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quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Impacto das catástrofes naturais na Antiguidade

Algumas catástrofes naturais são previsíveis, enquanto outras, ainda não. É possível, atualmente, prever quando um furacão está a caminho, de modo que a população pode ser deslocada a tempo de que, pelo menos, não se percam muitas vidas humanas. Mas não existe, ainda, uma previsão confiável e exata de quando e onde um terremoto ocorrerá. 
A maioria dos países tem, em nossos dias, algum tipo de estrutura devidamente estabelecida para uma resposta rápida em caso de ocorrência de uma catástrofe natural. Há pessoal treinado para o resgate de feridos, para assistência médica e para a pronta reconstrução de prédios e vias públicas, se necessário. Mas não era assim na Antiguidade.
Catástrofes naturais eram, quase sempre, atribuídas pelos antigos à fúria dos deuses, fosse por se desagradarem com a conduta humana ou simplesmente porque, poderosos, extravasavam a raiva e irritação, com motivo ou sem ele, sobre os pobres mortais. O certo é que o estágio tecnológico em que se encontravam os diferentes povos da Antiguidade inviabilizava uma resposta imediata às catástrofes, com o agravante de que, como as notícias se deslocavam tão lentamente como lentos eram os transportes, dificilmente se poderia esperar ajuda que viesse de áreas não atingidas.
Em consequência, uma grande catástrofe podia, até, conduzir à destruição de um povo ou à desintegração de uma cultura. Para comprovação desse fato basta considerar o que aconteceu com a civilização minoica em Creta, ou com a ilha de Tera pela erupção do vulcão Santorini.


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segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Regras de higiene para sacerdotes no Egito Antigo

A camada sacerdotal do Egito Antigo tinha muitíssimos privilégios. Detinha a propriedade de terras, não estava sujeita a impostos e sua condição era hereditária. Não era incomum que, com tantas vantagens, os sacerdotes procurassem exercer algum controle sobre os faraós, como modo de assegurar que não haveria mudanças em sua posição. 
Ser sacerdote, porém, significava ter de viver sob o cumprimento de uma multidão de regulamentos, que incluíam práticas de higiene bastante rígidas para os padrões da Antiguidade, e dentre as quais podem ser citadas:
  • Os sacerdotes deviam remover todos os pelos do corpo a cada três dias, tarefa que devia ser pouco agradável, se considerarmos os instrumentos disponíveis para isso;
  • Seus banhos somente poderiam ser feitos em água fria, e deviam ocorrer, obrigatoriamente, duas vezes por dia e duas vezes por noite, não importando se fazia frio ou calor;
  • Somente tinham permissão para vestir roupas de linho, coisa que podia ser muito conveniente em dias quentes, mas um mau negócio quando a temperatura despencava;
  • Finalmente, estavam obrigados a manter as roupas na mais estrita limpeza, lavando-as escrupulosamente, para que nenhuma mancha jamais fosse vista em qualquer peça.

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quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Fogo sagrado

O fogo sagrado foi elemento importante na religião de diversos povos da Antiguidade


Inúmeros povos da Antiguidade tiveram, entre suas práticas religiosas, a conservação do fogo sagrado, cuja origem era atribuída aos deuses ou a algum fenômeno natural, também de origem divina. Segundo palavras de Plutarco, ao traçar a biografia de Numa Pompílio (¹), "entre os povos de várias nações, existiu o costume de conservar, religiosamente, o fogo perpétuo que, em alguns lugares, foi até considerado de origem divina, para ser adorado." (²)
Apesar disso, às vezes o fogo supostamente eterno se apagava. Plutarco apontou, em Vitae parallelae, ter sido o caso em Delfos, durante as guerras contra os persas, porque o templo foi queimado - "o fogo profano extinguiu o sagrado" -, e em Roma, por ocasião da guerra contra Mitridates e também durante as guerras civis. A ira popular não poupou nem mesmo o altar em que ardia o fogo sagrado. 

No Egito

Nos templos dos antigos egípcios, como também nos de muitos outros povos, competia aos sacerdotes a conservação do fogo sagrado. Do templo mais próximo é que as famílias de cada localidade obtinham a chama para o fogo sagrado doméstico. Contudo, o fogo familiar não era, entre os egípcios, algo que se deveria manter aceso a qualquer custo. Era intencionalmente apagado quando alguém da casa morria, e depois aceso novamente, uma prática facilmente explicável pelas crenças dos egípcios quanto à vida após a morte. Procedimento semelhante ocorria a cada ano, quando se fazia a celebração geral em memória dos mortos.

Na Grécia

Os antigos gregos, ao menos em algumas localidades, além do fogo sagrado nos templos, tinham, por tradição, uma festa em que se acendiam fogueiras em algum lugar especial consagrado aos deuses. Nessas fogueiras eram oferecidos sacrifícios de animais, além de simulacros de pessoas - uma lembrança, talvez, dos sacrifícios humanos, felizmente assim substituídos por bonecos. 
No processo de expansão territorial que levou à formação da Magna Grécia, grupos de gregos deixavam uma localidade já insuficiente para a população e iam formar uma colônia. Na partida, levavam consigo o fogo que haviam acendido no templo da cidade de origem, e que deveria, na nova povoação, ser aceso no templo que se construísse, como um símbolo do vínculo perpétuo entre as cidades. 

Em Roma

As famílias patrícias de Roma conservavam, não só por religião, mas como fator de distinção social, um altar doméstico em cujo fogo eram oferecidos alimentos, supostamente para os ancestrais mortos, e diante do qual também se realizavam outras cerimônias. Na religião do Estado, porém, competia às vestais a conservação do fogo sagrado. No dizer de Plutarco, foi Rômulo, o lendário fundador da cidade, quem ordenou que "às virgens vestais competisse a manutenção permanente do fogo sagrado, embora muitos autores [romanos] tenham atribuído a consagração do fogo a Numa Pompílio." (³) 

(1) O segundo rei lendário de Roma, de quem se dizia ser um homem extremamente sábio e religioso.
(2) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid. 


