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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Leques para manter as fogueiras acesas

Vários autores que estiveram no Brasil nos Séculos XVI e XVII observaram que, mesmo quando fazia calor, indígenas acendiam fogueiras em suas habitações, perto da rede onde cada um deveria dormir. Por quê?
As redes tinham pelo menos dois propósitos: afastavam insetos incômodos e funcionavam como proteção contra animais maiores, que poderiam, sorrateiramente, entrar em uma moradia coletiva de indígenas enquanto todos dormiam. Sabe-se lá, então, o que poderia acontecer, se fosse o caso de uma onça, por exemplo, chegar sem ser percebida. E, é claro, em noites frias, uma fogueira servia para manter o ambiente aquecido.
Jean de Léry (*), que participou da fracassada tentativa francesa de estabelecer uma colônia no Rio de Janeiro conhecida como França Antártica - chegou ao Brasil em 10 de março de 1557 e ficou menos de um ano - notou que indígenas usavam um pequeno objeto destinado a abanar o fogo para mantê-lo aceso, e que lhe pareceu guardar certa semelhança com os leques usados por mulheres europeias. Seu nome indígena? Na maneira como Léry o entendia, era tatapecuá.

(*) Calvinista francês, depois de ter estado no Brasil, voltou à Europa e se tornou pastor protestante. Escreveu e publicou suas memórias com o título de Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil.

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terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Era preciso dormir em rede nas longas viagens pelos rios da Amazônia

Antes de 1853, quando a navegação a vapor foi implantada, viajar por rios da Bacia Amazônica era não só uma aventura, como um desafio gigantesco à paciência. Nas palavras de Francisco Bernardino de Sousa, "até essa época todo o tráfico dos gêneros de comércio era morosamente feito em canoas, que raras vezes realizavam uma viagem redonda de Belém a Manaus em menos de cinco meses, viagem que hoje (¹) se efetua em treze a quinze dias, quando muito, compreendidos os cinco dias de demora em Manaus e nos dez pontos intermédios" (²).
Esse cônego Francisco Bernardino de Sousa, que, encarregado dos trabalhos etnográficos participou da Comissão do Madeira, devia ser afeiçoado às viagens longas e às conversas que lhe permitiam descobrir como viviam os habitantes de regiões longínquas do Brasil - digo longínquas, é claro, em relação ao Rio de Janeiro que, em seu tempo, era a capital do Império. Notou que nas viagens por essas vastidões de água e selva competia a cada viajante providenciar acomodação para dormir na embarcação. Uma rede, portanto, era indispensável na bagagem: 
"As redes são o leito de que geralmente se servem os habitantes das províncias do Pará e do Amazonas, e muitas vezes constituem a única mobília da gente mais pobre. No princípio custei a habituar-me a esse gênero especial de dormida; no Pará não tive necessidade de acostumar-me a ele, por me ter sido dada uma excelente cama; mas depois, obrigando-me a necessidade a aceitar a rede, porque mui raras vezes encontrava outra cama, cheguei por fim não só a acostumar-me a ela, como até a achei bem cômoda e bem apropriada para a terra.
Os vapores das diferentes companhias que navegam nos rios das duas províncias são dispostos a poderem os passageiros armar as redes na tolda. Somente as pessoas doentes e uma ou outra senhora aproveitam-se das camas dos beliches." (³)
Dormir em rede era hábito indígena, muito útil para quem era nômade ou seminômade. Da necessidade e conveniência veio o costume que, curiosamente, persiste até hoje (⁴): observem, leitores, as fotos seguintes, que fiz no porto de Manaus.

Embarcações no porto de Manaus - AM: na embarcação em primeiro plano podem
ser vistas redes usadas por passageiros 

Em detalhe, redes dispostas em uma embarcação

(1) "Hoje" é referência à ocasião, no Século XIX, em que o cônego Francisco Bernardino de Sousa escreveu Pará e Amazonas.
(2) SOUSA, Francisco Bernardino de. Pará e Amazonas. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1874, p. 43.
(3) Ibid., p. 50.
(4) Neste caso, leitor, "hoje" é hoje mesmo, quando você está lendo este texto.


