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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Um episódio pouco ecológico na guerra entre romanos e gauleses

Foi ao final de um verão, no tempo das guerras entre romanos e gauleses. O próprio Júlio César (¹) descreveu os acontecimentos em De Bello Gallico e, embora tenhamos o direito de suspeitar de algum favorecimento à presteza e valentia de seus soldados, sabemos que, em linhas gerais, sua narrativa corresponde aos fatos. 
Depois que as forças de Roma tinham derrotado a maioria dos gauleses, havia ainda uns poucos grupos que teimavam na resistência (²). Tendo observado que o confronto aberto contra os romanos sempre redundava em fracasso, decidiram buscar abrigo dentro dos espessos e nevoentos bosques das Gálias. César julgou que a vitória viria facilmente, mas estava enganado, e cometeu o equívoco de mandar que seus homens construíssem fortificações junto aos bosques. Vejam, leitores, que mesmo um hábil comandante também errava, e não tardaria a pagar o preço de sua falha. Em um momento no qual os romanos trabalhavam despreocupados, hordas de gauleses, saindo dos bosques, iniciaram o combate, atraindo os oponentes para uma área em que era densa a vegetação. Em consequência, o exército de César sofreu baixas consideráveis, ainda que o mesmo tenha sucedido aos gauleses.
Por entender que a soldadesca teria mais sucesso se lutasse em campo aberto, César deu ordem para que desbastassem os bosques, tendo o cuidado de empregar a madeira deles retirada na construção de obstáculos que impedissem qualquer tentativa de um ataque de surpresa. 
Tudo resolvido? Longe disso.
É verdade que os romanos já davam a pilhagem como coisa garantida, mas os gauleses, espertamente, buscaram refúgio em meio ao mais remoto e sombrio arvoredo. Para complicar a situação, sobrevieram chuvas torrenciais, que contribuíram para inviabilizar a sobrevivência dos romanos em seu acampamento de verão. Ao perceber que a vitória completa era impossível naquele momento, César, que já adotara a prática pouco ecológica de arruinar os bosques, ordenou que os campos de cultivo das adjacências fossem inutilizados, sem que fosse esquecido o procedimento tão comum nas guerras da Antiguidade de colocar fogo em toda e qualquer construção (³) que houvesse pela frente. Depois disso, por não estar disponível melhor solução, conduziu seu exército para os quartéis de inverno. Não seria dessa vez que os audaciosos gauleses seriam completamente batidos.

(1) 100 a.C. - 44 a.C.
(2) Não, leitores, não era aquela famosa vilazinha...
(3) Casas, celeiros e estábulos.


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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Como os romanos tratavam os prisioneiros de guerra

