quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O povo queria pão

Então, leitores, imaginaram que eu iria tratar daquela famosa anedota relacionada à Revolução Francesa, não é? 
Mas não, não mesmo. A coisa aconteceu na vila de São Paulo, nos já distantes dias coloniais. Com mais exatidão, em 1638, tempo em que expedições bandeirantes ganhavam força e as autoridades locais faziam vista grossa para quem ia ao sertão capturar indígenas para escravização, ainda que, hipocritamente, sempre se procurasse dar a impressão de que, nessa matéria, as determinações reais eram cumpridas à risca. 
Em vereação do dia 11 de setembro, seguindo o procedimento de rotina, os oficiais da Câmara de São Paulo ouviram o que o procurador tinha a dizer, e o escrivão registrou:
"[...] pelo procurador [...] foi requerido aos oficiais da Câmara que este povo carecia de pão, mantimento necessário, pelo que lhes requeria mandassem pelo alcaide notificar a quem tivesse trigo, desse pão a este povo, o que visto pelos oficiais da Câmara, disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila [...]." (*)
Alguns pontos devem ser esclarecidos. Vejamos:

1. Por que faltava trigo
 
Muitos fazendeiros tiveram, em São Paulo, o cultivo de trigo como parte de suas lavouras para suprir as necessidades da própria família, e, havendo excedente, para venda. Foi assim no Século XVI e em parte do Século XVII. Gradualmente, porém, a produção de trigo sofreu declínio, por razões que já detalhei em uma postagem publicada neste blog em 16 de outubro de 2012, cujo título é Por que se deixou de cultivar trigo em São Paulo. Resumindo a questão, era mais fácil obter boas safras de milho e mandioca, os proprietários de moinhos cobravam taxas altas demais para moer o trigo e os comerciantes de Santos, que distribuíam para outras capitanias o trigo paulista, pareciam estar sempre de acordo em praticar os preços mais baixos possíveis ao comprar o cereal, desestimulando, assim, a produção para venda. Há conjecturas, também, de que mudanças no clima podem ter tornado a triticultura menos vantajosa.

2. A falta de trigo talvez fosse expediente de comerciantes locais para elevar o preço

Acostumados ao excelente pão de trigo, os moradores de São Paulo foram dar queixa à Câmara quanto à falta do produto no comércio local. Não é improvável que alguns comerciantes dispusessem de trigo para vender, mas que o ocultassem para que, alegando sua falta, pudessem elevar os preços (hipótese perfeitamente compatível com o que se fazia em São Paulo, na época, em relação a outros produtos - carne bovina, por exemplo).

3. A ideia era forçar quem tinha trigo a vendê-lo

Quando o procurador requeria que "quem tivesse trigo, desse pão a este povo", não estava, evidentemente, sugerindo distribuição gratuita. Era apenas a linguagem corrente do tempo para significar que não se pusessem obstáculos à venda.

4. O problema seria sanado apenas se fosse conveniente a quem detinha o mando na vila

Finalmente, segundo a Ata, os oficiais da Câmara "disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila". De novo, formalidade na linguagem, segundo o costume. É concebível que, já não tivessem conhecimento do problema? As diligências seriam feitas se houvesse, de fato, interesse na questão. Caso contrário, eram incluídas na Ata, e nada mais poderia acontecer. Não se necessitam muitos esforços para conjecturar quanto aos interesses maléficos e pouco altruístas que estariam ocultos nesse sumiço do trigo e, por consequência, do pão, no comércio incipiente de São Paulo no Século XVII.

(*) O trecho citado da Ata da Câmara de São Paulo correspondente à vereação de 11 de setembro de 1638 foi aqui transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.