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quinta-feira, 21 de outubro de 2021

A participação dos deuses na escolha do segundo rei de Roma

Numa Pompílio é considerado o segundo rei de Roma. É um dos "reis lendários", assim chamados porque, sobre eles, não se tem muita documentação. É provável que esses reis tenham existido, mas os autores que escreveram sobre eles fizeram uso de fontes que nem de leve chegavam perto, em suas origens, ao tempo em que se supõe que tenham vivido.
Após esse preâmbulo, falemos de Numa e de como chegou a ser rei em Roma, apesar de ser sabino, e não romano. De acordo com Plutarco (¹), Rômulo morrera em condições suspeitas (²), e a desordem reinava naquela que seria, dentro de alguns séculos, a cidade mais importante do mundo mediterrânico. Naquele tempo, porém, não passava de uma aldeia à beira do caos. Tendo discutido quem deveria ser o novo mandatário, os cidadãos mais influentes teriam chegado a um acordo quanto a chamar Numa Pompílio para o cargo, por ser considerado pessoa religiosa, de boa índole e com muita afeição à filosofia, a cujo estudo se dedicava desde que enviuvara.
Lá se foram os representantes de Roma a chamá-lo. Viria? Como mandavam os bons modos, recusou, a princípio, mas acabou sendo convencido pelo pai idoso a aceitar o cargo. Sua chegada a Roma foi acompanhada de grandes festejos, mas, reunida toda a população em praça pública, Numa Pompílio recusou as insígnias reais, alegando que os deuses ainda não haviam manifestado aprovação para sua escolha como monarca.
Pode-se imaginar que tudo não passava de encenação para convencer os belicosos romanos. Porém, segundo Plutarco, os sacerdotes e adivinhos, gente que se supunha ter boa relação com os deuses, foram chamados para mostrar o que devia ser feito. Levaram Numa até o Capitólio e lá, com o cerimonial apropriado (Numa foi coberto com um véu, enquanto um dos sacerdotes conservava a mão sobre sua cabeça), pediram que, mediante o voo ou canto das aves, os deuses mostrassem se lhes agradava a escolha daquele rei. Lembrem-se leitores: havia, para os romanos, aves favoráveis e desfavoráveis, e o comparecimento de umas ou outras era visto como sinal enviado pelas divindades. Vamos ao que disse Plutarco:
"Fez-se grande silêncio [...], esperando que os deuses manifestassem um sinal favorável [...]. Estando todos com os olhos no céu, viram voar aves que indicavam aprovação à direita de Numa, ao que se declarou ser [sua escolha como rei] a vontade dos deuses, e com essa aprovação do céu a alegria foi ainda maior. Após essa manifestação [dos deuses], Numa aceitou as insígnias reais [...]." (³)
Desde então, Numa Pompílio passou a exercer o governo da cidade. Nas palavras de Tito Lívio (⁴), "tão logo começou a reinar, dedicou-se a edificar novamente, desde os alicerces, o direito, as leis e costumes daquela cidade que com força e armas se fundara" (⁵).
Não se pode afirmar, meus leitores, que tudo se passou exatamente assim. Talvez Plutarco, Tito Lívio e outros autores tenham romanceado um pouco a vida de Numa, incidindo em uma tentação que não é incomum, quando se trata de assuntos remotos. Um fato, todavia, salta aos olhos: era desse modo que os antigos romanos davam fim às suas dúvidas. Pediam um palpite aos deuses, a quem, afinal, podiam culpar, se os acontecimentos subsequentes não fossem tão bons quanto esperavam. 

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) Cf. PLUTARCO. Vitae parallelae.
(3) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) 59 a.C. - 17 d.C.
(5) LÍVIO, Tito. Ab urbe condita libri. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 22 de julho de 2021

Para entender as religiões do passado

Povos do passado desenvolveram uma infinidade de crenças a que poderíamos dar o rótulo de religiões. Contudo, quem quiser entender corretamente as ideias que, a esse respeito, moravam na cabeça dos antigos, precisa pôr de lado alguns conceitos que nós, ocidentais do Século XXI, comumente associamos à divindade, independentemente das crenças que temos ou deixamos de ter. Estes são alguns aspectos importantes que devem ser considerados:

1. Deuses nem sempre eram descritos como eternos
Em algumas mitologias - mitologias para nós; para os povos do passado, eram religião -, os deuses eram imortais, mas tinham um começo ou nascimento. A mitologia grega se encaixa muito bem neste caso.

2. Nem todos os deuses eram imortais
Por mais estranho que possa parecer, havia deuses que, não somente tinham um começo, como também morriam. Tome-se, como exemplo, o caso de Osíris, do Egito Antigo, que foi morto e esquartejado por seu invejoso irmão, ou de Tamuz, cultuado na Palestina e Mesopotâmia, que morria e ressuscitava anualmente, executando um ciclo que tem sido interpretado como uma associação às estações do ano.

3. Nem todos os deuses eram oniscientes
Como não sabiam, por si mesmos, de tudo o que se passava no mundo, deuses precisavam de informantes - era o caso dos famosos corvos de Odin, na mitologia nórdica. Por outro lado, deuses às vezes tinham um porta-voz, encarregado de levar recados à humanidade, como sucedia com Mercúrio, entre os romanos.

4. Deuses nem sempre eram considerados onipotentes
A maioria dos deuses da Antiguidade era especializada em alguma tarefa, controlava apenas um aspecto da vida ou ainda um fenômeno da natureza, não tendo poder além disso. A variedade, neste ponto, é tão grande, que seria injusto citar exemplos. Basta lembrar que havia deuses da terra, deuses do mar, deuses do mundo dos mortos, deuses das tempestades, deuses que atuavam como protetores de determinadas profissões e assim por diante.

5. Deuses nem sempre eram seres muito virtuosos
Brigas familiares, inveja, ciúmes, adultério, ódio, assassinatos, tudo isso fazia parte da maioria das mitologias. Em alguns casos, como acontecia em relação à mitologia grega, as contendas levavam os deuses a dar palpites e introduzir suas divergências nos acontecimentos humanos. Quem já leu a Ilíada sabe o que isto significa.

6. A jurisdição de cada deus se restringia ao território em que era adorado
O conceito de religião universal foi desconhecido para a maioria dos povos da Antiguidade. Esperava-se que um deus ou deusa protegesse quem vivia no território a ele ou a ela correspondente. Quando os humanos iam à guerra, muitas vezes entendiam que, para além do mundo visível, seus deuses lutavam com eles e por eles. Em consequência, a vitória de um povo era sempre atribuída ao maior poder das respectivas divindades. Ao dominar outro povo, vencedores entendiam que estavam dominando, também, os deuses dos inimigos.

7. Deuses dependiam da assistência humana para comida, bebida e tudo quanto precisavam
Adeptos de muitas ideias religiosas entendiam ser seu dever oferecer aos deuses alimentos, como carne e pão, e bebidas, como vinho ou cerveja, para mantê-los felizes e dispostos a ajudá-los. Essas práticas podiam acontecer no âmbito doméstico, como faziam os romanos no culto de seus antepassados, ou mediante verdadeiras instituições, amplamente apoiadas por monarcas - era o caso da camada social dos sacerdotes no Egito Antigo, com seus muitos privilégios, mas com o dever de cuidar de todas as necessidades materiais dos deuses, fossem eles representados por estátuas ou seres vivos, como os touros e crocodilos sagrados. Suas numerosas exigências deviam manter a elite sacerdotal bastante ocupada.


