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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Condições para o sucesso de um minerador no Brasil Colonial

Quantos escravos um minerador precisava ter


Quase tudo o que se fazia no Brasil Colonial pressupunha o emprego de mão de obra escrava, quer de indígenas, quer de africanos ou seus descendentes. Foi assim nas plantações de cana, nos engenhos em que açúcar e aguardente eram fabricados, foi assim nas áreas de cultivo de tabaco, e foi também na mineração.
Vários autores dos Séculos XVII e XVIII foram enfáticos em dizer que, sem escravos, era impossível que um colonizador obtivesse sucesso em seus empreendimentos. A imagem mais forte desse pressuposto talvez seja mesmo a que usou Antonil, ao afirmar que os escravos eram "as mãos e os pés de um senhor de engenho". No pensamento então corrente, nada podia ser feito sem o trabalho de cativos.
A descoberta de ouro nas Gerais, em Goiás e no Cuiabá não alterou em nada a mentalidade escravista reinante. Muitos dos primeiros descobridores nada sabiam a respeito de técnicas de extração aurífera, e se não fossem os escravos, que traziam da África alguma experiência no ramo, seria quase impossível aos sertanistas arrancar da terra o cobiçado metal. A questão é: quantos escravos um minerador precisava ter?
De acordo com José Vieira Couto (que foi intendente no Distrito Diamantino), a providência inicial de qualquer minerador era ter entre cinquenta e cem cativos efetivamente trabalhando:
"Este mineiro empenha-se primeiramente em levantar uma fábrica de cinquenta ou cem escravos, porquanto com menos disso pouca coisa faz." (¹)
Vejam os leitores, portanto, que era necessário um capital nada desprezível para dar início a um empreendimento minerador, visto que, nas minas, um escravo jovem e saudável era vendido por preço exorbitante. O problema é que, devido à insalubridade do trabalho, a expectativa de vida de um escravo era baixa, e o minerador precisava, constantemente, repor trabalhadores para o lugar dos que morriam. Escreveu o já citado Vieira Couto:
"[...] Um mineiro, que tem cem negros (²), no fim de dez anos não os reformando não terá senão cinquenta, ou pouco mais, perdendo anos por outros um em cada vintena, e às vezes em cada quinzena; e os outros cinquenta, que lhe restam, estão com menos de uma sexta parte de vida [sic] [...]." (³)

A vida nas minas para homens livres e para escravos


Mineração no Brasil Colonial (⁴)

Estudos têm demonstrado que a condição de vida dos escravos nos engenhos açucareiros era lamentável, enquanto que nas minas, a despeito do trabalho duríssimo, um cativo podia viver melhor, sempre com a esperança da alforria, na hipótese de encontrar uma grande quantidade de metal precioso e ser, por isso, libertado pelo senhor. Era possível, aos domingos e feriados, faiscar ouro em áreas de baixo rendimento, e há relatos de escravos que, dessa forma, acabaram juntando o necessário para a compra da liberdade.  
Por seu turno, a vida dos mineradores nem sempre era das mais promissoras, e muita gente, na febre de enriquecer do dia para a noite, acabava investindo o que tinha, para perder tudo logo em seguida. Como já visto, era preciso gastar com a compra de escravos, além de ferramentas e outros equipamentos que, por mais rústicos que fossem, tinham seu preço; era preciso também contratar trabalhadores livres especializados - Vieira Couto menciona ferreiros, carpinteiros, carreiros e pedreiros - o que significava, por suposto, pagar salários, independente da quantidade de ouro que se extraía. Era preciso alimentar os escravos, e, nas minas, o preço dos alimentos chegava às nuvens, já que tudo vinha de longe.  Finalmente, havia os "Reais Quintos", impostos que deviam ser pagos à Coroa. Vê-se, pois, que para um minerador ter sucesso, devia fazer um investimento elevado, cujo retorno, em grande parte, dependia da boa sorte para encontrar muito mineral precioso, e isso, como se sabe, era para poucos.

(1) COUTO, José Vieira. Memória Sobre as Minas da Capitania de Minas Gerais. Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert, 1842, p. 24.
(2) Notem os leitores que José Vieira Couto empregava a palavra "negros" como sinônimo de escravos...
(3) COUTO, José Vieira. Op. cit., p. 24
(4) DENIS, Ferdinand. Brésil. Paris: Firmin Didot Frères, 1837. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Os feitores dos engenhos coloniais

