra, que irrompeu nas Minas durante a fase mais significativa da extração aurífera colonial.

(*) AYRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 361.


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domingo, 20 de maio de 2012

Impostos temporários que se tornavam permanentes

Impostos, contribuições, "donativos", subsídios, taxas - o nome nem importa muito - eram criados tanto pelo Reino quanto pela administração colonial sempre que uma emergência se anunciava, fosse em resultado de alguma catástrofe natural, ou de algum projeto de construção, até mesmo para constituir um dote para uma princesa que se devia casar, ou pura e simplesmente porque os cofres públicos andavam magros demais.
Com o passar do tempo, à medida que o período glorioso das navegações e comércio oriental se distanciava, tornava-se óbvio o empobrecimento do Reino face a outras nações europeias que, superando a fase de apenas transportar e comercializar produtos alheios, lançaram-se ao desenvolvimento do que hoje chamamos economia industrial. Vendo sua modesta produção desvalorizada, não raro o Reino lusitano valia-se da possibilidade, que ainda tinha, de lançar novos impostos sobre sua vasta colônia ultramarina, cuja população, aos poucos, começava a revoltar-se com o fato de ter, em última instância, de trabalhar para o sustento de um sistema claramente obsoleto.
Entretanto, o mais absurdo de tudo isso é que alguns dos impostos supostamente temporários, lançados ainda no período colonial, continuaram a ser cobrados após a independência, de modo que, durante alguns anos, integraram o orçamento do Império. Vem daí pois, a experiência que o Brasil tem com os tais impostos temporários que acabam desenvolvendo a mágica capacidade de se tornarem permanentes. Meus leitores residentes neste País devem ter na memória um caso bem recente!
A mania dos impostos temporários que acabavam permanentes começou cedo. Em 1599, ainda antes que se completasse um século de presença portuguesa na América, votou-se em Olinda uma taxação sobre o vinho comercializado, a ser cobrada apenas pela necessidade de se estabelecerem fortificações (estava já a desenhar-se o cenário de alguma tentativa de ocupação), bem como para garantir a manutenção dos templos (¹). O imposto foi ficando, ficando... até que o que era transitório se impôs de vez.
Malgrado as taxas cobradas para as fortificações, os holandeses vieram e ficaram por vários anos. Quando finalmente deixaram o Brasil, um acordo entre os governos da Holanda e de Portugal estabeleceu que o pequeno reino ibérico pagaria uma indenização aos holandeses. Sim, é isso mesmo! Lá veio novo imposto para cobrir essa despesa, à qual a Coroa não deixou de anexar os custos da constituição de um dote para a filha do rei que deveria casar-se em breve. Tudo isso era para um prazo de dezesseis anos, mas continuou a ser cobrado muito depois, e tem-se uma informação de que ainda figurava no orçamento do Império do Brasil (portanto, após a Independência), no ano de 1830. (²)
De todos os impostos "temporários", porém, os mais famosos são, de longe, o que se instituíram para a reconstrução de Lisboa, a capital do Reino, após o terremoto que a arrasou em 1º de novembro de 1755. Em que resultou tudo isso? Nem é preciso dizer que seguiu-se a cobrança por décadas afora, mesmo após a independência - a despeito de a capital já não ser Lisboa e sim o Rio de Janeiro, o fisco continuou a proceder a arrecadação, que entrava para o orçamento do Império como se  fosse a coisa mais natural deste mundo. (³)
Além de tudo isso, havia ainda os impostos que, criados para um objetivo específico, quase nunca eram realmente usados nessa finalidade. Talvez o melhor exemplo seja o "subsídio literário", instituído durante o período pombalino, com vistas a assegurar o pagamento de professores de primeiras letras. De acordo com a região, incidia sobre a aguardente de cana, ou café, ou outro produto importante na área, com expressivo volume de arrecadação, mas as poucas escolas existentes continuavam a cair aos pedaços, sendo verdadeiro luxo que houvesse, de fato, um mestre-escola, mesmo sem a devida qualificação. Mas isso, afinal, em nada alterava a ação do fisco, já que o imposto era cobrado até mesmo onde não havia nenhum professor. Pelo menos é o que conta o Padre Ayres de Casal, em sua Corografia Brasílica, referindo-se ao Piauí:
"O Subsídio Literário, imposto no gado desta província, é assaz importante, mas em oitocentos e oito (⁴) ainda não havia nela uma cadeira de Primeiras Letras, nem de Latim". (⁵)
Esses fatos, meus leitores, estão já, cronologicamente, muito distantes de nós, mas seu estudo ganha muito interesse quando se quer entender o Brasil de hoje!

