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terça-feira, 25 de maio de 2021

Ruas imundas

Fundada no Século XVI (¹), a cidade do Rio de Janeiro tornou-se capital do Brasil, em substituição a Salvador, no Século XVIII (²). Os novos tempos, nos quais era preciso zelar pelas remessas de ouro e diamantes para o Reino, explicam a mudança. Desvanecia-se o primado do açúcar diante do brilho de minerais tão cobiçados.
Antes e depois de se tornar capital, o Rio de Janeiro, como muitas outras cidades coloniais, não era exatamente um monumento à higiene. De acordo com José Vieira Fazenda, no  começo do Século XVII a Câmara do Rio de Janeiro decidiu impor uma multa aos armadores de baleias que insistissem em carneá-las perto da barra, em razão, é claro, do odor extremamente desagradável exalado. Não se deve imaginar, portanto, que apenas as ruas eram sujas - a mesma coisa poderia ser dita em relação à orla marítima. Também segundo Vieira Fazenda, Bernardino Antônio Gomes, um médico ouvido pela Câmara em 1798, afirmou: "[...] "quase toda a praia desta cidade da banda da baía é por falta de cais extremamente imunda [...]; as ruas da Vala e Cano (³) são ingratas aos passageiros pelo vapor que exalam [...]"." (⁴)
Lembrando aos leitores que, em razão das ameaças constantes de invasões, o Rio de Janeiro colonial tinha muralhas para proteção, deve-se dizer, também, que era perto delas, em alguns pontos, que o lixo da cidade era lançado. Esqueçam, por favor, qualquer serviço de limpeza urbana nesse tempo, mas considerem, ainda por informação de José Vieira Fazenda, que tanto entulho de péssimo aroma oferecia, em adição, um problema estratégico: "Isso se dava perto da muralha, onde tal era a altura de imundícies, que haviam quase inutilizado a fortificação [...]." (⁵)
Como mudança de governo não significa, necessariamente, mudança nos costumes em relação à higiene dos lugares públicos, quem esteve no Brasil pela época da Independência ou pouco depois dela, constatou ruas tão sujas como... Como sempre. Saint-Hilaire, por exemplo, fez esta observação, ao comparar Rio de Janeiro e Porto Alegre: "Fácil perceber-se, desde o primeiro instante, que Porto Alegre é uma cidade nova; todas as casas são novas, e muitas ainda em construção; mas, depois do Rio de Janeiro, não tinha ainda visto uma cidade tão imunda, talvez mesmo a capital não o seja tanto" (⁶). Complementando essa constatação pouco elogiosa, tem-se o que escreveu C. Schlichthorst, oficial do Segundo Batalhão de Granadeiros do Império: "A imundície de tão grande cidade [Rio de Janeiro] com outro clima empestaria as ruas, pois cavalos e cães ficam onde caíram mortos, as cloacas despejam-se nas praias e praças públicas, e os mortos são sepultados nas igrejas" (⁷).
Já vamos acabar, leitores. Para que ninguém suponha que o correr dos anos do Império trouxe mudanças radicais, veremos o que escreveram Elizabeth Cary Agassiz e Jean Louis Agassiz, que visitaram o Rio de Janeiro na década de sessenta do Século XIX: "Observando-se o asseio escrupuloso que reina em todos os estabelecimentos públicos do Rio de Janeiro, estranha-se como é que as ruas dessa cidade são as mais imundas que vimos até hoje. É evidente, não há dúvida, que os brasileiros reconhecem a importância da boa conservação de todos os lugares públicos, e é singular que tolerem nas ruas de sua capital um estado de coisas tal que muitas vezes não se sabe onde colocar os pés." (⁸) Em defesa do Rio de Janeiro poder-se-ia dizer que sujeira nas vias públicas não era característica sua, exclusivamente. As ruas, mundo afora, não eram, em geral, muito diferentes. 
Como explicar tudo isso? Para os Agassiz, a culpa, em última instância, não era nem do governo, nem do descuido dos moradores: "Ruas estreitas infalivelmente cortadas, no centro, por uma vala onde se acumulam imundícies de todo gênero; esgotos de nenhuma espécie, um aspecto de descalabro geral, resultante, em parte, sem dúvida, da extrema umidade do clima [...]" (⁹). Para esses autores, as ruas eram imundas por causa da umidade, os habitantes de Minas Gerais eram inteligentes devido ao clima, e assim por diante. O determinismo geográfico (em decorrência das condições ambientais) era moda, e servia, em não poucos casos, de muleta para explicar e/ou justificar tanto problemas terríveis quanto coisas que podiam ser reputadas como altamente positivas. Não foi sem causa que essa forma de enxergar a realidade veio a sofrer muitas críticas.

(1) 1565.
(2) 1763.
(3) Esses nomes para ruas são, a propósito, bastante sugestivos.
(4) Cf. FAZENDA, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1940, p. 438.
(5) Ibid., p. 169.
(6) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 50.
(7) SCHLICHTHORST, C. O Rio de Janeiro Como É (1924 - 1926). Brasília: Senado Federal: 2000, p. 28.
(8) AGASSIZ, Jean Louis R. et AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil 1865 - 1866. Brasília: Senado Federal, 2000, p. 434.
(9) Ibid., p. 67.