A maioria dos dicionários define feitor como sendo o indivíduo que administra bens ou negócios em lugar do proprietário. Andei fazendo uma investigação informal, com gente de vários níveis de escolaridade, e constatei que, no imaginário popular do Brasil, a palavra está revestida de outro significado: para a maioria, é alguém que manda ou tem poder para impor a própria vontade, enquanto que alguns foram explícitos em fazer a ligação com o indivíduo que comandava o trabalho dos escravos. Embora a minha pesquisa, até pelo caráter de informalidade, não tenha nenhuma pretensão a rigor científico, é fácil verificar que o papel do feitor, como elemento responsável pela subordinação dos cativos nos locais de trabalho, acabou impregnando o vocábulo com um aspecto altamente pejorativo, que contraria a aparente neutralidade que os dicionários tendem a apresentar.
O padre André João Antonil, escrevendo no começo do Século XVIII, foi autor da famosíssima definição, segundo a qual os escravos eram "as mãos e os pés do senhor de engenho"; foi ele, também, quem comparou os feitores aos braços do senhor:
"Os braços de que se vale o senhor de engenho, para o bom governo da gente e da fazenda, são os feitores. Porém, se cada um deles quiser ser cabeça, será o governo monstruoso, e um verdadeiro retrato do cão Cérbero, a quem os poetas fabulosamente dão três cabeças." (¹)
Que comparação essa de Antonil! Cérbero era o cão mitológico que, para os gregos, guardava a entrada do mundo dos mortos - ou inferno, se quiserem...
A questão, aqui, é que Antonil era enfático em recomendar aos senhores que cuidassem em explicitar aos feitores os limites à autoridade, para que excessos não fossem cometidos (²):
"Eu não digo que se não dê autoridade aos feitores; digo que esta autoridade há de ser bem ordenada e dependente, não absoluta, de sorte que os menores se hajam com subordinação ao maior, e todos ao senhor, a quem servem. Convém que os escravos se persuadam que o feitor-mor tem muito poder para lhes mandar e para os repreender e castigar, quando for necessário, porém de tal sorte que também saibam que podem recorrer ao senhor e que hão de ser ouvidos, como pede a justiça." (³)
É difícil saber se, de fato, senhores tinham alguma preocupação com as arbitrariedades dos feitores. Como regra geral, o que importava era que, ao fim de cada safra, os lucros que o açúcar proporcionava fossem elevados. Porém, eventualmente, algum feitor podia "sair dos trilhos", suplantando a própria autoridade do senhor ou, pior ainda, dando motivo para uma revolta de escravos. Antonil sugeria, portanto, um expediente para acalmar o cativo injustiçado e dar a entender que o senhor não fechava os olhos para os erros dos feitores, sem, no entanto, reduzir a autoridade que lhes conferia: 
"Nem os outros feitores, por terem mando, hão de crer que o seu poder não é coartado, nem limitado, principalmente ao que é castigar e prender. Portanto o senhor há de declarar muito bem a autoridade que dá a cada um deles, e mais ao maior, e se excederem, há de puxar pelas rédeas com a repreensão que os excessos merecem, mas não diante dos escravos, para que outra vez se não levantem contra o feitor, e este leve a mal de ser repreendido diante deles, e se não atreva a governá-los. Só bastará que por terceira pessoa se faça entender ao escravo que padeceu, e a alguns outros dos mais antigos da fazenda, que o senhor estranhou muito ao feitor o excesso que cometeu, e que quando se não emende, o há de despedir certamente." (⁴)
Um feitor-mor, que na prática quotidiana era quem administrava um engenho, tinha uma série de encargos suficiente para mantê-lo muito ocupado. Sua lista de tarefas em nada ficaria devendo, em termos quantitativos, à do administrador de uma grande empresa na atualidade:
"Obrigação do feitor-mor do engenho é governar a gente e reparti-la a seu tempo, como é bem, para o serviço. A ele pertence saber do senhor a quem se há de avisar para que corte a cana, e mandar-lhe logo recado. Tratar de aviar os barcos e os carros para buscar a cana, formas e lenha. Dar conta ao senhor de tudo o que é necessário para o aparelho do engenho, antes de começar a moer, e logo acabada a safra, arrumar tudo em seu lugar. Vigiar que ninguém falte à sua obrigação, e acudir depressa a qualquer desastre que suceda, para lhe dar, quanto puder ser, o remédio. Adoecendo qualquer escravo, deve livrá-lo do trabalho e pôr outro em seu lugar, e dar parte ao senhor, para que trate de o mandar curar, e ao capelão, para que o ouça de confissão e o disponha, crescendo a doença, com os mais sacramentos para morrer. Advirta que se não metam no carro os bois que trabalharam muito nos dias antecedentes, e que em todo o serviço, assim como se dá algum descanso aos bois e aos cavalos, assim se dê, e com maior razão, por suas equipações, aos escravos." (⁵)
O trabalho do feitor-mor era complementado, na maioria dos engenhos, pelo de um feitor encarregado exclusivamente da moenda, havendo, também, feitores "dos partidos", ou seja, feitores encarregados de administrar as plantações de cana-de-açúcar.
O minucioso Antonil (⁶) ainda tratou de explicar qual deveria ser o salário anual dos feitores:
"Ao feitor-mor dão, nos engenhos reais, sessenta mil réis. Ao feitor da moenda, aonde se mói por sete e oito meses, quarenta ou cinquenta mil réis, particularmente se se lhe encomenda algum outro serviço, mas aonde há menos que fazer, e não se ocupa em outra coisa, dão trinta mil réis. Aos que assistem nos partidos e fazendas, também hoje, aonde a lida é grande, dão quarenta ou quarenta e cinco mil réis." (⁷)
É difícil determinar, com exatidão, qual era o poder de compra dos salários referidos, mas sabe-se que antes que o preço dos cativos chegasse às nuvens em decorrência da descoberta do ouro das Gerais, sessenta mil réis era o preço usual de um escravo forte e saudável. A conclusão óbvia é que, malgrado a autoridade de que era investido, da brutalidade no trato com os escravos que o caracterizava, do verdadeiro terror que impunha aos subordinados, um feitor era, afinal, também um indivíduo de baixa posição social. Trabalhava muito, tinha enormes responsabilidades, mas não via qualquer perspectiva de enriquecer com a renda que lhe cabia (⁸). Os verdadeiros lucros do açúcar iam para outros bolsos.

(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 14.
(2) Vê-se, portanto, de onde é que vem o conceito popular da palavra feitor, a que me referi; o conselho dado por Antonil deixa entrever o fato de que os homens encarregados de comandar os escravos eram dados a cometer arbitrariedades.
(3) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio).  Op. cit., p. 14.
(4) Ibid., pp. 14 e 15.
(5) Ibid., pp. 15 e 16.
(6) A obra de Antonil é valiosa, entre outros aspectos, porque preservou detalhes da vida nos engenhos que, de outro modo, talvez fossem perdidos para sempre.
(7) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio).  Op. cit., p. 17.
(8) Antonil explicava, na mesma obra, que os capelães de engenho recebiam, anualmente, quarenta ou cinquenta mil réis, mais alimentação à mesa do senhor. Havia, em cada engenho, muitos outros trabalhadores livres.


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sexta-feira, 24 de julho de 2015