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quinta-feira, 27 de maio de 2021

Algumas interpretações para o mito de Osíris

Osíris e Ísis (*)
É difícil contar um mito que tem versões quase infinitas. Façamos uma tentativa: Osíris era rei do Egito, sábio e capaz, tendo introduzido entre seus governados o conhecimento de diversos ofícios. Era, portanto, muito amado, a não ser por seu irmão Seth, sujeito perverso que ambicionava o trono. Astuto, Seth acabou matando Osíris, mas Ísis, sua mulher, depois de muitas aventuras, conseguiu recuperar o caixão no qual estava o corpo do marido. O malvado Seth, procurando impedir alguma tentativa de ressurreição, retalhou o corpo do irmão em incontáveis fragmentos, que espalhou por toda parte. A despeito disso, Ísis conseguiu trazer Osíris de volta à vida, mas foi Horus, filho do casal, quem finalmente derrotou Seth, afugentando-o para longe do Egito. Ufa!...
Mesmo com as muitas variantes que tinha, conforme a região e época em que era contado, o mito de Osíris foi, de longe, o mais destacado do Egito Antigo. Como interpretá-lo? Dentre as possibilidades que se têm levantado, vale a pena considerar:
  • A morte e ressurreição de Osíris seria uma referência poética ao Nilo que, anualmente, transbordava e depois voltava ao curso habitual, deixando, atrás de si, a terra fertilizada para uma nova estação agrícola;
  • Osíris e Seth podem ter sido divindades cultuadas previamente por tribos rivais, cuja luta humana teria sido elevada à categoria de confronto entre deuses;
  • Era habitual que, antes do início de um ano agrícola, um sacrifício fosse oferecido nos campos em honra dos deuses, de modo que o animal sacrificado era retalhado e espalhado pela terra - o mito de Osíris seria uma reminiscência desse costume;
  • Uma última interpretação, cronologicamente mais próxima - Osíris seria uma personificação dos egípcios em luta contra invasores estrangeiros de origem asiática, representados por Seth, enquanto Horus seria a representação da dinastia que expulsou os asiáticos e restabeleceu um governo verdadeiramente egípcio.
Qual dessas interpretações é a melhor? Todas, ou talvez nenhuma... Isso ainda é assunto que rende muito debate.

(*) BUDGE, E. A. Wallis. The Gods of The Egyptians vol. II. London: Methuen & Co., 1904. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 15 de abril de 2021

Zeus

Zeus foi assim representado na Antiguidade (¹)
No panteão greco-romano, Zeus (Júpiter) era o mais importante dos deuses. Não era, porém o primeiro. Fora gerado por Cronos, o tempo, que, por sua vez, era filho de Urano. A mitologia associada a essa pérfida árvore genealógica é de tirar o fôlego. Incitado pela mãe, Cronos castrou o pai e, a seguir, tornou-se um devorador dos próprios filhos. Um escapou de sua voracidade - era o pequeno Zeus - que, mais tarde, acabaria destronando o pai, para assumir o controle supremo de tudo à sua volta.
"Ninguém é capaz de contrariar a vontade de Zeus", disse o poeta Hesíodo em Os Trabalhos e os Dias.
Compostas e espalhadas oralmente, as lendas da Antiguidade ofereciam um arsenal de explicações para a sobrevivência de Zeus, ante a fúria devoradora de Cronos. Uma delas, de ampla circulação, assegurava que fora levado à ilha de Creta pela avó e que lá fora criado por uma cabra chamada Amalteia (²). Cronos não devia, portanto, ser assim tão poderoso, já que era passível de ser enganado. De qualquer modo, o menino Zeus sobreviveu e cresceu, fez-se adulto e casou-se com Hera, uma deusa com quem teve filhos (ainda que não só com ela). Estava nos seus hábitos relacionar-se também com ninfas e humanas, mesmo que, para isso, precisasse adotar algum disfarce. Para raptar a bela Europa, por exemplo, que andava junto ao mar, apareceu sob a forma de um touro muito gentil. Dizia-se, na Antiguidade, que dessa união nascera Minos, célebre rei de Creta, personagem que, na mitologia, esteve, curiosamente, sempre ligado a touros (³). Já para a nobre Leda, princesa da Etólia, Zeus se apresentou sob a forma de um cisne...
Por que havia tantas versões para a lenda de Zeus?
É preciso lembrar que tudo isso é lenda para nós; para os antigos gregos, era parte de suas crenças religiosas, cuja variedade talvez se explique pelas migrações, viagens frequentes e contato com diferentes culturas, resultando, com o correr do tempo, em amálgama de relatos. A sistematização das ideias sobre os deuses é fenômeno posterior. Hesíodo, o poeta grego já citado, foi responsável por parte disso em sua Teogonia, possivelmente composta para recitação, e só mais tarde fixada na forma escrita.

(1) BRUNN, Heinrich. Griechische Götterideale. München: Verlagsanstalt für Kunst und Wissenschaft, 1893, p. 98. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Deuses e grandes homens criados por animais foram um tema frequente na Antiguidade. Lembram-se, leitores, da loba que teria cuidado de Rômulo e Remo?
(3) Não se esqueçam do Minotauro!


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quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O Mediterrâneo foi uma via de fusão e irradiação de culturas na Antiguidade

No modo como jovens estudantes são, às vezes, apresentados aos povos da Antiguidade, pode-se ter a impressão de que egípcios, gregos, romanos, fenícios, hebreus, entre outros, viviam, cada um, em isolamento em relação aos demais. Teriam, portanto, cultura própria e exclusiva, quanto à língua, vestuário, escrita, religião, arquitetura, atividades econômicas e quase tudo quanto se possa imaginar. Ora, leitores, acontecia exatamente o contrário.
Embora o grau de intercâmbio entre os diferentes povos tenha variado de uma época para outra, pode-se, em linhas gerais, dizer que o mar Mediterrâneo foi, na Antiguidade, uma poderosa via de comunicação, que resultou em irradiação cultural e em fusão de ideias, a tal ponto que, para quem se dedica ao estudo dos povos estabelecidos ao seu redor, fica às vezes difícil determinar a origem de certos elementos. Querem um exemplo? Vamos ao mais simples. É comum que se diga que nosso alfabeto teve origem entre os fenícios. Será, mesmo? Há quem pense que pode ter começado na confluência de rotas terrestres que ligavam a Mesopotâmia à Palestina e, daí, alcançavam o Egito. Os fenícios, hábeis comerciantes, logo perceberam a vantagem de uma escrita alfabética, muito mais simples e fácil que os hieróglifos egípcios, e, apropriando-se dela, espalharam-na pela bacia do Mediterrâneo, durante suas incansáveis viagens de negócios. Não era preciso pertencer a uma classe sacerdotal ou ter a profissão de escriba para aprender umas poucas letras e fazer uso delas
Especialistas têm-se dedicado à análise do verdadeiro emaranhado de deuses que povos do Mediterrâneo, quase todos politeístas, desenvolveram. É inegável a equivalência entre muitas divindades, ainda que a mais clássica de todas as semelhanças, a dos gregos e romanos, seja alvo de questionamentos. Sabe-se, porém, que, nos primórdios, era generalizada a associação de divindades com forças da natureza, cujo culto, não raro, estava vinculado ao ciclo agrícola anual. Em termos práticos, variava o nome de deuses e deusas, mas os mitos guardavam semelhança e os rituais a eles associados também evidenciavam, ou uma origem comum, ou a inspiração em práticas alheias.
O intercâmbio cultural não foi, contudo, sempre de ordem pacífica. As guerras foram parte desse processo, resultando, eventualmente, em dominação de um povo por outro, mais forte militarmente, mas nem sempre superior quanto aos conhecimentos científicos, à arte ou à tecnologia. Atenas foi vencida por Esparta, a até então obscura Macedônia dominou cidades gregas poderosas e Roma subjugou a Grécia. Mas, como se sabe, a cultura grega exerceu tal encanto sobre os vitoriosos que, em pouco tempo, a elite romana passou a aprender grego e a imitar a arte grega em seus múltiplos aspectos. O maior confronto, no entanto, ao menos em se tratando de consequências, parece ter ocorrido entre Roma e Cartago, esta última, um poderoso império comercial sediado no norte da África. Não havia lugar para dois impérios tão próximos. Roma venceu e eliminou Cartago da concorrência.


