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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Uso da farinha de milho em São Paulo no Século XIX

"Dirigiu-se ao balcão, pesquisou com os olhos nas prateleiras e por todo o âmbito da taberna, o que havia para matar a fome: e sempre arranjou-se com um velho queijo de Minas, algumas rapaduras e farinha de milho."
José de Alencar, Til

Em grande parte do Brasil, ao menos até bem adiantado o Século XIX, a farinha de mandioca teve importância extrema na alimentação. A seu modo, substituía o trigo, que era pouco cultivado, em parte por razões climáticas, mas também porque a política de impostos adotada tornava difícil a vida dos produtores (¹). Nos tempos coloniais, plantou-se muito trigo na Capitania de São Vicente, mas essa prática acabou por ser quase abandonada, de modo que a triticultura brasileira circunscrevia-se às províncias meridionais, enquanto o uso de farinha de mandioca predominava em várias outras regiões.
Já no Século XIX, porém, a Província de São Paulo vinha a ser uma exceção, uma vez que nela o consumo de farinha de milho era considerável, e tinha ampla preferência na preparação de uma grande variedade de pratos. O mesmo podia ser dito em relação a alguns pontos do interior, nas províncias de Minas Gerais e Goiás, por exemplo. 
A técnica de preparação da farinha de milho variava um pouco de uma região para outra (e isso acontece até hoje), mas Luís d'Alincourt, militar português, observou que, em São Paulo, o procedimento era este:
"O seu pão [dos paulistas] é a farinha de milho: para fazerem lançam o grão de molho até fermentar, pilam-no depois, e torram a farinha; a qual, deitada em água forma uma bebida, a que chamam jacuba, que têm por muito saborosa, e fresca [...]." (²)

(1) Outro problema era a insuficiência de vias e meios de transporte para escoamento da produção.
(2) ALINCOURT, Luís d'. Memória Sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá. Brasília: Ed. Senado Federal, 2006, p. 26.


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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Superstições no Brasil - Parte 3

Superstições na literatura brasileira: do ouro que virava carvão à sexta-feira, dia 13


Na literatura brasileira do século XIX há uma variedade de exemplos de superstições que eram, então, populares. Vão aqui apenas alguns casos.

1. Em As Minas de Prata, José de Alencar refere que, nos tempos coloniais, havia uma exótica crendice relacionada a dinheiro que alguém, para escondê-lo, havia enterrado:
"Ainda hoje há pelo interior quem acredite que o dinheiro enterrado por pessoa finada se transforma em carvão, à vontade de quem o possuiu, e sobretudo quando o acha outro, que não o escolhido herdeiro da alma penada.
Encontrando a botija, os salteadores sem dúvida acreditariam que o ouro de que estava cheia se trocara em carvão; e deixariam em paz a casa de D. Dulce. Então, quando se retirassem já aterrorizados com a superstição, esbarrariam nos quadrilheiros (¹) postados ali perto, e iriam chorar os seus pecados na cadeia até o dia do castigo."
Como veem, senhores leitores, é quase de se lamentar que tal superstição tenha perdido completamente sua força!

2. Outra de Alencar, desta vez em Til, versando sobre as explicações supersticiosas que se atribuíram à origem de uma menininho abandonado que certo dia apareceu, sobre um cavalo, no terreiro de uma fazenda:
"Como de costume, apareceram várias conjecturas e invenções, cada qual mais engenhosa. Uma velha, muito versada no Novo Testamento, afirmou que esse menino era o anticristo e o sendeiro a própria besta do Apocalipse, descrita por S. João. Outra jurava ser o caçula do diabo cocho que se metera na pele do bugrezinho, e andava fazendo estripulias pelo mundo."
Tem-se, por este exemplo, uma noção das ideias malucas que povoavam a cabeça das pessoas quando se tratava de crianças abandonadas e/ou de origem desconhecida. Era a culminação da infelicidade, vir ao mundo como um ser frágil e já em péssima situação, e ser ainda alvo de superstições cabeludas. E olhem que este não é o único caso na literatura brasileira em que há referência aos supostos maus agouros associados a pequenos que ninguém sabia exatamente de onde vinham.
Agora, Machado - para recordar duas das mais universais superstições, a do número 13 e a da sexta-feira. Vamos a elas.

