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quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Jogos Agonais

Os romanos atribuíam a Numa Pompílio, o lendário segundo rei de Roma e homem de sabedoria notável, a criação dos Jogos Agonais, que deveriam ser celebrados em honra de Jano (¹) três vezes a cada ano, ou seja, nos meses de janeiro, maio e dezembro.
Ora, alguém perguntará, para que tantos jogos? 
No dizer de Floro, contemporâneo do imperador Adriano, Numa Pompílio "soube dominar aquele povo feroz [os romanos], no qual imperavam a vilania e a injúria, de modo que a religião e a justiça passaram a governar" (²). Que bela descrição da gente romana dos primeiros tempos da cidade!... A instituição dos jogos, portanto, deve ser entendida nesse cenário tão brilhante: O sábio rei pretendia que os turbulentos romanos, pondo de lado a mania de brigar entre si, gastassem as energias em jogos que teriam, ainda, um segundo proveito, como exercício para o combate, caso Roma tivesse de enfrentar alguma guerra. Como se sabe, isso aconteceu com bastante frequência.
Supõe-se que os Jogos Agonais, seriam, remotamente, a origem dos espetáculos de gladiadores que, mais tarde, vieram a ser uma das diversões favoritas em Roma. Mas há uma diferença notável, que nunca deveria ser esquecida: os jogos de Numa seriam destinados a homens livres, que serviam como soldados em defesa da cidade. Gladiadores, contudo, eram, em esmagadora maioria, escravos, que lutavam até a morte para proporcionar um entretenimento brutal aos romanos que, desocupados, apenas esperavam, do Estado, pão e circo. Mudanças vêm com o passar do tempo, meus leitores, e nem sempre tornam o mundo melhor. 

Gladiadores romanos, de acordo com desenho em uma parede em Pompeia (³)

(1) Um dos deuses menores de Roma, representado tradicionalmente com duas faces, olhando em direções opostas. 
(2) Aneu Floro, Rerum Romanarum. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(3) Cf. SAMPSON, Henry.  A History of Advertising. London: Chatto and Windus, 1874.


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quinta-feira, 29 de julho de 2021

Augusto e os espetáculos públicos em Roma

Em Roma, os espetáculos públicos eram assunto de Estado: esperava-se que impedissem revoltas populares contra a elite político-econômica e contra os governantes, dando ocupação às multidões de homens livres que viviam na ociosidade, já que muito do trabalho era feito por escravos.
Havia espetáculos para quase todos os gostos. Gente pacífica podia se entusiasmar com corridas de bigas, os mais sanguinários dificilmente iriam se queixar das lutas de gladiadores. Houve até quem, para entretenimento, ordenasse a realização de uma batalha naval simulada. Pode-se imaginar o quanto isso tudo afetava o erário. No Império Romano, a paz interna, tanto quanto a externa, era altamente dispendiosa.
Augusto, considerado o primeiro imperador, teve cuidado em fazer realizar espetáculos notáveis, como nenhum outro fizera antes dele. Gostava das lutas, especialmente do pugilato, mas, de acordo com Suetônio (*), sempre que era possível fazer a exibição de um animal incomum, fosse pela ferocidade ou pelas dimensões, não esperava sequer as datas previamente assinaladas para grandes eventos.  Ciente de que o povo romano não apreciava o comportamento de Júlio César, seu antecessor, que chegara a ler e escrever cartas durante os jogos, tal era seu descaso pelo que acontecia, Augusto ia aos espetáculos acompanhado da família e, enquanto assistia, não se ocupava de qualquer outra tarefa. Para governar Roma, era preciso demonstrar interesse pelo que apaixonava os romanos.

(*) Cf. SUETÔNIO. De vita Caesarum Livro II.


