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quarta-feira, 31 de julho de 2024

Tesourinhas

Não se trata aqui, leitores, de instrumentos cortantes, e sim de uma avezinha muito simpática (Tyrannus savana), que o brigadeiro Cunha Matos avistou ao viajar pelo interior do Brasil pouco depois da Independência, na região do Rio Tesouras em Goiás: 
"[...] Ao lado esquerdo nasce um córrego, que encostado a um cordão de morros vai entrar no rio de Tesouras. Os caminhos desta marcha são extremamente pedregosos, e tudo deserto. [...]" (¹).
Foi então que passou a falar do pássaro que o encantou:
"[...] A geração humana parece estar morta por estes lugares, mas a ornitologia oferece uma raridade bem digna da meditação do naturalista. Neste deserto (²) há um pequenino pássaro preto [...], a cauda é forcada, e as penas compridas cruzam-se em forma de tesouras, e por este nome é conhecido. O passarinho quando bate as asas dá estalos com a cauda. [...] Esta pequena ave deu o nome ao rio e extinto arraial de Tesouras." (³) 
Felizmente a ave não é tão rara quanto Cunha Matos deve ter suposto. E, para leitores que não a conhecem, vão aqui duas fotos, que fiz há algum tempo.

Tesourinha

Tesourinha no ninho

(1) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 178.
(2) Cunha Matos falava em "deserto" com o sentido de lugar pouco habitado, não de uma região árida. 
(3) MATOS, Raimundo José da Cunha. Op. cit., p. 178.


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segunda-feira, 25 de março de 2024

Cupins

Terrivelmente destrutivos, os cupins tinham uma função importante na preservação das estradas brasileiras até o Século XIX


Cupinzeiro
A simples menção da palavra "cupim" pode provocar uma reação negativa em quem já teve móveis ou casa de madeira arruinada por eles. Não há limite à voracidade desses isópteros. Contudo, já houve quem visse neles uma incrível utilidade, no tempo em que havia poucas e péssimas estradas no Brasil, continuamente em risco de deixarem de existir pela expansão das florestas que as cercavam. 
Ao viajar pelo interior do Brasil pouco depois da Independência, o brigadeiro Cunha Matos pôde observar a ação dos cupins sobre troncos que caíam em caminhos, já, de si mesmos, precários:
"Os caminhos abertos a machado em toda a extensa região da serra, só merecem o nome de estradas no Brasil há pouco saído dos braços da natureza. [...] A Providência criou nestes lugares o benéfico e voraz cupim, que, na habitação do homem, se reputa um ente mui fatal. É a este pequeno inseto que se deve a pronta corrupção dos imensos troncos que os séculos, as estações, o fogo e os meteoros (¹) naturais lançam por terra, e que, a não ser aquele diminutíssimo inseto, obstruiriam as estradas [...]." (²)  
Cupinzeiro (outro "modelo")
Assumindo que talvez nem todos os seus leitores soubessem exatamente o que eram os cupins de que falava, Cunha Matos passou, em seguida, a descrevê-los.
"Estes animalejos", disse ele, "vivem em república que se assemelha à das abelhas; as suas casas, as suas galerias, os seus armazéns [sic] são admiráveis; a mesma contextura do edifício mostra a ciência do grande Arquiteto que os ensinou. [...]" (³).
Quem poderia lutar contra os cupinzeiros? Havia na fauna brasileira um ser com essa capacidade: 
"[...] Uma matéria glutinosa liga o pó da terra e as mais pequenas fibras da madeira, e forma um betume [sic], que só não escapa à dura e recurvada unha do tamanduá, que introduzindo a delgada língua nas galerias, recolhe ao estômago os vorazes insetos [...]." (⁴)
(1) "Meteoro", no sentido usado por Cunha Matos, designa fenômenos como chuva, granizo, vento e outros mais. 
(2) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 42.
(3) Ibid.
(4) Ibid.


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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

A tradição de nomear propriedades agrícolas em homenagem a santos

Observem estas duas fotos, leitores. O que elas têm em comum?