O momento em que os escravos deixaram de ser mercadoria

Retrato de um escravo (¹)
Nos tempos coloniais, Antonil afirmou que os escravos eram "as mãos e os pés do senhor de engenho" (²). Já no Império, o segundo Barão de Paty do Alferes, Francisco P. de Lacerda Werneck, escreveu que os escravos eram, para o fazendeiro, "a máxima parte de sua fortuna" (³). 
Tinham razão, tanto um quanto outro. 
Terras, por si mesmas, não produziam canaviais, algodoais, cafezais. Não. Era a mão de obra dos escravos que derrubava as matas, preparava o terreno, plantava, colhia, gerava riqueza, enfim, não para benefício dos próprios cativos, é evidente, mas para a prosperidade de seus senhores.
Além de força de trabalho, escravos eram mercadoria. Se um senhor quisesse, podia, a qualquer momento, vender os escravos que tinha, ou então comprar mais alguns. O preço dos escravos era determinado pela lei de mercado. Houve circunstâncias em que o preço de um escravo jovem e robusto foi quase às nuvens (nas minas de ouro, durante o Século XVIII, por exemplo). Uma escrava doméstica, capaz de cozinhar muito bem, passar e engomar a roupa com perfeição e, além disso, habilidosa em trabalhos de agulha, era igualmente muito valiosa.
Mas chegou um momento em que o valor de mercado dos cativos despencou. Ou seja, na prática, escravos deixaram de ser mercadoria. Ainda davam lucro pelo trabalho que faziam, quer nas fazendas, quer vendendo coisas pelas ruas ou ainda alugados para determinadas tarefas, mas não havia quase ninguém que quisesse comprá-los, razão pela qual o preço veio abaixo. Isso aconteceu intensamente na última década de vigência do regime escravista no Brasil.
Um livrinho publicado no Rio de Janeiro em 1885, sob o título A Abolição e o Crédito, afirmava que "os escravos, já de algum tempo custando preço insignificante, dão entretanto altos aluguéis, ou prestam serviços de valor a estes equiparados" (⁴).
Era assim mesmo. Por quê?
A perspectiva da abolição, que se mostrava inevitável, fazia com que ninguém mais quisesse arriscar o capital disponível em comprar escravos. Sociedades abolicionistas pipocavam por quase todo o país, auxiliando escravos com recursos para a compra da liberdade, uma tarefa grandemente facilitada diante dos baixíssimos preços que poderiam alcançar no mercado. As fugas de escravos que, no passado, eram casos isolados, agora ocorriam em massa, principalmente em áreas rurais, sem que as autoridades tivessem, então, muito ânimo em sair à sua procura. Vê-se que não havia mais espaço para a escravidão, ainda que alguns senhores muito teimosos insistissem que a abolição feriria o direito à propriedade assegurado pela Constituição, e que, portanto, cabia ao Estado indenizá-los.
Porém, a pressão, decorrente de interesses econômicos e políticos, ou em virtude de questões humanitárias, era enorme. A abolição veio, sem mais prazos e sem qualquer indenização, em maio de 1888.

(1) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 22.
(3) WERNECK, Francisco Peixoto de Lacerda. Memória Sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1863, p. 16.
(4) PENIDO, José. A Abolição e o Crédito. Rio de Janeiro: Typographia da Escola de Serafim J. Alves, 1885, p. 12.


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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Uma casa na roça, outra na vila ou cidade

No início do Século XVIII o jesuíta Antonil (Andreoni!) advertia senhores de engenho ou candidatos a esse posto que era desperdício de dinheiro manter duas casas, uma na fazenda, outra na cidade:
"Mau é ter nome de avarento, mas não é glória digna de louvor o ser pródigo. Quem se resolve a lidar com engenho, ou se há de retirar da cidade, fugindo das ocupações da República que obrigam a divertir-se, ou há de ter atualmente duas casas abertas, com notável prejuízo aonde quer que falte a sua assistência, e com dobrada despesa." (¹) 
O aviso de Antonil não era descabido, mas provavelmente encontrou pouca ou nenhuma obediência. No Brasil Colonial, e mesmo mais adiante, após a independência, muitas povoações somente eram de fato habitadas nos finais de semana e nos feriados, quando a gente das áreas rurais vinha assistir missa. Nos demais dias, as vilas e arraiais permaneciam quase desertos e, não raro, o padre era o único morador permanente, isso quando também não bandeava para outro lugar, malgrado seu dever de dizer missa diariamente. Por outro lado, fazendo justiça aos padres, é preciso dizer que eles tinham por obrigação atender às várias capelas filiais de suas respectivas paróquias, e, não sendo onipresentes, tinham de deslocar-se continuamente entre diversas povoações, que, em certos casos, ficavam muito distantes umas das outras.
O brigadeiro Cunha Matos, militar português que veio ao Brasil entre os que acompanharam o regente D. João, e que acabou ficando por aqui mesmo após a independência, a serviço do novo governo do Brasil, fez, ao andar por terras da província de Goiás, esta interessante observação:
"Na maior parte dos arraiais do Brasil as casas acham-se fechadas durante os dias da semana, abrindo-se unicamente nos dias de missa ou de festa que é quando os seus donos fazendeiros ali se demoram por espaço de algumas horas." (²)
Já nos outros dias, explicou, "o capelão, o oficial que serve de comandante do distrito em lugar do proprietário, o sacristão, o estalajadeiro ou rancheiro, os taberneiros ou vendeiros, o escrivão do juiz da Vintena e algumas meretrizes que fazem as delícias dos tropeiros [sic!], são as pessoas que ordinariamente habitam os arraiais nos dias da semana." (³)
É certo que Cunha Matos estava supondo a população fixa de alguma povoação à margem de uma estrada que consistia em rota de tropeiros. Se não fosse esse o caso, talvez a população nos "dias de semana"(⁴) não seria tão vasta.
No auge do café, em São Paulo, ou seja, posteriormente a 1850, viria a ocorrer um fenômeno inverso: os grandes fazendeiros moravam em belos casarões que faziam construir nas cidades, onde suas respectivas famílias poderiam desfrutar de um padrão elevado de convivência social, indo às fazendas para administrar os negócios, tarefa na qual, aliás, costumavam ter auxiliares, os famosos "administradores". 

(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 29.
(2) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 90.
(3) Ibid.
(4) Essa expressão não deixa de ser engraçada, já que sábados, domingos e feriados também são parte das semanas.


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sexta-feira, 20 de março de 2015

