Mostrando postagens com marcador César Augusto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador César Augusto. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Estradas romanas

Todas as estradas levam a Roma? Certamente não, mas quem vivia nos dias de Augusto e seus sucessores pode ter pensado que sim. Sendo a capital do Império, para Roma convergiam muitas estradas. Não eram, porém, grande coisa, até que Augusto decidiu que era hora de dar a elas um aspecto decente. Lê-se em De vita Caesarum, de Suetônio:
"Para que o acesso a Roma se tornasse mais fácil a partir de qualquer lugar, Augusto chamou a si a responsabilidade de restaurar a Via Flamínia [...] e ordenou aos generais que haviam sido homenageados com um triunfo que, fazendo uso do saque capturado aos povos vencidos, cuidassem de calçar as demais." (¹)
Eis um exemplo perfeito de civismo forçado! Se os generais repararam as estradas de boa ou má vontade, não importa. O fato é que a decisão de Augusto teve resultado brilhante. Com melhores estradas, os soldados iam e vinham com facilidade, assegurando a defesa e a paz no império (²); o comércio ampliou-se, fazendo afluir a Roma mercadorias provenientes de regiões distantes, com impacto favorável na economia; o envio de correspondência tornou-se mais confiável; as viagens passaram a ser mais seguras; finalmente, ideias, conhecimentos e artes - cultura em geral - circulavam por toda parte, indo, com uma velocidade sem precedentes (³), a todas as regiões do mundo romano. Consequências excelentes para uma medida que até pode ter sido antipática para alguns, mas com alcance notável para a maioria dos que viviam sob as asas das águias de Roma.

(1) SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(2) Pax romana, cerca de duzentos anos, a partir do principado de Augusto. 
(3) Para os padrões da época.


Veja também:

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Augusto e os espetáculos públicos em Roma

Em Roma, os espetáculos públicos eram assunto de Estado: esperava-se que impedissem revoltas populares contra a elite político-econômica e contra os governantes, dando ocupação às multidões de homens livres que viviam na ociosidade, já que muito do trabalho era feito por escravos.
Havia espetáculos para quase todos os gostos. Gente pacífica podia se entusiasmar com corridas de bigas, os mais sanguinários dificilmente iriam se queixar das lutas de gladiadores. Houve até quem, para entretenimento, ordenasse a realização de uma batalha naval simulada. Pode-se imaginar o quanto isso tudo afetava o erário. No Império Romano, a paz interna, tanto quanto a externa, era altamente dispendiosa.
Augusto, considerado o primeiro imperador, teve cuidado em fazer realizar espetáculos notáveis, como nenhum outro fizera antes dele. Gostava das lutas, especialmente do pugilato, mas, de acordo com Suetônio (*), sempre que era possível fazer a exibição de um animal incomum, fosse pela ferocidade ou pelas dimensões, não esperava sequer as datas previamente assinaladas para grandes eventos.  Ciente de que o povo romano não apreciava o comportamento de Júlio César, seu antecessor, que chegara a ler e escrever cartas durante os jogos, tal era seu descaso pelo que acontecia, Augusto ia aos espetáculos acompanhado da família e, enquanto assistia, não se ocupava de qualquer outra tarefa. Para governar Roma, era preciso demonstrar interesse pelo que apaixonava os romanos.

(*) Cf. SUETÔNIO. De vita Caesarum Livro II.


Veja também:

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Augusto, imperador romano, tinha hábitos simples quanto ao vestuário