Veja também:

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Senhores de engenho no inferno

A casa das fornalhas, instalação existente nos engenhos de açúcar do Brasil Colonial, foi frequentemente comparada ao inferno, conforme se pode ver pelos escritos de vários autores da época - Antonil, entre eles. Antes, porém, que Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas fosse publicado em 1711, outro autor colonial teve a ideia de comparar as fornalhas ao que, na imaginação popular, deveria ser o inferno:
"Debaixo da casa das caldeiras estão as fornalhas, que com os negros metedores de fogo parecem vivas pinturas do inferno [...]." (¹)
Quem escreveu tal coisa? Frei Antônio do Rosário, franciscano, nascido no Reino e falecido no Brasil no começo do Século XVIII, que publicou um pequeno livro em Lisboa com o título de Frutas do Brasil. Nada de descrições botânicas: a obra tinha caráter religioso, marcada por reflexões alegóricas muito ao gosto da época. 
Contudo, frei Antônio do Rosário não se limitou a uma comparação que, pela frequência com que era feita, devia ser voz corrente em seus dias. Ciente da vida miserável a que eram submetidos os escravizados no Brasil, não economizou palavras para advertir senhores de engenho do que os aguardava quando tivessem de prestar contas de seus atos no Juízo Final. O trecho é um tanto longo e talvez mais erudito do que a maioria dos leitores de hoje é capaz de apreciar, mas vale a menção. Portanto, vamos a ele:
"[...] O açude do engenho do Juízo universal será de fogo, para que se saiba que geralmente o rigor da divina justiça explicada pelo fogo será maior do que foi no princípio do mundo; mas particularmente será de fogo, e não de água, o açude do engenho do Juízo, para castigar os que moem com sangue nos seus engenhos; aos que moendo com a água, ou com as bestas, mais moem com o sangue dos escravos, que com a água dos açudes [...]." (²) 
Há mais:
"[...] Os engenhos em que trabalham os escravos famintos, despidos e faltos de todo o alimento d'alma e corpo, ainda que moam com água, moem com o sangue que desumanamente lhes tiram os senhores por tormentos, que mais parecem martírios de tiranos da fé, do que castigos de senhores católicos: mas lá está o Vale de Josafá (³), o Vale do corte, In valle concisionis, onde se há de armar o engenho do Juízo, e aí serão bem moídos e remoídos com fogo os senhores de engenho, que moem como tiranos, mais com sangue que com água [...]." (⁴) 
Reafirmo que o pequeno livro de Frei Antônio do Rosário foi publicado no começo do Século XVIII, quando senhores de engenho eram, ainda, vistos como figuras cuja autoridade e prestígio derivavam do poder econômico. Poucos teriam a audácia de enfrentá-los tão abertamente, e muitos, até mesmo entre o clero, eram os que fechavam os olhos para a brutal exploração da força de trabalho dos cativos. Sim, é verdade que frei Antônio do Rosário não travou combate contra a escravidão como sistema de trabalho, opondo-se somente à brutalidade a que eram submetidos os escravizados. Mesmo assim, sua denúncia vigorosa foi um ato de coragem.  

(1) ROSÁRIO, Frei Antônio do. Frutas do Brasil. Lisboa: Oficina de Antonio Pedrozo Galram, 1702, p. 95.  
(2) Ibid., p. 89.
(3) Local mencionado na Bíblia no livro do profeta Joel, capítulo 3, versículos 12 e 14, e associado à ideia do juízo divino: "Consurgant, et ascendant gentes in vallem Josaphat, quia ibi sedebo ut judicem omnes gentes in circuito. [...] Populi, populi in valle concisionis, quia juxta este dies Domini in valle concisionis."
(4) ROSÁRIO, Frei Antônio do. Op. cit., pp. 90 e 91.

Veja também:

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Pastores de ovelhas na Antiguidade

Pastores cuidando do rebanho à noite (*)
A música suave que brota de uma flauta espalha-se pelas colinas. A melodia é acentuada pelo bater de mãos e pés dos ouvintes. Uma pausa, e pode-se ouvir a pouca distância o ruído das águas de um riacho. 
Na noite de verão, as ovelhas, deitadas aqui e ali, ou ainda mastigando tufos de relva (bichos insaciáveis!), não saem das vistas dos pastores que, jovens como são, sabem que é preciso cuidado, predadores podem estar à espreita. 
Algumas vezes, pastores andam solitários, mas, se possível e por segurança, em grupos. O isolamento é matéria-prima para sonhos e projetos que, provavelmente, não irão além da imaginação. Cuidar de ovelhas e cabras alheias é, afinal, coisa para gente simples, de poucos recursos, ganhando o suficiente para viver e nada mais. Mas quem disse que sonhar não é para os pobres?
A música recomeça. Nestas solidões quase desabitadas, o céu, à noite, é estonteante. Pontinhos luminosos incontáveis parecem recordar formas conhecidas e favorecem a fantasia. Há quem diga que estão perto, outros pensam que estão muito, muito longe. Que haverá por lá? 

