terça-feira, 19 de abril de 2011

A Celebração da Páscoa em São Paulo no Ano de 1822

Corria 1822 e, naquele ano, a Páscoa foi celebrada na primeira quinzena de abril. De passagem pela cidade de São Paulo, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, como sempre às voltas com suas amostras de plantas e insetos, assistiu às celebrações da Semana Santa, deixando por escrito um relato do que viu:
Manhã de Quarta-Feira Santa na Igreja, por Debret (**)
"Estas festas para cá atraem grande número de pessoas do campo. Segui parte dos ofícios e doeu-me a falta de atenção dos fiéis. Ninguém se compenetra do espírito das festas. Os homens mais distintos nelas tomam parte pela força do hábito, e o povo, como a um grande divertimento.
No ofício de quinta-feira santa, a maioria dos presentes recebeu a comunhão da mão do bispo. Olhavam todos à direita e à esquerda, conversavam antes deste solene momento e recomeçavam a conversar imediatamente depois.
Há aliás uma circunstância que deve servir de desculpa ao povo. Ignora ele o fim e o sentido das cerimônias religiosas, não entende a língua em que o padre invoca o Senhor. E como ninguém usa livro de missa nas igrejas nada existe absolutamente capaz de fixar a atenção dos fiéis." (*)
Aos olhos do viajante europeu, a missa parecia feira... Ele próprio percebe que parte do problema concentrava-se na falta de educação religiosa apropriada, que levasse os fiéis a um bom entendimento da liturgia pascal. Mas não era só.
Os ofícios eram, evidentemente (como o foram até o Concílio Vaticano II), celebrados em Latim. Que esperar em termos de compreensão por parte de um povo que tinha, por vezes, dificuldades inclusive com o português, já que, em São Paulo, durante muito tempo, a língua indígena local  foi persistentemente utilizada no âmbito doméstico? Para que usar livro de missa, se quase toda gente era analfabeta?
Não param aqui os obstáculos. A liturgia usada na Semana Santa era muito longa e não chega a surpreender que os moradores de áreas rurais, que vinham à cidade para as festas, ficassem entediados, depois de viagens em burros, carroças ou carros de bois. A maioria das igrejas, pode acreditar, leitor, somente tinha bancos para as "pessoas importantes", restando aos demais a escolha entre, devotamente, assistir em pé, ou, o que não era incomum, sentar no chão. Além disso, vale acrescentar que, para a maioria das pessoas, as cerimônias na igreja estavam entre as poucas oportunidades de vivência social existentes, particularmente no caso das mulheres, que muitas vezes viviam quase reclusas, tendo contato apenas com as pessoas da família. A missa, nesse caso, podia ser uma rara ocasião para colocar as fofocas em dia.
Não é necessário dizer que os rituais, pensados para a realidade (inclusive climática) da Europa, estavam inadequados ao Brasil, mas continuavam a ser repetidos como ordenavam as regras, sem levar em conta a condição religiosa da população da Colônia. O resultado? Esse que Saint-Hilaire captou muito bem.

(*) SAINT-HILAIRE, Auguste de Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo
Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 104
(**) DEBRET, J.B. Voyage Pittoresque et Historique  au Brésil, vol. III (Brasiliana USP)

 
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