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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Tatus

Pra falar a verdade, acho repugnante a mania de ver os animais simplesmente como recurso para as panelas, mas é preciso admitir que, à vista dos colonizadores europeus que vieram viver no Brasil, era importante e até indispensável um conhecimento de que coisas eram "comestíveis", já que a sobrevivência na América dependia, ao menos em parte, desse saber. Nisso, os povos indígenas do Brasil eram excelentes mestres, dominando, com igual eficiência, diferentes métodos de caça. E, a crermos no que escreveram autores dos séculos XVI e XVII, a mais apreciada dessas refeições ambulantes eram os tatus.
Tatu ("Dattu"), de acordo com Hans Staden (¹)
Hans Staden, o aventureiro alemão que andou pela América do Sul por meados do século XVI (¹), referiu-se ao "Dattu", animalzinho dotado de uma armadura que em tudo lembrava aquelas usadas por guerreiros medievais, com uma couraça que lhe cobria as costas, firme e resistente como um chifre. Deixou bem claro que havia provado sua carne muitas vezes.
Também Pero de Magalhães Gândavo, que queria incentivar a vinda de portugueses ao Brasil, observou:

Tatu-Galinha (Dasypus novemcinctus) (⁵)
"Uns bichos há nesta terra que também se comem e se têm pela melhor caça que há no mato. Chamam-lhes tatus, são tamanhos como coelhos e têm um casco à maneira da lagosta como de cágado, mas é repartido em muitas juntas como lâminas; parecem totalmente um cavalo armado, têm um rabo do mesmo casco comprido, o focinho é como de leitão, e não botam mais fora do casco que a cabeça, têm as pernas baixas e criam-se em covas, a carne deles tem o sabor quase como de galinha. Esta caça é muito estimada na terra." (²)

Tatu-Peba (Euphractus sexcinctus) (⁵)
Finalmente, Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (³), observou:
"Há tatus, a que os espanhóis chamam armadillos, porque são cobertos de uma concha não inteiriça como a das tartarugas, mas de peças a modo de lâminas, e sua carne assada é como de galinha."
Notaram, senhores leitores, quantas comparações?
Concha semelhante a armadura, casco de tartaruga, como lagosta, focinho de leitão, semelhante a cavalo armado, carne como a de galinha... É que diante da surpreendente diversidade natural da América, os autores viam-se às voltas com palavras que pareciam por vezes insuficientes para uma descrição acurada, daí a necessidade de apontar similaridades, que dessem à gente da Europa alguma ideia daquilo que se queria descrever. Em alguns casos, só mesmo um bom desenho para ajudar, como é o caso deste que aparece na Historia naturalis Brasiliae, de Willen Piso e Georg Markgraf:

Tatu, de acordo com a Historia naturalis Brasiliae (Piso e Markgraf) (⁴)
 
(1) Hans Staden escapou, por muito pouco, de também ele virar refeição. Veja-se: STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.
(2) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, pp. 61 e 62.
(3) O manuscrito foi concluído por volta de 1627.
(4) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 231. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) Os tatus fotografados para esta postagem pertencem ao acervo do Museu de História Natural de Itapira - SP (tatu-galinha) e do Museu do Eucalipto, em Rio Claro - SP (tatu-peba), este último novamente aberto ao público, depois de um longo tempo fechado. Se puder, visite!


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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O cavalo que achou um tesouro

Na postagem anterior foi mostrada a dificuldade que havia para se fazer transportar um cavalo até as minas de Cuiabá, no século XVIII, já que o animal devia passar meses viajando em uma canoa, pelo Tietê e outros rios, além de trechos que eram feitos por terra. A arca de Noé devia ser mais confortável aos equinos!
Apesar disso, relata Pedro Taques de Almeida Paes Leme na sua Nobiliarchia Paulistana que Antônio de Almeida Lara tinha, nas minas, excelentes cavalos, o que indicava ser ele um rico minerador.
Sim, era. E, além disso, perdulário, com um estilo de vida muito extravagante. Lembrem-se, senhores leitores, tudo nas minas custava muito caro...
As despesas foram tantas que o tal homem, por tanto gastar, de riquíssimo que era, acabou terrivelmente endividado. Diante disso, foi, a cavalo (fato de muita relevância), tentar a sorte em outra área, conforme conta Pedro Taques:
"Montado em um formoso bruto muito valente, indo de jornada para o novo descobrimento de Mato Grosso, de repente tropeçou o cavalo, e se foi abaixo. Estranhou a novidade o cavaleiro, por ter experiência das forças daquele animal e, sacando-se da sela e examinando em terra a causa da violenta queda, achou um escondido tesouro de ouro bruto; porque o cavalo havia posto o casco de uma mão em cima de uma aguda folheta, que já estava na superfície da terra. Naquele mesmo lugar estava toda a grandeza de folhetas não pequenas, de sorte que ali logo chegaram os escravos, que vinham na marcha, e dentro da tarde daquele dia se extraíram algumas arrobas de ouro, de cujo Batatal (assim se ficou chamando, por serem as suas folhetas semelhantes a este legume (¹)) veio em breve tempo a extrair acima de onze arrobas, todas de folhetas."
E que é que fez Antônio de Almeida Lara, ao ver-se dono de tamanha riqueza?
Continua a narração da Nobiliarchia:
"Recolhido para o Cuiabá e fazenda da Chapada, mandou afixar cartazes em que avisava a todos a quem fosse devedor que viessem ou mandassem receber as quantias de que eram credores."
Talvez alguns dos que leem esta postagem estejam achando nisto tudo um grande exagero. É possível, porque as histórias "boas demais para serem verdadeiras" espalham-se depressa, ganham anexos e logo se transformam em autênticas lendas. Há, no entanto, a favor da veracidade, ao menos do cerne deste caso, alguns argumentos.
Pedro Taques não é o único que menciona o acontecimento. Outros autores também o fazem, e muito provavelmente não tiveram acesso ao manuscrito da Nobiliarchia Paulistana. Além disso, deve-se recordar que, sobre todo o ouro encontrado no Brasil, incidia um imposto de 20% (os "Reais Quintos"). Se alguém fizesse espalhar a lorota de que numa única tarde fora capaz de extrair nada menos que onze arrobas de ouro, o Fisco, absolutamente esfomeado por remeter a Portugal tudo o que fosse possível, cairia sobre tal indivíduo, a exigir-lhe a parte devida, e seria bastante difícil demonstrar que o suposto tesouro simplesmente não existia. Por isso, exageros à parte, o homem deve ter mesmo encontrado uma boa quantidade de metal precioso, até porque acabou a vida honradamente, exercendo cargo importante - foi brigadeiro e juiz na vila de Cuiabá - ainda que nunca tenha se casado, sempre conforme o relato de Pedro Taques:
"Nunca casou, porque estando justo para casar com sua prima D. Leonor, filha de Timóteo Corrêa de Góes, terceiro provedor e contador proprietário da fazenda real, se desvaneceu este intento pela demora que teve no Cuiabá, aonde faleceu."
Neste caso, talvez coubessem bem palavras semelhantes às do "Defunto-Autor" ou "Autor-Defunto", personagem machadiana, ao encerrar as suas célebres Memórias. (²)

