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quinta-feira, 18 de julho de 2019

O primeiro porco e a primeira vaca de leite levados às minas de Goiás

Cidade de Goiás, fundada em 1729 por
Bartolomeu Bueno da Silva e pela gente que o
acompanhava na procura de jazidas auríferas
Depois de muita procura, encontrou-se ouro no Brasil. Foi isso pelo final do Século XVII. No centênio seguinte, as explorações levaram ao achado de jazidas auríferas também em Goiás. O caso é que, liderados pelo mais que famoso bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, homens famintos por ouro estabeleceram povoados que, nascendo quase que literalmente do dia para a noite, não podiam contar com fontes confiáveis de suprimentos. 
Assim, se o ouro aparecia em profusão, por outro lado faltava comida, faltava vestuário básico. Os preços, em consequência, eram monstruosos. Luís d'Alincourt, um oficial português do Real Corpo de Engenheiros, esteve em Goiás no Século XIX e deve ter ouvido quem ainda contasse algo desses tempos de preços escabrosos, porque escreveu: "[...] por toda a parte entraram aqueles homens a revolver a terra para colherem só o único fruto de seus cuidados; a agricultura foi inteiramente desprezada, e só os vivandeiros, que de contínuo estavam a  chegar de São Paulo, tiravam sólidos e avultados lucros, e eram senhores de taxar os gêneros, que subiram naquela época a grandes preços; basta dizer-se que o alqueire de farinha de milho custava dez, e onze oitavas de ouro, o deste grão seis, e sete; o primeiro porco que apareceu (1), vendeu-se por oitenta, e a primeira vaca de leite por duas libras de ouro [...]." (2) 
Quanto valeriam estas coisas, atualmente? É difícil determinar com exatidão, porque seria necessário avaliar o poder de compra na época, mas algumas contas simples podem ser úteis. Consideremos:
  • uma oitava equivalente a cerca de 3,58 gramas;
  • um alqueire equivalente a 13,8 litros (³);
  • uma libra equivalente a 0,453 gramas;
  • uma arroba equivalente a cerca de 14,7 quilogramas. (⁴)
Então, um alqueire de farinha de milho, ou seja 13,8 litros, era vendido por, no mínimo, 25,8 gramas de ouro; um alqueire de milho, por mais de 21 gramas de ouro; uma vaca de leite, por duas libras de ouro, ou seja, 0,906 gramas; finalmente, o porco, que passava por ter sido o primeiro a pôr as patas nas minas de Goiás {ainda que contra a própria vontade, e para um infeliz propósito), vendeu-se por oitenta oitavas, ou seja, 286,4 gramas. Quem tiver a curiosidade, poderá verificar a cotação do dia do grama de ouro, e, fazendo mais algumas contas, chegará a ter uma ideia do preço dessas mercadorias naqueles tempos que já vão longe.

(1) Dizer que "apareceu" parece um tanto injusto.
(2) ALINCOURT, Luís d'. Memória Sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá. Brasília: Ed. Senado Federal, 2006, p. 78.
(3) A correspondência para essa medida era variável.
(3) Essas correspondências são aproximadas.


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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Uso da farinha de milho em São Paulo no Século XIX

"Dirigiu-se ao balcão, pesquisou com os olhos nas prateleiras e por todo o âmbito da taberna, o que havia para matar a fome: e sempre arranjou-se com um velho queijo de Minas, algumas rapaduras e farinha de milho."
José de Alencar, Til