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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Esmolas para as almas do purgatório

François Biard, pintor francês que esteve no Brasil entre 1858 e 1859, fez registros interessantes que resultaram na publicação de um livro, Dois Anos no Brasil. A obra apresenta, às vezes, um tom sarcástico, mas tem lá sua importância por documentar aspectos do dia a dia da capital do Império e de outras localidades, que, parecendo "comuns" ou "normais" aos habitantes do Brasil, talvez não fossem preservados, a não ser pelo olhar de curiosidade desse visitante estrangeiro. Assim é que encontramos este relato:
"Entre as notas e esboços apanhados nessa época pelas ruas do Rio, encontro um gordo burguês que usa sobre sua impecável roupa preta uma opa de seda verde, e estende numa das mãos aos transeuntes uma bolsa encarnada. Que faria esse homem, assim encostado à esquina da casa que ficava fronteira ao meu hotel? Soube-o de sua própria boca: tirava esmolas e dizia invariavelmente aos que por perto passavam:
"Para as almas do purgatório, por amor de Deus!"" (¹)
No Século XIX havia muita gente que acreditava que, quando alguém morria, não sendo santo o bastante para que sua alma fosse para o céu e nem perverso ao extremo, a ponto de ir diretamente ao inferno, tinha de comparecer ao purgatório, de onde, depois de algum tempo, havendo se purificado de seus pecados, podia ir ao céu. Para quem adotava esse ponto de vista, era importante a celebração de missas por intenção das "almas do purgatório", na convicção de que isso ajudaria a libertá-las de seu inferno temporário. Portanto, as esmolas, que o burguês visto por Biard pedia, eram destinadas a custear a celebração de missas.

Coletores de esmolas para fins religiosos (²)

Se você, leitor, tem curiosidade em saber se muita gente contribuía, considere: quem de fato acreditava na existência do purgatório, tinha boas razões para doar, não fosse o caso de parentes e amigos terem de sofrer por longo tempo em virtude da negligência dos vivos; além disso, a ideia de que, ao morrer, o avarento que não fizera doações em favor dos mortos podia muito bem pagar por isso no purgatório ou até, de uma vez por todas, no inferno, devia funcionar como um estímulo poderoso para induzir à generosidade. Na dúvida, era melhor não arriscar...  

(1) BIARD, Auguste François. Dois Anos no Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 121.
(2) __________ Brasilian Souvenir. Rio de Janeiro: Ludwig & Briggs, 1845. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada digitalmente para facilitar a visualização neste blog. 


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segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Homenagem às mulas dos tropeiros

"Eu cá, não deixo a minha mula paulista. Esses cavalos da moda, que vocês apreciam por serem muito grandes e muito caros, não me servem."
José de Alencar, Sonhos d'ouro

Este blog tem várias postagens dedicadas aos tropeiros que, até bem adiantado o Século XIX, realizavam o transporte de mercadorias no Brasil, guiando tropas de muares. Não há, porém, nenhuma postagem dedicada às mulas... 
Sim, a elas que, afinal, faziam o maior esforço, levando as cargas às costas, gastando as ferraduras em estradas e trilhas, ora empoeiradas, ora lamacentas, mas sempre cheias de buracos, nos quais as pobres criaturas de quatro patas não poucas vezes acabavam morrendo. E, o que é pior, morriam abandonadas pelos tropeiros, que seguiam adiante com as mulas sobreviventes.
Pois bem, vamos hoje sanar essa grande injustiça. Falemos das mulas.
Em viagem pelo interior do Brasil no ano de 1867 o britânico Richard Burton, talvez mais célebre como orientalista, teve oportunidade de entabular um relacionamento com as mulas, sem as quais quase ninguém, nesse tempo, viajava pelo País. Como resultado dessa experiência, tinha algo a escrever:
"Não há viajante que não se queixe da teimosia e rabugice das mulas; não há viajante que não alugue mulas, um mal necessário, pois os cavalos não aguentam fazer longas viagens, nesta parte do Brasil. [...]. A mula não toma afeição ao dono, por melhor que ele a trate; o cavaleiro jamais pode confiar nela, e, de todos os animais, é o mais afetado pelo medo. Seus truques são inúmeros, e a mula parece ter consciência de que sua traição pode sempre levar a melhor em uma luta; os velhos, portanto, preferem os cavalos às mulas. É um engano acreditar-se na resistência desses animais: aqui, pelo menos, cheguei à conclusão de que o sol cedo os cansa e que eles exigem muito alimento, muita água e muito descanso." (*)
Perdoem-me a paráfrase, mas não há leitor que não se queixe da teimosia e rabugice... de Burton! Trato já de esclarecer que o trecho omitido na citação acima foi excluído em razão de expor o mais grosseiro racismo que alguém possa imaginar. Convenhamos, meus leitores, que às ideias de Burton só falta mesmo exigir que as mulas sobrevivessem fazendo fotossíntese. Os pobres animais, carregados muitas vezes além de sua capacidade, transitando por horas a fio em caminhos horrorosos, são atacados verbalmente sob o pretexto de exigirem "muito alimento, muita água e muito descanso". Melhor: só faltou mesmo que Burton sugerisse a introdução de camelos nas rotas de tropeiros, tendo em vista uma substancial economia de água.  
Como não tenho e nem nunca tive uma mula, acho difícil avaliar o  comportamento delas. Seriam mesmo pouco confiáveis, traidoras, até? Que responda algum leitor que já tenha tratado com elas. Mas, à vista da ocupação a que estavam submetidas, não seria estranho se ostentassem um temperamento meio azedo. Digo apenas que, se quisermos fazer justiça às mulas, teremos que admitir, não sem algum gracejo, que por muito tempo elas carregaram o Brasil nos lombos (ou pelo menos, aquilo que se produzia no Brasil) e, malgrado alguns coices e mordidas, fizeram bem o trabalho. Ficam, pois, devidamente homenageadas aqui em História & Outras Histórias.

