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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O povo queria pão

Então, leitores, imaginaram que eu iria tratar daquela famosa anedota relacionada à Revolução Francesa, não é? 
Mas não, não mesmo. A coisa aconteceu na vila de São Paulo, nos já distantes dias coloniais. Com mais exatidão, em 1638, tempo em que expedições bandeirantes ganhavam força e as autoridades locais faziam vista grossa para quem ia ao sertão capturar indígenas para escravização, ainda que, hipocritamente, sempre se procurasse dar a impressão de que, nessa matéria, as determinações reais eram cumpridas à risca. 
Em vereação do dia 11 de setembro, seguindo o procedimento de rotina, os oficiais da Câmara de São Paulo ouviram o que o procurador tinha a dizer, e o escrivão registrou:
"[...] pelo procurador [...] foi requerido aos oficiais da Câmara que este povo carecia de pão, mantimento necessário, pelo que lhes requeria mandassem pelo alcaide notificar a quem tivesse trigo, desse pão a este povo, o que visto pelos oficiais da Câmara, disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila [...]." (*)
Alguns pontos devem ser esclarecidos. Vejamos:

1. Por que faltava trigo
 
Muitos fazendeiros tiveram, em São Paulo, o cultivo de trigo como parte de suas lavouras para suprir as necessidades da própria família, e, havendo excedente, para venda. Foi assim no Século XVI e em parte do Século XVII. Gradualmente, porém, a produção de trigo sofreu declínio, por razões que já detalhei em uma postagem publicada neste blog em 16 de outubro de 2012, cujo título é Por que se deixou de cultivar trigo em São Paulo. Resumindo a questão, era mais fácil obter boas safras de milho e mandioca, os proprietários de moinhos cobravam taxas altas demais para moer o trigo e os comerciantes de Santos, que distribuíam para outras capitanias o trigo paulista, pareciam estar sempre de acordo em praticar os preços mais baixos possíveis ao comprar o cereal, desestimulando, assim, a produção para venda. Há conjecturas, também, de que mudanças no clima podem ter tornado a triticultura menos vantajosa.

2. A falta de trigo talvez fosse expediente de comerciantes locais para elevar o preço

Acostumados ao excelente pão de trigo, os moradores de São Paulo foram dar queixa à Câmara quanto à falta do produto no comércio local. Não é improvável que alguns comerciantes dispusessem de trigo para vender, mas que o ocultassem para que, alegando sua falta, pudessem elevar os preços (hipótese perfeitamente compatível com o que se fazia em São Paulo, na época, em relação a outros produtos - carne bovina, por exemplo).

3. A ideia era forçar quem tinha trigo a vendê-lo

Quando o procurador requeria que "quem tivesse trigo, desse pão a este povo", não estava, evidentemente, sugerindo distribuição gratuita. Era apenas a linguagem corrente do tempo para significar que não se pusessem obstáculos à venda.

4. O problema seria sanado apenas se fosse conveniente a quem detinha o mando na vila

Finalmente, segundo a Ata, os oficiais da Câmara "disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila". De novo, formalidade na linguagem, segundo o costume. É concebível que, já não tivessem conhecimento do problema? As diligências seriam feitas se houvesse, de fato, interesse na questão. Caso contrário, eram incluídas na Ata, e nada mais poderia acontecer. Não se necessitam muitos esforços para conjecturar quanto aos interesses maléficos e pouco altruístas que estariam ocultos nesse sumiço do trigo e, por consequência, do pão, no comércio incipiente de São Paulo no Século XVII.

(*) O trecho citado da Ata da Câmara de São Paulo correspondente à vereação de 11 de setembro de 1638 foi aqui transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.

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sexta-feira, 22 de novembro de 2024

Gado andava solto dentro da vila de São Paulo no Século XVII


Havia gado passeando à vontade pelas ruas da vila de São Paulo no Século XVII. Por consequência, havia vestígios da passagem dos animais em toda parte, o que incluía o adro das igrejas. Que falta de respeito!...
Diante disso, a Câmara da vila decidiu, em 22 de novembro de 1624, que os proprietários dos animais deveriam ser notificados para limpar os arredores das igrejas, ainda que não se fizesse menção de mantê-los em lugar seguro, longe das vias públicas e residências:
"[...] pelos oficiais foi acordado que o gado que anda nesta vila faz muito dano às igrejas, pelo que mandaram fossem notificados os donos deles, a saber, Bartolomeu Gonçalves tenha cuidado de limpar o adro do Colégio (¹) e o adro da Santa Misericórdia, e Aleixo Jorge tenha cuidado de limpar o adro da Matriz e o adro de Nossa Senhora do Carmo, [...] terão cuidado de mandarem fazer isto todos os dias [...]." (²) 
Seria apenas mais uma notificação de rotina na administração da vila de São Paulo, a não ser pelo fato de que o escrivão das execuções, a quem competia fazer as notificações, simplesmente se recusou a tal tarefa, levando os camaristas, em 21 de dezembro, à decisão de afastá-lo das funções que exercia pelo prazo de quinze dias. 
Recomendou-se, em seguida, que o escrivão da Câmara efetuasse as notificações. Problema resolvido? Não, ao que parece, porque no ano seguinte já com novos oficiais (³), o assunto do gado que andava solto na vila voltou a ser discutido, sendo, desta vez, ordenado aos proprietários que prendessem os animais à noite, porque causavam problemas não só no adro das igrejas, mas em outros pontos da povoação: 
"[...] foi mandado a mim, escrivão, notificasse Aleixo Jorge e Bartolomeu Gonçalves, que cada um deles, com pena de cinco tostões [...], todas as noites mandassem encerrar o seu gado, visto danificar o adro das igrejas nesta vila e as casas dos moradores e os caminhos e entradas desta vila, tudo estava danificado, o que era em prejuízo deste povo [...]." 
A multa estipulada, em caso de desobediência, não era grande coisa, mas havia falta crônica de dinheiro amoedado na vila. Não é impossível que, eventualmente, proprietários de gado achassem que valia a pena ignorar as ordens da Câmara. Esses prosaicos incidentes mostram, contudo, como era a prosaica vida na prosaica vila de São Paulo pelas alturas do Século XVII. Quem ousaria falar em expulsão do gado e de seus proprietários, sabendo que, nesse tempo, era difícil encontrar quem fornecesse carne suficiente para a população?

(1) Tratava-se do Colégio dos Jesuítas. 
(2) Os trechos de atas da Câmara de São Paulo aqui citados foram transcritos na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.
(3) As eleições para a administração local eram anuais. 