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quinta-feira, 4 de março de 2021

Por que Augusto pensou em extinguir as distribuições de trigo em Roma

As distribuições gratuitas ou vendas a preço muito baixo de trigo eram, em Roma, uma prática a que governantes recorriam para evitar revoltas entre a população livre desocupada. Se quiserem, leitores, era parte da famosa política conhecida como "pão e circo", em que, ao lado do alimento, também eram oferecidos espetáculos públicos, quase sempre sangrentos, para que a fúria do populacho se voltasse contra animais e gladiadores, e não contra os que detinham o mando na poderosa Roma. 
Contudo, essas práticas consumiam preciosos recursos do Estado. O crescimento da população da Península Itálica tornou a produção de grãos insuficiente para atender a todos. Por consequência, veio a ser indispensável a importação de alimentos. Vinha muito trigo do Egito, por exemplo, mas isso tinha um preço, que não era apenas monetário. Havia também a dependência. E se as colheitas no Egito não fossem boas? E se navios que traziam cereais se perdessem no Mediterrâneo? E se... Era uma situação delicada, e a possibilidade de escassez não era mera fantasia. Acontecia mesmo.
De acordo com Suetônio (¹), em certa ocasião em que houve falta de alimentos em Roma, Augusto tomou medidas drásticas, que incluíram até uma ordem para que estrangeiros (com exceção dos professores e dos médicos), os escravos disponíveis para venda e aqueles que viviam em escolas de gladiadores saíssem da cidade. A ideia era ter menos bocas para alimentar. Onde foram viver e de quê? Suetônio não explicou.
Mais tarde, quando as colheitas voltaram à normalidade, Augusto, no dizer de Suetônio, "considerou suprimir definitivamente as distribuições de trigo para a plebe às expensas do Estado, porque a população, já esperando por elas, abandonava o cultivo do solo" (²). Ao refletir, todavia, no custo político desse plano, acabou por abandoná-lo.

(1) 69 - 141 d.C.
(2) SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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terça-feira, 26 de novembro de 2019

Animais na arena dos anfiteatros romanos

O cinema conseguiu imprimir no imaginário popular uma noção de suntuosidade em relação aos espetáculos realizados nos anfiteatros romanos. A verdade, porém, é que, ao lado do luxo e da ostentação, os espetáculos eram exibições do que poderia haver de pior na humanidade. 
O lugar em que ocorriam os combates era chamado arena, e não por acaso. É que arena, no latim, significa simplesmente areia, e era isso que se espalhava sobre o piso, entre um espetáculo e outro, para cobrir o sangue que fora derramado durante as lutas precedentes, sangue de homens e de animais, muitos animais.
Testemunhos dessas carnificinas não faltam, na palavra dos próprios romanos. Um deles, Plínio, o Velho, afirmou no Livro VIII de Naturalis historia"O primeiro elefante foi visto a lutar no circo [...] no ano 655 (¹) da fundação de Roma, e a primeira luta de um elefante contra touros aconteceu vinte anos mais tarde [...]. (²)" O mesmo Plínio mencionou, também no Livro VIII, exibições de luta simultânea entre leões, cem deles quando Sila, mais tarde ditador, exercia o cargo de pretor, seiscentos, sob as ordens de Pompeu, e quatrocentos, quando César era ditador. Vê-se que a ênfase parece estar na quantidade, mas é simplesmente impossível saber se esses números correspondem ao que, de fato, acontecia, ou se há algum exagero, ainda que não intencional. 
Posteriormente, quando o Coliseu foi inaugurado (³), as festividades  duraram nada menos que cem dias, e afirma-se que cerca de cinco mil animais selvagens foram mortos na arena, quer em lutas entre si, quer em combates contra gladiadores. Que diversão era essa, que fazia correr o sangue dos inocentes animais, além, é claro, de tantos homens compelidos a lutar entre si e contra as feras?
Estranho como possa parecer, era ideia corrente que esses espetáculos que incluíam a morte de tantos animais resultavam em benefício às terras de onde provinham, que ficavam despovoadas de feras ameaçadoras. Talvez, hoje, pouco ou nada saibamos, por experiência, da ameaça dos animais selvagens, mas também é evidente que a noção de equilíbrio ecológico, envolvendo todas as espécies de um dado ambiente, era pouco considerada na Antiguidade. Contudo, se a banalização da morte de homens e animais na arena dos anfiteatros tinha como fim entreter a população e canalizar a violência dos insatisfeitos para longe dos governantes, a quantidade de imperadores assassinados talvez seja uma evidência de que, neste caso, o efeito talvez fosse exatamente o contrário do desejado. 