3. Trecho de Memórias Póstumas de Brás Cubas:
"Referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e que esse número significava para ele uma recordação fúnebre. O pai morreu num dia 13, treze dias depois de um jantar em que havia treze pessoas. A casa em que morrera a mãe tinha o número 13. Et coetera. Era um algarismo fatídico. Não podia alegar semelhante coisa ao ministro; dir-lhe-ia que tinha razões particulares para não aceitar."
Neste caso, Machado de Assis toca, de passagem, em um aspecto curioso das superstições. É que, sendo elas amplamente aceitas e mais amplamente ainda execradas, ninguém que se julgue pessoa instruída quer assumir que as acolhe. Mas é raro encontrar quem não tenha lá, sob esse aspecto, suas manias.

4. Por último, uma citação de Dom Casmurro:
"Um dia, - era uma sexta-feira, - não pude mais. Certa ideia, que negrejava em mim, abriu as asas e entrou a batê-las de um lado para outro, como fazem as ideias que querem sair. O ser sexta-feira creio que foi acaso, mas também pode ter sido de propósito; fui educado no terror daquele dia; ouvi cantar baladas em casa, vindas da roça e da antiga metrópole, nas quais a sexta-feira era o dia de agouro. Entretanto, não havendo almanaques no cérebro, é provável que a ideia não batesse as asas senão pela necessidade que sentia de vir ao ar e à vida. A vida é tão bela que a mesma ideia da morte precisa de vir primeiro a ela, antes de se ver cumprida."
Pois bem, deixando Bento (ou Dom Casmurro, como queiram) de lado, juntamente com suas neuróticas suspeitas (²), tratemos de encerrar esta postagem que, aliás, não sai nem em dia 13, muito menos em sexta-feira. Tenham, pois, um ótimo dia, senhores leitores!

(1) Assim eram chamados, segundo as Ordenações do Reino, os indivíduos com funções policiais que, à noite, vigiavam a cidade (Veja-se o Livro Primeiro, Título 73 das Ordenações).
(2) Ou nem tanto...


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terça-feira, 13 de março de 2012

As senzalas, moradias dos escravos no Brasil


"Habitação de Negros", segundo Rugendas (³)
As senzalas foram, durante séculos, as habitações dos escravos no Brasil. Variavam na forma e nas dimensões, de acordo com o número de cativos que vivia em uma dada propriedade e que, portanto, eram devidamente trancafiados à noite, para que se evitassem as fugas em massa.
Em alguns casos eram construídas ao redor de um pátio, como nessa descrição que aparece em Til, de José de Alencar:
"É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d'armas."
Outras vezes, como se vê nesta descrição de Hércules Florence da fazenda Camapuã, a senzala podia ser parte de uma área maior, mas necessariamente bem fechada:
"Há duas casas de sobrado, uma onde mora o comandante, que na ocasião era um alferes de milícias (guarda nacional); outra fronteira, separada por vasto pátio, que tem um engenho de moer cana tocado por bois. O pátio é fechado pela senzala dos escravos, toda ela baixa e coberta de sapé. À noite, são eles metidos debaixo de chave.
A gente forra mora do outro lado do rio Camapuã." (¹)
Havia ainda as senzalas construídas como longas casas, não muito largas, com quase nenhuma iluminação natural ou ventilação. Foi um tipo muito comum em algumas áreas de São Paulo. Por quê? Uma hipótese é que, tendo, durante muito tempo, sido a escravidão de indígenas, e não de africanos, a que predominou em terras paulistas, as moradias dos escravos eram construídas de uma forma algo semelhante às habitações coletivas que muitos nativos tinham em suas aldeias, ainda que os materiais empregados na edificação fossem, eventualmente, outros. Aliás, cabe ainda acrescentar que, em São Paulo, nos primórdios do chamado "sistema de parceria", houve casos de que moradias de escravos fossem, por assim dizer, "adaptadas" para receber famílias de imigrantes, o que acarretou alguns incidentes marcantes de rebelião entre esses trabalhadores livres.
No entanto, independente da forma e do tamanho, quase todas as senzalas, Brasil afora, tinham um elemento em comum: eram sempre localizadas bem próximo à residência dos senhores. Isso pode parecer um absurdo, pois se sabe muito bem o quanto os senhores temiam uma revolta e consequente vingança de seus escravos, mas corria-se o risco, já que os escravos, como dizia Antonil, "são as mãos e os pés do senhor do engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente"(²), podendo o mesmo ser dito em relação a todas as demais atividades econômicas praticadas durante a fase colonial e boa parte do Império. Ou seja, os senhores sabiam perfeitamente que grande parte de sua riqueza vinha da exploração da mão de obra escrava, o que os levava a preferir o risco inerente a uma revolta da escravatura (muito mais numerosa do que os livres), à possibilidade de perderem seu "investimento", sem o qual, a rigor, não eram quase nada.