A catequese como justificativa para a escravidão no Brasil Colonial

Um argumento recorrente para justificar a escravidão de africanos no Brasil Colonial era de que, vindo à América, os escravizados seriam mais facilmente doutrinados na fé cristã (!!!). Nuno Marques Pereira, autor do Compêndio Narrativo do Peregrino da América, obra de grande sucesso no Século XVIII, declarou, sem rodeios:
"E também permite sua divina misericórdia que muitos destes gentios sejam trazidos às terras dos católicos para os ensinarem e doutrinarem, e lhes tirarem os ritos gentílicos, que lá tinham aprendido com seus pais." (¹) 
Essa ideia, hoje, pode parecer absurda - colocava-se em Deus a responsabilidade pela escravidão - mas é fato que foi amplamente empregada, até mesmo por religiosos, e, portanto, não era coisa apenas de escravocratas que queriam acalmar a consciência, até porque os proprietários de escravos não tinham por costume ver algo de errado na apropriação do trabalho de um ser humano por outro. Para eles, escravos eram sua propriedade, e nada mais. 
Era obrigação dos senhores providenciar assistência religiosa para seus escravos, mas a maioria não tomava qualquer atitude nesse sentido. Até mesmo o dever (imposto pela Igreja) de conceder descanso aos escravos nos domingos e feriados religiosos era desconsiderado. Afinal, não havia qualquer fiscalização e, pensava-se, escravos existiam para trabalhar.
No começo do Século XVIII Antonil observou:
"Outros são tão pouco cuidadosos do que pertence à salvação dos seus escravos, que os têm por muito tempo no canavial ou no engenho sem batismo." (²) 
Entende-se que Antonil, ele próprio um jesuíta, escandalizava-se com o pouco caso dos senhores em questões de fé. E acrescentava, recordando aos poderosos que de tudo dariam conta no Juízo Final:
"Dizem os senhores que estes [os escravos] não são capazes de aprender a confessar-se, nem de pedir perdão a Deus, nem de rezar pelas contas, nem de saber os dez mandamentos; tudo por falta de ensino e por não considerarem a conta grande que de tudo isto hão de dar a Deus, pois (como diz São Paulo), sendo cristãos e descuidando-se de seus escravos, se hão com eles pior do que se fossem infiéis." (³)
O tempo evidenciava que o tal argumento da catequese para justificar a escravidão não passava de um embuste, a tal ponto que, já no Século XIX, o padre Ayres de Casal viria a afirmar que, ao contrário do que geralmente se aceitava, a escravidão era, sim, um impedimento à propagação da fé cristã:
"Convém-se que esta gente é um mal moral, um obstáculo ao aumento da população branca, e que enquanto escravos, não podem ser bons cristãos, nem vassalos fiéis." (⁴)
Deixando de lado o quanto o dizer de Ayres de Casal soa preconceituoso a um leitor do Século XXI, vale notar que, em seu tempo, já se levantava o argumento de que a escravidão não era somente um impedimento à religião. Tornava também impossível que a população cativa pudesse servir aos interesses do rei.

(1) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 119.
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 25.
(3) Ibid.
(4) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica,  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 60.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Viagens nos tempos coloniais

Se, no passado, as notícias corriam mundo bem devagar, é também verdade que viajar constituía-se, quase sempre, em uma grande aventura. Qualquer viagenzinha que hoje fazemos, por via aérea, em trinta ou quarenta minutos, podia levar mais ou menos uma semana. Que dizer, então, das viagens mais longas?
Embarcações a vela em mar tempestuoso (²)
Sabe-se, por exemplo, que durante a maior parte do século XVI, apenas um navio fazia, anualmente, a rota entre a Capitania de São Vicente e a Europa. Excluem-se, por suposto, eventuais viagens feitas por piratas e corsários.
Além disso, a navegação a vela tinha seus inconvenientes: não era em qualquer época do ano que se podia viajar. No século XVII considerava-se mais adequado que os navios que iam do Brasil para o Reino iniciassem a rota nos meses de agosto ou setembro. Lembremo-nos de que, diante da fúria do oceano, qualquer nau ou caravela da era de ouro das grandes navegações tinha uma resistência que podia lembrar a de uma casca de ovo, ao menos para quem viajava dentro dela.
Em se tratando de viagens terrestres, sabe-se que, no início do século XVIII, uma viagem de São Paulo às Minas Gerais levava cerca de dois meses; foi o que relatou Antonil:
"Gastam comumente os paulistas desde a vila de São Paulo até as Minas Gerais dos Cataguás pelo menos dois meses..." (¹)
Voltando ao mar, a esquadra que saiu de Portugal em novembro de 1807 com destino ao Brasil, trazendo a família real portuguesa, muitos nobres e mais gente que conseguiu embarcar, era composta por cinco fragatas, dois brigues, duas charruas e sete naus. Acompanhavam-na muitas outras embarcações mercantes. Toda essa gente chegou ao Brasil em janeiro de 1808, depois de uma viagem nada confortável.
Hoje temos a ideia de que viajar pode ser uma ótima opção de lazer. Mas nem sempre foi assim. Viagens eram cansativas, longas, desconfortáveis e, principalmente, arriscadas. Pouca gente tinha recursos e coragem para meter o pé na estrada e ir conhecer o mundo. Não é estranho, portanto, que, para a maioria das pessoas, o mundo fosse mesmo muito pequeno. Um ser humano comum podia passar a vida toda apenas em uma pequena povoação, sabendo do resto do planeta só aquilo que contavam uns poucos aventureiros, com todos os requintes do exagero e - por que não? - de mentira, que superfaturava a coragem do narrador.

(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 159.
(2) MALLET, Allain. Manesson Beschreibung des gantzen Welt-Kreises. Frankfurt am Main: J. A. Jung, 1719. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Livros proibidos

Publicar livros, assim, à vontade, é coisa das sociedades democráticas. Certo, cada um é responsável, inclusive legalmente, pelo que escreve. Mas não há nenhuma instância que deva, obrigatoriamente, autorizar a impressão e venda, antes que uma obra qualquer seja dada ao público.
Ora, nesse sentido, as coisas já foram bem difíceis. Havia, antes de mais nada, o Index Librorum Prohibitorum, ou seja, a lista de livros, atualizada periodicamente, cuja leitura era vedada aos católicos. Com isso, nos países que eram oficialmente de religião católica, a circulação dos livros constantes no Index era proibida. Infratores eram punidos com toda a severidade.
Ao longo dos séculos (¹), o Index variou bastante, mas nele constaram, como seria óbvio, as obras dos reformadores Lutero, Calvino e companhia, bem como escritos dos homens de ciência que bateram cabeça com autoridades eclesiásticas (Galileu, Copérnico, Giordano Bruno...), gente do Iluminismo (Rousseau, Diderot, Voltaire, Montesquieu, por exemplo) e até figuras universalmente reconhecidas na Literatura (como E. Zola, Victor Hugo, Flaubert e muitos outros).
Ora, senhores leitores, querem descobrir por si mesmos as razões que teriam levado tantos livros ao listão dos proibidos? Podem correr os olhos por suas páginas (²). Hoje, isso é possível, ninguém impede ou proíbe. Talvez, por isso mesmo, é que relativamente pouca gente se dá ao trabalho de cultivar a leitura.
Lista de livros proibidos publicada em
Portugal no ano de 1551 (³)
Mas não era apenas por questões religiosas que um livro podia ser impedido de circular. Havia também a censura das autoridades seculares. No caso de Portugal e de suas colônias, o regulamento era estipulado pelas Ordenações do Reino, no Livro Quinto, Título CII:
"Por se evitarem os inconvenientes que se podem seguir de se imprimirem em nossos Reinos e Senhorios ou de se mandarem imprimir fora deles livros ou obras feitas por nossos vassalos, sem primeiro serem vistas e examinadas, mandamos que nenhum morador nestes Reinos imprima, nem mande imprimir neles nem fora deles obra alguma, de qualquer matéria que seja, sem primeiro ser vista e examinada pelos desembargadores do Paço, depois de ser vista e aprovada pelos oficiais do Santo Ofício da Inquisição. E achando os ditos desembargadores do Paço, que a obra é útil para se dever imprimir, darão por seu despacho licença que se imprima, e não o sendo, a negarão. E qualquer impressor livreiro, ou pessoa que sem a dita licença imprimir ou mandar imprimir algum livro ou obra, perderá todos os volumes que se acharem impressos, e pagará cinquenta cruzados, a metade para os cativos e a outra para o acusador." (⁴)
Finalmente, deve-se acrescentar que, mesmo que um livro fosse autorizado tanto pelo Desembargo do Paço quanto pelo Santo Ofício da Inquisição, sendo desse modo impresso e posto à venda, podia, posteriormente, ser proibido. Toda a edição era, então, confiscada e destruída. Foi o sucedeu  ao famosíssimo Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas, de André João Antonil. Qual o motivo? Simplesmente porque só depois da publicação é que as autoridades portuguesas perceberam que a obra "falava demais", dava imensa quantidade de informações sobre o Brasil Colonial, de modo a despertar a cobiça de outras potências europeias. Pouquíssimos exemplares escaparam à destruição.