(1) 99 a.C.
(2) O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) 80 d.C.


terça-feira, 19 de novembro de 2019

O dia em que cinquenta mil pessoas foram vítimas em um anfiteatro romano

Em um só dia, nada menos que cinquenta mil pessoas morreram ou sofreram ferimentos em um anfiteatro romano, mas não suponham, leitores, que todos os mortos ou feridos fossem gladiadores. Eram parte do público que assistia a um espetáculo em um anfiteatro particular em Fidenas, que estava localizada bem perto de Roma. É melhor contar essa história desde o princípio.
Aconteceu no ano 27 d.C., quando Tibério era imperador. Um liberto (ou seja, um ex-escravo) chamado Atílio, decidiu construir por conta própria um anfiteatro, com a ideia de lucrar com ele o máximo possível. Não creio que seja difícil imaginar o quanto a construção foi precária e, devido ao número elevado de espectadores, o anfiteatro veio ao chão, soterrando não só os que estavam dentro, mas até quem se achava perto, porém do lado de fora. 
O resultado foi horrendo e, de acordo com Tácito (*), que registrou essa tragédia no Livro IV dos Annales, mais felizes foram os que morreram de imediato, porque muitos dilacerados, contudo ainda vivos entre os escombros, gritavam, desesperados, dia e noite, por socorro, aumentando a angústia dos parentes que haviam acorrido ao local à procura de sobreviventes. Estimou-se em cinquenta mil o número de mortos e feridos.
Esse episódio permite algumas considerações:
  • Romanos de todas as camadas sociais eram fanáticos por espetáculos de gladiadores, o que explica a quantidade de pessoas presentes no dia do desabamento;
  • Havia libertos que conseguiam acumular um patrimônio razoável, e Atílio, o dono do anfiteatro que caiu, é prova disso;
  • As técnicas de resgate em caso de acidentes e os recursos médicos, rudimentares como eram na Antiguidade, explicam, ao menos em parte, o número de mortos nessa ocasião.
Segundo Tácito, uma decisão posterior do Senado estipulou a quantia mínima que alguém deveria ter ao solicitar permissão para construir um anfiteatro. Assim os romanos estavam, é claro, colocando tranca em porta arrombada. Quanto a Atílio, o dono do anfiteatro que desabou - sim, ele sobreviveu! - também por decisão do Senado, foi punido com o exílio.

(*) c. 47 d.C. - 120 d.C.


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terça-feira, 12 de novembro de 2019