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quinta-feira, 16 de maio de 2019

Lei de talião entre indígenas

Quem vai à literatura brasileira do Século XIX, logo descobre que na fase que se convencionou chamar de Primeira Geração Romântica houve obras importantes com temática, ao menos na superfície, ligada às origens do Brasil, dentro do perfil de nação independente que se pretendia construir e para a qual havia muito trabalho historiográfico a ser feito. Inserido nesse contexto, Guarani, de José de Alencar, apresentou à modesta população alfabetizada com que o país contava um herói indígena, Peri, disposto aos maiores sacrifícios para proteger a bela Ceci, filha do colonizador Dom Antônio de Mariz. O lado curioso disso é que, ao mesmo tempo em que enaltece Peri (um goitacá), Alencar faz a mais horrenda descrição dos aimorés, que, no correr da obra, são postos como inimigos ferozes, prontos para atacar e destruir a residência-fortaleza em que vive a família de Ceci. O motivo para o ataque seria a vingança da morte de uma jovem aimoré, que o filho de Dom Antônio de Mariz, inadvertidamente, atingira com o uso de arma de fogo:
"Os selvagens haviam encontrado o corpo de sua filha e reconhecido o sinal da bala; por muito tempo procuraram debalde as pisadas dos caçadores, até que no dia seguinte a cavalgata que passava serviu-lhes de guia.
Toda a noite rondaram em torno da habitação, e nessa manhã, vendo sair as duas moças, resolveram vingar-se com a aplicação dessa lei de talião que era o único princípio de direito e justiça que reconheciam.
Tinham morto sua filha; era justo que matassem a filha do seu inimigo; vida por vida, lágrima por lágrima, desgraça por desgraça."
E então, meus leitores: isso é literatura ou história? Quanto ao conceito de uma lei de talião entre indígenas é literatura, mas é também história (¹). Sem a formalidade de tribunais e sem magistrados, povos indígenas do Brasil recorriam à lei de talião, segundo afirmaram vários autores dos tempos coloniais, para vingar a morte de um familiar e/ou membro da tribo, vendo em tal prática, ao mesmo tempo, um direito e uma obrigação. Em Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil, Jean de Léry (²), que esteve no Brasil no Século XVI, relatou que a retribuição na exata medida da ofensa não se restringia a casos de morte, mas era aplicada até para ferimentos graves decorrentes de uma briga. Sim, não conheciam, formalmente, "olho por olho, dente por dente", mas, assumindo que Léry estava correto no que escreveu, adotavam esse princípio, ainda que não frequentemente, porque os desentendimentos entre indígenas de uma mesma aldeia eram pouco comuns. 
Dentre vários outros autores, frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, setecentista, também referiu a prática de talião, ao falar de indígenas aos quais chamou papanás:
"Além das comuns gentilidades com os demais, tinham [os papanás] uma mui cruel, era, que se algum índio destes matava a outro da mesma nação, eram obrigados os parentes do matador a entregá-lo sem repugnância aos parentes do morto, que logo o afogavam, e davam garrote, e enterravam, estando presentes uns e outros, fazendo todos neste ajuntamento grande pranto, mas comendo e bebendo por muitos dias, e assim ficavam todos amigos. E se o matador fugia, de sorte que o não podiam haver às mãos, lhe tomavam um filho ou filha, e se os não tinha, um irmão; e se nem este havia, entregavam pelo matador o parente mais chegado, ao qual não matavam, mas ficava por cativo do parente também mais chegado do morto. [...]" (³)
Sem testemunhos escritos dos próprios indígenas, apenas podemos conjecturar que a lei de talião, que não conheciam por esse nome, mas que reconheciam na prática, era corrente entre ameríndios do Brasil, se os autores dos dias coloniais estiverem corretos. Contudo, o fato de ser mencionada por vários escritores acrescenta certo peso à informação. Assumindo que este seja o caso, cumpre observar que, malgrado a aparência de crueldade, a retribuição na medida da ofensa tinha dupla função, ou seja, impedia, com uma punição que não ia além da proporção do crime, a sequência perpétua de rancores e vinganças à moda da Verona shakespeariana, e assegurava a manutenção da paz dentro da tribo. Não era pouco. Quanto ao Guarani, de Alencar, fez tanto sucesso que acabou virando ópera, Il Guarany, com música de Antônio Carlos Gomes sobre libreto de Antônio Scalvini.

(1) À literatura é dada licença no terreno ficcional; quanto à história, isso jamais deveria ocorrer
(2) Veio ao Brasil como um jovem artesão, para viver e trabalhar na chamada França Antártica. Posteriormente, retornou à Europa, onde, depois de estudar em Genebra, veio a ser pastor protestante.
(3) JABOATÃO, Antônio de Santa Maria O.F.M. Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Crônica dos Frades Menores da Província do Brasil  Volume 1. Rio de Janeiro: Typ. Brasiliense, 1858, p. 22.


