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sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Guerras Púnicas

As Guerras Púnicas, travadas entre Roma e Cartago entre 264 a.C. e 146 a.C. têm esse nome porque os romanos se referiam aos cartagineses como punos. Podem ser divididas em três grandes fases, assim datadas:
  • Primeira Guerra Púnica: 264 a.C. - 241 a.C.;
  • Segunda Guerra Púnica: 218 a.C. - 201 a.C.;
  • Terceira Guerra Púnica: 149 a.C. - 146 a.C.


Algumas curiosidades sobre as Guerras Púnicas


1. De acordo com Aneu Floro (¹) em Rerum Romanarum:
  • Ao final da primeira guerra púnica, em sinal de paz, "foram fechadas as portas do templo de Jano, pela primeira vez, desde o tempo de Numa". (²) 
  • Ao final da Segunda Guerra Púnica, "comparando-se o dano a ambos os povos [romanos e cartagineses], viu-se que era semelhante para vencedores e vencidos". (³)
  • No último cerco de Cartago, ao final da Terceira Guerra Púnica, a mulher de Asdrúbal, para não cair nas mãos dos romanos, abraçou-se aos dois filhos e juntos lançaram-se às chamas. O fogo na cidade somente se extinguiu depois de dezessete dias. Foram os próprios cartagineses que atearam fogo à cidade, para que os romanos nada tivessem para levar ao triunfo. (⁴)

2. De acordo com Políbio de Megalópolis (⁵) em Historiae:
  • Aníbal, general cartaginês, teria permanecido dezesseis anos na Itália com suas tropas. (⁶)
  • As tropas de Aníbal eram compostas por africanos, espanhóis, celtas, fenícios, italianos e gregos. (⁷)
  • As barracas dos cartagineses em seus acampamentos eram feitas de folhas e ramos de árvores. (⁸)
  • Referindo-se ao combate entre as tropas de Cipião e de Aníbal na batalha de Zama, em 19 de outubro de 202 a.C., Políbio afirmou: "Na manhã seguinte, ambos os generais aprontaram os exércitos para a batalha, lutando os cartagineses por si mesmos e por toda a África, e os romanos pelo império e domínio do mundo." (⁹)
  • Ainda sobre a batalha de Zama, Políbio escreveu: "Os romanos perderam  mais de mil e quinhentos homens, enquanto que dos cartagineses morreram mais de vinte mil, e outros tantos foram feitos prisioneiros. Esse foi o resultado da batalha entre Cipião e Aníbal, que deu aos romanos o domínio do mundo." (¹º)
(1) Contemporâneo do imperador Adriano.
(2) FLORO. Rerum Romanarum, Livro II. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid. 
(4) Cf. FLORO. Rerum Romanarum, Livro II.
(5) Século II a.C.
(6) Cf. POLÍBIO. Historiae, Livro XI.
(7) Ibid.
(8) Cf. POLÍBIO. Historiae, Livro XIV.
(9) POLÍBIO. Historiae, Livro XV. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.  
(10) Ibid. 


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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O que eles disseram sobre a História

Hoje, leitores, faremos uma rápida excursão pelo que alguns autores (historiadores ou não), disseram sobre a História. Faremos, também, breves reflexões sobre suas ideias. Espero que gostem e que compartilhem suas impressões.

1. Alexandre Herculano, no Século XIX, disse, na voz de uma de suas personagens: "Boa coisa é a história [...] quando nos recordamos do nosso passado, e não achamos lá para colher um único espinho de remorso!" (¹)
A recordação de que Herculano viveu no Século XIX não é mera informação. O tempo em que alguém vive é fator importante na visão que tem da História. Falava ele, é claro, da história no plano pessoal, mas pergunto: a diferença em relação à história nacional e/ou mundial será apenas uma questão de grau ou de abrangência?

2. Vamos agora a Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas:
"Vê o Cavour; foi a ideia fixa da unidade italiana que o matou. Verdade é que Bismarck não morreu; mas cumpre advertir que a natureza é uma grande caprichosa e a história uma eterna loureira. Por exemplo, Suetônio deu-nos um Cláudio, que era um simplório - ou "uma abóbora" como lhe chamou Sêneca - e um Tito, que mereceu ser as delícias de Roma. Veio modernamente um professor e achou meio de demonstrar que dos dois Césares, o delicioso, o verdadeiro delicioso, foi o 'abóbora' de Sêneca. E tu, madama Lucrécia, flor dos Bórgias, se um poeta te pintou como a Messalina católica, apareceu um Gregorovius incrédulo que te apagou muito essa qualidade, e, se não vieste a lírio, também não ficaste pântano. Eu deixo-me estar entre o poeta e o sábio.
Viva pois a história, a volúvel história que dá para tudo [...]."
Ora, "a volúvel história"... É fato que, de vez em quando, aparece alguém com uma visão completamente diferente de algum acontecimento, época ou personagem. Chama-se, a isso, revisionismo (está na moda). Deixando de lado a questão da serventia política das revisões da História, é preciso reconhecer que autores antigos, nos quais se baseia muito do que sabemos, escreviam, como é óbvio, segundo pontos de vista pessoais, e as pesquisas podem, eventualmente, demonstrar que nem tudo foi exatamente como disseram. Portanto, é prudente reconhecer que estudos podem revelar facetas insuspeitas do passado, que contribuem para enriquecer nosso conhecimento - até que mais se descubra. Isso não dispensa, contudo, o mais saudável ceticismo em relação às propostas revisionistas. Discernimento, conhecimento e bom senso são valiosos também neste caso.