(1) Obviamente, Pedro Taques não se prende aqui ao sentido técnico da palavra "legume".
(2) "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria." (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas)


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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Animais que aterrorizavam a imaginação dos colonizadores do Brasil (Parte 3): Piranhas!

"E rio abaixo, lá ia o fervedouro sanguinolento denunciando o martírio do animal, lançado, como tributo da boiada, aos cardumes vorazes das piranhas.
Os vaqueiros olhavam as águas trágicas onde os peixes borborinhavam e um tangerino moço, condoído do velho boi, suspirou:
- Coitado!"
                                                                                      Coelho Neto, Boi de Piranha in Vesperal

Elas nadam gentilmente quando não estão a atacar alguma presa e, para os incautos, a água dos rios e áreas alagadas em que habitam parecem "normais". No entanto, se são poucas, já representam algum perigo. Mas se forem muitas... É melhor nem pensar. São piranhas, peixes de dimensões aparentemente desprezíveis, mas os cardumes existentes em muitos cursos d'água Brasil afora impõem terror hoje, tanto quanto no passado. Muitos autores referiram-se a elas como criaturas assassinas, capazes de consumir um boi ou outro mamífero em pouquíssimo tempo, desde que reunidas em grandes cardumes. Infelizmente para os colonizadores do Brasil, cardumes eram a regra, não a exceção.
Alguns dos melhores relatos vêm, no entanto, de dias posteriores aos da colonização portuguesa. Há, por exemplo, a breve descrição do Padre Ayres de Casal (1817):
"[...] piranhas, que são curtas e largas, com dentes agudíssimos, e fatais a todo o vivente que podem alcançar." (¹)


O melhor informe que conheço, todavia, é de Hércules Florence. Transcrevo-o quase na íntegra, para que meus leitores, que porventura sejam seres urbanos e, por isso, inexperientes nessas questões silvestres, aprendam úteis lições. Diz ele, referindo-se à ocasião em que a Expedição Langsdorff percorria o Brasil Central, em área da bacia do rio Paraguai:
"Começamos a pescar piranhas, peixe abundante no Paraguai e seus tributários. Nos rios que vão ter ao Amazonas os há também, assim como nos de Minas Gerais, mas pululam nos lagos e campos inundados do Paraguai. Não têm mais de oito polegadas de comprido e seis de largo, entretanto é o mais temível de todos os peixes desses rios pela voracidade com que acomete todo e qualquer animal que caia dentro d'água. Têm dentes agudíssimos, na disposição e dimensões [...]." (²)
Adverte em seguida:
"Ai do imprudente que entrar nu em lugar infestado por aqueles vorazes habitantes; está perdido, sobretudo se tiver no corpo alguma ferida ou sarna. Eles se precipitarão sobre as chagas; farão verter sangue e em poucos instantes o infeliz perderá a vida." (³)
Assustador? Há mais:
"Quando a gente se banha em lugar de poucas piranhas, o perigo é diminuto, mas assim mesmo é preciso ter o cuidado de cobrir com as mãos as partes pudendas, porque por aí é que elas atacam de preferência. [...]." (⁴)
Então, deixando evidente que não estava discorrendo sobre uma fábula, Florence conta dois casos que presenciou e, sendo esse autor bastante confiável, não me parece haver razão para duvidar dele:
"Para dar ideia da multidão e voracidade desses animais, bastar-me-á contar o seguinte caso. Havendo um dos nossos camaradas caçado um macaco e querendo moqueá-lo, pôs-se a limpá-lo e em seguida o mergulhou no rio. Sacou-o porém depressa, com cinco piranhas atracadas à carne e que foram cair na proa da canoa. De cada vez que repetia a imersão, tirava d'água quatro ou cinco peixes, de modo que num instante contamos sessenta, pescados por modo que muito nos divertiu.
Jogou-se ao rio um corpo esfolado de capivara. Foi um espetáculo curioso. As piranhas, num formigar e torvelinho que faziam borbulhar e espadanar as águas, o espicaçaram, ora atirando-o para o ar, ora puxando-o para o fundo.
À medida que o sangue se espalhava, acudiam outras aos milhares, e em breve nada restou daquela presa." (⁵)


(1) AYRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica, 1ª ed., vol. 2, 1817, p. 187.
(2) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, pp. 86 e 87.
(3) Ibid.
(4) Ibid.
(5) Ibid.