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quinta-feira, 4 de abril de 2019

A hora de dormir em uma aldeia indígena

O dia podia ser muito ocupado: preparo da mandioca, caça e pesca, cuidado das crianças, confecção de cerâmica, redes e cestos. Mas entardecia e, com o escurecer, as muitas ocupações geralmente iam chegando ao fim. À noite, ao redor de uma grande fogueira sob a luz das estrelas, os homens conversavam, contavam histórias, faziam planos para o futuro. Então, vinha a hora de dormir. Ninguém é de ferro. 
Índios puris usando rede para dormir (³)
Frei Vicente do Salvador, que viveu entre a segunda metade do Século XVI e a primeira do XVII, descreveu assim o interior de uma habitação coletiva de indígenas, durante as horas da noite: 
"A noite toda têm fogo para se aquentarem, porque dormem em redes ao ar, e não têm cobertores nem vestido, mas dormem nus, marido e mulher na mesma rede, cada um com os pés para a cabeça do outro, exceto os principais (¹), que como têm muitas mulheres dormem sós nas suas redes, e dali quando querem se vão deitar com a que lhes parece, sem se pejarem de que os vejam." (²)
Esteira de buriti usada para dormir,
etnia kayapó (⁵)
Interessante como é, este relato não dá conta da variedade de preferências quanto ao modo de dormir existente entre os povos indígenas. Para muitos, a rede era obrigatória, mas os casais dormiam em redes separadas, ficando sempre a da mulher abaixo da do homem, porque competia a ela manter acesa a pequena fogueira que os aquecia. Francisco Bernardino de Sousa, autor do Século XIX, explicou que a etnia tapuia-ereté tinha outros hábitos: "Em vez de redes ou de peles de animais, que servem de leito à maior parte dos índios das tribos conhecidas, repousam estes dentro de uma espécie de balaio comprido." (⁴)
A fogueira, porém, era indispensável para a maioria dos indígenas. Por quê?
Havia pelo menos três razões: para aquecer (já que, mesmo no verão, as noites podem ser frias dentro de uma floresta), para espantar os insetos e, finalmente, para afastar as onças e outros animais. Quem iria dormir em paz se soubesse que, a qualquer momento, poderia acordar com o bafo de um grande felino por perto?

(1) Referia-se aos chefes indígenas.
(2) Acredita-se que o manuscrito da História do Brasil de frei Vicente do Salvador estivesse concluído por volta de 1627.
(3) _______ Bilder-Atlas Siebenter Band. Leipzig: F. A. Brockhaus. 
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) SOUSA, Francisco Bernardino de. Lembranças e Curiosidades do Vale do Amazonas. Belém do Pará: Typ. do Futuro, 1873, p. 128.
(5) Esta esteira pertence ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF).


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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Os indígenas do Brasil e o hábito dos banhos frequentes

Crianças indígenas não faziam birra na hora do banho. Habituadas, desde muito pequenas, ao prazer do mergulho na água de um rio, dispensavam qualquer ordem peremptória do pai ou da mãe para que se banhassem. Explicou o jesuíta Fernão Cardim, que percorreu parte considerável do Brasil na penúltima década do Século XVI:
"[Os indígenas], andando caminho, suados, se botam aos rios, os homens, mulheres e meninos, em se levantando se vão lavar e nadar aos rios, por mais frio que faça; as mulheres nadam e remam como homens, e quando parem algumas se vão lavar aos rios." (¹)
Outro que notou o gosto ameríndio pelos banhos foi Yves d'Évreux, capuchinho francês que esteve no Maranhão entre 1613 e 1614. É dele este relato:
"Têm [os índios] muito cuidado na limpeza de seus corpos: lavam-se muitas vezes, e não se passa um só dia, em que não deitem muita água sobre si, em que se não esfreguem com as mãos por todos os lados para tirar o pó e outras imundícies." (²)
Por que os banhos frequentes dos indígenas surpreendiam colonizadores? Seria, talvez, porque, vindo de climas frios, não tinham o mesmo costume? Franceses que tentaram estabelecer uma colônia no Rio de Janeiro insistiram com as índias, inutilmente, para que usassem roupas. É que o vestir-se e despir-se, levando em conta os trajes europeus que lhes queriam impor, tomava tempo demais e era um desagradável empecilho à espontaneidade dos banhos. Jean de Léry, que viveu na França Antártica e, mais tarde, escreveu um livro (³), referiu que, para refrescar-se, ele e outros franceses que estavam no Brasil em 1557 haviam tomado banho no dia de Natal. A ideia era explicar a seus compatriotas que, no Hemisfério Sul, as estações eram inversas às do Hemisfério Norte. Portanto, em lugar de neve, havia o mais esplêndido sol em dezembro. Com o passar do tempo, europeus que vieram viver no Brasil e seus descendentes foram tomando gosto pelo que era, a princípio, um costume indígena, de modo que os banhos frequentes se tornaram um hábito também para a maioria dos brasileiros.