quinta-feira, 9 de abril de 2020

Domiciano, "nosso senhor e deus"

Ao ditar um documento oficial, o imperador Domiciano começou: "Nosso senhor e deus assim ordena..." Falava de si mesmo, é claro. Que audácia! E, de acordo com Suetônio (¹), desde então ficou entendido que competia a todos chamá-lo por esse modo, quer de viva voz, quer por escrito. 
Domiciano era filho de Vespasiano e irmão de Tito, imperadores precedentes. Esteve à frente do Império entre os anos 81 e 96 d.C., época em que tratou de centralizar o poder, afastando o Senado, tanto quanto possível, da esfera decisória. Ao menos nas aparências, foi um adepto decidido das antigas tradições romanas, inclusive no que tange à religião - fazendo-se incluir no conjunto de divindades que deveriam ser adoradas.
Augusto, imperador entre 27 a.C. e 14 d.C., não só recusou ser chamado "senhor", como proibiu que o mesmo tratamento fosse dado a seus familiares (²). Entende-se que o Império, em seu tempo, era algo novo, e dificilmente Augusto se sentiria seguro e confortável para receber um título que remetia ao panteão de deidades. Os romanos tinham ódio à realeza, suprimida entre eles para dar lugar à República, e não era conveniente oferecer a mais tênue impressão de que pretendesse ser rei. 
Não obstante, depois da morte, Augusto passou a ser honrado como "divo", e, portanto, contado entre os deuses. O mesmo sucedeu com outros imperadores. A Tibério, seu sucessor, ofereceu-se a condição de deus em vida, pretendendo-se, para isso, o estabelecimento de templos e sacerdócio específico; contudo, o imperador recusou tal honra, e, ainda conforme Suetônio (³), somente permitiu que lhe dedicassem estátuas que não fossem colocadas em recintos consagrados a práticas religiosas. Aliás, foi além, recusando mesmo ser chamado "Imperator" e "Dominus".
Imperador Domiciano (⁵)
Mas veio Calígula, e, com ele, a deificação do imperador vivo ganhou força. Fez substituir a cabeça de deuses pela sua em esculturas gregas (⁴), e, colocado entre Castor e Pólux, admitiu ser cultuado. O caminho estava limpo para que, alguns imperadores mais tarde, Roma aceitasse sem muito questionamento que Domiciano exigisse o título de "senhor e deus". Para os romanos que, por esse tempo, viam na religião apenas uma prática tradicional e/ou um dever patriótico, a mania do imperador metido a deus talvez não soasse coisa muito ofensiva. Para as minorias adeptas de outros conceitos religiosos, a situação era difícil e até perigosa. A recusa em reconhecer a divindade do imperador ou em oferecer sacrifícios aos deuses por sua prosperidade e longevidade podia resultar no confisco dos bens (⁶) e na sentença de morte.

(1) Cf. SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro VIII. 
(2) Ibid., Livro II.
(3) Ibid., Livro III. 
(4) Ibid., Livro IV.
(5) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. 
Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 220. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(6) Uma prática nada incomum em Roma, sempre que imperadores perdulários procuravam um pretexto para refazer as finanças debilitadas. Afirma-se que Calígula, por exemplo, não precisou de mais de um ano para gastar toda a fortuna acumulada por Tibério, seu antecessor.


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Saturnália

O mês de dezembro era época de grandes festas em Roma, dentre as quais se destacava a Saturnália, porque nela, em honra do deus Saturno, os romanos se viam livres de muitas regras e convenções sociais. Embora tenha existido alguma variação quanto à data de início e à duração, essa festa começava geralmente no dia 17, prolongando-se por três dias, ao menos - muitos celebravam-na por toda uma semana. Diversões proibidas no restante do ano eram toleradas, a moralidade pública se afrouxava e grandes banquetes, com troca de presentes, eram realizados.
Não se deve esquecer que, apesar de tudo, a Saturnália era festa religiosa, com sacrifícios em honra de Saturno, pontualmente oferecidos. Afirmando-se, também, que o derramamento de sangue era agradável ao deus, faziam-se grandes espetáculos de gladiadores. O trabalho era posto de lado, a plebe delirava. Tentativas de encurtar os festejos nunca foram recebidas com satisfação.
César Augusto, que governou Roma entre 27 a.C. e 14 d.C., via em cada Saturnália a oportunidade perfeita para deslumbrar os romanos com os presentes que oferecia: moedas raras e antigas, vestuário de luxo, objetos de ouro e prata, conforme afirma Suetônio em De vita Caesarum. Mas, como a festa continha um lado burlesco, o imperador se divertia, presenteando, também, objetos de pouco valor, e até ridículos.
Afinal, a Saturnália acabava, e tudo voltava ao normal. A hierarquia social era restabelecida sem traumas, os escravos continuavam escravos, a elite desfrutava, como sempre, de muitos privilégios. Assim era Roma.


terça-feira, 24 de setembro de 2019

Quem era Hera

"Que é a atribuição de vícios aos deuses, que não um modo de incentivar sua prática e dar a eles uma desculpa aceitável?"
Sêneca, De brevitate vitae

Não se irritem com o título, leitores: tenho o direito de bulir com as palavras. Na mitologia grega, Hera era casada com Zeus (¹). Esse casal olímpico estava, porém, muito longe de ser um exemplo de felicidade conjugal: Zeus era descrito na mitologia como um incansável adúltero, e Hera (talvez por consequência), como uma ciumenta incorrigível. Que poderia resultar disso? Para os antigos gregos, cada vez que uma grande calamidade natural acontecia - um terremoto, por exemplo - era porque, lá no Olimpo, Zeus e Hera estavam discutindo...
Uma dentre muitas lendas associadas a esse casal briguento fazia menção à ilha de Lemnos, que se acreditava ser o local dos fornos que Hefestos (²) usava para trabalhos em metalurgia, arte em que era perito. Acontece que Hefestos, vendo Hera, sua mãe, ser maltratada por Zeus, que a havia pendurado no céu com uma corrente de ouro, resolveu agir, libertando-a. Em consequência, recebeu um horrendo pontapé de Zeus, suficiente para que fosse arremessado em Lemnos. Ao cair, teve uma perna fraturada e, por isso, mancava continuamente. Outras versões, igualmente antigas, tinham explicações diferentes para o problema de Hefestos.
Vejam, leitores: não é improcedente a ideia de que, na Antiguidade, havia aqueles que colocavam suas próprias características nos deuses que cultuavam. Em alguns episódios da mitologia, divindades olímpicas não eram exemplos do que havia de mais virtuoso entre os homens. De qualquer modo, Hera também foi reverenciada pelos gregos como a deusa da fidelidade conjugal. Seu templo mais célebre era o de Argos, no Peloponeso.