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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Animais que aterrorizavam a imaginação dos colonizadores do Brasil (Parte 2): Jacarés

"Era a hora em que a sombra das montanhas sobe às encostas, e em que o jacaré deitado sobre a areia se aquece aos raios do sol."
                                                                                                                         José de Alencar, Guarani

Diferentemente das cobras (que foram assunto de nossa postagem anterior), os jacarés sempre dividiram as opiniões dos colonizadores. Explico: se, por um lado, seu aspecto pareceu amedrontador, com toda aquela possante dentição à mostra, por outro, não demorou que sua caça logo interessasse a muitos que o tiveram na conta de fina iguaria, coisa que não aconteceu com cobra nenhuma. Os trechos de documentos que veremos a seguir demonstram bem essa dupla impressão.
Tendo percorrido o interior do Brasil entre 1825 e 1829 (¹), na condição de desenhista da Expedição Langsdorff, Hércules Florence deixou em seu diário uma interessante descrição de um lago em uma fazenda visitada, cujas águas pareciam bem convidativas, mas cujos habitantes inviabilizavam um banho, ainda que rápido, tudo narrado em vívida linguagem, que bem faz o leitor imaginar facilmente a situação:
"Se por si sós podem esses peixes (²) tirar o desejo de tomar um banho no lago, a presença de enormes jacarés em número superior a tudo quanto até então eu vira, basta para que até em tal nem se pense. Ouve-se-os roncar: veem-se-os no meio dos aguapés das margens, por toda a parte. O lago semelha uma caldeira de azeite a ferver, por tal modo agitam esses anfíbios [sic] a água, nadando rentes à superfície." (³)


Ora, para infelicidade dos jacarés, nem toda a carinha de maldade que têm impediu que os colonizadores se dispusessem a abatê-los, fosse porque, às vezes, os alimentos escasseavam, fosse porque alguns eram mesmo apreciadores de sua carne, sem falar nos usos que em pouco tempo seriam dados ao couro. Isso nos contam monçoeiros que, desde Porto Feliz, partiam via Rio Tietê até longínquas terras no interior do Brasil, como foi o caso, por exemplo, do governador português Dom Rodrigo César de Meneses. De sua ida a Cuiabá em 1726 há um relato feito pelo secretário Gervásio Leite Rebelo, no qual se lê:
"Em 27 e 28 do dito (⁴) se continuou a viagem com bom sucesso, houve bastante caça por ser este rio abundante de aves e de peixe, principalmente capivaras, piranhas e jacarés." (⁵)
Uma pausa aqui é quase obrigatória, para assinalar que, se o trecho mostra claramente que jacarés eram tidos como caça, mostra também que, ou o senhor secretário do governador não revisou o que escreveu, ou não tinha os mais elementares conhecimentos científicos, mesmo para seu tempo: como pode dizer que o rio era pródigo em aves e peixe e exemplificar isto com capivaras, piranhas e jacarés?!


Vamos adiante. Por meio de um outro relato monçoeiro, datado de 1751, desta vez feito por outro governador, Dom Antônio Rolim, o Conde de Azambuja, temos uma descrição de jacarés até detalhada. Compare-a, leitor, portanto, com as fotos desta postagem e veja se esse nobre português andou bem em suas palavras:
"Neste dia se matou o primeiro jacaré, a três ou quatro passos de distância da canoa, que tão pouco espantadiços são. Este, com ser pequeno, pelo que disseram, tinha seis palmos de comprido, quatro pés como lagarto, mais grosso no corpo que um homem pela coxa, rabo comprido à proporção do mais corpo. A pele, pela parte de cima, feita em cintas como armas brancas, é tão dura, que, dando-lhe à mão-tente com uma faca de ponta, apenas lhe entrou grossura de duas moedas de dez réis. A cabeça é comprida, os dentes de cão e sem língua." (⁶)

(1) Já fora, portanto, do tempo colonial.
(2) Os peixes eram piranhas, que serão assunto da próxima postagem.
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 187.
(4) Outubro de 1726.
(5) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas 3ª ed., vol 3. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 121.
(6) Ibid., p. 203.


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domingo, 13 de novembro de 2011

Animais que aterrorizavam a imaginação dos colonizadores do Brasil (Parte 1): Cobras

"Ele que não brinque com o Manecão; é homem de cabelinho na venta e se lhe bota a mão em cima, esfarela-lhe os ossos, como se fora veadinho do campo enroscado por sucuri..."
                                                                                         Alfredo d'Escragnole Taunay, Inocência

