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quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Jogos Agonais

Os romanos atribuíam a Numa Pompílio, o lendário segundo rei de Roma e homem de sabedoria notável, a criação dos Jogos Agonais, que deveriam ser celebrados em honra de Jano (¹) três vezes a cada ano, ou seja, nos meses de janeiro, maio e dezembro.
Ora, alguém perguntará, para que tantos jogos? 
No dizer de Floro, contemporâneo do imperador Adriano, Numa Pompílio "soube dominar aquele povo feroz [os romanos], no qual imperavam a vilania e a injúria, de modo que a religião e a justiça passaram a governar" (²). Que bela descrição da gente romana dos primeiros tempos da cidade!... A instituição dos jogos, portanto, deve ser entendida nesse cenário tão brilhante: O sábio rei pretendia que os turbulentos romanos, pondo de lado a mania de brigar entre si, gastassem as energias em jogos que teriam, ainda, um segundo proveito, como exercício para o combate, caso Roma tivesse de enfrentar alguma guerra. Como se sabe, isso aconteceu com bastante frequência.
Supõe-se que os Jogos Agonais, seriam, remotamente, a origem dos espetáculos de gladiadores que, mais tarde, vieram a ser uma das diversões favoritas em Roma. Mas há uma diferença notável, que nunca deveria ser esquecida: os jogos de Numa seriam destinados a homens livres, que serviam como soldados em defesa da cidade. Gladiadores, contudo, eram, em esmagadora maioria, escravos, que lutavam até a morte para proporcionar um entretenimento brutal aos romanos que, desocupados, apenas esperavam, do Estado, pão e circo. Mudanças vêm com o passar do tempo, meus leitores, e nem sempre tornam o mundo melhor. 

Gladiadores romanos, de acordo com desenho em uma parede em Pompeia (³)

(1) Um dos deuses menores de Roma, representado tradicionalmente com duas faces, olhando em direções opostas. 
(2) Aneu Floro, Rerum Romanarum. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(3) Cf. SAMPSON, Henry.  A History of Advertising. London: Chatto and Windus, 1874.


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terça-feira, 26 de novembro de 2019

Animais na arena dos anfiteatros romanos

O cinema conseguiu imprimir no imaginário popular uma noção de suntuosidade em relação aos espetáculos realizados nos anfiteatros romanos. A verdade, porém, é que, ao lado do luxo e da ostentação, os espetáculos eram exibições do que poderia haver de pior na humanidade. 
O lugar em que ocorriam os combates era chamado arena, e não por acaso. É que arena, no latim, significa simplesmente areia, e era isso que se espalhava sobre o piso, entre um espetáculo e outro, para cobrir o sangue que fora derramado durante as lutas precedentes, sangue de homens e de animais, muitos animais.
Testemunhos dessas carnificinas não faltam, na palavra dos próprios romanos. Um deles, Plínio, o Velho, afirmou no Livro VIII de Naturalis historia"O primeiro elefante foi visto a lutar no circo [...] no ano 655 (¹) da fundação de Roma, e a primeira luta de um elefante contra touros aconteceu vinte anos mais tarde [...]. (²)" O mesmo Plínio mencionou, também no Livro VIII, exibições de luta simultânea entre leões, cem deles quando Sila, mais tarde ditador, exercia o cargo de pretor, seiscentos, sob as ordens de Pompeu, e quatrocentos, quando César era ditador. Vê-se que a ênfase parece estar na quantidade, mas é simplesmente impossível saber se esses números correspondem ao que, de fato, acontecia, ou se há algum exagero, ainda que não intencional. 
Posteriormente, quando o Coliseu foi inaugurado (³), as festividades  duraram nada menos que cem dias, e afirma-se que cerca de cinco mil animais selvagens foram mortos na arena, quer em lutas entre si, quer em combates contra gladiadores. Que diversão era essa, que fazia correr o sangue dos inocentes animais, além, é claro, de tantos homens compelidos a lutar entre si e contra as feras?
Estranho como possa parecer, era ideia corrente que esses espetáculos que incluíam a morte de tantos animais resultavam em benefício às terras de onde provinham, que ficavam despovoadas de feras ameaçadoras. Talvez, hoje, pouco ou nada saibamos, por experiência, da ameaça dos animais selvagens, mas também é evidente que a noção de equilíbrio ecológico, envolvendo todas as espécies de um dado ambiente, era pouco considerada na Antiguidade. Contudo, se a banalização da morte de homens e animais na arena dos anfiteatros tinha como fim entreter a população e canalizar a violência dos insatisfeitos para longe dos governantes, a quantidade de imperadores assassinados talvez seja uma evidência de que, neste caso, o efeito talvez fosse exatamente o contrário do desejado. 

(1) 99 a.C.
(2) O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) 80 d.C.