(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 66.
(2) ANTONIL, André João (Giovanni Antonio Andreoni). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 22.
(3) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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domingo, 18 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 5): Os ferozes queixadas

"Com efeito da orla da selva rompia um bando de porcos-do-mato. Mais de cem desses animais selvagens, com a pupila chamejante, ouriçando as ruivas cerdas, e afiando os longos colmilhos nos queixais chocalhados pela sanha, trotavam em fila, e figuravam na relva da campina a verga combusta do imenso arco de algum tamoio gigante.
Assim avançam os ferozes queixadas, rompendo relvas, estraçalhando quanto encontram com os cutelos das presas, ou esmagando-o sob a úngula bissulca das cem patas cadentes que batem o chão. Se o inimigo resiste ao primeiro ímpeto do centro, ou se receiam lhes fuja, as pontas do arco se estorcem, e a vara fatal cinge o mísero, que tomba em pedaços, como a isca à flor de tanque piscoso."
                                                                                                                                        José de Alencar, Til

Semelhantes sob vários aspectos aos porcos-monteses da Europa, os queixadas ou porcos-do-mato (¹) logo atraíram a atenção dos colonizadores, que viam na abundância desses animais a garantia de caça apetitosa e farta. Isso, naturalmente, a despeito do perigo, pois esses porcos selvagens, percorrendo as matas em enormes manadas, eram capazes de aterrorizar até o mais indômito dentre os caçadores. Algo parecidos na forma, os simpáticos e, quase sempre pacíficos caititus, às vezes "pagavam o pato".