(1) Em Roma, Juno e Júpiter, respectivamente, ainda que a correspondência entre divindades gregas e romanas seja algo discutível. 
(2) Vulcano, para os romanos.


terça-feira, 17 de setembro de 2019

O culto ao Sol na Antiguidade


Se há um elemento recorrente nas crenças religiosas de muitos povos da Antiguidade, esse é, sem dúvida, a existência de alguma espécie de culto ao Sol. É certo, porém, que cada povo atribuía a seu deus-sol as características que mais valorizava. Exemplificando: em uma inscrição assíria encontrada em um templo em Nimrud, a divindade é descrita como "o deus-sol, devastador e desolador". Para quem conhece a fama dos assírios, não é preciso dar explicações.
Na teocracia egípcia, faraós apreciavam ser descritos como filhos de Ra, ainda que, eventualmente, a megalomania levasse os governantes a se declararem a própria encarnação da divindade... Além disso, recebiam culto como se, de fato, fossem deuses. Entre os povos da Mesopotâmia, Shamash, invocado também sob outras designações, foi reconhecido como deus-sol desde tempos remotos, algo próximo de 4000 a.C. Já veem os leitores que, se quisermos fazer uma lista de deuses identificados com o Sol, não faltará assunto, ainda que acabe a paciência para tantos nomes.
Plínio, o Velho (¹), o notável enciclopedista romano, tentou explicar assim a divinização do Sol: 
"Considerando tudo o que ele afeta, devemos crer que o Sol é a própria alma, ou, com mais exatidão, a mente do universo, a máxima divindade que governa a natureza. Ele provê o universo com luz e desfaz as trevas, ele escurece e ilumina as estrelas em seu repouso, ele comanda a marcha das estações segundo o costume da natureza e seu contínuo renascer a cada ano (²), ele desfaz a tristeza e tranquiliza as nuvens de tempestade que se formam na mente humana, sua luz alcança as demais estrelas [...]." (³)
É fato que no Século I os deuses já não desfrutavam do prestígio que tinham nos centênios precedentes, sendo possível, contudo, que Plínio quisesse contemporizar (⁴), não dando margem a alguma acusação de desrespeito para com a religião do Estado. Pelo que se infere de seus escritos, Plínio via a natureza como a grande e única divindade. Chama a atenção, porém, que ele assinalasse, corretamente, o efeito da luz solar sobre o humor dos seres vivos. Por conveniência ou desconhecimento, razão e superstição foram forçadas ao convívio. Não parece, sob esse aspecto, que a humanidade tenha mudado tanto nos dois últimos milênios.

(1) 23 d.C. - 79 d.C.
(2) Com a chegada da primavera.
(3) PLÍNIO, O VELHO. Naturalis historia Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Fazendo, ao que parece, uma alusão ao Sol Invictus, divindade cultuada pelos soldados romanos.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Por que animais eram cultuados no Egito Antigo

Deuses egípcios eram frequentemente representados com cabeça de animal e corpo humano. Toth (¹), por exemplo, tinha cabeça de íbis, Anubis tinha cabeça de chacal, Horus tinha cabeça de falcão e Hathor era, nem mais e nem menos, que a deusa de cabeça de vaca. Chama-se a isto antropozoomorfismo. Letras demais? Talvez, mas o significado é simples: representação de um deus ou deusa com corpo parcialmente humano e parcialmente animal. É só.
Horus, aqui representado
com cabeça de falcão (³)
A explicação mais plausível para tal fenômeno não é a de que todo e qualquer animal de determinadas espécies era considerado sagrado, e sim de que os deuses, que tinham a mania de bisbilhotar o que acontecia mundo afora, às vezes faziam visitas aos humanos disfarçados de animais. O resultado dessa ideia é que, não sabendo quando animais eram ou não a encarnação de alguma deidade, ficavam todos sob interdito, para evitar que, por tenebroso equívoco, alguém, pensando acertar em uma caça para o jantar, acabasse matando um deus. 
Para os animais envolvidos na questão, a vida podia ser muito boa. Paparicados por sacerdotes e respeitados pela gente comum, contavam ainda com a proteção de leis que puniam severamente quem atentasse contra eles. Heródoto, que esteve no Egito no Século V a.C., afirmou que, em certos casos, quem matasse um animal considerado sagrado pagava com a vida tamanha perfídia: "É grande infelicidade para um egípcio matar intencionalmente algum desses animais [sagrados], porque a pena para isso é a morte; os sacerdotes arbitram uma multa para quem mata um animal acidentalmente. Entretanto tirar a vida, deliberadamente ou não, de um íbis ou falcão, tem sempre como punição a pena capital." (²) 
O íbis, como já foi dito, poderia ser Toth, e, quanto ao falcão, como assegurar que não fosse Horus? Uma flechada, e lá iria o deus para o espaço - ou melhor, para além do poente, onde ficava o "país de paz perfeita", morada dos mortos bem-comportados. Matá-lo não seria, então, fazer-lhe um favor? Como muitas outras, essa mitologia tinha lá suas contradições.

(1) Buscando alguma uniformidade, adotei nesta postagem a grafia de maior aceitação internacionalmente. Em português também são usuais Tot, Anúbis, Hórus e Hator.
(2) HERÓDOTO. Histórias. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) BUDGE, E. A. Wallis. The Gods of The Egyptians vol. 1. London: Methuen & Co., 1904. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Deuses da Mesopotâmia

Povos de diferentes etnias, falando línguas distintas, viveram na Mesopotâmia na Antiguidade. Apesar disso, compartilhavam o culto a quase todos os deuses. É verdade que, às vezes, um mesmo deus ou deusa era venerado com nomes diferentes, mas, a despeito da variação na nomenclatura, sabemos que se tratava da mesma divindade porque a mitologia associada era muito semelhante. Além disso, não eram poucos os deuses vinculados à guerra, chamados "deus-sol", "deus-lua" (ou "deusa-lua") ou relacionados aos planetas, à fertilidade do solo, ao amor, à procriação, aos fenômenos da natureza. Em se tratando do culto aos deuses, povos da Antiguidade não tinham por hábito economizar nos encômios. Eram títulos e mais títulos, de modo que, às vezes, fica até difícil identificar a que deus, exatamente, se referiam.
Por que isso acontecia?
A antiga Mesopotâmia, em tempos nos quais o nomadismo era bastante comum, foi área de trânsito para muitos povos. Conviviam um pouco, pacificamente ou não, assimilavam algo da cultura alheia e seguiam em frente. O passar do tempo amalgamou elementos às vezes muito diversos, de modo que, com a sedentarização, as diferentes cidades, em se tratando de religião, tiveram muito em comum, ainda que, como regra, cada uma venerasse um deus principal, sem descartar o culto secundário a outras divindades. Portanto, a lista de deuses e deusas que veremos a seguir inclui, sem ser exaustiva, apenas as principais divindades cultuadas por assírios e babilônios (¹). Lembrem-se, leitores, de que havia uma infinidade de outros deuses e deusas. Era politeísmo às últimas consequências.


Relevo assírio retratando uma procissão em homenagem aos deuses (²)

Divindades cultuadas por assírios, babilônios e outros povos da Mesopotâmia


Marduk - Era o deus principal da Babilônia, retratado, muitas vezes, em companhia de quatro cães, embora também representado ao lado de um dragão dotado de dois chifres.  Era relacionado ao nascer do Sol. Sua companheira era Sarpanitu, vinculada ao nascer da Lua e, às vezes, a Vênus.
Ashur - Era cultuado exclusivamente pelos assírios, sendo, portanto, seu deus nacional e protetor da cidade de Ashur, que foi, durante muito tempo, a capital assíria. Representado frequentemente por um círculo dotado de asas, estava relacionado ao sol durante um eclipse.
Nusku - Guerreiro notável, esse deus era particularmente venerado pelos reis assírios. Era também considerado mensageiro de Marduk.
Nebu (ou Nebo, ou ainda Nabu) - Filho de Marduk, era cultuado em Borsipa. Tido como o deus-profeta, patrocinador das ciências, mensageiro dos deuses. Os escribas tinham em Nabu o seu patrono. Sua companheira chamava-se Tasmetu.  
Shamash - Seguramente uma das mais antigas divindades da Mesopotâmia, era o deus-sol (³). Por sua capacidade de iluminar todas as coisas, estava identificado como juiz tanto do céu como da terra. Ele e Aa, sua companheira, eram particularmente venerados em Larsa e Sippar. 
Ishtar - Deusa da criação, também venerada como Nina e, por isso, particularmente relacionada à cidade de Nínive, uma das capitais assírias. Um aspecto curioso de seu culto era a prática das oferendas de peixes. 
Amurru - Foi muito popular nos dias de Hamurabi. Era considerado o deus das montanhas.  
Sin Nannar ou Narnar - deus-lua; cujo principal centro de culto estava em Uru (⁴). Sua companheira era Nin-Uruwa, ou seja, a senhora de Uru. 
Rammanu (ou Rimmon, ou ainda Hadad) - Conhecido como o trovejador, era o deus das tempestades (⁵), vendavais e outros fenômenos correlatos. Sua companheira era Shala. 
Tamuz - Um dos deuses mais antigos e de culto mais amplo, a ponto de exceder os limites da Mesopotâmia. Era retratado como um pastor cuidando de seu rebanho. Sua companheira era Ishtar, deusa do amor e da guerra, cultuada principalmente em Erech e Nínive. Tamuz morria e ressurgia anualmente, sendo, por isso, identificado com a sucessão das estações do ano. 
Nin-Girsu (ou Ninurta) - Era cultuado em Lagash.  Às vezes Identificado com Tamuz, por ser, como ele, deus da agricultura. Bau, a deusa-mãe de Lagash, era sua companheira. 
Nergal - Era o deus do mundo dos mortos, do fogo, da guerra e causador das epidemias. Promovia destruição e, por isso, era invocado quando se esperava que agisse contra os inimigos na guerra. Seu principal centro de culto estava em Kutha, perto de Babilônia. Tinha Eresh-Kigal por companheira.

Relevo assírio em que o rei vitorioso é mostrado sob um círculo alado,
símbolo do deus Ashur (⁶)


A consagração de uma estátua de Nebu na Assíria


Agora, meus leitores, veremos um desses documentos que, escritos em argila, sobreviveram para que soubéssemos como era a consagração da estátua de um deus na antiga Mesopotâmia. 
Foi em 798 a.C.: sob as ordens de um governador provincial assírio, uma estátua de Nebu foi edificada. Não devia ser um monumento qualquer, tendo em vista a grandiloquência de sua consagração, à qual não faltou nem mesmo um recadinho para os que viveriam muito tempo depois:
"Para Nebu, o protetor exaltado [...] que tudo vê, sem limites, o grande, o poderoso [...], cuja autoridade é suprema, mestre das artes, que vê tudo o que acontece no céu e na terra, que tudo sabe e tudo ouve, portador do estilo (⁷) de escriba [...], gracioso e majestoso, capaz de todo conhecimento e adivinhação, amado de Bel, senhor de senhores, cujo poder não tem rival, sem cujo conselho nada se faz no céu [...], ao grande senhor [...], para o bem de Ramman-nirari o rei da Assíria, seu senhor, e para o bem de Sammuramat, senhora do palácio e sua companheira, Bel-tarsi-iluma, governador das províncias de Kalach, Chamedi, Sirgana, Temeni e Yaluna, para que sua vida seja preservada e seus dias prolongados [...], para que haja paz em sua casa e em sua descendência e para que seja livre de toda enfermidade [esta estátua] foi feita e dedicada. Homem do futuro! Confie em Nebu, não confie em nenhum outro deus!"
Quem vivia na Antiguidade quase não tinha controle sobre as doenças, já que as verdadeiras causas das diferentes moléstias eram desconhecidas. A expectativa de vida, por consequência, era baixa e, na busca por cura e sobrevivência, era usual a invocação de divindades. É nesse contexto que se insere a dedicação da estátua de Nebu, homenageado, dessa vez, por assírios, embora fosse, também, estimadíssimo entre os babilônios. É bastante provável que proclamações semelhantes fossem realizadas onde quer que a consagração de um novo templo ou estátua ocorresse entre os demais mesopotâmios.  

(1) A ideia é apenas colocar um pouco de ordem no vastíssimo panteão da Mesopotâmia, venerado por sumérios, acádios, babilônios, assírios, etc.
(2) LAYARD, Austen Henry. The Monuments of Nineveh. London: John Murray, 1853. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Ou um deles...
(4) Também conhecida como Ur.
(5) Quase toda mitologia tem um.
(6) LAYARD, Austen Henry. Op. cit. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(7) Pequeno bastão destinado à gravação da escrita cuneiforme em placas de argila.


