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quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Sobre mamões e mamoeiros

Mamão papaia

Mamoeiro, conforme
ilustração do Século XVII (¹) 
Quando alguém quer dizer que uma coisa é fácil de ser feita, afirma que é "como mamão com açúcar". Pois bem, nem mamão, nem açúcar, faltavam no Brasil Colonial.
Não é tarefa simples descrever uma fruta para alguém que não a viu ou provou. Comparações são inevitáveis, e podem ser mais ou menos felizes. Já tratei disso aqui no blog quando escrevi sobre o modo como europeus e americanos descreveram as jabuticabas. Mas, e quanto ao mamão papaia?
Há uma descrição muito interessante feita por Nieuhof, que esteve no chamado "Brasil holandês" entre 1640 e 1649 - Século XVII, portanto:
"Entre os vegetais que proliferam tanto nas Índias Ocidentais como nas Orientais, acha-se o que os japoneses e holandeses chamam papaia e os americanos apelidam mamoeiro e pinoguaçu; os nossos às vezes chamam árvore de melão dada a semelhança de seu fruto com o nosso melão. Há duas qualidades dessa árvore: macho e fêmea. Cresce e morre em curto espaço de tempo. Seu tronco é de tal forma esponjoso que se pode cortá-lo com a mesma facilidade com que se corta um talo de couve. [...]." (²) 
Mamoeiro
É preciso perdoar a Nieuhof certa confusão entre as várias espécies de mamão. O papaia (Carica papaya) é que é nativo do Continente Americano, mas há variedades de mamão originárias de outras regiões. Para dizer a verdade, não acho o sabor do mamão papaia nada semelhante ao de qualquer variedade de melão que eu conheça. Mas essa era a opinião de Nieuhof, e é necessário respeitá-la. 
Em seguida, Nieuhof passa a descrever as folhas do mamoeiro e mais algumas características dos frutos:
"[...] As folhas são grandes e largas e assemelham-se às da videira, desenvolvendo-se na ponta de longas hastes em torno do topo, onde protegem os frutos, que nascem agrupados. Estes, verdes, quando novos, tornam-se finalmente amarelos e têm o formato de uma pera; seu porte, entretanto, é o de um melão pequeno cuja polpa também lembra, tanto em cor como em paladar, quando maduros. Quando verde, coze-se com a carne a fim de dar-lhe certo gosto picante." (³) 
Não tenho muito a opinar sobre o uso de mamão verde com carne porque sou vegetariana, mas amigos me asseguraram que o "leite" de papaia ainda verde pode mesmo ser útil no preparo de carnes para churrasco. Estou certa, contudo, de que se pode fazer excelente doce com a polpa de mamões verdes, que ganharão um sabor maravilhoso se, além do açúcar de alta qualidade, receberem, durante o preparo, algumas folhas de figueira, exatamente do mesmo modo como os doces que se faziam em fogões a lenha em fazendas do Século XIX. O que me dizem, leitores?

(1) Cf. PISO (PIES), Willen et MARKGRAF Georg. Historia naturalis BrasiliaeAmsterdam: Ioannes de Laet, 1648. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(2) NIEUHOF, Joan. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil, trad. Moacir N. Vasconcelos. São Paulo: Livraria Martins, s.d.,  p. 292.
(3) Ibid. 


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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Modo indígena de evitar uma luta contra inimigos mais poderosos

O problema, desde a Antiguidade, tem inquietado comandantes militares e estrategistas das mais variadas civilizações: como proceder para uma retirada segura, sempre que se verifica que o inimigo tem forças muito superiores? Sim, porque, afinal, retirada não é derrota, e pode ser um recurso eficiente para preservar as tropas, adiando o confronto até uma ocasião mais favorável.
Indígena brasileiro com armas (²)
Os indígenas do Brasil, se podemos confiar no relato feito pelo Padre Simão de Vasconcelos no Século XVII, tinham uma tática bem definida para essas situações:
"Em suas guerras contam alguns destes um modo gracioso de que usavam os menos poderosos, quando queriam evitar o encontro; que como ordinariamente vivem em ilhas ou ribeiras do rio, e usam de canoas mui leves, no tempo em que hão de ser acometidos, passam à outra parte do rio, e logo tomando as canoas às costas, as vão esconder em algum dos muitos lagos que há entre as matas, e fogem, deixando os contrários frustrados; e idos eles, tornam a restituir-se às suas terras com as mesmas canoas." (¹)
Fica apenas uma dúvida: o que acontecia ao vinho de caju que as tribos contendoras deviam ter preparado para comemorar a vitória?

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 37.
(2) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 270. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Tatus

Pra falar a verdade, acho repugnante a mania de ver os animais simplesmente como recurso para as panelas, mas é preciso admitir que, à vista dos colonizadores europeus que vieram viver no Brasil, era importante e até indispensável um conhecimento de que coisas eram "comestíveis", já que a sobrevivência na América dependia, ao menos em parte, desse saber. Nisso, os povos indígenas do Brasil eram excelentes mestres, dominando, com igual eficiência, diferentes métodos de caça. E, a crermos no que escreveram autores dos séculos XVI e XVII, a mais apreciada dessas refeições ambulantes eram os tatus.
Tatu ("Dattu"), de acordo com Hans Staden (¹)
Hans Staden, o aventureiro alemão que andou pela América do Sul por meados do século XVI (¹), referiu-se ao "Dattu", animalzinho dotado de uma armadura que em tudo lembrava aquelas usadas por guerreiros medievais, com uma couraça que lhe cobria as costas, firme e resistente como um chifre. Deixou bem claro que havia provado sua carne muitas vezes.
Também Pero de Magalhães Gândavo, que queria incentivar a vinda de portugueses ao Brasil, observou:

Tatu-Galinha (Dasypus novemcinctus) (⁵)
"Uns bichos há nesta terra que também se comem e se têm pela melhor caça que há no mato. Chamam-lhes tatus, são tamanhos como coelhos e têm um casco à maneira da lagosta como de cágado, mas é repartido em muitas juntas como lâminas; parecem totalmente um cavalo armado, têm um rabo do mesmo casco comprido, o focinho é como de leitão, e não botam mais fora do casco que a cabeça, têm as pernas baixas e criam-se em covas, a carne deles tem o sabor quase como de galinha. Esta caça é muito estimada na terra." (²)

Tatu-Peba (Euphractus sexcinctus) (⁵)
Finalmente, Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (³), observou:
"Há tatus, a que os espanhóis chamam armadillos, porque são cobertos de uma concha não inteiriça como a das tartarugas, mas de peças a modo de lâminas, e sua carne assada é como de galinha."
Notaram, senhores leitores, quantas comparações?
Concha semelhante a armadura, casco de tartaruga, como lagosta, focinho de leitão, semelhante a cavalo armado, carne como a de galinha... É que diante da surpreendente diversidade natural da América, os autores viam-se às voltas com palavras que pareciam por vezes insuficientes para uma descrição acurada, daí a necessidade de apontar similaridades, que dessem à gente da Europa alguma ideia daquilo que se queria descrever. Em alguns casos, só mesmo um bom desenho para ajudar, como é o caso deste que aparece na Historia naturalis Brasiliae, de Willen Piso e Georg Markgraf:

Tatu, de acordo com a Historia naturalis Brasiliae (Piso e Markgraf) (⁴)
 
(1) Hans Staden escapou, por muito pouco, de também ele virar refeição. Veja-se: STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.
(2) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, pp. 61 e 62.
(3) O manuscrito foi concluído por volta de 1627.
(4) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 231. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) Os tatus fotografados para esta postagem pertencem ao acervo do Museu de História Natural de Itapira - SP (tatu-galinha) e do Museu do Eucalipto, em Rio Claro - SP (tatu-peba), este último novamente aberto ao público, depois de um longo tempo fechado. Se puder, visite!


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domingo, 17 de fevereiro de 2013

Cajus e cajueiros - Parte 2

A castanha de caju e seu uso nos tempos coloniais


Como seu viu na postagem anterior, o Padre Simão de Vasconcelos era um verdadeiro entusiasta do caju, fruta (¹) nativa do Brasil. Segundo ele, a castanha do caju era muito útil aos índios, mas também logo foi utilizada para substituir, no Brasil, uma especialidade lusitana, as amêndoas confeitadas, que tanto deviam apreciar os colonizadores já saudosos do Reino:
Castanha de caju (³)
"As castanhas têm semelhança de rins de lebre. Enquanto verdes fazem delas guisados. Depois de maduras, assadas são comer doce e suave, iguais às nozes de Europa. Confeitam-se a modo de amêndoas, e em falta destas suprem a matéria dos doces secos." (²)
Uso semelhante relatou Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (c. 1627), ao expressar, talvez com algum exagero, que as castanhas eram, para os indígenas, como pão: "...de pão lhes servem umas castanhas, que vêm pegadas a esta fruta, que também as mulheres brancas prezam muito, e secas as guardam todo o ano em casa para fazerem maçapães e outros doces, como de amêndoas."

(1) Veja, sobre o fato de ser o caju um pseudofruto, o que se explica na postagem anterior, "Cajus e cajueiros - Parte 1".
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 262.
(3) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia Naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Carros de bois - Parte 3

Bois que trabalhavam nos carros e nas engenhocas


Já há neste blog uma postagem sobre a diferença que havia, nos tempos coloniais, entre os chamados engenhos reais e as engenhocas. Como bem o expressou Antonil, "os reais ganharam este apelido por terem todas as partes de que se compõem e todas as oficinas perfeitas, cheias de grande número de escravos, com muitos canaviais próprios, e outros obrigados à moenda, e principalmente por terem a realeza de moerem com água, à diferença de outros, que moem com cavalos e bois, e são menos providos e aparelhados, ou pelo menos com menor perfeição e largueza, das oficinas necessárias, e com pouco número de escravos para fazerem, como dizem, o engenho moente e corrente." (¹)
Por hora nos interessam apenas as engenhocas, também chamadas de trapiches, pelo fato de que empregavam animais na moenda, em lugar da roda d'água dos engenhos reais. Nelas, eram os bois (ou outros animais) que passavam horas intérminas a girar, girar, girar... para que se extraísse o caldo da cana, destinado à produção de açúcar e/ou de aguardente, sendo a última o que mais comumente se fazia nas engenhocas. Apenas máquinas de moer muito pequenas é que eram, eventualmente, movidas à força de escravos.
A ilustração abaixo, que apareceu em publicação holandesa no século XVII, mostra uma engenhoca em funcionamento, podendo ver-se nela o trabalho de bois:

Moenda de uma engenhoca funcionando com o trabalho de bois (²)

Assim, sendo necessário muito cuidado na escolha de bois para os carros, conforme se explicou na postagem anterior, era igualmente importante saber administrar os bois que trabalhariam nos engenhos:
"Se moendo com água e usando de barcos para a condução da cana, é necessário ter no engenho quatro ou cinco carros, com doze ou quatorze juntas de bois muito fortes, quantos haverá mister quem mói com bestas e bois, e tem cana própria, para se conduzir de longe à moenda? Advirta-se muito nisto, para se comprarem a tempo os bois, e tais quais são necessários, dando antes oito mil réis por um só boi manso e redondo, do que outro tanto por dois pequenos e magros, que não têm forças para aturarem no trabalho." (³)

(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711 - proêmio.
(2) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia Naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Op. cit. pp. 45 e 46.


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