Extravagâncias nos triunfos de César

Caio Júlio César - sim, o do Primeiro Triunvirato - teve não um, nem dois, nem três e nem quatro, mas cinco triunfos, com pequenos intervalos. Quatro deles foram celebrados em 46 a.C., e o quinto, no ano seguinte, 45 a.C.
Ora, meus leitores, se o número de triunfos é exagerado, mostra, certamente, que, a despeito de todos os inimigos que angariou ao longo da vida, César foi um grande líder militar, ao menos sob o ponto de vista dos romanos. Os inimigos derrotados em combate talvez não tivessem dele uma ideia muito favorável. No entanto, o que mais impressiona são alguns detalhes desses triunfos, que conhecemos através da obra de Suetônio (¹), De vita Caesarum. Vejam só:
  • No triunfo em comemoração à vitória sobre os gauleses, César subiu ao Capitólio em companhia de nada menos que quarenta elefantes, tudo isso à luz de tochas (²); 
  • No triunfo em comemoração à vitória no Ponto (³), uma placa trazia as palavras "Veni, vidi, vici", que, de acordo com Suetônio, tinham por objetivo retratar a velocidade com que a guerra, um grande sucesso, fora feita;
  • Os triunfos foram também ocasião para prodigalidades, e quem é que poderia fugir à suspeita de que, com elas, César pretendia, literalmente, comprar o favor popular? Seus soldados das legiões veteranas receberam, cada um, vinte e cinco mil sestércios, além de terras para cultivo; quanto ao povo em geral, recebeu donativos em dinheiro, trigo e azeite, além da participação em um banquete público;
  • Houve ainda grande variedade de espetáculos, tais como lutas de gladiadores, peças teatrais, espetáculos de circo, uma batalha naval simulada e competições esportivas, e isso em vários pontos da cidade de Roma, para que todos os que quisessem assistir, tivessem oportunidade;
  • Com tanta fartura de comida e diversão, a cidade ficou abarrotada de gente, chegando a haver acampamentos nas ruas, feitos por aqueles que vinham de longe para participar dos festejos. Sucede, porém, que a Roma desse tempo tinha ruas diminutas para tanto movimento. A consequência, trágica para alguns, é que, com as multidões que se aglomeravam, houve gente que foi pisoteada e asfixiada. Entre os mortos, contaram-se até dois senadores.
Suetônio viveu muito tempo depois desses acontecimentos, e é possível que seu relato contenha algum exagero, devido à idealização dos "tempos de César", que romanos do Século II talvez fizessem. Contudo, de seu registro, depreende-se um fato inquestionável: a grandeza dos triunfos era um retrato da importância que os romanos atribuíam às conquistas militares, enquanto a prática de pão e circo, como política e como estilo de vida, ganhava força, para glória e desgraça do Império que, em poucos anos, iria se firmar.

(1) 69 - 141 d.C.
(2) Não havia lâmpadas de LED naquele tempo...
(3) Ponto era o nome dado na Antiguidade à região na costa sul do mar Negro.


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Causas da decadência do Império Romano

Já estão aqui no blog duas postagens que introduziram o assunto das causas do declínio e queda de grandes impérios. Se vocês ainda não correram os olhos por elas, talvez seja útil fazê-lo, antes de entrar na questão de hoje, que trata da decadência do Império Romano. Aqui estão os links:
- Ascensão e decadência de impérios, de acordo com Heródoto;
- Sêneca e sua teoria sobre a decadência dos impérios.

Houve quem atribuísse o declínio de Roma à expansão do cristianismo, cujas ideias pacifistas teriam tornado o exército pouco apto para o combate e, portanto, também para a defesa das fronteiras. Ficaremos, no entanto, com aquelas que são as causas mais frequentemente apontadas, para que vocês, leitores, depois de alguma reflexão, possam construir sua própria interpretação dos fatos. 
Grande extensão do Império, dificultando o controle sobre áreas remotas - Diferentes povos, com uma variedade de culturas, todos submetidos a um só governo, nem sempre adequado às condições locais, tornavam difícil a administração; o Império chegou a ser tão extenso que, ocorrendo uma invasão ou outro problema qualquer em determinada área, levava muito tempo até que a notícia chegasse a quem devia tomar decisões. As providências, não raro, aconteciam tarde demais.
Invasões bárbaras (¹) - Povos bárbaros forçavam as fronteiras de Roma desde os tempos da República. Ocorre que, então, o exército romano era forte o bastante para repelir as tentativas de invasão (²). Mais tarde, bárbaros foram assimilados no Império, e o exército passou a admitir um grande número deles em suas fileiras. As invasões dos Séculos IV e V somente vieram a ser um fator de desagregação do Império porque este já era demasiado fraco em sua capacidade de resistência.
Elevados impostos e tributos - As diferentes contribuições impostas aos cidadãos e aos povos dominados, necessárias, por exemplo, para custear o exército e manter as distribuições periódicas de cereais (³), retiravam recursos das atividades produtivas e empobreciam a população, gerando descontentamento e revoltas sociais. Mais ainda: sendo Marco Aurélio imperador, o direito de cidadania tornou-se extensivo às províncias, apenas com a finalidade de cobrar mais impostos. O sentido de ser um romano estava, com isso, desaparecendo.
Número exagerado de desocupados entre a população - Este problema era antigo; nasceu com o sucesso de Roma em suas incursões militares. Povos vencidos foram escravizados e, com isso, parte da população livre, não encontrando trabalho, passou a depender do Estado para sobreviver (⁴). 
Lutas sociais -  Aconteciam desde a República. A princípio, eram os plebeus que exigiam mais direitos (⁵); depois, vieram as revoltas de escravos (⁶) e as agitações no tempo dos irmãos Tibério e Caio Graco, as sedições provocadas por desocupados, as rebeliões por falta de víveres e outras mais.
Corrupção - Quem estava no poder, em qualquer esfera que fosse, buscava, como regra geral, extrair a maior vantagem econômica possível da função que ocupava. O problema era muito grave, particularmente na administração das províncias (⁷), cujos habitantes, percebendo que eram explorados além do previsto, viviam sempre prontos para uma rebelião.
Enfraquecimento da disciplina do exército - A disciplina de seu exército transformara em potência a modesta cidade-Estado que era Roma; foi justamente o enfraquecimento dessa disciplina um dos fatores mais importantes para o declínio do Império, à medida que candidatos à sucessão no trono imperial compravam, literalmente, o apoio dos soldados. O resultado dessa prática desastrosa foi que o exército passou a apoiar aquele que pagasse mais, não vacilando em assassinar um imperador para elevar ao poder algum outro que oferecesse mais dinheiro. Ainda em relação ao exército, chegou o tempo em que, devido à extensão do Império e, portanto, também das fronteiras que deveriam ser vigiadas, já não era possível recrutar apenas romanos para a carreira das armas. Nasceu daí a necessidade de recrutar "auxiliares" (mercenários) nas províncias para completar as legiões (⁸). Tal fato contribuiu para enfraquecer o exército romano, que, afinal, já não era tão romano assim.
Declínio dos valores e da moralidade - Para quem acha que falar em decadência de valores é "politicamente incorreto", será útil lembrar que o assunto era alvo de debates recorrentes no Senado romano (⁹). Dizia-se que os homens que haviam liderado Roma na conquista do mundo primavam pela frugalidade, economia e amor ao trabalho. O contato com outras civilizações introduzira em Roma o amor pelo luxo (¹º) e pela ostentação; a chegada de multidões de escravizados, em consequência das conquistas militares, fizera do trabalho um constrangimento (¹¹). Leis foram impostas com a intenção de restaurar os antigos costumes, mas não tiveram o efeito desejado.
Vejam, leitores, que não é nada razoável apontar para uma causa, apenas, e dizer: É esta a responsável pela decadência de Roma! Muito mais sensato é perceber que o declínio foi um processo lento, que já estava em ação quando o Império se imaginava no auge do poderio. Como todos os grandes impérios do passado, Roma também chegou ao fim. Deixou, todavia, um legado relevante, que persiste até nossos dias.

(1) Os romanos chamavam "bárbaros" a todos aqueles cuja língua materna não era nem o latim e nem o grego.
(2) Apesar disso, César relatou, em De Bello Gallico, que a fama da força física e da coragem dos germanos deixava apavorados os soldados de Roma.
(3) Esses cereais eram, como regra, importados (principalmente do Egito).
(4) A política de "pão e circo" se insere nesse contexto.
(5) Basta lembrar as retiradas da plebe para o Monte Sagrado.
(6) A Revolta de Espártaco é a mais conhecida, mas não foi a única.
(7) Tácito afirmou no livro XII dos Annales que Félix, governando a Judeia, "entendia poder fazer, impunemente, qualquer malefício".
(8) No Livro II de Rerum Romanarum, Aneu Floro afirmou que, diante da necessidade de mais homens para lutar contra os cartagineses comandados por Aníbal, até mesmo escravos foram incorporados ao exército romano.
(9) Tácito, no Livro II dos Annales, registrou que, durante o governo de Tibério, um decreto para cercear a "desonestidade das mulheres" de condição nobre foi posto em vigor.
(10) Tito Lívio, em Ab urbe condita libri, afirmou que foram as tropas de L. Cornélio Cipião, quando voltaram da guerra contra Antíoco, as primeiras a "introduzir em Roma os hábitos de luxo dos estrangeiros".
(11) De acordo com Floro, os jogos foram criados para dar uma ocupação aos soldados, quando estes não se encontravam ocupados em campanhas militares.