(*) Imagem gerada por inteligência artificial. O texto, como sempre, é completamente humano. 

Veja também:

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Desembarque do tesouro inca em Sevilha

Há quem afirme que os atos e a cultura de quem viveu no passado não devem ser julgados pelos valores que temos na atualidade. Existe, por certo, algo de verdade nisso: estamos sob circunstâncias muito diferentes das enfrentadas por pessoas de outros tempos. Como negar, porém, que há coisas que transcendem as eras? É de causar espanto, e mesmo horror, o modo como alguns autores contemporâneos às invasões de impérios da América no Século XVI interpretaram as ações de que chegaram a participar ou que, ao menos, presenciaram. 
Se você leitor, der uma olhada na postagem anterior deste blog, verá que abordei a questão do ideário que norteou as invasões de europeus em áreas do Continente Americano nos Séculos XV e XVI, comumente chamadas de "conquista da América". Pois bem, voltemos ao assunto, considerando que Francisco Pizarro, à frente de um bando reduzido de soldados, depois de desembarcar em território inca, acabou, astutamente, por aprisionar o imperador Atahualpa, com mostras, no entanto, de sutil amabilidade. Ora, Atahualpa, talvez em desespero por não compreender a extensão do que lhe ocorrera, prometeu a Pizarro um cômodo inteiro da casa em que estava repleto de ouro e prata, se, com isso, fosse libertado. Essa declaração, talvez figurada, foi entendida literalmente por Pizarro, porque era aquilo que mais desejava ouvir. 
Em consequência, ouro e prata começaram a afluir de diferentes partes do Império Inca. Pretenderia Pizarro, contudo, libertar Atahualpa, sabendo que, possivelmente, lideraria uma força numerosíssima contra os invasores, que, aliás, eram mesmo poucos, embora dispusessem de alguns cavalos e de uma ousadia que surpreende até hoje? 
Não, isso estava fora de questão. Valendo-se de ter ouvido que o ilustre prisioneiro tramava, secretamente, um ataque aos espanhóis, Pizarro fez condenar Atahualpa à morte. Devia ser queimado vivo. Diante da perspectiva horrorosa, o pobre homem aceitou uma conversão forçada ao catolicismo, que resultou em morrer de modo mais suave - por afogamento. Era julho de 1533. 
Metodicamente, Pizarro fez transformar em folhas e barras quase toda a enorme quantidade de metal precioso que recebera, pagando a cada soldado que o acompanhara a quantia correspondente a seu papel e posição de autoridade. Tratava-se, agora, de remeter ao monarca espanhol (¹) o que lhe cabia. Quanto a isso, o secretário de Pizarro, Francisco de Xerez, escreveu, ao relatar o desembarque do tesouro inca em Sevilha:
"Este tesouro foi descarregado na doca e levado à Casa da Contratação, sendo os vasos carregados e o restante em vinte e sete caixas, de modo que cada junta de bois levava duas caixas por carreta." (²)
Isso ocorreu em 1534. Sucintamente, o secretário Xerez concluiu: "a Dios gracias".