(1) O Index Librorum Prohibitorum existiu desde a segunda metade do Século XVI até nada menos que 1966.
(2) A dificuldade estaria, talvez, em encontrar alguns títulos, que não veem uma edição há muito tempo.
(3) O original pertence ao acervo da BNDigital; a  imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) De acordo com a edição de 1824 da Universidade de Coimbra.


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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Quanta cana um engenho real podia moer

Cana-de-açúcar (²)
De acordo com Antonil, um engenho real (com roda d'água) moía, semanalmente, as seguintes quantidades de cana-de-açúcar, no Século XVIII:
- Diariamente: 25 a 30 carros de cana;
- Semanalmente: até sete vezes a quantidade diária (o que significa que um engenho, nesse caso, funcionava os sete dias da semana, sem interrupções).
Explica o Padre Antonil (ou Andreoni...):
"No espaço de vinte e quatro horas é moída uma tarefa redonda de vinte e cinco até trinta carros de cana, e em uma semana das que chamam solteiras (que vêm a ser, sem dia santo), chegam a moer sete tarefas." (¹)
Era, para a capacidade do maquinário da época, uma quantidade enorme de cana, que resultava em lucros (grandes) para os senhores de engenho, para os que transportavam o açúcar até a Europa (lucros maiores) e para os que, depois de refinado o açúcar, vendiam-no nos mercados europeus (lucros muito maiores).
Essa quantidade de cana moída valia, como já disse, para os engenhos d'água, também chamados engenhos reais, que eram muito superiores em capacidade de moagem aos engenhos-trapiches, mais conhecidos como "engenhocas", e que eram, geralmente, movidos por animais (os muito pequenos usavam escravos para mover o maquinário). Mas havia, ao menos no Nordeste açucareiro, um grave problema em relação aos engenhos d'água: a falta exatamente dela, a água, quando, durante as longas estiagens, tão frequentes na região, os cursos d'água que moviam o maquinário chegavam a secar. Por isso, mesmo havendo cana para moer durante o ano todo, nem sempre isso acontecia - não por faltar a cana, e sim a água. Foi o que explicou o Padre Fernão Cardim, jesuíta, em carta ao Provincial de sua Ordem, datada dos anos oitenta do Século XVI:
"Tornando aos engenhos, cada um deles é uma máquina e fábrica incrível, uns são de água rasteiros, outros de água copeiros, os quais moem mais e com menos gasto, outros não são d'água, mas moem com bois, e chamam-se trapiches; estes têm muito maior fábrica e gasto, ainda que moem menos, moem todo o tempo do ano, o que não têm os d'água, porque às vezes lhes falta." (³)

(1) ANTONIL, André João (Giovanni Antonio Andreoni). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 53.
(2) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 83. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 54.


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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Quanto se pagava a um capelão de engenho no Brasil Colonial

Os engenhos de açúcar do Período Colonial eram localizados em áreas que deviam estar perto o suficiente dos portos para que o embarque do açúcar, com destino à Europa, fosse viável. Mas deviam estar, também, em áreas nas quais tanto o solo quanto o clima fossem favoráveis ao cultivo da cana em larga escala. Além disso, precisavam ter matas nas proximidades, já que o consumo de lenha seria alto. E, não menos importante, no caso dos engenhos d'água (ou "engenhos reais"), precisavam dispor de água corrente com força capaz de girar as chamadas rodas d'água.
Vê-se, portanto, que, da escolha acertada da localização dependia, em medida considerável, o sucesso de um novo empreendimento açucareiro. Por isso, a maioria dos engenhos acabava por constituir-se em unidades econômicas tão autônomas quanto possível, já que nem sempre a localização favorável estava perto de uma vila ou cidade importante.
Ora, nos tempos coloniais, as pessoas eram, em geral, muito religiosas, mesmo aquelas que não poderiam ser reputadas como modelos de virtudes. Assim, entre as instalações de um engenho estava sempre uma capela e, para manter a regularidade dos ofícios religiosos, entre os trabalhadores livres os senhores de engenho faziam constar um padre, que era assalariado, conforme conta o Padre Fernão Cardim, em carta datada dos anos oitenta do Século XVI:
"O Padre Quirício Caxa e eu pregamos algumas vezes nas ermidas que quase todos os senhores de engenhos têm em suas fazendas, e alguns sustentam capelão à sua custa, dando-lhe quarenta ou cinquenta mil réis cada ano, e de comer à sua mesa." (*)
Qual era o poder aquisitivo do salário anual que recebia um capelão de engenho? Apenas para efeito de comparação, vale lembrar que, no Século XVI, em São Paulo, onde a quantidade de escravos indígenas era muito grande, o preço de um nativo escravizado, de acordo com a idade e capacidade para o trabalho, além da tribo de origem, variava, mais ou menos, entre 5 e 15 mil réis. Ou seja, se não era regiamente pago, um capelão, por outro lado, não sendo alguém de grandes ambições, podia levar uma vida razoável, para os padrões da época e condições proporcionadas pela Colônia.
O hábito de ter um padre capelão foi mantido, com o passar do tempo, mesmo porque era símbolo de status, para um senhor de engenho, ter quem celebrasse missas, batizasse as crianças e fizesse casamentos em sua capela. Mais de cem anos depois do Padre Cardim, Antonil, em sua famosa obra Cultura e Opulência do Brasil Por Suas Drogas e Minas, mencionaria os capelães entre os funcionários livres assalariados que os engenhos precisavam ter.