Em grande parte do Brasil, ao menos até bem adiantado o Século XIX, a farinha de mandioca teve importância extrema na alimentação. A seu modo, substituía o trigo, que era pouco cultivado, em parte por razões climáticas, mas também porque a política de impostos adotada tornava difícil a vida dos produtores (¹). Nos tempos coloniais, plantou-se muito trigo na Capitania de São Vicente, mas essa prática acabou por ser quase abandonada, de modo que a triticultura brasileira circunscrevia-se às províncias meridionais, enquanto o uso de farinha de mandioca predominava em várias outras regiões.
Já no Século XIX, porém, a Província de São Paulo vinha a ser uma exceção, uma vez que nela o consumo de farinha de milho era considerável, e tinha ampla preferência na preparação de uma grande variedade de pratos. O mesmo podia ser dito em relação a alguns pontos do interior, nas províncias de Minas Gerais e Goiás, por exemplo. 
A técnica de preparação da farinha de milho variava um pouco de uma região para outra (e isso acontece até hoje), mas Luís d'Alincourt, militar português, observou que, em São Paulo, o procedimento era este:
"O seu pão [dos paulistas] é a farinha de milho: para fazerem lançam o grão de molho até fermentar, pilam-no depois, e torram a farinha; a qual, deitada em água forma uma bebida, a que chamam jacuba, que têm por muito saborosa, e fresca [...]." (²)

(1) Outro problema era a insuficiência de vias e meios de transporte para escoamento da produção.
(2) ALINCOURT, Luís d'. Memória Sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá. Brasília: Ed. Senado Federal, 2006, p. 26.


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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A criminalidade nas regiões auríferas do Brasil Colonial

As regiões mineradoras do Século XVIII atraíam multidões de aventureiros, vindos tanto do próprio Brasil como do Reino. Proibia-se a vinda de pessoas de outras nacionalidades, mas, como se sabe, ninguém iria ter o trabalho de proibir aquilo que jamais acontecia. Fato é que as povoações que surgiam de um dia para outro, sempre que se descobria ouro em um dado lugar, acabavam tendo uma população bastante heterogênea, com um único propósito em comum: enriquecer o mais rápido possível, e a qualquer preço. No mais, as divergências eram grandes, e os casos de crimes brutais estavam longe de escassear. As autoridades residiam a grande distância, e, quando finalmente compareciam, nem sempre tinham meios para impor "a lei e a ordem", isso sem falar que funcionários coloniais, como regra geral, quando mandados às minas, acabavam, de um ou de outro modo, indo procurar seus próprios meios (lícitos ou ilícitos) de acumular riqueza.
O que está dito valia para as minas, onde quer que elas estivessem. As Gerais são mais famosas e não há dúvida de que a Inconfidência de 1889 contribuiu para isso, ao menos no imaginário popular. Há muito mais escrito sobre elas do que sobre outras regiões. Assim, para demonstrar que desordens e arruaças não eram monopólio apenas das Gerais, veremos o que escreveu o militar português Luís d'Alincourt (¹) a respeito das minas de Goiás, ao relatar algumas peripécias de que tivera conhecimento::
"Uma mulher, ou para dizer melhor um monstro, teve ânimo de sufocar e sepultar nas suas lavras de Ouro Fino as duas filhas só por ser muito gabada a sua formosura; e esta mesma fúria matou o filhinho de uma sua escrava e o apresentou assado ao marido, por julgar que era dele; o descobridor do Pilar teve a ousadia de perturbar a ordem em uma procissão pública, disputando com o juiz ordinário a precedência do lugar, e fez o insulto de tirar-lhe a cabeleira e dar-lhe com ela no rosto, do que se seguiu ficarem as santas imagens abandonadas, e uma desordem formal entre os partidos dos dois, dando-se muitas cutiladas e havendo algumas mortes! O descobridor de São Félix morreu com as armas na mão fazendo resistência vigorosa à Justiça; o padre José Caetano Lobo Pereira, morador junto a Meia-Ponte, tinha a insolência de fazer despejar da sua vizinhança, por uma carta, as pessoas que lhe parecia, intimando-lhes pena de morte, e o mais é que era obedecido sem réplica; o padre Antônio de Oliveira Gago era um frenético assassino, e assim muitos outros. Eis aqui em grande parte a qualidade dos homens que fundaram os primeiros estabelecimentos naquela Província!" (²)
Verdade é que d'Alincourt escreveu quando tudo já era passado há bastante tempo, e é difícil estipular um limite entre os fatos autênticos e as fantasias populares; é porém improvável que ele houvesse simplesmente inventado essas coisas para entreter os leitores. Em suas andanças pelo interior do Brasil, deve ter ouvido da boca do povo estas e muitas outras histórias semelhantes, talvez pintadas com as cores do exagero, mas servindo muito bem, no fim das contas, para ilustrar qual era o clima que reinava entre os que faziam da busca desesperada pelo ouro a razão de ser da existência.