(1) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 41 e 42.
(2) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 96.
(3) Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil


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terça-feira, 6 de junho de 2017

Uma comparação entre europeus e indígenas, de acordo com Jean de Léry

"Nasceram mais livres que nós, senhores absolutos das terras em que Deus os pôs..."
Padre Antônio Vieira, em carta de 5 de agosto de 1684

Quando fazemos alguma viagem, procuramos ter, com antecedência, o máximo de informações sobre o local de destino. Consultamos sites, olhamos fotos e vídeos, recorremos a mapas, se necessário. E, é bom que se diga, tudo isso hoje é muito fácil, em quase qualquer lugar do mundo. Mas nem sempre foi assim.
No Século XVI, quando um europeu resolvia correr o risco de uma viagem marítima para fora de seu Continente, dificilmente sabia o que é que haveria de encontrar. Os mapas eram imprecisos e mesmo navegadores experientes tinham problemas em determinar com exatidão o lugar em que se encontravam. Tudo o que havia ao redor era a água do mar e, muito longe, o céu estrelado. Ah, naturalmente quando as estrelas, incluindo o sol, eram visíveis. Caso contrário, os problemas eram muito maiores.
Jean de Léry era ainda bastante jovem quando atravessou o Atlântico e, mergulhado em ideais religiosos, veio viver por quase um ano na França Antártica, uma colônia que calvinistas franceses tentaram em vão estabelecer na América do Sul, em área do atual Estado do Rio de Janeiro. Como os franceses tinham um bom relacionamento com os índios tupinambás, Léry pôde observar tranquilamente como é que esses nativos viviam. E as comparações vieram, inevitáveis. Foram, mais tarde, expostas em um livro, Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil
Notou, logo de início, que os indígenas não eram nem mais altos e nem mais pesados que os europeus; não obstante, eram muito mais fortes. Por quê? Léry responsabilizou o clima do Brasil, que não tinha extremos de frio e calor, e o ar que, segundo ele, era puríssimo (¹). A diferença era tanta que um europeu jamais seria capaz de usar um arco indígena, e isso valia até mesmo para os ingleses, que eram considerados os melhores arqueiros da época - percebam, leitores, que era um francês quem estava dizendo... Europeus somente estavam em condições de usar arcos indígenas feitos para meninos de uns dez anos de idade, não mais. Espantosa, também, era a velocidade com que um tupinambá atirava. No tempo necessário para que um inglês disparasse meia dúzia de flechas, um índio faria o dobro. 
Mas não era só. Andando por aldeias indígenas, Jean de Léry percebeu que o modo como as mães cuidavam de seus bebês era, por assim dizer, o oposto do que de se praticava na Europa. Crianças europeias viviam, no verão e no inverno, enfaixadas e cobertas por montes de agasalhos, e, mesmo admitindo as especificidades relativas ao clima frio, não podia o francês deixar de admirar que os bebês indígenas vivessem livres. Embora não usassem fraldas, nunca estavam sujos. Sim, aprendiam a gostar de banhos desde pequenos.
Prevendo que seus leitores não tardariam a argumentar que, mesmo levando vantagem nesses aspectos, os indígenas viviam em plena selvageria, Léry, longe de fugir da questão, tratou de expor o assunto. Não havia como negar que as guerras entre nativos eram sangrentas, que a antropofagia não era nenhuma raridade, que as inimizades entre tribos eram quase perpétuas. Um horror! Que diria Léry?
O jovem artesão francês, depois de deixar o Brasil em 1558, retornou à Europa, participou de guerras por causa de questões religiosas e, mais tarde, indo a Genebra, estudou teologia e veio a ser um pastor protestante. Só aí é que escreveu seu livro, e tinha, então, uma resposta na ponta da língua para as invectivas quanto à selvageria dos indígenas. Não estariam os europeus de seu tempo em pé de igualdade nesse assunto? Não eram os pobres, mesmo quando padeciam de fome, explorados pelos ricos? Não havia tantos que, mesmo orgulhosos de se chamarem cristãos, se engalfinhavam em guerras monstruosas, tendo a defesa da religião por pretexto? Que dizer do Massacre de São Bartolomeu? 
O recado de Léry era simples: Se alguém queria ver selvageria, não era preciso sair da Europa. E concluía dizendo que, não fora o que chamava de "traição de Villegaignon", o Brasil teria sido seu lar para sempre.

Indígenas treinando para o combate (²)

(1) Bons tempos, aqueles...
(2) ___________ Bilder - Atlas, Siebenter Band. Leipzig: F. A. Brockhaus.


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terça-feira, 30 de maio de 2017

Incêndios durante a estiagem

Incêndio no cerrado

Vejam, leitores, estes versos de A Confederação dos Tamoios:

"Era o tempo em que o sol abrasa tudo,
Em que as secas florestas se incendeiam,
E se extinguem as águas das torrentes."