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quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Expulsão de um maldizente da vila de São Paulo

Conhecem algum especialista em falar mal da vida alheia, leitores? Ao que parece, as povoações do Brasil Colonial não tinham falta de alguns desses espécimes. Na obra do poeta seiscentista Gregório de Matos é possível perceber, vez e outra, que as palavras foram usadas para castigar os fofoqueiros e maldizentes da primeira capital do Brasil, a Cidade da Bahia, hoje chamada Salvador. "Em cada porta um frequentado olheiro, / Que a vida do vizinho, e da vizinha / Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha, / Para a levar à Praça, e ao Terreiro" - Quem é que não se recorda desses versos? (¹)
Pequena como era nas primeiras décadas do Século XVII, São Paulo teve, também, o seu maldizente de ofício, de cujas habilidades somos informados pela ata da Câmara com data de 5 de setembro de 1526:
"E logo pelo procurador foi requerido [...] a eles ditos oficiais mandassem botar fora desta vila a Belchior [...], porquanto é prejudicial para este povo por respeito de sua boca, não haver nesta vila homem honrado nem mulher honrada, por ser de ruim boca, e juntamente conste já papéis que nesta Câmara há em que consta por informação o botaram já da Bahia por ser ruim boca e procedimento de sua casa e dar muitos escândalos de sua boca e vida nesta terra, pelo que requeria a suas mercês o botassem fora desta vila [...]."  (²) 
Portanto, o tal homem já havia sido expulso da Bahia, por idênticos serviços. Mas em que resultou seu caso em São Paulo? 
Em 19 de setembro de 1826 o escrivão da Ata da Câmara voltou a se ocupar dele:
"[...] deferiram os ditos oficiais o requerimento que fez o procurador [...] contra Belchior [...], mandaram os ditos oficiais que o juiz ordinário Sebastião de Freitas tirasse nova prova de seu viver e costumes que tem o dito Belchior [...], para com isso darem cumprimento à lei e ao requerimento do dito procurador [...]."  
Depois disso, não sabemos o que ocorreu ao dito tagarela, se expulso da dita vila foi, se com sua dita língua foi atormentar outra povoação colonial, ou se, já cansado de tantas aventuras, abandonou seu dito mau comportamento e acabou virando gente de bem. Está dito! 

(1) Vejam, leitores, que seus estudos de Literatura nos tempos escolares foram muito úteis. 
(2) Os trechos de atas aqui citados foram transcritos na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão. 


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segunda-feira, 1 de abril de 2024

A cadeia de São Paulo no Século XVII e o envio de um prisioneiro a Santos

A cadeia existente na vila de São Paulo no Século XVII era, ao que parece, um perfeito convite às fugas de presos, pelo que se vê em uma ata da Câmara de São Paulo relativa ao dia 1º de abril de 1628 (¹), ocasião em que o ouvidor se encontrava presente:
"[...] proveu mais que, porquanto era informado que a cadeia a cada passo se abria [e] não é boa por ser fraca e não ser de pedra edificada, que pusessem pelo meio divisas de pau fortíssimas, cravejadas e forradas com outra taipa, resguardando-lhe bem as grades com boas ombreiras de pedras e grades de ferro, fazendo o tal que não possam fugir os presos tão facilmente em razão do que achou e notou a falta que nesta vila há de justiça por os presos fugirem da cadeia [...]." (²)
É de se perguntar, em consideração ao que rotineiramente se passava na vila no Século XVII, se os camaristas de São Paulo e demais moradores tinham, de fato, muito interesse em tornar a cadeia mais segura. A resposta das autoridades locais é sintomática - se houvesse dinheiro, fariam as melhorias:
"[...] no que toca à cadeia e carcereiro e sino (³) farão todo o possível para se fazer, havendo dinheiro para isso [...], porquanto é tempo ver que não tem renda nenhuma e que, sem embargo de tudo, disse ele dito ouvidor geral que recorressem a sua majestade para os prover como convém [...]."
Que ideia maravilhosa!... Pediriam ajuda ao rei, que estava do outro lado do mar, e enquanto isso, a cadeia ficava na mesma.
Para concluir, meus leitores, veremos agora o que é que se fazia quando aparecia na vila algum delinquente a quem todos temiam. Não se julgava, é certo, que devesse ficar detido em uma cadeia tão precária, razão pela qual o sujeito devia ser remetido a Santos, cuja prisão era tida como mais confiável. Não tardou muito e houve um caso desses, registrado na ata de 30 de dezembro do mesmo ano de 1628: 
"[...] requereram os oficiais da Câmara aos juiz [...] que visto ter preso nesta cadeia a um homem por casos facinorosos, o qual corre risco estar nesta cadeia, por não ser capaz para semelhantes presos, por ser fraca e assim sua prisão correr risco e poder sair dela, ajuntando-se com alguns homiziados e fazer alguns delitos, pelo que lhe requeriam o mandasse à cadeia de Santos, por ser de pedra e cal, para aí estar mais seguro, [...] ao que o dito juiz respondeu a eles ditos oficiais lhe dessem vinte índios  que vão com eles à vila de Santos a levá-lo [...]." 
A ata pode até parecer cômica: quem, afinal, corria risco na prisão? O prisioneiro ou a população, do lado de fora? Mas o que fica claro, em meio ao palavrório do escrivão, é que não havia uma força policial regular disponível para acompanhar o prisioneiro pelo áspero Caminho do Mar até Santos, daí a requisição de vinte indígenas como escolta.

(1) Não, leitores, nada relacionado ao chamado "Dia da Mentira".
(2) Os trechos de atas da Câmara de São Paulo aqui citados foram transcritos na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão. 
(3) Entre outras utilidades, o sino que geralmente havia nas câmaras e cadeias coloniais, que quase sempre ficavam no mesmo prédio, servia para alertar a população em caso de fuga de algum preso ou para dar aviso quando havia algum incêndio na localidade, esperando-se que todos os moradores que pudessem, comparecessem para ajudar a apagar o fogo. Usava-se o sino, também, quando era necessário convocar uma reunião de todos os homens da vila, para que discutissem e votassem algum assunto de interesse geral. 


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segunda-feira, 11 de março de 2024

Dote de casamento em cabeças de gado

No passado, em muitos lugares, o pretendente a noivo pagava um dote de casamento ao pai da pretendida noiva. No Brasil Colonial, e mesmo no Império, era a noiva que devia ter um dote para poder se casar. Por conta disso, muitas moças que não tinham dote ficavam sem casamento, enquanto havia homens esperando que uma noiva com dote vantajoso aparecesse no caminho, para, como se dizia, "arrumarem a vida". 
Antes que leitores e leitoras comecem a lamentar as injustiças da sociedade (talvez por razões diferentes), temos aqui um caso interessante, ocorrido em São Paulo nos tempos coloniais, quando quase não havia moeda em circulação -  a família da noiva pagou o dote para o casamento em cabeças de gado. Está na Nobiliarchia Paulistana, escrita no Século XVIII por Pedro Taques de Almeida Paes Leme, com o aborrecido estilo próprio das (longas) genealogias dos que se supunham nobres:
"João Pires (filho de Salvador Pires [...]) foi nobre cidadão de S. Paulo, e teve grande voto nas assembleias do governo político, como pessoa de muita autoridade, respeito e veneração. Foi abundante em cabedais com estabelecimento de uma grandiosa fazenda de terras de cultura [...], que lhe foi concedida de sesmaria em 1610 com o seu sertão para a serra de Juqueri. Teve grande cópia de gados vacuns, cavalares e de ovelhas, de sorte que, dotando a nove filhas [...], cada uma levou duzentas cabeças de gado vacum, ovelhas e cavalgaduras. [...]"
Portanto, todo o conjunto pago como dote pelo casamento das nove filhas resultou em mil e oitocentos animais. Nada mal para a época em que isto aconteceu, no Século XVII. Deve ter sido um espetáculo público ver a procissão conduzindo a bicharada para as terras do noivo, a cada novo casamento que se realizava.


