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quinta-feira, 9 de março de 2023

Um rato por duzentos denários

As mortes em massa têm levado muita gente a pensar que as guerras de hoje são muito piores que as da Antiguidade. A seu modo, porém, as guerras sempre foram ruins, e nunca deixarão de ser. 
Uma das piores coisas que um exército invasor procurava fazer, se não fosse possível a vitória no combate em campo aberto,  era forçar a rendição dos inimigos, que se encontravam trancafiados dentro de uma cidade murada, levando-os à completa falta de víveres. A morte vinha pela sede, se a cidade não tivesse um suprimento confiável de água, e, mais provavelmente, pelo fim do estoque de alimentos. Mais sorte tinham os que morriam por ferimentos em batalha que os que enfrentavam os horrores da morte por inanição, precedida por dias ou meses em que os sobreviventes comiam literalmente quase qualquer coisa que pudessem encontrar, tal era o desespero. De acordo com Plínio (¹), autor romano do Século I, houve um incidente durante as Guerras Púnicas que ilustra muito bem esse fato:
"Um rato foi vendido por duzentos denários quando Casilinum estava sitiada por Aníbal, e o homem que o vendeu morreu de fome, mas o comprador sobreviveu, de acordo com os anais (²)." (³)
Ratos, como se sabe, não correspondem à dieta favorita de seres humanos. Só eram devorados como último recurso, quando já não havia nada melhor à disposição. O detalhe notável é que um murídeo foi vendido por nada menos que duzentos denários - lembrem-se, leitores, de que o denário era o valor pago, habitualmente, por dia, aos trabalhadores braçais assalariados. Ora, o ratinho em questão custou o salário de nada menos que duzentos dias de trabalho. Se a história contada por Plínio corresponder à realidade, esse foi o valor que garantiu a sobrevivência do comprador. Em termos absolutos, foi um preço muito alto. Considerando o assunto, tanto sob a perspectiva do vendedor como do comprador, pergunto: valeu a pena? 

(1) c. 23 - 79 d.C.
(2) Anais eram registros oficiais com os acontecimentos notáveis de cada ano.
(3) PLÍNIO, o Velho. Naturalis Historia, Livro VIII. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Dez fatos interessantes sobre a Guerra do Peloponeso

A chamada "Guerra do Peloponeso", entre 431 e 404 a.C., opôs, é verdade, as cidades-Estado de Atenas - finalmente derrotada - e Esparta. Mas foi muito mais que isso. Aqui estão alguns fatos interessantes sobre esse longo confronto:

1. A causa da guerra seria simplesmente inveja. Essa era a opinião de Tucídides, autor de História da Guerra do Peloponeso, que era ateniense e lutou no conflito, sendo, portanto, dono de um ponto de vista que não pode ser considerado exatamente imparcial: tendo liderado a Grécia na guerra contra os persas, Atenas se tornara senhora de uma poderosa frota e construíra um império, que Esparta e outras cidades invejavam.

2. Não só espartanos e atenienses se envolveram na guerra. Ao longo do conflito, fenícios, persas e habitantes do sul da Itália participaram das ações. Os gregos, que com unhas e dentes haviam defendido sua liberdade diante do ataque do Império Persa, chegaram a negociar com os persas para obter ajuda na manutenção das tropas mobilizadas.

3. Nas forças espartanas, não só esparciatas entraram na luta: hilotas e ex-hilotas, que haviam sido libertados, participaram maciçamente em muitos combates.

4. A guerra, que se pretendia rápida, foi se arrastando, ano após ano. Consultar oráculos era uma prática constante entre os gregos, e alguns teriam previsto que duraria três vezes nove anos.

5. A prática de alianças ofensivas e defensivas entre cidades conduziu um número crescente de participantes aos campos de batalha, porque quando uma localidade era atacada, suas aliadas corriam a socorrê-la, já que tinham interesses em comum.

6. Gregos eram apaixonados por ouvir grandes oradores, que tiveram muita importância durante a guerra, por sua capacidade de convencer os cidadãos reunidos em assembleia quanto à validade de seus pontos de vista.
  
7. Devastar as terras cultivadas por cidades inimigas foi uma prática usual durante toda a guerra; o saque de tudo o que podia ter utilidade foi também muito frequente. Nem é preciso dizer que esses procedimentos contribuíram muitíssimo para enfraquecer a Grécia diante de seus vizinhos.

8. Fogueiras, à noite, eram usadas para sinalização e envio de mensagens entre vários corpos de exército que se achavam espalhados em diferentes localidades.

9. No início da guerra, Atenas era temida por sua força naval. Ao longo dos anos de conflito, seus oponentes aprenderam a construir embarcações melhores e adquiriram habilidade em combates no mar, de modo que chegaram a suplantar as forças atenienses até nesse meio.
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10. A guerra foi algumas vezes interrompida por períodos de trégua formal. As alianças entre cidades, bem como suas consequências, foram importantes para a ruptura da paz e o reinício das hostilidades.


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quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Algumas razões para as guerras por território na Antiguidade

Ninguém precisa gastar muito tempo em observação para perceber que o planeta em que vivemos apresenta uma grande variedade de paisagens. Alguns lugares são altamente favoráveis à sobrevivência de seres humanos, enquanto outros não são muito promissores. Há lugares, até, em que é quase impossível viver. Tecnicamente, dizemos que uma região favorável é "ecúmena", enquanto as desfavoráveis são chamadas "anecúmenas".
Tentem agora, leitores, visualizar grupos humanos que viveram em tempos remotos (históricos ou mesmo pré-históricos). Se uma comunidade fosse nômade e praticasse a caça, por exemplo, como fonte de subsistência, provavelmente iria entrar em conflito com qualquer outro grupo que tentasse habitar o mesmo território. Vê-se, pois, que não era questão de um grupo ser mais ou menos amistoso. Era a sobrevivência que estava em jogo. Uma guerra, ainda que de pequenas proporções, poderia ocorrer sempre que dois ou mais grupos humanos entrassem em disputa por um dado território. Valia o mesmo quanto às pastagens, se uma comunidade fosse voltada ao pastoreio, ou às áreas de cultivo, sempre que a agricultura fosse praticada e um grupo invasor tentasse ocupar um território já habitado, no todo ou em parte. 
Morte de Saul, rei dos hebreus, em campo de batalha, 
de acordo com Gustave Doré (*)
Por suposto as guerras, nesse tempo, não se faziam com armas de fogo, muito menos com bombas atômicas. As batalhas eram travadas com pedras, hastes de madeira, arcos e flechas, e a grande vantagem estaria com aqueles que já fizessem uso, ainda que rudimentar, de algum tipo de metal. Mais tarde viria a cavalaria e, com ela, os carros de guerra - carroças, se quiserem -, mas ainda assim um diferencial importante para quem dispusesse de tal recurso. O resultado de um combate podia vir na forma de crânios esfacelados, braços e pernas triturados, dentes a menos, feridas que eventualmente terminavam em uma infecção letal. Não era pouco, convenhamos. Aos derrotados competia cair fora, tão rápido quanto possível, se é que tinham juízo. Com os vitoriosos ficavam as comemorações enaltecendo a supremacia tribal, com direito à aclamação dos heróis do combate, uma prática que, no futuro, teria imitadores e consequências nada desprezíveis.
Será que mudamos muito ao longo dos milênios? Dificilmente dois países entrarão em conflito, hoje, por território de caça, ou por alguns palmos a mais de pastagens verdinhas para as ovelhas e cabras. As armas, por sua vez, já não se mostram tão inocentes quanto as de outrora. Por que matar um inimigo de cada vez, quando se pode eliminar multidões? Brigar por espaços na Terra já anda até causando tédio. Que tal transferir as conflagrações para o Sistema Solar? Isso já vem acontecendo há tempos em séries de televisão e em jogos eletrônicos... Só falta passar à vida real. A ideia não é mesmo para surpreender a quem quer que seja.