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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Negociando com os deuses

Para muitos povos da Antiguidade, os deuses, e não os homens, eram os verdadeiros donos de um território. Assim, em caso de guerra, o confronto armado entre homens era entendido como a parte visível do combate entre deuses. A vitória de um determinado povo seria, portanto, resultado do poderio das divindades correspondentes. Em última instância, os deuses é que venciam ou eram derrotados. Estranho? Sim, para a nossa mentalidade, mas não para assírios, babilônios, hititas, egípcios... E, até certo ponto, mesmo para gregos e romanos. Que se deveria então fazer, sendo preciso enfrentar algum povo, digo, algum deus estrangeiro?
Talvez fosse possível entabular uma negociação com as divindades - é o que se depreende de uma informação dada por Macróbio, um autor que viveu no mundo romano entre os Séculos IV e V. Afirmou ele que, estando Cipião já pronto para o ataque final a Cartago (¹), teria feito uso da seguinte fórmula:
"Deus ou deusa que, por acaso, proteja o povo e a cidade de Cartago: eu te conjuro, pedindo que abandones este povo e esta cidade, e a tutela que exerces sobre suas casas, templos, edifícios públicos e muros, que te afastes daqui, espalhando entre o povo desta cidade o pavor, o medo e o esquecimento. Deus ou deusa, eu te conjuro a vir a Roma conosco, para habitar entre nós em nossas casas, templos, edifícios públicos e muros, sendo guia para o povo romano, para meu exército e para mim, dando a nós capacidade [para vencer]. Prometo, se isso for aceito, oferecer-te templos e jogos [em Roma]." (²)
Meus leitores, que nome daríamos a isto? Tentativa de suborno, corrupção, cooptação, aliciamento, traição?! Como chamar tal proposta? Ao que parece, uma fórmula semelhante era usada sempre que um comandante militar romano estava prestes a liderar a conquista de território estrangeiro. É claro que não sabemos se Cipião estava apenas cumprindo um ritual (³), ou se acreditava, de fato, que era possível negociar com deuses e deusas, mas, de qualquer modo, fica evidente que, em caso de dúvida, julgava ser melhor não deixar de lado tal precaução. Não é por acaso que nos triunfos que homenageavam generais romanos vitoriosos, não somente os monarcas e comandantes vencidos eram, carregados de correntes, arrastados atrás do vencedor, como também as estátuas dos deuses derrotados e outros objetos de caráter religioso eram levados em procissão. Acreditando neles ou não, era conveniente, diante da plebe, que os deuses romanos fossem responsabilizados pela vitória.

(1) 146 a.C.
(2) Saturnalia, Livro III. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Se é que, de fato, proferiu as palavras a que Macróbio alude. Em qualquer caso, a ideia prevalece, porque era tida por admissível para os leitores da época.


quinta-feira, 26 de abril de 2018

As cidades da Mesopotâmia na Antiguidade

Pensem, leitores, naquilo que, para vocês, é parte indispensável de uma cidade: residências, prédios públicos, ruas, avenidas e praças, meios de transporte, estabelecimentos comerciais variados... Moradores, naturalmente. Tenho certeza de que a lista que fizeram tem muitos outros itens, porque os centros urbanos de nosso tempo são extremamente complexos e, muitas vezes, especializados. 
Pensem, agora, no que compunha uma cidade na antiga Mesopotâmia, antes que a Assíria ou a Babilônia viessem a ser impérios dominantes na área - o que encontraríamos nelas? Sim, havia diferenças de uma povoação para outra, mas algumas coisas não podiam faltar:

Templo
Tendo em vista que a vida urbana girava em torno de práticas religiosas, nada poderá exagerar a importância dos templos. Cidades grandes tinham vários deles, mas as pequenas tinham pelo menos um, o que não significa que adotassem ideias monoteístas - um só lugar podia ser centro de culto de vários deuses. Parte da produção local e/ou impostos tinha como destino a manutenção dos locais de culto e dos sacerdotes. Rituais sofisticados só foram possíveis à medida que circunstâncias econômicas possibilitaram que algumas pessoas fossem dispensadas das obrigações normais do dia a dia (¹), tornando-se especializadas na manutenção do culto. A complexidade religiosa podia refletir, assim, o nível de desenvolvimento das forças produtivas.

Palácio
Se a cidade chegava a ser rica e poderosa, podia ter um palácio para residência de seu líder mais importante, a quem chamamos rei. Na antiga Mesopotâmia os reis tinham obrigações civis (como governantes e juízes), deveres militares (sendo, ao menos formalmente, comandantes do exército local) e funções religiosas, sendo reis-sacerdotes, que não eram vistos como deuses e sim como representantes dos deuses, ou figuras capazes de uma conexão entre os humanos e as divindades.

Muro
A existência de uma muralha ao redor de uma povoação era essencial para que fosse considerada uma cidade "de verdade", e não um mero ajuntamento de pessoas. Os muros eram importantes como defesa contra ataques de povos inimigos, contra hordas nômades que pilhavam a produção alheia e, quando construídos junto a um rio, contra eventuais inundações. Os primeiros muros devem ter sido simples e pouco duráveis, mas o uso de materiais resistentes, tais como tijolos, tornaram a proteção razoavelmente eficaz, pelo menos até que máquinas de guerra, como torres e rampas sobre rodas, fossem desenvolvidas, para permitir o acesso de exércitos invasores ao interior das cidades.

Áreas de cultivo
Alimentos são essenciais à sobrevivência de uma população - alguém duvida? Portanto, depois dos muros, mas geralmente fora deles, vinham os campos de cultivo, nos quais trabalhavam os homens livres das cidades e, muitas vezes, também um bom número de escravos, para assegurar um suprimento de alimentos, não só para a população local, mas também para comércio.

Áreas de pastagens
O fato de que a população da Mesopotâmia tenha se sedentarizado não levou ao abandono das atividades pastoris. Elas continuaram a ter papel importante, e muitas cidades tinham, para além dos campos agricultáveis, áreas destinadas a pastagens. O Código de Hamurabi (²) tinha leis que obrigavam os pastores descuidados a compensar o dano que suas ovelhas ou cabras houvessem causado à plantação de alguém, mostrando que campos de cultivo e pastagens podiam estar próximos (às vezes, até próximos demais).

Além de oficinas de artesãos de várias especialidades, toda cidade que se prezava devia ter algum tipo de comércio. Em muitos casos, a recorrência de uma feira de mercadores nômades em certos lugares contribuiu para que ali, gradualmente, se formassem povoações permanentes. Então, o comércio local podia ser fixo - sabe-se que algumas cidades tinham ruas dedicadas exclusivamente à compra, venda e troca de mercadorias - ou mais parecido com uma feira livre da atualidade, com a reunião periódica de comerciantes que iam e vinham de um lugar para outro. À parte disso, o comércio foi importante para o desenvolvimento entre os mesopotâmios de uma forma de escrita (³), já que era imprescindível registrar o que se comprava e vendia, a que preço e em que condições de pagamento. Com a escrita, nascia também a contabilidade, vital em comunidades nas quais impostos já eram cobrados para manter toda a estrutura urbana e administrativa acima referida.

(1) Comunidades sem o mesmo grau de desenvolvimento não tinham, em geral, um grupo de pessoas dedicadas exclusivamente ao sacerdócio; portanto, a autoridade religiosa competia, quase sempre, ao líder da família ou clã. Isto é particularmente verdade em relação às comunidades nômades ou seminômades cuja ocupação predominante estava relacionada ao pastoreio.
(2) Cerca de 1750 a.C.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Em que acreditavam os cristãos que viviam no final do Século II

O Credo Niceno, que só seria formulado em 325 d.C., estava ainda distante quando Tertuliano escreveu sua Apologia, com o propósito de defender os cristãos perseguidos por ordem do Senado romano (¹). No entanto, como estratégia para demonstrar que a perseguição era injusta, Tertuliano tratou de explicar sucintamente quais eram as principais ideias do cristianismo no final do Século II, dentre as quais, leitores, veremos algumas.