(1) Veja-se VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 1, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 396.
(2) Segundo nota de rodapé em VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 2, 2ª ed.
Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 754:
"Vemo-lo figurar no Orçamento do Império de 1830 (artigos 21 e 22) no valor de vinte e cinco contos."
(3) Veja-se nota de rodapé em 
VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 2, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 978:
"Findos os trinta anos o tributo seguiu igual, até depois da Independência, e figurava ainda na receita em 1831, com uma verba de 56.500$000 réis."
Ou ainda:
"Novos impostos - criados por dez anos, em 1755, cujo rendimento devia ser aplicado, unicamente, na reconstrução da alfândega de Lisboa. Cerca de um século já transcorreu, e este imposto perdura ainda."
SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. 
Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 232.
(4) Refere-se ao ano de 1808.
(5) AYRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica, vol. 2. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 250.


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domingo, 4 de março de 2012

Avanhandava

Quem, no século XVIII, se atrevia a empreender a rota monçoeira que ia, partindo de Araraitaguaba (Porto Feliz), até Cuiabá, tinha de enfrentar uma série de obstáculos. Além da longa viagem, dos ataques de mosquitos, carrapatos, onças e outras feras de diversos tamanhos, da fome como ameaça constante, dos possíveis confrontos com indígenas - o que já seria suficiente para demover a maioria das pessoas de uma rota assim - havia a transpor nada menos que cento e treze cachoeiras (¹), algumas maiores, outras menores, quase todas perigosas, não sendo fato raro encontrar, enroscado às raízes de árvores das margens dos rios, algum cadáver de monçoeiro que se afogara na perigosa travessia.

Salto do Avanhandava, de acordo com Hércules Florence (⁴)

Todavia, dentre todas essas cachoeiras, havia uma que, só de ser mencionada, provocava calafrios nos viajantes: era o Salto do Avanhandava, no rio Tietê. Para transpor esse espetacular obstáculo era preciso muito trabalho, tanto de livres quanto de escravos, já que todas as canoas precisavam ser descarregadas para transporte por terra, em meio ao mato que circundava as margens. Um método tão engenhoso quanto antigo era empregado para possibilitar a realização da penosa tarefa: canoas e batelões eram rolados sobre trilhos feitos de toras de madeira, que a espessa floresta que margeava o Tietê provia.
Duas descrições nos darão uma boa ideia do que era o Avanhandava, lugar no qual a natureza fazia uma associação espantosa entre beleza e perigo. O primeiro relato vem do sargento-mor Teotônio José Juzarte, que empreendeu a rota do Tietê em 1769:
"É este Salto de Avanhandava uma obra da natureza cuja altura excede a cinquenta braças que despenhando-se por ele copiosas águas ao ponto que faz uma agradável vista, e figura, causa pavor, e medo, porque fazendo várias figuras, em umas partes à imitação de degraus de sepulcro, em outras fazendo vários redemoinhos pendurados pelo ar, em outras formando grossas e dilatadas fontes à maneira de chafarizes que é tal a bulha que para se ouvirem os homens uns aos outros é necessário gritar, além disto se experimenta nesta paragem um granizo continuado à maneira de chuva, que levanta pela monstruosidade de águas que se despenham seu peso, e sua altura, que caindo em um dilatado espaço que faz embaixo deste salto em o qual são tão grandes as ondas que ninguém as pode penetrar." (²)
O segundo depoimento é de Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff que passou pelo local em 1826:
"O salto de Avanhandava é uma bela e majestosa catarata. Corta o rio segundo uma linha oblíqua, de modo que a víamos bem de frente. Sua largura pode ser de 300 braças, a altura de 40 pés, o que, com a inclinação do álveo, antes e depois da queda, dá os 60 pés entre o porto superior e o inferior. À direita veem-se as águas se precipitarem entre a margem umbrosa, uma ilhazinha coberta também de árvores e uns grandes penedos. Forma-se, pois, duas gargantas por onde atiram-se as massas líquidas em tal agitação e revolvimento de espumas, que densas nuvens de vapores se erguem com neblina cerrada. As águas que caem pelo lado do grande maciço de rocha não são tão revoltas: milhares de cascatinhas divididas por pontas de rochedos constituem um anfiteatro de pedra riscado por fios d'água, alva como neve.
O grande maciço não se prende à margem esquerda. De permeio a eles fica uma ilha, e no intervalo lançam-se, espumantes e furiosas, espadanas de água, que se desfazem em vapores." (³)