Faz alguns dias, uma sucuri  - de cerca de seis metros de comprimento - resolveu passear por ruas de Manaus e causou sensação. Tente imaginar, no entanto, a cara de espanto dos colonizadores que, há séculos atrás, tinham a fantástica oportunidade de deparar-se com uma cobra semelhante, em meio ao território desconhecido que procuravam devassar. Todo mundo sabe que animais do Brasil já aterrorizaram muita gente, e nesta postagem e nas próximas trataremos deste assunto.
Não é preciso ser arqueólogo de cinema para odiar cobras e, além disso, a humanidade parece ter boas razões para não nutrir grande simpatia por elas, embora sempre possa haver um ou outro admirador. Ainda no século XVI, Gândavo escreveu:
Jararaca (⁴)
"Há nestas partes muitos bichos feros e peçonhentos, principalmente cobras de muitas castas e de nomes diversos. Umas há tão grandes e disformes que engolem um veado todo inteiro, e afirmam que tem esta cobra tal qualidade que, depois de ter comido, arrebenta pela barriga e apodrece com a cabeça e a ponta do rabo sãs; e tanto que desta maneira fica, torna pouco a pouco a criar carne nova até que se cobre outra vez da mesma carne tão perfeitamente como dantes: isto viram e experimentaram muitos índios e moradores da terra, a estas chamam pela língua dos índios de jiboiaçu.
Outras há muito maiores e mais peçonhentas, de outra casta diferente, são tão grandes, em tanto extremo, que apenas dezesseis índios podiam levar uma que mataram junto da costa entre os portugueses; a esta cobra chamam surucucu.
Outra geração há delas que lhe chamam boiteninga, tem na ponta do rabo uma coisa que soa propriamente como cascavel, e por onde esta cobra vai, sempre anda rugindo, [sic!] é uma das feras bichas que há na terra.
Outras há na terra que lhe chamam hebijaras, têm duas bocas, uma na cabeça, outra no rabo, mordem com ambas: esta cobra é branca e muito curta, o mais do tempo está debaixo da terra, é peçonhentíssima sobre todas: quem desta for mordido não terá vida muitas horas, e assim qualquer destas outras que morder alguma pessoa, o mais que dura são vinte e quatro horas.
(...) Também afirmam alguns homens que viram serpentes nesta terra com asas muito grandes e espantosas, mas acham-se raramente." (¹)
Cascavel (⁵)
Bem, meus leitores, o problema, aqui, é que Pero de Magalhães Gândavo pretendia, com seu Tratado da Terra do Brasil, incentivar portugueses a virem viver no Brasil para colonizá-lo, mas, ao menos pelas regras atuais da propaganda, ele teria dificuldades em alcançar sucesso, com esse relatório intimidador. Além disso, falar em serpentes voadoras? Ora, haja imaginação!
De um pouco mais tarde, da primeira metade do século XVII, vem-nos o registro de Frei Vicente do Salvador, infelizmente não isento de sua quota de lorota:
"Há também muitas cobras, e algumas tão grandes, que engolem um veado inteiro, e dizem os índios naturais da terra que, depois de fartas, arrebentam, e corrupta a carne se gera outra do espinhaço (...), e algumas se viram já de sessenta palmos de comprido; em Pernambuco se enrolou uma destas em um homem que ia caminhando, de tal sorte que, se não levara um cão consigo, que mordendo-a muitas vezes a fez largar, sem falta o matava: e ainda assim o deixou tal, que nunca mais tornou às suas cores e forças passadas." (²)
E, se seguirmos a bibliografia disponível, séculos afora, iremos encontrando outros relatos, mais ou menos semelhantes, mostrando que petas podem perfeitamente passar de uma geração a outra, como se fossem a mais cândida verdade, simplesmente porque continuam a ser repetidas, sempre em companhia de informações verídicas, para dar um toque, digamos, mais autêntico.
Estudos sérios, mesmo, sobre os ofídios do Brasil, inclusive no que se refere a tratamento adequado em caso de "acidentes" com picadas, só viriam bem mais tarde. Enquanto isso não acontecia, só restava aos colonos ter muito cuidado por onde andavam, torcendo para não ter nenhum encontro indesejável com algum exemplar das temidas cobras do Brasil. (³) 

(1) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil.
(2) SALVADOR, Frei Vicente do.  História do Brasil.
(3) Estudos envolvendo a classificação de ofídios foram desenvolvidos a partir do século XIX. O Instituto Butantan data do comecinho do século XX. Mesmo isso podia ser motivo para humor - veja a página da Revista A Cigarra, edição de 15 de junho de 1914, reproduzida mais abaixo.
(4) WIED-NEUWIED, Maximilian v. Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens. 
(5) Ibid.; esta cobra é conhecida popularmente como cascavel, boicininga, boiteninga, boiquira, além de outros nomes.


A legenda diz: "Um forasteiro reproduz no seu caderno os desenhos feitos pelos movimentos
de uma jararaca e, ao concluir o epigrama com que o mimoseou o réptil, aplica-lhe
fortes bengaladas".
Revista A Cigarra, edição de 15 de junho de 1914.

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domingo, 25 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 8): Preguiças

Preguiça com filhote (²)
As preguiças recebem o nome de preguiças porque nos parecem, afinal, preguiçosas! É como se vivessem em perpétua câmera lenta. Há uma bem conhecida lenda que conta que uma preguiça, estando na floresta quase ao nível do chão, viu uma belíssima fruta no alto de uma árvore. Tal fato aguçou-lhe o apetite, de modo que ela começou a escalar a dita árvore, mas à sua maneira, pre-gui-ço-sa-men-te. Finalmente, alcançou seu alvo, mas ao tocar a fruta, esta caiu prontamente ao solo. Estava podre. Por quê? A preguiça havia gasto tanto tempo na subida que, nesse intervalo, a tão apetitosa fruta completara seu ciclo de maturação, ficando pronta para liberar as sementes. Exagero à parte, isso dá uma ideia de quão velozes são as preguiças, ou, se quisermos ser justos, de quão velozes seu metabolismo permite que sejam.
Ora, perversamente, em sua aparência esses bichos têm algo de humanoide, logo eles a quem nomeamos por um dos piores defeitos que alguém poderia ter, um dos sete pecados capitais. Basta ver como olham, como se movem, como carregam os filhotes. No século XVII, Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil, escreveu:
Preguiça-de-costas-pretas (²)
"Outro animal há a que chamam preguiça, por ser tão preguiçoso e tardo em mover os pés e mãos, que para subir a uma árvore ou andar um espaço de vinte palmos há mister meia hora, e posto que o aguilhoem, nem por isso foge mais depressa."
Tal descrição pode fazer supor que as preguiças são seres frágeis, facilmente capturáveis. Nem sempre. Este exemplo é ótimo: a preguiça, ainda que mui preguiçosa, foi veloz o bastante para fazer suas lindas garras escaparem das unhas dos taxidermistas da expedição Langsdorff, conforme escreveu Hércules Florence, estando próximo à embocadura do rio Juruena:
"Foi aí contudo que agarramos uma preguiça, que atravessava o Juruena. Metemo-la numa canoa e à noite a amarramos a uma árvore: de manhã, porém, desaparecera." (¹)

