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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

A pira funerária de Júlio César

Os antigos romanos eram afeiçoados a tradições, mas, quando reconheciam a utilidade de um novo procedimento, aceitavam mudanças. Querem um exemplo, leitores? Vejam o que disse Plínio, o Velho (¹):  "Entre os romanos a cremação não é uma instituição antiga, o [velho] costume era enterrar." (²) Neste caso, a cremação foi adotada para evitar que os corpos dos soldados que morressem em combate fossem desenterrados por inimigos e profanados. Na antiga religião romana o culto aos mortos, principalmente no contexto das famílias patrícias, tinha papel fundamental. 
Compreende-se, portanto, que a cremação tenha sido o procedimento escolhido quanto ao corpo de Júlio César, assassinado em 15 de março de 44 a.C. Contudo, os rituais funerários foram bastante tumultuados. No cenário político de Roma naquele momento não havia espaço para nada diferente. 
A pira funerária foi erguida no Campo de Marte, conforme disse Suetônio (³) em De vita Caesarum. O cenário, em extremo suntuoso, incluiu um leito de marfim, adornado de ouro e púrpura, para o cadáver do ditador vitalício. É evidente que os partidários de César pensaram em cada detalhe para impressionar as (volúveis) massas, porque até mesmo as roupas que o ditador usava no momento em tombara apunhalado foram colocadas à cabeceira. Óbvio, deviam estar completamente manchadas pelo sangue do morto. 
O cerimonial prosseguiu com pompa, inclusive com a realização de jogos (parece que em Roma todas as ocasiões eram pretexto para esses espetáculos). O leito fúnebre foi, então, conduzido ao foro, onde a multidão, liderada por dois indivíduos armados com espada, ateou fogo ao cadáver, juntando galhos e até mesmo as roupas usadas por alguns dos circunstantes. Soldados romanos que haviam lutado sob as ordens de César entregavam suas armas às labaredas, flautistas, segundo a tradição, tocavam melodias tristes e, no dizer de Suetônio, até mesmo estrangeiros lamentavam o falecido, cujo corpo era, diante de seus olhos, consumido pelas chamas. 
A encenação não tardou a produzir resultado. A multidão, em fúria, voltou-se contra os envolvidos na conspiração que, contrária à ditadura perpétua que fazia perigar a República, entendera resolver o problema eliminando o ditador. 

(1) 23 d.C.  79 d.C.
(2) Naturalis historia, Livro VII. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) 69 - 141 d.C.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Por que Júlio César foi assassinado

Júlio César (⁴)
Dia 15 de março de 44 a.C., os "idos de março", para os antigos romanos. Nesse dia, por volta das onze da manhã (¹), Júlio César foi assassinado. Fora avisado pelos áugures de que havia grave ameaça sobre ele, mas, supersticioso como era, ainda assim desprezou a advertência e, ao se apresentar para um compromisso público, foi morto com múltiplas punhaladas. Eram mais de sessenta os conspiradores (²). Por quê?
De acordo com De vita Caesarum, de Suetônio, o pretexto formal é que havia quem pretendesse dar a César o título de rei, sob o argumento de que nos livros sibilinos haveria uma profecia segundo a qual Roma somente conquistaria a Pártia se fosse governada por um rei. Ora, o povo romano tinha a mais ferrenha aversão à monarquia, desde que o último dos sete reis, Tarquínio, chamado "o soberbo" fora deposto. Mas, com profecias sibilinas ou sem elas, é fato que César flertava com a monarquia, ainda que afirmasse jamais aceitar uma coroa. Seu comportamento, àquela altura, mais parecia o de um rei que de um governante republicano. Não era, já, ditador vitalício?
O apoio popular, que Júlio César tão zelosamente cultivara, era instável. A plebe estava sempre ao seu lado, "sempre" significando, aqui, quando fazia distribuições de víveres e de dinheiro (³). Quanto ao patriciado, irritara-se com a decisão de César de introduzir gauleses no Senado. O ditador tinha, pois, inimigos à direita e à esquerda.
Seriam essas explicações suficientes para um assassinato público? Sêneca, que viveu no século seguinte - era filósofo estoico e foi professor de Nero - interpretou a morte de César sob outro olhar: "O divino Júlio", disse ele, "foi morto com a participação antes de amigos que de inimigos, por não ter concretizado suas pretensões ilimitadas" (⁵). Suas palavras sugerem uma reflexão útil aos poderosos de todos os tempos.