(1) Luís d'Alincourt veio ao Brasil em 1809, no rastro dos que acompanharam D. João e a família real em seu estabelecimento no Rio de Janeiro.
(2) ALINCOURT, Luís d'. Memória Sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá. Brasília: Ed. Senado Federal, 2006, p. 79.


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quarta-feira, 13 de maio de 2015

Viajando com os tropeiros na Serra dos Pireneus

A "Estrada do Norte", percorrida por tropeiros desde o Século XVIII


Por aqui passavam os tropeiros 
O padre Ayres de Casal, em sua Corografia Brasílica, explicava, na segunda década do Século XIX, que Meia Ponte, a que hoje chamamos Pirenópolis (¹) era uma povoação pela qual tropeiros iam e vinham constantemente:
"Os comboios da Capital e do Cuiabá que vão para a Metrópole ou São Paulo ou Bahia aportam aqui, onde cada qual toma o caminho do seu destino." (²)
Pouco tempo depois, o militar português Luís d'Alincourt observaria algo semelhante:
"As tropas de negociantes de Cuiabá e Goiás nele [Arraial de Meia Ponte] se refazem do preciso para descerem às Províncias de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia." (³)
Meia Ponte era, então, um lugar bastante movimentado.
Ainda hoje existe parte do calçamento que constituía a chamada "Estrada do Norte" do Século XVIII, na Serra dos Pireneus (⁴). Vejam as fotos, senhores leitores, e, dando asas à imaginação, percorram comigo essa antiga rota.
Onde a maioria das pessoas só vê uma trilha revestida com pedras disformes, eu posso ouvir uma tropa que se aproxima: homens e animais vêm suarentos e empoeirados. Enquanto as mulas, resfolegando, tentam equilibrar os sacos de couro  e os jacás que levam aos lombos, ouvem-se risadas e imprecações, e segue monótono o bater dos cascos. Passam, e vão-se afastando indiferentes. Quase cadenciado, o som, aos poucos, torna-se menos audível, até desaparecer por completo numa curva longínqua - assim como no tempo, que já vai distante.

Trecho da "Estrada do Norte", na Serra dos Pireneus, Goiás

(1) Estado de Goiás.
(2) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 352.
(3) ALINCOURT, Luís d'. Memória Sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá. Brasília: Ed. Senado Federal, 2006, p. 64.
(4) A Serra dos Pireneus tem esse nome porque exploradores de ouro que andaram pela região achavam-na algo parecida com os Pireneus da Europa. Que fique bem entendido: essa era a opinião deles.


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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Minas de Nossa Senhora do Rosário Meia Ponte (ou simplesmente Pirenópolis)

Igreja Matriz de N. Sra. do Rosário (Pirenópolis - GO)