César Augusto é considerado o primeiro imperador romano. A despeito do alto cargo que ocupava, foi descrito como um homem de hábitos simples. Suetônio, um autor que viveu entre os Séculos I e II e teve acesso à documentação escrita do Império, assim se referiu aos costumes de Augusto em relação ao vestir-se: "Seu vestuário habitual era o de uso doméstico, feito pela irmã, mulher, filha ou netas; usava as togas nem demasiadamente presas, nem muito soltas, com uma faixa de púrpura de largura média, e, quanto ao sapato, usava um que o fizesse mais alto do que era." (¹)
A primeira consideração que extraímos, leitores, é que Augusto não devia ser um homem de estatura elevada. Além disso, mesmo sabendo que o modo de adquirir mercadorias era muito diferente na Antiguidade daquilo que costumamos fazer hoje, pode parecer estranho que a roupa do grande Augusto fosse feita pelas mulheres de sua família. Mas não se surpreendam: de acordo com uma antiga tradição, decorrente do rapto das sabinas, os romanos haviam prometido que o único trabalho que delas seria esperado era o de fiar e tecer. Portanto, ao usar as roupas feitas em casa, César Augusto estava, implicitamente, praticando um costume tradicional da Antiga Roma, que, sob o ponto de vista político, era muito importante evidenciar que respeitava.
Ainda por informação de Suetônio, sabemos que, por ter a saúde frágil, Augusto não suportava a exposição ao sol (²), razão pela qual preferia viajar à noite. Pelo mesmo motivo, quando queria dar um passeio ao ar livre, usava sempre um chapéu de abas largas. Mas, como governante romano que era, a preferência por roupas de uso doméstico eventualmente precisava ser posta de lado, se algum acontecimento o chamava, repentinamente, à vida pública. Por isso, no dizer de Suetônio, "considerando que podia haver imprevistos, tinha sempre prontos em casa uma roupa apropriada para ir à rua e um par de sapatos" (³). Na cidade que se considerava a capital do mundo as emergências não deviam ser poucas.

(1) SUETÔNIO. De vita Caesarum Livro II. Os trechos aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Talvez desconhecesse os benefícios de uma exposição moderada à luz solar diariamente.
(3) SUETÔNIO, Op. cit., Livro II. 


Veja também:

quinta-feira, 4 de março de 2021

Por que Augusto pensou em extinguir as distribuições de trigo em Roma

As distribuições gratuitas ou vendas a preço muito baixo de trigo eram, em Roma, uma prática a que governantes recorriam para evitar revoltas entre a população livre desocupada. Se quiserem, leitores, era parte da famosa política conhecida como "pão e circo", em que, ao lado do alimento, também eram oferecidos espetáculos públicos, quase sempre sangrentos, para que a fúria do populacho se voltasse contra animais e gladiadores, e não contra os que detinham o mando na poderosa Roma. 
Contudo, essas práticas consumiam preciosos recursos do Estado. O crescimento da população da Península Itálica tornou a produção de grãos insuficiente para atender a todos. Por consequência, veio a ser indispensável a importação de alimentos. Vinha muito trigo do Egito, por exemplo, mas isso tinha um preço, que não era apenas monetário. Havia também a dependência. E se as colheitas no Egito não fossem boas? E se navios que traziam cereais se perdessem no Mediterrâneo? E se... Era uma situação delicada, e a possibilidade de escassez não era mera fantasia. Acontecia mesmo.
De acordo com Suetônio (¹), em certa ocasião em que houve falta de alimentos em Roma, Augusto tomou medidas drásticas, que incluíram até uma ordem para que estrangeiros (com exceção dos professores e dos médicos), os escravos disponíveis para venda e aqueles que viviam em escolas de gladiadores saíssem da cidade. A ideia era ter menos bocas para alimentar. Onde foram viver e de quê? Suetônio não explicou.
Mais tarde, quando as colheitas voltaram à normalidade, Augusto, no dizer de Suetônio, "considerou suprimir definitivamente as distribuições de trigo para a plebe às expensas do Estado, porque a população, já esperando por elas, abandonava o cultivo do solo" (²). Ao refletir, todavia, no custo político desse plano, acabou por abandoná-lo.

(1) 69 - 141 d.C.
(2) SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também:

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Por que Augusto escolheu Tibério como sucessor

Imperador Tibério (³)
César Augusto, considerado formalmente o primeiro imperador de Roma, foi, ao longo da vida, manobrando o jogo político para fazer um sucessor. No entanto, a morte precoce de várias figuras a ele relacionadas, como seus netos, por exemplo, tornou a situação mais melindrosa do que, por si mesma, já era. Suetônio (¹), no Livro II de De vita Caesarum, indica que Augusto teria pensado até em restaurar a República, tal como era antes dos triunviratos, mas considerações, inclusive de segurança pessoal, fizeram-no desistir da ideia. 
O escolhido, afinal, foi Tibério.
Por quê?
Tácito (²), no livro I dos Annales, afirmou que Augusto teria escolhido Tibério como sucessor "para ter a vantagem de ser comparado a um pior que ele". Ora, os anos subsequentes mostraram que, se a intenção de fato foi essa, a escolha resultou perfeita. Tibério era um mestre das arbitrariedades e, quando morreu em 37 d.C., as manifestações públicas de alegria foram mais que exuberantes. De acordo com Suetônio, o povo corria pelas ruas de Roma, gritando que o cadáver do imperador deveria ser jogado no Tibre, pedindo aos deuses que não lhe dessem descanso, além de outras atrocidades mais. Romanos, romanos... Ainda não sabiam que o próximo imperador seria Calígula.