(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 222.
(2) WIED-NEUWIED, M. v. Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens.


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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 7): Cervos e veados

"Nesse tempo o meu maior prazer, senão o único, era caçar - sair na fresca da manhã, com as névoas ainda soltas, rolando, fluindo ao rés da terra molhada, num rijo cavalo, entre cães, a surpreender, na beira das lagoas ou nos matos, a paca esquiva, o caititu atrevido, a jaguatirica ou correr no campo o veado arisco, mais ligeiro que o vento que assobiava aos meus ouvidos."
                                                                                                               Coelho Neto, Água de Juventa

Cervos e veados parecem ter recebido a triste primazia, quando ainda eram numerosíssimos nos campos do Brasil, da preferência dos caçadores, tanto dos que os procuravam como alimento como daqueles que disparavam suas armas simplesmente por esporte.
Cervo do Pantanal
(fotografado vivo, bem vivo, e espero que assim continue)
Dom Antônio Rolim de Moura Tavares, mais conhecido como Conde de Azambuja, mencionou, em seu relato da viagem desde São Paulo até Cuiabá, em 1751, que encontrou muitos desses animais pela altura do Rio Pardo, não deixando de fazer, digamos, observações gastronômicas:
"Além desta caça, há cervos, que são do mesmo feito e mais pequenos que os nossos veados. Há veados do tamanho de cabras; mas a carne mais tenra e gostosa que a dos nossos." (¹)
É quase desnecessário acrescentar que a comparação era feita em relação aos cervídeos que o conde português conhecera na Europa, antes que sua nomeação para o governo das minas de Mato Grosso o trouxesse ao Brasil, obrigando-o a empreender viagem pela rota das Monções. (²)
As peles de veado, assim como as de anta, tiveram largo emprego no Brasil  para confecção de uma série de objetos, dentre os quais, sapatos. Isso permitiu o desenvolvimento de um pequeno ramo de atividade de que podemos ter alguma ideia por uma anotação feita pelo naturalista Auguste de Saint-Hilaire em seu diário de viagem ao Rio Grande do Sul, no qual observa que,  na lista de coisas vindas de outras partes do Brasil para aquela Capitania,  haviam sido importadas de Santa Catarina em 1816, "195 peles de veado curtidas", o que nos leva a crer que a caça e exploração comercial desses animais eram, na época, usuais. (³)
O mesmo autor, narrando ainda suas viagens pelo território do Rio Grande do Sul e do atual Uruguai, acrescenta:
"Vi hoje, às margens da estrada, um rebanho de cervos que pastavam tranquilamente ao lado de avestruzes; eles não fugiram à nossa aproximação." (⁴)
Aqui tem-se a oportunidade de ver mais uma confusão entre seres vivos do Continente Americano e da África, dentre as muitas que se faziam na época - não eram avestruzes as aves vistas por Saint-Hilaire. Eram emas, claro, como o leitor já deve ter adivinhado.


(1) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 203.
(2) Mais tarde chegou a ocupar o cargo de vice-rei do Brasil.
(3) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 123.
(4) Ibid., p. 159.


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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 6): A capivara

"O sol deitou-se, e de novo se levantou no céu. Os guerreiros chegaram aonde a serra quebrava para o sertão; já tinham passado aquela parte da montanha, que por ser despida de arvoredo e tosquiada como a capivara, a gente de Tupã chamava Ibiapina."
                                                                                                                          José de Alencar, Iracema

Hans Staden descreveu a capivara como sendo um animal que podia viver tanto na água como sobre a terra. Tinha, segundo ele, o tamanho superior ao dos cordeiros, a cabeça parecida com a de uma lebre e orelhas curtas, pernas altas proporcionalmente ao corpo, pelo escuro, três unhas em cada uma das patas e, ressaltava, a carne semelhante à de porco. É recorrente, em diversos autores, a visão dos animais meramente como caça, para alimentação, fato a que já me referi nas postagens anteriores.

Capivara pastando à margem de um lago

Compelido a viajar pela rota das monções em 1751, o Conde de Azambuja, D. Antônio Rolim, deixou anotada uma observação sobre a caça às margens do Tietê:
"De caça de pele neste rio só pacas e capivaras. As primeiras são do tamanho de um leitão, com os pés curtos, o pelo como de cão pardo-escuro. Das outras o feitio é de rato, principalmente o da cabeça; o pelo na aspereza é de porco, mas pardo; são do tamanho de um marrão, e o gosto não é bom; a paca sim é mui gostosa." (¹)
Os leitores podem recordar-se de que, em postagens anteriores desta série, outros viajantes relataram uma diversidade bem mais significativa de animais "caçáveis" às margens do mesmo Tietê. O que teria ocorrido em tão breve intervalo de tempo, fazendo com que os animais desaparecessem? Talvez seja possível aplicar também neste caso as palavras do Padre Ayres de Casal, ao referir-se à desaparição de aves chamadas guarás no Maranhão:
"As espingardas têm feito maior destruição nestes viventes em três séculos do que as taquaras dos indígenas em toda a antiguidade." (²)

(1) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, pp. 201 e 202.
(2) Corografia Brasílica, vol. 2, 1817, p. 263.


Veja também:

domingo, 18 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 5): Os ferozes queixadas

"Com efeito da orla da selva rompia um bando de porcos-do-mato. Mais de cem desses animais selvagens, com a pupila chamejante, ouriçando as ruivas cerdas, e afiando os longos colmilhos nos queixais chocalhados pela sanha, trotavam em fila, e figuravam na relva da campina a verga combusta do imenso arco de algum tamoio gigante.
Assim avançam os ferozes queixadas, rompendo relvas, estraçalhando quanto encontram com os cutelos das presas, ou esmagando-o sob a úngula bissulca das cem patas cadentes que batem o chão. Se o inimigo resiste ao primeiro ímpeto do centro, ou se receiam lhes fuja, as pontas do arco se estorcem, e a vara fatal cinge o mísero, que tomba em pedaços, como a isca à flor de tanque piscoso."
                                                                                                                                        José de Alencar, Til

Semelhantes sob vários aspectos aos porcos-monteses da Europa, os queixadas ou porcos-do-mato (¹) logo atraíram a atenção dos colonizadores, que viam na abundância desses animais a garantia de caça apetitosa e farta. Isso, naturalmente, a despeito do perigo, pois esses porcos selvagens, percorrendo as matas em enormes manadas, eram capazes de aterrorizar até o mais indômito dentre os caçadores. Algo parecidos na forma, os simpáticos e, quase sempre pacíficos caititus, às vezes "pagavam o pato".

Queixada ou porco-do-mato

Mas, se os queixadas eram assim tão perigosos, como caçá-los? Frei Vicente do Salvador, ao descrever os ditos animais, deixou-nos um relato de qual era o procedimento empregado em sua captura:
"Há também muitos porcos-monteses; alguns como os javalis de Espanha, os quais andam em manadas, e se o caçador fere algum há logo de subir-se a alguma árvore, porque vendo eles que não podem chegar-lhe remetem todos ao ferido e aos outros que se pegou algum sangue, com tanta fereza que se não apartam até não deixarem três ou quatro mortos no campo, e então se vão em paz, e o caçador também com a caça." (²)
Ainda assim, leitor, se fosse possível (hipoteticamente, claro), fazer uma enquete entre os sertanistas que andavam a percorrer o território ainda ignoto do Brasil nos tempos coloniais, os porcos-do-mato figurariam, sem sombra de dúvidas, entre os grandes terrores que os assaltavam. Alguns relatos mais, que agora consideraremos, podem confirmar esta ideia.
No primeiro deles, é o próprio Frei Vicente do Salvador quem conta de um ataque a uma tropa de entradistas:
"Em a era do Senhor de 1578, em que Lourenço da Veiga governava este Estado, se ordenou em Pernambuco uma entrada para o sertão em que foi por capitão Francisco Barbosa da Silva em um caravelão até ao rio de São Francisco, e por ser a gente muita, e não caber na embarcação, foram setenta homens por terra, levando por seu cabo a Diogo de Crasto, que falava bem a língua da terra e havia já ido da Bahia a outras entradas.
Estes, havendo passado o rio Formoso, foram cometidos de um bando de porcos-monteses, com tanta fúria e rugido de dentes, que os pôs em pavor, mas como tinham as espingardas carregadas, descarregaram-nas neles, e os fizeram voltar, ficando sete mortos, que foram bons para a matalotagem." (³)
Outros relatos vêm de Teotônio José Juzarte, o sargento-mor que, em 1769, conduziu uma monção pelo Tietê afora. Ele mesmo lista os porcos-do-mato entre os grandes perigos que ameaçavam os monçoeiros:
"Há as onças, e tigres e as grandes manadas de porcos-de-mato que são bravíssimos, e de muito longe se ouve o estrépito que fazem com os dentes, de tudo isto se tem grande cuidado durante a noite." (⁴)
E, para confirmarmos que há dia da caça e dia do caçador, outros dois breves trechos do Diário da Navegação anotado por Juzarte, sendo o segundo deles um exemplo no mínimo exótico dos tratamentos dispensados aos doentes no Período Colonial. Sem mais delongas, vamos a eles:
"... e saíram muitos homens a caçar por aqueles matos onde se perdeu um soldado [...]; ... sendo já oito horas da noite ouviram que o soldado gritava, acudindo para aquela parte deram com ele trepado sobre uma árvore sem saber em que parte estava, e disposto a ficar a morrer naquele sertão; contou que o motivo de se trepar naquela árvore fora um grande número de porcos-do-mato que com violenta carreira se encaminhavam para ele, aos quais seguia e perseguia uma onça de extraordinária grandeza, que à vista disto se salvou em cima daquela árvore para passar ali a noite até o dia seguinte para então ver se acertava com o lugar aonde ficavam as embarcações [...]." (⁵)
"... seguindo encontramos uma quantidade de porcos-do-mato que com os dentes faziam grande bulha, embicamos em terra, e logo saltaram alguns caçadores, e com efeito mataram três, os quais se repartiram pelos doentes..." (⁶)
Sim, sua leitura está correta: "os quais se repartiram pelos doentes"! Sucede que a comida escasseava entre os monçoeiros e, ao capturarem alguma caça, reservavam-na para os que estavam mais debilitados.