(*) Essa é uma concepção artística de Gustave Doré, que viveu durante o Século XIX. É pouco provável que os hebreus, na época que se atribui ao reinado de Saul, contassem com cavalaria para uso militar.


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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Fundibulários

Fundibulários, também chamados fundeiros, usavam fundas, com quase inacreditável pontaria, para arremessar pedras e outros objetos, não por esporte ou diversão, mas com propósitos bélicos. Eram, portanto, soldados especializados e, por isso, fizeram parte de muitos exércitos na Antiguidade. Tito, por exemplo, ao comandar a conquista e destruição de Jerusalém em 70 d.C., teve fundibulários em suas tropas e, no dizer de Flávio Josefo (¹), marchavam próximo dos lançadores de dardos.
Os projéteis usados por fundibulários não eram, como regra, inocentes pedrinhas de um ou dois centímetros de diâmetro. Aquelas que faziam cair sobre as forças inimigas eram pedras grandes, do tamanho das atuais bolas de golfe e até das de tênis. Como se isso fosse pouco, usavam também objetos pontiagudos e bolas de chumbo. Fode-se facilmente imaginar o estrago que causavam.
Não só na Antiguidade, porém, é que fundibulários tiveram ocupação. No Século XVI, Hernán Cortés e seus soldados, na luta pela conquista do México, provaram na própria carne quão eficientes podiam ser as fundas de guerreiros tlaxcaltecas e astecas. De acordo com Bernal Díaz del Castillo, testemunha ocular que lutou ao lado de Cortés, dos tlaxcaltecas "ao passar enfrentamos grande perigo, porque eram bons flecheiros [...], e também as fundas e pedras que caíam como granizo eram muito más [...]" (²); e, quanto aos astecas, "[...] atiraram tanta vara e pedra com fundas e flechas, que nos feriram daquela vez quarenta e seis dos nossos, e doze morreram das feridas" (³). Quem gostaria de estar sob o efeito dessas chuvas?

(1) Cf. JOSEFO, Flávio. As Guerras Judaicas. Livro V, § 403.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid.


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quinta-feira, 2 de julho de 2020

Danos causados pelas guerras na Antiguidade

Façam um esforço de imaginação, leitores, e tratem de pensar que estão assistindo a um desfile triunfal na Antiguidade. O lugar não importa: pode ser no Egito, na Nínive dos assírios, na Babilônia, talvez em Roma, porque, nesse sentido, foi mais famosa. O que vocês veriam ao redor?
Os triunfos, ou desfiles militares de comandantes vitoriosos e seus soldados, estavam longe de ser procissões solenes, ainda que sempre incluíssem um aspecto religioso, e não de pouca importância. Quem assistia tinha licença não só para aplaudir os vencedores e aclamar líderes políticos e militares, como para zombar à vontade dos inimigos derrotados. Uma euforia perversa tomava conta das multidões.
No entanto... Que dizer dos sentimentos de parentes e amigos daqueles que, mesmo lutando do lado vitorioso, haviam morrido em combate? Será que alguém se lembraria deles, em meio às comemorações?
Tenho mais perguntas. Quantas terras não eram devastadas devido às guerras, tanto pelos que se defendiam, para não facilitar o trabalho dos invasores, como pelos que invadiam, para nada deixar aos inimigos que eventualmente sobrevivessem? Recordem-se, leitores, de que grandes desmatamentos, e por motivos nem sempre muito nobres, não são coisa apenas de nosso tempo. Vejam, abaixo, o que mostra um relevo assírio, velhinho de milênios:

Fragmento de um relevo assírio em que soldados aparecem derrubando árvores (*)
Só mais um tópico interrogativo, para não cansar quem lê: quanto da produção cultural da humanidade não terá se perdido, em bibliotecas e templos destruídos por exércitos invasores, para quem o fogo era a melhor ferramenta de conquista? Quanto saber penosamente acumulado não terá virado, literalmente, pó e cinza, para prejuízo das gerações subsequentes? Vocês, leitores deste blog, são pessoas instruídas, e não terão dificuldade em considerar ocasiões em que um povo cultural e/ou cientificamente avançado foi vencido, na guerra, por outro mais forte apenas nas armas. Não são poucos os casos em que um triunfo militar foi seguido por anos e, até, séculos de declínio nas artes e na ciência. Não, a marcha da humanidade não tem sido uma ascensão contínua. Ao contrário, ao contrário...
Para ficar claro: isto não é um protesto pacifista.