Salto do Avanhandava, em imagem de 1920 (⁵)

As diferenças de abordagem nos dois trechos acima devem-se, naturalmente, às distintas perspectivas de seus autores. O primeiro, Juzarte, enfrenta a fúria do salto com preocupação, diante da responsabilidade de ter de passar o Avanhandava com sua gente, que conduz em viagem repleta de contratempos pelo Tietê, para ir povoar uma difícil área de fronteira; já Hércules Florence lança à paisagem seu olhar de artista, buscando na imensa massa de água o equilíbrio estético, a perspectiva correta, que almeja refletir em seus desenhos. Os dois, cada um a seu modo, deixaram um testemunho precioso de um espetáculo que desapareceu. À semelhança de Sete Quedas, hoje sob as águas de Itaipu, o Salto do Avanhandava foi engolido pela represa da Usina Hidrelétrica de Nova Avanhandava. Restam apenas o nome e as imagens do passado, três das quais estão nesta postagem.

Outra imagem do Avanhandava, também de 1920 (⁶)

(1) Segundo o Padre Ayres de Casal, em Corografia Brasílica:
"...das cento e treze, que os navegantes encontram de Porto Feliz até Cuiabá."
(AYRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 271.)
(2) Citado em:
TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas 3ª ed., vol. 3. São Paulo: Melhoramentos, 1975, pp. 248 e 249.
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 40.
(4) Ibid., p. 54. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) A CIGARRA, 15 de setembro de 1920.
(6) A CIGARRA, 1º de setembro de 1920.


quinta-feira, 1 de março de 2012

Quem pode escrever com a "pena de um vampiro"?

Para que meus leitores tenham um dia feliz, nada melhor que começar esta manhã com um sorriso. Como conseguir isto? Para quem tiver senso de humor, bastará ler o que vem a seguir, tratando das confusões que se faziam sobre seres vivos da América do Sul, assunto já abordado em postagens anteriores (¹)
Pois bem, a "vítima" do dia será o Padre Ayres de Casal, que certamente prestou um inapreciável serviço com sua obra em dois volumes, datada de 1817, a Corografia Brasílica, a despeito de deixar algo a desejar em questões, por assim dizer, "zoológicas". Vejamos, então, duas citações, e será suficiente, tenham certeza:
"O cupim é uma formiga pequena, esbranquiçada e gorda, que só se mantém do farelo de lenho [...]." (²)
E, se essa chega a doer, vem coisa pior. Referindo-se à Guiana Francesa, então ocupada por ordem da Coroa Portuguesa, o mesmo Padre Ayres de Casal escreveu:
"Posto que o vento leste refresque a atmosfera todas as manhãs, o ar é doentio por causa dos pântanos que o infeccionam, e criam multiplicadas espécies de insetos, como sejam mosquitos, sapos, rãs, moscardos, formigas e outros, que incomodam a gente." (³)
Cupins viram formigas, sapos e rãs são insetos - coisas que enlouqueceriam Carl von Linné. Mas, para não deixar Ayres de Casal solitário em tão má situação, concluo com uma referência literária de ninguém menos que Machado de Assis, em seu conto "Bagatela", datado de 1859:
"É um morto que te escreve, meu caro Henrique, um verdadeiro morto, com a tinta negra do Estígio lago, e com a pena arrancada à asa de uma qualquer ave noturna ou maligna, vampiro ou o que quiseres."
Pena de um vampiro, Machado?

(1) Veja, sobre isso:
(2) AYRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica, vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 74.
(3) Idem. Corografia Brasílica, vol. 2. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 357.