(*) BURTON, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 129.


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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Jabuticabas e jabuticabeiras


Jabuticabas bem maduras, doces, são ótimas. A frutinha, que é encontrada junto ao tronco da árvore que a produz, encantou os colonizadores e, já no Século XIX, buscando sistematizar informações históricas e geográficas sobre o Brasil, o Padre Ayres de Casal observou:
"A jabuticabeira é árvore pequena, delgada e de casca lisa; as folhas, que são envernizadas por ambas as bandas, mas não de um mesmo verde, variam de forma num mesmo ramo; só floresce no tronco, começando do chão até onde os ramos têm boa grossura; [...] é fruta gostosa e inocente: dela se destila um licor forte." (¹)
Deixemos de lado quaisquer considerações sobre o último falar de Ayres de Casal...
Em meados do Século XIX, o jovem Império do Brasil, ainda coberto por densas florestas, despertava uma certa curiosidade, atraindo a visita de estrangeiros que, entre suas observações, sempre relatavam as frutas da terra que haviam tido ocasião de apreciar. O príncipe Adalberto, que percorreu terras brasileiras nos anos quarenta do Século XIX, contou:
"Paramos então por um momento debaixo de uma árvore da qual fizemos cair, sacudindo-a, uma grande quantidade de jabuticabas, uma fruta muito parecida com a nossa cereja preta, que nos refrescou agradavelmente." (²)
Esse príncipe prussiano deve ter realizado um sonho de menino ao andar pela América do Sul; no entanto, não sei de onde tirou a ideia de que jabuticabas são semelhantes a cerejas pretas. É provável que não lhe ocorresse, ao escrever, nenhuma outra comparação que pudesse dar a seus leitores uma ideia exata do que eram as jabuticabas.
Não muito feliz, também, foi a comparação feita por Daniel P. Kidder, pastor e missionário metodista, nascido nos Estados Unidos, que residiu no Brasil durante o Período Regencial:
"Essa árvore pertence à ordem das mirtáceas e é dotada da grande singularidade de dar as flores e os frutos diretamente colados ao tronco e aos galhos principais enquanto que as extremidades são cobertas por densa folhagem verde. A fruta é deliciosíssima, e dá a ideia de uma grande uva roxa." (³)
"Grande uva roxa"? Muito estranho. Talvez o príncipe Adalberto e o missionário Kidder só tenham acertado mesmo no formato, o que, convenhamos, não era tão complicado. Mas, se queremos ser justos com eles, havemos de admitir que a tarefa não era fácil. Quem é que nunca se viu sem palavras ao tentar descrever a outra pessoa uma fruta ou mesmo uma especialidade culinária pouco conhecida?

(1) CASAL, Manuel Ayres de. Corografia Brasílica, vol. 1. 
Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, pp. 97 e 98.
(2) ADALBERTO, Príncipe da Prússia. Brasil: Amazônia - Xingu. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 145.
(3) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 216.


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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Obras públicas que nunca eram concluídas - Parte 2

Preâmbulo (algo longo, mas necessário)


Há quem não tenha muito apreço pelas opiniões que viajantes estrangeiros que percorreram o Brasil no século XIX expressavam a respeito do País. Compreendo, mas quero lembrar um fato indiscutível - esses viajantes deixaram relatos que são verdadeiras preciosidades, face à escassez de material escrito sobre algumas épocas e lugares.
Se quisermos ser muito, mas muito generosos mesmo, teremos de considerar que, por volta da época da Independência, os analfabetos no Brasil deviam ser uns 80% dos homens e a quase totalidade das mulheres. Portanto, pouquíssimos brasileiros podiam deixar relatos e anotações de sua vida quotidiana, dos acontecimentos que presenciavam, de suas opiniões políticas. Infelizmente, não temos no Brasil a quantidade de diários de "gente comum" de que dispõem os historiadores em outros lugares. Os documentos oficiais, por sua vez, eram lacônicos, obedecendo a fórmulas mais ou menos estabelecidas, e grafados, frequentemente, segundo uma ortografia inteiramente particular ao escrivão...
Diante disso, não há como negar a importância dos depoimentos de viajantes estrangeiros.
Eram eles às vezes preconceituosos?
Sim.
Nem sempre chegavam a compreender com exatidão o que observavam?
É verdade.
Filtravam o que viam pela lógica de seu país de origem?
Igualmente verdade.
Mas nada disso elimina o uso de seus escritos como fonte de informação. Até porque o estudo das razões pelas quais emitiam determinados pontos de vista é, já por si, muito interessante.