Queixada ou porco-do-mato

Mas, se os queixadas eram assim tão perigosos, como caçá-los? Frei Vicente do Salvador, ao descrever os ditos animais, deixou-nos um relato de qual era o procedimento empregado em sua captura:
"Há também muitos porcos-monteses; alguns como os javalis de Espanha, os quais andam em manadas, e se o caçador fere algum há logo de subir-se a alguma árvore, porque vendo eles que não podem chegar-lhe remetem todos ao ferido e aos outros que se pegou algum sangue, com tanta fereza que se não apartam até não deixarem três ou quatro mortos no campo, e então se vão em paz, e o caçador também com a caça." (²)
Ainda assim, leitor, se fosse possível (hipoteticamente, claro), fazer uma enquete entre os sertanistas que andavam a percorrer o território ainda ignoto do Brasil nos tempos coloniais, os porcos-do-mato figurariam, sem sombra de dúvidas, entre os grandes terrores que os assaltavam. Alguns relatos mais, que agora consideraremos, podem confirmar esta ideia.
No primeiro deles, é o próprio Frei Vicente do Salvador quem conta de um ataque a uma tropa de entradistas:
"Em a era do Senhor de 1578, em que Lourenço da Veiga governava este Estado, se ordenou em Pernambuco uma entrada para o sertão em que foi por capitão Francisco Barbosa da Silva em um caravelão até ao rio de São Francisco, e por ser a gente muita, e não caber na embarcação, foram setenta homens por terra, levando por seu cabo a Diogo de Crasto, que falava bem a língua da terra e havia já ido da Bahia a outras entradas.
Estes, havendo passado o rio Formoso, foram cometidos de um bando de porcos-monteses, com tanta fúria e rugido de dentes, que os pôs em pavor, mas como tinham as espingardas carregadas, descarregaram-nas neles, e os fizeram voltar, ficando sete mortos, que foram bons para a matalotagem." (³)
Outros relatos vêm de Teotônio José Juzarte, o sargento-mor que, em 1769, conduziu uma monção pelo Tietê afora. Ele mesmo lista os porcos-do-mato entre os grandes perigos que ameaçavam os monçoeiros:
"Há as onças, e tigres e as grandes manadas de porcos-de-mato que são bravíssimos, e de muito longe se ouve o estrépito que fazem com os dentes, de tudo isto se tem grande cuidado durante a noite." (⁴)
E, para confirmarmos que há dia da caça e dia do caçador, outros dois breves trechos do Diário da Navegação anotado por Juzarte, sendo o segundo deles um exemplo no mínimo exótico dos tratamentos dispensados aos doentes no Período Colonial. Sem mais delongas, vamos a eles:
"... e saíram muitos homens a caçar por aqueles matos onde se perdeu um soldado [...]; ... sendo já oito horas da noite ouviram que o soldado gritava, acudindo para aquela parte deram com ele trepado sobre uma árvore sem saber em que parte estava, e disposto a ficar a morrer naquele sertão; contou que o motivo de se trepar naquela árvore fora um grande número de porcos-do-mato que com violenta carreira se encaminhavam para ele, aos quais seguia e perseguia uma onça de extraordinária grandeza, que à vista disto se salvou em cima daquela árvore para passar ali a noite até o dia seguinte para então ver se acertava com o lugar aonde ficavam as embarcações [...]." (⁵)
"... seguindo encontramos uma quantidade de porcos-do-mato que com os dentes faziam grande bulha, embicamos em terra, e logo saltaram alguns caçadores, e com efeito mataram três, os quais se repartiram pelos doentes..." (⁶)
Sim, sua leitura está correta: "os quais se repartiram pelos doentes"! Sucede que a comida escasseava entre os monçoeiros e, ao capturarem alguma caça, reservavam-na para os que estavam mais debilitados.

(1) A lista de animais que aparece na Corografia Brasílica do Padre Ayres de Casal, mencionada na primeira postagem desta série, refere apenas a existência de porcos-monteses no Brasil.
(2) História do Brasil.
(3) Ibid.
(4) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 236.
(5) Ibid., p. 244.
(6) Ibid., p. 271.


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quinta-feira, 24 de março de 2011