Quem percorre o Brasil logo percebe que muitas propriedades agrícolas têm nomes que remetem aos santos do calendário católico. O costume é antigo, e, para essa exibição de religiosidade popular, existe uma ótima explicação, dada por Raimundo José de Cunha Matos:
"No sertão cada fazendeiro tem um santo, seu advogado ou intercessor; e acontecendo estabelecer um sítio ou fazenda, põe-lhe às vezes o nome desse santo; e isso mesmo também se pratica em algumas ocasiões de compras de antigas propriedades, mudando os novos senhores os nomes com que as fazendas eram conhecidas até esse tempo." (¹)
Notem que Cunha Matos fez essa observação por volta de 1823, ou seja, pouco depois da Independência do Brasil. Como as fotos demonstram (²), quase duzentos anos mais tarde o costume ainda persiste, embora, evidentemente, nem toda propriedade agrícola seja nomeada sob o mesmo critério.

(1) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. XV.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Em camisa e ceroulas

O vestuário doméstico usado por quem vivia no interior do Brasil na primeira metade do Século XIX


Quem andasse pelo interior do Brasil por volta da primeira metade do Século XIX esperando encontrar compostura, ainda que não formalidade, na recepção de visitas, provavelmente ficaria desapontado. É que o distanciamento dos centros urbanos, o pouco ou nenhum convívio social, faziam com que até mesmo os mais abastados não tivessem escrúpulos em aparecer diante das visitas em trajes sumários. Enviado à Província de Goiás pouco depois da Independência para organizar as forças militares da região, Raimundo José da Cunha Matos observou, quanto à gente que o hospedava ao longo do caminho (que, aliás, era longo mesmo, ainda mais naqueles tempos em que o meio terrestre de transporte mais rápido eram os cavalos): "A falta de educação urbana da gente do sertão induz a apresentarem-se os homens muitas vezes em presença de pessoas de respeito em trajes do interior das casas, em camisa e ceroulas; mas as mulheres pela  maior parte aparecem vestidas com decência, posto que estejam quase sempre sem meias, e com tamancos nos pés." (¹)
Mais tarde, já na Cidade de Goiás, capital da Província, Cunha Matos observou que as mulheres viviam quase reclusas, a não ser pelas idas à missa, e isso com um traje que, se não era a mantilha dos tempos coloniais, não deixava, para efeitos práticos, de ter a mesma finalidade: "As senhoras não saem fora de casa durante o dia senão em raríssimas ocasiões, mas nos dias santos e domingos vão à missa de madrugada, e então cobrem a cabeça com um lenço que forma uma espécie de elmo com babeira mas sem viseira, e por este modo só se lhes podem ver os olhos [...]." (²)
Uma viagem de inspeção de tropas deu ao mesmo autor a oportunidade de constatar que os hábitos quanto ao vestuário que havia presenciado não estavam restritos a uma pequena área, tampouco eram praticados somente por camadas mais baixas da população. Cunha Matos, que, ao lado de suas atribuições militares, aproveitava a ocasião para ir escrevendo as observações que hoje nos divertem, deixou-nos este registro em que, a despeito do transparente mau humor, descreve com precisão quase fotográfica o trajar diário de um indivíduo que, tendo-o hospedado, estava longe de pertencer à fração empobrecida da Província: "[...] O proprietário do engenho hospedou-me com a melhor vontade, e com tanta sem-cerimônia que sempre esteve em camisa e ceroulas, tamancos, e sem meias nas pernas. Tal é o estado de civilização destes sertões, ou a grosseria de alguns homens, ainda mesmo proprietários abastados." (³)

(1) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 96.
(2) Ibid., pp. 138 e 139.
(3) Ibid. p. 188.