Observações de Saint-Hilaire sobre como se faziam as obras públicas no Brasil


Como já mencionei muitas vezes neste blog, Auguste de Saint-Hilaire, naturalista francês, percorreu boa parte do Brasil em época pouco anterior à Independência. Viajava a cavalo, a pé ou em carroça, conforme as circunstâncias permitiam. Não resulta, pois, nada estranho que desse informações sobre os caminhos que seguia. O trecho seguinte é relativo a uma estrada que fora começada, mas que ainda não se concluíra:
"Trabalhou-se ali, durante muito tempo; gastaram-se somas consideráveis; mas desde que se franqueou a passagem, não só não se concluíram as partes apenas esboçadas, como não foram conservados os trechos já concluídos. As águas já ali cavaram profundas covas e trarão a inutilização desta estrada se mais um ano decorrer sem conserva." (¹)
A seguir, passa a explicar as razões pelas quais tantos empreendimentos públicos ficavam por terminar:
"É mais ou menos assim tudo o que se empreende neste país. Os brasileiros aprendem com facilidade; sabem arquitetar planos, mas entregam-se, demais, ao devaneio, não medindo obstáculos nem calculando os empreendimentos de acordo com os seus recursos.
[...].
O espírito de inveja e intriga mais veemente do que em qualquer outro lugar, interpõe-se a tudo quanto se faz, tudo perturba, favorece o tratante, e desencoraja o homem honesto. Começa-se qualquer empreendimento útil, para logo ser interrompido e abandonado. Às vezes um serviço ordenado pelo governo e que se poderia acabar em pouco tempo, e com despesas mínimas, jamais termina, embora nele se trabalhe sempre." (²)
A tal estrada, que nunca era acabada, ficava na Região Sudeste. Coisa parecida observou no Sul do Brasil, mostrando que o problema era mesmo ligado à estrutura administrativa como um todo, e não restrita a um lugar específico. Referindo-se à restauração que se fazia necessária na igreja em São Miguel (RS), observou:
"João de Deus, um dos primeiros governadores portugueses desta província, pretendia fazer reparos neste edifício; juntou materiais, gastou muito dinheiro, mas com a mudança de governo, o sucessor não aprovou o seu projeto. As restaurações da igreja foram interrompidas, as despesas feitas tornaram-se inúteis. Tal é ainda o inconveniente do poder absoluto outorgado aos governadores de Província. Cada qual começa uma determinada obra e quase nenhum continua a de seu predecessor; o dinheiro das Províncias se dissipa, e estas se endividam para sempre." (³)
O mesmo Saint-Hilaire ainda diria, observando a pressa com que todo trabalho era feito:
"A julgar da sua lentidão e dos poucos meios empregados para economizar o tempo, dir-se-ia que os brasileiros se julgam eternos." (⁴)
Não, senhores leitores, não há nada assim hoje em dia. Isso era coisa do século XIX...

(1) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 19.
(2) Ibid.
(3) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 373.
(4) Ibid., p. 107.


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terça-feira, 1 de maio de 2012

Uma embarcação chamada pelota

Sabe o que é pelota? No sentido a ser usado nesta postagem, poderia ser definida como uma embarcação improvisada, feita geralmente de couro de boi. Quem a descreve com mais detalhes é Saint-Hilaire, que precisou servir-se de uma ao passar de uma margem a outra do rio Butuí. Ele é quem conta, com uma pitada de humor, a despeito da rabugice habitual:
"Ao nascer do dia, começamos a descarregar a carroça, e minhas bagagens passaram para uma piroga improvisada, tão em uso na Capitania de Montevidéu e de Rio Grande, onde não há ponte.
A pelota, nome dado a estas pirogas, é simplesmente um couro cru ligado nas quatro pontas e que, desse modo, forma um barco que se pode confundir, pela aparência, com as sacolas de papel onde se põem biscoitos. Enche-se a pelota de objetos, ata-se nela uma corda ou tira de couro; um homem, a nado, prende a corda entre os dentes e faz passar assim a piroga. Para facilitar o trabalho, meus homens estenderam uma corda de um lado a outro do rio, com a intenção de ajudá-los na travessia a nado. Eu mesmo atravessei o rio sentado numa pelota e cheguei felizmente à outra margem, bem como as minhas bagagens e a carroça. Matias, José Mariano e Firmiano ajudaram, alternadamente, a pelota a passar." (¹)
Um fato interessante é que Debret também deixou um registro desse tipo de embarcação, não em palavras, mas em uma bela imagem, que pode ser vista abaixo.

Embarcação feita com couro de boi, de acordo com Debret (²)

Tanto Saint-Hilaire quanto Debret estiveram no Brasil quando o período colonial se encerrava, e o país estreava como nação independente. Nesse tempo, a pelota tinha uso em muitos lugares, já que permitia que rios sem pontes fossem atravessados por viajantes. Era uma embarcação compatível com as condições muitas vezes difíceis do povoamento da América do Sul - os transportes, por qualquer método então disponível, eram precários, e as viagens, muito perigosas. Quem tinha de percorrer distâncias consideráveis devia arriscar-se pelas péssimas trilhas existentes (quando existiam...) submetendo-se às condições abjetas que reinavam na maior parte dos pousos de tropeiros, quase os únicos lugares em que era possível aos viajantes encontrar abrigo à noite ou em caso de tempestades.

(1) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 327.
(2) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 15 de abril de 2012