Surfando (literariamente) no rio Piracicaba

Muito do que se escreveu, em termos de Literatura propriamente dita, no Brasil do século XIX, ambienta-se na Corte, ou seja, no Rio de Janeiro, que era a Capital do país naquela época. Poucas são as obras que têm as capitais das Províncias (os atuais Estados) como cenário, e menos ainda as que retratam, de algum modo, a vida no interior do Brasil. Dentre essas últimas, encontra-se Til, de José de Alencar.
Til, obra publicada em 1871, desenrola-se no ambiente rural das fazendas de cana-de-açúcar nos arredores de Santa Bárbara e Piracicaba, no interior de São Paulo, em meados do século XIX. Fica evidente ao leitor atento que Alencar não conhecia pessoalmente a região - chega, para dar uma "ancoragem histórico-geográfica", a citar, em rodapé, a Corografia Brasílica do Padre Ayres de Casal (que fora publicada em 1817). A despeito disso, a obra, que procura transcrever com fidelidade o falar típico da área, intercalando trechos descritivos em meio ao correr da narração, não chega a ter grandes disparidades em relação à realidade, exceto por questões que qualquer um que conheça o lugar pode facilmente observar. Mas vamos em frente, que não é a análise literária o objetivo desta postagem, nem pretendo tirar ao leitor que queira percorrer o romance todo a diversão de descobri-lo por si mesmo.
Já na última parte da obra, encontramos um episódio que transcorre durante uma festa popular em Piracicaba. Deixemos que Alencar mesmo nos conte:
"A cidade da Constituição, outrora vila da Piracicaba, assenta nas rampas de uma colina que se eleva à margem do rio.
[...]
Era domingo: e havia na vila rebuliço de festa.
Pelas ruas, de ordinário soturnas e ermas, passavam ranchos de gente a pé e grupos de cavaleiros que acudiam à função. Às vezes era algum carro de bois, coberto com esteiras e atopetado de moças, crias e mucamas, que atroava os ares com o chio estridente.
Pouco mais de nove horas havia de ser.
Uma canoa acabava de abicar à ribeira junto à ponte, e dela saltavam Nhá Tudinha, Berta e Miguel, que também vinham atraídos pela festa.
O rancho subiu a ladeira que vai ter ao largo da matriz. Miguel, triste e abatido, investigava com um olhar de desânimo as janelas das casas. Berta a furto observava-o com uma expressão de terno ressentimento."
De onde vinham Nhá Tudinha, Berta e Miguel? O romance tem a resposta, dessa vez na  segunda parte, ao descrever sua morada:
"Na entrada do vale, onde assenta a freguesia de Santa Bárbara, via-se outrora à margem do Piracicaba, escontra o rio, um velho casebre.
Era uma antiga construção de taipa; e mostrava com pouca diferença o aspecto comum às habitações medianas que, naquela parte da Província de São Paulo, se encontram de espaço em espaço pela beira do caminho, e à distância dos arraiais e povoados."
Agora, leitor, raciocine comigo: Nhá Tudinha, Berta e Miguel moravam próximo a Santa Bárbara e, segundo Alencar, vieram à festa usando uma canoa, que desceu o rio Piracicaba. Chegam à cidade, sobem a ladeira (a atual rua Moraes Barros) e vão sair na Praça da Matriz (Praça José Bonifácio), onde hoje está a Catedral de Santo Antônio. Parece tudo correto, e talvez Alencar tenha até consultado algum mapa, eventualmente disponível, para entremear adequadamente narração e descrição. Mas há um problema - não se pode fazer o trajeto, como descrito, de canoa. Por quê? Ora, porque seguindo o rio entre Santa Bárbara e o ponto referido da antiga Vila da Constituição está o Salto do Piracicaba, conhecido como "véu da noiva", que é absolutamente intransponível de canoa, a menos que o tripulante seja doido de pedra! Portanto, não se pode imaginar uma senhora e dois jovens comportados tentando tamanha insanidade. Se tem alguma dúvida, olhe as fotografias e julgue por si mesmo...
Resta ainda mais uma observação. Como já mencionei, José de Alencar cita, em uma nota, o Pe. Ayres de Casal, isso no início de Til. Pois deveria ter ficado atento ao que esse mesmo autor refere na Corografia Brasílica:
"Com o seu termo, ao Poente, confina o da nova Freguesia de Percicaba [sic], cuja Matriz está em uma amena planura, em que termina uma colina sobre a margem meridional do rio que lhe dá o nome; e junto a uma vistosa cascata de muitos degraus, que ele ali forma, onde finda a navegação."
Note bem, onde finda a navegação. Na prática, o Piracicaba é navegável antes do salto e depois dele. A propósito, ao que sabemos, Aires de Casal também nunca esteve em Piracicaba, e baseou a maior parte de sua obra em relatos que ouviu, antigos manuscritos e mapas, nem sempre precisos, que consultou.

Casa do Povoador, margem esquerda do Rio Piracicaba, logo abaixo do "véu da noiva".


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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Escolas de primeiras letras nos dias da palmatória