Hoje chamamo-la Pirenópolis, mas seu nome já foi Minas de Nossa Senhora do Rosário Meia Ponte, seguindo uma antiga tradição de dar nomes gigantescos às povoações (parecia, quem sabe, aumentar-lhes a importância). Como a extensão do nome era cansativa, passou a ser chamada simplesmente Meia Ponte. 
Sobre essa povoação, nascida com a exploração do ouro por bandeirantes na primeira metade do Século XVIII, o padre Ayres de Casal fez constar em sua Corografia Brasílica:
"Meia Ponte, a maior, a mais florescente e comerciante povoação da Província depois da capital, da qual dista vinte e seis léguas para Leste, está junto ao rio das Almas, que ainda é pequeno. [...] É cabeça de Julgado, abastada de carne e peixe, e tem professor régio de Gramática Latina. Seus habitantes e os de seus arredores recolhem milho, trigo, farinha de mandioca, tabaco, algodão, açúcar, algum café; criam gado vacum e muitos porcos; fabricam tecidos de lã e de algodão: o que a faz considerar como o berço e centro da agricultura e indústria na Província." (¹)
A descrição empreendida pelo padre Ayres de Casal é quase neutra, deixando transparecer algumas nuances talvez favoráveis. O que veremos a seguir, meus leitores, é uma amostra de como um mesmo lugar pode ser descrito sob pontos de vista muito diferentes. Veremos as observações de dois outros autores, Luís d'Alincourt e Raimundo J. da Cunha Matos.
Cunha Matos e d'Alincourt eram de nacionalidade portuguesa. Ambos eram militares e vieram ao Brasil sob circunstâncias semelhantes. Estiveram em Meia Ponte na década de vinte do Século XIX. 
O que os senhores leitores preferem: primeiro a descrição favorável ou a essencialmente negativa?
Vamos ao que escreveu d'Alincourt:
"É notável o mau gosto e nenhum desvelo que punham os antigos na fundação dos lugares auríferos, no que bem mostravam que só o ouro formava o seu alvo, e que tudo o mais era nada, em presença de tão precioso ídolo! Por isso é que sempre davam princípio às povoações o mais perto possível do sítio em que mineravam, importando-lhes pouco a irregularidade do terreno, das ruas e edifícios, ainda que próximo houvesse melhor local; assim teve começo, junto ao rio das Almas, que ainda é pequeno, o arraial de Meia Ponte; e até por um capricho mal entendido, edificaram a matriz no pior sítio do largo, em que existe, com frontispício voltado para o máximo declive do mesmo largo, e os fundos que estão em uma cova, para a parte mais espaçosa, o que executaram só para que o templo ficasse próximo à casa de quem tinha concorrido com maior quantia para a sua fundação, o que desta sorte se exigiu. Toda a parte do arraial, que está ao setentrião da matriz, é pior situada, com as ruas dispostas sem ordem nem uniformidade em suas larguras; a outra parte, que fica ao meio-dia da mesma igreja, ocupa terreno mais regular, e as ruas são largas e direitas, porém menos povoadas, à exceção da Nova." (²)
Agora, o Brigadeiro Cunha Matos:
"O arraial tem mais de 1/4 de légua de extensão, e acha-se assentado na margem esquerda do rio das Almas, onde existe uma grande ponte arruinada. O terreno é desigual, mas a parte mais considerável da povoação fica em uma chapada. Tem a bela rua das Bestas, e outra do Rosário, além de diversas de menor extensão; algumas elegantes e espaçosas casas, pela maior parte térreas [...]; tem Casa do Conselho do Julgado e Cadeia; a espaçosa igreja de N. Sra. do Rosário, Matriz Paroquial; outra da mesma invocação; a do Senhor do Bonfim com uma devota imagem de estatura ordinária e sem nenhumas proporções nos seus membros: nesta igreja há ricos ornamentos; a igreja da Lapa e a do Carmo: estas duas estão mui arruinadas." (³)
Não se pode afirmar que Cunha Matos não enxergava os defeitos que tinha diante dos olhos; adotava, porém, ao que parece, o hábito de ver também o que havia de bom e, aspecto curioso, parecia gostar da localização da Igreja Matriz:
"A Igreja Matriz é espaçosa; tem cinco altares mui decentes, e os campanários e frontispício estão para ser reparados. Acha-se assentada na mais pitoresca posição, e dela se desfrutam golpes de vista de natureza admirável." (⁴)

Vista do centro histórico de Pirenópolis - GO
Deixando de lado o mau humor de Luís de d'Alincourt, deve-se salientar o fato de que a Matriz de Nossa Senhora do Rosário que hoje pode ser visitada é produto de muitas reformas, ampliações e alterações ocorridas ao longo dos anos, e até mesmo de uma ampla reconstrução, necessária após o incêndio de 2002. O conjunto arquitetônico do centro histórico de Pirenópolis não é nada desprezível e a cidade guarda uma rica tradição cultural que, aliada à bela paisagem natural que a cerca (Serra dos Pireneus) fazem dela um importante destino turístico no Estado de Goiás.

(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 352.
(2) ALINCOURT, Luís d'. Memória Sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá. Brasília: Ed. Senado Federal, 2006, p. 64.
(3) MATOS, Raimundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão Pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás. Rio de Janeiro: Typ. Imperial e Constitucional, 1836, p. 151.
(4) Ibid., p. 152.


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