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quinta-feira, 27 de julho de 2023

Mercadorias para troca na falta de dinheiro amoedado em São Paulo

Era o Século XVII, ano de 1626. As correrias de paulistas pelo sertão, para captura de indígenas, ocorriam quase sem impedimentos, apesar das ordens em contrário de autoridades distantes. Afinal, a Justiça colonial quase sempre fazia vistas grossas porque se supunha que, em suas buscas por quem escravizar, um dia desses os paulistas acabariam topando com ouro ou prata, sonho dourado - sem trocadilho - do monarca português. Apesar disso, e talvez por causa disso, a existência de um número crescente de braços escravizados na lavoura fazia com que São Paulo fosse, nesse, tempo, povoação conhecida como área de fartura, capaz até de suprir a falta de víveres em outras regiões do Brasil.
Não obstante, faltava dinheiro, entenda-se, dinheiro amoedado, que servisse como equivalente para o comércio. Por consequência, a Câmara da vila de São Paulo tomou a iniciativa, em 19 de janeiro de 1626, de determinar quais mercadorias deveriam ser aceitas por mercadores, fossem eles habitantes do lugar ou vindos de outras localidades, com intenção de fazer comércio em seu território:
 "[...] visto não haver dinheiro na terra, os mercadores que a ela vêm, assim moradores como os que a ela vêm e forasteiros que trouxerem fazendas a esta vila para vender a não vendam senão a troco de fazendas da terra. [...]." (¹)
Zelosos pelos interesses dos moradores (e próprios), os camaristas de São Paulo tiveram o cuidado de determinar que mercadorias entrariam nas trocas, e qual seria o seu equivalente em dinheiro da época, resolvendo que "era bem que dessem [...] as carnes de porco a duas patacas a arroba nesta vila, e a farinha de trigo a duzentos réis o alqueire, digo a doze vinténs, e o trigo em grão a cento e sessenta réis, e o pano de algodão a oito vinténs a vara, o couro de vaca a oito vinténs e o arrátel de cera a meio tostão por lavrar e a lavrada a oitenta réis [...]." (²)  
Estes eram os artigos de que havia um excedente, e que poderiam entrar nas transações comerciais em espécie aprovadas pela Câmara. Compare-se, por exemplo, com o acordo feito pela Câmara com um oleiro décadas antes, em 1575, para que fizesse telhas para as casas da vila, acordo esse que determinava que, por não haver dinheiro amoedado, as telhas seriam pagas com carne bovina e suína, couros e cera, e será, desse modo, plenamente comprovado que as atividades econômicas não haviam, desde então, passado por grandes alterações. A vila crescera um pouco, é fato, mas não passara, ainda, por grandes novidades no dia a dia colonial.  

(1) O trecho citado da Ata da Câmara de São Paulo de 10 de janeiro de 1626 foi transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.
(2) Ibid. 


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quinta-feira, 22 de junho de 2023

Quantas armas de fogo havia em São Paulo em 1624

No contexto da ocupação da Bahia por holandeses em 1624 (¹), autoridades coloniais ordenaram à Câmara de São Paulo que toda a pólvora existente na vila fosse remetida a Santos, para preparação da defesa, caso houvesse um ataque de holandeses também no litoral da Capitania de São Vicente.
Trabuco colonial - detalhe (²) 
Os camaristas, porém, não tinham a menor intenção de obedecer e, em idas e vindas de correspondência oficial entre São Paulo e Santos, a entrega da pólvora, que se dizia ser de apenas quatro arrobas, foi sendo adiada. Argumentava-se que os moradores do planalto precisavam dela, porque parecia iminente um levante de indígenas, situação em que a pólvora, dizia-se, seria a única garantia para os colonizadores. Mas, afinal, quantas eram as armas de fogo existentes na vila?
Em uma carta enviada a Santos, destinada ao capitão-mor Álvaro Luís do Vale, que governava em nome do Conde de Monsanto, aparece uma informação muito interessante:
"[...] se acordou que a pólvora que há nesta vila e se tem tomado por ser pouca, que não são mais que quatro arrobas, que era bem que se não tirasse da vila, pois nela há passante de duzentas e cinquenta armas de fogo para as quais é bem necessária e não basta para se acudir à ocasião quando se oferecer, além de que há nesta vila muito gentio de que nós podemos temer se queiram aproveitar da ocasião para se levantarem, pois entre ele se trata já, e o dito gentio se não teme mais que das armas de fogo, pelo que se acordou em toda a junta atrás referida que a pólvora se repartisse por todos os moradores desta vila que têm armas de fogo, obrigando-se cada um a dar conta da que se lhe der [...]." (³) 
Passavam, portanto, de duzentas e cinquenta as armas de fogo em mãos dos moradores de São Paulo e adjacências. Eram muitas, se considerarmos que, na época, São Paulo era uma vila de população pouco numerosa, e continuariam a ser muitas, mesmo que admitidos os colonizadores residentes em fazendas nos arredores. Não se desejava entregar a pólvora, porquanto sua utilidade era óbvia quando, mesmo sob severa proibição, eram feitas investidas no sertão para a captura e escravização de indígenas, algo em que muitos paulistas do Século XVII eram peritos.

(1) A ocupação da Bahia durou de 9 de maio de 1624 a 27 de março de 1625 - menos de um ano, portanto.  
(2) Do acervo do Museu da Mina de Ouro, Araçariguama - SP.
(3) O trecho citado da carta ao capitão-mor foi transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.  