(1) 69 - 141 d.C.
(2) c. 47 d.C. - 120 d.C.
(3) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.



quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Raios, Augusto!

A invenção do para-raios, poupando, em consequência, muitas vidas, somente aconteceu no Século XVIII, quando os deuses romanos, com seus raios fulminantes, eram, há muito, coisa do passado. Os que viveram antes disso tinham, portanto, ainda mais motivos para temer as tempestades, que aqueles que vivem hoje.
César Augusto pode ter sido valente na luta contra Marco Antônio, e foi, sem dúvida, um político habilidoso ao tratar com as sensibilidades do Senado romano. Se não foi perfeito - ninguém é - soube, ao menos, conduzir Roma para tempos de alguma ordem, depois das turbulências dos triunviratos. Mas, quanto a Augusto, há mais uma certeza: tinha medo de raios, e levava a sério os cuidados para que os deuses mantivessem bem longe essas poderosas descargas elétricas que enchem a atmosfera terrestre de luz. Bem, é claro que Augusto não sabia que os raios eram isso. Apenas tinha medo deles e cria que vinham dos deuses durante crises de mau humor.
No Livro II de De vita Caesarum, Suetônio contou que, sob instrução dos arúspices, Augusto fez construir um templo no monte Palatino em honra de Febo/Apolo. A alegação dos adivinhos profissionais de Roma é que o deus mandara um raio àquele lugar para indicar que era ali que desejava ser invocado. Brilhante conclusão!
Há mais: o próprio Augusto, em certa ocasião, escapou por muito pouco de ser atingido por um raio. O imperador fazia uma viagem noturna, carregado em uma liteira, quando, durante uma tempestade, um raio caiu muito perto dele. Agradecido por sobreviver incólume, fez consagrar um templo em honra de Júpiter Tonante. Um detalhe, também lembrado por Suetônio, não deve passar despercebido: o escravo que ia à frente da liteira de Augusto, carregando uma lanterna para iluminar o caminho, não teve a sorte do imperador. Foi ele a vítima do raio, e morreu na mesma hora.


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Escrevendo como César Augusto

Graças a Suetônio (¹), é possível saber detalhes curiosos da vida dos primeiros imperadores romanos, os Césares - sim, admitindo que suas informações sejam verdadeiras, e não um exercício de imaginação. Mas, se havia alguém em Roma que poderia investigar a documentação oficial em busca de material interessante para escrever, esse era Suetônio, que exerceu cargos importantes que lhe davam acesso aos arquivos do Império e à vida palaciana, acesso esse que chegou às bordas da indiscrição. Foi assim que nasceu De vita Caesarum, e é assim que tomamos conhecimento dos hábitos e manias de Augusto (²) quando o assunto era escrita.
Alguém de vocês, leitores, tem alergia às regras de ortografia? Augusto também tinha, a ponto de Suetônio pensar que era partidário da ideia de que se deve escrever tal qual se fala, e não segundo os padrões estipulados pelos gramáticos. Convenhamos: esse sujeito estava, ao menos quanto a tal assunto, mais para o Século XXI que para o tempo em que viveu. 
Ainda assim, tomou especial interesse na alfabetização de seus netos, a ponto de, sempre que possível, ir ele mesmo ensiná-los. Mas, para quem achou que esse era simplesmente um avô carinhoso, vai aqui uma mania: tentava ao máximo fazer com que os meninos imitassem sua própria caligrafia. Quanto a Agripina, sua neta, em uma carta elogiosa recomendava que, quer falando, quer escrevendo, fugisse de toda afetação. Sábio conselho, não é verdade?
Contudo, o imperador, que sofria com a saúde debilitada, tinha também alguma dificuldade para escrever, já que o dedo indicador da mão direita, particularmente em dias frios, não tinha o movimento normal. Estando assim, chegava a reforçar o dedo com um anel de chifre, a fim de poder escrever o indispensável. Se Augusto tinha todas as doenças que Suetônio lhe atribui, devia, provavelmente, sentir dores contínuas.

