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quinta-feira, 29 de julho de 2021

Augusto e os espetáculos públicos em Roma

Em Roma, os espetáculos públicos eram assunto de Estado: esperava-se que impedissem revoltas populares contra a elite político-econômica e contra os governantes, dando ocupação às multidões de homens livres que viviam na ociosidade, já que muito do trabalho era feito por escravos.
Havia espetáculos para quase todos os gostos. Gente pacífica podia se entusiasmar com corridas de bigas, os mais sanguinários dificilmente iriam se queixar das lutas de gladiadores. Houve até quem, para entretenimento, ordenasse a realização de uma batalha naval simulada. Pode-se imaginar o quanto isso tudo afetava o erário. No Império Romano, a paz interna, tanto quanto a externa, era altamente dispendiosa.
Augusto, considerado o primeiro imperador, teve cuidado em fazer realizar espetáculos notáveis, como nenhum outro fizera antes dele. Gostava das lutas, especialmente do pugilato, mas, de acordo com Suetônio (*), sempre que era possível fazer a exibição de um animal incomum, fosse pela ferocidade ou pelas dimensões, não esperava sequer as datas previamente assinaladas para grandes eventos.  Ciente de que o povo romano não apreciava o comportamento de Júlio César, seu antecessor, que chegara a ler e escrever cartas durante os jogos, tal era seu descaso pelo que acontecia, Augusto ia aos espetáculos acompanhado da família e, enquanto assistia, não se ocupava de qualquer outra tarefa. Para governar Roma, era preciso demonstrar interesse pelo que apaixonava os romanos.

(*) Cf. SUETÔNIO. De vita Caesarum Livro II.


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quinta-feira, 30 de abril de 2020

Florália e os jogos florais em Roma

Flora e Zéfiro eram um casal de deuses menores do panteão romano, cujo culto, remetendo às mais remotas tradições dos sabinos, simbolizava a amada estação da primavera: a deusa personificava a erupção das flores após os meses de inverno, e Zéfiro, por seu turno, o vento alegre que agitava as árvores e fazia a delícia dos dias já ensolarados. 
Florália era, inicialmente, a festividade de caráter religioso celebrada em honra da deusa Flora. Os romanos, porém, que amavam competições e outros espetáculos, acabaram por anexar à tradição religiosa os jogos florais, que iam do final de abril ao início de maio.
Era ocasião favorável a festas públicas: o frio já diminuía, o sol tendia a cooperar e, para os romanos, o pretexto religioso era convincente quando se tratava de povoar o ano com feriados. Portanto, a festa conhecida como Florália e os jogos florais cabiam à perfeição nesse cenário.


terça-feira, 26 de novembro de 2019

Animais na arena dos anfiteatros romanos

O cinema conseguiu imprimir no imaginário popular uma noção de suntuosidade em relação aos espetáculos realizados nos anfiteatros romanos. A verdade, porém, é que, ao lado do luxo e da ostentação, os espetáculos eram exibições do que poderia haver de pior na humanidade. 
O lugar em que ocorriam os combates era chamado arena, e não por acaso. É que arena, no latim, significa simplesmente areia, e era isso que se espalhava sobre o piso, entre um espetáculo e outro, para cobrir o sangue que fora derramado durante as lutas precedentes, sangue de homens e de animais, muitos animais.
Testemunhos dessas carnificinas não faltam, na palavra dos próprios romanos. Um deles, Plínio, o Velho, afirmou no Livro VIII de Naturalis historia"O primeiro elefante foi visto a lutar no circo [...] no ano 655 (¹) da fundação de Roma, e a primeira luta de um elefante contra touros aconteceu vinte anos mais tarde [...]. (²)" O mesmo Plínio mencionou, também no Livro VIII, exibições de luta simultânea entre leões, cem deles quando Sila, mais tarde ditador, exercia o cargo de pretor, seiscentos, sob as ordens de Pompeu, e quatrocentos, quando César era ditador. Vê-se que a ênfase parece estar na quantidade, mas é simplesmente impossível saber se esses números correspondem ao que, de fato, acontecia, ou se há algum exagero, ainda que não intencional. 
Posteriormente, quando o Coliseu foi inaugurado (³), as festividades  duraram nada menos que cem dias, e afirma-se que cerca de cinco mil animais selvagens foram mortos na arena, quer em lutas entre si, quer em combates contra gladiadores. Que diversão era essa, que fazia correr o sangue dos inocentes animais, além, é claro, de tantos homens compelidos a lutar entre si e contra as feras?
Estranho como possa parecer, era ideia corrente que esses espetáculos que incluíam a morte de tantos animais resultavam em benefício às terras de onde provinham, que ficavam despovoadas de feras ameaçadoras. Talvez, hoje, pouco ou nada saibamos, por experiência, da ameaça dos animais selvagens, mas também é evidente que a noção de equilíbrio ecológico, envolvendo todas as espécies de um dado ambiente, era pouco considerada na Antiguidade. Contudo, se a banalização da morte de homens e animais na arena dos anfiteatros tinha como fim entreter a população e canalizar a violência dos insatisfeitos para longe dos governantes, a quantidade de imperadores assassinados talvez seja uma evidência de que, neste caso, o efeito talvez fosse exatamente o contrário do desejado. 

(1) 99 a.C.
(2) O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) 80 d.C.


terça-feira, 1 de janeiro de 2019

A primeira girafa vista em Roma

Talvez esta simpática criatura tenha orgulho de seu parentesco
com a primeira girafa vista em Roma

Tarefa para vocês, leitores: tentem descrever uma girafa para alguém que nunca tenha visto dito animal, nem mesmo em fotografia. Não é muito fácil, concordam? Plínio, o Velho (¹), grande escritor da Antiguidade, enfrentou esse desafio, ao informar, no Livro VIII de Naturalis historia, que a primeira girafa vista em Roma fora trazida à cidade nos dias de Júlio César:
Que tal, leitores? Acham que esta gravura
do Século XVI (⁵) faz justiça às girafas?
"Nabun é o nome dado pelos etíopes a um [animal] que tem pescoço semelhante ao do cavalo, pés e pernas de boi, cabeça de camelo e manchas claras no pelo avermelhado (²), pelo que é chamado camelopardo, e foi visto pela primeira vez em Roma durante os jogos circenses do ditador César (³)." (⁴)
Não demorou muito para que toda a cidade percebesse que a girafa era pacífica demais para protagonizar espetáculos de brutalidade à moda romana, em que figuravam lutas, tanto entre animais, apenas, como também entre homens e animais. Combates assim só terminavam, como regra, quando um dos contendores morria. Às vezes, para delírio da plateia, ambos davam o último suspiro, ali mesmo, na arena, sob os olhares e brados da multidão ensandecida. De acordo com Plínio, foi quando perceberam essa feliz inaptidão da bela herbívora das savanas africanas que os romanos deram à girafa um apelido: "Verificando-se que era notável mais pelo aspecto que pela ferocidade, foi também chamada "ovelha selvagem".

(1) 23 - 79 d.C.
(2) Não é exatamente assim, o que nos leva à conclusão de que, ou Plínio cometeu um pequeno engano, ou nunca viu uma girafa de perto.
(3) César foi ditador entre 49 e 44 a.C.
(4) Os trechos citados de Naturalis historia foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) GESNER, Conrad. Icones Animalium Quadrupedum Viviparorum et Oviparorum. Zürich: Christof Froshover, 1560, p. 42. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.



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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Os elefantes de Pirro

Conforme asseveram vários autores da Antiguidade, foi Pirro, rei do Épiro, quem primeiro mostrou ao exército romano o que eram elefantes. Sim, elefantes de guerra, que iam à frente dos combatentes e aterrorizavam os inimigos. Isso aconteceu no Século III a.C, quando as tropas de Pirro, para socorrer os tarentinos, enfrentaram os romanos na batalha de Heracleia. 
De acordo com Tito Lívio em Ab Urbe Condita Libri, o exército de Pirro constava de vinte e dois mil infantes, três mil cavalarianos e vinte elefantes. Ora, ao ser deflagrado o combate, ainda segundo Tito Lívio, a soldadesca de Roma, em pânico, acreditou "ver algum grande monstro estupendo [...]", enquanto "os cavalos, apavorados pelo que viam, pelo cheiro e pelo barulho daquilo que presenciavam pela primeira vez, arremessavam de si os cavaleiros [...]."
Sim, Pirro venceu, mas foi mesmo o que se convencionou, mais tarde, chamar de "uma vitória de Pirro", já que, por informação de Tito Lívio, sabemos que "morreram, entre os romanos e seus aliados, pouco menos de 15 mil homens; entre os vencedores, caíram uns 13 mil. Por isso é que Pirro afirmou: "Ai, se venço deste modo novamente, voltarei ao Épiro sem exército!"" (¹) 
Essa guerra teria ainda outros desdobramentos, que, por ora, deixaremos de lado. O que nos interessa, aqui, são os elefantes. Esses, sim, como já vimos, impressionaram de verdade os romanos. Muito mais tarde, no Século I d.C., Plínio, o Velho, na seção de sua História Natural destinada a tratar dos animais, começou justamente pelos elefantes - sintomático, não acham, leitores? Escreveu ele:
"O maior animal terrestre é o elefante, que é quase tão inteligente quanto o homem; é capaz de compreender a língua de sua terra de origem, de obedecer a comandos e de memorizar tarefas que já aprendeu [...], apresentando virtudes escassas até em humanos, como honestidade, sabedoria, justiça e [...] reverência para com o sol e a lua." (²)
Só por isso já percebem os leitores que Plínio andava a fazer uma belíssima mistura de informações confiáveis e tolices cabeludas. Querem mais? A História Natural assegurava, por exemplo, que o sangue de elefantes machos era considerado útil para tratar reumatismo (³), e introduzia o debate sobre quanto durava a gestação desses animais, afirmando que "supõe-se geralmente que a gestação de um elefante dura dez anos, mas Aristóteles afirma que são apenas dois [...]." (⁴) Convenhamos: Aristóteles chegou perto, já que o tempo máximo é de vinte e dois meses. O elemento curioso é que este assunto virou tema de debates teológicos (!) na Idade Média, quando o elefante era considerado um verdadeiro modelo de continência, que os humanos deveriam imitar (!!!).
Já quase nos desgarramos do assunto de hoje, que é o dos elefantes de Pirro. Pois bem, voltemos a ele. Plínio confirma a história de que elefantes estrearam na Itália na batalha de Heracleia:
"Elefantes foram vistos na Itália pela primeira vez ao tempo da guerra contra o rei Pirro, sendo então chamados "bois lucanos", porque foram avistados na Lucânia, no ano 474 da fundação da cidade [280 a.C.], mas somente apareceram em Roma por ocasião de um triunfo, cinco anos mais tarde." (⁵) Ainda segundo o relato de Plínio, no triunfo de Pompeu fez-se uma tentativa de atrelar elefantes à carruagem do general vencedor, mas os animais teriam entalado no portão da cidade... 
Animais de guerra que eram, os elefantes foram mandados para os espetáculos circenses. A História Natural aponta o ano 655 da fundação de Roma [99 a.C.] como sendo o da primeira ocasião em que isto ocorreu; o combate de um elefante contra touros estreou vinte anos mais tarde. Como podem observar, leitores, tudo perfeitamente dentro do gosto pelos entretenimentos brutais, que então imperava em Roma.

(1) As citações das obras de Tito Lívio e de Plínio, o Velho que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Naturalis Historia, Livro VIII.
(3) Ibid., Livro XXVIII.
(4) Ibid. Livro VIII.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A perseguição aos cristãos no Império Romano

Por séculos os cristãos que viviam no Império Romano foram perseguidos. Eram presos, torturados para que negassem sua fé e, muitas vezes, condenados à morte, o que se executava com extrema crueldade, e até mesmo como espetáculo público.
Quem, afinal, teve a ideia de iniciar tal prática?
De acordo com a Apologia, escrita por Tertuliano no ano 200 d.C. (com a finalidade de defender a causa dos cristãos diante do Senado romano, por ocasião de uma perseguição movida pelo próprio Senado e referendada pelo imperador Sétimo Severo), os cristãos de Roma foram perseguidos, pela primeira vez, sob o mando de Nero:
"Procurem nos registros anuais e irão encontrar que Nero foi o primeiro a ensanguentar a espada dos Césares no sangue da religião cristã, quando ela começava a fazer-se conhecer em Roma." (*)
Tertuliano ainda acrescentaria:
"Não há maior elogio à religião cristã que haver sido perseguida por Nero, uma vez que um homem tão mau não poderia senão perseguir algo completamente bom."
É perceptível que, ao final do segundo século da Era Cristã, a imagem de Nero entre os romanos não era das mais favoráveis, ou Tertuliano não teria se referido a ele do modo como o fez. Mas, voltando à questão da primeira perseguição aos cristãos, ocorreu ela porque Nero, vendo-se sob suspeita de ter ordenado o incêndio que arrasou a capital do Império, tratou de achar a quem incriminar, e lançou a responsabilidade sobre os cristãos, que, nesse tempo (64 - 65 d.C.) não deviam ser assim tão numerosos em Roma. No livro XV dos Annales, Tácito escreveu:
"Para afastar os rumores, Nero incriminou e passou a punir com toda sorte de tormentos a uma gente desagradável, os cristãos, como vulgarmente eram chamados. [...] Zombando deles, eram vestidos com peles de animais, sendo, em seguida, lançados aos cães, enquanto outros eram crucificados, e outros, ainda, queimados quando anoitecia, para que servissem de iluminação."
Sabe-se que, pela época que o cristianismo chegou a Roma, a crença nos antigos deuses já andava em declínio. No entanto (como se vê, mutatis mutandis, até hoje sob algumas circunstâncias), sempre que ocorria alguma grande catástrofe o povo romano corria aos templos, tentando aplacar a fúria das divindades esquecidas. Foi também Tácito, a despeito de seu mau humor para com os cristãos, quem registrou:
"Entendeu-se que o incêndio fora devido à fúria dos deuses, e tomaram-se providências para acalmá-los. [...] Livros sibilinos foram consultados, sendo então dirigidas súplicas a Vulcano, Ceres e Proserpina, enquanto as matronas faziam propiciação a Juno no Capitólio e, depois, junto ao mar, levando dali água para aspergir o templo e a estátua da deusa."
Estando o imperador envolvido no incêndio ou não, naquela hora o expediente serviu para que Nero escapasse da ameaça popular e ainda caísse, momentaneamente, nas graças da plebe, que acorria aos espetáculos públicos nos quais cristãos eram sacrificados, com o pretexto de que isso seria em extremo agradável aos deuses. 
Nem por isso o cristianismo desapareceu, e nem mesmo as sucessivas perseguições tiveram o efeito de fazer com que os cristãos sumissem do Império. Ao contrário. Se nos dias de Nero os cristão eram, em Roma, relativamente pouco numerosos, quase um século e meio mais tarde, sob nova perseguição, Tertuliano diria: "Nascemos ontem, e já hoje enchemos o Império [...]."

(*) As citações da Apologia de Tertuliano e dos Annales de Tácito incluídas nesta postagem são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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