quarta-feira, 5 de junho de 2013

A Escravidão na Antiguidade

Consequências da Escravidão entre Gregos e Romanos


Costuma-se dizer que, no Brasil, a escravidão teve consequências desastrosas. Isso é fato. Mas a redução de seres humanos à condição de mercadoria trouxe péssimos resultados também na Antiguidade - entre gregos e romanos, por exemplo.
Os povos antigos sedentários tinham sua economia quase sempre baseada em práticas agrícolas, associadas também ao pastoreio. Essas atividades envolviam, em princípio, todos os membros válidos de uma dada comunidade. Falando sem rodeios, todo mundo precisava trabalhar em coisas como preparar o solo, plantar, colher ou cuidar de ovelhas, cabras, bois, galinhas, e por aí vai. Obter o sustento era muito difícil com as técnicas primitivas de que se dispunha, e o envolvimento do maior número possível de braços era essencial para assegurar um suprimento adequado de alimentos para todos, de modo que ninguém era dispensado de trabalhar arduamente, nem nisso via-se algo de desonroso. Muito pelo contrário.
Alguém perguntará: Não havia nunca algum escravo? Talvez houvesse, mas ainda assim, a escravidão somente ocorria em pequena escala. De qualquer modo, o trabalho escravo era a exceção, e não a regra. Alguém podia, eventualmente, ser escravizado por dívidas, mas ainda não chegara a hora dos grandes mercados em que gente era comprada e vendida, de modo análogo ao que se fazia com trigo, centeio, cevada ou gado.
As guerras, no entanto, abriram, em muitos casos, as portas para a escravidão em massa, à medida que inimigos derrotados eram submetidos a trabalho compulsório - uma condição de tal aviltamento que, não raro, era preferível morrer bravamente em combate a permanecer vivo e ser capturado pelos vencedores. Segue-se disso tudo que, uma primeira consequência da escravização dos vencidos é que, nas cidades e campos, passava a haver uma população de escravos que votava ódio feroz a seus senhores, sendo, por isso, uma ameaça constante à paz interna e à segurança. Afinal, alguém poderia, hoje, ser uma figura rica e importante de um lugar e, amanhã, um escravo em território inimigo, em decorrência de uma guerra de conquista.
Para os vencedores, porém, as consequências não eram restritas ao medo contínuo de uma rebelião de escravos (¹). Os antigos trabalhadores livres da agricultura viam-se sem trabalho, ao serem substituídos por mão de obra cativa. Mesmo pequenos proprietários de terras não podiam competir com os grandes latifundiários escravocratas. Que fazer? Muita gente tentava encontrar trabalho nas cidades, mas a maioria das pessoas não tinha sucesso nessa busca, de modo que uma multidão de desocupados juntava-se ao número dos potenciais revoltosos. A situação tornou-se tão séria que, em Roma, as autoridades viram-se na contingência de fazer distribuições de trigo, com o objetivo de acalmar os ânimos dos esfomeados. E, para mantê-los ocupados, faziam-se celebrar espetáculos públicos, esperando-se que toda a ira da população desempregada se consumisse em presenciar lutas e outros embates sangrentos. Era a chamada "política de pão e circo", coisa que qualquer colegial conhece bem (espero!).
O ócio, por sua vez, era elevado à condição de coisa desejável, atributo da elite, que podia, assim, dedicar-se a questões tais como a política e os estudos, inclusive os de caráter filosófico. Isso vale tanto para gregos como para romanos, mas não deixa de ser curioso que, quando gregos também foram escravizados, meninos e jovens de Roma aprendessem língua grega e filosofia com mestres escravos. E, como nem todo mundo estudava ou exercia algum tipo de governo, havia sempre muita gente importante desocupada que, no auge do Império Romano, gastava seus dias em termas, festas e orgias, bem longe, portanto, dos valores frugais dos primeiros tempos de Roma, nos quais a juventude nobre era estimulada a exercitar-se nas árduas tarefas da carreira militar (²).
Já houve muito historiador que não hesitou em dizer que tal quadro, na Roma Antiga, trouxe consigo o declínio moral da sociedade e, consequentemente, a derrocada geral do Império - à medida que, no plano interno, Roma mergulhava nas pesadas consequências da escravização em massa de seus inimigos, externamente os novos adversários, mais fortes que os anteriores (e enfrentando Roma mais fraca), punham-se a solapar as antigas fronteiras do Império. A queda de Roma seria, pois, apenas uma questão de tempo. Deixo a meus leitores o direito ao julgamento, por si mesmos, da questão do declínio moral de Roma, mas não há como negar que a escravidão, substituindo a vitalidade de um povo de trabalhadores livres, teve seu papel tanto em fazer de Roma uma tremenda potência como em arruiná-la, posteriormente. A história de muitos outros povos segue linhas bastante parecidas.

(1) O que, aliás, acontecia: a Revolta de Espártaco é, talvez, o mais célebre exemplo disso.
(2) Vale ressaltar que Cícero, escrevendo ao filho, lembrava que nenhum jovem saudável devia fugir às obrigações do serviço militar.

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