(*) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


terça-feira, 29 de outubro de 2019

No alto da muralha

No alto da muralha, um soldado caminha lentamente e olha entre as ameias. Para. Apoiado no arco, o olhar perdido na distância, perscruta os arredores. Ainda está escuro. O cansaço das noites seguidas sem dormir o faz, primeiro, encostar-se à parede, e ir, aos poucos, escorregando contra o chão. 
Que ruído é esse? Não há tempo a perder. Coloca uma flecha na corda, puxa, sustenta por um instante. A flecha desliza suavemente entre seus dedos e parte em direção à base da muralha, onde um bando de soldados inimigos, sob a proteção de escudos, trabalha para mover uma torre sobre rodas. Outra flecha, e outra. A aljava está quase vazia. Um auxiliar corre entre os arqueiros, levando mais flechas. São as que restam. Lá embaixo, alguns combatentes tombam e se contorcem, mas outros assumem o posto. O barulho ensurdecedor, que vem da direita, não dá lugar a dúvidas. É que inimigos, carregando pesados troncos, tentam forçar a porta principal da cidade. Uma pancada é seguida de outra. A porta resiste. Por quanto tempo? Dentro, alguns defensores aguardam, o coração quase explodindo. As mãos sujas e calejadas dos guerreiros correm pelo rosto para enxugar o suor, implorando aos céus por chuva, por água, por alívio.
Quem sabe não virá auxílio repentino de aliados? Quem sabe uma epidemia não devastará o exército inimigo? Quem sabe notícias vindas de longe não farão com que o cerco seja suspenso?
A gritaria, dentro e fora dos muros, é horrível. Fora, as ordens de comando, o ímpeto do ataque, a ânsia do saque iminente. Dentro, a miséria de quase um ano de cerco. Já não há comida e a água é escassa. A sede rói os miseráveis que, sobre a muralha, ainda insistem em protelar a rendição. Não sabem, sequer, se ainda lhes resta alguém da família. Só ouvem os gritos de terror das mulheres que, macérrimas, se arrastam pelas vielas escuras, quer implorando o auxílio dos deuses, quer maldizendo as ingratas divindades que nada fazem. Crianças choram, não há pão. Estão com as horas contadas, uns poucos minutos, talvez. É a agonia da fome.
Atacantes conseguem, afinal, escalar a muralha, carregando tochas que atiram sobre as casas próximas. Puxando a espada, os poucos defensores começam o combate corpo a corpo. Já não há nenhum controle ou ordem na defesa. Cada um luta como pode. Alguns ainda resistem, mas será por pouco tempo. A cidade está em chamas.
No alto da muralha, o arqueiro arregala os olhos e se levanta. O céu está limpo, o sol começa a subir. O vento frio o traz de volta à realidade. Respira fundo. Mais um dia de resistência. No acampamento inimigo, a uma distância prudente, já há movimento. O combate final se aproxima.


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terça-feira, 10 de setembro de 2019

Desfiles triunfais não foram exclusividade dos romanos

É certo que em Roma os triunfos, festejos comemorativos das grandes conquistas militares, atingiram o máximo nível de organização na Antiguidade, regidos por leis que determinavam quando um general vitorioso e suas tropas podiam ser homenageados com esse tipo de desfile; mas a prática de voltar da guerra carregando o espólio ou parte dele, em procissão da qual participavam o rei, os comandantes militares, sacerdotes e soldados foi usual entre muitos outros povos. 
Uma vez que se compreenda que, na mentalidade antiga, as guerras, travadas aparentemente entre os homens, eram interpretadas como um combate entre deuses, não será difícil deduzir o significado dos desfiles nos quais as estátuas de divindades derrotadas eram parte essencial. Inimigos capturados vivos eram também componentes rotineiros dessas procissões, ao final das quais eram, às vezes, executados. Consta que Otávio teria ficado grandemente decepcionado com o suicídio de Cleópatra, porque queria tê-la como um troféu especial para exibir em seu triunfo.
As duas imagens seguintes retratam relevos assírios, mostrando um monarca aclamado em triunfo após uma grande vitória. Para os assírios, a guerra era uma atividade econômica essencial: a pilhagem da riqueza dos povos conquistados significava prosperidade para os vitoriosos.

Rei assírio ao voltar de uma batalha (1)

Relevo assírio (2) retratando uma procissão triunfal de Senaquerib (3)

(1) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) LAYARD, Austen Henry. A Second Series of the Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editda para facilitar a visualização neste blog.
(3) Reinou na Assíria entre 705 a.C.  e c. 680 a.C.


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terça-feira, 13 de agosto de 2019

Governantes e líderes militares da Antiguidade deveriam saber geografia

Quem vivia na Antiguidade podia gostar de geografia - ou não. Se você fosse um indivíduo comum, quem sabe um agricultor ou artesão, talvez tivesse curiosidade por ouvir falar de outros lugares, com seus rios e montanhas, vales ou desertos, além da gente que lá vivia, com seus costumes diferentes ou mesmo um pouco semelhantes aos seus. Pessoas com mais instrução possivelmente teriam certo interesse científico pela geografia.
Havia, no entanto, quem deveria, obrigatoriamente, pensar na geografia pela utilidade prática que oferecia. Esses, de acordo com Estrabão (¹), eram os que ocupavam posições de liderança, quer como governantes, quer como comandantes militares. "A geografia interessa", disse Estrabão, "àqueles que lideram, pela descrição que faz de terras e mares, não só dentro como fora do mundo habitado" (²).
O ponto de vista de Estrabão fazia sentido: quem exercia o governo deveria conhecer bem o território sobre o qual dominava, para tomar decisões acertadas em favor da prosperidade de seus súditos, bem como em relação à defesa, em caso de uma invasão estrangeira. Mais que isso, conhecer algo do território dos vizinhos oferecia uma vantagem significativa em caso de guerra, possibilitando o uso de tropas adequadas ao terreno, além de permitir expectativas realistas quanto à subsistência dos soldados ao longo de uma campanha militar. Estrabão lembraria, ainda, que o conhecimento de geografia podia ser importante para a caça, que, para alguns povos, estava muitas vezes associada à preparação para a guerra. De certo modo, uma coisa conduzia à outra.

(1) Viveu entre c. 64 a.C. e 24 d.C. Grego de nascimento, passou muito tempo no mundo romano. Infelizmente, muitas de suas obras se perderam.
(2) ESTRABÃO. Geografia, Livro I. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