(*) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. 
Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, p. 52.


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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Quem ia procurar ouro nas Minas?

A população que vivia nas regiões mineradoras do Brasil Colonial


A notícia de que se achara ouro no Brasil - não no litoral, ou perto dele, mas no interior - espalhou-se rapidamente. O Século XVII ia chegando ao fim e a situação da tesouraria real em Lisboa não era das melhores (grande novidade...). O próprio rei assumia esse fato, em carta a seus leais vassalos no Brasil, nas quais mandava procurar ouro, por estar "exausta a sua fazenda". Acenava com honrarias, já que outra coisa não poderia ser.
As leis sobre o direito de exploração das minas eram parte das Ordenações do Reino, mas diante da avalanche humana que correu ao interior do Brasil no rumo da miragem do ouro pouco podia uma lei distante que ninguém estava muito interessado em respeitar. Não espanta, pois que, quando finalmente Portugal resolveu tomar as rédeas da mineração, mandando governantes, estabelecendo jurisdições e impondo a criação de casas de fundição que assegurassem a quintagem do metal precioso, pipocassem rebeliões contra a autoridade lusa, como a Revolta de Filipe dos Santos, por exemplo, em 1720.
Vale observar que a Revolta de 1720 não foi, como já se tentou fazer crer, um movimento nativista que precedeu a luta pela Independência. Ao que tudo indica, Filipe dos Santos era português, e chegou a Vila Rica como tantos outros que sonhavam com riqueza. A rebelião aconteceu porque o representante luso, Conde de Assumar, simplesmente procurou impor a disciplina das leis, aliás bastante duras, mas que não eram muito diferentes no resto do mundo daquela época.
O que nos interessa, agora, é saber quem eram as pessoas que acorriam, em multidões, às minas. Temos uma boa descrição em Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas, de André João Antonil:
"Cada ano vem nas frotas quantidade de portugueses e estrangeiros para passarem às minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil vão brancos, pardos, pretos e muitos índios, de que os paulistas se servem. A mistura é de toda a condição de pessoas: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos, e religiosos de diversos institutos, muitos dos quais não têm no Brasil convento nem casa." (*)
É fácil perceber que, na ânsia febril de enriquecer, havia gente de toda e qualquer situação arriscando tudo para tentar a sorte nas minas. Até mesmo os religiosos, que se supunha dedicados a propósitos menos ligados à materialidade, estavam dispostos à aventura do ouro, ainda que isso significasse o sacrifício dos votos que haviam feito.
Essa era a gente das minas. Dessa gente se fez a primeira sociedade verdadeiramente urbana do Brasil, ainda que um tanto mutante: no dizer de Antonil, "como os filhos de Israel no deserto". Povoações surgiam, desordenadamente, quase de um dia para outro, aonde se anunciava um terreno promissor; declinavam igualmente rápido os povoados, sempre que as esperanças eram frustradas. Desnecessário é dizer o quão difícil era manter a ordem em tais lugares, nos quais os crimes mais absurdos viravam coisa corriqueira. Ao mesmo tempo, a riqueza arrancada da terra inspirava em gente devota o desejo de expressar, na construção de igrejas, o sentimento de gratidão.
Alguns desses ajuntamentos acabaram persistindo, tornaram-se cidades e vilas importantes, desenvolveram a cultura e a arte, bem como um estilo de vida próprio. Permanecem até hoje, como um testemunho do que a humanidade pode ter de melhor e de pior.

(*) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, pp. 136 e 137.


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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Os engenhos de açúcar foram responsáveis por grandes desmatamentos

Um engenho, para funcionar, precisava ter excelente maquinário, muitos escravos e grande quantidade de cana-de-açúcar para moer, certo?
Sim, mas era preciso muito mais. É o que diz André João Antonil (ou Giovanni Antonio Andreoni), o grande autor do Período Colonial, em se tratando da economia açucareira. Uma das maiores necessidades de um verdadeiro engenho era dispor de quantidades enormes de lenha para queimar:
"Querem as fornalhas, que por sete e oito meses ardem de dia e de noite, muita lenha, e para isso há mister dois barcos velejados, para se buscar nos portos, indo um atrás do outro sem parar, e muito dinheiro para a comprar; ou grandes matos, com muitos carros e muitas juntas de bois para se trazer." (*)
O que nos explica o excelente Antonil é que, antes de mais nada, um engenho não podia funcionar se não houvesse lenha suficiente para manter as fornalhas trabalhando. Assim sendo, um senhor de engenho tinha duas opções, devendo eleger aquela que, para si, fosse mais conveniente:
a) Não havendo matas por perto, era preciso comprar lenha que vinha de longe, sendo necessário ter dois barcos que a trouxessem dos portos. O detalhe interessante é que Antonil assevera que o revezamento desses barcos precisava ser contínuo, para garantir o suprimento indispensável. Havia ainda o inconveniente de que lenha custava caro e o senhor teria que gastar bastante com ela.
b) Uma outra possibilidade, acessível quando havia matas por perto, era ter os próprios escravos trabalhando no corte das árvores. Essa, no entanto, não seria a única despesa, já que a madeira cortada deveria ser transportada até o engenho, o que requeria carros e bois para a tarefa.
Em síntese, com matas por perto, a lenha viria em carros de bois; com matas distantes, a lenha viria em barcos. Teria de vir, de qualquer maneira, para manter o incessante labor das fornalhas. Os engenhos eram, de uma ou de outra forma, responsáveis por grandes desmatamentos.

