segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Matador de Onças


Percorrendo o Brasil Central pouco depois da Independência, o Brigadeiro Cunha Matos (*) chegou à moradia de um matador de onças. É isso mesmo! O sujeito não apenas matava onças, mas, além disso, ainda conservava as cabeças das felinas como troféus, segundo relatou o militar luso-brasileiro:
"(...) Cheguei ao sítio denominado Fazendinha, pertencente a Adão José da Silva, homem pardo, estropiado pelas onças de que foi o mais famoso matador da Província, e cujos troféus (as cabeças) conserva espetadas em estacas junto à choupana em que habita." (**)
"Estropiado pelas onças" - quem imaginaria outra coisa? Pois vai aqui uma de suas histórias de caçador, à qual o próprio Cunha Matos achava difícil dar crédito, mesmo afirmando que o narrador parecia digno de confiança. Vamos ao caso.
Foi-se o caçador um dia à procura de uns queixadas, encontrou-os, mas ao invés de conseguir abatê-los, foi por eles perseguido, a ponto de ter de subir em uma árvore para se proteger. Os queixadas, porém, não lhe davam trégua, fazendo, embaixo da árvore, o enorme barulho que lhes é característico quando estão em grandes bandos. Então... Segue a narrativa de Cunha Matos:
"(...) Sentiu cair-lhe sobre a cabeça [do caçador] uma coisa líquida como água, e olhando para cima viu uma grande onça acuada, assentada sobre outros braços da mesma árvore. A fortuna permitiu que os porcos depois de inúteis esforços se retirassem, e ele Adão descendo da árvore, matou à espingarda a onça a que estivera tão chegado." (***)
É, como eu disse, leitores, uma história de caçador.

(*) Militar português, aderiu à Independência do Brasil e ocupou cargos importantes no Império.
(**) MATOS, Raimundo José da Cunha Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás 
Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 181
(***) Ib.

4 comentários:

  1. Uma história de caçador, sem dúvida. Mas que fascina.

    Uma boa semana, Marta :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, não faz parte da "Grande História", mas é útil quando queremos entender melhor como vivia a gente comum do interior do Brasil no começo do Século XIX.

      Excluir
  2. Hahaha, caçadores e pescadores sempre têm estórias e casos parecidos.
    Ainda que haja um fundinho de verdade, a tentação de exagerar é grande.
    Homens!
    Abraço, querida Marta
    Ruthia d'O Berço do Mundo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ora, eu avisei que era história de caçador...

      Excluir

Democraticamente, comentários e debates construtivos serão bem-recebidos. Participe!
Devido à natureza dos assuntos tratados neste blog, todos os comentários passarão, necessariamente, por moderação, antes que sejam publicados. Comentários de caráter preconceituoso, racista, sexista, etc. não serão aceitos. Entretanto, a discussão inteligente de ideias será sempre estimulada.