terça-feira, 26 de março de 2019

Por que o rei dos persas chorou

Xerxes, rei dos persas - foi o que disse Heródoto (¹) - chorou, ao pensar que, em um século, nada restaria da esplêndida máquina de guerra que formara. A choradeira real teria ocorrido antes que começasse a luta contra os gregos, em uma ocasião em que a vaidade do monarca persa resultara na exigência de um combate simulado, para que, em um trono de mármore branco colocado em um promontório, pudesse ver as forças a seu dispor, tanto no mar quanto em terra. Estava presente um tio de Xerxes, que ao perguntar pelo motivo de tal demonstração pública de abalo emocional, obteve esta resposta: "A visão de minha armada fez brotar em mim um sentimento de tristeza pela brevidade da existência humana, ao pensar que desta multidão nem um só homem existirá dentro de cem anos."
Não se enganem, leitores. Xerxes foi um típico monarca de sua época, ambicioso, prepotente e cruel. Embora não saibamos se em todos os detalhes os fatos foram assim, podemos considerar que o relato de Heródoto não é incoerente com a realidade contemporânea. 
Séculos mais tarde, Sêneca, o filósofo estoico do Império Romano (²), faria menção ao episódio do choro de Xerxes - certamente leu Heródoto - ao fazer suas próprias considerações quanto à brevidade da vida (³): "O rei dos persas, que era muito arrogante, espalhou seu exército por tão vasto terreno, a ponto de ser impossível saber a quanto chegava o número de seus soldados, e chorou ao pensar que dentro de cem anos ninguém, dentre tantos jovens, estaria vivo, embora fosse ele quem em breve iria conduzi-los à morte, quer em terra ou no mar, quer em combates ou em retiradas, e se acabrunhava pelo que sucederia um século mais tarde." (⁴)
Lágrimas de crocodilo, as de Xerxes. Chorava pelos que iam morrer, e era ele mesmo quem os mandava tão cedo para a morte. Ao rei persa, caberia apenas o atenuante de que, nesse sentido, não foi o único de sua espécie. Outros como ele continuam a aparecer até hoje.

(1) Histórias, Livro VII.
(2) Nascido na Espanha, foi professor e conselheiro do imperador Nero.
(3) Da brevidade da vida. Sêneca não achava que a vida humana era breve; entendia que não era devidamente aproveitada.
(4) Os trechos citados das obras de Heródoto e Sêneca foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Por que Aníbal não atacou Roma?

Aníbal atravessando os Alpes, de acordo com
um cartunista do Século XIX (⁴)
A travessia dos Alpes (¹) em 218 a.C. por um exército de homens, cavalos e nada menos que trinta e oito elefantes, sob a liderança de Aníbal Barca, pode ser classificada como uma das maiores loucuras de todos os tempos. Mas aconteceu. E então, superadas dificuldades terríveis, a Península Itálica e o domínio de Roma pareciam estar à inteira disposição do general cartaginês e de suas tropas. Tito Lívio (²), historiador romano, escreveu: "Depois de incrível esforço e trabalho, chegou Aníbal à Itália, cinco meses após deixar Cartagena, tendo gasto quinze dias na travessia dos Alpes." (³)
Era a Segunda Guerra Púnica. Vencendo sucessivas batalhas, as forças de Cartago chegaram muito perto de Roma. A conquista da cidade se mostrava iminente. Aníbal, todavia, nunca desfechou o ataque decisivo. Por quê? 
É possível que o notável comandante cartaginês tivesse conhecimento de fatos que tenham permanecido incógnitos para os autores da época, a cujos registros temos de nos reportar. Não teria ele confiança suficiente em suas tropas? Teria sido vítima do medo do próprio sucesso? Ou, talvez, a conselho de algum oráculo, tenha protelado o ataque para uma data supostamente mais favorável, deixando passar sua única oportunidade real de conquistar Roma?
Tudo o que se pode afirmar, no estágio atual dos conhecimentos, é: não se sabe ao certo. 
Políbio de Megalópolis (⁵), cuja História cobre muitos acontecimentos relacionados às Guerras Púnicas, observou: "Qualquer um louvará a maestria de Aníbal na arte da guerra, podendo dizer, sem receio de erro, que se houvesse começado suas ações em outros lugares e finalmente concluísse atacando Roma, teria sido vitorioso; porém, como começou por onde deveria terminar, Roma foi berço e túmulo de seus projetos." (⁶) De acordo com Tito Lívio, Maharbal, um dos homens de maior confiança no estado-maior de Aníbal, teria dito: "Os deuses não dão tudo ao mesmo homem. Sabes vencer, Aníbal, mas não és capaz de fazer uso da vitória." (⁷).

(1) A controvérsia quanto à rota adotada tem alimentado polêmicas e preenchido muito papel, tanto manuscrito quanto impresso, mas, a despeito disso, parece estar longe de terminar.
(2) 59 a.C. - 17 d.C.
(3) TITO LÍVIO. Ab urbe condita libri.
(4) BECKETT, Gilbert Abbott à et LEECH, John. The Comic History of Rome. London: Bradbury, Evans and Co., 1851, p. 173. (A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog).
(5) c. 203 a.C. - 120 a.C.
(6) POLÍBIO. História.
(7) TITO LÍVIO. Op. citOs trechos citados das obras de Tito Lívio e Políbio de Megalópolis foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Atletas eram repórteres de guerra na Antiguidade

Soldado grego desconhecido (²)
Por favor, leitores, esqueçam, por um instante, as comunicações digitais. Vamos à Antiguidade, aos campos de batalha em que as armas mais comuns eram as espadas, os arcos, as flechas, as lanças, até mesmo as fundas, com que romanos e outros povos arremessavam bolas de chumbo. A comunicação à distância era feita, quase sempre, através de sinais de fumaça. O processo, porém, era trabalhoso, além de afetado por circunstâncias naturais. Sendo necessário enviar notícias exatas, verdadeiras reportagens de guerra, a mídia era outra, um soldado de esplêndida capacidade física, capaz de correr grandes distâncias, e, ao chegar, ter ainda fôlego para fazer o relatório que dele se esperava.
Foi durante as Guerras Médicas (¹) - na iminência de um ataque persa, comandantes gregos procuraram um mensageiro experiente, que, mandado a Esparta, solicitasse ajuda. O escolhido, de acordo com Heródoto (³), foi Fidípides: "Os comandantes enviaram Fidípides, o qual disse que durante a viagem lhe apareceu o deus Pan, e depois de dois dias chegou a Esparta [...]." (⁴)
À vista disso, e supondo que o relato de Heródoto seja verídico (⁵), Fidípides pode ser considerado um mensageiro-soldado-atleta-repórter notável. Plínio, o Velho (⁶), autor romano, entendia ter havido outros ainda mais destacados: "Correndo mil cento e quarenta estádios (⁷) entre Atenas e Esparta em dois dias, Fidípides foi o maior, até que Anistis, espartano, e Filonides, mensageiro de Alexandre Magno, correram mil trezentos e cinco estádios em um só dia [...]." (⁸)
Fidípides, Anistis, Filonides: destes sabemos o nome. Muitos outros foram simplesmente esquecidos. Em alguns casos, as notícias que levaram eram de tanta relevância que chegaram até nós, e, a elas, hoje, chamamos História.