3. Na Antiguidade, Políbio de Megalópolis escreveu: "Tanto quanto um animal sem olhos não tem serventia, a História sem verdade não passa de uma narrativa improdutiva." Quanto ao trabalho do historiador, disse: "Um historiador tem por obrigação relatar à posteridade tanto o que pode desonrar e trazer descrédito quanto o que pode enaltecer alguém." E mais: "Um historiador não deixa de ser mentiroso quando omite aquilo que de fato aconteceu." (²)
Deduz-se que, para Políbio, qualquer manipulação da História, independentemente do motivo, era má em si mesma. Olhando para a montanha de obras historiográficas que a humanidade tem produzido, talvez se possa concluir que suas ideias não tiveram tantos adeptos quanto seria desejável. Mas é possível a um historiador ser absolutamente imparcial? Será que o próprio Políbio, grego que era, mas apaixonado por Roma e suas realizações militares, chegou a ser tão isento quanto imaginava? Lembremo-nos, também, de que as palavras podem, com o correr do tempo, assumir significados que jamais foram intenção de seus autores.

4. Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, autor setecentista que discorreu sobre as origens e desenvolvimento da catequese e dos conventos franciscanos no Brasil, afirmou:  "É a verdade alma da História, e é a clareza a vida desta alma, e é certo que virá a ser alma sem vida, História, ainda que com verdade, sem clareza." (³) 
Já dissecaram a citação, leitores? A princípio, pode parecer que, em essência, Jaboatão disse algo semelhante ao que escreveu Políbio, mas a ênfase é outra: não basta verdade, é preciso haver clareza. Como vocês sabem, isto requer o talento na escrita, a facilidade na expressão, habilidades que podem e devem ser aprendidas e cultivadas, não apenas por historiadores, é certo, mas por quem quer que se dirija ao público.

5. Vou terminar com uma citação do Visconde de Porto Seguro, Francisco A. de Varnhagen: 
"O historiador que esquadrinha os fatos e que, depois de os combinar e meditar sobre eles, os ajuíza com boa crítica e narra sem temor nem prevenção, não faz mais do que revelar ao vulgo verdades que ele naturalmente acabaria por avaliar do mesmo modo, sem os esforços do historiador, dentro de um ou dois séculos." (⁴) 
Nascem daí algumas questões:
  • Não ficariam os acontecimentos esquecidos, em um ou dois séculos, sem o trabalho do historiador?
  • O vulgo terá interesse pela História?
  • Não irá o futuro demonstrar, ao menos em alguns casos, que as coisas se passaram de modo muito diferente do avaliado por um historiador que vivenciou os acontecimentos?

A visão que um historiador tem da História determina, em grau muito elevado, as características de sua obra. Reflitam, leitores, e deem suas opiniões. Qualquer dia volto a este assunto.

(1) HERCULANO, Alexandre. Lendas e Narrativas vol. 1. Lisboa: Bertrand e Filhos, 1851, p. 46.
(2) POLÌBIO, HistóriaOs trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil Primeira Parte, Volume II. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1858, p. 18.
(4) VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 2, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, pp. 1116 e 1117.


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Por que Aníbal não atacou Roma?

Aníbal atravessando os Alpes, de acordo com
um cartunista do Século XIX (⁴)
A travessia dos Alpes (¹) em 218 a.C. por um exército de homens, cavalos e nada menos que trinta e oito elefantes, sob a liderança de Aníbal Barca, pode ser classificada como uma das maiores loucuras de todos os tempos. Mas aconteceu. E então, superadas dificuldades terríveis, a Península Itálica e o domínio de Roma pareciam estar à inteira disposição do general cartaginês e de suas tropas. Tito Lívio (²), historiador romano, escreveu: "Depois de incrível esforço e trabalho, chegou Aníbal à Itália, cinco meses após deixar Cartagena, tendo gasto quinze dias na travessia dos Alpes." (³)
Era a Segunda Guerra Púnica. Vencendo sucessivas batalhas, as forças de Cartago chegaram muito perto de Roma. A conquista da cidade se mostrava iminente. Aníbal, todavia, nunca desfechou o ataque decisivo. Por quê? 
É possível que o notável comandante cartaginês tivesse conhecimento de fatos que tenham permanecido incógnitos para os autores da época, a cujos registros temos de nos reportar. Não teria ele confiança suficiente em suas tropas? Teria sido vítima do medo do próprio sucesso? Ou, talvez, a conselho de algum oráculo, tenha protelado o ataque para uma data supostamente mais favorável, deixando passar sua única oportunidade real de conquistar Roma?
Tudo o que se pode afirmar, no estágio atual dos conhecimentos, é: não se sabe ao certo. 
Políbio de Megalópolis (⁵), cuja História cobre muitos acontecimentos relacionados às Guerras Púnicas, observou: "Qualquer um louvará a maestria de Aníbal na arte da guerra, podendo dizer, sem receio de erro, que se houvesse começado suas ações em outros lugares e finalmente concluísse atacando Roma, teria sido vitorioso; porém, como começou por onde deveria terminar, Roma foi berço e túmulo de seus projetos." (⁶) De acordo com Tito Lívio, Maharbal, um dos homens de maior confiança no estado-maior de Aníbal, teria dito: "Os deuses não dão tudo ao mesmo homem. Sabes vencer, Aníbal, mas não és capaz de fazer uso da vitória." (⁷).

(1) A controvérsia quanto à rota adotada tem alimentado polêmicas e preenchido muito papel, tanto manuscrito quanto impresso, mas, a despeito disso, parece estar longe de terminar.
(2) 59 a.C. - 17 d.C.
(3) TITO LÍVIO. Ab urbe condita libri.
(4) BECKETT, Gilbert Abbott à et LEECH, John. The Comic History of Rome. London: Bradbury, Evans and Co., 1851, p. 173. (A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog).
(5) c. 203 a.C. - 120 a.C.
(6) POLÍBIO. História.
(7) TITO LÍVIO. Op. citOs trechos citados das obras de Tito Lívio e Políbio de Megalópolis foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Como os comandantes romanos marcavam o tempo

Vivemos amarrados à marcação do tempo - cada vez mais precisa e, em certo sentido, escravizante. Mas nem sempre foi assim. Milésimos de segundo? Há alguns séculos isso não faria o menor sentido. Que dizer, então, de relógios que tinham um único ponteiro, o das horas? Voltando no passado, chegaremos aos dias em que os relógios já não tinham ponteiros: conforme a cultura, podiam ser de areia, de água, de sol... E não exatamente portáteis.
Assim é que, na Antiga Roma, uma das funções de um comandante militar de respeito era saber determinar as horas com exatidão, para que os movimentos das forças sob sua autoridade fossem corretos. Os métodos aplicáveis, de acordo com Políbio de Megalópolis (¹), um grego que viveu entre os romanos, eram estes:
"É possível saber as horas do dia através da sombra (²), do movimento do sol ou pelos marcos existentes nos caminhos (³). Quanto às horas da noite, não há a mesma simplicidade, embora ainda assim seja possível, quando se examina o céu para saber a localização e movimento das constelações do Zodíaco." (⁴)
Os céus da Antiguidade deviam ser esplendorosos - nada de poluição de qualquer tipo para impedir a observação das estrelas, e, se bem que, vez ou outra, uma tempestade de areia (em algumas regiões) e/ou a nuvem resultante de alguma erupção vulcânica pudessem empanar o brilho dos corpos celestes, em uma noite clara haveria muito mais estrelas visíveis do que hoje, quando as luzes urbanas fazem concorrência desleal. Em tempos de paz, era possível admirar o céu com um olhar sonhador. Na guerra, perscrutar o movimento das estrelas talvez ajudasse a vencer o inimigo.

(1) c. 203 a.C. - 120 a.C.
(2) Como acontece em um típico relógio de sol.
(3) Presumindo-se o tempo geralmente gasto para que uma determinada distância fosse percorrida.
(4) O trecho citado da História de Políbio de Megalópolis foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Sobre a esperteza de homens e animais

Documentários de televisão e revistas de curiosidades abordam, de vez em quando, a questão da inteligência dos animais. Chegam a apresentar listas, algumas mostrando uma hierarquia de inteligência entre as raças de cães, outras com um índice de esperteza entre os primatas, e por aí adiante. Sim, leitor, eu sei que o mais inteligente entre os cães é aquele que você tem em casa (todo mundo acha a mesma coisa de seus animais de estimação), mas não é preciso ser um grande observador para constatar que, na natureza, há mesmo alguma variação quanto à habilidade, astúcia, inteligência, afinal.
E os humanos, onde ficam nessa escala? 
Nada de sorrisos. Políbio de Megalópolis, um grego que viveu entre romanos e foi contemporâneo de parte das Guerras Púnicas, escreveu (e já posso ouvir latidos, miados e outros ruídos em comemoração):
"O homem parece o mais esperto dentre os animais, porém há razão de sobra para crer que é o mais miserável. Todos os outros animais estão submetidos apenas às paixões do corpo, e só por elas é que erram, enquanto o homem, além de servir às paixões do corpo, é também escravo de suas próprias opiniões e, portanto, erra contra a natureza e contra a razão." (*)
É direito seu, leitor, concordar ou não com Políbio. Devo lembrar, no entanto, que, de brigas de torcedores de futebol a guerras e massacres por divergências religiosas, passando por uma quantidade inumerável de outras ausências de bom senso, há provas incontestes de que a escravidão às opiniões, sejam elas próprias ou alheias, não é exatamente um fato que contribua para honrar a espécie humana.

(*) O trecho citado da História de Políbio é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Creta, o Minotauro e a fama dos cretenses na Antiguidade

A ilha de Creta é famosa devido à lenda do Minotauro, uma dentre as muitas histórias cabeludas da Antiguidade. Minos, rei de Creta, pediu a Poseidon, divindade do oceano, um sinal da aprovação dos deuses ao seu reinado. Foi atendido, ao surgir do mar um esplêndido touro branco, que Minos deveria sacrificar. Mas, como sabem os leitores, os cretenses tinham especial apreço por touros (¹), de modo que Minos resolveu conservar o animal para si. 
Algum tempo depois a rainha trouxe ao mundo um estranho bebê, com corpo humano e cabeça de touro, ou seja, o Minotauro. Era a vingança de Poseidon, por ter sido enganado por Minos (²).
Tendo chegado à idade adulta, o monstro somente se alimentava de carne humana e, mais especificamente, de jovens de Atenas, que deviam ser enviados periodicamente, porque sua cidade fora derrotada por Minos. Trancafiado no labirinto projetado por Dédalo, o minotauro foi finalmente morto por Teseu, herói ateniense, com a ajuda de Ariadne, a bela princesa de Creta. 
É fato que lendas (ou crenças religiosas) desse calibre pululavam no mundo mediterrânico, mas é também fato que, entre os gregos, os cretenses não tinham boa fama, e não era (só) por causa do Minotauro que teria devorado moças e rapazes atenienses. Nem mesmo a crença de que Zeus Olímpico, filho de Cronos, fora levado por Gaia, sua avó, para ser criado em Creta (³), salvava a reputação dos habitantes da ilha. Políbio de Megalópolis (⁴) faz duas referências que dão uma boa ideia do conceito que se fazia, então, do povo de Creta. Diz na primeira: "Bólis, que era cretense, e, portanto, falso por natureza...", e, na segunda: "Sendo cretense e, por isso, dado a suspeitar mal..." 
Nos dias de Políbio um escritor não tinha nenhuma obrigação de ser politicamente correto. Podia ser tão mordaz quanto quisesse. Os bons modos de nosso tempo, no entanto, apenas disfarçam os verdadeiros sentimentos, e os leitores bem sabem como são as rivalidades nacionais: nós somos perfeitos, enquanto aos outros atribuímos todos os defeitos, principalmente aqueles que mais detestamos em nós mesmos. Quem discorda?

(1) Conjectura-se que, entre os cretenses, devia haver algum tipo de competição esportiva envolvendo touros, frequentemente retratados como decoração em objetos de cerâmica, sem descartar a ideia da crença em uma divindade antropozoomórfica, com as características do Minotauro.
(2) Uma versão mais tenebrosa dessa história conta que a rainha, apaixonada pelo touro branco, acabou tendo dele um filho com corpo humano e cabeça de touro...
(3) De acordo com a Teogonia de Hesíodo.
(4) As citações da História de Políbio são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 23 de maio de 2016

Nem todo atleta grego era candidato a herói

Tentativa de reconstituição de como seria uma arena para treinamento de atletas
e competições em Esparta (¹)

Para os atletas que competiam em Olímpia, ou mesmo nos outros jogos que eram celebrados na Grécia, o importante era vencer. Embora os gregos acreditassem que a cada certame os deuses se intrometiam para que a vitória fosse de seus favoritos, nem por isso os competidores deixavam de treinar com afinco e, durante as provas, havia até quem se dispusesse a morrer na luta, de preferência a sair derrotado.
Isso não quer dizer que a totalidade dos atletas gregos era composta de candidatos a heróis. Havia, também, gente que sonhava com a fama, mas cujos triunfos não iam muito além da imaginação. Sabemos que era assim por uma comparação feita por Políbio de Megalópolis em sua História, na qual é oferecida ao leitor a possibilidade de entrever o fato de que, mesmo sob o suposto olhar dos deuses, havia competidores que não estavam decididos a dar o sangue pela vitória:
"Não tem esta reflexão outro propósito senão mostrar que há aqueles que, à semelhança dos maus atletas no estádio, param de correr e abandonam seu objetivo quando próximos à chegada, enquanto outros, em idêntica situação, obtêm vantagem frente aos demais competidores." (²)
No esporte como na vida, na Antiguidade ou no Século XXI. Concordam, leitores?

(1) HALL, Jennie. Life in Ancient Greece. London: George G. Harrap & Company, 1913. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) O trecho citado da História de Políbio é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Para quem escrevem os historiadores?

Políbio, um grego cuja obra data do Século II a.C., escreveu: 
"Um historiador tem por obrigação relatar à posteridade, tanto o que pode desonrar e trazer descrédito a alguém, como aquilo que pode enaltecer." (*)
Vejam os leitores que essa pequenina citação seria apropriada como ponto de partida para uma discussão sobre o papel de figuras individuais na História, que, na visão de Políbio, poderiam ser enaltecidas ou desacreditadas pelo que delas dissessem os historiadores. Mas o assunto de hoje é outro. 
Para Políbio, o trabalho do historiador era tratar dos eventos de seus dias, ou seja, do presente, para benefício das gerações futuras (a "posteridade"), que teriam, assim, como compreender os eventos do passado. A maioria dos historiadores da atualidade tem uma perspectiva muito diferente, uma vez que são investigados e interpretados os eventos do passado, para que sejam lidos e estudados pela geração atual. Em poucas palavras, Políbio entendia que o historiador escrevia para o futuro; hoje, escrevemos para leitores do presente.
No Século II a.C. os livros, uma vez escritos, multiplicavam-se muito lentamente, porque eram copiados à mão, de modo que seu preço era elevado. Além disso, a alfabetização, na maioria das culturas, estava longe de ser generalizada, a subsistência era obtida a duras penas, pouca gente tinha tempo, dinheiro e conhecimento para apreciar a obra dos historiadores. Não é difícil entender, pois, que Políbio tivesse a expectativa de ser lido por gente do futuro: ele e muitos outros cronistas escreviam sobre os acontecimentos que presenciavam, que seus contemporâneos conheciam e a cujo respeito teriam pouco interesse em ler. Seu público ideal, supomos, seriam as gerações futuras, quando quisessem conhecer os eventos do passado. Não cabia, então, em seus escritos, nenhuma ideia de transformação social, de chamar a atenção para a necessidade de mudança na vida política ou mesmo de protesto contra injustiças gritantes no sistema vigente. Isso, como se sabe, só iria passar pela cabeça de (alguns) historiadores, militantes ou não, muito tempo depois.

(*) A citação da História de Políbio que aparece nesta postagem é tradução de Marta Iansen para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 4 de março de 2016

Licurgo e as leis de Esparta

Os antigos espartanos diziam que Licurgo era seu legislador, ou seja, o homem que havia criado as severas leis sob as quais Esparta era governada. Militarismo, domínio absoluto por parte da elite que detinha a propriedade da terra, educação rígida da juventude e repressão aos hilotas - com alguma licença, poderíamos dizer que lá vigorava um regime totalitário à moda da Antiguidade. E, se acreditássemos pura e simplesmente na tradição, tudo isso era responsabilidade de Licurgo.
O problema é que não se conhece grande coisa sobre essa ilustre personagem, e há até quem duvide de sua existência (o que não deveria surpreender, já que mesmo Homero é, nesse sentido, questionado por não poucos especialistas). Não se conhecem documentos escritos pelo próprio Licurgo, e toda a informação de que se dispõe é fruto da tradição registrada por autores que viveram muito depois da época em que se supõe que ele possa ter existido.
Entre os historiadores antigos que falaram sobre o legislador espartano está Políbio de Megalópolis, um grego que viveu entre romanos no segundo século antes de Cristo. Pois bem, de acordo com Políbio, Licurgo era um hábil usuário das crenças religiosas populares, já que buscava sempre referendar suas decisões e ideias como sendo originárias do oráculo de Delfos. Esperto, ele, não?
Deixando de lado as questões - quando, onde e se - sobre Licurgo, e assumindo que os espartanos eram muito obedientes (por bem ou por mal) às suas leis, devemos entender que o uso político das ideias religiosas em voga só era possível porque as pessoas de fato acreditavam nelas, e isso não se restringia aos pouco refinados membros da elite de Esparta. Foi também Políbio quem registrou a informação de que Cipião (conhecido como "Africano", militar romano, cuja existência está muito bem documentada), exatamente antes de atacar Cartagena, durante as Guerras Púnicas, serviu-se da religiosidade de seus comandados para incitá-los a atos de bravura. Em discurso a eles dirigido, prometeu que daria coroas de ouro àqueles que fossem os primeiros a escalar a muralha da cidade, além de outros prêmios que os generais costumavam oferecer; mas, para garantir a coragem das tropas, afirmou que, em sonhos, o deus Netuno lhe aparecera, assegurando seu favor aos romanos durante o combate. Coisas da Antiguidade, logo se vê.


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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Combate singular

Uma batalha, na Antiguidade, podia resultar em horrorosa carnificina. Políbio de Megalópolis, descrevendo a luta entre cartagineses e romanos em Zama (¹), observou que "o campo entre os exércitos ficou coberto de sangue, mortos e feridos, trazendo a Cipião (²) um grande problema, uma vez que os cadáveres, os feridos que se revolviam no próprio sangue e a confusão de armamentos dispersos tornavam a passagem quase intransponível às tropas que, em formação, aguardavam sua vez de entrar em combate." (³)
Muito bem, leitores, recuperem o fôlego, e vamos adiante. Às vezes acontecia que, em lugar de dois exércitos se enfrentarem com muitas perdas, cada um elegia seu campeão e estes dois heróis lutavam até que um vencesse, sendo o resultado válido (esperava-se) como se toda a tropa entrasse em ação. A essa luta entre dois soldados que representavam seus respectivos exércitos dá-se o nome de combate singular.
Além da possibilidade de evitar uma matança generalizada, havia outras razões que podiam levar à opção pelo combate singular. Na Antiguidade era comum que os exércitos inimigos acampassem um à vista do outro, mantendo, porém,  uma certa distância, e assim permanecessem durante algum tempo, aguardando a hora oportuna para o ataque. Todavia, uma longa espera, podia ser de todo inconveniente, pois:
  • Era, quase sempre, enervante para os soldados;
  • Aumentava a demanda por suprimentos (alimentos e água, principalmente), para os homens e para os animais;
  • Ampliava a possibilidade de que, durante a espera, sucedesse algum imprevisto, talvez uma doença entre os soldados ou uma súbita mudança nas condições climáticas, como uma chuva forte ou uma nevasca, acarretando uma alteração completa no cenário da guerra;
  • Dava tempo ao inimigo para solicitar e receber reforços.
Tudo isso, em conjunto, podia incitar à ideia de um combate singular, quando o enfrentamento tradicional não parecia muito sábio. Acrescentemos, ainda, um certo gosto por feitos heroicos - chamem de provocação, se quiserem - e teremos a explicação para que dois valentões se engalfinhassem à vista da soldadesca que, neste caso, devia ter uma atuação parecida à das modernas hordas de torcedores nos estádios de futebol.
Vejamos agora um exemplo bastante esclarecedor. Foi no ano 394 da fundação de Roma, ou 359 a.C., quando romanos e gauleses se enfrentavam. Um gaulês muito alto e forte apareceu e, nas palavras de Tito Lívio (⁴), propôs:
"Que venha o homem mais forte que há em Roma para que lute comigo, e aquele de nós que vencer, seja a sua gente a melhor na guerra."
Se o desafio parecer razoável, será útil recordar que os gauleses tinham por costume zombar dos romanos, a quem consideravam baixinhos (⁵). O que ocorreu em seguida foi assim descrito por Tito Lívio:
"Houve um longo silêncio entre a juventude romana, envergonhada de fugir ao combate, e, ao mesmo tempo, com receio da exposição a tamanho perigo." (⁶)
Afinal, Tito Mânlio, depois conhecido como Torquato, compareceu diante de seu comandante e, obtida a permissão, aceitou o desafio do fortão gaulês. Tomaram-se disposições para que a luta ocorresse com toda a lisura, o que incluía, por suposto, a escolha de um lugar que não favorecesse a nenhum dos dois. A um sinal, o combate começou e, se devemos crer no que disse Tito Lívio, não durou muito, já que o jovem Tito Mânlio, depois de dois golpes certeiros, jogou o gaulês ao chão - morto.
Nessas circunstâncias, o resultado do combate singular podia simplesmente ser acatado conforme o acordo, mas não era incomum que o exército ao qual pertencia o vencedor, tomado de brio, atacasse os oponentes na intenção de pô-los em fuga. No caso específico de que tratamos, a informação de Tito Lívio (⁷) é de que foram os gauleses que deram no pé: "Os gauleses, na noite seguinte, estando com muito medo, abandonaram os acampamentos e se foram." 
Pensem, leitores, como seria interessante se os gauleses tivessem registrado, também, a sua versão dos fatos, de modo que fosse possível confrontar os pontos de vista! 

(1) Em 202 a.C.; último combate da Segunda Guerra Púnica.
(2) Comandante romano.
(3) Políbio de Megalóplis, História.
(4) Ab urbe condita libri.
(5) Pelo menos foi isso que afirmou, em tempos posteriores, ninguém menos que Júlio César (em De Bello Gallico), que, ressalte-se, de tanto lutar contra eles, conhecia os gauleses muito bem.
(6) Ab urbe condita libri.
(7) Os trechos de Políbio (História) e de de Tito Lívio (Ab urbe condita libri) citados nesta postagem são tradução de Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Historiadores eternos

De acordo com Políbio de Megalópolis, historiador grego que viveu no Século II a.C., "Éforo (¹) afirmou que o melhor modo para conhecer os fatos seria que os próprios historiadores viessem a presenciá-los" (²).
Ora, senhores leitores, essa ideia de que historiadores, para bom desempenho de seu trabalho deveriam ser testemunhas oculares dos fatos de que tratam, dá muito o que pensar. Ao que parece, Políbio devia ser um adepto de tal ponto de vista, uma vez que boa parte de sua obra trata das Guerras Púnicas (264 - 146 a.C.), das quais foi, parcialmente, um contemporâneo. Nós, porém, podemos extrair disso ao menos duas possibilidades de interpretação:
Primeira - Os historiadores deveriam trabalhar apenas com a chamada História Contemporânea (a cada um deles, claro);
Segunda - Como nenhuma máquina do tempo jamais foi inventada, e para não ficarem restritos a uns poucos acontecimentos de intervalos de tempo muito curtos, os historiadores deveriam ser eternos.
Podem rir, leitores, que já retomo a seriedade que o assunto requer. Como a segunda hipótese jamais se verificou, vamos à análise da primeira, apenas.
É evidente que parte considerável da motivação para a pesquisa histórica está relacionada à curiosidade em relação ao passado remoto. Éforo e Políbio viveram em uma época na qual os recursos técnicos para a investigação de tempos longínquos não estavam, em grande parte, disponíveis, daí ser mais fácil para eles tratar de coisas que haviam presenciado ou para as quais ainda havia testemunhas vivas e que podiam ser consultadas. No entanto, para nós, hoje, é excelente que assim tenham pensado - investigamos o passado dispondo, dentre outras ferramentas, dos escritos que deixaram, forjados sob o calor dos acontecimentos, e que constituem, ao lado das obras de muitos outros autores, preciosos documentos de que ainda nos servimos. 

(1) Provável referência a Éforo de Cime, que viveu no Século IV a.C.
(2) O trecho citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Dez fatos interessantes sobre guerras da Antiguidade

Estão aqui alguns fatos interessantes, registrados por cronistas e historiadores da Antiguidade, que podem ser úteis para quem quiser visualizar mentalmente como eram as guerras daqueles tempos remotos.

1. Tiglate-Pileser, rei da Assíria, quando pretendia arrasar uma cidade ou não conseguia conquistá-la, mandava cortar todas as árvores que havia ao seu redor.

2.  Nas guerras da Antiguidade não era incomum a participação de fundeiros, ou seja, soldados que atiravam com fundas (como Davi contra Golias...). Ocorre que a técnica, por assim dizer, foi aperfeiçoada, de modo que, ao tempo dos romanos, já não eram atiradas pedras, e sim bolas de chumbo.

3. Uma prática muito comum nas guerras da Antiguidade, tendo em vista enfraquecer o(s) inimigo(s), consistia em roubar as colheitas e depois inutilizar os campos de cultivo enchendo-os de pedras.

4. De acordo com Júlio César, em seus Commentarii de Bello Gallico, os belgas eram os mais valentes de todos os moradores das Gálias, uma vez que não eram acostumados ao consumo de coisas delicadas, pois os mercadores raramente iam ao seu território.

5. Também de acordo com César, os gauleses, que eram muito altos, zombavam dos romanos, a quem consideravam "baixinhos".

6. Políbio de Megalópolis afirmava que as tropas comandadas por Cipião, o Africano, quando atacaram Cartagena (durante as Guerras Púnicas), eram compostas por vinte e cinco mil soldados de infantaria e dois mil e quinhentos de cavalaria, com seus respectivos cavalos, por suposto.

7. Ainda Políbio: as tendas dos cartagineses em seus acampamentos militares eram feitas de folhas e ramos de árvores.

Um soldado romano, de acordo com desenho
em uma parede de Pompeia (*)
8. Durante as Guerras Púnicas, percebendo os romanos que as vitórias dos cartagineses vinham em razão da superioridade de sua cavalaria, trataram de destruir os campos de onde provinham o feno e a cevada para os cavalos. A prática dava resultado porque era bastante difícil trazer de longe a forragem para os animais.

9. Tácito, historiador romano, no livro segundo dos Annales, afirmou que os germanos não eram, em relação aos romanos, menos valentes no combate; porém as armas e táticas dos romanos mostravam-se superiores, vindo daí sua vantagem.

10. As vitórias de César nas Gálias foram comemoradas em Roma durante quinze dias; segundo o próprio César, nunca antes havia ocorrido entre os romanos uma celebração assim, mas, posteriormente, outras comemorações ordenadas pelo Senado, também por conquistas de César, duraram nada menos que vinte dias.

(*) PARTON, James. Caricature and Other Comic Art. New York: Harper & Brothers, 1877, p. 15. Este desenho teria sido feito provavelmente por um soldado romano, na parede de um alojamento militar em Pompeia (portanto, antes que a cidade fosse destruída pelo Vesúvio em agosto de 79 d.C.).


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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A razão para o sucesso de Roma em dominar os povos vizinhos

Políbio de Megalópolis, um grego que viveu no segundo século antes de Cristo, afirmava que, em seus dias, havia ocorrido, no plano político e militar, o maior prodígio jamais presenciado, ou seja, "todas as partes conhecidas do universo vieram a ser um só império, fato sem antecedentes na História" (*). Referia-se, naturalmente, à República Romana - lembremo-nos de que, nesse tempo, Roma ainda era uma República, e, internamente, seria assim considerada, mesmo quando os imperadores já mandavam e desmandavam à vontade.
Procurando explicar o sucesso dos romanos em dominar a vizinhança, Políbio dizia que Roma, quando empreendeu guerras de conquista, não atacava isoladamente um outro reino ou império, como faziam os impérios que vieram antes dela, mas era capaz de fazer guerra simultânea e vitoriosa em vários lugares, localizados bem longe uns dos outros.
Cabe observar, no entanto, que o historiador grego tinha um conceito de universo diferente daquele que empregamos hoje, fato que pode ser facilmente compreendido se levarmos em conta que gregos e romanos conheciam muito pouco das terras que compõem o planeta em que vivemos. Para ele, o território dominado pelos romanos era todo o "cosmos". Não lhe passava pela cabeça que, para além das terras conhecidas, talvez existissem outras, com outros povos e - por que não? - outros impérios.

(*) A citação de Políbio é tradução de Marta Iansen para uso exclusivo no blog História & Outras Histórias.


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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Elefantes de guerra

Imaginem esta cena: estamos andando por uma rua qualquer e, em dado momento, levantamos os olhos e vemos, à distância, uma manada de dinossauros que caminha em nossa direção... 
Absurdo? Claro que sim. Mas admitamos, só por um instante, que a coisa fosse real. A sensação seria, com enorme probabilidade, semelhante à experimentada pelos soldados romanos que viram os elefantes de guerra (¹) que marchavam à frente das tropas cartaginesas (durante as Guerras Púnicas, 264 a.C. a 146 a.C.). Não é sem causa que representações da Antiguidade mostravam romanos pequenininhos diante de elefantes enormes. Era questão de como os próprios romanos viam a si mesmos no campo de batalha.
Ora, meus leitores, com alguma prática, os romanos perceberam que era possível fazer frente aos elefantes de Cartago. Como? 
Bem, os elefantes lá estavam com o objetivo de causar terror aos cavalos. Portanto, antes de mais nada, era preciso evitar um confronto imediato entre a cavalaria romana e os elefantes de Cartago - pensaram que eu iria dizer "elefantaria" cartaginesa?!!!
O caso dos elefantes na guerra foi tão sério que
mereceu a cunhagem de uma moeda (²)
Perversamente, os comandantes romanos, estruturando a formação de suas tropas para o combate, começaram a colocar na linha de frente as forças auxiliares, compostas geralmente por estrangeiros pedestres, que acabavam muitas vezes massacrados, mas dando tempo para que os "romanos de verdade" fizessem cair uma chuva de setas sobre os elefantes. Conta Políbio de Megalópolis (c. 203 a. C. - 120 a.C.) que, a partir disso, os elefantes faziam um grande estrago, porque, feridos, tornavam-se incontroláveis, e o dano sobrevinha a quem estivesse por perto, fosse aliado ou inimigo. Ganhava-se tempo e os elefantes eram inutilizados. O combate retornava aos postulados clássicos, nos quais as forças romanas, muito bem treinadas, eram, naquela época, quase insuperáveis.

(1) Ao que parece, a primeira vez que os romanos enfrentaram elefantes em combate foi quando lutaram contra os exércitos de Pirro, rei do Épiro, no Século III a.C.; os cartagineses, porém, faziam uso maciço de elefantes na guerra, e isso causava forte impressão sobre o exército romano.
(2) LIDDELL, Henry G. A History of Rome. London: John Murray, 1865, p. 219. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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sexta-feira, 8 de maio de 2015

Guerra tecnológica na Antiguidade

Arquimedes de Siracusa - um só homem pode fazer toda a diferença


No contexto das Guerras Púnicas (Roma contra Cartago), os romanos sitiaram Siracusa, pois esta se aliara aos cartagineses. Habituados a massacrar adversários com alguma facilidade, desta vez os romanos perceberam que tinham, pela frente, um autêntico desafio. Não, os siracusanos não eram melhores soldados, não tinham melhores generais que os romanos, nem tampouco tinham embarcações mais eficientes. Como os próprios romanos perceberam, a grande capacidade de Siracusa em resistir ao cerco estava nas infernais máquinas de guerra projetadas, ao que parece, por um único homem: Arquimedes.
Por certo os senhores leitores já devem ter ouvido falar dele em aulas de matemática e física (lembram-se?...). À época da guerra contra os romanos, Arquimedes era, já, um homem bastante idoso, mas ainda capaz de aliar conhecimento teórico à tarefa eminentemente prática de inventar e construir máquinas que frustravam, vez após vez, os intentos dos inimigos de Siracusa. Todas as máquinas de guerra que os romanos tinham por hábito empregar, eram neutralizadas por outras, que o velho genial inventava. Segundo todas as aparências, enquanto Arquimedes vivesse, as muralhas de Siracusa estariam muito bem protegidas.
Sabemos, por relato de Políbio de Megalópolis, que após oito meses de esforços inúteis, os cônsules romanos Marcelo e Ápio decidiram tentar outra tática: isolar Siracusa para que não recebesse qualquer ajuda de fora da cidade. Ápio ficou encarregado de, por terra e mar, impedir que os siracusanos recebessem ajuda externa, enquanto que os homens comandados por Marcelo trataram de inutilizar os campos adjacentes para a agricultura. 
Afinal, depois de dois anos, os romanos conseguiram vencer Siracusa. Queriam Arquimedes vivo - respeitavam-no e imaginavam ser possível tê-lo a seu serviço. Embora as narrativas do fato sejam um pouco contraditórias quanto aos detalhes, considera-se que Arquimedes foi morto por um soldado romano que não o reconheceu e que se mostrou impaciente com aquele ancião que não dava a menor importância às suas ordens. Se foi assim, ao menos o grande inventor terá escapado à humilhação de ver-se prisioneiro dos inimigos que, de forma tão inteligente e resoluta, havia combatido.


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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Legionários romanos

Soldados romanos eram agrupados em legiões e, por isso, eram também chamados legionários. Cada legião era formada por dez coortes e cada coorte, por sua vez, tinha seis centúrias. Aqui, porém, é que as coisas ficam mais complicadas, já que uma centúria, apesar do nome, nem sempre tinha cem soldados. Podiam ser oitenta. O caso é que, ao longo dos séculos o número de soldados por coorte variou um pouco, mas, como regra geral, diz-se que cada uma devia ter perto de quinhentos homens. Portanto, arredondando os números, chegamos ao fato de que uma legião típica seria composta por cerca de cinco mil soldados. Deve-se recordar que nem sempre as legiões estavam completas. Circunstâncias de combate podiam resultar, às vezes, em uma grande quantidade de mortos e feridos.
Assim como os militares que entram em combate na atualidade, os legionários romanos também tinham de levar uma mochila com seu equipamento básico. Lembrem-se, os leitores, todavia, de que as mochilas e outros acessórios militares da Antiguidade eram bem diferentes daquilo que conhecemos. Um cantil, por exemplo, destinado a uma reserva de água, seria, com grande probabilidade, feito de argila, ou, talvez, com a pele de algum animal.
Durante uma campanha militar, a conjuntura determinava se os soldados marchariam levando o equipamento ou se este seria deixado no acampamento, ou, ainda, se seria conduzido por homens que não entrariam em combate imediato. A situação às vezes exigia um deslocamento rápido dos homens e, portanto, eles deviam ser aliviados de qualquer carga. Nessas condições, os soldados eram ditos "expedicionários", pela característica da grande velocidade na marcha.
A ilustração abaixo retrata soldados romanos com equipamento de campanha, e apareceu em uma edição da Militia Romana, de Políbio, publicada em Antuérpia durante o Renascimento.

Soldados romanos levando equipamento de campanha


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