terça-feira, 30 de outubro de 2018

Fundição e forja de ferro no interior do Brasil no Século XIX

Oficina de ferreiro (Museu Histórico e
Geográfico de Monte Sião - MG)
"É verdadeiramente vergonhoso", afirmou Saint-Hilaire (¹), "que num país onde este metal é tão abundante, proceda ainda do estrangeiro grande parte do que consome" (²). De que metal falava? Do ferro. 
Já tratei aqui neste blog de um empreendimento ambicioso, a Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, da qual se esperava a produção de artefatos de ferro em larga escala. Seria injusto dizer que ela foi um fracasso absoluto; na mesma proporção seria inadequado sugerir que foi um sucesso retumbante. Assim, persistia a dependência de importações, geralmente de procedência britânica. 
Enquanto isso, em uma localidade remota no interior do Brasil, sem qualquer subvenção do Estado, trabalhava-se o ferro, ainda que em proporções reduzidas, para atender apenas à demanda local. O relato, pouco posterior à Independência, foi feito por Cunha Matos, ao visitar o arraial conhecido como Minas de Carlos Marinho, distrito de São Félix, pertencente, na época, à Província de Goiás:  "É muito abundante em excelente ferro, que vários pobríssimos fundidores reduzem a pequenas barras, que se vendem a 300 réis a libra." (³)
Décadas mais tarde (⁴), Richard F. Burton visitou a mina de Gongo Soco (⁵) e verificou que lá também se trabalhava em ferro, por um processo antiquado, apenas para atender às necessidades da extração de ouro na mesma localidade: "Aqui, a forja é um grosseiro banco de alvenaria, tendo 3,5 metros aproximadamente de comprimento por 3 metros de altura, com duas ou três bacias em forma de funil, de 30 cm de diâmetro, e abertas no fundo, adiante e atrás. [...]. O minério é quebrado em pedaços do tamanho aproximado de uma noz, sem prévio aquecimento ou joeiramento, e misturado na proporção de um terço para dois terços de carvão vegetal, mal medidos, por meio de um cesto; a mistura é colocada nas bacias do forno, que são previamente aquecidas e, de vez em quando, é ajuntado carvão vegetal. [...]. O negro (⁶) encarregado do fogo atiça-o alto com uma haste e sabe que o processo de fundição está terminado quando a espessa fumaça e a chama azul se transformam em uma labareda muito clara." (⁷)
A rabugice que transparece nos escritos de Burton poderia levar à conclusão de que exagerava nas deficiências do sistema observado em Gongo Soco. Não neste caso, porém. O processo adotado era rudimentar. De alta qualidade, somente o minério encontrado na área.

(1) Naturalista francês (1779 - 1853). Esteve no Brasil entre 1816 e 1822.
(2) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 115.
(3) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás Tomo II. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 142.
(4) Em 1867.
(5) Em Barão de Cocais - MG.
(6) Burton queria dizer que o trabalho era feito por um escravo. As ideias racistas desse autor são bastante conhecidas e dispensam comentários. 
(7) BURTON, Richard Francis. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília: Ed. Senado Federal, 2001, p.. 371.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O furto de mulas nos ranchos para pouso de tropeiros

Há diferença, tecnicamente, entre roubo e furto: no primeiro caso, entende-se que algo é subtraído de seu legítimo proprietário com emprego de violência; no segundo, o dono pode nem perceber, num primeiro momento, que algo desapareceu... No assunto de que trataremos hoje, porém, tanto caberia, em alguns casos, o termo "roubo", como, em outros, a palavra "furto". O que interessa é que ambas as situações não eram de todo incomuns nos ranchos que, à beira de estradas, recebiam, antigamente, os tropeiros e viajantes. Portanto, quando for mencionado um delito, entendam também a possibilidade do outro.
Será ótimo se deixarmos de lado, leitores, qualquer tendência de tornar romântico o passado. Viajar pelas péssimas estradas existentes no Brasil entre os Séculos XVIII e XIX era bastante perigoso, sendo invulgares, senão desconhecidas, as viagens turísticas (¹). Como regra geral, só viajava quem tinha necessidade estrita. O brigadeiro Cunha Matos (²) anotou, em seu Itinerário, o caso de um oficial militar assassinado por um tropeiro que contratara. O motivo - óbvio - é que esse indivíduo pretendia roubá-lo:
"Às 11 horas e 10 minutos (³) cheguei ao Córrego da Sepultura por se achar enterrado ao pé de uma cruz o Major Raimundo de S. Paulo, que aí foi assassinado pelo seu tropeiro, auxiliado segundo dizem, pelos Pereiras do Porto do Paranaíba, a fim de o roubarem." (⁴)
Menos drástico e mais frequente era o sumiço de animais de carga, das próprias cargas e de pertences de uso pessoal de tropeiros e viajantes. Sendo escasso o policiamento, até mesmo nas povoações maiores, pode-se bem imaginar o que acontecia nesses ranchos precários, à margem de precaríssimas estradas. É também por um registro feito por Cunha Matos em maio de 1823 que podemos ter uma ideia do grau de vigilância necessário a quem se aventurava por rotas terrestres:
"O número de bestas que aqui [em Barbacena - MG] se furta é incrível, e não se passam horas sem que o comandante do distrito receba queixas e reclamações, não só dos moradores da vila, mas também dos viandantes que se acomodam nos [...] ranchos." (⁵)

Mula de tropeiro, desenho de Thomas Ender (⁶)

Cabe esclarecer que situação análoga pode ser admitida, na mesma época, para quase todo local de pouso. Uma questão, todavia, se impõe: por que era tão fácil surrupiar mulas? 
A cada entardecer formava-se nos ranchos um ajuntamento de pessoas tão variado quanto numeroso, sujeitas a um convívio forçado que não passava de uma noite. Na manhã seguinte, tropas de muares e viajantes se dispersavam, seguindo cada qual seu rumo, sendo restrita a probabilidade de um novo encontro. Situação perfeita para os ladrões, portanto, que, na escuridão noturna, desapareciam por entre terras incultas, indo, talvez, a algum outro rancho, para vender os animais roubados, enquanto se mantinham à espreita de ocasião favorável para nova pilhagem.