(1) Entre gregos e persas (a quem os gregos, genericamente, chamavam medos - daí o nome atribuído às guerras).
(2)HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 1. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Século V a.C.
(4) HERÓDOTO, Histórias, Livro VI.
(5) Não parece haver incongruências no relato, que é consistente com as condições reinantes na época. Entre a obra de Heródoto e os acontecimentos relacionados às Guerras Médicas há um intervalo muito curto, e pode-se com razão entender que esse autor sabia do que falava, ou não teria nenhuma credibilidade entre os contemporâneos.
(6) 23 - 79 d.C.
(7) "Estádio" era uma medida antiga que variava de 158,5 a 185 metros.
(8) PLÍNIO. Naturalis Historia, Livro VII. Os trechos citados de Heródoto e Plínio foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Assírios eram orgulhosos torturadores de prisioneiros de guerra

Em nosso tempo, a maioria dos países tenta manter uma imagem favorável junto às outras nações, zelando, no âmbito diplomático, para que nada comprometa as aparências em questões como respeito às leis, aos direitos dos cidadãos e ao cumprimento de acordos internacionais que assegurem a manutenção da paz. Afinal, o que turistas estrangeiros (¹) pensariam de um país em que alguns dos principais monumentos fossem consagrados à valorização de todos os tipos imagináveis de tortura contra inimigos derrotados em combate? Pois saibam, leitores, que, na Antiguidade, um lugar assim de fato existiu: estamos falando da Assíria. 

Relevo assírio em que inimigos aparecem decapitados - veja no alto da imagem (²)

Relevo assírio em que soldados são mostrados carregando cabeças de inimigos - observe à esquerda (³)

Agricultura, pastoreio e comércio eram atividades econômicas correntes entre os assírios; a guerra, porém, com seus afazeres, era a verdadeira obsessão. Viviam prontos para ela, procurando pretextos para novas operações militares, e, através da caça, treinando a prontidão para o combate. Por quê? Ora, leitores, não simplesmente porque tivessem um insaciável apetite sanguinário, mas pelo lucro resultante da pilhagem de tudo quanto tinham os inimigos derrotados. Do desenvolvimento de máquinas de guerra (⁴) à suprema crueldade na tortura física e psicológica dos prisioneiros, tudo convergia para um só propósito, ou seja, assegurar que as riquezas acumuladas por outros povos fluíssem continuamente para as cidades assírias. Se era possível obter tal resultado apenas pela eficácia da intimidação (que "produzia" o pagamento de tributos mais que extorsivos por aqueles que não tinham nem as forças e nem a coragem para enfrentar os assírios), ótimo. Caso contrário, a formidável máquina de guerra era posta em operação, para obter, pela força, aquilo que as ameaças não haviam conseguido. Nos palácios assírios, as conquistas militares e a avalanche de crueldades praticadas eram, sem falta, celebradas em relevos que inflavam o ego dos naturais do país e horrorizavam os visitantes.
Quem ousaria negar que, quando os assírios foram finalmente derrotados em 612 a.C., sobejava a uma parte significativa do mundo antigo razões suficientes para comemoração?

(1) Se é que haveria muita gente disposta a fazer turismo em um tal lugar.
(2) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853.
(3) Ibid.
As imagens foram editadas para facilitar a visualização neste blog.
(4) Que, sob o manto das novas tecnologias, têm sucessoras até hoje.


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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Como os antigos romanos descobriram que elefantes podiam morrer

Em luta contra o exército de Pirro, rei do Épiro, que se aliara aos tarentinos, os romanos enfrentaram pela primeira vez, ao que se sabe, os tanques de guerra vivos da Antiguidade: elefantes! Aneu Floro (¹), em Epitome rerum Romanarum, escreveu:
"Para defender a semigrega cidade (²) fundada por lacedemônios, [Pirro] trouxe homens do Épiro, da Tessália e da Macedônia, elefantes, até então desconhecidos, forças de mar, terra e cavalaria." (³)
Pânico geral entre os corajosos romanos. Quem ousaria enfrentar as terríveis criaturas que, sem mostras de caridade, pisoteavam os insignificantes soldados que esboçavam alguma oposição? O pavor campeou entre as forças de Roma até que Caio Minúcio, da Quarta Legião (ainda segundo Floro), ao cortar a tromba de um elefante, demonstrou que os ditos animais podiam ser mortos... 
Cortar a tromba - que ato de bravura! Não pretendo gastar tempo discutindo se os fatos foram mesmo assim. Afinal, Floro escreveu muito tempo depois da guerra contra Pirro. Mas podemos, de sua informação, extrair algumas conclusões:
  • Na memória coletiva dos romanos, a luta contra os elefantes na Batalha de Heracleia (⁴) tinha proporções exageradas (isso não é um trocadilho - mesmo!);
  • O episódio de valentia do soldado Caio Minúcio era reputado como real e notável, ou ninguém mais se lembraria dele;
  • O próprio Floro devia ter fé na autenticidade do episódio, ou não iria adicioná-lo à sua obra, correndo o risco de ser considerado mentiroso;
  • Os conhecimentos de zoologia dos romanos do Século III a.C. eram, no melhor dos casos, sofríveis, e a falta de informação quanto à existência de elefantes comprova que, nesse tempo, o contato de povos da Península Itálica com outras regiões não era expressivo - somos forçados a considerar que, para seus dias, o ousado golpe desferido por Caio Minúcio contra a tromba de um elefante significou, para Roma, mais que um feito militar, foi um grande avanço na ciência. Podem rir, leitores.
O caso é que, depois do susto inicial, os romanos gostaram tanto dos elefantes que, assim que puderam, trataram de incluí-los entre seus recursos bélicos. Mas tiveram problemas: consta que, tendo capturado alguns elefantes dos cartaginenses durante as Guerras Púnicas, os pobres animais acabaram morrendo de fome, porque seus novos senhores não tinham a menor ideia de como deviam alimentá-los. Na guerra ou na paz, o contato com outros povos serviu para ampliar os conhecimentos dos romanos. Posteriormente, elefantes seriam parte importante dos espetáculos circenses para o entretenimento de multidões na capital do Império.