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quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Preparando as ruas da vila de São Paulo para os festejos do Natal

Quem anda pelas ruas logo percebe que, nesta época do ano, são intensos os preparativos para as festas de Natal e Ano-Novo. Vitrines estão repletas de luzes e produtos convidativos. A decoração, a seu modo, aquece o coração das pessoas que, com certa sensação de felicidade, se dispõem a gastar mais.
Com a ajuda da imaginação, voltemos ao começo do Século XVII, para ver o que acontecia na pequena vila de São Paulo, quando Natal e Ano-Novo se aproximavam. A vida era simples e rústica, como só poderia ser na povoação encarapitada no planalto e que apenas podia ser alcançada, vindo do litoral, por quem se dispunha a escalar o complicado Caminho do Mar. Muito de sua população vivia, durante a semana, não na vila, propriamente, mas nas fazendas e aldeias das redondezas. Aos domingos e feriados, para ouvir missa, é que essa gente punha os pés em São Paulo. Portanto, para que a vila não fizesse má figura durante as celebrações de final de ano, os oficiais da Câmara, naquele distante 1602, mandaram que uma providência essencial fosse tomada de imediato:
"Aos quatorze dias do mês de dezembro de mil e seiscentos e dois anos, nesta vila, na casa da Câmara dela, estando aí os oficiais da Câmara José de Camargo e Francisco da Gama, vereadores, e Francisco Velho, juiz, e João de Santana, procurador, [...] acordaram o seguinte, que se mandasse lançar pregão que carpam as ruas para a festa [...]." (¹)
Pensem comigo, leitores: se era preciso carpir as ruas para a festa, como eram elas habitualmente? Eram os próprios moradores que executavam o trabalho de manutenção, fazendo-o por si mesmos ou por meio de seus escravos ou "administrados" (²). A Câmara era pobre, muito pobre, como já mostrei em outros textos neste blog, e não dispunha de funcionários para fazer a conservação de áreas públicas. Ao menos neste caso, a religiosidade imperante na época devia ser motivo para que a limpeza das ruas se fizesse sem muitos protestos. Era o espírito do Natal em ação, à moda colonial.

(1) Este trecho de ata da Câmara de São Paulo foi transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.
(2) "Administrado" era um eufemismo legalmente utilizado na época para se referir ao indígena que, na prática, era escravizado por um colonizador.


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terça-feira, 22 de junho de 2021

A colheita do milho em São Paulo no começo do Século XVII

Em época de safra, as festas do milho se espalham por quase todo o Brasil. São uma velha tradição, embora hoje pouca gente trabalhe diretamente na lavoura, mas festa sempre é festa e há público suficiente para apreciar bolo, curau, pamonha e outros petiscos feitos com milho-verde. Já houve tempo, porém, em que empregar todos os braços disponíveis para a colheita do milho era questão de sobrevivência. Os dias de safra eram seguidos, como se sabe, por uma comemoração, aproveitando as virtudes culinárias do milho-verde que não estariam disponíveis em outras épocas do ano.
Foi no comecinho do Século XVII. Os oficiais da Câmara da Vila de São Paulo, que deviam comparecer habitualmente a reuniões quinzenais, tomaram uma decisão que, tanto tempo depois, vem nos mostrar que nem mesmo os figurões da administração local escapavam do trabalho na lavoura quando era hora de colher o milho. A ata registrada em 10 de fevereiro de 1601 dizia:
"[...] requereu o procurador [...] aos ditos oficiais que houveram de pedir ao senhor governador que, porquanto agora eram os tempos de colher as novidades do milho e entravam os dias santos da Quaresma, houvesse férias por tempo de dois meses, conforme a Ordenação, e se passasse por este tempo, porquanto em nenhum tempo do ano convinha melhor que elas corressem senão agora, para bem e quietação de todos e proveito da terra [...]." 
Colheita do milho e quaresma - ocasião para férias, portanto, conforme se requeria. Era preciso trabalhar na roça, supervisionar as "peças" (*) na colheita e, claro, como gente religiosa que era essa, dedicar tempo aos ofícios quaresmais. Tudo de acordo com as Ordenações que, de fato, previam férias de dois meses para os magistrados, na época da colheita do trigo e das uvas. Sem dificuldade, poder-se-ia dizer que o milho era o "trigo da terra", e tudo se arranjaria. Note-se apenas que, neste caso, as férias propostas pela Câmara não aconteceriam muito depois do início do ano... Deviam culpar o Sol, o Hemisfério Sul, e sabe-se lá que mais, por esse inconveniente. Notem também, leitores: era 10 de fevereiro, mas ninguém, ninguém mesmo na Câmara, falou em celebrar o entrudo (carnaval), nos três dias que precediam a Quaresma. Os oficiais eram gente muito séria.

(*) Indígenas submetidos a trabalho compulsório.


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terça-feira, 18 de maio de 2021

Papéis de todo tipo, livros, penas e tinteiros em uma loja do Século XIX

Em algumas atividades o uso de papel anda muito reduzido, em relação ao que era, digamos, há vinte ou trinta anos. Pequenos blocos para anotações contam com poucos adeptos, porque os smartphones, com seus quase infinitos recursos, têm agora a primazia. Nos escritórios, a digitalização poupa muitas árvores. Jornais de papel, todos sabem, vão, aos poucos, desaparecendo, ainda que tenham alguns fiéis partidários. Na era das notícias instantâneas, não foi o jornalismo que desapareceu, a mudança foi na mídia, e as redes sociais fazem comunicação imediata de quase tudo o que acontece no mundo. É por isso que um anúncio como este, publicado no Correio Paulistano (*) em 1867, interessa aos apaixonados pela História, tanto quanto chama a atenção dos saudosistas:


Se conseguirem, leitores, tentem visualizar como seria uma livraria e papelaria de meados do Século XIX, na qual se vendessem os artigos citados no anúncio: livros diversos, papéis de todo tipo para estudantes, profissionais, artistas, apaixonados que escreviam cartas e mais cartas; estariam à venda, também, penas de aço, bronze e de ave - sim, havia quem ainda as preferisse a todas as outras -
tinteiros simples, para colegiais, e luxuosos, daqueles que completavam a decoração de um escritório, fazendo boa figura em um dos ângulos de uma escrivaninha repleta de livros... 
Hoje, uma lojinha dessas seria lugar frequentado por quem faz da escrita à mão um hobby. No Século XIX, devia ter um público consumidor razoável, se considerarmos que, para os padrões da época, São Paulo, que ainda não era uma cidade muito grande, tinha uma população estudantil bastante numerosa.

(*) CORREIO PAULISTANO, Ano XIV, nº 3208, 5 de fevereiro de 1867, p. 3.


