quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Restrições à Liberdade das Mulheres no Brasil Colonial

Em muitas famílias de certa importância, residentes na Capitania de São Vicente, as mulheres viviam reclusas. Para elas, até mesmo dentro de casa havia restrições, quando visitas estavam presentes. Duas breves referências na biografia do padre Belchior de Pontes, escrita no Século XVIII pelo também padre Manoel da Fonseca serão, creio, mais do que suficientes para comprovar esse fato. Na primeira, explica-se que, indo o padre Pontes doutrinar escravos (índios "administrados") que viviam nas terras de Amador Bueno (*), a mulher do fazendeiro assistia à doutrina "da parte de dentro da casa" (**); o mesmo fazia outra paulista, Águeda Pedrosa: "...na verdade Águeda Pedrosa já estava no lugar costumado, e com o mesmo cuidado e recato com que sempre acudia a ouvi-lo, se tinha ocultado." (***)

Mulheres usando mantilha (****)
Atribui-se a reclusão de mulheres aos chamados "costumes mouriscos" que vigoravam entre as muitas famílias de origem espanhola que viviam em São Paulo - as gelosias em construções coloniais ainda existentes seriam uma prova disso, assim como o hábito, que então era generalizado, de que "mulheres honestas" apenas aparecessem em público quando cobertas por mantilhas ou biocos, confeccionados, de preferência, em tecidos pesados, sem nenhuma transparência e de cor preta. A explicação, no entanto, não soa muito convincente porque também entre famílias de proprietários de engenhos no Nordeste as mulheres viviam trancafiadas, até mais do que em São Paulo, e lá  não se poderia argumentar com o pretexto de que as famílias senhoriais eram, em grande parte, originárias da Espanha. Dizia Antonil, no começo do Século XVIII, ao tratar da recepção aos hóspedes nos engenhos:
"Ter casa separada para os hóspedes é grande acerto, porque melhor se recebem e com menor estorvo da família, e sem prejuízo do recolhimento que hão de guardar as mulheres, e as filhas, e as moças de serviço interior, ocupadas no aparelho do jantar e da ceia." (*****)
Havia até quem aconselhasse que, para as casadas, era preferível evitar mesmo a proximidade com religiosos e parentes do sexo masculino:
"Fujam de todo o trato e conversações de homens, e de lhes aparecer, ainda que sejam parentes (...).
Fujam, quanto puderem, de ter trato ou familiaridade com pessoas eclesiásticas, porque suposto sejam comparadas com os anjos, tem sucedido muitas vezes pelo caminho da virtude entrarem na estrada da maldade. (...) Vejam que o demônio é como o ladrão: este furta nas estradas, aquele na ocasião." (******)
Ora, apesar de tantas restrições à liberdade das mulheres, há documentos relativos ao Período Colonial que comprovam a existência de senhoras que mandavam e desmandavam em suas propriedades, tomavam decisões pelos filhos, faziam testamento e, ainda que usando a famosa mantilha ou bioco, não hesitavam em aparecer em público sempre que necessário, fosse para ir à igreja, ou fosse porque tinham negócios a tratar junto à administração da localidade em que residiam. 
Que mulheres eram essas? Não trato aqui das condenadas a degredo que, contra a vontade, vinham ao Brasil, nem daquelas que, com família ou sem ela, viviam entre a população de baixo estrato social nas povoações ou em áreas rurais.  Falo, sim, das paulistas casadas com os bandeirantes, homens que tinham ido ao sertão para capturar índios ou procurar ouro, e ninguém sabia por onde andavam, e se é que andavam. Na ausência dos maridos, elas acabavam tendo que assumir o comando do trabalho nas fazendas e a administração dos negócios familiares, a não ser que tivessem parentes adultos do sexo masculino que resolvessem incumbir-se desses encargos. Elas iam às igrejas rezar pelos maridos ausentes, e isso mesmo faziam em casa, todos os dias, diante dos oratórios que certamente não faltavam. Não são poucos os supostos milagres, atribuídos a religiosos com fama de santidade, que teriam, a pedido de alguma mulher, previsto a volta deste ou daquele sertanista do qual há muito não havia notícia. Por tudo isso, ou apesar disso, para que os leitores reflitam, proponho a seguinte questão: Não seriam as andanças dos bandeirantes pelo interior do Brasil uma verdadeira libertação para suas mulheres? 

(*) Sim, é o da "Aclamação".
(**) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil
Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, p. 111
Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo
(***) Ib., p. 163 
(****) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização.
(*****) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio) Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas
Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 31
(******) PEREIRA, Nuno Marques Compêndio Narrativo do Peregrino da América
Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 327

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