sexta-feira, 4 de julho de 2014

Muralhas

Não se pode dizer ao certo quem foi o primeiro indivíduo ou comunidade que teve a ideia de cercar uma povoação com algum tipo de muro. No entanto, pode-se supor, com algum grau de certeza, que, nesse sentido, as primeiras construções eram simples paliçadas, fáceis de levantar, é verdade, mas também pouco resistentes e não muito duráveis.
Os indígenas do Brasil tinham por hábito fazer cercas ao redor de suas aldeias, geralmente cercas duplas, que eram boas para proteção enquanto europeus, portando armas de fogo, não haviam aparecido no Continente Americano. Contra flechas, lanças e armas do mesmo gênero elas funcionavam muito bem. Incendiá-las era possível, ainda que não fosse fácil, de modo que uma técnica efetiva para vencê-las era pôr fogo não nas cercas, mas no teto de palha das casas (ocas), mediante flechas incendiárias que, com grande habilidade, eram atiradas de alguma distância. (¹)
Combate entre indígenas brasileiros, vendo-se a cerca 
que protegia uma aldeia, de acordo com Hans Staden (²)
Na Antiguidade o papel das cercas era mais ou menos parecido. Gradualmente as paliçadas deram lugar a muros, que eram tanto mais resistentes quanto melhor fosse o material de construção empregado. Grandes pedras davam muito trabalho aos edificadores, mas o resultado era excelente - podia durar séculos. Havia, no entanto, uma alternativa mais barata, empregada quando as pedras não estavam disponíveis ou a comunidade que queria ter uma muralha era demasiadamente pequena e/ou pobre parar arcar com os custos de uma construção dispendiosa: faziam-se dois muros (de algum tipo de tijolos) com um intervalo entre eles, que podia ser de alguns metros, e esse intervalo era preenchido com terra. Era mais econômico que pedras, mas tinha uma boa resistência. Ou seja, funcionava. Até que vieram os aríetes e outras máquinas de guerra. Os cercos tornaram-se mais longos e, até por isso, mais devastadores. Dentro das muralhas, populações inteiras literalmente morriam de fome e sede. A humanidade estava, pouco a pouco, ficando mais habilidosa na arte de atacar, pilhar e matar...
O mundo medieval serviu-se grandemente de muralhas e castelos para defesa. É bom ressaltar, para quem ainda tiver alguma ideia romântica sobre castelos (³), que eles podem até ser muito bonitos (alguns, é certo), mas sua finalidade era garantir a segurança das populações que viviam nos campos, em caso de um ataque de invasores "estrangeiros" ou de desafetos do senhor da localidade. Refugiando-se em um castelo, cada pessoa, em caso de guerra, via-se obrigada a participar ativamente da defesa, já que era questão de vida ou morte. Cavaleiros tinham de combater, é verdade, de espada em punho, mas até as cozinheiras não ficavam desocupadas: precisavam pôr a ferver enormes tachos de óleo ou gordura animal, que eram, depois, desde o alto da muralha, entornados sobre os atacantes! Isso fica dito para colocar um ponto final na noção de que as guerras eram resolvidas em combates singulares, em que um nobre herói, cheio de todas as virtudes, vencia em nome de seu rei e de sua religião. Dom Quixote (que não é medieval), inspirava-se nessa visão de mundo e, por isso mesmo, era Dom Quixote. Mais exatamente, um perfeito maluco.
Fato é que, na Europa, em virtude de preocupações com a defesa, por longo tempo as cidades deram grande importância à conservação de suas muralhas. Em Portugal, por exemplo, as Ordenações do Reino admitiam a possibilidade de que casas fossem construídas sobre o muro de uma vila:
"E toda pessoa que tiver campo ou pardieiro a par do muro da vila, pode-se acostar a ele e fazer casa sobre ele. Porém fica sempre obrigado, se vier guerra ou cerco, de a derribar e dar por ela corredoura e serventia. E se o muro sobre que assim tiver a casa, ou a que se acostar, cair, aquele que assim tiver a casa será obrigado a fazer o muro à sua custa." (⁴)
Salvador, a primeira capital do Brasil, também teve muros. Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral, começou por rodear a povoação que estava construindo com uma cerca similar à que os índios faziam, aliás com a intenção de defender-se na hipótese de que os nativos resolvessem comparecer de forma pouco amistosa, ou de que sobreviesse um ataque de corsários.
Como a cerca de pau a pique fosse frágil, logo se fez outra, porém de taipa, segundo relato de Gabriel Soares:
"E como todos foram agasalhados, ordenou de cercar esta cidade de muros de taipa grossa, o que se fez com muita brevidade (....)." (⁵)
Vale notar, porém, que a tal cerca de taipa não devia ser grande coisa, já que o mesmo Gabriel Soares asseverava que, em seus dias, era incerta a localização da primitiva "muralha":
"(...) A qual cidade foi murada e torreada em tempo do governador Tomé de Sousa, que a edificou (...), cujos muros se vieram ao chão por serem de taipa e se não repararem nunca, em o que se descuidaram os governadores, pelo que eles sabem, ou por se a cidade ir estendendo muito por fora dos muros; e, seja pelo que for, agora não há memória aonde eles estiveram." (⁶)
Fato é que, em quase todos os lugares, as muralhas perderam seu uso militar por simples obsolescência, à medida que armas de fogo cada vez mais poderosas foram desenvolvidas. Que poderiam muros, por fortes que fossem, contra canhões, por exemplo, ou contra os ataques aéreos?
Assim, as construções para proteção em caso de guerra mudaram um pouco de rumo, e a humanidade, que pode, circunstancialmente, em tempos bem antigos, ter habitado cavernas e até buracos cavados na terra, viu-se na contingência de construir abrigos para se defender de ataques aéreos e/ou nucleares. Abrigos subterrâneos, por suposto.
 
(1) Setas incendiárias foram amplamente usadas na Antiguidade e na Idade Média - os indígenas do Brasil não foram, portanto, os únicos que delas se serviram.
(2) STADEN, Hans Zwei Reisen nach Brasilien
Marburg: 1557

A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Schloss Neuschwanstein não é medieval. Foi construído a mando do rei da Baviera, Ludwig II, no Século XIX.
(4) Livro Primeiro, Título LXVIII, § 41, de acordo com a edição de 1824 da Universidade de Coimbra.
(5) SOUSA, Gabriel Soares de Tratado Descritivo do Brasil em 1587
Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 114
(6) Ibid., p. 118

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