De saída, cabe um reparo: a obra citada de Gonçalves de Magalhães (da chamada Primeira Geração Romântica) supõe descrever a natureza do Brasil no território em que viviam os tamoios. Pois digo que a descrição está errada. Os tamoios viviam principalmente em terras dos atuais Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, áreas cuja vegetação nativa é a Mata Atlântica. Não tem cabimento, portanto, a descrição contida nos versos. Ela se aplicaria, com toda correção, ao que sucede no cerrado durante a estiagem. Na Mata Atlântica, mesmo na estação em que as chuvas são menos frequentes, a vegetação jamais perde o verde, embora a ocorrência de incêndios seja sempre uma possibilidade. Sabe-se, porém, que os tamoios, assim como outros povos indígenas, costumavam atear fogo, intencionalmente, a qualquer área na qual pretendessem fazer algum tipo de cultivo, um costume explicável por não disporem de ferramentas adequadas à derrubada de árvores.
Bombeiros apagando incêndio em uma área
de cerrado em Brasília (ao fundo,
a Esplanada dos Ministérios)
Já no caso do cerrado, incêndios ocasionais são até benéficos e garantem a sobrevivência do bioma - há sementes que só germinam depois do fogo. Basta um raio, e as chamas proliferam. A questão é que, com a presença crescente de bípedes humanoides sem nenhum respeito pelo ambiente, o inferno, que era eventual, tornou-se corriqueiro. Gente descuidada e descumpridora das leis atira pontas de cigarro à beira das estradas (¹), e, não mais que alguns minutos mais tarde, o incêndio se alastra, por estar a vegetação brutalmente ressequida em razão da estiagem prolongada. Com o crescimento dos núcleos urbanos, o problema é gravíssimo, já que as chamas, por vezes, chegam muito perto das cidades. Exageradamente perto.
No Século XIX, quando a Expedição Langsdorff percorria parte do Brasil Central, Hércules Florence notou que as queimadas em áreas de cerrado eram usadas deliberadamente, na suposição de que facilitariam a prática da agricultura e/ou favoreceriam o desenvolvimento das pastagens. O desenhista francês conjecturou, com acerto, que cedo ou tarde a natureza acabaria por cobrar o preço dos repetidos incêndios:
"De pronto não nos era fácil adivinhar a razão por que todos os troncos e ramos das tortuosas árvores desses cerrados negrejavam como azeviche e o capim resplendia de verde tão uniforme. É que o fogo por ali passara e que tudo ressurgia simultaneamente; devendo esse hábito do caipira, que sem trabalho quer todos os anos renovar as pastagens para seu gado, produzir a esterilidade dessas belas regiões, caso não repare cultura mais inteligente tantos e tão seguidos estragos." (²)
É fácil constatar que, na primeira metade do Século XIX, os danos ambientais provocados pelas queimadas recorrentes não eram ainda compreendidos, em particular entre a população que vivia, no interior do Brasil, à margem de qualquer progresso científico. Muito estranho, porém, é que em nosso tempo, quando somos quase soterrados por informação (em quantidade e qualidade), ainda haja quem pense ser aceitável atear fogo à vegetação, da maneira mais inconsequente, seja lá pelo motivo que for.

O cerrado renasce após um incêndio - fotografia infravermelha

(1) Pior que isso: o incêndio é, às vezes, deliberado.
(2) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 160.


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terça-feira, 2 de maio de 2017

Casamentos indígenas (na visão de colonizadores europeus)