(1) A lista de animais que aparece na Corografia Brasílica do Padre Ayres de Casal, mencionada na primeira postagem desta série, refere apenas a existência de porcos-monteses no Brasil.
(2) História do Brasil.
(3) Ibid.
(4) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 236.
(5) Ibid., p. 244.
(6) Ibid., p. 271.


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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 4): Churrasco de anta

"Mas Pedro Ruivo ia aguilhoado pelo medo e varava o mato como a terrível anta, que no seu espanto não enxerga obstáculo diante de si."
                                                                                              Aluísio Azevedo, Mistério da Tijuca

"Livre, como o tufão, corre o vaqueiro
Pelos morros e várzea e tabuleiro
Do intrincado cipó.
Que importa’os dedos da jurema aduncos?
A anta, ao vê-los, oculta-se nos juncos,
Voa a nuvem de pó."
Castro Alves, Os escravos


Frei Vicente do Salvador, famoso por ter sido, talvez, o primeiro nascido em solo brasileiro a escrever uma História do Brasil, assim descreveu as antas:
"Há outros animais a que chamam antas, que são de feição de mulas, mas não tão grandes, e têm o focinho mais delgado, e o beiço superior comprido à maneira de tromba, e as orelhas redondas, a cor cinzenta pelo corpo, é branca pela barriga, estas saem a pascer só de noite, e tanto que amanhece metem-se em matos espessos, e ali estão o dia todo escondidos [...]."
Terá nosso primeiro historiador nativo alcançado seu propósito com a descrição que fez? Pode-se ter uma ideia se forem comparadas as suas palavras com o que se vê na foto abaixo.

Anta ou tapir

A anta (também chamada tapir) causou forte impressão nos primeiros colonizadores por suas dimensões - um espécime de bom tamanho pode chegar perto dos trezentos quilos. Toda essa massa era muito interessante para gente acostumada a ver os animais como comida ambulante, embora, conforme logo saberemos, a qualidade da carne e seu sabor fossem um tanto discutíveis. O significado prático disso é que carne de anta não era, geralmente, a primeira escolha, mas era consumida na falta de alguma coisa melhor.
O couro da anta, por outro lado, era apreciado nos tempos coloniais. Dele eram feitos calçados rústicos, mas resistentes, além de outros artigos, o que incluía até armas empregadas nas bandeiras de apresamento de índios. Os testamentos deixados por bandeirantes nos informam que, entre seus pertences, havia quase sempre objetos confeccionados com couro de anta.
Voltemos agora à questão do sabor desse avantajado herbívoro. Hércules Florence, em seu diário da Expedição Langsdorff (1825 a 1829), deixou preciosas anotações a respeito. Uma delas relata as aventuras de uma caçada:
"Depois do meio-dia tivemos o espetáculo de uma caçada de anta (tapir). Supusera o pobre bicho poder passar o rio sem tropeço, mas foi pressentido e, dado o alarma, num momento acudiram todos à margem, saindo logo três canoas a persegui-lo. Debalde mergulhava, debalde nadava largo tempo debaixo d'água para subtrair-se à morte, quando ia alcançar a barranca oposta e atirar-se no mato, a bala certeira de nosso piloto varou-lhe o crânio. Um dos proeiros, bom mergulhador, foi tirá-lo do fundo da corrente." (¹)
Por que toda essa carnificina, aqui descrita com cores que poderíamos rotular de cinematográficas? Ah, leitores, as viagens ao interior nesse tempo traziam aos monçoeiros inúmeras dificuldades e, além das doenças, do cansaço, do desconforto, dos mosquitos, havia sempre a ameaça da fome, pois vastidões sem conta eram percorridas sem que se encontrasse um único habitante e, por conseguinte, sem que se visse um ponto de abastecimento, onde se pudessem comprar gêneros alimentícios. Daí a lançarem-se os expedicionários a caçar o que aparecesse pela frente, era só um passo.
Em outra passagem, diz o mesmo autor:
"Matou-se uma anta. Dizem que a carne desse animal faz sair os humores do corpo, razão pela qual obra como purgante e produz moléstias de pele." (²)
Tal observação, no entanto, não impediu que os expedicionários, poucos dias depois, fizessem um verdadeiro banquete de carne de anta, conforme nos conta o próprio H. Florence:
"O ajudante do guia que fora na véspera a um barreiro (lugar onde há depósitos de sais naturais) fazer durante a noite espera de antas, matou lá quatro desses animais. Quando amanheceu, um batelão foi buscá-los, mas não trouxe senão três, porque o quarto caíra n'água e desaparecera. Nossa gente comeu carne a fartar. A abundância reinava no acampamento: por todos os lados faziam-se assados e churrascos. Mandamos moquear uma boa porção, expondo-a à fumaça de um fogaréu, para poder conservá-la. Só achei comíveis o fígado e o coração. O Sr. Taunay, que depois do naufrágio do Urânia nas Ilhas Malvinas vira-se na contingência de comer carne de cavalo, assevera que a do tapir tem o mesmo gosto." (³)
Satisfeita, pois, a curiosidade quanto ao sabor de carne de anta (ao menos no que se refere à percepção de quem fez o relato), resta dizer que pela cabeça do excelente desenhista da Expedição Langsdorff passou uma ideia extra, pra lá de curiosa, ou seja, a de que antas poderiam servir, nem mais, nem menos, como animais de carga:
"A anta domestica-se com facilidade e poderia prestar, como animal de carga, os mesmos serviços que as bestas. Tem, com efeito, tanta força quanto elas, embora seja de menor tamanho." (⁴)
Como jamais vi por aí uma "anta de carga", tal proposta dispensa maiores comentários.