A visão da costa do Brasil, por viajantes de antigamente

"Neste dia", escreveu Pero Vaz de Caminha, referindo-se à data de 22 de abril do ano de 1500, "a horas de véspera, houvemos vista de terra. Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo, e doutras serras mais baixas ao sul dele, e de terra chã, com grandes arvoredos. Ao monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal, e à Terra, a Terra de Vera Cruz". Embora seja perfeitamente possível que Cabral e seus companheiros de expedição não tenham sido os primeiros europeus, talvez sequer os primeiros portugueses que puseram os pés em terras brasileiras, é esse, no entanto, o primeiro relato formal que temos, ao que até agora se conhece, descrevendo o avistar do litoral brasileiro.
Da segunda metade do século XVII temos o registro feito pelo missionário Padre Simão de Vasconcelos, segundo o qual a impressão de navegadores e cosmógrafos a respeito do aspecto da costa do Brasil era esta:
"Quanto à vista exterior aos que vêm de mar em fora, depuseram aqueles capitães e cosmógrafos que não viram coisa igual no universo todo à perspectiva desta nova terra, porque ao longo parece uma glória o avultar dos montes e serranias, com tal compostura e altura que representam formar muito para ver, e sobem, parece, à região segunda do ar, levando consigo os olhos e os corações ao céu. À meia vista começa a aparecer o alegre dos bosques, campos e arvoredos, verdes sempre, e sempre aprazíveis. Mais ao perto, alvejam as praias formosas, e vão logo aparecendo nelas uma imensidade de portos, barras, enseadas, rios e ribeiras despenhadas, e com tão grande variedade, que é um espanto da natureza. De tudo disseram alguma coisa, que tudo não lhes era possível." (¹)
Infelizmente, há pouquíssimas imagens dos primeiros tempos coloniais, e o pouco que existe é grandemente devido aos artistas holandeses que andaram pelo Brasil à época do governo de Nassau. Somente no século XIX, quando a paisagem, ao menos na faixa litorânea, já havia sofrido importantes modificações, é que houve maior preocupação em fixar, através de desenhos, aquarelas ou gravuras, por exemplo, o que se via em terras do Brasil. Embora tardias, essas imagens são significativas por nos permitirem um estudo, por comparação, de transformações posteriores resultantes do processo de ocupação do território. Nas últimas décadas do século XIX os meios informativos tornaram-se mais abundantes, à medida que a fotografia passou a integrar o arsenal de  recursos disponíveis  para o registro de acontecimentos e lugares. Assim justapostos, desenhos, aquarelas e fotografias nos permitem analisar as graduais alterações na paisagem brasileira, principalmente em áreas de grande urbanização.
Para que se tenha ideia do que isso significa, estão a seguir três imagens, todas da primeira metade do século XIX (editadas para melhor visualização), conforme o registro por três diferentes artistas.

Vista do litoral da Bahia, por Rugendas (²)

Vista do alto do Corcovado, Rio de Janeiro, por Thomas Ender (³)

Vista da entrada da baía do Rio de Janeiro, por Debret (⁴)

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, pp. 28 e 29.
(2) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. 
O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 3): Histórias de onça

"Era uma onça enorme, que com as garras apoiadas sobre um grosso ramo de árvore, e os pés quase suspensos num galho superior, encolhia o corpo, preparando o seu salto gigantesco."
                                                                                                                                            José de Alencar, O Guarani

"Era a hora em que a tarde se debruça
Lá da crista das serras mais remotas...
E d'araponga o canto, que soluça,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que s'embuça,
Passa o bando selvagem das gaivotas ...
E a onça sobre as lapas salta urrando,
Da cordilheira os visos abalando."
Castro Alves, A Cachoeira de Paulo Afonso


Depois de ter ficado entendido, pela postagem anterior, que por muito tempo onças-pintadas e onças-pardas foram chamadas, respectivamente, de tigres e leões, chegou a hora de verificar que relacionamento houve entre humanos e esses felinos, o que significa dizer que, pelos documentos de que dispomos, a caça devia ser recíproca. As onças tinham, pelo menos, a vantagem de não serem vistas como especialidade culinária, o que já era muito, em tempos nos quais, na Europa, caçar era frequentemente um privilégio para nobres e monarcas e, por isso, a gente comum, uma vez chegada ao Brasil, lançava-se a perseguir os animais, desfrutando de um "esporte" que pode até parecer sanguinário aos nossos olhos, mas que era considerado "coisa de homem" naqueles tempos.
Na obra de Hans Staden, vê-se, em terra, um
animal que deve ser uma onça-pintada
Uma gravura que aparece na edição de Marburg da obra de Hans Staden, Zwei Reisen nach Brasilien (¹), mostra dois animais em terra, aparentando, um deles, ser uma onça-pintada; ainda do século XVI temos, de Pêro de Magalhães Gândavo (²), este relato:
"Os bichos mais feros e mais danosos que há na terra são tigres, e estes animais são deles tamanhos como bezerros, vão-se aos currais do gado dos moradores e matam muito dele e são tão feros e forçosos que uma mão que lançam a uma vitela ou novilho lhe fazem botar os miolos fora e levam-no arrastado para o mato. Também pela terra dentro matam e comem alguns índios quando se acham famintos. Sobem pelas árvores como gatos, e dali espreitam a caça que por baixo passa e remetem de salto a ela, e desta maneira não lhes escapa nada: alguns destes animais matam em fojos os moradores da terra."
Já dá para "sentir o clima" em relação às onças, não é? Veja-se então esta outra referência, agora de Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (³):
"Há também muita diversidade de animais nocivos, que se não comem, como são onças, ou tigres, que matam touros, e se estão famintos acometerão um exército, mas se estão fartos, não só não ofendem a alguém, mas nem ainda se defendem e se deixam matar facilmente."
Bandeirantes e monçoeiros tiveram também seus encontros (e desencontros) com essas feras do Brasil. Uma bandeira metida a apresar índios das missões, obrigada a retroceder, acabou dispersa, como se disse na época, "para maior regalo de tigres e jaguares". Além disso, o Capitão João Antônio Cabral Camello, escrevendo em 1727 sobre a rota das monções, assinalou:
"Este Rio dos Porrudos não cede ao Paraguai na abundância de peixe [...], e nele não faltam onças, que têm feito algumas mortes." (⁴)
Caça à onça, de acordo com Rugendas (⁷)
Um ano antes (em 1726, portanto), durante a monção que levou a Cuiabá o governador Dom Rodrigo César de Meneses, um cozinheiro se extraviou da tropa, fazendo o secretário, a respeito disso, este relato:
"João Francisco cozinheiro de S. Exª que saltando em terra a buscar uma faca que lhe tinha esquecido com tenção a pé seguindo pela margem do rio a canoa até o sítio, onde pousasse a tropa, não apareceu até o presente e se entende que ou se perdeu no mato, ou foi pasto de alguma onça." (⁵)
Ainda mais uma aventura de onças caçadoras - dessa vez quem conta é Saint-Hilaire, em suas andanças pelo Rio Grande do Sul e Uruguai (⁶):
"...Matias veio dizer-nos que acabavam de encontrar quatro tigres, dois grandes e dois pequenos, que estavam comendo o melhor de meus cavalos. Estivera a persegui-los, mas se embrenharam na mata que margeia o lago."
Como se diz, porém, um dia da caça, outro do caçador. Em Corografia Brasílica, obra publicada em 1817, escreveu o Padre Ayres de Casal, ao tratar de uma localidade na então província de Mato Grosso:
"Defronte está a Real Fazenda da Cahyssara, onde se cria numeroso gado vacum e também cavalar, e onde se tem morto grande número de tigres."
Se, no entanto, restar alguma dúvida de que, além de exímias caçadoras, as onças eram também frequentemente caçadas, fosse pela belíssima pele (das onças-pintadas, particularmente) ou porque atacavam o gado (qualquer onça...), basta observar as gravuras que deixaram artistas que estiveram no Brasil no século XIX, tais como Debret e Rugendas, que podem ser vistas como ilustrações desta postagem.