(*) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 2.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Fraudes e corrupção nos tempos coloniais - Parte 2

O contrabando de tabaco


De volta a Antonil (veja a postagem anterior), verificaremos que, em relação ao contrabando do tabaco que se produzia no Brasil, atribuíam-se penas draconianas aos infratores. Resultado? O de sempre - ainda maior ousadia da parte dos que praticavam descaminhos. Basta ler:
"Qualquer descaminho do tabaco, por qualquer destas partes do Brasil, fora do Registro (¹) e Guias, debaixo do que tudo vai despachado, tem por pena a perda do tabaco e da embarcação em que se achar, e mais cinco anos de degredo para Angola ao autor dessa culpa. [...].
Mas ainda maior prova do grande valor e lucro que dá o tabaco é o perderem muitos, por ambição, o temor destas penas [...]. E para isso parece que não há indústria de que se não use para o embarcar e tirar das embarcações às escondidas, à vista dos mesmos ministros, que como Argos (²) de cem olhos vigiam, quando não são juntamente Briareus (³) de cem mãos para receber, e mais mudos que os peixes para calar." (⁴)
Ora, se o lucro obtido com o contrabando de tabaco era tão significativo, a ponto de, independente das penas severas aos infratores, haver ânimo para que se empreendessem os descaminhos, resta saber quais eram as artimanhas empregadas pelos que tentavam burlar a fiscalização imposta. Nisso também Antonil explica muito bem:
"Para apontar algumas destas indústrias, direi, por relação dos casos em que se apanham não poucos, que uns mandaram o tabaco dentro das peças de artilharia, outros dentro das caixas e fechos do açúcar, outros arremedando as caras também de açúcar muito bem encouradas. Serviram-se outros dos barris de farinha da terra (⁵), dos de breu e dos de melado, cobrindo com a superfície mentirosa o que ia dentro, em folhas de flandres. Outros valeram-se das caixas de roupa, fabricadas a dois sobrados, para dar lugar a esconderijos, de frasqueiras que estão à vista, pondo entre os frascos de vinho outros também de tabaco. [...]. E não faltou quem lhe desse lugar até dentro de umas imagens ocas de santos, assim como uns carpinteiros de navios o esconderam em paus ocos, misturados entre uns e outros, de que costumam valer-se." (⁶)
Vê-se que a imaginação trabalhava a todo vapor e com  tal fertilidade, que foi capaz mesmo de legar um sólido patrimônio de "ensinamentos" às futuras gerações!

(1) Pontos oficiais de cobrança de impostos.
(2) Esse gigante mitológico dormia com cinquenta olhos fechados, enquanto os outros cinquenta permaneciam abertos.
(3) Para os antigos gregos, Briareus era um dos três gigantes que ajudaram Zeus a dominar os Titãs. Era dotado de cinquenta cabeças e cem braços, daí o uso dessa imagem por Antonil, já que cem braços significam também cem mãos... O restante os leitores inferirão por si mesmos.
(4) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 126.
(5) Farinha de mandioca.
(6) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Op. cit., p. 127.


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domingo, 12 de maio de 2013

Fraudes e corrupção nos tempos coloniais - Parte 1

Sendo agrícolas muitas das atividades coloniais, não deve parecer estranho que na prática da agricultura e/ou tarefas a ela relacionadas ocorressem muitos dos atos de fraude e corrupção da época. Igualmente, era no incipiente comércio de vilas e outras povoações que gente depravada encontrava campo fértil para agir. Isso, é claro, sem contar os clássicos corruptos que infectavam a administração colonial, que não poucas vezes era, a respeito, omissa ou conivente.
Não se tem aqui, de modo algum, a pretensão de desvendar toda a intrincada rede de corrupção que permeava a vida colonial. O que se terá, no entanto, nesta e nas próximas postagens, servirá para dar uma ideia do que ocorria. E depois há quem ainda chame Gregório de Matos de "Boca do Inferno". Sim, talvez fosse mesmo, mas muito de suas sátiras se firmava em fatos perversos do quotidiano que o poeta, com habilidade, ousava mencionar, enquanto havia gente que preferia, mesmo detendo o poder de mando, fazer de conta que não observava.

Fraudes no embarque do açúcar para a Europa


Tratando de como era o açúcar posto em caixas de madeira para embarque, Antonil descreve possíveis fraudes:
"A marca do engenho, também de fogo, se põe na mesma testa da caixa, junto ao fundo, no canto da banda direita, para que se possam averiguar as faltas que poderiam haver no encaixamento do açúcar. Porque assim como às vezes nas pipas de breu que vêm de Portugal se acham pedras breadas, e nas peças de pano de linho fino por fora, no meio se acha pano de estopa ou menor número de varas que as que se apontam na face da peça, assim se poderiam mandar nas caixas de açúcar menos arrobas das que se apontam na marca, e, no meio da caixa, açúcar mascavado por branco, como já tem acontecido, por culpa de algum caixeiro infiel." (*)
Cabem aqui duas observações:
a) As fraudes, segundo aponta Antonil, eram via de mão dupla: vinha da Metrópole breu e tecido inferiores àquilo que se supunha comprar, ia da Colônia açúcar inferior em meio ao de alta qualidade. O antigo rei dos hebreus tinha toda razão: nihil sub sole novum...
b) A outra observação é relacionada ao fato de Antonil creditar a fraude no açúcar a "algum caixeiro infiel". Era perfeitamente possível que um caixeiro contratado retirasse açúcar branco e colocasse mascavado, retendo o produto de qualidade para si; mas não se pode deixar de aventar outras origens para a fraude, inclusive por ordem de senhores de engenho, fato que Antonil, seguindo uma lógica comum em seus dias, talvez tenha preferido não enunciar.

(*) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, pp. 92 e 93.