De acordo com Gabriel Soares, que foi autor, colonizador e senhor de engenho do Século XVI, o casamento entre indígenas (¹) não era usualmente assinalado por grandes cerimônias: "Não têm em seus casamentos outra cerimônia mais que dar o pai a filha a seu genro, e como têm ajuntamento natural, ficam casados" (²). A poligamia não era incomum, principalmente no caso dos grandes chefes. Cada homem e mulher tinha, na habitação coletiva, sua própria rede de dormir e, supondo a curiosidade que há de passar pela cabeça dos leitores, já vai aqui a resposta à questão que imaginaram: "Quando o marido se quer ajuntar com qualquer delas [suas mulheres], vai-se lançar com ela na rede, onde se detém só aquele espaço deste contentamento [...]." (³)
Adiante, leitores! 
Para a maioria dos autores dos tempos coloniais, indígenas casados pareciam viver muito bem, sendo raro, entre eles, algum desentendimento. Não obstante, há frequentes menções ao fato de que, em uma aldeia indígena, as mulheres faziam quase todo o trabalho, enquanto os homens, ocupados com a caça e a pesca, viam nessas atividades quase um lazer, e não uma obrigação para a subsistência. (⁴)
Hércules Florence, desenhista francês que andou pelo interior do Brasil com a Expedição Langsdorff, afirmou em 1827 que mulheres indígenas preferiam o trabalho nas fazendas à vida na aldeia de origem: "Mais facilmente acostumam-se as mulheres [indígenas] nas fazendas, porque em sua tribo são escravas e infelizes." (⁵) E, ao descrever o desenho que fizera de uma índia bororo, explicou que, quando a tribo ia de um lugar para outro, era às mulheres que competia levar toda a carga:
"Carrega às costas um fardo, que posto em terra era da altura dela. Esse fardo compõe-se de esteiras, couros, peles enroladas e jacás cheios de vários objetos (⁶), peso enorme para essas infelizes mulheres que são os animais de carga daqueles índios. Tudo aquilo é amarrado com embiras e suspenso por uma faixa mais larga que lhes passa pela cabeça, acima da testa, o que as obriga a abaixarem o pescoço e a fronte, e a curvarem o corpo para diante.
Com tal carga, levam por cima uma criança escanchada nos ombros e um cãozinho. Ainda não é tudo, pois quando os maridos matam um porco-do-mato ou qualquer outra caça, metem-no num dos jacás que elas trazem às costas." (⁷)
Alguém poderá conjecturar que esse tratamento desumano para com as mulheres seria fruto da desestrutura social provocada pela colonização - afinal, as observações de Hércules Florence foram feitas no Século XIX, em ocasião um pouco posterior à Independência. Entretanto, o capuchinho francês Yves d'Évreux, que esteve no Maranhão entre 1613 e 1614, observou algo muito semelhante entre indígenas daquela área (⁸):
"[A mulher indígena] acompanha seu marido carregando na cabeça e às costas todos os utensílios necessários ao preparo da comida, às vezes a própria comida, ou os víveres necessários à jornada, como fazem os burros de carga com a bagagem e alimentação dos seus senhores." (⁹)
É óbvio que esses registros (de Florence e d'Évreux) não cobrem, nem de longe, a totalidade dos povos indígenas do Brasil. São casos específicos, mas parecem mostrar, ainda que em âmbito restrito, o que acontecia dentro dos grupos observados. Há quem argumente que os homens indígenas caminhavam livres de carga porque deviam estar prontos para a defesa do grupo.
Bem, já que falamos no padre d'Évreux, vamos a um incidente que prova que toda regra tem exceção, ao menos quanto às frequentes afirmações de que casais indígenas costumavam viver em paz. Às vezes, porém... Vejamos o que escreveu o capuchinho francês, testemunha ocular de um espetáculo digno de gladiadores da antiga Roma:
"Enquanto aí morei, aconteceu aborrecer-se um selvagem do mau gênio de sua mulher, a ponto de empunhar com a mão direita um cacete, e na esquerda segurar os cabelos dela, querendo experimentar se este óleo e bálsamo adoçaria o azedume de seu mal, porém admirou-se de ver, que caindo o fogo na chaga mais o aumentasse, porque podendo escapar-se de suas mãos, à vista dos vizinhos, tomou também ela outro cacete, quis fazer o mesmo ao marido, e depois de se haverem espancado reciprocamente com grande aplauso de todos [sic!!!], ficaram ambos em igualdade de circunstâncias frente a frente um do outro, sendo depois o marido a fábula e o assunto de todas as conversas, quer dos grandes, quer dos pequenos." (¹⁰)
Entendo, leitores, que podemos ficar por aqui, pois já temos asteriscos demais. O incidente não carece de maiores considerações...

(1) Neste caso, em particular, Gabriel Soares falava dos tupinambás.
(2) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 311.
(3) Ibid.
(4) Ver, sobre essa questão, o que escreveu Jean de Léry no Século XVI, relativamente aos tupinambás, em Histoire d'un Voyage Faict en la Terre du Brésil.
(5) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 180.
(6) A descrição fornece uma ideia do que eram os pertences usuais nesse grupo indígena.
(7) FLORENCE, Hércules. Op. cit., p. 182.
(8) D'Évreux parece falar dos indígenas em geral, que conheceu no Maranhão, e não de algum grupo específico.
(9) D'ÉVREUX, Yves. Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614. Maranhão: Typ. do Frias, 1874, p. 81.
(10) Ibid., p. 91.