Uma visão humorística do exército de Pirro (⁵)

(1) Este autor romano viveu entre os Séculos I e II d.C.; foi contemporâneo do imperador Adriano.
(2) Tarento.
(3) O trecho citado de Epitome rerum Romanarum é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) 280 a.C.
(5) BECKETT, Gilbert Abbott à et LEECH, John. The Comic History of Rome. London: Bradbury, Evans and Co., 1851, p. 138. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Um episódio pouco ecológico na guerra entre romanos e gauleses

Foi ao final de um verão, no tempo das guerras entre romanos e gauleses. O próprio Júlio César (¹) descreveu os acontecimentos em De Bello Gallico e, embora tenhamos o direito de suspeitar de algum favorecimento à presteza e valentia de seus soldados, sabemos que, em linhas gerais, sua narrativa corresponde aos fatos. 
Depois que as forças de Roma tinham derrotado a maioria dos gauleses, havia ainda uns poucos grupos que teimavam na resistência (²). Tendo observado que o confronto aberto contra os romanos sempre redundava em fracasso, decidiram buscar abrigo dentro dos espessos e nevoentos bosques das Gálias. César julgou que a vitória viria facilmente, mas estava enganado, e cometeu o equívoco de mandar que seus homens construíssem fortificações junto aos bosques. Vejam, leitores, que mesmo um hábil comandante também errava, e não tardaria a pagar o preço de sua falha. Em um momento no qual os romanos trabalhavam despreocupados, hordas de gauleses, saindo dos bosques, iniciaram o combate, atraindo os oponentes para uma área em que era densa a vegetação. Em consequência, o exército de César sofreu baixas consideráveis, ainda que o mesmo tenha sucedido aos gauleses.
Por entender que a soldadesca teria mais sucesso se lutasse em campo aberto, César deu ordem para que desbastassem os bosques, tendo o cuidado de empregar a madeira deles retirada na construção de obstáculos que impedissem qualquer tentativa de um ataque de surpresa. 
Tudo resolvido? Longe disso.
É verdade que os romanos já davam a pilhagem como coisa garantida, mas os gauleses, espertamente, buscaram refúgio em meio ao mais remoto e sombrio arvoredo. Para complicar a situação, sobrevieram chuvas torrenciais, que contribuíram para inviabilizar a sobrevivência dos romanos em seu acampamento de verão. Ao perceber que a vitória completa era impossível naquele momento, César, que já adotara a prática pouco ecológica de arruinar os bosques, ordenou que os campos de cultivo das adjacências fossem inutilizados, sem que fosse esquecido o procedimento tão comum nas guerras da Antiguidade de colocar fogo em toda e qualquer construção (³) que houvesse pela frente. Depois disso, por não estar disponível melhor solução, conduziu seu exército para os quartéis de inverno. Não seria dessa vez que os audaciosos gauleses seriam completamente batidos.

(1) 100 a.C. - 44 a.C.
(2) Não, leitores, não era aquela famosa vilazinha...
(3) Casas, celeiros e estábulos.


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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Como era a vida dentro de uma cidade cercada por inimigos

Cidades antigas tinham muralhas. Quando havia guerra, quem morava em povoações menores ou em áreas agrícolas menos protegidas, buscava refúgio dentro dos muros da fortaleza mais próxima. Os portões - quase sempre enormes e, por isso, muito pesados - eram fechados, de modo que, por um lado, inimigos não conseguiriam entrar facilmente, mas, por outro, quem estava do lado de dentro também não podia sair. 
Começava então o cerco. Fora, o objetivo maior do exército atacante era, se possível, danificar o muro em algum ponto, de modo que soldados pudessem entrar na cidade. Com o tempo, surgiram máquinas de guerra para esse propósito - os aríetes, por exemplo. Ainda que sempre acarretasse um número elevado de baixas, outra prática era a construção de uma rampa que atingisse o alto do muro. Torres rodantes também faziam parte do cardápio. Às vezes, a captura de algum fugitivo podia resultar na revelação de segredos militares da cidade atacada. Não é preciso lembrar que, na intenção de descobrir os pontos fracos de uma localidade, a tortura era uma útil ferramenta para fazer falar quem, de outra maneira, não abriria a boca de jeito nenhum.
Enquanto isso, o exército defensor procurava manter os inimigos à distância. Chuvas de flechas caíam sobre a cabeça dos soldados que vinham lutar junto ao muro e enormes pedras eram roladas, matando vários combatentes de uma só vez. Na Idade Média, tachos de óleo fervente eram entornados do alto das torres. Ninguém, fosse homem ou mulher, jovem ou idoso, ficava isento de alguma responsabilidade na defesa, a menos que estivesse completamente incapacitado.
Uso de torre sobre rodas para ataque a
uma cidade sitiada (³)
Entretanto, a defesa era difícil. Com os alimentos racionados, não tardava a declinar a saúde geral da população. Mais ainda, as condições de higiene, nem sempre boas em uma cidade, ficavam muito piores com a chegada de mais gente. Doenças encontravam assim terreno fértil para propagação (¹), de modo que, não poucas vezes, eram mais os que morriam por causa de uma epidemia do que os que caíam em combate. Todas essas calamidades, atingindo a população civil, faziam também muitas baixas entre os soldados, enquanto os sobreviventes, pela parca alimentação, ficavam cada vez mais fracos para lutar.
Até quando resistir? Houve guerras em que cidades sitiadas resistiram por anos (²). Tudo dependia, basicamente, do estoque de alimentos disponível (⁴) e de um bom suprimento de água. A menos que o inimigo levantasse o cerco, a derrota dos defensores, com seu cortejo de desgraças, era apenas uma questão de tempo (⁵), tanto que, em alguns casos, houve populações inteiras que cometeram suicídio, considerando esta uma solução melhor e mais honrosa que a rendição.
Eventualmente, porém, os invasores também sofriam com epidemias e decidiam ir embora; podia ser que os suprimentos que traziam chegassem ao fim, ou que não achassem água potável; outras vezes, era algum exército estrangeiro que vinha em socorro dos sitiados. Havia, ainda, a possibilidade de discórdia entre comandantes, e mesmo a morte de um monarca, abrindo questões sucessórias, podia significar uma retirada, ao menos temporária. Quando alguma dessas coisas acontecia, não era hora para festas, ainda que celebrações religiosas, em honra dos deuses, pudessem acontecer. Era tempo, sim, para muito trabalho, reparando os muros, reforçando as torres e as portas, protegendo as fontes e poços que estavam dentro e inutilizando os que estivessem do lado de fora da cidade. A experiência ensinava que era grande a possibilidade de que, algum dia, os inimigos voltassem. 

(1) Como aconteceu em Atenas, durante a Guerra do Peloponeso.
(2) Sabe-se que Siracusa, por exemplo, cercada por terra e mar pelas forças romanas durante as Guerras Púnicas, manteve a defesa por aproximadamente de dois anos.
(3) DODGE, Theodore Ayrault. A History of the Art of War Among the Romans. Boston, New York: Houghton, Mifflin & Company, 1900, p. 394.
(4) Heródoto, em Histórias, afirmou que os moradores de Babilônia não tiveram receio dos persas, quando estes cercaram a cidade, porque havia, dentro dela, um estoque considerável de alimentos. Ainda assim, a cidade foi tomada. 
(5) De acordo com Políbio de Megalópolis, os antigos romanos, quando conquistavam uma cidade que resistira a seus ataques, tinham por hábito matar a todos os que encontravam, fossem homens ou animais.


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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Como os romanos tratavam os prisioneiros de guerra

As vitórias militares de Roma corresponderam, em muitas ocasiões, à completa ruína dos povos derrotados. O destino dos prisioneiros de guerra, como regra, resultava em uma das seguintes situações:
  • Execução sumária, em particular no caso dos chefes, como medida para impedir que as forças inimigas se reorganizassem;
  • Escravização para trabalho em obras públicas;
  • Muitos eram vendidos em mercados de escravos (a chegada de um grupo de cativos era vista como espetáculo público, especialmente se os escravizados tinham características físicas diferentes daquelas que eram usuais entre romanos);
  • Soldados vencedores recebiam prisioneiros como prêmio e podiam dispor deles como julgassem conveniente, quer conservando-os a seu serviço, quer vendendo-os para quem pagasse bem.
Embora os antigos não costumassem registrar as quantidades de escravizados segundo critérios que nós, hoje, reputamos corretos, é possível ter uma ideia aproximada do que acontecia a cada grande vitória, em virtude de relatos da época. O próprio Júlio César, em De Bello Gallico, deixou informações muito úteis, e é assim que sabemos que, em certa ocasião (¹), foram vendidos como escravos nada menos que cinquenta e três mil prisioneiros de guerra. Depois de derrotar gauleses em uma batalha naval, César julgou apropriado impor uma punição severa, por entender que embaixadores de Roma haviam sido desrespeitados: "Todos os líderes idosos foram executados e os demais prisioneiros foram vendidos como escravos" (²). E, ainda na mesma obra, é dito que, depois de derrotar Vercingetórix, César recompensou cada soldado romano com um prisioneiro de guerra (³).
Assim, guerra após guerra, Roma estendia seus domínios e multidões de prisioneiros eram trazidas para escravização, de modo que, com o correr do tempo, grande parte do trabalho passou a ser feito por mão de obra cativa. A população pobre, mas livre, já não encontrava ocupação remunerada. Outras multidões, dessa vez compostas por romanos desocupados, afluíam à capital. Os problemas sociais eram inevitáveis. Tácito, no livro quarto dos Annales, lembrou que, ao tempo em que Tibério era imperador, "os escravos [eram] uma multidão que crescia imensamente e pouco o povo de condição livre" (⁴). Era preciso, portanto, que o Estado assumisse a obrigação de alimentar e entreter os homens livres que andavam desocupados, sob pena de uma revolta social de dimensões catastróficas. Periodicamente, eram feitas distribuições de cereais. O exército ocupava uma parte dos homens livres, enquanto espetáculos públicos sangrentos divertiam multidões que tinham excesso de tempo e falta do que fazer.
Mas não era só. A entrada de tantos escravos estrangeiros ia, gradualmente, descaracterizando aquilo que se poderia chamar de "cultura romana", além de ser contínuo o temor de uma rebelião. Caio Cássio, falando no Senado romano em 62 d.C., sendo Nero o imperador, observou: "Temos fâmulos [escravos] de todas as nações, que vêm de costumes os mais variados, de religiões estrangeiras ou sem nenhuma religião, e é somente sob coerção que podemos mantê-los em obediência [...]." (⁵) 
Reconhecia-se a necessidade da força para manter tantos cativos em subordinação à minoria romana. No entanto, até mesmo o exército ia, gradualmente, admitindo estrangeiros, pois, do contrário, não haveria soldados em número suficiente para as tentativas de preservar a ordem nas fronteiras. Roma se tornara tão grande que já não conseguia ser Roma. As rupturas no tecido social que constituía o Império preparavam caminho para seu declínio e queda.

(1) De Bello Gallico, Livro Segundo.
(2) Ibid., Livro Terceiro.
(3) Ibid., Livro Sétimo.
(4) Annales, Livro Quarto.
(5) Ibid., Livro Décimo Quarto. 
Os trechos de De Bello Gallico e dos Annales aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Como o luxo chegou aos romanos

Historiadores da Antiguidade foram enfáticos em afirmar que os habitantes de Roma, nos primórdios da cidade, prezavam, como virtudes impagáveis, a sobriedade, a frugalidade e o hábito de economizar. 
Que dizer? Eles não podiam, mesmo, ser muito diferentes disso. A primitiva aldeia de pastores e agricultores era pobre demais para cultivar gente dada ao luxo.
Porém, com o passar do tempo, vieram as conquistas militares e, com elas, duas coisas aconteceram:
a) Os romanos passaram a copiar alguns costumes estrangeiros que pareciam úteis, ainda que viessem de inimigos que haviam derrotado;
b) O enriquecimento proporcionado pelas conquistas militares abriu caminho para que hábitos de luxo se infiltrassem na sociedade romana.
Tito Lívio, em Ab urbe condita libri, assinala a entrada do luxo na época em que os romanos, sob o comando de Lúcio Cornélio Cipião (¹), também conhecido como "Asiático", derrotaram as forças comandadas por Antíoco III na Batalha de Magnésia (190 a.C.):
"Quando L. Cornélio Cipião voltou a Roma, celebrou-se um notável triunfo e concedeu-se-lhe o apelido de Asiático: seu exército é que começou a introduzir o luxo estrangeiro em Roma." (²)
Ora, meus leitores, o que estava em jogo na Batalha de Magnésia, vencida pelos romanos, era o domínio sobre a Grécia. Podem, portanto, imaginar o botim de guerra em tal ocasião!
Desde o tempo da guerra contra Siracusa (³) os romanos vinham admirando a arte grega. Marco Cláudio Marcelo, o cônsul que comandou a vitória, depois de saquear a cidade derrotada, levou a Roma uma quantidade enorme de obras de arte, que foram consagradas aos deuses, em seus respectivos templos. Segundo Tito Lívio, foi assim que "as obras de arte gregas começaram a ser admiradas em Roma" (⁴).
Mas, acreditem, não foram apenas as grandes obras de arte produzidas por gênios da cultura grega que ganharam a afeição dos romanos. Coisas aparentemente corriqueiras do dia a dia também conquistaram o coração dos outrora sisudos moradores da Península Itálica, cujo principal alimento era uma espécie de mingau de aveia. Conquistaram o coração, sim, mas inclua-se nisso também o estômago: a comida da Grécia, em particular a arte da panificação, enfeitiçou Roma, a tal ponto que se afirma que, nos dias do imperador Augusto, chegou a haver na cidade nada menos que trezentas e vinte e nove padarias públicas. 
O jeito romano de fazer as coisas, porém, veio a manifestar-se nesta questão.  Para exercer controle e evitar que cada um fizesse o pão como bem entendesse, havia um funcionário público cujo trabalho era fiscalizar continuamente se todos os estabelecimentos de panificação cumpriam seus deveres conforme estipulado, em quantidade e qualidade, quer fazendo o alimento que se vendia para distribuição aos escravos, quer fabricando finíssimos pães, com ingredientes sofisticados, que só frequentavam a mesa dos ricos.

(1) Irmão de Públio Cornélio Cipião, apelidado "O Africano".
(2) Tito Lívio, Ab urbe condita libri
(3) 212 a.C.
(4) Tito Lívio, Op. cit.
As citações de Ab urbe condita libri que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Escravos em Babilônia

Podia  ser numa manhã de sol brilhante. O movimento já era grande naquela rua comercial da antiga Babilônia. Cestos com legumes, montes de sacos de couro contendo cereais e uma infinidade de outras mercadorias aguardavam compradores. Havia gente indo e vindo, rindo e falando alto. Talvez, em uma banca de frutas, um artesão, a caminho do trabalho, parasse para comprar algumas romãs, o que podia ser uma boa oportunidade para dar dois dedos de prosa com o vendedor. É fácil imaginar que, enquanto regateava o preço, apenas para não perder o hábito, uma rodinha de tagarelas ia já em formação, e donos de lojas e oficinas mais ou menos próximas anunciavam suas mercadorias e serviços, se preciso, aos berros, sem nenhuma discrição, com o objetivo de incentivar fregueses meio sonolentos.
A animação matutina não era sem causa. Há dias chegara a notícia de que as tropas que haviam deixado a cidade na primavera estavam retornando vitoriosas. Nos últimos anos, as conquistas militares tinham se tornado frequentes, e com elas vinha uma prosperidade que Babilônia nunca antes experimentara. E pensar que a grande cidade, verdadeiramente cosmopolita, onde soava constante a algarávia de tantas línguas diferentes, já fora, nos séculos precedentes, uma povoação rebelde ao domínio assírio, e, por isso mesmo, tantas vezes arruinada - mas sem desaparecer. Em contrapartida, o Império Assírio é que agora era passado, e os verdadeiros babilônios tinham sobejas razões para festejar, fosse em casa, nas ruas, ou mesmo nos templos, tão numerosos quanto era vasto seu panteão de divindades.
Para os comerciantes a guerra era um bom negócio. As riquezas arrancadas a outros povos permitiam novas e belas construções, o dinheiro circulava, e, se as pessoas tinham dinheiro, estavam dispostas a gastar mais, comprar mais, construir casas melhores, com móveis sofisticados e outros artigos de luxo trazidos por mercadores que vinham de longe. Roupas finas, perfumes... Ah, os perfumes do Oriente!
E havia também os escravos. Na mentalidade dos dominadores a guerra era ótima porque muitos inimigos derrotados eram arrastados à Babilônia como escravos. Eram mão de obra garantida para as edificações que o rei planejava, mas também eram comprados, até barato, para o trabalho doméstico e das oficinas. 
Em Babilônia a escravidão tinha grande importância, mas um fato curioso é que, mesmo entre os cativos, existia desigualdade. Primeiro, havia os escravos dos templos, e, depois, os escravos do Estado, que suavam para que as grandes obras públicas virassem realidade. Havia, então, os escravos de particulares, aqueles que qualquer um que tivesse dinheiro podia comprar e ter a seu serviço. Finalmente, o mais espantoso: escravos de escravos, já que havia escravos que acabavam enriquecendo e, apesar de seu status  legal de cativos, pagavam suas obrigações a seus respectivos senhores e iam ao exercício das atividades que bem entendessem, para as quais acabavam, por sua vez, comprando escravos. Imagine-se agora qual era a posição social de um indivíduo que fosse escravo de um escravo!...
É verdade que em Babilônia nem todos os escravos eram estrangeiros. Alguns eram de lá mesmo, gente que havia nascido livre mas que se tornara cativa em razão de dívidas que não conseguira pagar, ou ainda quem havia cometido algum crime punido com a escravização. Entre os escravos do Estado, porém, predominavam os estrangeiros vencidos. Por outro lado, nem todos os inimigos derrotados eram vendidos como escravos - afinal, mesmo na grande Babilônia não caberia tanta gente. Uma prática comum nesses casos, adotada não só por babilônios, mas por outros povos da Mesopotâmia, era obrigar uma população vencida a migrar para um território diferente daquele em que originalmente vivia, em especial quando teimosa e reincidente em tramar rebeliões. Os mandatários da época achavam que isso privaria os derrotados da proteção de seus deuses e faria com que se vissem obrigados a uma vidinha pacífica, obediente e pagadora dos tributos que asseguravam a prosperidade dos vencedores (desculpem, leitores do Século XXI, mas se esta ideia parece estranha a vocês, preciso lembrá-los de que, sob outros pretextos, migrações forçadas ocorreram mesmo no Século XX, sob regimes que se autoproclamavam libertadores da humanidade).
Algumas horas mais e a população de Babilônia seria arrancada das suas ocupações corriqueiras. Arrancada de livre e espontânea vontade. Quem é que iria perder o desfile do exército que retornava? É que, ao som de instrumentos de percussão, já as primeiras unidades militares transpunham a muralha, precedendo os generais que acompanhavam o rei. Uma parte do botim de guerra seria consagrada aos deuses, mas a soldadesca era generosamente recompensada. Ao final do cortejo, vinha uma multidão coberta de pó, com as roupas estraçalhadas, a quem os babilônios dirigiam gracejos e provocações. Eram os infelizes a quem a derrota na guerra reduzia à condição de escravos. Coisa muito pouco provável é que, entre o populacho que os insultava, pudessem notar algum olhar de compaixão, até porque, nesse tempo, compaixão não era parte do arsenal de sentimentos que as pessoas eram  incentivadas a cultivar.
A festança agora se espalhava pela cidade. Lá na rua comercial, os eufóricos vendedores de vinho e cerveja mal conseguiam atender a tantos fregueses. A guerra também era boa para eles.


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