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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Como eram feitos os quartos para hóspedes na vila de São Paulo

A hospitalidade, no Brasil Colonial, não só era vista como um dever, mas como uma necessidade. Não havia hotéis, é claro, e quem viajava precisaria encontrar hospedagem nas residências de famílias, se não quisesse passar a noite ao relento.
A menos, porém, que os hóspedes fossem pessoas de importância ou parentes próximos, havia, quase sempre, a preocupação de mantê-los distantes da família, especialmente o mais longe possível das mulheres da família (¹). Para isso, os compartimentos da casa destinados a quem se hospedava deviam ser de difícil comunicação com a área reservada ao convívio doméstico. 
Com essa premissa, não se oferece dificuldade para a compreensão do que escreveu o padre Manoel da Fonseca, autor setecentista: "[...] em São Paulo [...] costumam seus moradores fabricar nas suas fazendas recâmaras para os hóspedes de tal sorte unidas à casa, que, ficando da parte de fora, se possam servir sem detrimento, e independentes da mais família." (²)
Observaram leitores, as expressões "da parte de fora" e "independentes da mais família"? Quem precisa de mais explicações?

(1) Lembrando que as residências eram, nesse tempo, dotadas de gelosias, compreende-se melhor os costumes e as obsessões de uma sociedade marcada por forte segregação feminina.
(2) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, p. 59. Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo.


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segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Viagens nos tempos coloniais

Se, no passado, as notícias corriam mundo bem devagar, é também verdade que viajar constituía-se, quase sempre, em uma grande aventura. Qualquer viagenzinha que hoje fazemos, por via aérea, em trinta ou quarenta minutos, podia levar mais ou menos uma semana. Que dizer, então, das viagens mais longas?
Embarcações a vela em mar tempestuoso (²)
Sabe-se, por exemplo, que durante a maior parte do século XVI, apenas um navio fazia, anualmente, a rota entre a Capitania de São Vicente e a Europa. Excluem-se, por suposto, eventuais viagens feitas por piratas e corsários.
Além disso, a navegação a vela tinha seus inconvenientes: não era em qualquer época do ano que se podia viajar. No século XVII considerava-se mais adequado que os navios que iam do Brasil para o Reino iniciassem a rota nos meses de agosto ou setembro. Lembremo-nos de que, diante da fúria do oceano, qualquer nau ou caravela da era de ouro das grandes navegações tinha uma resistência que podia lembrar a de uma casca de ovo, ao menos para quem viajava dentro dela.
Em se tratando de viagens terrestres, sabe-se que, no início do século XVIII, uma viagem de São Paulo às Minas Gerais levava cerca de dois meses; foi o que relatou Antonil:
"Gastam comumente os paulistas desde a vila de São Paulo até as Minas Gerais dos Cataguás pelo menos dois meses..." (¹)
Voltando ao mar, a esquadra que saiu de Portugal em novembro de 1807 com destino ao Brasil, trazendo a família real portuguesa, muitos nobres e mais gente que conseguiu embarcar, era composta por cinco fragatas, dois brigues, duas charruas e sete naus. Acompanhavam-na muitas outras embarcações mercantes. Toda essa gente chegou ao Brasil em janeiro de 1808, depois de uma viagem nada confortável.
Hoje temos a ideia de que viajar pode ser uma ótima opção de lazer. Mas nem sempre foi assim. Viagens eram cansativas, longas, desconfortáveis e, principalmente, arriscadas. Pouca gente tinha recursos e coragem para meter o pé na estrada e ir conhecer o mundo. Não é estranho, portanto, que, para a maioria das pessoas, o mundo fosse mesmo muito pequeno. Um ser humano comum podia passar a vida toda apenas em uma pequena povoação, sabendo do resto do planeta só aquilo que contavam uns poucos aventureiros, com todos os requintes do exagero e - por que não? - de mentira, que superfaturava a coragem do narrador.

(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 159.
(2) MALLET, Allain. Manesson Beschreibung des gantzen Welt-Kreises. Frankfurt am Main: J. A. Jung, 1719. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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terça-feira, 1 de maio de 2012

Uma embarcação chamada pelota

Sabe o que é pelota? No sentido a ser usado nesta postagem, poderia ser definida como uma embarcação improvisada, feita geralmente de couro de boi. Quem a descreve com mais detalhes é Saint-Hilaire, que precisou servir-se de uma ao passar de uma margem a outra do rio Butuí. Ele é quem conta, com uma pitada de humor, a despeito da rabugice habitual:
"Ao nascer do dia, começamos a descarregar a carroça, e minhas bagagens passaram para uma piroga improvisada, tão em uso na Capitania de Montevidéu e de Rio Grande, onde não há ponte.
A pelota, nome dado a estas pirogas, é simplesmente um couro cru ligado nas quatro pontas e que, desse modo, forma um barco que se pode confundir, pela aparência, com as sacolas de papel onde se põem biscoitos. Enche-se a pelota de objetos, ata-se nela uma corda ou tira de couro; um homem, a nado, prende a corda entre os dentes e faz passar assim a piroga. Para facilitar o trabalho, meus homens estenderam uma corda de um lado a outro do rio, com a intenção de ajudá-los na travessia a nado. Eu mesmo atravessei o rio sentado numa pelota e cheguei felizmente à outra margem, bem como as minhas bagagens e a carroça. Matias, José Mariano e Firmiano ajudaram, alternadamente, a pelota a passar." (¹)
Um fato interessante é que Debret também deixou um registro desse tipo de embarcação, não em palavras, mas em uma bela imagem, que pode ser vista abaixo.

Embarcação feita com couro de boi, de acordo com Debret (²)

Tanto Saint-Hilaire quanto Debret estiveram no Brasil quando o período colonial se encerrava, e o país estreava como nação independente. Nesse tempo, a pelota tinha uso em muitos lugares, já que permitia que rios sem pontes fossem atravessados por viajantes. Era uma embarcação compatível com as condições muitas vezes difíceis do povoamento da América do Sul - os transportes, por qualquer método então disponível, eram precários, e as viagens, muito perigosas. Quem tinha de percorrer distâncias consideráveis devia arriscar-se pelas péssimas trilhas existentes (quando existiam...) submetendo-se às condições abjetas que reinavam na maior parte dos pousos de tropeiros, quase os únicos lugares em que era possível aos viajantes encontrar abrigo à noite ou em caso de tempestades.

(1) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 327.
(2) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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