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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Crianças indígenas (na visão dos colonizadores)

Colonização e catequese trouxeram mudanças significativas ao modo como viviam os povos indígenas da América. Estrutura familiar, práticas de sociabilidade e valores foram afetados, de modo que, em não poucos casos, fica difícil saber quais eram os costumes originais, até porque quase tudo o que conhecemos sobre os ameríndios, com os quais europeus travaram contato desde fins do Século XV e ao longo do Século XVI, vem de relatos dos próprios colonizadores, que expunham em seus escritos o modo como interpretavam o que viam, e não necessariamente aquilo que, de fato, acontecia.
A mais antiga referência conhecida a uma criança nativa do Brasil está na Carta do "Achamento", escrita por Pero Vaz de Caminha, que, como se sabe, integrava a expedição comandada por Pedro Álvares Cabral, expedição essa que, ao menos oficialmente, era destinada às Índias, onde se esperava que estabelecesse vínculos comerciais mais fortes que os alcançados pela esquadra de Vasco da Gama. Após pisar em terra e travar contato com indígenas, Caminha observou: "Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum."
Embora a imagem seja de quase cento e cinquenta anos após o Descobrimento, o que Caminha deve ter visto seria mais ou menos o que encontramos na Figura 1, que aparece em Historia naturalis Brasiliae, publicada na Holanda em 1648 (¹); uma imagem alternativa, na qual o bebê indígena é mostrado dentro de um cesto, pode ser encontrada em Gedenkweerdige Brasiliaense Zee- en Lant-Reise und Zee- en Lant-Reize door verscheide Gewesten van Oostindien, de Nieuhof, publicação também holandesa, datada de 1682 (²), conforme a Figura 2:


Como já disse, não podemos ter certeza absoluta de que tudo o que diziam os colonizadores e missionários estava correto, mas, se dermos crédito ao que escreveram ao longo do Século XVI, os meninos e meninas indígenas deviam ser muito mais felizes que as crianças europeias da mesma idade, submetidas, tradicionalmente, a uma educação severa, tanto por parte dos pais quanto dos professores. Segundo Gabriel Soares, os tupinambás eram bastante gentis no trato com seus filhos:
"Não dão os tupinambás a seus filhos nenhum castigo, nem os doutrinam, nem os repreendem por coisa que façam; aos machos ensinam-nos a atirar com arcos e flechas ao alvo, e depois aos pássaros, e trazem-nos sempre às costas até a idade de sete e oito anos, e o mesmo às fêmeas; e uns e outros mamam na mãe até que torna a parir outra vez, pelo que mamam muitas vezes seis e sete anos; às fêmeas ensinam as mães a enfeitar-se, como fazem as portuguesas, e a fiar algodão, e a fazer o mais serviço de suas casas conforme é seu costume." (³)
Sem ilusões, leitores: a educação, salvo raríssimas exceções, tende a reproduzir na geração mais jovem aquilo que a geração adulta considera certo ou errado. Qualquer coisa fora disso escaparia, com absoluta certeza, à regra que encontramos, sob inúmeras versões, por todo este planeta. Mas vamos adiante, com as impressões do missionário jesuíta Fernão Cardim, contemporâneo de Gabriel Soares:
"Os pais [indígenas] não têm coisa que mais amem que os filhos [...]; nenhum gênero de castigo têm para os filhos, nem há pai nem mãe que em toda a vida castigue nem toque em filho [...]; em pequenos são obedientíssimos a seus pais e mães, e todos muito amáveis e aprazíveis: têm muitos jogos a seu modo, que fazem com muito mais festa e alegria que os meninos portugueses; nestes jogos arremedam vários pássaros, cobras e outros animais, etc.; os jogos são mui graciosos e desenfadiços, nem há entre eles desavença, nem queixumes, pelejas, nem se ouvem pulhas ou nomes ruins e desonestos [...]." (⁴) Sim, leitores, caberiam aqui uns quantos pontos de exclamação!!!
Não há como saber se tudo era assim, ou se Soares e Cardim exageravam. Cabe muito bem a observação, todavia, de que, como jesuíta que era, Fernão Cardim estava habituado a viver entre os índios, e devia saber do que falava. Assumindo, portanto, em linhas gerais, a veracidade de seu relato, teríamos um bom motivo para concordar com os que diziam que na América estava o verdadeiro paraíso terrestre - não em todos os aspectos, claro, mas quanto ao comportamento das crianças.

(1) PISO/PIES, Willen et MARKGRAF, Georg. Historia naturalis Brasiliae. Amsterdam: Ioannes de Laet, 1648, p. 270.
(2) NIEUHOF, Johan. Gedenkweerdige Brasiliaense Zee- en Lant-Reise und Zee- en Lant-Reize door verscheide Gewesten van Oostindien. Amsterdam: de Weduwe van Jacob van Meurs, 1682, p. 224.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 314.
(4) CARDIM, Pe. Fernão, S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 40 e 41.


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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Costumes indígenas adotados por missionários jesuítas no Brasil

Se é verdade que a catequese  de indígenas (por jesuítas, principalmente, mas não só) representou o fim de algumas tradições da cultura nativa, também é verdade que, para uma adaptação ao Brasil, os religiosos precisaram adotar muitos dos hábitos e costumes dos "brasis", como então se dizia. Em sentido amplo, viver no Brasil, no Século XVI, e mesmo no XVII, pressupunha, em vários aspectos, viver como os índios. De outro modo, a sobrevivência seria quase inviável.