domingo, 28 de abril de 2013

Consequências ruins da mineração no Brasil Colonial

É notável o fato de que, desde que começaram a colonizar o Brasil, tudo o que portugueses mais desejavam era encontrar jazidas de metais preciosos, de modo a dar alívio à empobrecida Coroa lusitana. O ouro, porém, demorou a aparecer (ou melhor, a ser encontrado). As "minas" trabalhadas desde fins do século XVI até meados do XVII proporcionavam magros resultados. No entanto, quando finalmente jazidas de real importância foram encontradas, as consequências que se apresentaram não foram, em sua totalidade, favoráveis aos colonos.
Uma dessas consequências foi, sem dúvida, uma elevação geral nos preços das mercadorias na Colônia, e não apenas nas regiões mineradoras. Antonil, por exemplo, refere em sua notável obra Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas:
"Mas o ter crescido tanto nestes anos o preço do cobre, ferro e pano e do mais de que necessitam os engenhos, e particularmente o valor dos escravos, que os não querem largar por menos de cem mil réis, valendo antes quarenta, e cinquenta mil réis os melhores, é a principal causa de haver subido tanto  o açúcar [...], depois de descobertas as minas de ouro, que serviram para enriquecer a poucos e para destruir a muitos [...]." (¹)
São Paulo, povoação ainda pequena, na época, sofreu muito com isso: de economia agrícola, tocada à base da mão de obra de indígenas escravizados, viu-se em penúria face à alta nos preços dos gêneros mais indispensáveis. Afinal, tudo o que se produzia destinava-se a abastecer as Minas, nas quais alimentos, vestuário, escravos, eram comprados e vendidos, literalmente, a peso de ouro. Quem iria querer comerciar a preços módicos em qualquer outra localidade? (²)
As migrações em massa constituíram-se em outra pesada consequência: esfomeados por ouro arriscavam tudo, das posses à vida, na esperança de ficarem ricos. Vinha gente do Reino, vinham estrangeiros (ainda que fosse proibido), vinha gente de outros lugares do Brasil. Consequentemente, despovoavam-se as vilas, escasseavam os braços para a lavoura, diminuía a produção agrícola. Mais um elemento, portanto, para elevar os preços dos gêneros de subsistência.
"E para que não fique este Estado do Brasil sem algum exemplo dos muitos em que a soberba e as riquezas têm feito estragos, reparai e notai com atenção. Ide a Pernambuco, passai ao Rio de Janeiro, subi a São Paulo, entrai nesta Cidade (³), correi estas vilas e seus recôncavos: vereis a quantos tem a soberba e os interesses feito notáveis destroços. A uns, arrimar bastões, a outros, largar ginetes, a muitos, encostar bengalas, a alguns, deixar alabardas, e fugirem muitos soldados, despejar engenhos, desamparar fazendas. E se perguntardes a essas ruínas quem lhes causou tão lastimosos estragos, vos responderão em ecos essas arruinadas paredes e medonhas fornalhas dos engenhos que tudo lhes procedeu da soberba e demasiada ambição." (⁴)
Medidas adotadas com o fito de deter os deslocamentos populacionais fracassaram completamente. Como mais tarde escreveria Varnhagen: "Não há diques que valham contra estas ondas de gente, que vão com passaportes ou sem eles, onde o seu melhor-estar os chama." (⁵)
 
(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 95.
(3) Refere-se a Salvador, então chamada Cidade da Bahia.
(4) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 18.
(5) VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 2, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 894.


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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Carros de bois - Parte 4

O uso de carros de bois no transporte do açúcar até os portos


Carro de bois, de acordo com Thomas Ender (¹)

Quando, em um engenho de cana, o açúcar estava pronto, era colocado em caixas e levado a um porto, de onde seguia para ser comercializado na Europa. De acordo com Antonil, havia dois modos possíveis para o transporte do açúcar até o porto, dependendo da localização do engenho produtor.

a) Engenhos localizados nas proximidades do mar

"Nos engenhos à beira-mar, levam-se as caixas ao porto desta sorte: Com rolos e espeques passam uma atrás de outra da casa da caixaria para uma carreta, feita para isso mesmo mais baixa, e sobre esta se leva cada caixa até o porto, puxando pelas cordas os negros de quem a manda embarcar por sua conta." (²)
Vê-se que, nesse caso, era aos escravos que competia o enorme esforço físico necessário ao deslocamento das carretas com caixas de açúcar. Eis um aspecto do trabalho dos escravos nos engenhos que poucos conhecem, que pouco se menciona, mas que estava em perfeito acordo com toda a brutalidade da escravidão que sustentava a produção açucareira.

b) Engenhos localizados a alguma distância do mar

"Dos engenhos pela terra dentro, vem cada caixa sobre um carro com três ou quatro juntas de bois, conforme as lamas que hão de vencer, e nisto custa caro o descuido, porque por não as trazerem no tempo do verão, depois no inverno estafam-se e matam-se os bois." (³)
Entram em cena, aqui, novamente, os carros de bois, que já haviam trabalhado em levar a cana até os engenhos, e que agora são empregados em fazer o açúcar chegar ao porto. Nota-se, na fala de Antonil, o quão dificultoso podia ser o trajeto, em decorrência das péssimas estradas e trilhas, daí porque, usualmente, evitava-se a instalação de engenhos em pontos muito distantes do litoral.

(1) O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 93.
(3) Ibid.


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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Carros de bois - Parte 3

Bois que trabalhavam nos carros e nas engenhocas


Já há neste blog uma postagem sobre a diferença que havia, nos tempos coloniais, entre os chamados engenhos reais e as engenhocas. Como bem o expressou Antonil, "os reais ganharam este apelido por terem todas as partes de que se compõem e todas as oficinas perfeitas, cheias de grande número de escravos, com muitos canaviais próprios, e outros obrigados à moenda, e principalmente por terem a realeza de moerem com água, à diferença de outros, que moem com cavalos e bois, e são menos providos e aparelhados, ou pelo menos com menor perfeição e largueza, das oficinas necessárias, e com pouco número de escravos para fazerem, como dizem, o engenho moente e corrente." (¹)
Por hora nos interessam apenas as engenhocas, também chamadas de trapiches, pelo fato de que empregavam animais na moenda, em lugar da roda d'água dos engenhos reais. Nelas, eram os bois (ou outros animais) que passavam horas intérminas a girar, girar, girar... para que se extraísse o caldo da cana, destinado à produção de açúcar e/ou de aguardente, sendo a última o que mais comumente se fazia nas engenhocas. Apenas máquinas de moer muito pequenas é que eram, eventualmente, movidas à força de escravos.
A ilustração abaixo, que apareceu em publicação holandesa no século XVII, mostra uma engenhoca em funcionamento, podendo ver-se nela o trabalho de bois:

Moenda de uma engenhoca funcionando com o trabalho de bois (²)

Assim, sendo necessário muito cuidado na escolha de bois para os carros, conforme se explicou na postagem anterior, era igualmente importante saber administrar os bois que trabalhariam nos engenhos:
"Se moendo com água e usando de barcos para a condução da cana, é necessário ter no engenho quatro ou cinco carros, com doze ou quatorze juntas de bois muito fortes, quantos haverá mister quem mói com bestas e bois, e tem cana própria, para se conduzir de longe à moenda? Advirta-se muito nisto, para se comprarem a tempo os bois, e tais quais são necessários, dando antes oito mil réis por um só boi manso e redondo, do que outro tanto por dois pequenos e magros, que não têm forças para aturarem no trabalho." (³)

(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711 - proêmio.
(2) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia Naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Op. cit. pp. 45 e 46.


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