quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Os Elefantes de Pirro

Conforme asseveram vários autores da Antiguidade, foi Pirro, rei do Épiro, quem primeiro mostrou ao exército romano o que eram elefantes. Sim, elefantes de guerra, que iam à frente dos combatentes e aterrorizavam os inimigos. Isso aconteceu no Século III a.C, quando as tropas de Pirro, para socorrer os tarentinos, enfrentaram os romanos na batalha de Heracleia. 
De acordo com Tito Lívio em Ab Urbe Condita Libri, o exército de Pirro constava de vinte e dois mil infantes, três mil cavalarianos e vinte elefantes. Ora, ao ser deflagrado o combate, ainda segundo Tito Lívio, a soldadesca de Roma, em pânico, acreditou "ver algum grande monstro estupendo (...)", enquanto "os cavalos, apavorados pelo que viam, pelo cheiro e pelo barulho daquilo que presenciavam pela primeira vez, arremessavam de si os cavaleiros (...)."
Sim, Pirro venceu, mas foi mesmo o que se convencionou, mais tarde, chamar de "uma vitória de Pirro", já que, por informação de Tito Lívio, sabemos que "morreram, entre os romanos e seus aliados, pouco menos de 15 mil homens; entre os vencedores, caíram uns 13 mil. Por isso é que Pirro afirmou: "Ai, se venço deste modo novamente, voltarei ao Épiro sem exército!"" (*) 
Essa guerra teria ainda outros desdobramentos, que, por ora, deixaremos de lado. O que nos interessa, aqui, são os elefantes. Esses, sim, como já vimos, impressionaram de verdade os romanos. Muito mais tarde, no Século I d.C., Plínio, o Velho, na seção de sua História Natural destinada a tratar dos animais, começou justamente pelos elefantes - sintomático, não acham, leitores? Escreveu ele:
"O maior animal terrestre é o elefante, que é quase tão inteligente quanto o homem; é capaz de compreender a língua de sua terra de origem, de obedecer a comandos e de memorizar tarefas que já aprendeu (...), apresentando virtudes escassas até em humanos, como honestidade, sabedoria, justiça e (...) reverência para com o sol e a lua." (**)
Só por isso já percebem os leitores que Plínio andava a fazer uma belíssima mistura de informações confiáveis e tolices cabeludas. Querem mais? A História Natural assegurava, por exemplo, que o sangue de elefantes machos era considerado útil para tratar reumatismo (***), e introduzia o debate sobre quanto durava a gestação desses animais, afirmando que "supõe-se geralmente que a gestação de um elefante dura dez anos, mas Aristóteles afirma que são apenas dois (...)." (****) Convenhamos: Aristóteles chegou perto, já que o tempo máximo é de vinte e dois meses. O elemento curioso é que este assunto virou tema de debates teológicos (!) na Idade Média, quando o elefante era considerado um verdadeiro modelo de continência, que os humanos deveriam imitar (!!!).
Já quase nos desgarramos do assunto de hoje, que é o dos elefantes de Pirro. Pois bem, voltemos a ele. Plínio confirma a história de que elefantes estrearam na Itália na batalha de Heracleia:
"Elefantes foram vistos na Itália pela primeira vez ao tempo da guerra contra o rei Pirro, sendo então chamados "bois lucanos", porque foram avistados na Lucânia, no ano 474 da fundação da cidade [280 a.C.], mas somente apareceram em Roma por ocasião de um triunfo, cinco anos mais tarde." (*****) Ainda segundo o relato de Plínio, no triunfo de Pompeu fez-se uma tentativa de atrelar elefantes à carruagem do general vencedor, mas os animais teriam entalado no portão da cidade... 
Animais de guerra que eram, os elefantes foram mandados para os espetáculos circenses. A História Natural aponta o ano 655 da fundação de Roma [99 a.C.] como sendo o da primeira ocasião em que isto ocorreu; o combate de um elefante contra touros estreou vinte anos mais tarde. Como podem observar, leitores, tudo perfeitamente dentro do gosto pelos entretenimentos brutais, que então imperava em Roma.

(*) As citações das obras de Tito Lívio e de Plínio, o Velho que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(**) Naturalis Historia, Livro VIII
(***) Ibid., Livro XXVIII.
(****) Ibid. Livro VIII.
(*****) Ibid.

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