(1) Caio Suetônio Tranquilo, 69 - 141 d.C.
(2) Imperador entre 27 a.C. e 14 d.C.


Veja também:

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Hábitos alimentares de César Augusto

Levando em conta as preferências de outros imperadores romanos, famosos pelos banquetes intermináveis, até que Augusto era um sujeito de hábitos frugais, se forem corretas as informações de Suetônio (¹) em De vita Caesarum (²):
  • Gostava de alimentos simples e em pequenas quantidades;
  • Seus alimentos favoritos eram pão caseiro, queijo fresco, figos e peixes;
  • Não era dado a ter horário fixo para as refeições, e, por isso, comia alguma coisa sempre que tinha fome.
Em consequência desses costumes, não era incomum que comesse sozinho, antes ou depois dos horários convencionais entre os romanos, de modo que, comparecendo a banquetes por dever de ofício, acontecia, às vezes, que nem tocasse na comida. Nesse sentido, foi, sem dúvida, bem diferente de muitos de seus sucessores.

(1) Caio Suetônio Tranquilo, 69 - 141 d.C.
(2) Livro II.


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Quando a moda de fazer a barba chegou a Roma

Antigo romano com barba (³)
Romanos que viveram durante os dias da realeza e nos primeiros tempos da República não tinham o costume de aparar a barba. Melhor dizendo, a profissão de barbeiro, entre eles, resultaria em absoluta penúria. A moda, porém, só é moda porque é volúvel. Se, em tempos antigos, ostentar barba era motivo de orgulho, coisa de dignos patres familias, o correr dos séculos trouxe novidades. Ainda assim, para um romano, aparar a barba era, literalmente, colocar a cabeça em risco.
Foi por volta de 300 a.C. que o costume de aparar a barba chegou a Roma, ganhando, aos poucos, status de ritual, ao menos para cada adolescente que, quando autorizado pelo pai a fazer a barba pela primeira vez, além de consagrar os fios em um templo ou no altar doméstico, era, desde então, reconhecido como um adulto. No entanto, a transição nos hábitos, até que o barbear se tornasse obrigatório, não foi caminho livre de contratempos. Júlio César, por exemplo, teria sido alvo de deboche de seus contemporâneos pelo exagero no cuidado com a barba (¹). Augusto, porém, não dava grande importância ao assunto, porque, enquanto barbeiros e cabeleireiros se ocupavam dele, chegava a ler ou escrever, distraidamente (²). E mais: consternado pela derrota de Públio Quintílio Varo e suas legiões na batalha de Teutoburgo (⁴), por meses deixou de fazer a barba e até de cortar o cabelo.  
Contudo, alguns dos sucessores de Augusto foram adeptos fanáticos do barbear diário: Oto, por exemplo, não apenas se fazia cuidar por um barbeiro diariamente, como teria, ainda, o costume, desde a adolescência, de salpicar o rosto com farelo de pão (⁵), para que a barba jamais fosse notada. Não, leitores, não sei se o truque funcionava.
Ora, não se imagine que fazer a barba em Roma tinha as mesmas facilidades de hoje em dia. Primeiro, não era comum a aplicação de emolientes, o rosto era apenas massageado com água, vindo a seguir a navalha, que, pelas condições tecnológicas da época, não era instrumento dos mais confiáveis. Asim, o barbear completo levava tempo, e sempre havia o risco de algum ferimento. Para a elite romana, porém, e mesmo para outras camadas da sociedade, a demanda por tempo não era um grande problema, de modo que os cuidados com a aparência viraram obsessão. Zombando dos exageros, Sêneca (⁶), o filósofo estoico, escreveu:
"Você acha que são desocupados os que gastam muito tempo sob os cuidados de um barbeiro que corta o cabelo nascido na noite anterior, que cuida do penteado, ou que faz com que as madeixas despenteadas sejam novamente arrumadas, ou que arruma o cabelo de um e outro lado, formando um topete?
Imperador Adriano (⁸)
Irritam-se, com valentia, por qualquer erro do barbeiro, enchendo-se de raiva se cortou algo a mais de seus cabelos, se um fio ficou fora de lugar ou se algum está fora dos cachos. Você pensa que estes estão mais preocupados com o bem-estar da República que com a compostura do cabelo? Não estarão mais ansiosos em arrumar a cabeça, valorizando o belo mais que o honesto, em lugar de buscar a prosperidade do Império? É justo que sejam tidos como desocupados, se estão atarefados entre o espelho e o pente?" (⁷)
Recordo aos leitores que espelhos, nesse tempo, não eram lá muito eficientes - não como hoje, pelo menos. 
Tanto exagero, afinal, cansou o Império. Ao que parece, foi Adriano (⁹) o primeiro entre os imperadores a romper com o incômodo do barbear diário. Suas estátuas, bem como as de seus sucessores, atestam devidamente a mudança. E, se mudavam os costumes do imperador, por que o restante do Império não lhe seguiria o exemplo?