O Deus dos cristãos como um ser único e criador do universo

"Nós, cristãos, adoramos a um Deus que, a partir do nada, criou o mundo e os elementos que o compõem [...]. Embora Deus seja invisível, traços dele podem ser vistos nos seres que criou [...]." (²) 
Essa crença era de difícil compreensão para a mentalidade politeísta que predominava no mundo romano. Especulava-se sobre quem, de fato, os cristãos adoravam, e verdadeiros absurdos eram repetidos: as nuvens, uma cabeça de jumento...

Escritos sagrados continham previsões em relação ao futuro

Segundo Tertuliano, acontecimentos previstos nos escritos sagrados dos cristãos já haviam acontecido; portanto, era razoável crer que os que ainda estavam no futuro também viriam a ser realidade:
"Nós, cristãos, cremos no que virá, da mesma forma que no que já aconteceu, uma vez que, junto àquilo que hoje vemos, já está profetizado o que sucederá no futuro. [...].
Será tolice crer que se cumprirá o que ainda falta acontecer, uma vez que já ocorreu e está ainda ocorrendo o que se profetizou?" (²)
Textos considerados sagrados não eram estranhos ao mundo romano, e até se pode dizer que pessoas de certa instrução costumavam mostrar interesse por eles; além disso, nesse tempo, ainda que com algumas restrições, o judaísmo era admitido em Roma, e, fosse por curiosidade ou por qualquer outro motivo, eruditos romanos tinham algum conhecimento da chamada Lei de Moisés. "Digam-me", escreveu Tertuliano, "qual dos poetas ou sofistas deixou de ir beber à límpida fonte dos profetas?" (²)
Por outro lado, embora nos dias de Tertuliano o cristianismo já fosse uma religião distinta do judaísmo, o fato de que compartilhavam alguns escritos sagrados levava, às vezes, a confusões que podiam resultar em problemas.

Cristãos não deviam esconder sua fé

Mesmo sob perseguição, cristãos não deviam usar qualquer artifício para disfarçar sua fé: 
"A nenhum cristão é lícito mentir ou disfarçar a profissão de fé. [...] Dizemos de público, cobertos de sangue, destroçados em razão da tortura, mas afirmamos plenamente aos que nos atormentam, que a Cristo adoramos como nosso Deus." (²)

Jesus, Filho de Deus, que já estivera uma vez na Terra, apareceria uma segunda vez

"A Escritura aponta duas vindas de Cristo, estando já cumprida a primeira, na condição humilde de carne humana, enquanto a segunda será no fim do mundo, com manifestação do poder divino." (²)
Gregos e romanos não achariam estranha a ideia de Jesus ser chamado "Filho de Deus" pelos cristãos, porque muitos de seus deuses eram, por sua vez, descritos como filhos de outros deuses (Zeus, filho de Cronos, Palas Atena, filha de Zeus, e assim por diante); teofanias, ou seja, manifestações visíveis dos deuses, também eram parte do acervo de crenças do mundo greco-romano. A ideia de um juízo final é que não era muito comum, e muito menos a crença de que, algum dia, os mortos tornariam a viver. Em outro de seus escritos (³), Tertuliano explicou: "...cremos que o espírito e a carne haverão de ressuscitar."

Cristãos praticavam um estilo de vida muito diferente daquele adotado pela maioria dos romanos

Os leitores que conhecem alguma coisa do modo de vida que imperava em Roma não terão dificuldade em reconhecer, com estas breves citações da Apologia, que cristãos adotavam um comportamento bastante diferente, e que, talvez, nisso residisse uma das grandes dificuldades, já que, para não poucos romanos, adeptos do cristianismo pareciam "gente desagradável" (conforme opinião de Tácito):

  • Cristãos não se divertiam com os espetáculos favoritos do povo romano: "Nossos olhos não se agradam em presenciar animais despedaçando homens na arena." (²)
  • Cristãos eram instados para que tivessem amor uns pelos outros: "Vejam como se amam, dizem, e isso falam com espanto, porque seu costume é que tenham ódio uns aos outros." (²)
  • Sob perseguição, cristãos partilhavam os bens: "Temos todos os bens em comum, exceto as mulheres." (²) [sic!!!] 

Não é improvável que, a esta altura, alguns de vocês, leitores, estejam pensando: Por que é que essa gente inofensiva e até benéfica sofria perseguição? Só por causa de ideias que soavam um pouco esquisitas para a mentalidade romana?
Responderia Tertuliano:
"Se o Tibre alcança os muros da cidade, ou se o Nilo não transborda o suficiente para as plantações, se o céu sem nuvens não traz chuva, se há tremor de terra, se ocorre escassez de trigo ou se grassa a peste, o povo não tarda a gritar para que "joguem os cristãos ao leão". Para tantos cristãos um só leão?" (²)
Ora, leitores, estamos diante de um fenômeno recorrente ao longo dos séculos. Quando as coisas vão mal, não demora a aparecer quem aponte um suposto culpado (quase sempre aquele que não tem como se defender), cuja única culpa, na verdade, é ser minoria, ser diferente, é ir, talvez, contra aquilo que faz a multidão. Não será difícil para vocês, que têm bom nível de informação, identificar situações assim, longe ou perto de nós, no espaço e no tempo.
Na época em que o cristianismo nasceu e se espalhou pelo Império Romano, as religiões existentes eram, quase todas, politeístas e de caráter local, ou, quando muito, nacional. Nisso, também, o cristianismo era diferente da maioria: admitia adeptos de todas as nacionalidades, não fazia restrição a qualquer camada social e apresentava uma surpreendente mensagem de fraternidade entre todos os homens (infelizmente, nem sempre praticada). Foi duramente perseguido, mas, a despeito disso, ganhou mais e mais adeptos, primeiro entre artesãos e mesmo escravos e, gradualmente, até entre a elite romana. 
Já que começamos com Tertuliano, concluiremos também com ele. "Se os cristãos resolvessem viver juntos em algum canto do mundo", escreveu, "o Império ficaria em assombro, por perder cidadãos de tal qualidade e sofrendo o dano de ficar sem os bons." E, naquela que é a mais difundida de suas ideias, até mesmo entre os que não têm o mínimo interesse por História, afirmou que, se a intenção era extinguir o cristianismo, a perseguição era inútil: "Quando vocês matam cristãos, estão semeando. Quanto mais derramam nosso sangue, mais numerosos nos tornamos, porque o sangue dos cristãos é semente." 
Convenhamos: mesmo em meio à perseguição, era uma mudança notável, para uma religião que nascera quase dois séculos antes em uma província não muito tranquila do Império. Os centênios seguintes trariam ainda muitas outras transformações.

(1) 200 d.C.
(2) Tertuliano, Apologia.
Exceto quando mencionado, todas as citações que aparecem nesta postagem pertencem à Apologia de Tertuliano e foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Da Paciência.


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