(1) À hora quinta. A correspondência com o sistema atual de vinte e quatro horas varia um pouco, de acordo com a época do ano.
(2) Suetônio, em De vita Caesarum, apontou Caio Cássio, Marco e Décimo Bruto como os líderes do complô.
(3) Sim, leitores, isso acontecia.
(4) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 156. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) SÊNECA. De iraO trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

O cavalo de Júlio César

Animal de estimação é coisa que não se discute. Pode ser lindo, uma obra-prima da natureza, ou feio, disforme e antipático. Não importa: para o dono, é de estimação, e isso é tudo o que conta. Júlio César, ditador perpétuo em Roma, tinha um cavalo de estimação.
Os romanos, como se sabe, eram bastante supersticiosos, e o cavalo de César, que nascera em sua casa, fora agraciado pelos arúspices com o vaticínio de que aquele que o montasse conquistaria o mundo. Que aduladores eram esses arúspices! Conforme conta Suetônio (¹) em De vita Caesarum, a justificativa para o tal presságio é que o potro apresentava as patas mais parecidas com as mãos de um ser humano que com o casco de um cavalo. Acreditem se quiserem, leitores, deixo o caso a critério de vocês. Seja como for, ainda segundo Suetônio, César levou o assunto a sério e criou o cavalo, tratando-o com o máximo cuidado, e, para assegurar-se de que ninguém além dele próprio chegaria a montá-lo, cuidou, em pessoa, de seu adestramento.
Não ficou só nisso. Mandou fazer uma estátua do cavalo, que foi colocada diante do templo dedicado a Vênus Genetrix. A profecia dos arúspices, contudo, jamais se realizou. César, assassinado em 44 a.C., esteve muito longe de dominar o mundo, mesmo para os padrões daquilo que os romanos chamavam de "mundo habitado".  
Incitatus, o cavalo favorito de Calígula (²), talvez seja o equino mais famoso de Roma, mas, apesar de exageradamente mimado, não teve o privilégio de ser o primeiro a ter a honra de virar estátua. Se, quanto a este assunto, as informações de Suetônio forem corretas, Calígula (³) apenas imitou César.

(1) 69 - 141 d.C.
(2) Imperador entre 37 e 41 d.C., foi, como César, assassinado.
(3) Calígula era loucamente apaixonado por corridas de cavalos e bigas.


terça-feira, 12 de novembro de 2019

Extravagâncias nos triunfos de César

Caio Júlio César - sim, o do Primeiro Triunvirato - teve não um, nem dois, nem três e nem quatro, mas cinco triunfos, com pequenos intervalos. Quatro deles foram celebrados em 46 a.C., e o quinto, no ano seguinte, 45 a.C.
Ora, meus leitores, se o número de triunfos é exagerado, mostra, certamente, que, a despeito de todos os inimigos que angariou ao longo da vida, César foi um grande líder militar, ao menos sob o ponto de vista dos romanos. Os inimigos derrotados em combate talvez não tivessem dele uma ideia muito favorável. No entanto, o que mais impressiona são alguns detalhes desses triunfos, que conhecemos através da obra de Suetônio (¹), De vita Caesarum. Vejam só:
  • No triunfo em comemoração à vitória sobre os gauleses, César subiu ao Capitólio em companhia de nada menos que quarenta elefantes, tudo isso à luz de tochas (²); 
  • No triunfo em comemoração à vitória no Ponto (³), uma placa trazia as palavras "Veni, vidi, vici", que, de acordo com Suetônio, tinham por objetivo retratar a velocidade com que a guerra, um grande sucesso, fora feita;
  • Os triunfos foram também ocasião para prodigalidades, e quem é que poderia fugir à suspeita de que, com elas, César pretendia, literalmente, comprar o favor popular? Seus soldados das legiões veteranas receberam, cada um, vinte e cinco mil sestércios, além de terras para cultivo; quanto ao povo em geral, recebeu donativos em dinheiro, trigo e azeite, além da participação em um banquete público;
  • Houve ainda grande variedade de espetáculos, tais como lutas de gladiadores, peças teatrais, espetáculos de circo, uma batalha naval simulada e competições esportivas, e isso em vários pontos da cidade de Roma, para que todos os que quisessem assistir, tivessem oportunidade;
  • Com tanta fartura de comida e diversão, a cidade ficou abarrotada de gente, chegando a haver acampamentos nas ruas, feitos por aqueles que vinham de longe para participar dos festejos. Sucede, porém, que a Roma desse tempo tinha ruas diminutas para tanto movimento. A consequência, trágica para alguns, é que, com as multidões que se aglomeravam, houve gente que foi pisoteada e asfixiada. Entre os mortos, contaram-se até dois senadores.
Suetônio viveu muito tempo depois desses acontecimentos, e é possível que seu relato contenha algum exagero, devido à idealização dos "tempos de César", que romanos do Século II talvez fizessem. Contudo, de seu registro, depreende-se um fato inquestionável: a grandeza dos triunfos era um retrato da importância que os romanos atribuíam às conquistas militares, enquanto a prática de pão e circo, como política e como estilo de vida, ganhava força, para glória e desgraça do Império que, em poucos anos, iria se firmar.

(1) 69 - 141 d.C.
(2) Não havia lâmpadas de LED naquele tempo...
(3) Ponto era o nome dado na Antiguidade à região na costa sul do mar Negro.


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Romanos copiavam o que havia de interessante em outros povos

A simples observação do que ocorria entre muitos povos da Antiguidade é suficiente para que se conclua que, em se tratando de inimigos vencidos, a regra era, tanto quanto possível, apagar até mesmo a lembrança de sua existência. 
Querem um exemplo, leitores? Aconteceu um pouco com a ajuda das intempéries, é fato, mas, após a derrota para uma coligação de medos e caldeus, o espetacular império assírio (¹) foi varrido do mapa. A destruição foi tão completa que, antes das escavações arqueológicas do Século XIX, havia muita gente que julgava sua existência apenas imaginária, qualificando-a uma "fábula bíblica" (²). Vale o mesmo em relação aos hititas. Civilizações inteiras desapareceram ante a fúria dos vencedores, deixando, no melhor dos casos, pouquíssimos vestígios. Triunfadores tinham um orgulho insano de sua pretensa superioridade, e, portanto, julgavam ter o direito de esmagar os traços culturais dos derrotados, ainda que, em si mesmos, esses traços fossem até muito bons. 
Pragmáticos, os romanos não pensavam assim. Sem nenhum constrangimento, assumiam que, se havia algo de bom e/ou útil em outras culturas, a melhor coisa a fazer era copiar. Em um discurso no Senado, Júlio César, conforme relato de Salústio, assim se expressou:
"Nossos antepassados [...], aos quais não faltava nem discernimento e nem coragem, nem por isso, soberbamente, deixaram de adotar instituições alheias, quando pareciam dignas de imitação. Armas e armaduras vieram dos samnitas, insígnias ostentadas pelos magistrados foram copiadas dos etruscos (³); portanto, o que viam de útil, fosse entre aliados ou inimigos, adotavam [...]." (⁴)
Um modelo da paixão dos romanos por tudo o que era notável na cultura alheia pode ser visto a partir da conquista da Grécia. É verdade que os romanos derrotaram os gregos em campo de batalha. Enfeitiçados, porém, pela arquitetura, pela escultura, até pela comida dos sofisticados helenos, a gente rústica de Roma jamais seria a mesma. Nas escolas, os meninos romanos, que até então não iam muito além de aprender a ler, escrever e fazer algumas contas simples, passaram a estudar não somente seu latim materno, mas também o grego. E mais: com o idioma dos vencidos, vieram as aulas de filosofia, de retórica e de outras disciplinas nas quais os gregos tinham construído um saber modelar. À vista disso, talvez seja o caso, meus leitores, de levantar a questão: Em tal cenário, quem foi, finalmente, o autêntico vencedor?

(1) Não faltará quem diga que os assírios mereceram.

(2) Isso ocorria porque quase todas as referências aos assírios, até então conhecidas, estavam na Bíblia.
(3) Samnitas e etruscos eram povos que, assim como os romanos, habitavam a Península Itálica.
(4) SALÚSTIO, Caio. Catilinae coniuratio. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Como os romanos tratavam os prisioneiros de guerra