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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Animais que aterrorizavam a imaginação dos colonizadores do Brasil (Parte 3): Piranhas!

"E rio abaixo, lá ia o fervedouro sanguinolento denunciando o martírio do animal, lançado, como tributo da boiada, aos cardumes vorazes das piranhas.
Os vaqueiros olhavam as águas trágicas onde os peixes borborinhavam e um tangerino moço, condoído do velho boi, suspirou:
- Coitado!"
                                                                                      Coelho Neto, Boi de Piranha in Vesperal

Elas nadam gentilmente quando não estão a atacar alguma presa e, para os incautos, a água dos rios e áreas alagadas em que habitam parecem "normais". No entanto, se são poucas, já representam algum perigo. Mas se forem muitas... É melhor nem pensar. São piranhas, peixes de dimensões aparentemente desprezíveis, mas os cardumes existentes em muitos cursos d'água Brasil afora impõem terror hoje, tanto quanto no passado. Muitos autores referiram-se a elas como criaturas assassinas, capazes de consumir um boi ou outro mamífero em pouquíssimo tempo, desde que reunidas em grandes cardumes. Infelizmente para os colonizadores do Brasil, cardumes eram a regra, não a exceção.
Alguns dos melhores relatos vêm, no entanto, de dias posteriores aos da colonização portuguesa. Há, por exemplo, a breve descrição do Padre Ayres de Casal (1817):
"[...] piranhas, que são curtas e largas, com dentes agudíssimos, e fatais a todo o vivente que podem alcançar." (¹)


O melhor informe que conheço, todavia, é de Hércules Florence. Transcrevo-o quase na íntegra, para que meus leitores, que porventura sejam seres urbanos e, por isso, inexperientes nessas questões silvestres, aprendam úteis lições. Diz ele, referindo-se à ocasião em que a Expedição Langsdorff percorria o Brasil Central, em área da bacia do rio Paraguai:
"Começamos a pescar piranhas, peixe abundante no Paraguai e seus tributários. Nos rios que vão ter ao Amazonas os há também, assim como nos de Minas Gerais, mas pululam nos lagos e campos inundados do Paraguai. Não têm mais de oito polegadas de comprido e seis de largo, entretanto é o mais temível de todos os peixes desses rios pela voracidade com que acomete todo e qualquer animal que caia dentro d'água. Têm dentes agudíssimos, na disposição e dimensões [...]." (²)
Adverte em seguida:
"Ai do imprudente que entrar nu em lugar infestado por aqueles vorazes habitantes; está perdido, sobretudo se tiver no corpo alguma ferida ou sarna. Eles se precipitarão sobre as chagas; farão verter sangue e em poucos instantes o infeliz perderá a vida." (³)
Assustador? Há mais:
"Quando a gente se banha em lugar de poucas piranhas, o perigo é diminuto, mas assim mesmo é preciso ter o cuidado de cobrir com as mãos as partes pudendas, porque por aí é que elas atacam de preferência. [...]." (⁴)
Então, deixando evidente que não estava discorrendo sobre uma fábula, Florence conta dois casos que presenciou e, sendo esse autor bastante confiável, não me parece haver razão para duvidar dele:
"Para dar ideia da multidão e voracidade desses animais, bastar-me-á contar o seguinte caso. Havendo um dos nossos camaradas caçado um macaco e querendo moqueá-lo, pôs-se a limpá-lo e em seguida o mergulhou no rio. Sacou-o porém depressa, com cinco piranhas atracadas à carne e que foram cair na proa da canoa. De cada vez que repetia a imersão, tirava d'água quatro ou cinco peixes, de modo que num instante contamos sessenta, pescados por modo que muito nos divertiu.
Jogou-se ao rio um corpo esfolado de capivara. Foi um espetáculo curioso. As piranhas, num formigar e torvelinho que faziam borbulhar e espadanar as águas, o espicaçaram, ora atirando-o para o ar, ora puxando-o para o fundo.
À medida que o sangue se espalhava, acudiam outras aos milhares, e em breve nada restou daquela presa." (⁵)


(1) AYRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica, 1ª ed., vol. 2, 1817, p. 187.
(2) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, pp. 86 e 87.
(3) Ibid.
(4) Ibid.
(5) Ibid.


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