O costume de dormir em redes


Indígena do Brasil dormindo
em uma rede (¹)
Muito do que sabemos sobre o modo de vida dos missionários nesses primeiros tempos de colonização e catequese vem das cartas escritas por José de Anchieta. Em uma delas, redigida em Piratininga no ano de 1554, explicava que os padres da Companhia de Jesus que viviam na Capitania do Espírito Santo haviam adotado o costume indígena de dormir em redes, ficando as camas relegadas apenas aos doentes:
"Em lugar de cama, usa a máxima parte dos Irmãos de uns panos tecidos à maneira de rede, suspensos por duas cordas e traves; todavia, os que padecem de enfermidade de corpo por algum tempo, usam de camas como em Portugal." (²)
Como se sabe, a maioria dos indígenas do Brasil dormia em redes, cuja confecção variava conforme as tradições tribais. Era um modo conveniente de dormir, ao menos para os ameríndios nômades ou seminômades.

Hábitos alimentares aprendidos com indígenas


Em uma outra carta, Anchieta descreveu alguns detalhes da alimentação de que dispunham, revelando que, sob esse aspecto, já tinham aprendido bastante com seus catecúmenos:
"O principal alimento nesta terra é a farinha de pau, feita de umas certas raízes que se plantam (a quem chamam mandioca) [...]; isso substitui entre nós  a farinha de trigo. Constituem outra parte da alimentação as carnes selváticas, como sejam os macacos, as corças, certos outros animais semelhantes aos lagartos (³), os pardais, e outras feras; também os peixes dos rios, mas esses raramente. A parte mais importante, porém, do sustento consiste em legumes e favas, em abóboras e outras que a terra produz, em folhas de mostarda e outras ervas cozidas; usamos, em lugar de vinho, de milho cozido em água, a que se ajunta mel, de que há abundância; é assim que sempre bebemos as tisanas ou remédios; e se isto temos com fartura quase que não nos parecemos a nós mesmos pobres." (⁴)

Vestuário leve e ausência de calçados


Em um documento que se supõe escrito também por Anchieta, diz-se que, no Brasil, em razão do clima, era comum que as pessoas não usassem muita roupa - não estava falando dos índios, naturalmente, que isso já é outra história. O caso é que os jesuítas, seguindo a "moda da terra", também não tinham grandes preocupações com vestuário:
"Os nossos Padres e Irmãos vestem e calçam propriamente como em Portugal dos mesmos panos que lá, mas faltam-lhes muitas vezes, mas não se amofinam, porque a terra não pede muita roupa e quanto mais leve e velha tanto é melhor e folgam com ela; e o andarem descalços é uso da terra e não lhes dá tanta pena e trabalho como se fora na Europa [...]." (⁵)

Um exemplo de adaptação ao modo de vida dos ameríndios


É ainda da pena de Anchieta, ao traçar a biografia do Padre Gregório Serrão, que nos chega um exemplo de como vivia um missionário jesuíta que, ao empreender a catequese, estava disposto, se necessário, a abrir mão dos costumes de sua cultura de origem, adotando os hábitos e tradições vigentes entre os nativos da América:
"Residiu em uma aldeia muito tempo, que se ajuntou duas léguas de Piratininga com o Irmão Manuel de Chaves, aprendendo ali a língua e ensinando os meninos da escola, passando muito frio e fome. Pela muita pobreza que então havia de mantimento e vestido, nunca trouxe mais naquele tempo que a roupeta (⁶) velha sobre camisa e ceroulas, dormindo em uma rede, tendo o fogo por cobertor." (⁷) 
Chega a ser surpreendente que Anchieta, capaz como era, até por divertimento, de escrever cartas inteiras usando apenas trechos da Bíblia, tenha resistido aqui à tentação de citar o apóstolo que viveu e trabalhou no mundo greco-romano do Primeiro Século, quando afirmou: "omnibus omnia factus sum ut omnes facerem salvos..." (⁸)

(1) ________ Bilder - Atlas, Siebenter Band. Leipzig: F. A. Brockhaus. 
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 37.
(3) Levando em conta outras referências na obra de Anchieta, é possível que falasse dos jacarés.
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., pp. 43 e 44.
(5) Ibid., pp. 426 e 427.
(6) Hábito tradicional dos religiosos jesuítas.
(7) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., p. 490.
(8) Epistula ad Corinthios I, IX, 22 ("Fui de tudo e de todos, para com modos diversos conseguir salvar alguns"). 


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