As vitórias militares de Roma corresponderam, em muitas ocasiões, à completa ruína dos povos derrotados. O destino dos prisioneiros de guerra, como regra, resultava em uma das seguintes situações:
  • Execução sumária, em particular no caso dos chefes, como medida para impedir que as forças inimigas se reorganizassem;
  • Escravização para trabalho em obras públicas;
  • Muitos eram vendidos em mercados de escravos (a chegada de um grupo de cativos era vista como espetáculo público, especialmente se os escravizados tinham características físicas diferentes daquelas que eram usuais entre romanos);
  • Soldados vencedores recebiam prisioneiros como prêmio e podiam dispor deles como julgassem conveniente, quer conservando-os a seu serviço, quer vendendo-os para quem pagasse bem.
Embora os antigos não costumassem registrar as quantidades de escravizados segundo critérios que nós, hoje, reputamos corretos, é possível ter uma ideia aproximada do que acontecia a cada grande vitória, em virtude de relatos da época. O próprio Júlio César, em De Bello Gallico, deixou informações muito úteis, e é assim que sabemos que, em certa ocasião (¹), foram vendidos como escravos nada menos que cinquenta e três mil prisioneiros de guerra. Depois de derrotar gauleses em uma batalha naval, César julgou apropriado impor uma punição severa, por entender que embaixadores de Roma haviam sido desrespeitados: "Todos os líderes idosos foram executados e os demais prisioneiros foram vendidos como escravos" (²). E, ainda na mesma obra, é dito que, depois de derrotar Vercingetórix, César recompensou cada soldado romano com um prisioneiro de guerra (³).
Assim, guerra após guerra, Roma estendia seus domínios e multidões de prisioneiros eram trazidas para escravização, de modo que, com o correr do tempo, grande parte do trabalho passou a ser feito por mão de obra cativa. A população pobre, mas livre, já não encontrava ocupação remunerada. Outras multidões, dessa vez compostas por romanos desocupados, afluíam à capital. Os problemas sociais eram inevitáveis. Tácito, no livro quarto dos Annales, lembrou que, ao tempo em que Tibério era imperador, "os escravos [eram] uma multidão que crescia imensamente e pouco o povo de condição livre" (⁴). Era preciso, portanto, que o Estado assumisse a obrigação de alimentar e entreter os homens livres que andavam desocupados, sob pena de uma revolta social de dimensões catastróficas. Periodicamente, eram feitas distribuições de cereais. O exército ocupava uma parte dos homens livres, enquanto espetáculos públicos sangrentos divertiam multidões que tinham excesso de tempo e falta do que fazer.
Mas não era só. A entrada de tantos escravos estrangeiros ia, gradualmente, descaracterizando aquilo que se poderia chamar de "cultura romana", além de ser contínuo o temor de uma rebelião. Caio Cássio, falando no Senado romano em 62 d.C., sendo Nero o imperador, observou: "Temos fâmulos [escravos] de todas as nações, que vêm de costumes os mais variados, de religiões estrangeiras ou sem nenhuma religião, e é somente sob coerção que podemos mantê-los em obediência [...]." (⁵) 
Reconhecia-se a necessidade da força para manter tantos cativos em subordinação à minoria romana. No entanto, até mesmo o exército ia, gradualmente, admitindo estrangeiros, pois, do contrário, não haveria soldados em número suficiente para as tentativas de preservar a ordem nas fronteiras. Roma se tornara tão grande que já não conseguia ser Roma. As rupturas no tecido social que constituía o Império preparavam caminho para seu declínio e queda.

(1) De Bello Gallico, Livro Segundo.
(2) Ibid., Livro Terceiro.
(3) Ibid., Livro Sétimo.
(4) Annales, Livro Quarto.
(5) Ibid., Livro Décimo Quarto. 
Os trechos de De Bello Gallico e dos Annales aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 11 de março de 2016

César e a duração da noite na Grã-Bretanha

Como os romanos descobriram que a duração da noite não era a mesma em lugares diferentes


A ciência, na Antiguidade, avançava com a ajuda de acontecimentos não exatamente científicos - ou seja, com um empurrãozinho do acaso, uma vez que a ideia de planejar experimentos sob estrito controle, com uma  observação cuidadosa dos resultados, não era ainda praticada como regra. No entanto, em todos os tempos, cérebros inteligentes foram capazes de observar coisas que pareciam não funcionar como esperado, tirando, daí, conclusões interessantes (ainda que nem sempre exatas).
Um caso desses ocorreu quando César e suas tropas chegaram à Britânia (*) em meados do primeiro século antes de Cristo. Ocorre que os romanos daquele tempo marcavam as horas com o emprego de relógios de água, e, com o uso deles, foi possível constatar que, àquela época do ano, as noites na ilha eram mais curtas que no Continente. Desse fato podemos extrair ao menos duas conclusões:
  • Os romanos, até esse tempo, ainda não sabiam que a latitude era um fator importante para determinar a duração do dia e da noite;
  • A guerra, que levava devastação a tantos territórios, acabou contribuindo para fazer avançar o conhecimento científico. 
Comete erro grave, porém, aquele que acha que há aqui uma boa justificativa para investidas bélicas. Pacíficas expedições comerciais, por exemplo, não seriam capazes de proporcionar o mesmo efeito?