(1) Cf. SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro I. 
(2) Ibid., Livro II.
(3) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 128. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) 9 d.C.
(5) SUETÔNIO. Op. cit., Livro VII.
(6) c. 1 d.C. - 65 d.C.
(7) SÊNECA. De brevitate vitaeO trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(8) HEKLER, Anton. Op. cit., p. 248. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(9) Da dinastia nerva-antonina, foi imperador entre 117 e 138 d.C.


quinta-feira, 7 de maio de 2020

O que César Augusto fazia quando uma tempestade se aproximava

Do que o homem mais poderoso de Roma, talvez o mais poderoso do mundo em seu tempo, poderia ter medo? Que coisa seria tão pavorosa, a ponto de levá-lo a buscar um esconderijo? Seriam as agitações populares? Talvez a possibilidade de exércitos coligados de potências estrangeiras? 
Nada disso. Augusto (¹), ou, se preferirem, Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus tinha medo de trovões e raios - foi Suetônio (²) quem disse, no Livro II de De vita Caesarum
Ao que parece, nem sempre fora assim. Acontecera certa vez a Augusto, durante uma marcha militar noturna, ver a queda horripilante de um raio, e, desde então, tomava-se o imperador de medo ao menor indício de que uma tempestade se aproximava. Como naquele tempo não havia nada que se parecesse com uma terapia para essas situações, o grande Augusto tinha um truque, que era ter sempre à mão uma pele de foca, acreditando, como muitos contemporâneos, que ela era imune aos raios. Mas, se confiava nela, por que se escondia?

(1) 63 a.C. - 14 d.C.
(2) 69 - 141 d.C.


quinta-feira, 9 de abril de 2020

Domiciano, "nosso senhor e deus"

Ao ditar um documento oficial, o imperador Domiciano começou: "Nosso senhor e deus assim ordena..." Falava de si mesmo, é claro. Que audácia! E, de acordo com Suetônio (¹), desde então ficou entendido que competia a todos chamá-lo por esse modo, quer de viva voz, quer por escrito. 
Domiciano era filho de Vespasiano e irmão de Tito, imperadores precedentes. Esteve à frente do Império entre os anos 81 e 96 d.C., época em que tratou de centralizar o poder, afastando o Senado, tanto quanto possível, da esfera decisória. Ao menos nas aparências, foi um adepto decidido das antigas tradições romanas, inclusive no que tange à religião - fazendo-se incluir no conjunto de divindades que deveriam ser adoradas.
Augusto, imperador entre 27 a.C. e 14 d.C., não só recusou ser chamado "senhor", como proibiu que o mesmo tratamento fosse dado a seus familiares (²). Entende-se que o Império, em seu tempo, era algo novo, e dificilmente Augusto se sentiria seguro e confortável para receber um título que remetia ao panteão de deidades. Os romanos tinham ódio à realeza, suprimida entre eles para dar lugar à República, e não era conveniente oferecer a mais tênue impressão de que pretendesse ser rei. 
Não obstante, depois da morte, Augusto passou a ser honrado como "divo", e, portanto, contado entre os deuses. O mesmo sucedeu com outros imperadores. A Tibério, seu sucessor, ofereceu-se a condição de deus em vida, pretendendo-se, para isso, o estabelecimento de templos e sacerdócio específico; contudo, o imperador recusou tal honra, e, ainda conforme Suetônio (³), somente permitiu que lhe dedicassem estátuas que não fossem colocadas em recintos consagrados a práticas religiosas. Aliás, foi além, recusando mesmo ser chamado "Imperator" e "Dominus".
Imperador Domiciano (⁵)
Mas veio Calígula, e, com ele, a deificação do imperador vivo ganhou força. Fez substituir a cabeça de deuses pela sua em esculturas gregas (⁴), e, colocado entre Castor e Pólux, admitiu ser cultuado. O caminho estava limpo para que, alguns imperadores mais tarde, Roma aceitasse sem muito questionamento que Domiciano exigisse o título de "senhor e deus". Para os romanos que, por esse tempo, viam na religião apenas uma prática tradicional e/ou um dever patriótico, a mania do imperador metido a deus talvez não soasse coisa muito ofensiva. Para as minorias adeptas de outros conceitos religiosos, a situação era difícil e até perigosa. A recusa em reconhecer a divindade do imperador ou em oferecer sacrifícios aos deuses por sua prosperidade e longevidade podia resultar no confisco dos bens (⁶) e na sentença de morte.

(1) Cf. SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro VIII. 
(2) Ibid., Livro II.
(3) Ibid., Livro III. 
(4) Ibid., Livro IV.
(5) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. 
Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 220. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(6) Uma prática nada incomum em Roma, sempre que imperadores perdulários procuravam um pretexto para refazer as finanças debilitadas. Afirma-se que Calígula, por exemplo, não precisou de mais de um ano para gastar toda a fortuna acumulada por Tibério, seu antecessor.


quinta-feira, 12 de março de 2020

César Augusto e o javali ameaçador

Javalis são perigosos; uma fêmea com filhotes, perigosíssima. Augusto, o imperador romano, teve seu dia de confrontar um javali. Lembrem-se, leitores, de que na Antiguidade os animais selvagens podiam ser uma ameaça real, mesmo nas imediações dos centros urbanos.
Augusto saiu a passeio com Diomedes, seu administrador (¹) que, de acordo com Suetônio (²), diante da aparição de um javali de aspecto bravio no caminho, desatou a correr, deixando que o imperador se entendesse com a fera. Sucede que disso nada resultou, mas, pelas regras da época, Diomedes cometera um crime gravíssimo. No entanto, longe de se zangar, o imperador, passado o susto, preferiu simplesmente zombar da covardia do servidor, entendendo que agira movido pelo medo e não por maldade.
Javali, de acordo com uma obra do Século XVI 
dedicada à descrição de animais (⁴)
Em outra circunstância, porém, Augusto obrou com muito menos brandura. Verificou, após a morte de um filho que estivera em uma província romana, que os funcionários que o acompanhavam, valendo-se da doença do jovem, haviam ostentado tanto arrogância como improbidade. Neste caso, também conforme Suetônio (³), o imperador não exerceu nenhuma misericórdia: mandou que se amarrassem pesos enormes ao pescoço dos corruptos e que, sem mais delongas, fossem lançados em um rio. Seria Augusto um juiz instável? 

(1) Provavelmente um liberto, ou seja, um ex-escravo.
(2) De vita Caesarum, Livro II.
(3) Ibid.
(4) GESNER, Conrad. Icones Animalium Quadrupedum Viviparorum et Oviparorum. Zürich: Christof Froshover, 1560, p. 82.


Veja também:

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Saturnália

O mês de dezembro era época de grandes festas em Roma, dentre as quais se destacava a Saturnália, porque nela, em honra do deus Saturno, os romanos se viam livres de muitas regras e convenções sociais. Embora tenha existido alguma variação quanto à data de início e à duração, essa festa começava geralmente no dia 17, prolongando-se por três dias, ao menos - muitos celebravam-na por toda uma semana. Diversões proibidas no restante do ano eram toleradas, a moralidade pública se afrouxava e grandes banquetes, com troca de presentes, eram realizados.
Não se deve esquecer que, apesar de tudo, a Saturnália era festa religiosa, com sacrifícios em honra de Saturno, pontualmente oferecidos. Afirmando-se, também, que o derramamento de sangue era agradável ao deus, faziam-se grandes espetáculos de gladiadores. O trabalho era posto de lado, a plebe delirava. Tentativas de encurtar os festejos nunca foram recebidas com satisfação.
César Augusto, que governou Roma entre 27 a.C. e 14 d.C., via em cada Saturnália a oportunidade perfeita para deslumbrar os romanos com os presentes que oferecia: moedas raras e antigas, vestuário de luxo, objetos de ouro e prata, conforme afirma Suetônio em De vita Caesarum. Mas, como a festa continha um lado burlesco, o imperador se divertia, presenteando, também, objetos de pouco valor, e até ridículos.
Afinal, a Saturnália acabava, e tudo voltava ao normal. A hierarquia social era restabelecida sem traumas, os escravos continuavam escravos, a elite desfrutava, como sempre, de muitos privilégios. Assim era Roma.


quinta-feira, 16 de março de 2017

Como os antigos romanos interpretavam a aparição de cometas

Os que acreditavam em presságios
usavam a forma dos cometas como indício
para suas "previsões" (²)
Povos da Antiguidade - quase todos - tendiam a ver nos fenômenos celestes algum tipo de recado dos deuses. É fácil, hoje, lançar um olhar para seus registros e dizer que não passam de tolices; foram, no entanto, a origem, ainda que remota, de muita coisa a que chamamos ciência em nossos dias. É claro que foi preciso um longo tempo para separar fatos de crendices sem nenhuma base além da imaginação humana, em especial se considerarmos que quase tudo se fazia empiricamente, sem um método de investigação que pudesse assegurar a integridade dos resultados.
Romanos eram apaixonados por cometas, aos quais atribuíam virtudes premonitórias, às vezes como presságio favorável, mas, também, como aviso de tragédia. Plínio, o Velho, no Livro II de sua História Natural, relatou aparições notáveis de cometas "durante a guerra civil no consulado de Otávio, novamente durante a guerra entre Pompeu e César, ou em nosso tempo (¹) por ocasião do envenenamento que assegurou a sucessão do Império de Cláudio César para Domício Nero e, posteriormente, já durante o principado de Nero [um cometa] apareceu quase continuamente com um brilho pavoroso."
Ora, em se tratando de Nero, nem era preciso um evento celeste! Ainda de acordo com Plínio, era em Roma que estava o único templo no mundo consagrado ao culto de um cometa. Não é surpreendente, portanto, que os hábeis políticos romanos tratassem de tirar o melhor partido da crença popular na influência desses belos viajantes do espaço. Augusto (³), a quem hoje reconhecemos como o primeiro imperador, afirmou, segundo relato de Plínio:
"Nos dias de meus jogos (⁴) viu-se, ao norte, um cometa, que apareceu por sete dias. Era observável em toda parte, cerca de uma hora antes do pôr do sol, como uma brilhante estrela. Acreditou-se que essa estrela fosse a alma de César, recebida entre os numes imortais, e, por essa razão, uma estrela foi acrescentada ao busto de César que logo depois foi dedicado no fórum."
Entende-se, neste caso, que Augusto interpretou a aparição do cometa como um presságio favorável. Favorável até demais, já que, por informação de Plínio, sabemos que o futuro primeiro imperador dizia em público que o cometa seria a alma de César que brilhava entre os deuses, mas que, em particular, estava alegre com a suposição de que o objeto celeste, tendo aparecido durante os jogos que ele próprio convocara, vinha assegurar sucesso a seus projetos de poder. Se esta informação for correta, deve-se concluir que o imperador também acreditava piamente em presságios.
E Plínio (⁵), cujos escritos nos ajudam a bisbilhotar o que se passava na Antiga Roma? Acreditava, ele também, que os cometas traziam recados e avisos dos deuses? Para nossa sorte, nem precisamos fazer inferências, já que a História Natural traz a resposta dada por ele mesmo:
"Meu ponto de vista é de que esses eventos [aparição de cometas, meteoros, etc.] sucedem em datas fixas, sob o comando das forças naturais, como todos os outros fenômenos, ao contrário do que pensa o vulgo, sob uma variedade de razões imaginadas." (⁶) 
Excelente consideração para um estudioso da natureza que viveu no primeiro século da Era Cristã. Morreu em 79 d.C., sufocado por uma nuvem de gases provenientes da erupção do Vesúvio que destruiu Pompeia e Herculano. Nem é preciso dizer que tentava observar o fenômeno...

(1) No tempo dele!
(2) MALLET, Allain Manesson. Description de L'Univers. Paris: Denys Thierry, 1683. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Otávio, ou Gaio Júlio César Otaviano, também chamado Augusto, o primeiro imperador em Roma.
(4) Depois do assassinato de Júlio César.
(5) Plínio, o Velho, foi uma das mentes mais brilhantes de seu tempo, capaz de reunir e catalogar uma quantidade absurda de informações, ainda que muitas delas, aos nossos olhos, não passem de lorotas cabeludas. Mas isso nós sabemos depois de milênios de estudo e pesquisa. 
(6) Os trechos citados de Naturalis Historia que aparecem nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também: