sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O Culto aos Imperadores em Roma

Após derrotar os germanos dalém do Reno (que eram comandados por Armínio), os romanos ergueram uma coluna com as armas capturadas, na qual, segundo Tácito (Annales, livro II), lia-se: "DEBELLATIS INTER RHENVM ALBIMQVE NATIONIBVS EXERCITVM TIBERII CAESARIS EA MONIMENTA MARTI ET IOVI ET AVGVSTO SACRAVISSE" ("Tendo dominado os povos entre o Reno e o Elba, o exército de Tibério César consagra este monumento a Marte, Júpiter e Augusto").  (¹)
Vê-se, aqui, em ação, o chamado "culto ao Imperador", neste caso um já falecido, ou seja, Augusto, e que, portanto, passava ser venerado como um deus, segundo as tradições romanas de culto aos antepassados. Nos dias de Nero, todavia, de acordo com o mesmo Tácito, um adulador tentou fazer aprovar no Senado a construção de um templo para o  imperador ainda vivo, ao que o autor dos Annales juntou a observação de que "não se honra um príncipe como um deus enquanto ainda vive entre os homens" (²), ainda que não desconsiderasse a possibilidade de que a tal homenagem fosse um agouro da morte do "Divo Nero" (³).
À medida que o tempo passava, as honras civis e militares prestadas aos imperadores adquiriam, mais e mais, um cunho religioso, e a não adesão de cristãos a essas cerimônias estava entre as causas mais recorrentes para que fossem perseguidos no segundo e terceiro séculos. De acordo com Tertuliano (⁴), o estopim da perseguição nos dias de Sétimo Severo foi a ausência dos cristãos nas festividades decretadas para comemorar o aniversário do imperador. Ora, um raciocínio simples e lógico é que os adeptos da fé cristã não participavam dessas cerimônias porque viam nelas elementos de caráter cultual, e não simples festejos pelo aniversário do governante de Roma. Além disso, o próprio Tertuliano admitia que a recusa dos cristãos em participar das festas foi interpretada como apoio a rebeliões civis ocorridas pouco antes.
Usualmente, esperava-se que cidadãos romanos oferecessem sacrifícios aos deuses em favor do imperador, para que vivesse muito e fizesse Roma sempre maior e mais próspera; dos soldados, exigia-se um juramento de lealdade ao imperador, no qual eram invocadas as divindades tradicionais de Roma como testemunhas e executoras de castigo aos perjuros. A essas práticas os cristãos, que eram monoteístas, não aderiam, segundo explicou Tertuliano:
"Dizem que nós, os cristãos, somos sacrílegos e réus de lesa-majestade, porque não prestamos culto aos deuses, e nem oferecemos sacrifícios em favor do imperador. (...) Não adoramos aos deuses porque estamos convencidos de que os que assim são chamados, não são deuses." (⁵).
Vê-se, afinal, que as honras religiosas prestadas à figura do imperador tinham, em Roma, um aspecto cívico-patriótico, que poderia, mutatis mutandis, ser comparado ao hasteamento da bandeira ou ao cantar do hino nacional em nossos dias, com a diferença de que, ao menos no Ocidente, essas práticas não têm significado religioso (espera-se!). Mas em Roma, não importando se as pessoas ainda acreditavam na existência dos deuses, deixar de honrar divindades e imperadores era incorrer em suspeita de traição à pátria, e quem agia dessa maneira assumia o risco de terríveis consequências.

(1) Os trechos das obras de Tácito e Tertuliano citados nesta postagem são tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(2) Annales, Livro XV.
(3) Honra idêntica foi proposta a Tibério, que a recusou; em Pérgamo, na Ásia Menor, um templo foi edificado em honra de Augusto e da cidade de Roma, quando o imperador ainda vivia. 
(4) Apologia.
(5) Ibid

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