Nos tempos coloniais, e mesmo durante o Império, muitas escolas tinham religiosos como professores, o que é facilmente compreensível se levarmos em consideração que, excetuando-se os jovens destinados pelos pais à carreira do Direito, em geral apenas os futuros sacerdotes é que realizavam estudos mais extensos e, portanto, tinham condições de ensinar. Os docentes não-membros do clero tornaram-se mais frequentes à medida que avançavam os anos do século XIX e, com eles, influências estrangeiras no campo da educação começaram a aportar no Brasil, contribuindo para mudar a face do sistema de ensino vigente, se é que se pode falar em "sistema de ensino" no Brasil daquela época. O fato é que, como regra geral, escola de verdade era apenas para os filhos das camadas mais altas da sociedade, como preparação para cursar Medicina ou Direito, nas poucas instituições existentes no País ou, o que não era incomum, nas universidades europeias. Quanto às meninas ricas, se não viviam em locais distantes das áreas urbanas, também frequentavam colégios, nos quais aprender piano e francês era uma questão de honra, sem descuidar, naturalmente, daquelas habilidades que deveriam valorizar uma jovem para o casamento, segundo os padrões então vigentes.
E os filhos do povo? Pouquíssimas meninas chegavam a frequentar aulas, enquanto os meninos, encaminhados à Escola de Primeiras Letras (quando havia uma por perto), somente aprendiam, com sorte, a ler, escrever e fazer contas. O que fugisse disso poderia ser considerado um caso excepcional.
A grande questão que se coloca é: como funcionavam as Escolas de Primeiras Letras no interior do País, destinadas aos meninos de baixa condição social? Nesse caso, a Literatura pode ajudar bastante. Selecionei dois trechos que darão uma ideia bastante razoável do pesadelo que deveria ser frequentar tais estabelecimentos de ensino. O primeiro é de José de Alencar, o segundo, de Aluísio Azevedo.

"Havia em Santa Bárbara uma aula pública de primeiras letras, à qual ainda o vulgo pelo costume antigo tratava de escola régia. Servia de mestre um latagão de verbo alto e punho rijo, que fora outrora ferrador e a quem chamavam Domingão.
Fiel às tradições da antiga profissão, entendia ele lá de si para si que um bom processo de ferrar bestas devia de ser por força excelente método de ensinar a leitura e a tabuada: e fossem tirá-lo dessa ideia! Assim encaixava o abecê na cachola do menino com a mesma limpeza e prontidão com que metia um cravo na ferradura. Era negócio de dois gritos, um safanão e três marteladas." (¹)

"Aos sete anos entrou para a escola. Que horror !
O mestre, um tal Antônio Pires, homem grosseiro, bruto, de cabelo duro e olhos de touro, batia nas crianças por gosto, por um hábito do ofício. Na aula só falava a berrar, como se dirigisse uma boiada. Tinha as mãos grossas, a voz áspera, a catadura selvagem; e, quando metia pra dentro um pouco mais de vinho, ficava pior." (²)

Sim, leitor, devia ser um pesadelo ter de frequentar uma escola dessas, cujos problemas começavam pela questão da absoluta falta de preparo dos "professores" e iam esbarrar na inexistência de uma política nacional de educação que enfrentasse, antes de mais nada, a necessidade de combater o horripilante analfabetismo que grassava entre a população. Não que a totalidade das escolas fosse  assim, mas o fato de a Literatura estar permeada de retratos fantasmagóricos de salas de aula nos leva à óbvia conclusão de que esse "fenômeno" nada tinha de incomum, o que não chega a ser espantoso, se relembrarmos o fato de que ainda na atualidade, mesmo em alguns países tidos como muito civilizados, permite-se o uso de coerção física para disciplinar a criançada. É a prevalência de um princípio tão velho quanto sórdido que sustenta que, se funcionou no passado, tem de continuar funcionando hoje. E funciona mesmo, pois sempre produziu gerações de neuróticos traumatizados que, uma vez adultos, continuaram a usar sadicamente, para com as novas gerações, os mesmos métodos brutais a que foram submetidos na infância.

(1) ALENCAR, José de. Til.
(2) AZEVEDO, A. Casa de Pensão.


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domingo, 17 de outubro de 2010

Árvores antigas, monumentos verdes - Parte 2

"As florestas cintilavam. Gigantescos paus-d'arco bracejavam por entre as árvores vizinhas para mostrar bem alto a sua coroa de oiro; mas as palmeiras não se deixavam vencer e reagiam vitoriosamente por entre a espessura da mata, agitando no ar o seu penacho indígena; a gameleira brava procurava erguer a cabeça engrinaldada de heras e parasitas; pinheiros seculares, cedros mais velhos que a religião, paineiras, angicos, perobas, todos os gigantes da selva, pelejavam para sobressair!"
Aluísio Azevedo, O Homem