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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Pão e circo

Até batalhas navais eram realizadas para entretenimento dos romanos


Ouvem os estudantes em suas aulas de História que, para garantir que uma revolta social de grandes proporções não viesse a ocorrer em Roma, os governantes promoviam distribuições de trigo e espetáculos circenses de todo tipo, tais como corridas de bigas e combates de gladiadores, entre si e entre gladiadores e animais selvagens. Quanto mais sangrento o espetáculo, melhor. 
Isso tudo pode parecer um tanto simplista, mas é preciso recordar que, desde as grandes guerras de conquista durante a República, a entrada de muitíssimos escravos em Roma havia resultado em uma vasta população livre e desocupada. Havia gente sem fazer nada porque tinha escravos para fazer o trabalho, mas a a maioria dentre os ociosos havia perdido sua ocupação para os cativos. O temor de uma revolta social não, era, pois, descabido. 
Além disso, figuras que pretendiam ascensão política faziam realizar jogos e espetáculos às próprias expensas, com a finalidade de obter apoio popular. Geralmente funcionava (que o dissesse Júlio César). A morte de personagens ilustres também podia ser pretexto para circo. Em homenagem, claro, e não para festejar (oficialmente).
À medida que o tempo passava, simples lutas entre fortões escravizados já não pareciam ser o bastante - talvez estivessem cansando pela repetição - de modo que novos espetáculos foram inventados, sem muito limite à imaginação, apenas cerceada pelas condições tecnológicas da época (¹).
O fato é que cada novo imperador pretendia realizar jogos mais deslumbrantes que seus predecessores, tencionando fazer-se eternizar na memória dos contemporâneos, o que, convenhamos, não era grande coisa, sob o nosso ponto de vista, mas era essencial ao jogo político da época. A gastança era grande e a criatividade levou até à realização de batalhas navais para entretenimento dos desocupados. De acordo com Tácito (²), a primeira delas ocorreu nos dias de Augusto, mas o imperador Cláudio (³) foi mais longe, fazendo colocar duas esquadras, com milhares de homens (criminosos, não marinheiros "de verdade") para um combate sangrento no lago Fucino. Tudo foi arranjado para que os contendores não tivessem como fugir da batalha, e os mestres-pilotos viessem a demonstrar toda a habilidade em conduzir as embarcações, quer em uma abordagem para ataque, quer para escapar do contato com o inimigo. 
Para emprestar maior realismo à cena, a Guarda Pretoriana e muitos soldados a cavalo foram postados junto às margens, e, como se não bastasse, catapultas e outras máquinas de guerra, também instaladas junto ao lago, lançavam pedras e setas, como se esperava que ocorresse um uma batalha naval.
É quase desnecessário dizer que, para presenciar a luta, veio gente de toda a região, em tal quantidade que não se poderia facilmente contar, procurando lugar nas áreas mais elevadas, de onde o espetáculo podia ser melhor apreciado. O próprio Cláudio, acompanhado da imperatriz Agripina, assistiu a tudo. 
Resultado? Sucesso absoluto, de público e crítica. Não dá pra dizer que a banalização da morte é coisa apenas de nosso tempo.

(1) Que não eram tão limitadas quanto se poderia pensar: consta que, no coliseu, havia até mesmo um elevador para que animais selvagens de grande porte fossem colocados na arena.
(2) Annales, Livro 12.
(3) Ano 806 da fundação de Roma, ou 53 d. C.