(*) Ou Grã-Bretanha, se assim preferirem os leitores, em lugar do nome que era usual entre os antigos romanos.


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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Dez fatos interessantes sobre guerras da Antiguidade

Estão aqui alguns fatos interessantes, registrados por cronistas e historiadores da Antiguidade, que podem ser úteis para quem quiser visualizar mentalmente como eram as guerras daqueles tempos remotos.

1. Tiglate-Pileser, rei da Assíria, quando pretendia arrasar uma cidade ou não conseguia conquistá-la, mandava cortar todas as árvores que havia ao seu redor.

2.  Nas guerras da Antiguidade não era incomum a participação de fundeiros, ou seja, soldados que atiravam com fundas (como Davi contra Golias...). Ocorre que a técnica, por assim dizer, foi aperfeiçoada, de modo que, ao tempo dos romanos, já não eram atiradas pedras, e sim bolas de chumbo.

3. Uma prática muito comum nas guerras da Antiguidade, tendo em vista enfraquecer o(s) inimigo(s), consistia em roubar as colheitas e depois inutilizar os campos de cultivo enchendo-os de pedras.

4. De acordo com Júlio César, em seus Commentarii de Bello Gallico, os belgas eram os mais valentes de todos os moradores das Gálias, uma vez que não eram acostumados ao consumo de coisas delicadas, pois os mercadores raramente iam ao seu território.

5. Também de acordo com César, os gauleses, que eram muito altos, zombavam dos romanos, a quem consideravam "baixinhos".

6. Políbio de Megalópolis afirmava que as tropas comandadas por Cipião, o Africano, quando atacaram Cartagena (durante as Guerras Púnicas), eram compostas por vinte e cinco mil soldados de infantaria e dois mil e quinhentos de cavalaria, com seus respectivos cavalos, por suposto.

7. Ainda Políbio: as tendas dos cartagineses em seus acampamentos militares eram feitas de folhas e ramos de árvores.

Um soldado romano, de acordo com desenho
em uma parede de Pompeia (*)
8. Durante as Guerras Púnicas, percebendo os romanos que as vitórias dos cartagineses vinham em razão da superioridade de sua cavalaria, trataram de destruir os campos de onde provinham o feno e a cevada para os cavalos. A prática dava resultado porque era bastante difícil trazer de longe a forragem para os animais.

9. Tácito, historiador romano, no livro segundo dos Annales, afirmou que os germanos não eram, em relação aos romanos, menos valentes no combate; porém as armas e táticas dos romanos mostravam-se superiores, vindo daí sua vantagem.

10. As vitórias de César nas Gálias foram comemoradas em Roma durante quinze dias; segundo o próprio César, nunca antes havia ocorrido entre os romanos uma celebração assim, mas, posteriormente, outras comemorações ordenadas pelo Senado, também por conquistas de César, duraram nada menos que vinte dias.

(*) PARTON, James. Caricature and Other Comic Art. New York: Harper & Brothers, 1877, p. 15. Este desenho teria sido feito provavelmente por um soldado romano, na parede de um alojamento militar em Pompeia (portanto, antes que a cidade fosse destruída pelo Vesúvio em agosto de 79 d.C.).


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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Queimados vivos

César, em De Bello Gallico, relatou, a respeito de Caio Valério Procilo, que fora feito prisioneiro pelos germanos comandados por Ariovisto:
"Contava que, diante dele próprio, três vezes lançaram sortes para decidir se seria queimado vivo imediatamente ou mais tarde, e que somente em decorrência do resultado da sorte é que ainda estava vivo." (¹)
Parece horrível? Pois é mesmo. Mas a ideia de queimar gente viva atravessou os séculos, e, infelizmente, como sabem muito bem os leitores, ainda tem seus adeptos.
Cristãos, nos dias de Nero, acusados injustamente de cumplicidade no incêndio de Roma, eram untados com algum tipo de gordura e, então, postos a queimar, depois que anoitecia, para iluminar os jardins do imperador, onde se realizavam festejos.
Dizem que o mundo dá muitas voltas e, neste caso, a volta foi tão acentuada que, sob a condenação da Igreja, através do Santo Ofício da Inquisição, não foram poucos os sentenciados por heresia que, queimados vivos em autos de fé,  pagaram pelo crime de pensar diferente da maioria. 
Ocorre, porém, e isso já é menos conhecido, que contemporaneamente às condenações do Santo Ofício, o Estado português também sentenciava à morte por fogo, em alguns casos considerados de jurisdição civil. Senão, vejamos, primeiro, a penalidade para quem fizesse moeda falsa em Portugal ou em seus domínios ultramarinos, de acordo com o Livro V das Ordenações do Reino (²), no Título XII:
"E por a moeda falsa ser coisa muito prejudicial [...] e merecerem ser gravemente castigados os que nisso forem culpados, mandamos que todo aquele que moeda falsa fizer, ou a isso der favor, ajuda ou conselho, ou for disso sabedor e o não descobrir, morra morte natural de fogo, e todos seus bens sejam confiscados para a Coroa do Reino."
Não era só. A mesma pena, cuidadosamente descrita, era aplicada em casos de sodomia, também de acordo com o Livro V, desta vez no Título XIII:
"Toda a pessoa, de qualquer qualidade que seja, que pecado de sodomia por qualquer maneira cometer, seja queimada e feita por fogo em pó, para que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memória, e todos seus bens sejam confiscados para a Coroa de nossos Reinos, posto que tenha descendentes."
Mais ainda, no Título XIII, § 2:
"Outrossim, qualquer homem ou mulher que carnalmente tiver ajuntamento com alguma alimária, seja queimado e feito em pó. [...]."
Cabe, aqui, esclarecer que, para que alguém fosse considerado culpado, era preciso haver pelo menos duas testemunhas...
Finalmente, conforme o Título XVII, também seria queimado vivo aquele ou aquela que se envolvesse em relação incestuosa:
"Qualquer homem que dormir com sua filha, ou com qualquer outra sua descendente, com sua mãe, ou com outra sua ascendente, seja queimado, e ela também, e ambos feitos por fogo em pó."
O mundo ocidental olha, hoje, com horror, para essas penas cruéis. Mesmo onde se aplica a pena de morte, existe uma preocupação (nem sempre alcançada, é verdade) com que a morte seja rápida e, tanto quanto possível, sem demasiado sofrimento. Ninguém se esqueça, no entanto, de que, há apenas uns poucos séculos, a execução por fogo consistia em um espetáculo público muito concorrido. Sem nenhum exagero, havia quem preparasse lanche para ir, com a família, apreciar um auto de fé. Vejam, senhores leitores, a que abismos é capaz de ir a humanidade quando a selvageria suplanta a razão!

(1) Tradução de  Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) De acordo com a edição de 1824 da Universidade de Coimbra. Publicadas no início do Século XVII, as Ordenações eram, em grande parte, uma compilação de leis vigentes há muito tempo.