Árvore em praça na cidade de
São Pedro - SP
Chama-se dendrocronologia ao método de datação baseado no estudo dos anéis que constituem o tronco de uma árvore. Essa técnica pode ser utilizada com diversos objetivos, em várias ciências, incluindo-se o fato de que, fornecendo informações sobre as condições climáticas de uma determinada época, permite aos historiadores entender melhor os acontecimentos. Se sabemos, por exemplo, que em certa década houve poucas chuvas, presume-se que as colheitas tenham sido prejudicadas e podemos acrescentar elementos novos ao estudo das revoltas sociais do período, particularmente em casos nos quais a documentação escrita é escassa ou inexistente. Não se trata de determinismo, é só uma ferramenta a mais (aliás, muito útil) para a análise da complexa trama que engloba os eventos da saga humana na Terra.
Mudando de assunto, ou nem tanto, quando olhamos à nossa volta vemos árvores de proporções "normais", para os nossos padrões, mas que poderiam ser consideradas bem nanicas pelo que se via no Brasil há alguns séculos. Em sua obra Til, José de Alencar assim descreve as matas originais no interior de São Paulo:
"Ficava no seio de uma bela floresta virgem, porventura a mais vasta e frondosa, das que então contava a província de S. Paulo, e foram convertidas a ferro e fogo em campos de cultura. Daquela que borda as margens do Piracicaba, e vai morrer nos campos de Ipu, ainda restam grandes matas, cortadas de roças e cafezais. Mas dificilmente se encontram já aqueles gigantes da selva brasileira, cujos troncos enormes deram as grandes canoas, que serviram à exploração de Mato Grosso." (¹)
O próprio Alencar, escrevendo na segunda metade do século XIX, menciona que essa descrição tem como base a Corographia Brazilica, afirmando que "Mediam essas canoas, segundo Ayres do Casal, 80 palmos de comprimento, 7 1/2 de largura, e 5 de altura".
Exagero, talvez? Teriam efetivamente as matas brasileiras árvores de tais dimensões que possibilitassem, individualmente, a construção de canoas tão avantajadas? Um outro testemunho parece dizer que não. Em Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829 encontramos estas duas ilustrações de Hércules Florence: (²)

Trabalhadores cortam árvore de grandes dimensões para fazer uma canoa (segundo H. Florence)

Trabalhadores fazem canoa com o tronco de uma única árvore (H. Florence)

Árvore arrancada para a construção de rodovia,
interior de São Paulo
Por suposto há, ainda, árvores gigantescas nas matas brasileiras. Mas nas regiões mais urbanizadas, particularmente no Sudeste, sua desaparição não é recente. Tendo feito suas viagens entre 1816 e 1822, Saint-Hilaire escreveu, falando de certo lugar do Vale do Paraíba, próximo a Guaratinguetá:
"À esquerda da colina onde fica situada a cidade, existe outra, coberta ainda de mata virgem, e acima dela, à beira do mesmo rio, algumas cabanas esparsas, entremeadas de cerrados grupos de bananeiras e laranjeiras. A terceira colina eleva-se à esquerda da cidade. Era antigamente, como a primeira, coberta de mata, dela se cortou parte. Substituíram-na por engenho e plantações." (³)
Não discuto aqui questões, por certo justíssimas, da preservação e do manejo sustentável de florestas. Muito menos imagino que nunca uma árvore possa ou deva ser cortada. Há necessidade de lavouras para atender à demanda por alimentos. A ideia foi mostrar que o "cenário vegetal" do Brasil já foi, em um tempo historicamente não muito longo, bem diverso do que se vê atualmente, propondo maior cuidado na preservação do que chamei de "monumentos verdes" - árvores muitas vezes centenárias, sobreviventes de antigas matas, que ousaram coexistir em meio à urbanização, ou espécimes cultivados que, pela sua longevidade e beleza, tornaram-se patrimônio das comunidades em que cresceram. Servem, no mínimo, para recordar o que já perdemos, e, sendo mortais, como nós, são mais instrutivas que monumentos de pedra, erigidos para dar uma falsa impressão de imortalidade para apenas uns poucos dentre os homens.

(1) ALENCAR, José de Til, vol. 1. Rio de Janeiro: Garnier, 1872, pp. 37 e 38.
(2) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília, Ed. do Senado Federal, 2007, pp. 235 e 236.
(3) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. do Senado Federal, 2002, pp. 80 e 81.