As vitórias militares de Roma corresponderam, em muitas ocasiões, à completa ruína dos povos derrotados. O destino dos prisioneiros de guerra, como regra, resultava em uma das seguintes situações:
  • Execução sumária, em particular no caso dos chefes, como medida para impedir que as forças inimigas se reorganizassem;
  • Escravização para trabalho em obras públicas;
  • Muitos eram vendidos em mercados de escravos (a chegada de um grupo de cativos era vista como espetáculo público, especialmente se os escravizados tinham características físicas diferentes daquelas que eram usuais entre romanos);
  • Soldados vencedores recebiam prisioneiros como prêmio e podiam dispor deles como julgassem conveniente, quer conservando-os a seu serviço, quer vendendo-os para quem pagasse bem.
Embora os antigos não costumassem registrar as quantidades de escravizados segundo critérios que nós, hoje, reputamos corretos, é possível ter uma ideia aproximada do que acontecia a cada grande vitória, em virtude de relatos da época. O próprio Júlio César, em De Bello Gallico, deixou informações muito úteis, e é assim que sabemos que, em certa ocasião (¹), foram vendidos como escravos nada menos que cinquenta e três mil prisioneiros de guerra. Depois de derrotar gauleses em uma batalha naval, César julgou apropriado impor uma punição severa, por entender que embaixadores de Roma haviam sido desrespeitados: "Todos os líderes idosos foram executados e os demais prisioneiros foram vendidos como escravos" (²). E, ainda na mesma obra, é dito que, depois de derrotar Vercingetórix, César recompensou cada soldado romano com um prisioneiro de guerra (³).
Assim, guerra após guerra, Roma estendia seus domínios e multidões de prisioneiros eram trazidas para escravização, de modo que, com o correr do tempo, grande parte do trabalho passou a ser feito por mão de obra cativa. A população pobre, mas livre, já não encontrava ocupação remunerada. Outras multidões, dessa vez compostas por romanos desocupados, afluíam à capital. Os problemas sociais eram inevitáveis. Tácito, no livro quarto dos Annales, lembrou que, ao tempo em que Tibério era imperador, "os escravos [eram] uma multidão que crescia imensamente e pouco o povo de condição livre" (⁴). Era preciso, portanto, que o Estado assumisse a obrigação de alimentar e entreter os homens livres que andavam desocupados, sob pena de uma revolta social de dimensões catastróficas. Periodicamente, eram feitas distribuições de cereais. O exército ocupava uma parte dos homens livres, enquanto espetáculos públicos sangrentos divertiam multidões que tinham excesso de tempo e falta do que fazer.
Mas não era só. A entrada de tantos escravos estrangeiros ia, gradualmente, descaracterizando aquilo que se poderia chamar de "cultura romana", além de ser contínuo o temor de uma rebelião. Caio Cássio, falando no Senado romano em 62 d.C., sendo Nero o imperador, observou: "Temos fâmulos [escravos] de todas as nações, que vêm de costumes os mais variados, de religiões estrangeiras ou sem nenhuma religião, e é somente sob coerção que podemos mantê-los em obediência [...]." (⁵) 
Reconhecia-se a necessidade da força para manter tantos cativos em subordinação à minoria romana. No entanto, até mesmo o exército ia, gradualmente, admitindo estrangeiros, pois, do contrário, não haveria soldados em número suficiente para as tentativas de preservar a ordem nas fronteiras. Roma se tornara tão grande que já não conseguia ser Roma. As rupturas no tecido social que constituía o Império preparavam caminho para seu declínio e queda.

(1) De Bello Gallico, Livro Segundo.
(2) Ibid., Livro Terceiro.
(3) Ibid., Livro Sétimo.
(4) Annales, Livro Quarto.
(5) Ibid., Livro Décimo Quarto. 
Os trechos de De Bello Gallico e dos Annales aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 11 de março de 2016

César e a duração da noite na Grã-Bretanha

Como os romanos descobriram que a duração da noite não era a mesma em lugares diferentes


A ciência, na Antiguidade, avançava com a ajuda de acontecimentos não exatamente científicos - ou seja, com um empurrãozinho do acaso, uma vez que a ideia de planejar experimentos sob estrito controle, com uma  observação cuidadosa dos resultados, não era ainda praticada como regra. No entanto, em todos os tempos, cérebros inteligentes foram capazes de observar coisas que pareciam não funcionar como esperado, tirando, daí, conclusões interessantes (ainda que nem sempre exatas).
Um caso desses ocorreu quando César e suas tropas chegaram à Britânia (*) em meados do primeiro século antes de Cristo. Ocorre que os romanos daquele tempo marcavam as horas com o emprego de relógios de água, e, com o uso deles, foi possível constatar que, àquela época do ano, as noites na ilha eram mais curtas que no Continente. Desse fato podemos extrair ao menos duas conclusões:
  • Os romanos, até esse tempo, ainda não sabiam que a latitude era um fator importante para determinar a duração do dia e da noite;
  • A guerra, que levava devastação a tantos territórios, acabou contribuindo para fazer avançar o conhecimento científico. 
Comete erro grave, porém, aquele que acha que há aqui uma boa justificativa para investidas bélicas. Pacíficas expedições comerciais, por exemplo, não seriam capazes de proporcionar o mesmo efeito?

(*) Ou Grã-Bretanha, se assim preferirem os leitores, em lugar do nome que era usual entre os antigos romanos.


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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Dez fatos interessantes sobre guerras da Antiguidade

Estão aqui alguns fatos interessantes, registrados por cronistas e historiadores da Antiguidade, que podem ser úteis para quem quiser visualizar mentalmente como eram as guerras daqueles tempos remotos.

1. Tiglate-Pileser, rei da Assíria, quando pretendia arrasar uma cidade ou não conseguia conquistá-la, mandava cortar todas as árvores que havia ao seu redor.

2.  Nas guerras da Antiguidade não era incomum a participação de fundeiros, ou seja, soldados que atiravam com fundas (como Davi contra Golias...). Ocorre que a técnica, por assim dizer, foi aperfeiçoada, de modo que, ao tempo dos romanos, já não eram atiradas pedras, e sim bolas de chumbo.

3. Uma prática muito comum nas guerras da Antiguidade, tendo em vista enfraquecer o(s) inimigo(s), consistia em roubar as colheitas e depois inutilizar os campos de cultivo enchendo-os de pedras.

4. De acordo com Júlio César, em seus Commentarii de Bello Gallico, os belgas eram os mais valentes de todos os moradores das Gálias, uma vez que não eram acostumados ao consumo de coisas delicadas, pois os mercadores raramente iam ao seu território.

5. Também de acordo com César, os gauleses, que eram muito altos, zombavam dos romanos, a quem consideravam "baixinhos".

6. Políbio de Megalópolis afirmava que as tropas comandadas por Cipião, o Africano, quando atacaram Cartagena (durante as Guerras Púnicas), eram compostas por vinte e cinco mil soldados de infantaria e dois mil e quinhentos de cavalaria, com seus respectivos cavalos, por suposto.

7. Ainda Políbio: as tendas dos cartagineses em seus acampamentos militares eram feitas de folhas e ramos de árvores.

Um soldado romano, de acordo com desenho
em uma parede de Pompeia (*)
8. Durante as Guerras Púnicas, percebendo os romanos que as vitórias dos cartagineses vinham em razão da superioridade de sua cavalaria, trataram de destruir os campos de onde provinham o feno e a cevada para os cavalos. A prática dava resultado porque era bastante difícil trazer de longe a forragem para os animais.

9. Tácito, historiador romano, no livro segundo dos Annales, afirmou que os germanos não eram, em relação aos romanos, menos valentes no combate; porém as armas e táticas dos romanos mostravam-se superiores, vindo daí sua vantagem.

10. As vitórias de César nas Gálias foram comemoradas em Roma durante quinze dias; segundo o próprio César, nunca antes havia ocorrido entre os romanos uma celebração assim, mas, posteriormente, outras comemorações ordenadas pelo Senado, também por conquistas de César, duraram nada menos que vinte dias.

(*) PARTON, James. Caricature and Other Comic Art. New York: Harper & Brothers, 1877, p. 15. Este desenho teria sido feito provavelmente por um soldado romano, na parede de um alojamento militar em Pompeia (portanto, antes que a cidade fosse destruída pelo Vesúvio em agosto de 79 d.C.).


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segunda-feira, 15 de junho de 2015

Queimados vivos

César, em De Bello Gallico, relatou, a respeito de Caio Valério Procilo, que fora feito prisioneiro pelos germanos comandados por Ariovisto:
"Contava que, diante dele próprio, três vezes lançaram sortes para decidir se seria queimado vivo imediatamente ou mais tarde, e que somente em decorrência do resultado da sorte é que ainda estava vivo." (¹)
Parece horrível? Pois é mesmo. Mas a ideia de queimar gente viva atravessou os séculos, e, infelizmente, como sabem muito bem os leitores, ainda tem seus adeptos.
Cristãos, nos dias de Nero, acusados injustamente de cumplicidade no incêndio de Roma, eram untados com algum tipo de gordura e, então, postos a queimar, depois que anoitecia, para iluminar os jardins do imperador, onde se realizavam festejos.
Dizem que o mundo dá muitas voltas e, neste caso, a volta foi tão acentuada que, sob a condenação da Igreja, através do Santo Ofício da Inquisição, não foram poucos os sentenciados por heresia que, queimados vivos em autos de fé,  pagaram pelo crime de pensar diferente da maioria. 
Ocorre, porém, e isso já é menos conhecido, que contemporaneamente às condenações do Santo Ofício, o Estado português também sentenciava à morte por fogo, em alguns casos considerados de jurisdição civil. Senão, vejamos, primeiro, a penalidade para quem fizesse moeda falsa em Portugal ou em seus domínios ultramarinos, de acordo com o Livro V das Ordenações do Reino (²), no Título XII:
"E por a moeda falsa ser coisa muito prejudicial [...] e merecerem ser gravemente castigados os que nisso forem culpados, mandamos que todo aquele que moeda falsa fizer, ou a isso der favor, ajuda ou conselho, ou for disso sabedor e o não descobrir, morra morte natural de fogo, e todos seus bens sejam confiscados para a Coroa do Reino."
Não era só. A mesma pena, cuidadosamente descrita, era aplicada em casos de sodomia, também de acordo com o Livro V, desta vez no Título XIII:
"Toda a pessoa, de qualquer qualidade que seja, que pecado de sodomia por qualquer maneira cometer, seja queimada e feita por fogo em pó, para que nunca de seu corpo e sepultura possa haver memória, e todos seus bens sejam confiscados para a Coroa de nossos Reinos, posto que tenha descendentes."
Mais ainda, no Título XIII, § 2:
"Outrossim, qualquer homem ou mulher que carnalmente tiver ajuntamento com alguma alimária, seja queimado e feito em pó. [...]."
Cabe, aqui, esclarecer que, para que alguém fosse considerado culpado, era preciso haver pelo menos duas testemunhas...
Finalmente, conforme o Título XVII, também seria queimado vivo aquele ou aquela que se envolvesse em relação incestuosa:
"Qualquer homem que dormir com sua filha, ou com qualquer outra sua descendente, com sua mãe, ou com outra sua ascendente, seja queimado, e ela também, e ambos feitos por fogo em pó."
O mundo ocidental olha, hoje, com horror, para essas penas cruéis. Mesmo onde se aplica a pena de morte, existe uma preocupação (nem sempre alcançada, é verdade) com que a morte seja rápida e, tanto quanto possível, sem demasiado sofrimento. Ninguém se esqueça, no entanto, de que, há apenas uns poucos séculos, a execução por fogo consistia em um espetáculo público muito concorrido. Sem nenhum exagero, havia quem preparasse lanche para ir, com a família, apreciar um auto de fé. Vejam, senhores leitores, a que abismos é capaz de ir a humanidade quando a selvageria suplanta a razão!

(1) Tradução de  Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) De acordo com a edição de 1824 da Universidade de Coimbra. Publicadas no início do Século XVII, as Ordenações eram, em grande parte, uma compilação de leis vigentes há muito tempo.


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segunda-feira, 23 de março de 2015

A falange macedônica e o exército romano - uma comparação

A falange macedônica devia ter, para seus oponentes, um aspecto aterrador. Sim, talvez parecesse uma floresta de lanças pontiagudas, que bem podiam dissuadir muitos valentões de qualquer tentativa de enfrentamento. Sabe-se, porém, que, diante do exército romano, ela provou-se frágil.
Por quê?
Já na Antiguidade o assunto foi alvo de reflexões. Políbio de Megalópolis, por exemplo, percebeu que a falange podia ser considerada invencível enquanto fosse capaz de conservar a formação; essa ordem, porém, era difícil de manter. Além disso, como força de ataque, ela era eficiente apenas quando o adversário estava à sua frente. Era praticamente impossível aos membros da falange a inversão de posições, de modo a viabilizar o ataque a um inimigo que estivesse à retaguarda.
Mas não era só.
"A falange - escreveu Políbio - precisa de terreno plano, aberto e sem obstáculos, ou seja, sem valas profundas, sem fraturas, sem declives assinalados, sem ribanceiras e sem barrancos. A existência de apenas um desses obstáculos é suficiente para que perca a eficiência e haja quebra na formação." (*)
Ora, segundo argumentava Políbio, terrenos tão perfeitos eram quase inexistentes, principalmente em situações de combate. Por isso, a falange, imbatível diante de inimigos mais fracos, não tardou a mostrar suas deficiências ao enfrentar o ágil exército romano.
A título de comparação, o mesmo Políbio observou que "o soldado romano, armado para o combate, adapta-se a qualquer tempo e condições do terreno, independente do lado onde o inimigo apareça, e tem a mesma firmeza e ordem, quer tenha de lutar em conjunto com todo o exército, quer tenha de combater em pequenos grupos ou mesmo individualmente." (*)
A vantagem do exército romano estava, portanto, na versatilidade, coisa que faltava quase de todo à falange macedônica. O que teria ocorrido se, por obra do acaso, Alexandre, o Grande, à frente da falange macedônica, tivesse vivido nos dias de algum dos grandes generais romanos, tais como Cipião ou César, de modo que se enfrentassem em algum momento? Prevaleceria o exército mais versátil? Ou talvez o mais lúcido dos generais? Fica aí uma boa questão para gastar o cérebro dos senhores leitores deste blog.

(*) Os trechos citados de Políbio de Megalópolis são tradução de Marta Iansen exclusivamente para uso no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 6 de março de 2015

Uma comparação entre os soldados de infantaria dos bárbaros germanos e os escudeiros medievais

É sabido que muito dos valores da sociedade medieval provinha de um sincretismo entre tradições romanas e costumes bárbaros. O uso de que cavaleiros tivessem um escudeiro como auxiliar parece vir do sistema amplamente empregado, segundo Júlio César, entre os germanos que viviam além do Reno:
"Seis mil cavalos iam escoltados por número correspondente de infantes, selecionados individualmente entre os mais velozes e mais valentes, pelos homens da cavalaria, de modo que cada um escolhia o que mais lhe agradava; cavaleiro e infante entravam juntos em combate, de modo que, se um cavaleiro era ferido, o infante o socorria imediatamente; em marchas forçadas ou em retiradas esses infantes eram, pelo treino frequente, tão rápidos, que, agarrados à crina dos cavalos, corriam ao lado dos animais." (¹)
Isso é o que encontramos em De Bello Gallico. César devia saber do que falava, já que as tropas por ele comandadas enfrentaram germanos não poucas vezes. Mas, quanto à questão do hábito medieval de que cavaleiros tivessem, cada um deles, seu respectivo escudeiro, há que observar uma diferença nada desprezível em relação ao costume bárbaro (²). Os cavaleiros germanos elegiam por seus companheiros os mais hábeis dentre os soldados da infantaria; já os escudeiros que acompanhavam os cavaleiros da Idade Média não eram militares experientes, mas jovens aprendizes que, acompanhando um guerreiro tarimbado, estavam em contínuo treinamento que iria levá-los, aos poucos, ao pleno conhecimento dos segredos bélicos, tais como se afiguravam em seus dias.

(1) Tradução de Marta Iansen para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.
(2) Para romanos e gregos, era bárbaro todo aquele cuja língua materna não fosse nem o latim e nem o grego.


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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Os druidas gauleses

Os druidas tinham lugar de destaque entre os gauleses - foi César quem o afirmou, em De Bello Gallico. Eram uma espécie de camada sacerdotal, mas com vastas atribuições jurídicas.
Antes de mais nada, para ser druida, era preciso estudar, e estudar muito. Um verdadeiro druida passava, às vezes, mais de vinte anos na escola, e devia saber tudo de memória (César achava que isso atendia a dois propósitos: esconder seu conhecimento dos que não eram iniciados em suas artes mágicas e exercitar a memória da juventude). Apesar disso, não eram poucos os que buscavam essa ocupação, havendo quem a queria de livre escolha e quem era, pela família, encaminhado a ela.
Um aspecto curioso relacionado à formação dos druidas é que muitos deles (segundo César!) iam à Bretanha para ampliar seus conhecimentos. E o que é que ensinavam?
Sempre de acordo com o que César relatou, os druidas criam que as almas, sendo imortais, passavam de um corpo a outro, fato que incentivava os soldados à valentia no combate, já que, ao menos teoricamente, não deviam ter medo de morrer. Era tradição entre os druidas que as noites precediam os dias, de modo que seu calendário era regulado pelo número de noites e não de dias, e os meses e outros períodos sempre tinham início ao anoitecer. Investigavam e ensinavam sobre suas divindades, sobre geografia, sobre aves e animais, sobre os corpos celestes e seu movimento no espaço. À semelhança de muitos outros povos do passado, a nascente investigação científica dos gauleses vinha acompanhada de uma procissão de superstições.
Sendo muito respeitados, os druidas eram também reconhecidos como juízes em questões civis, de modo que anualmente, reuniam-se em lugar considerado sagrado, para mediar disputas de fronteiras, questões relacionadas à repartição de heranças, e mesmo quanto às sentenças na eventualidade de crimes, como assassinatos, por exemplo. Era tamanha a autoridade dos druidas que, aquele que se recusasse a obedecer às suas ordens, era virtualmente excluído da sociedade.
Naturalmente, para evitar porfias entre os próprios druidas (seria um terrível escândalo...), um deles era considerado líder supremo, sendo, quando morria, substituído por outro cuja autoridade e conhecimento fossem reconhecidos por todos. Senão... Senão, as informações de Júlio César nos dão conta de que a escolha podia ser feita por uma votação. Se, ainda assim, o caso não se resolvesse, a disputa podia chegar ao uso da força. Parece, no entanto, que isso não era frequente.
Além do respeito que tinham do povo das Gálias, os druidas, por seu caráter sacerdotal, alcançavam uma série de vantagens. Dentre elas, mencione-se que estavam isentos de impostos e desobrigados do serviço militar. Não era pouco.
A função de druida envolveria um aspecto terrível de suas crenças religiosas - sacrifícios humanos. César observou que, quando os gauleses pediam aos deuses a cura de uma pessoa doente ou ferida em combate, supunham que somente seriam atendidos se sacrificassem um outro ser humano. Ou seja, era uma vida pela outra. Criminosos eram sempre candidatos a esses sacrifícios, mas, na falta deles, uma pessoa em absoluto inocente podia ser "eleita" para morrer. Eventualmente, várias pessoas, colocadas dentro de representações ocas de deuses (feitas de juncos ou algo parecido) eram queimadas vivas. Ufa!...
A título de complemento, animais capturados nas guerras também eram sacrificados aos deuses.
Júlio César, enquanto comandou tropas romanas na Gália, teve oportunidade de conviver com líderes gauleses, de modo que, até certo ponto, pode-se confiar nas informações que deixou. Era, porém, um romano, e como romano é que interpretava o que observava. Estabeleceu, por exemplo, uma correspondência entre os clássicos deuses greco-romanos e as divindades gaulesas: Mercúrio seria o guia dos viajantes, Apolo responsável por curas, Minerva a padroeira dos artesãos, e assim por diante.
Não se pode menosprezar o fato de que algumas de suas opiniões eram filtradas pelos conceitos religiosos que ele mesmo tinha. Mandava cartas ao Senado romano, a fim de expor o andamento da guerra. Tinha todo o interesse em valorizar o inimigo, já que as vitórias soariam maiores aos distantes ouvidos senatoriais. César, afinal, era César, um político hábil e matreiro. Não devemos desconsiderar esses fatos quanto lemos os escritos que deixou. Se não fossem eles, todavia, saberíamos muito menos sobre a gente que, no primeiro século antes de Cristo, habitava as nevoentas florestas das Gálias.


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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os bárbaros suevos

Nos dias de Júlio César, os suevos eram, dentre todos os povos germânicos, os mais valentes e os mais numerosos. Pelo menos é assim que eram descritos pelos romanos. Não é à toa que, sempre que se pensava em enfrentá-los, os soldados romanos percebiam que estavam diante de um verdadeiro desafio.
Pelo que o próprio César relatou em De Bello Gallico, podemos ter uma boa ideia dos costumes vigentes entre os suevos. Vai aqui uma pequena lista deles:
- Praticavam um sistema de revezamento entre trabalho agrícola e serviço militar, de modo que aquele que era soldado em um ano, no seguinte ficava trabalhando com a família;
- As terras não eram propriedade fixa de ninguém e, por isso, a família que cultivava uma determinada área em um ano, era transferida para outra no ano seguinte;
- Em decorrência de safras de grãos reduzidas, os suevos usavam, como principais alimentos, muita carne e leite;
- Eram grandes apreciadores da caça;
- Vestiam-se de peles (percebem, leitores, que vários costumes estavam interligados? caça, alimentação com muita carne, roupas de pele);
- Apreciavam banhar-se em rios, mesmo quando a água estava muito fria, e não demonstravam sofrer nenhum incômodo com temperaturas baixas;
- Não eram muito dados a atividades comerciais, já que, de um modo geral, apenas procuravam mercadores quando queriam vender aquilo que haviam conquistado em guerras;
- Gostavam de combater a cavalo (costumeiramente, não usavam arreios nos animais), mas, sendo necessário, eram capazes de lutar também a pé;
- Não gostavam de vinho porque, no seu entender, a bebida tornaria as pessoas menos aptas ao trabalho e à guerra;
- Finalmente, tinham como máximo orgulho que suas fronteiras fossem inteiramente despovoadas - sinal de que haviam sido capazes de vencer e/ou afugentar os vizinhos.
César descreveu os suevos do primeiro século antes de Cristo, época em que viviam em território da atual Alemanha. Mais tarde acabariam migrando, de modo que muitos deles foram estabelecer-se no norte da Península Ibérica.
Nos dias de César, o exército romano era forte o bastante para manter os bárbaros em respeito. Viria o tempo, porém, em que o Império Romano, enfraquecido, acabaria por fragmentar-se. As razões para isso são numerosas, mas, entre elas, figuram as invasões bárbaras, e os suevos tiveram sua parte nesses acontecimentos.


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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Gauleses novidadeiros

Novidadeiros e novidadeiras de plantão: leiam isto e vejam como se comportavam seus equivalentes da Antiguidade!
"É costume entre os gauleses obrigar a todo viajante, quer ele queira, quer não, a parar entre eles para relatar as novidades; fazem o mesmo aos mercadores quando chegam às suas povoações, já que o povo os cerca e passa a interrogá-los insistentemente para que digam de que região vieram e o que sabem de lá. Ocorre, por vezes, que apenas com base nesses rumores, decidem assuntos muito relevantes, o que os leva, logo, a que se arrependam, já que, apenas para não desagradá-los, os viajantes lhes respondem alguma coisa." (*)
Foi ninguém menos que Júlio César - o romano do Primeiro Triunvirato - quem escreveu o trecho acima, em De Bello Gallico, explicando o quanto os gauleses, por amor às novidades, chegavam a ser importunos, cada vez que um viajante se aproximava. Porém, se não queremos ser injustos com os habitantes das Gálias no primeiro século antes de Cristo, devemos assumir que, naquele tempo, eram poucas as pessoas que viajavam e, portanto, poucas também as oportunidades para que populações sedentárias ou mesmo seminômades se pusessem bem informadas. É certo que a visita de um mercador, que corria o mundo comprando em um lugar para vender em outro, não podia de modo algum ser desperdiçada. Salvo alguma (tenebrosa) exceção, coisa semelhante devia ocorrer com muitos outros povos e culturas da Antiguidade, quando se desejava saber um pouquinho do que acontecia em lugares remotos.

(*) CÉSAR, Caio Júlio. De Bello Gallico. Tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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