Caça à onça-pintada, Debret (⁸)

(1) Duas Viagens ao Brasil, c. 1557. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Tratado da Terra do Brasil.
(3) Obra provavelmente concluída durante a década de 20 do século XVII.
(4) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 132.
(5) Ibid., p. 117.
(6) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 293.
O registro data de 1821.
(7) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. 
Paris: Engelmann, 1835. O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(8) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dormir em redes - Parte 3

"Às vezes entrava em casa ao amanhecer. Não podia dormir logo; vinha excitado, sacudido pelas impressões e pela bebedeira da noite. Atirava-se à rede, com uma vertigem impotente de conceber poesias byronianas, escrever coisas no gênero de Álvares de Azevedo, cantar orgias, extravagâncias, delírios."
                                                                                                        Aluísio Azevedo, Casa de Pensão

Para os indígenas do Brasil, para bandeirantes, para monçoeiros, a rede era um modo muito conveniente de "carregarem a cama nas costas", onde quer que fossem. Ora, leitor, o hábito tornou-se tão arraigado que foi (e em alguns lugares ainda é) usado mesmo por gente estritamente sedentarizada.
Viajantes estrangeiros que percorreram o Brasil no século XIX tiveram a oportunidade de verificar e deixar registros desse costume bastante longevo. As imagens que fixaram revelam, inclusive, um fato curioso: uma certa semelhança entre o interior de uma habitação indígena e o da residência de uma família pobre, como se pode perceber pelas amostras seguintes - uma evidente influência e perpetuação dos hábitos dos ameríndios.

Imagem 1 - Interior de uma habitação indígena, ocupada por índios mundurucus, segundo Hércules Florence (¹)


Imagem 2 - Interior da habitação de uma família pobre, segundo Debret (²)


(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil, vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 31 de julho de 2011

O rio Tietê que os viajantes do Século XIX não viram

No início deste ano tratei, em duas postagens, dos viajantes europeus que, no século XIX, passaram pelo Salto do Tietê, também chamado, naqueles tempos, Salto  de Itu, embora hoje faça parte do município de Salto. A beleza do lugar e a força das águas encantavam os viajantes, que se ocuparam, vários deles, em registrar, por palavras ou desenhos, aquilo que viram.
Pois bem, em uma dessas postagens convidei os leitores a contrastarem o salto segundo o registro de Hércules Florence e segundo o que se vê atualmente. Já na outra postagem fiz observações sobre a quantidade de lixo que andava a infestar as águas do Tietê (principalmente garrafas pet e outros objetos de plástico e/ou metal). A quantidade de lixo era tanta que, na ocasião, o assunto chegou a figurar como tema na grande imprensa nacional. Deu-se, para o "fenômeno", a desculpa de que, sendo aquela uma época de chuvas intensas, a enxurrada havia arrastado o entulho das margens para dentro das águas que, em seu incessante movimento, encarregaram-se de espalhar os pródigos detritos da sociedade de consumo ao longo do curso do rio.
Mancha de óleo no rio Tietê
(Porto Feliz, 13 de julho de 2011)
Um fato que salta aos olhos de quem analisa a obra dos viajantes europeus que percorreram o Brasil no século XIX é que há, entre eles, quase absoluta unanimidade no extasiar-se com a beleza natural do país, em flagrante contraste com o atraso cultural da população que, em sua maioria, vivia em crasso analfabetismo  e imersa em superstições ridículas, obtendo a subsistência mediante práticas agrícolas primitivas e, por isso mesmo, de baixíssimo rendimento, quando as condições de clima e solo bem podiam propiciar um quadro de grande prosperidade. (*)
Ocorre que, ao longo dos anos, sempre se arranjou uma explicação para esse panorama nada lisonjeiro: era a exploração colonial, ou o jogo infame dos partidos políticos do Império, ou ainda a corrupção reinante na República Velha. Qualquer que fosse a justificativa, vinha ela acompanhada da ideia de que, "graças a tais problemas do passado", não havia muito o que esperar do presente. Sim, no fim das contas era um conceito muito conveniente, tanto para os dirigentes (que não se viam na obrigação de qualquer iniciativa séria para solucionar as grandes questões nacionais), como para os governados (que não julgavam ser seu dever exigir dos governantes o cumprimento das funções de seus respectivos cargos).
Agora, leitor, após essa breve digressão, vou finalmente contar o que é que os viajantes do século XIX não viram no rio Tietê (para sorte deles), mas que hoje está à disposição de quem quiser ver (eu vi há poucos dias). Para sorte deles, repito, não viram o rio cheio de manchas de óleo (no exato ponto de onde, no século XVIII, partiam as monções), ou repleto de poluentes que, a despeito da aparência, nada têm a ver com as fugidias "espumas flutuantes" de Castro Alves, sendo antes um indesejável subproduto de  atividade industrial que precisa, com urgência, ter seus processos reavaliados, se é que se pretende ainda, seriamente, salvar o rio e todo o seu entorno. Digo seriamente porque, remetendo mais uma vez às observações dos viajantes do século XIX, esse não era o método usual de tratar problemas no Brasil. Sempre há, porém, uma possibilidade de mudar, de fazer as coisas diversamente, e precisamos acreditar e trabalhar nesse sentido. Vale acrescentar que, sendo determinado poluente lançado em um dado ponto do rio, irá afetar regiões às vezes muito distantes de onde foi produzido, o que é lamentável.

Poluentes flutuantes sobre as águas do rio Tietê
(Salto, 13 de julho de 2011)
Quando criança (lá pelo início do Período Neolítico...), vi Santana de Parnaíba coberta de massas da tal espuma que, pelo exagero da quantidade, deixavam o rio e, impelidas pelo vento, chegavam às ruas da cidade. Quase inacreditável é ver o rio, ainda hoje, coberto de poluente análogo. Está, portanto, na hora de parar de inventar explicações que nada resolvem, passando-se a adotar, com responsabilidade, medidas de caráter eminentemente prático. Ah, e para contrariar ainda mais o "jeitinho brasileiro", que as providências sejam imediatas. De preferência, para hoje. Para já. O Tietê não pode esperar.

(*) Está claro que a análise negativa podia, eventualmente, ser fruto de certo preconceito ou mesmo de uma interpretação deficiente da realidade, mas o fato de que esse tipo de observação fosse quase unanimidade não deixa de ser muito significativo.


terça-feira, 19 de abril de 2011

A celebração da Páscoa em São Paulo no ano de 1822

Corria 1822 e, naquele ano, a Páscoa foi celebrada na primeira quinzena de abril. De passagem pela cidade de São Paulo, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, como sempre às voltas com suas amostras de plantas e insetos, assistiu às celebrações da Semana Santa, deixando por escrito um relato do que viu:
Manhã de Quarta-Feira Santa na Igreja, por Debret (¹)
"Estas festas para cá atraem grande número de pessoas do campo. Segui parte dos ofícios e doeu-me a falta de atenção dos fiéis. Ninguém se compenetra do espírito das festas. Os homens mais distintos nelas tomam parte pela força do hábito, e o povo, como a um grande divertimento.
No ofício de quinta-feira santa, a maioria dos presentes recebeu a comunhão da mão do bispo. Olhavam todos à direita e à esquerda, conversavam antes deste solene momento e recomeçavam a conversar imediatamente depois.
Há aliás uma circunstância que deve servir de desculpa ao povo. Ignora ele o fim e o sentido das cerimônias religiosas, não entende a língua em que o padre invoca o Senhor. E como ninguém usa livro de missa nas igrejas nada existe absolutamente capaz de fixar a atenção dos fiéis." (²)
Aos olhos do viajante europeu, a missa parecia feira... Ele próprio percebe que parte do problema concentrava-se na falta de educação religiosa apropriada, que levasse os fiéis a um bom entendimento da liturgia pascal. Mas não era só.
Os ofícios eram, evidentemente (como o foram até o Concílio Vaticano II), celebrados em Latim. Que esperar em termos de compreensão por parte de um povo que tinha, por vezes, dificuldades inclusive com o português, já que, em São Paulo, durante muito tempo, a língua indígena local  foi persistentemente utilizada no âmbito doméstico? Para que usar livro de missa, se quase toda gente era analfabeta?
Não param aqui os obstáculos. A liturgia usada na Semana Santa era muito longa e não chega a surpreender que os moradores de áreas rurais, que vinham à cidade para as festas, ficassem entediados, depois de viagens em burros, carroças ou carros de bois. A maioria das igrejas, pode acreditar, leitor, somente tinha bancos para as "pessoas importantes", restando aos demais a escolha entre, devotamente, assistir em pé, ou, o que não era incomum, sentar no chão. Além disso, vale acrescentar que, para a maioria das pessoas, as cerimônias na igreja estavam entre as poucas oportunidades de vivência social existentes, particularmente no caso das mulheres, que muitas vezes viviam quase reclusas, tendo contato apenas com as pessoas da família. A missa, nesse caso, podia ser uma rara ocasião para colocar as fofocas em dia.
Não é necessário dizer que os rituais, pensados para a realidade (inclusive climática) da Europa, estavam inadequados ao Brasil, mas continuavam a ser repetidos como ordenavam as regras, sem levar em conta a condição religiosa da população da Colônia. O resultado? Esse que Saint-Hilaire captou muito bem.

(1) DEBRET, J.B. Voyage Pittoresque et Historique  au Brésil, vol. III. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. 
Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 104.


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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Viajantes estrangeiros no Brasil do Século XIX - O salto do Tietê (Parte 2)

Escultura às margens do Tietê representando
os viajantes que percorreram a região.
Hoje, leitor, as palavras serão poucas (as imagens dirão muito por si mesmas). Na postagem anterior referi-me aos viajantes estrangeiros que, ao longo do século XIX, percorreram o Brasil. Pois bem, há, na cidade de Salto (S.P.) um belíssimo monumento celebrando a passagem desses viajantes pelo lugar. É parte de um conjunto de seis esculturas (Índio, Bandeirante, Jesuíta, Viajante, Pescador e Operária), de autoria do artista plástico Murilo Sá Toledo, que pretende retratar personagens de destaque para a História local. Estão instaladas às margens do Rio Tietê, nas proximidades da grande queda d'água retratada por H. Florence (veja a postagem anterior), fazendo parte do Memorial que celebra o rio e sua importância para o Estado de São Paulo e para o Brasil. É um lugar que vale a pena visitar.
Entretanto, não sendo a primeira vez que passava por ali, notei recentemente um fato de arrepiar os cabelos. Sendo época de chuvas e, portanto, de elevação do nível das águas, constatei nas margens do rio uma quantidade enorme de lixo de todo tipo, havendo, em particular, garrafas e outros objetos de plástico, que a correnteza arrastou. Ora, isso tem que parar. O que ocorre com o Tietê acontece similarmente com a maioria dos rios no Sudeste.


Durante muito tempo acreditou-se, na maior parte do mundo ocidental, que a industrialização era, necessariamente, sinônimo de "progresso", ainda que a um preço absurdamente alto, o da destruição irresponsável dos recursos de que a humanidade necessita para sobreviver. Sabemos, agora, que não é assim, mas fugimos a todo custo de qualquer tentativa séria de reverter a situação, desconfiando de que venha a significar a redução de algum suposto conforto. Até quando? Desconheço a resposta, leitor, mas posso antever as consequências...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Viajantes estrangeiros no Brasil do Século XIX - O salto do Tietê (Parte 1)

Ao longo do século XIX diversos viajantes estrangeiros, na condição de artistas e/ou cientistas, percorreram o Brasil, tanto a serviço do governo (em "missões científicas"), como também em empreendimentos particulares. Vários desses viajantes deixaram memórias, algumas delas escritas, outras na forma de desenhos e pinturas, que hoje, por uma série de razões, constituem um valioso material de estudo sobre o Brasil daquela época.  Dentre essas razões podem ser mencionadas:
- Como estrangeiros, esses viajantes lançavam sobre o Brasil um olhar de curiosidade ou até mesmo de estranhamento, refletindo em seus relatos aspectos do quotidiano que, aos autores naturais da terra, chegavam a passar despercebidos ou sequer eram referidos por parecerem demasiado óbvios;
- No século XIX o Brasil era uma nação majoritariamente analfabeta, razão pela qual eram produzidos poucos documentos escritos e, assim, as obras deixadas pelos viajantes estrangeiros ganham em significado, pois acrescem fontes de investigação a um universo consideravelmente restrito;
- Além disso, os viajantes percorreram um Brasil ainda pouco conhecido e pouco devastado e, no caso específico do Estado de São Paulo, antes do espalhar-se das fazendas de café e da industrialização, o que significa que seu testemunho revela aspectos da topografia original, da fauna e da flora que, não fosse assim, talvez permanecessem absolutamente incógnitos.
A lista dos nomes desses viajantes é enorme. Menciono aqui apenas três, pela importância de sua obra - Rugendas, Debret e Hércules Florence - e passo, a seguir, com respeito à obra deste último, a examinar um detalhe de seu relato e de sua produção artística, conforme aparece em Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829 (¹). Como desenhista da Expedição Langsdorff, H. Florence esteve junto ao então chamado "Salto de Itu", que assim descreveu e assim retratou:


"Uma légua antes de chegar a Itu, transpõe-se o Tietê numa ponte de madeira. É o salto de Itu. Desde a ponte, o leito do rio se inclina: a água adquire forte correnteza; esbarra de encontro a rochas esparsas; espuma em torno; espadana branca como neve; precipita-se entre dois grandes maciços e forma uma primeira queda de 15 pés de altura mais ou menos. De contínuo se ergue espesso nevoeiro que o vento atira sobre as árvores. Adiante as águas fervem em curso vertiginoso; em borbotões saltam pelas pedras; chocam-se cachões contra cachões; desfazem-se em líquida poeira; rugem nas margens e alternadamente submergem ou descobrem grandes rochas. É a imagem eterna do mar em fúria.
Abaixo uns 800 passos da queda, volta o Tietê à tranquilidade primitiva e corre então mansamente por entre espesso e verdejante mato." (²)
Atualmente, leitor, o lugar é conhecido como "Salto do Tietê", já que pertence ao município de Salto, e não ao de Itu. Diz-se que o volume de água diminuiu bastante desde a construção da barragem, mas você poderá comparar por si mesmo a ilustração de H. Florence com a situação presente, assistindo ao pequeno vídeo abaixo.



(1) FLORENCE, H. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007.