(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 23.
(2) Ibid., p. 36.
(3) Ibid., p. 39.
(4) Ibid., p. 23.


Veja também:

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 3): Histórias de onça

"Era uma onça enorme, que com as garras apoiadas sobre um grosso ramo de árvore, e os pés quase suspensos num galho superior, encolhia o corpo, preparando o seu salto gigantesco."
                                                                                                                                            José de Alencar, O Guarani

"Era a hora em que a tarde se debruça
Lá da crista das serras mais remotas...
E d'araponga o canto, que soluça,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que s'embuça,
Passa o bando selvagem das gaivotas ...
E a onça sobre as lapas salta urrando,
Da cordilheira os visos abalando."
Castro Alves, A Cachoeira de Paulo Afonso


Depois de ter ficado entendido, pela postagem anterior, que por muito tempo onças-pintadas e onças-pardas foram chamadas, respectivamente, de tigres e leões, chegou a hora de verificar que relacionamento houve entre humanos e esses felinos, o que significa dizer que, pelos documentos de que dispomos, a caça devia ser recíproca. As onças tinham, pelo menos, a vantagem de não serem vistas como especialidade culinária, o que já era muito, em tempos nos quais, na Europa, caçar era frequentemente um privilégio para nobres e monarcas e, por isso, a gente comum, uma vez chegada ao Brasil, lançava-se a perseguir os animais, desfrutando de um "esporte" que pode até parecer sanguinário aos nossos olhos, mas que era considerado "coisa de homem" naqueles tempos.
Na obra de Hans Staden, vê-se, em terra, um
animal que deve ser uma onça-pintada
Uma gravura que aparece na edição de Marburg da obra de Hans Staden, Zwei Reisen nach Brasilien (¹), mostra dois animais em terra, aparentando, um deles, ser uma onça-pintada; ainda do século XVI temos, de Pêro de Magalhães Gândavo (²), este relato:
"Os bichos mais feros e mais danosos que há na terra são tigres, e estes animais são deles tamanhos como bezerros, vão-se aos currais do gado dos moradores e matam muito dele e são tão feros e forçosos que uma mão que lançam a uma vitela ou novilho lhe fazem botar os miolos fora e levam-no arrastado para o mato. Também pela terra dentro matam e comem alguns índios quando se acham famintos. Sobem pelas árvores como gatos, e dali espreitam a caça que por baixo passa e remetem de salto a ela, e desta maneira não lhes escapa nada: alguns destes animais matam em fojos os moradores da terra."
Já dá para "sentir o clima" em relação às onças, não é? Veja-se então esta outra referência, agora de Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (³):
"Há também muita diversidade de animais nocivos, que se não comem, como são onças, ou tigres, que matam touros, e se estão famintos acometerão um exército, mas se estão fartos, não só não ofendem a alguém, mas nem ainda se defendem e se deixam matar facilmente."
Bandeirantes e monçoeiros tiveram também seus encontros (e desencontros) com essas feras do Brasil. Uma bandeira metida a apresar índios das missões, obrigada a retroceder, acabou dispersa, como se disse na época, "para maior regalo de tigres e jaguares". Além disso, o Capitão João Antônio Cabral Camello, escrevendo em 1727 sobre a rota das monções, assinalou:
"Este Rio dos Porrudos não cede ao Paraguai na abundância de peixe [...], e nele não faltam onças, que têm feito algumas mortes." (⁴)
Caça à onça, de acordo com Rugendas (⁷)
Um ano antes (em 1726, portanto), durante a monção que levou a Cuiabá o governador Dom Rodrigo César de Meneses, um cozinheiro se extraviou da tropa, fazendo o secretário, a respeito disso, este relato:
"João Francisco cozinheiro de S. Exª que saltando em terra a buscar uma faca que lhe tinha esquecido com tenção a pé seguindo pela margem do rio a canoa até o sítio, onde pousasse a tropa, não apareceu até o presente e se entende que ou se perdeu no mato, ou foi pasto de alguma onça." (⁵)
Ainda mais uma aventura de onças caçadoras - dessa vez quem conta é Saint-Hilaire, em suas andanças pelo Rio Grande do Sul e Uruguai (⁶):
"...Matias veio dizer-nos que acabavam de encontrar quatro tigres, dois grandes e dois pequenos, que estavam comendo o melhor de meus cavalos. Estivera a persegui-los, mas se embrenharam na mata que margeia o lago."
Como se diz, porém, um dia da caça, outro do caçador. Em Corografia Brasílica, obra publicada em 1817, escreveu o Padre Ayres de Casal, ao tratar de uma localidade na então província de Mato Grosso:
"Defronte está a Real Fazenda da Cahyssara, onde se cria numeroso gado vacum e também cavalar, e onde se tem morto grande número de tigres."
Se, no entanto, restar alguma dúvida de que, além de exímias caçadoras, as onças eram também frequentemente caçadas, fosse pela belíssima pele (das onças-pintadas, particularmente) ou porque atacavam o gado (qualquer onça...), basta observar as gravuras que deixaram artistas que estiveram no Brasil no século XIX, tais como Debret e Rugendas, que podem ser vistas como ilustrações desta postagem.

Caça à onça-pintada, Debret (⁸)

(1) Duas Viagens ao Brasil, c. 1557. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Tratado da Terra do Brasil.
(3) Obra provavelmente concluída durante a década de 20 do século XVII.
(4) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 132.
(5) Ibid., p. 117.
(6) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 293.
O registro data de 1821.
(7) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. 
Paris: Engelmann, 1835. O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(8) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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