(1) Na época, Carlos V, rei da Espanha e imperador do Sacro Império.
(2) XEREZ, Francisco de. Verdadera relacion de la conquista del Perú y Provincia del Cuzco. Sevilha: Bartolomé Perez, 1534. 
O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

Veja também:

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Em nome dos reis que queriam ouro

Invasores europeus no Continente Americano na perspectiva do Mercantilismo


Eram tempos de Mercantilismo, ao menos para alguns reinos na Europa. Mercantilismo - talvez a explicação soe um pouco simplista - foi doutrina e prática econômica que, entre outras ideias, defendia o metalismo, o conceito de que um Estado seria tanto mais forte e poderoso quanto maior fosse sua reserva de metais preciosos, obtidos por meio de uma balança comercial favorável. Mas não só, conforme já veremos.
Os autoproclamados conquistadores, que invadiram e dominaram impérios no Continente Americano, corriam risco, matavam e morriam por si mesmos, com vistas à aquisição de riqueza pessoal. Mas iam também em nome do monarca, fosse rei ou imperador, sob cuja autoridade, em última instância, se encontravam. Era aos monarcas de nações europeias que muito interessava também a "conquista", da qual decorria o envio de embarcações abarrotadas de metais preciosos. O preceito mercantilista era seguido à risca.
Contudo, os "conquistadores" não se arriscavam apenas por riqueza pessoal ou pela prosperidade econômica de reis e imperadores que estavam muito longe, e a quem, em quase todos os casos, jamais veriam. Acreditavam piamente que a conquista era um serviço a Deus. Não pensem, leitores, que todo suposto conquistador era um hipócrita, que invocava perversamente o nome de Deus para justificar atos de suprema crueldade. Se é fato que havia gente pérfida a tal ponto, é igualmente certo que nem todos se enquadravam nessa categoria. A mentalidade cruzadística não se havia, ainda, evaporado por completo (¹).
Um exemplo prático ajudará a esclarecer essa questão. Publicou-se em Sevilha, no ano de 1534, uma obra escrita por Francisco de Xerez, que foi, nem mais e nem menos, que o secretário de Francisco Pizarro, famoso por invadir e atacar o Império Inca. Pois bem, nessa obra, ao relatar um confronto preliminar entre espanhóis e indígenas, Xerez escreveu, com uma candura de arrepiar os cabelos:
"[...] como Nosso Senhor favorece e socorre nas necessidades aos que estão a seu serviço, os índios foram desbaratados e fugiram, e os que estavam a cavalo foram atrás deles, ferindo e matando alguns [...]." (²)
Posteriormente, Pizarro mandou tropas a perseguir os indígenas que haviam escapado, e, tendo aprisionado àqueles que supunha líderes, entendeu-se com eles do modo que já ia se tornando frequente, sempre que invasores atacavam quem dispunha de alguma quantidade daquilo que acima de tudo desejavam, prata e ouro:
"[...] Destes fez justiça o governador, queimando a alguns e cortando a cabeça a outros." (³)
Se, na Europa, cristãos que divergiam dos pontos de vista religiosos dominantes eram queimados vivos, por que invasores espanhóis considerariam estranho o ato de decapitar ou queimar pessoas de cujas terras e riquezas pretendiam se apropriar, em nome de Deus e do rei (⁴)?

(1) Quem ousaria dizer, mesmo em nossos dias, que já desapareceu de todo?
(2) XEREZ, Francisco de. Verdadera relacion de la conquista del Perú y Provincia del Cuzco. Sevilha: Bartolomé Perez, 1534. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid.
(4) Na época, Carlos V, rei da Espanha e imperador do Sacro Império.


Veja também:

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Multa para quem não vinha às celebrações de Corpus Christi