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quinta-feira, 13 de maio de 2021

Como a notícia da abolição definitiva do trabalho escravo chegou a São Paulo

A cidade de São Paulo aboliu a escravidão dentro de seus limites em 25 de fevereiro de 1888. Antes ou pouco depois, muitas outras localidades fizeram o mesmo. Era preciso, no entanto, uma lei que suprimisse de vez o trabalho escravo em todo o país, e ela veio, todos sabem, em 13 de maio de 1888. O que talvez se tenha esquecido é que o abolicionismo assumira um caráter de movimento nacional e, ressalvadas as condições da época, pode ter sido um dos maiores, se é que não o mais intenso movimento que o Brasil já experimentou.
Naquele dia, um domingo, era grande a agitação popular em São Paulo, enquanto se aguardavam notícias do Rio de Janeiro, capital do Império. Na edição de dois dias mais tarde, o Correio Paulistano noticiou:
"Anteontem, na capital, com indescritível entusiasmo foi recebida a notícia da sanção da lei da abolição dos escravos.
Diversos grupos e pessoas estacionavam dentro e em frente das redações dos jornais, esperando ansiosamente, desde 11 horas da manhã, a grande notícia.
Às 2 horas e meia foi que se espalhou por telegrama recebido a notícia de que estava para todo o sempre extinta a escravidão no Brasil.
O entusiasmo tocou então ao auge do delírio e inúmeros foguetes subiram aos ares durante o espaço de uma hora.
Por todas as ruas centrais da cidade, desde essa hora, condensava-se cada vez mais a população de S. Paulo.
Notava-se naquela multidão desusada e estranha alegria. [...]" (*)
Horas mais tarde, após anoitecer, as comemorações prosseguiram, com discursos, festas e outras manifestações. O mesmo sucedeu nos dias seguintes. Estava por começar, todavia, a tarefa que ainda hoje não se concluiu, de desfazer, até onde possível, os problemas ocasionados por séculos de escravidão.

(*) CORREIO PAULISTANO, Ano XXXIV, nº 9511, 15 de maio de 1888.


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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Como os vinhos eram pagos em São Paulo no Século XVII

Pela frequência com que a questão do preço do vinho era discutida pelos oficiais da Câmara de São Paulo nos Séculos XVI e XVII pode-se presumir que essa bebida tinha muita importância para os moradores da vila. Fazia parte de seus hábitos alimentares, é certo, mas também era usada no preparo de remédios e até para tratar ferimentos. Não se pode esquecer, ainda, seu uso nas celebrações religiosas. Havia quem cultivasse vinhas nos arredores de São Paulo, mas, a despeito dos exageros que aparecem na Nobiliarchia Paulistana (¹) de Pedro Taques de Almeida Paes Leme, é provável que a produção que daí decorria fosse suficiente apenas para consumo próprio, não sendo, nem de leve, capaz de suprir a demanda por parte do restante da população. 
Em consequência, quase todo o vinho consumido em São Paulo vinha do Reino, chegava ao porto de Santos e, então, era levado pelo terrível Caminho do Mar até o planalto paulista, onde, vendido por mercadores santistas, encontrava ávidos compradores, que, não obstante, eram incapazes de achar graça nos preços praticados, daí as queixas tão frequentes feitas à administração paulistana. Para além dos preços elevados, havia outra dificuldade: a carência de dinheiro amoedado, não só em São Paulo, mas praticamente em todo o Brasil Colonial. Entrava em ação a Câmara, portanto, para dar cabo do problema, como se vê por essa ata de 4 de abril de 1620: 
"Acordaram mais os [...] oficiais que era necessário fazer-se postura sobre os vinhos que trazem a vender a esta vila e que, porquanto há falta de dinheiro, acordaram que quem o trouxesse o vendesse a troco da fazenda da terra, a saber, couros, carnes, cera, farinhas de trigo, pano de algodão, e quem o não quiser dar pelas coisas acima ditas o não venda, com pena de seis mil réis [..]." (²)
Daí, leitores, podem ser extraídas estas conclusões:
  • O dinheiro amoedado era mesmo muito escasso e quem tinha algum tratava de retê-lo tanto quanto possível, não se dispondo a cedê-lo nem mesmo a troco de vinho;
  • "Couros, carnes, cera, farinhas de trigo, pano de algodão" deviam ser os produtos da vila de São Paulo na época, dos quais havia quantidade suficiente não só para consumo local como, sendo necessário, para troca. Notem que já não são mencionadas as marmeladas, tão famosas no século precedente.
Longe dos grandes centros açucareiros, a vida colonial corria, pois, com muita simplicidade. Quer-se maior evidência que esta oferecida pela decisão da Câmara de São Paulo?

(1) De acordo com a Nobiliarchia Paulistana, "João de Godoy Moreira foi um cidadão que em São Paulo, sua pátria, teve sempre o primeiro voto no político e civil governo da república, como pessoa de grande autoridade, respeito e veneração. Viveu abundantíssimo em cabedais, e com uma fazenda de culturas, onde as vinhas lhe davam o vinho com muita fartura. Faleceu com testamento a 20 de março de 1665" (trecho transcrito na ortografia atual e com a adição da pontuação indispensável à compreensão).
(2) Também neste trecho de ata a transcrição foi feita na ortografia atual, com adição da pontuação necessária.


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terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Quem podia ser barbeiro em São Paulo no Século XVI

O que faziam os barbeiros do final do Século XVI? Aparavam barbas, naturalmente, e cabelos... Não só. A população da vila de São Paulo recorria aos barbeiros para várias tarefas que hoje poucos buscariam (se é que alguém ainda faz), e que eram, contudo, muito procuradas em tempos passados: sangrias (¹), por exemplo, e também curativos para feridas, porque a probabilidade de haver um médico nas vilas coloniais era muito reduzida.
Ocorre que, ciumentos de suas prerrogativas, os barbeiros reconhecidos por uma corporação de ofício colocavam todos os empecilhos que podiam à atuação de intrusos na profissão. No ano de 1597 os oficiais da Câmara de São Paulo decidiram agir contra a entrada indiscriminada de forasteiros que se propunham ao trabalho de barbeiros, e que diminuíam, portanto, a freguesia disponível para os profissionais que já residiam na localidade. Diz a ata correspondente:
"Aos dezesseis dias do mês de agosto do dito ano fizeram audiência os oficiais da Câmara e assentaram coisas pertencentes ao bem comum. E logo assentaram entre todos que porquanto nesta vila havia muitas pessoas que de fora vinham e outros que não eram examinados curavam feridas e faziam sangrias por toda a terra, e que pois havia na vila Antônio Ruiz, barbeiro e homem experimentado e examinado (²), que era bem fazê-lo juiz do ofício e que sem sua ordem e sem ser visto todo o que assim curar não possa fazer nem usar da dita cura e sangrias sem sua licença e carta de examinação [sic], salvo quem em suas casas o faz e mostrem o fazer por necessidade ou em negócio e caso fortuito, não sendo achado o dito Antônio Ruiz, farão as ditas curas e sangrias para quem souberem fazer [...]." (³)
No entanto, meus leitores, talvez nos seja lícito supor que, por trás dessa tão salutar preocupação da Câmara, talvez manobrasse o próprio barbeiro Antônio Ruiz, porque, logo em seguida, a ata é enfática em dizer que o homem compareceu de imediato a prestar juramento para ser feito juiz de ofício: 
"[...] para este efeito apareceu logo o dito Antônio Ruiz e recebeu juramento dos Santos Evangelhos perante mim, escrivão, sobre um livro deles, da mão do vereador Antônio de Proença, e prometeu de usar e fazer o dito seu ofício bem e fielmente para estar aqui com os ditos oficiais que lhe mandaram passar provisão deste caso [...]."
Quanta prontidão! Sabendo que paulistas da época eram mestres em tergiversar, se conveniente, não parece pouco razoável fazer a leitura dessa ata menos pelo que diz e mais pelo subentendido, em relação à prática do sangrento ofício de barbeiro no Século XVI (⁴).

(1) A falta de médicos era gritante no território colonial, de modo que até jesuítas tinham, eventualmente, autorização do Padre Geral para efetuar sangrias, uma mania da época que se acreditava salvar vidas, embora não tenham sido poucas, certamente, as que se perderam por causa dela.
(2) Examinado talvez ainda em Portugal, em uma corporação de ofício.
(3) A Ata da Câmara de São Paulo de 16 de agosto de 1597 foi aqui transcrita na ortografia atual e com a adição de alguma pontuação, para torná-la compreensível aos leitores da atualidade (assim espero).
(4) O ofício de barbeiro continuou a envolver sangrias, curativos e até extração de dentes por muito tempo.


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terça-feira, 13 de outubro de 2020

Dois bondes levavam doentes aos hospitais em São Paulo durante a pandemia de gripe espanhola

Últimos meses de 1918. A Primeira Guerra Mundial chegava ao fim, mas um de seus legados, a chamada gripe espanhola, fazia vítimas e mais vítimas mundo afora. Não era diferente no Brasil. Através da edição de 1º de novembro de 1918 do jornal Correio Paulistano pode-se ter uma ideia quanto à forma como a cidade de São Paulo enfrentou a pandemia, levando-nos a inevitáveis comparações com o que vem acontecendo ao longo deste ano de 2020, quando a pandemia é outra mas alguns problemas se repetem, como a exaustão dos profissionais de saúde pelo excesso de trabalho e a insuficiência dos serviços públicos diante da quantidade enorme de doentes. Vejam, leitores, esta notícia:
"Da Diretoria do Serviço Sanitário recebemos a seguinte comunicação:
Esta Diretoria insiste ainda hoje para que o público procure de preferência a hospitalização, onde encontrará todos os recursos, em médicos e remédios, o que se não dará em suas residências, pois já é grande o número de médicos enfermos, e os que ainda podem prestar socorro se acham exaustos, devido ao excessivo trabalho que vêm tendo nestes últimos dias.
Para que sejam satisfeitas as remoções pedidas pelos interessados, estes poderão pedi-las aos telefones [...], a fim de que as possa providenciar o mais rápido possível." (¹)
Havia, no entanto, muita gente que não tinha meios próprios para se fazer transportar ao hospital mais próximo. A solução adotada, que talvez pareça um tanto estranha, fazia sentido na época:
"Para os indigentes, a Light & Power cedeu dois bondes, que fará trafegar por toda a cidade, a fim de recolher os que não possam se dirigir a pé para os hospitais. Estes bondes percorrerão todos os pontos de onde forem pedidas remoções e depois conduzirão os enfermos para os hospitais respectivos, auxiliando, assim, da maneira a mais eficaz, o serviço de remoção a cargo do Desinfetório Central, que já vai se ressentindo da falta de pessoal e material destinado a esse serviço. [...]" (²)
Cento e dois anos depois, já não há bondes recolhendo os doentes, mas nossa geração que, graças aos desenvolvimento científico e tecnológico, se acreditava invencível, já sabe, agora, e por experiência, o que é uma pandemia. Como os que enfrentaram a gripe espanhola em 1918 e 1919, usamos máscaras, lidamos com incertezas e esperamos por dias melhores. Não somos, afinal, tão diferentes assim.

(1) CORREIO PAULISTANO, nº 19.873, 1º de novembro de 1918, p. 2.
(2) Ibid.


terça-feira, 19 de maio de 2020

Infrações cometidas por um ferreiro que viveu em São Paulo no Século XVI

Em 1587 os oficiais da Câmara de São Paulo mandaram publicar um tabelamento de preços que podiam ser cobrados pelos ferreiros que trabalhavam na própria vila, ou nos arredores de sua jurisdição. Ora, meus leitores, temos boas razões para crer que a obediência ao tabelamento não mereceria ser classificada como exemplar, porque, no ano seguinte, 1588, manifestaram-se queixas amargas contra um ferreiro que, para impedir que seus fregueses examinassem a tabela de preços, adotara um expediente algo curioso. Deixemos que fale a documentação da época, com seu sabor característico. Dizia a ata da Câmara relativa ao dia 15 de abril de 1588 (¹):
"Aos quinze dias do mês de abril da era de mil quinhentos e oitenta e oito anos, nesta vila de São Paulo [...], pelo procurador do concelho (²) foi requerido ...] que [...] provessem sobre as posturas feitas no ano passado [...], e o povo clamava da pouca justiça mormente agravada da grande carestia e desordem do ferreiro [...]."
Portanto, leitores, fica-se sabendo, já de saída, que o perturbador da boa ordem era o ferreiro, contra quem clamava a opinião pública. Dias mais tarde, os vereadores decidiram chamar à vila dois aprendizes do ferreiro, de quem suponham poder arrancar informações confiáveis:
"Hoje, vinte e oito dias do mês de maio da era de mil e quinhentos e oitenta e oito anos, nesta vila de São Paulo [...] se ajuntaram os oficiais da Câmara [...] e [...] acordaram os oficiais que se notificasse a Domingos Fernandes, ferreiro, que com pena de mil réis mandasse a esta vila seus aprendizes [...] para com eles fazer certas diligências [...]."
Infere-se, por esse documento, que a oficina do ferreiro devia estar fora da cerca que protegia a vila. Não sabemos o que podem ter conversado o ferreiro e seus aprendizes diante da ordem expedida pela vereança, mas é certo que dois homens compareceram para depor, e não parece ter havido grande dificuldade em fazê-los dar com a língua nos dentes:
"Hoje, quatro dias do mês de junho da era de 1588 anos, nesta vila de São Paulo [...] se ajuntaram os oficiais da Câmara [...] para fazerem diligência com os aprendizes de Domingos Fernandes, ferreiro, porquanto todo o povo geralmente se queixava por sua carestia, e que não guardava nem queria guardar as taxas que lhe foram dadas de seu ofício [...]."
Cumpridas as formalidades correntes na época, segundo as quais as testemunhas deveriam jurar dizer a verdade pondo a mão direita sobre um livro dos Evangelhos, passaram os vereadores a interrogar Clemente Alves:
"[...] o vereador Fernão Dias (³) lhe fez pergunta se sabia ele se seu amo Domingos Fernandes guardava as posturas e taxas que lhe foram dadas da Câmara, declarou que era verdade que seu amo não guardava as posturas e dava as coisas que fazia na sua tenda por mais da taxa, e se fez pergunta por que razão seu amo mandara pregar o regimento (⁴) que lhe foi dado nesta Câmara no cume do esteio [...], tão alto que não podia ninguém ler e visto de muito poucos, respondeu que é verdade que seu amo lhe mandou a ele pregar o dito regimento na ilharga do dito esteio alto, dizendo-lhe que quem o quisesse ver o fosse lá ler ou dissesse que lho descessem [...]."
Hilária, certamente, essa estratégia do ferreiro descumpridor dos regulamentos. O segundo aprendiz, identificado como Pedro (⁵), confirmou os ditos de seu colega:
"[...] lhe fez pergunta se era verdade que seu amo não guardava as taxas e posturas que lhe foram dadas nesta Câmara e seu regimento, declarou que seu amo não guardava as posturas da Câmara nem usava pelo dito regimento, e levava o que queria pelas obras, e pelo não guardar o mandou pôr à ilharga do esteio da casa, alto que o não podia ler debaixo, dizendo que quem o quisesse ler o mandasse descer [...]."
As trapaças do ferreiro parecem ter irritado os administradores da vila. Uma multa dupla foi estipulada, à qual se juntou a ameaça de que nova desobediência poderia ter consequências mais graves, que, no entanto, não foram referidas:
"Vista a diligência que nesta Câmara se fez com os obreiros ou seus aprendizes de Domingos Fernandes, ferreiro, como declaram que seu amo não guarda as posturas da taxa que desta Câmara lhe foi dada [...], mas tudo faz e dá como ele quer para mais da taxa, o condenamos em mil réis [...], e visto outrossim como ele, em vez de pôr o regimento que desta Câmara levou à porta como é costume, e o mandou pregar em um esteio da casa da tenda tão alto que pessoa alguma o pudesse ler do chão, e é parte que de mui poucos podia ser visto, no que usou como homem pouco temente às Justiças, o condenamos pela desobediência e desordem em quinhentos réis [...], e será avisado que daqui por diante use melhor de seu ofício, guardando as taxas em tudo, sob pena de ser gravemente castigado."
O que teria tornado os aprendizes tão loquazes? Não sabemos. É certo, contudo, que a penalidade deveria servir para desestimular imitadores. Quem conhece alguma coisa da vida na São Paulo quinhentista ou seiscentista sabe, porém, que explorar a freguesia não era defeito apenas de um ferreiro. 
A vida nas vilas coloniais, precária como era, acabava resultando em um convite à sagacidade de comerciantes e artesãos de vários ofícios, ávidos por maiores lucros, contra os quais as sucessivas administrações precisavam lidar, nem sempre com muito sucesso.

(1) Os trechos de atas da Câmara de São Paulo foram transcritos na ortografia atual, sendo acrescentada a pontuação indispensável. 
(2) Concelho com "c", unidade municipal portuguesa.
(3) Esse Fernão Dias, vereador, viveu no Século XVI. Não era, portanto, o bandeirante conhecido como "caçador de esmeraldas".
(4) O regimento devia ser manuscrito em papel ou outro material, porque, nesse tempo, ao que se sabe, não havia quem imprimisse alguma coisa em São Paulo.
(5) A falta de um sobrenome talvez seja um lapso do escrivão, mas poderia ser indicação de que esse aprendiz fosse um indígena formalmente cristianizado. Refere-se que foi capaz de assinar seu nome no final da ata correspondente.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Como eram feitos os quartos para hóspedes na vila de São Paulo

A hospitalidade, no Brasil Colonial, não só era vista como um dever, mas como uma necessidade. Não havia hotéis, é claro, e quem viajava precisaria encontrar hospedagem nas residências de famílias, se não quisesse passar a noite ao relento.
A menos, porém, que os hóspedes fossem pessoas de importância ou parentes próximos, havia, quase sempre, a preocupação de mantê-los distantes da família, especialmente o mais longe possível das mulheres da família (¹). Para isso, os compartimentos da casa destinados a quem se hospedava deviam ser de difícil comunicação com a área reservada ao convívio doméstico. 
Com essa premissa, não se oferece dificuldade para a compreensão do que escreveu o padre Manoel da Fonseca, autor setecentista: "[...] em São Paulo [...] costumam seus moradores fabricar nas suas fazendas recâmaras para os hóspedes de tal sorte unidas à casa, que, ficando da parte de fora, se possam servir sem detrimento, e independentes da mais família." (²)
Observaram leitores, as expressões "da parte de fora" e "independentes da mais família"? Quem precisa de mais explicações?

(1) Lembrando que as residências eram, nesse tempo, dotadas de gelosias, compreende-se melhor os costumes e as obsessões de uma sociedade marcada por forte segregação feminina.
(2) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, p. 59. Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo.


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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Roupas que os alfaiates de São Paulo costuravam em 1587

Corria o Século XVI. São Paulo, apenas uma vila, em nada fazia supor a metrópole do Século XXI. Quem percorresse as poucas ruas cercadas por um muro de taipa logo perceberia que a população, que nem era muito numerosa, usava roupas simples, confeccionadas quase sempre com tecidos rústicos, mesmo para os padrões coloniais. Ao contrário do que sucedia com moradores das prósperas áreas açucareiras do Nordeste, paulistas desse tempo eram famosos pelo vestuário grosseiro e antiquado.
Como ainda não havia máquinas de costura, todo o trabalho precisava ser feito à mão, com agulha e linha. Devido à distância do Reino, tecidos de boa qualidade, fabricados na Europa, eram raros, e, por essa razão, quase sempre caríssimos. Os alfaiates, como outros artesãos, procuravam obter a melhor remuneração possível, mas suas pretensões eram limitadas pela mania que a Câmara de São Paulo tinha de impor tabelas de preços. No entanto, é graças a isso que podemos ter uma ideia do que vestiam os paulistas, mesmo que, pelo péssimo trabalho do escrivão da Câmara, destrinchar a ata correspondente seja tarefa penosa. O trecho que nos interessa, de 24 de agosto de 1587, vai transcrito aqui, simplificado (tanto quanto possível), na ortografia atual e com acréscimo da pontuação necessária à compreensão: 

"De uma roupeta de algodão aberta por diante com seus botões [...], cem réis;
De uns calções [...] de algodão, cento e sessenta réis;
De um gibão com seus botões, cem réis, e se for forrado, seis vinténs;
De um saio de pano de algodão [...], oitenta réis, e sendo debruado, [...], cem réis;
De uns calções chãos, quarenta réis;
De uma roupeta de pano do Reino com seus botões, cento e cinquenta réis;
De uns calções de pano do Reino [...], cem réis, e se forem guarnecidos, cento e quarenta réis;
De uma vasquinha de pano do Reino, cem réis, e guarnecida, cento e cinquenta réis;
De um gibão de seda pespontado, com suas bainhas pespontadas e com seus botões [...], cento e cinquenta réis;
De um corpinho de mulher, setenta réis;
De um saio de um manto, cem réis,
De uma roupinha ou saia de moça de dez ou doze anos, quarenta réis;
De feitio de uma carapuça [...], quarenta réis [...], e guarnecida, três vinténs;
De feitio de um pelote [...] com seus botões, cento e cinquenta réis;
De feitio de um capote, cento e cinquenta réis;
De um roupão [...] com pano embaixo, cento e cinquenta réis;
De feitio de uma capa de baeta, cem réis, e de pano tosado, cento e cinquenta réis."

Se vocês, leitores, conseguiram chegar até aqui, considerem que, em fins do Século XVI, quase não havia dinheiro amoedado circulando em São Paulo, e, por isso, é bastante provável que alfaiates, como os demais artesãos, fossem pagos em espécie, servindo o tabelamento apenas como parâmetro nas relações de troca. Levem em conta, também, que nem todo mundo encomendava as roupas que queria a algum alfaiate: parte da população devia ter as roupas feitas em casa mesmo, pelas mãos de alguém da família ou de escravos. Finalmente, mais uma constatação, permitida pela tabela de preços, é que a variedade de peças passíveis de encomenda não era muito grande, outro indício da simplicidade da vida colonial.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Tragédia no carnaval

Um crime duplo que abalou São Paulo no Século XVII


Podem estar certos os leitores que o episódio de hoje não foi extraído de nenhum jornal sensacionalista da atualidade - mas bem poderia figurar em algum, não fora o fato de ter ocorrido no Século XVII. Como verão, é história das mais escabrosas, contada por Pedro Taques de Almeida Paes Leme em sua Nobiliarchia Paulistana.
Alberto Pires, casado com Leonor de Camargo, foi-se a celebrar o "entrudo", o carnaval daqueles tempos. Diz Pedro Taques:
"Foi Alberto Pires extremosamente amante de sua mulher, em um dos dias de carnes tolendas, como chamam em Castela, e de entrudo no Brasil, quando Alberto Pires, em brinquedos dos que o inveterado costume destes dias introduziu, sem desculpa na maior parte dos reinos da Europa, sucedeu receber Leonor de Camargo Cabral, do próprio marido, uma limitada pancada [sic!!!] na fonte da parte esquerda, e caiu no mesmo instante morta. Esta casualidade não teve testemunhas de vista, que acreditassem a inocência do sucesso, para ficar o marido livre da suspeita de homicida." 
Bem avisei ao leitores que a história era cabeluda. Do modo como narrou Taques, dá-se a entender que a desdita ocorreu por acidente. Mas não para por aí...
O próprio Pedro Taques reconhecia não ter melhores testemunhos sobre o caso senão os depoimentos de idosos que se lembravam do acontecido. Diz, no entanto, que era corrente em  São Paulo que, desesperado com a morte da mulher, Alberto Pires teve a ideia sinistra de "armar uma cena" para inocentar-se do crime. Convidou parentes para celebrar o entrudo em sua casa e, estando um seu cunhado já perto, matou-o e colocou o corpo ao lado do de D. Leonor de Camargo. Em seguida, reuniu a família e alegou ter surpreendido a esposa e o cunhado em flagrante adultério. Em "defesa da honra", teria matado a ambos. 
Qual foi a reação dos circunstantes a tamanha lorota? Conta Pedro Taques:
"Mandou logo chamar aos seus parentes a toda pressa e aceleração, e acudindo muitos, a estes publicou que, em desagravo da sua honra, matara os adúlteros que lhe ofendiam a pureza do tálamo sacramental, cujos corpos estavam no mesmo lugar onde tinham cometido a torpeza. Sem proceder o mais mínimo acordo de reflexão se arrebataram os ânimos enfurecidos dos parentes do agressor Alberto Pires, que lhe aplaudiram a insolência como ação briosa, com que lavara a mancha da sua desonra no próprio sangue daqueles adúlteros."
Não se escandalizem os leitores com os costumes que vigoravam naqueles tempos; nós seguimos adiante, já que o caso está longe de terminar. Havia também o outro lado, o partido dos que haviam morrido... Continua Pedro Taques:
"Então os irmãos dos mortos, em numeroso corpo de armas (cada partido solicitava o despique pela dor que lhe ocupava) procuraram também lavar a ofensa de sua mágoa no mesmo sangue do autor dela, tirando-se-lhe a vida a ferro frio."
É possível imaginar o ambiente na pequena São Paulo de fins do Século XVII diante desses acontecimentos? Alberto Pires, que assassinara a mulher e o cunhado, fugiu e ocultou-se em casa de sua mãe, Dona Inês Monteiro, uma fazendeira rica e influente. Ainda assim os que lhe desejavam a morte foram à fazenda pelas horas da noite, ameaçando incendiar a casa e demais instalações se o criminoso não lhes fosse entregue. Por respeito às palavras veementes de Dona Inês, acabaram desistindo (momentaneamente) de que a justiça se fizesse ali mesmo. Alberto Pires foi preso e depois levado a Santos, de onde, por mar, devia seguir para o Rio de Janeiro, e dali para a Bahia, diante de cujo tribunal responderia por seus atos.
A poderosa mãe-fazendeira seguiu por terra, imaginando manobrar pela libertação do filho, conforme registrou Pedro Taques:
"D. Inês Monteiro, logo que de São Paulo descera para a vila de Santos o desgraçado filho, se pôs em marcha por terra a demandar a vila de Paraty, e passar-se à cidade do Rio de Janeiro (onde por parte de seu pai tinha parentes da família de Alvarengas de avultado merecimento), com firmes esperanças de libertar seu filho à custa de toda despesa de dinheiro."
Apenas uma rápida observação - estão notando os leitores as práticas da época para obstar a ação da Justiça? Então, respirem fundo, que já nos avizinhamos ao desfecho.
Os tremendos esforços de Dona Inês Monteiro foram completamente frustrados. A pequena embarcação que levava Alberto Pires enfrentou contratempos no mar e, em lugar de ir diretamente ao Rio de Janeiro, aportou na Ilha Grande. Logo a notícia da chegada de Dona Inês Monteiro ao Rio foi dada aos vingadores (e vingativos) parentes ofendidos, que não perderam a ocasião que se lhes ofereceu no momento em que o réu saía da Ilha Grande com destino ao Rio de Janeiro, já que, alcançando-o, "lhe puseram ao pescoço uma grande pedra e o lançaram vivo ao mar, em cujas águas teve o seu sepulcro, e para logo fizeram com que a embarcação tomasse o rumo para a vila de Santos, o que executou o mestre da sumaca, ou porque o temor o venceu, ou o dinheiro o obrigou." 
Pedro Taques, conquanto admitisse ter dúvidas quanto a detalhes do sucedido, tinha a virtude de não economizar palavras quando se tratava de contar as velhacarias que sabia terem ocorrido em sua amada São Paulo, até porque acontecimentos da mesma estirpe não eram raros no Brasil de séculos atrás.
É isso, por hoje, senhores leitores. Têm aqui o ponto final.


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