(1) A melhoria de algumas estradas e, principalmente, a implantação de ferrovias, tornaram mais frequentes as viagens como passeio.
(2) 1776 - 1839.
(3) No ano de 1823.
(4) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 91.
(5) Ibid., pp. 37 e 38. 
(6) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Mosquitos

Durante muito tempo, ninguém associou mosquitos à transmissão de doenças


Mosquitos são detestáveis. Alguém discorda? São incômodos. Mas não é só. Podem transmitir uma quantidade enorme de doenças e, várias delas, letais. Povos antigos sofriam com a presença deles - Heródoto relatou que os antigos egípcios usavam redes para combater as hordas invasoras de mosquitos, que teimavam em adentrar casas e templos. Nós, do Século XXI, estamos longe de domar esses monstrinhos minúsculos.
Os colonizadores que, no Século XVI, ousaram encarar o desafio de descobrir o que havia para além do litoral brasileiro, logo toparam com nuvens de mosquitos, embora eles não estivessem ausentes nas regiões costeiras. É interessante que, não muito depois, pessoas adoeciam, tinham febres terríveis, não poucas morriam, mas essa gente era incapaz de fazer alguma associação entre picadas de mosquitos e doenças. A ignorância persistiu por muito tempo, e vou provar que isso é verdade. 
Em uma carta escrita por Anchieta em maio de 1560, quando esse missionário jesuíta estava em São Vicente, encontramos:
"Há pelo mato uma grande cópia de moscas e mosquitos, os quais, sugando-nos o sangue, mordem [sic] cruelmente [...], quando os campos estão alagados; uns têm o ferrão e as pernas compridas e sutilíssimas (¹); furam a pele e chupam o sangue, até que, ficando com todo o corpo muito cheio e distendido, mal podem voar; contra estes é bom remédio a fumaça, com a qual se dispersam." (²)
Se a descrição de Anchieta é suficiente para provocar calafrios, mais será a que vem agora: o caso de um jesuíta do Século XVII que usava as picadas de mosquitos para autoflagelação. É isso mesmo! Contou Manoel da Fonseca, em Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes:
"Despia-se, e posto na margem do Tamanduateí, para aquela parte onde têm os religiosos de Nossa Senhora do Carmo o seu convento, se expunha à fúria dos mosquitos, os quais, ainda que pequenos animalejos, parece que malsatisfeitos com as águas do rio, em que viviam, pretendiam saciar-se com o seu sangue. [...] Neste estado se conservava largo tempo, e se algum dos que se lavavam, vendo-o maltratado das molestas picaduras daqueles animalejos, lhos queria afugentar, o impedia, dizendo que os deixasse, porque buscavam sua vida. Assim disfarçava a sua mortificação [...]." (³)
Melhor ir adiante, e bem depressa. Passemos ao Século XIX, um pouco depois da Independência. O Brigadeiro Cunha Matos, percorrendo a Província de Goiás, constatou que, em certos lugares, as "febres" eram frequentes entre a população. Queria saber a causa, e fez algumas conjecturas:
"As febres intermitentes atacam a maior parte das pessoas que transitam pelas terras ao norte de Goiás; [...] As chuvas copiosas e o conservar a roupa molhada durante e depois das marchas, são provavelmente as causas das sezões que padecem os viandantes." (⁴)
Já veem os leitores que Cunha Matos não atinava com o fato de que as ferinhas de asas, habitando profusamente as áreas alagadas na estação das chuvas, tinham um papel preponderante em propagar doenças. Mas continuava ele suas inspeções, construindo hipóteses a partir do que ouvia o povo dizer, em relação a um lugar considerado como "dos mais doentios do universo":
"O nome do rio Bezerra amedronta a todas as pessoas, e eu fui obrigado a ordenar que os soldados dessem um grande rodeio para não passarem no porto desta estrada de Arraias, a fim de obstar ao ataque de febres intermitentes que, segundo dizem, procedem dos eflúvios de uma lagoa existente na margem esquerda do rio [...]." (⁵)
"Procedem dos eflúvios de uma lagoa" - parece que Cunha Matos fazia suas pesquisas no sistema daquela brincadeira infantil do tipo "está quente" ou "está frio"... 
Digamos que estava morno. Em outro lugar (ainda na Província de Goiás), emitiu juízo semelhante, culpando os "miasmas pútridos":
"O rio de Manoel Alves passa distante do arraial duas léguas, e como o terreno é baixo, e no começo das chuvas fica coberto de águas, que durante a estação seca se corrompem, resultam febres inflamatórias que atacam a muitas pessoas que se acham ao alcance dos miasmas pútridos espalhados na atmosfera." (⁶)
Foi somente em fins do Século XIX que pesquisadores conseguiram efetivamente associar os mosquitos ao ciclo de transmissão de vários tipos de febres intermitentes. Deveríamos esperar, portanto, que, combatendo mosquitos e eliminando locais onde se reproduzem, as doenças que transmitem viessem a desaparecer. Estranhamente, tem acontecido o inverso, uma vez que áreas supostamente livres de febre amarela, malária, etc. têm apresentado ocorrências, em paralelo ao aparecimento de doenças até aqui desconhecidas e/ou com uma capacidade de causar dano muito maior do que se supunha. Há mesmo quem diga que o ciclo reprodutivo das várias espécies de mosquitos está mais curto, em decorrência da elevação da temperatura média na Terra. Será que teremos que fugir para os polos?

(1) Não se deve esperar que Anchieta tivesse conhecimentos de entomologista. Suas descrições usam a linguagem corrente na época, sem pretensões a rigor científico. 
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 123.
(3) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, pp. 14 e 15. Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo.
(4) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 196.
(5) Ibid., p. 218.
(6) Ibid., p. 255.


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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Matador de onças


Percorrendo o Brasil Central pouco depois da Independência, o Brigadeiro Cunha Matos (¹) chegou à moradia de um matador de onças. É isso mesmo! O sujeito não apenas matava onças, mas, além disso, ainda conservava as cabeças das felinas como troféus, segundo relatou o militar luso-brasileiro:
"[...] Cheguei ao sítio denominado Fazendinha, pertencente a Adão José da Silva, homem pardo, estropiado pelas onças de que foi o mais famoso matador da Província, e cujos troféus (as cabeças) conserva espetadas em estacas junto à choupana em que habita." (²)
"Estropiado pelas onças" - quem imaginaria outra coisa? Pois vai aqui uma de suas histórias de caçador, à qual o próprio Cunha Matos achava difícil dar crédito, mesmo afirmando que o narrador parecia digno de confiança. Vamos ao caso.
Foi-se o caçador um dia à procura de uns queixadas, encontrou-os, mas ao invés de conseguir abatê-los, foi por eles perseguido, a ponto de ter de subir em uma árvore para se proteger. Os queixadas, porém, não lhe davam trégua, fazendo, embaixo da árvore, o enorme barulho que lhes é característico quando estão em grandes bandos. Então... Segue a narrativa de Cunha Matos:
"[...] Sentiu cair-lhe sobre a cabeça [do caçador] uma coisa líquida como água, e olhando para cima viu uma grande onça acuada, assentada sobre outros braços da mesma árvore. A fortuna permitiu que os porcos depois de inúteis esforços se retirassem, e ele Adão descendo da árvore, matou à espingarda a onça a que estivera tão chegado." (³)
É, como eu disse, leitores, uma história de caçador.

(1) Militar português, aderiu à Independência do Brasil e ocupou cargos importantes no Império.
(2) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 181.
(3) Ibid.


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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Recrutados à força para a luta pela Independência

Hoje temos algo para quem acha que a totalidade dos que lutaram na guerra de independência fizeram-no por devoção patriótica. 
Foi o Brigadeiro Cunha Matos (¹) quem observou, ao viajar pelo interior do Brasil em 1823:
"Às quatro horas da tarde chegaram a esta casa um sargento, dois cabos e oito soldados do regimento de Cavalaria de Minas, conduzindo vinte e cinco recrutas encorrentados pelo pescoço [sic] e dois voluntários sem prisão [...]." (²)
Tentem imaginar, leitores, quão dispostos à luta estavam os recrutados, a ponto de ser necessário acorrentá-los!...
Não foi este o único caso. O mesmo Cunha Matos também registrou em seu Itinerário:
"...Às nove horas e vinte minutos encontrei uma leva de quinze recrutas, que seguiam para o Rio de Janeiro por ordem do capitão-mor da Vila de São Bento de Tamanduá, conduzidos pelo alferes de granadeiros do Regimento de Milícias da mesma vila. Este quinze recrutas, um dos quais se mutilou em um pé para não servir [sic], completam os cem que foram detalhados à Capitania-Mor." (³)
Esses não eram casos isolados. Ao contrário, repetiam-se em quase todo o Brasil, e embora houvesse gente disposta, de livre vontade, a lutar pela independência, a maioria da população tinha horror ao recrutamento. 
Afinal, tudo se explicava: Cada região tinha uma quota de recrutas que devia remeter à capital e, assim, os infelizes capturados à força eram, sob o mais severo tratamento, obrigados a pegar em armas, a tal ponto que havia quem julgasse preferível uma mutilação e consequente invalidez a ter de juntar-se às tropas do Império recém-nascido. Cunha Matos sabia de um grupo enorme de recrutas enviados ao Pará, dos quais apenas oitenta chegaram vivos e "tão doentes e com tão grandes papeiras (⁴) que causaram horror, por ser moléstia ali desconhecida. O general do Pará maltratou estes desgraçados, e a maior parte deles pereceu miseravelmente." (⁵)
Cenas como essa, em maior escala e com maior gravidade, iriam repetir-se décadas mais tarde, por ocasião da chamada Guerra do Paraguai, durante o recrutamento para compor os batalhões de Voluntários da Pátria. Como é sabido, não eram exatamente voluntários, a despeito do nome e das exceções.

(1) Português de nascimento, Cunha Matos veio ao Brasil ao tempo de D. João VI; acabou aderindo à independência do Brasil e ocupando cargos no Império.
(2) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 24.
(3) Ibid., p. 57.
(4) Bócio, por carência de iodo na alimentação.
(5) MATOS, Raimundo José da Cunha. Op. cit., p. 236.


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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Equipamento básico de viagem no Brasil do Século XIX

O que é que não pode faltar em sua mala ou mochila para uma viagem? Pense um pouco e compare com o que seria preciso levar se vivesse no Século XIX.

Liteira para viagens, Século XIX, construída em madeira e couro (¹)
Viajar pelo Brasil, antes da existência de ferrovias, era coisa que pouca gente fazia. As dificuldades eram enormes. Supondo que a viagem fosse terrestre, era preciso considerar que as distâncias deviam ser cobertas em lombo de animais, e, às vezes, a pé. Sim, havia quem viajasse em liteira, e até em rede. Nesse caso, seria indispensável ter escravos carregadores, embora algumas liteiras pudessem ser carregadas por animais. Eram poucas as estradas, e as que recebiam esse nome não passavam, como regra geral, de caminhos péssimos, repletos de buracos. Eventualmente era necessário atravessar trechos de mata, nos quais toda a confiança devia ser depositada nos conhecimentos de um guia experiente. Mas, se o guia cometesse um erro, os resultados podiam ser desastrosos. 
Hotéis, ao longo do caminho, simplesmente não existiam. Em alguns lugares havia os quase sempre imundos pousos de tropeiros, ou, com sorte, seria possível encontrar abrigo em casa de alguma família. Senão, era preciso acampar, sobre terreno nem sempre favorável.
Tendo andado pelo interior do Brasil um pouco depois da Independência, o Brigadeiro Raimundo José da Cunha Matos deixou um livro de apontamentos de viagem, cujo propósito era auxiliar àqueles que, depois dele, tivessem de enfrentar dificuldades semelhantes às que encontrara. Nessa obra teve o cuidado de anotar sugestões quanto àquilo que considerava ser o equipamento básico para a viagem de um "indivíduo abastado". Sigamos com ele:
"Um toldo ou barraca de brim; cama de campanha com armação de oleado; mesa elástica; uma cantina com um terno de quatro ou seis caçarolas, que tenham malhete para se introduzir o cabo, e possam acomodar-se umas dentro das outras; uma terrina redonda de folha de Flandres dobrada, dentro da qual se acomodem os pratos de folha de sopa e guardanapos; chaleira de ferro, bule, xícaras, pires, facas, colheres e garfos [...]." (²)
A lista incluía, ainda, castiçais, velas e, naturalmente, alimentos. Vê-se, portanto, que não era nada que um homem pudesse carregar sozinho. O tal "indivíduo abastado", para retomar a expressão usada por Cunha Matos, precisaria dispor de vários animais de carga, escravos e/ou tropeiros assalariados e, por suposto, de um guia tarimbado. Além de perigosas e cansativas, as viagens nessa época eram, já se nota, bastante dispendiosas. Correr mundo, como turismo, era coisa que passava pela cabeça de muito pouca gente.

(1) A liteira fotografada para esta postagem pertence ao acervo do Museu Histórico de Itapira - SP.
(2) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 18.


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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Uma casa na roça, outra na vila ou cidade

No início do Século XVIII o jesuíta Antonil (Andreoni!) advertia senhores de engenho ou candidatos a esse posto que era desperdício de dinheiro manter duas casas, uma na fazenda, outra na cidade:
"Mau é ter nome de avarento, mas não é glória digna de louvor o ser pródigo. Quem se resolve a lidar com engenho, ou se há de retirar da cidade, fugindo das ocupações da República que obrigam a divertir-se, ou há de ter atualmente duas casas abertas, com notável prejuízo aonde quer que falte a sua assistência, e com dobrada despesa." (¹) 
O aviso de Antonil não era descabido, mas provavelmente encontrou pouca ou nenhuma obediência. No Brasil Colonial, e mesmo mais adiante, após a independência, muitas povoações somente eram de fato habitadas nos finais de semana e nos feriados, quando a gente das áreas rurais vinha assistir missa. Nos demais dias, as vilas e arraiais permaneciam quase desertos e, não raro, o padre era o único morador permanente, isso quando também não bandeava para outro lugar, malgrado seu dever de dizer missa diariamente. Por outro lado, fazendo justiça aos padres, é preciso dizer que eles tinham por obrigação atender às várias capelas filiais de suas respectivas paróquias, e, não sendo onipresentes, tinham de deslocar-se continuamente entre diversas povoações, que, em certos casos, ficavam muito distantes umas das outras.
O brigadeiro Cunha Matos, militar português que veio ao Brasil entre os que acompanharam o regente D. João, e que acabou ficando por aqui mesmo após a independência, a serviço do novo governo do Brasil, fez, ao andar por terras da província de Goiás, esta interessante observação:
"Na maior parte dos arraiais do Brasil as casas acham-se fechadas durante os dias da semana, abrindo-se unicamente nos dias de missa ou de festa que é quando os seus donos fazendeiros ali se demoram por espaço de algumas horas." (²)
Já nos outros dias, explicou, "o capelão, o oficial que serve de comandante do distrito em lugar do proprietário, o sacristão, o estalajadeiro ou rancheiro, os taberneiros ou vendeiros, o escrivão do juiz da Vintena e algumas meretrizes que fazem as delícias dos tropeiros [sic!], são as pessoas que ordinariamente habitam os arraiais nos dias da semana." (³)
É certo que Cunha Matos estava supondo a população fixa de alguma povoação à margem de uma estrada que consistia em rota de tropeiros. Se não fosse esse o caso, talvez a população nos "dias de semana"(⁴) não seria tão vasta.
No auge do café, em São Paulo, ou seja, posteriormente a 1850, viria a ocorrer um fenômeno inverso: os grandes fazendeiros moravam em belos casarões que faziam construir nas cidades, onde suas respectivas famílias poderiam desfrutar de um padrão elevado de convivência social, indo às fazendas para administrar os negócios, tarefa na qual, aliás, costumavam ter auxiliares, os famosos "administradores". 

(1) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 29.
(2) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 90.
(3) Ibid.
(4) Essa expressão não deixa de ser engraçada, já que sábados, domingos e feriados também são parte das semanas.


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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Minas de Nossa Senhora do Rosário Meia Ponte (ou simplesmente Pirenópolis)

Igreja Matriz de N. Sra. do Rosário (Pirenópolis - GO)

Hoje chamamo-la Pirenópolis, mas seu nome já foi Minas de Nossa Senhora do Rosário Meia Ponte, seguindo uma antiga tradição de dar nomes gigantescos às povoações (parecia, quem sabe, aumentar-lhes a importância). Como a extensão do nome era cansativa, passou a ser chamada simplesmente Meia Ponte. 
Sobre essa povoação, nascida com a exploração do ouro por bandeirantes na primeira metade do Século XVIII, o padre Ayres de Casal fez constar em sua Corografia Brasílica:
"Meia Ponte, a maior, a mais florescente e comerciante povoação da Província depois da capital, da qual dista vinte e seis léguas para Leste, está junto ao rio das Almas, que ainda é pequeno. [...] É cabeça de Julgado, abastada de carne e peixe, e tem professor régio de Gramática Latina. Seus habitantes e os de seus arredores recolhem milho, trigo, farinha de mandioca, tabaco, algodão, açúcar, algum café; criam gado vacum e muitos porcos; fabricam tecidos de lã e de algodão: o que a faz considerar como o berço e centro da agricultura e indústria na Província." (¹)
A descrição empreendida pelo padre Ayres de Casal é quase neutra, deixando transparecer algumas nuances talvez favoráveis. O que veremos a seguir, meus leitores, é uma amostra de como um mesmo lugar pode ser descrito sob pontos de vista muito diferentes. Veremos as observações de dois outros autores, Luís d'Alincourt e Raimundo J. da Cunha Matos.
Cunha Matos e d'Alincourt eram de nacionalidade portuguesa. Ambos eram militares e vieram ao Brasil sob circunstâncias semelhantes. Estiveram em Meia Ponte na década de vinte do Século XIX. 
O que os senhores leitores preferem: primeiro a descrição favorável ou a essencialmente negativa?
Vamos ao que escreveu d'Alincourt:
"É notável o mau gosto e nenhum desvelo que punham os antigos na fundação dos lugares auríferos, no que bem mostravam que só o ouro formava o seu alvo, e que tudo o mais era nada, em presença de tão precioso ídolo! Por isso é que sempre davam princípio às povoações o mais perto possível do sítio em que mineravam, importando-lhes pouco a irregularidade do terreno, das ruas e edifícios, ainda que próximo houvesse melhor local; assim teve começo, junto ao rio das Almas, que ainda é pequeno, o arraial de Meia Ponte; e até por um capricho mal entendido, edificaram a matriz no pior sítio do largo, em que existe, com frontispício voltado para o máximo declive do mesmo largo, e os fundos que estão em uma cova, para a parte mais espaçosa, o que executaram só para que o templo ficasse próximo à casa de quem tinha concorrido com maior quantia para a sua fundação, o que desta sorte se exigiu. Toda a parte do arraial, que está ao setentrião da matriz, é pior situada, com as ruas dispostas sem ordem nem uniformidade em suas larguras; a outra parte, que fica ao meio-dia da mesma igreja, ocupa terreno mais regular, e as ruas são largas e direitas, porém menos povoadas, à exceção da Nova." (²)
Agora, o Brigadeiro Cunha Matos:
"O arraial tem mais de 1/4 de légua de extensão, e acha-se assentado na margem esquerda do rio das Almas, onde existe uma grande ponte arruinada. O terreno é desigual, mas a parte mais considerável da povoação fica em uma chapada. Tem a bela rua das Bestas, e outra do Rosário, além de diversas de menor extensão; algumas elegantes e espaçosas casas, pela maior parte térreas [...]; tem Casa do Conselho do Julgado e Cadeia; a espaçosa igreja de N. Sra. do Rosário, Matriz Paroquial; outra da mesma invocação; a do Senhor do Bonfim com uma devota imagem de estatura ordinária e sem nenhumas proporções nos seus membros: nesta igreja há ricos ornamentos; a igreja da Lapa e a do Carmo: estas duas estão mui arruinadas." (³)
Não se pode afirmar que Cunha Matos não enxergava os defeitos que tinha diante dos olhos; adotava, porém, ao que parece, o hábito de ver também o que havia de bom e, aspecto curioso, parecia gostar da localização da Igreja Matriz:
"A Igreja Matriz é espaçosa; tem cinco altares mui decentes, e os campanários e frontispício estão para ser reparados. Acha-se assentada na mais pitoresca posição, e dela se desfrutam golpes de vista de natureza admirável." (⁴)

Vista do centro histórico de Pirenópolis - GO
Deixando de lado o mau humor de Luís de d'Alincourt, deve-se salientar o fato de que a Matriz de Nossa Senhora do Rosário que hoje pode ser visitada é produto de muitas reformas, ampliações e alterações ocorridas ao longo dos anos, e até mesmo de uma ampla reconstrução, necessária após o incêndio de 2002. O conjunto arquitetônico do centro histórico de Pirenópolis não é nada desprezível e a cidade guarda uma rica tradição cultural que, aliada à bela paisagem natural que a cerca (Serra dos Pireneus) fazem dela um importante destino turístico no Estado de Goiás.

(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 352.
(2) ALINCOURT, Luís d'. Memória Sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá. Brasília: Ed. Senado Federal, 2006, p. 64.
(3) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 151.
(4) Ibid., p. 152.


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