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sexta-feira, 6 de março de 2015

Uma comparação entre os soldados de infantaria dos bárbaros germanos e os escudeiros medievais

É sabido que muito dos valores da sociedade medieval provinha de um sincretismo entre tradições romanas e costumes bárbaros. O uso de que cavaleiros tivessem um escudeiro como auxiliar parece vir do sistema amplamente empregado, segundo Júlio César, entre os germanos que viviam além do Reno:
"Seis mil cavalos iam escoltados por número correspondente de infantes, selecionados individualmente entre os mais velozes e mais valentes, pelos homens da cavalaria, de modo que cada um escolhia o que mais lhe agradava; cavaleiro e infante entravam juntos em combate, de modo que, se um cavaleiro era ferido, o infante o socorria imediatamente; em marchas forçadas ou em retiradas esses infantes eram, pelo treino frequente, tão rápidos, que, agarrados à crina dos cavalos, corriam ao lado dos animais." (¹)
Isso é o que encontramos em De Bello Gallico. César devia saber do que falava, já que as tropas por ele comandadas enfrentaram germanos não poucas vezes. Mas, quanto à questão do hábito medieval de que cavaleiros tivessem, cada um deles, seu respectivo escudeiro, há que observar uma diferença nada desprezível em relação ao costume bárbaro (²). Os cavaleiros germanos elegiam por seus companheiros os mais hábeis dentre os soldados da infantaria; já os escudeiros que acompanhavam os cavaleiros da Idade Média não eram militares experientes, mas jovens aprendizes que, acompanhando um guerreiro tarimbado, estavam em contínuo treinamento que iria levá-los, aos poucos, ao pleno conhecimento dos segredos bélicos, tais como se afiguravam em seus dias.

(1) Tradução de Marta Iansen para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.
(2) Para romanos e gregos, era bárbaro todo aquele cuja língua materna não fosse nem o latim e nem o grego.


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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Serviço secreto à moda da Antiguidade

Durante uma revolta de gauleses, tropas romanas sitiadas conseguiram avisar César, pedindo socorro, da seguinte maneira: estava entre os romanos um desertor gaulês de certa importância, o qual tinha um escravo, também das Gálias. Esse escravo, depois de ser-lhe prometida a liberdade e outras recompensas mais, recebeu uma lança na qual foi colocada a mensagem destinada a César. Ora, sendo gaulês o dito escravo, conseguiu passar pelas tropas gaulesas sublevadas sem despertar qualquer suspeita e, desse modo, chegou, afinal, ao lugar em que estava César, entregando-lhe a mensagem. Soldados romanos já tinham tentado levar o mesmo recado, porém sem sucesso. Romanos eram presos e torturados até a morte. Um gaulês (traidor, se quiserem), conseguiu o que os romanos não puderam fazer.
Se a mensagem era secreta, como é que sabemos de tudo isso? Ora, foi o próprio César quem contou a aventura em De Bello Gallico, Livro V.
Para informar que estava enviando socorro, César recorreu a uma outra estratégia, mandando como mensageiro um gaulês aliado, que integrava a tropa sob seu comando. Dessa vez, a carta foi escrita em grego, para evitar que, acontecendo de cair em mãos de seus inimigos, pudesse ser lida e compreendida. O gaulês, temeroso, evitou a tentativa de entregá-la pessoalmente, mas arremessou-a com um dardo para dentro do acampamento romano cercado. Só três dias depois é que um soldado veio a descobri-la, quando as forças romanas que vinham como auxílio já podiam ser vistas à distância.


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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Os druidas gauleses

Os druidas tinham lugar de destaque entre os gauleses - foi César quem o afirmou, em De Bello Gallico. Eram uma espécie de camada sacerdotal, mas com vastas atribuições jurídicas.
Antes de mais nada, para ser druida, era preciso estudar, e estudar muito. Um verdadeiro druida passava, às vezes, mais de vinte anos na escola, e devia saber tudo de memória (César achava que isso atendia a dois propósitos: esconder seu conhecimento dos que não eram iniciados em suas artes mágicas e exercitar a memória da juventude). Apesar disso, não eram poucos os que buscavam essa ocupação, havendo quem a queria de livre escolha e quem era, pela família, encaminhado a ela.
Um aspecto curioso relacionado à formação dos druidas é que muitos deles (segundo César!) iam à Bretanha para ampliar seus conhecimentos. E o que é que ensinavam?
Sempre de acordo com o que César relatou, os druidas criam que as almas, sendo imortais, passavam de um corpo a outro, fato que incentivava os soldados à valentia no combate, já que, ao menos teoricamente, não deviam ter medo de morrer. Era tradição entre os druidas que as noites precediam os dias, de modo que seu calendário era regulado pelo número de noites e não de dias, e os meses e outros períodos sempre tinham início ao anoitecer. Investigavam e ensinavam sobre suas divindades, sobre geografia, sobre aves e animais, sobre os corpos celestes e seu movimento no espaço. À semelhança de muitos outros povos do passado, a nascente investigação científica dos gauleses vinha acompanhada de uma procissão de superstições.
Sendo muito respeitados, os druidas eram também reconhecidos como juízes em questões civis, de modo que anualmente, reuniam-se em lugar considerado sagrado, para mediar disputas de fronteiras, questões relacionadas à repartição de heranças, e mesmo quanto às sentenças na eventualidade de crimes, como assassinatos, por exemplo. Era tamanha a autoridade dos druidas que, aquele que se recusasse a obedecer às suas ordens, era virtualmente excluído da sociedade.
Naturalmente, para evitar porfias entre os próprios druidas (seria um terrível escândalo...), um deles era considerado líder supremo, sendo, quando morria, substituído por outro cuja autoridade e conhecimento fossem reconhecidos por todos. Senão... Senão, as informações de Júlio César nos dão conta de que a escolha podia ser feita por uma votação. Se, ainda assim, o caso não se resolvesse, a disputa podia chegar ao uso da força. Parece, no entanto, que isso não era frequente.
Além do respeito que tinham do povo das Gálias, os druidas, por seu caráter sacerdotal, alcançavam uma série de vantagens. Dentre elas, mencione-se que estavam isentos de impostos e desobrigados do serviço militar. Não era pouco.
A função de druida envolveria um aspecto terrível de suas crenças religiosas - sacrifícios humanos. César observou que, quando os gauleses pediam aos deuses a cura de uma pessoa doente ou ferida em combate, supunham que somente seriam atendidos se sacrificassem um outro ser humano. Ou seja, era uma vida pela outra. Criminosos eram sempre candidatos a esses sacrifícios, mas, na falta deles, uma pessoa em absoluto inocente podia ser "eleita" para morrer. Eventualmente, várias pessoas, colocadas dentro de representações ocas de deuses (feitas de juncos ou algo parecido) eram queimadas vivas. Ufa!...
A título de complemento, animais capturados nas guerras também eram sacrificados aos deuses.
Júlio César, enquanto comandou tropas romanas na Gália, teve oportunidade de conviver com líderes gauleses, de modo que, até certo ponto, pode-se confiar nas informações que deixou. Era, porém, um romano, e como romano é que interpretava o que observava. Estabeleceu, por exemplo, uma correspondência entre os clássicos deuses greco-romanos e as divindades gaulesas: Mercúrio seria o guia dos viajantes, Apolo responsável por curas, Minerva a padroeira dos artesãos, e assim por diante.
Não se pode menosprezar o fato de que algumas de suas opiniões eram filtradas pelos conceitos religiosos que ele mesmo tinha. Mandava cartas ao Senado romano, a fim de expor o andamento da guerra. Tinha todo o interesse em valorizar o inimigo, já que as vitórias soariam maiores aos distantes ouvidos senatoriais. César, afinal, era César, um político hábil e matreiro. Não devemos desconsiderar esses fatos quanto lemos os escritos que deixou. Se não fossem eles, todavia, saberíamos muito menos sobre a gente que, no primeiro século antes de Cristo, habitava as nevoentas florestas das Gálias.


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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os bárbaros suevos

Nos dias de Júlio César, os suevos eram, dentre todos os povos germânicos, os mais valentes e os mais numerosos. Pelo menos é assim que eram descritos pelos romanos. Não é à toa que, sempre que se pensava em enfrentá-los, os soldados romanos percebiam que estavam diante de um verdadeiro desafio.
Pelo que o próprio César relatou em De Bello Gallico, podemos ter uma boa ideia dos costumes vigentes entre os suevos. Vai aqui uma pequena lista deles:
- Praticavam um sistema de revezamento entre trabalho agrícola e serviço militar, de modo que aquele que era soldado em um ano, no seguinte ficava trabalhando com a família;
- As terras não eram propriedade fixa de ninguém e, por isso, a família que cultivava uma determinada área em um ano, era transferida para outra no ano seguinte;
- Em decorrência de safras de grãos reduzidas, os suevos usavam, como principais alimentos, muita carne e leite;
- Eram grandes apreciadores da caça;
- Vestiam-se de peles (percebem, leitores, que vários costumes estavam interligados? caça, alimentação com muita carne, roupas de pele);
- Apreciavam banhar-se em rios, mesmo quando a água estava muito fria, e não demonstravam sofrer nenhum incômodo com temperaturas baixas;
- Não eram muito dados a atividades comerciais, já que, de um modo geral, apenas procuravam mercadores quando queriam vender aquilo que haviam conquistado em guerras;
- Gostavam de combater a cavalo (costumeiramente, não usavam arreios nos animais), mas, sendo necessário, eram capazes de lutar também a pé;
- Não gostavam de vinho porque, no seu entender, a bebida tornaria as pessoas menos aptas ao trabalho e à guerra;
- Finalmente, tinham como máximo orgulho que suas fronteiras fossem inteiramente despovoadas - sinal de que haviam sido capazes de vencer e/ou afugentar os vizinhos.
César descreveu os suevos do primeiro século antes de Cristo, época em que viviam em território da atual Alemanha. Mais tarde acabariam migrando, de modo que muitos deles foram estabelecer-se no norte da Península Ibérica.
Nos dias de César, o exército romano era forte o bastante para manter os bárbaros em respeito. Viria o tempo, porém, em que o Império Romano, enfraquecido, acabaria por fragmentar-se. As razões para isso são numerosas, mas, entre elas, figuram as invasões bárbaras, e os suevos tiveram sua parte nesses acontecimentos.


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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Gauleses novidadeiros

Novidadeiros e novidadeiras de plantão: leiam isto e vejam como se comportavam seus equivalentes da Antiguidade!
"É costume entre os gauleses obrigar a todo viajante, quer ele queira, quer não, a parar entre eles para relatar as novidades; fazem o mesmo aos mercadores quando chegam às suas povoações, já que o povo os cerca e passa a interrogá-los insistentemente para que digam de que região vieram e o que sabem de lá. Ocorre, por vezes, que apenas com base nesses rumores, decidem assuntos muito relevantes, o que os leva, logo, a que se arrependam, já que, apenas para não desagradá-los, os viajantes lhes respondem alguma coisa." (*)
Foi ninguém menos que Júlio César - o romano do Primeiro Triunvirato - quem escreveu o trecho acima, em De Bello Gallico, explicando o quanto os gauleses, por amor às novidades, chegavam a ser importunos, cada vez que um viajante se aproximava. Porém, se não queremos ser injustos com os habitantes das Gálias no primeiro século antes de Cristo, devemos assumir que, naquele tempo, eram poucas as pessoas que viajavam e, portanto, poucas também as oportunidades para que populações sedentárias ou mesmo seminômades se pusessem bem informadas. É certo que a visita de um mercador, que corria o mundo comprando em um lugar para vender em outro, não podia de modo algum ser desperdiçada. Salvo alguma (tenebrosa) exceção, coisa semelhante devia ocorrer com muitos outros povos e culturas da Antiguidade, quando se desejava saber um pouquinho do que acontecia em lugares remotos.

(*) CÉSAR, Caio Júlio. De Bello Gallico. Tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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