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quarta-feira, 5 de junho de 2013

A escravidão na Antiguidade

Consequências da escravidão entre gregos e romanos


Costuma-se dizer que, no Brasil, a escravidão teve consequências desastrosas. Isso é fato. Mas a redução de seres humanos à condição de mercadoria trouxe péssimos resultados também na Antiguidade - entre gregos e romanos, por exemplo.
Os povos antigos sedentários tinham sua economia quase sempre baseada em práticas agrícolas, associadas também ao pastoreio. Essas atividades envolviam, em princípio, todos os membros válidos de uma dada comunidade. Falando sem rodeios, todo mundo precisava trabalhar em coisas como preparar o solo, plantar, colher ou cuidar de ovelhas, cabras, bois, galinhas, e por aí vai. Obter o sustento era muito difícil com as técnicas primitivas de que se dispunha, e o envolvimento do maior número possível de braços era essencial para assegurar um suprimento adequado de alimentos para todos, de modo que ninguém era dispensado de trabalhar arduamente, nem nisso via-se algo de desonroso. Muito pelo contrário.
Alguém perguntará: Não havia nunca algum escravo? Talvez houvesse, mas ainda assim, a escravidão somente ocorria em pequena escala. De qualquer modo, o trabalho escravo era a exceção, e não a regra. Alguém podia, eventualmente, ser escravizado por dívidas, mas ainda não chegara a hora dos grandes mercados em que gente era comprada e vendida, de modo análogo ao que se fazia com trigo, centeio, cevada ou gado.
As guerras, no entanto, abriram, em muitos casos, as portas para a escravidão em massa, à medida que inimigos derrotados eram submetidos a trabalho compulsório - uma condição de tal aviltamento que, não raro, era preferível morrer bravamente em combate a permanecer vivo e ser capturado pelos vencedores. Segue-se disso tudo que, uma primeira consequência da escravização dos vencidos é que, nas cidades e campos, passava a haver uma população de escravos que votava ódio feroz a seus senhores, sendo, por isso, uma ameaça constante à paz interna e à segurança. Afinal, alguém poderia, hoje, ser uma figura rica e importante de um lugar e, amanhã, um escravo em território inimigo, em decorrência de uma guerra de conquista.
Para os vencedores, porém, as consequências não eram restritas ao medo contínuo de uma rebelião de escravos (¹). Os antigos trabalhadores livres da agricultura viam-se sem trabalho, ao serem substituídos por mão de obra cativa. Mesmo pequenos proprietários de terras não podiam competir com os grandes latifundiários escravocratas. Que fazer? Muita gente tentava encontrar trabalho nas cidades, mas a maioria das pessoas não tinha sucesso nessa busca, de modo que uma multidão de desocupados juntava-se ao número dos potenciais revoltosos. A situação tornou-se tão séria que, em Roma, as autoridades viram-se na contingência de fazer distribuições de trigo, com o objetivo de acalmar os ânimos dos esfomeados. E, para mantê-los ocupados, faziam-se celebrar espetáculos públicos, esperando-se que toda a ira da população desempregada se consumisse em presenciar lutas e outros embates sangrentos. Era a chamada "política de pão e circo", coisa que qualquer colegial conhece bem (espero!).
O ócio, por sua vez, era elevado à condição de coisa desejável, atributo da elite, que podia, assim, dedicar-se a questões tais como a política e os estudos, inclusive os de caráter filosófico. Isso vale tanto para gregos como para romanos, mas não deixa de ser curioso que, quando gregos também foram escravizados, meninos e jovens de Roma aprendessem língua grega e filosofia com mestres escravos. E, como nem todo mundo estudava ou exercia algum tipo de governo, havia sempre muita gente importante desocupada que, no auge do Império Romano, gastava seus dias em termas, festas e orgias, bem longe, portanto, dos valores frugais dos primeiros tempos de Roma, nos quais a juventude nobre era estimulada a exercitar-se nas árduas tarefas da carreira militar (²).
Já houve muito historiador que não hesitou em dizer que tal quadro, na Roma Antiga, trouxe consigo o declínio moral da sociedade e, consequentemente, a derrocada geral do Império - à medida que, no plano interno, Roma mergulhava nas pesadas consequências da escravização em massa de seus inimigos, externamente os novos adversários, mais fortes que os anteriores (e enfrentando Roma mais fraca), punham-se a solapar as antigas fronteiras do Império. A queda de Roma seria, pois, apenas uma questão de tempo. Deixo a meus leitores o direito ao julgamento, por si mesmos, da questão do declínio moral de Roma, mas não há como negar que a escravidão, substituindo a vitalidade de um povo de trabalhadores livres, teve seu papel tanto em fazer de Roma uma tremenda potência como em arruiná-la, posteriormente. A história de muitos outros povos segue linhas bastante parecidas.

(1) O que, aliás, acontecia: a Revolta de Espártaco é, talvez, o mais célebre exemplo disso.
(2) Vale ressaltar que Cícero, escrevendo ao filho, lembrava que nenhum jovem saudável devia fugir às obrigações do serviço militar.


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terça-feira, 12 de junho de 2012

Uma comparação entre os jogos olímpicos da Grécia e os espetáculos de gladiadores em Roma

Não há dúvida de que tanto os Jogos Olímpicos celebrados pelos gregos da Antiguidade quanto os espetáculos circenses em Roma envolviam habilidades atléticas. Mas as semelhanças não vão além disso.
Os atletas gregos eram, necessariamente, jovens de condição livre, quase sempre integrantes da elite de suas respectivas cidades-Estados. Já os gladiadores romanos eram, em sua imensa maioria, escravos, que lutavam não porque queriam, mas porque eram obrigados a isso, e o fato de que a insanidade de alguns imperadores tenha levado à exigência de que membros de famílias senatoriais eventualmente também lutassem, não muda, em absoluto, a regra geral. Dessa cruel e fundamental diferença decorrem muitas outras. Veremos algumas.
Se é verdade que em Olímpia as celebrações ocorriam em honra de Zeus, em Roma, ainda que divindades fossem invocadas, os espetáculos realizavam-se para fortalecer a imagem pública de líderes políticos, sendo apreciados, mesmo antes do Império, sempre que se queria entreter e agradar a população. Júlio César foi um mestre em gastar rios de dinheiro para divertir as massas que o apoiavam. Lutas e outras competições também ocorriam para comemorar algum acontecimento importante (a morte de alguém famoso, por exemplo) e, principalmente, para fazer com que as multidões sem trabalho, atentas a espetáculos violentos mas controlados, "esquecessem" a ideia de insurgir-se contra as autoridades.
Não se deve imaginar que as Olimpíadas eram competições cavalheirescas, com algum lema que sugerisse que, em última instância, o importante mesmo era estar lá para honra dos deuses, independente do resultado das provas. Nada disso. As modalidades incluíam lutas violentíssimas, como era o caso do pancrácio (quebra-ossos!) e, não raro, atletas morriam durante as provas. Mas aqui aparece outra distinção fundamental entre o que acontecia em Olímpia e os jogos de Roma: se um competidor morria nos Jogos Olímpicos, sua memória era honrada como sendo ele um herói, pois preferira perder a vida a ser derrotado; nos circos romanos, os gladiadores se engalfinhavam tentando matar o oponente porque esse era o único modo de vencer e, assim, obtendo uma boa sequência de vitórias, recuperar, talvez, a liberdade. Nesse caso, o que morria era um fracassado.
Finalmente, a despeito das lutas sangrentas, os Jogos Olímpicos incluíam diversas modalidades nas quais buscava-se, sob a severa vigilância dos juízes, determinar quem era o verdadeiro campeão, aquele que melhor retratava os ideais de perfeição tão valorizados pelos gregos, ideais esses que incluíam a capacidade atlética e a força mental. Por isso, pode-se dizer que no herói olímpico, ao menos em teoria, sintetizava-se toda a proposta de formação de verdadeiros cidadãos. O circo romano, por sua vez, era o lugar em que a população em geral era sutilmente afastada de questões políticas nas quais os poderosos não queriam que se intrometesse. Era o palco da alienação, onde o sangue dos competidores mortos por seus oponentes substituía, de algum modo, o de governantes corruptos e incapazes, que divertiam as multidões para evitar uma revolta em larga escala, num momento em que um lampejo de lucidez viesse a esclarecer as verdadeiras causas das desgraças do Império.


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