Em ata da vereação de 12 de junho de 1632, na Câmara da vila de São Paulo, o escrivão Ambrósio Pereira registrou um requerimento do procurador para que se "condenassem os moradores que não vieram à vila dia do corpo de deus [sic], o que visto pelos ditos oficiais houveram todos por condenados em cento e sessenta [sic] cada um dos que não vieram nem enramaram suas ruas [...]" (*).
O escrivão omitiu no documento a unidade monetária em que os faltosos seriam multados. Diz apenas "cento e sessenta", mas, considerando-se o dinheiro que então circulava, é provável que fossem cento e sessenta réis. Não podia ser muita coisa, porque pouco era o dinheiro amoedado em circulação no Brasil Colonial. Mas, justamente por isso, a multa devia pesar. Se já havia tão pouco, a perda de algumas moedas significava muito.
Quem, então, ousaria correr o risco, não vindo à procissão e não "enramando" as ruas?
Lembrem-se, meus leitores, esses eram tempos do "cuius regio, eius religio". Não se cogitavam liberdades individuais em assunto de religião - isso é coisa do mundo pós-Iluminismo, pós-Revolução Francesa. Portanto, a participação nas festas religiosas não era apenas uma obrigação social, era tratada também como um dever civil, daí a imposição de multa a quem se abstinha.
Quanto aos motivos para ausências em Corpus Christi, podemos apenas fazer conjecturas. A maior parte da população de São Paulo vivia, então, em fazendas a alguma distância da vila, disso resultando que eventuais fenômenos meteorológicos um tanto exagerados podiam fazer com que moradores não ousassem sair de casa. O documento, porém, não refere quanto a tempestades ou inundações. Em um caso desses é provável que ata posterior contivesse um pedido de isenção da multa, com a devida explicação para a ausência. Isso, porém, não aconteceu. Alguém poderia estar doente, incapaz de enfrentar estrada ou deslocamento por rio para chegar à vila, mas também não há qualquer referência nesse sentido. Havia, é certo, os que estavam, contra todas as proibições, em expedições sertão adentro, estimulados pela ideia de capturar indígenas para escravização, e, nessa hipótese, ninguém seria tão atrevido a ponto de alegar o real motivo do não comparecimento.
Finalmente, podemos supor que as ausências ocorressem por razões de ordem religiosa. O Estado lusitano somente admitia uma religião, mas dizia-se, na época, que a vila de São Paulo estaria infestada de gente que, de catolicismo, só tinha a fachada - seria melhor pagar a multa e permanecer em silêncio.
Podemos apenas imaginar o que de fato ocorreu naquele Corpus Christi de 1632. Mas esse é, certamente, o lado divertido de um documento como este que hoje investigamos, para bisbilhotar algum aspecto da vida colonial, com sua simplicidade e contratempos.

(*) O documento citado foi transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.


Veja também:

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Contenda por um banco de igreja

Um banco na igreja foi motivo de discórdia entre população e vereadores em São Paulo no Século XVII


Embora pareça estranho para nós, que vivemos no Século XXI, é fato que, até bem adiantado o Século XIX, a maioria das igrejas no Brasil não tinha bancos em que pudessem sentar-se os que compareciam aos serviços religiosos.
Desconfortável? Sim, e pior para os fiéis do sexo masculino, que deviam ouvir missa em pé. Quanto às mulheres, era uso que permanecessem sentadas em almofadas que traziam de casa (ou que alguém, geralmente um escravo, era encarregado de trazer para a respectiva senhora). A dama que não levasse almofada acabava por sentar-se no chão. Por essa razão, mulheres se acomodavam perto do altar; homens, mais ao fundo da igreja.
Pois bem, sabendo que era esse o costume, vamos a um caso um tanto cômico ocorrido em São Paulo. Era o ano de 1632. Em ata da vereação de 10 de janeiro, pode-se ler:
"[...] pelo procurador foi dito que o banco que estava no meio da igreja em que se assentavam os oficiais era grande prejuízo e escândalo deste povo por se tratarem mal as mulheres, que lhes requeria outrossim, o que visto pelos ditos oficiais mandaram que se tirasse o dito banco [...]." (*)
No pressuposto do contexto da época, pode-se conjecturar: Será que o tal banco fora posto na igreja para melhor acomodar os senhores camaristas durante as celebrações religiosas ligadas ao Natal? Como, anteriormente, o livro de atas da Câmara de São Paulo não fazia qualquer referência ao descontentamento com o banco, é provável que não estivesse na igreja há muito tempo. Se admitirmos essa possibilidade, pode-se indagar se o banco fora lá "esquecido", talvez até intencionalmente. Não sabemos, mas nada nos custa imaginar os sussurros de indignação das mulheres de São Paulo, apontando o banco em que os que detinham o mando na vila podiam estar sentados com um grau de conforto que ninguém mais tinha. Desaforo! Abuso! Indecência!...
A fofoca devia grassar livremente, e talvez já fosse do conhecimento dos camaristas. Só restava, mesmo, dar ordem para que o banco fosse posto fora da igreja.

(*) O trecho da ata aqui citado foi transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.

Veja também: