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terça-feira, 10 de dezembro de 2019

O cavalo de Júlio César

Animal de estimação é coisa que não se discute. Pode ser lindo, uma obra-prima da natureza, ou feio, disforme e antipático. Não importa: para o dono, é de estimação, e isso é tudo o que conta. Júlio César, ditador perpétuo em Roma, tinha um cavalo de estimação.
Os romanos, como se sabe, eram bastante supersticiosos, e o cavalo de César, que nascera em sua casa, fora agraciado pelos arúspices com o vaticínio de que aquele que o montasse conquistaria o mundo. Que aduladores eram esses arúspices! Conforme conta Suetônio (¹) em De vita Caesarum, a justificativa para o tal presságio é que o potro apresentava as patas mais parecidas com as mãos de um ser humano que com o casco de um cavalo. Acreditem se quiserem, leitores, deixo o caso a critério de vocês. Seja como for, ainda segundo Suetônio, César levou o assunto a sério e criou o cavalo, tratando-o com o máximo cuidado, e, para assegurar-se de que ninguém além dele próprio chegaria a montá-lo, cuidou, em pessoa, de seu adestramento.
Não ficou só nisso. Mandou fazer uma estátua do cavalo, que foi colocada diante do templo dedicado a Vênus Genetrix. A profecia dos arúspices, contudo, jamais se realizou. César, assassinado em 44 a.C., esteve muito longe de dominar o mundo, mesmo para os padrões daquilo que os romanos chamavam de "mundo habitado".  
Incitatus, o cavalo favorito de Calígula (²), talvez seja o equino mais famoso de Roma, mas, apesar de exageradamente mimado, não teve o privilégio de ser o primeiro a ter a honra de virar estátua. Se, quanto a este assunto, as informações de Suetônio forem corretas, Calígula (³) apenas imitou César.

(1) 69 - 141 d.C.
(2) Imperador entre 37 e 41 d.C., foi, como César, assassinado.
(3) Calígula era loucamente apaixonado por corridas de cavalos e bigas.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Sobre a esperteza de homens e animais

Documentários de televisão e revistas de curiosidades abordam, de vez em quando, a questão da inteligência dos animais. Chegam a apresentar listas, algumas mostrando uma hierarquia de inteligência entre as raças de cães, outras com um índice de esperteza entre os primatas, e por aí adiante. Sim, leitor, eu sei que o mais inteligente entre os cães é aquele que você tem em casa (todo mundo acha a mesma coisa de seus animais de estimação), mas não é preciso ser um grande observador para constatar que, na natureza, há mesmo alguma variação quanto à habilidade, astúcia, inteligência, afinal.
E os humanos, onde ficam nessa escala? 
Nada de sorrisos. Políbio de Megalópolis, um grego que viveu entre romanos e foi contemporâneo de parte das Guerras Púnicas, escreveu (e já posso ouvir latidos, miados e outros ruídos em comemoração):
"O homem parece o mais esperto dentre os animais, porém há razão de sobra para crer que é o mais miserável. Todos os outros animais estão submetidos apenas às paixões do corpo, e só por elas é que erram, enquanto o homem, além de servir às paixões do corpo, é também escravo de suas próprias opiniões e, portanto, erra contra a natureza e contra a razão." (*)
É direito seu, leitor, concordar ou não com Políbio. Devo lembrar, no entanto, que, de brigas de torcedores de futebol a guerras e massacres por divergências religiosas, passando por uma quantidade inumerável de outras ausências de bom senso, há provas incontestes de que a escravidão às opiniões, sejam elas próprias ou alheias, não é exatamente um fato que contribua para honrar a espécie humana.

(*) O trecho citado da História de Políbio é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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