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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Por que jabutis eram considerados peixes no Brasil Colonial

Nos tempos coloniais, prescrições religiosas obrigavam à abstinência de carne em um número elevado de dias. Como as regras de jejum eram severamente observadas (ao menos nas aparências), era usual, havendo peixe, que esse servisse como alimento. Vegetais eram permitidos, mas, em muitos lugares, o principal alimento nos "dias de peixe" era a farinha de mandioca.
Contudo, em algumas áreas, uma saída engenhosa foi encontrada para contornar a regra da abstinência de carne. O jesuíta José de Moraes, que escreveu a História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará, publicada originalmente em 1759, explicou, citando um relato do padre Antônio Vieira (¹), também jesuíta:
"Nascem estes jabutis e vivem sempre na terra, sem nunca entrarem no mar, nem nos rios, e contudo estão julgados por peixe, e como tais se comem nos dias em que se proíbe a carne, por se ter averiguado que têm o sangue frio. [...]." (²)
De fato, jabutis são pecilotérmicos. Daí a se tornarem peixes, vai uma grande distância. Fundamentos de zoologia, porém, não estavam em questão, quando o assunto era burlar a abstinência de carne. Lamentável para os jabutis, é claro.

(1) Famoso por seus sermões, Vieira é conhecido dos estudantes brasileiros que têm contato com sua obra nas aulas de Literatura (espero que ainda seja assim!).
(2) MORAES, José de S.J. História da Companhia de Jesus na Extinta Província do Maranhão e Pará. Rio de Janeiro: Typographia do Commercio, 1860, p. 460.


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terça-feira, 11 de abril de 2017

O Colégio de São Paulo e o início da catequese de indígenas no Brasil

De acordo com José de Anchieta, o primeiro colégio dos jesuítas em São Paulo, aquele de 1554, era muito pequeno:
"Assim, alguns dos irmãos mandados para esta aldeia, que se chama Piratininga, chegamos a 25 de janeiro do ano do Senhor de 1554, e celebramos em paupérrima e estreitíssima casinha a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos a nossa casa." (¹)
Este relato aparece em uma carta escrita na própria Casa de São Paulo, provavelmente no final de setembro de 1554. Nesse mesmo documento, Anchieta forneceu outras informações sobre o lugar em que viviam:
"De janeiro até o presente tempo permanecemos, algumas vezes mais de vinte, em uma pobre casinha feita de barro e paus, coberta de palhas, tendo quatorze passos de comprimento e apenas dez de largura, onde estão ao mesmo tempo a escola, a enfermaria, o dormitório, o refeitório, a cozinha, a despensa; todavia, não invejamos as espaçosas habitações de que gozam em outras partes os nossos irmãos, pois N. S. Jesus Cristo se colocou em mais estreito lugar, e dignou-se nascer em pobre manjedoura, entre dois brutos animais, e morrer em altíssima cruz por nós." (²)
Por que a primitiva construção ocupada por jesuítas em São Paulo era tão pequena? Southey, em sua História do Brasil, argumentou, com acerto, que não era por falta de espaço para construir, mas errou ao supor que os missionários viviam assim como forma de proteção contra o frio. Ora, leitores, o Colégio de São Paulo foi fundado em janeiro de 1554 - portanto, em pleno verão - não havendo o menor sentido em acreditar que a mísera construção em que foi celebrada a primeira missa era para garantir que nenhum jesuíta ou indígena morresse congelado. Basta continuar a leitura da carta de Anchieta para compreender o que acontecia:
"Os índios por si mesmos edificaram para nosso uso esta casa; mandamos agora fazer outra algum tanto maior, cujos arquitetos seremos nós, com o suor do nosso rosto e o auxílio dos índios." (³)
Então, tudo se explica: o local da primeira missa, oficiada pelo padre Manuel de Paiva, foi erguido às pressas, para dar início ao trabalho de catequese na aldeiazinha de Piratininga; assim que as circunstâncias permitiram, fez-se nova construção. 
A partir de um documento datado de 1584, cuja redação também é atribuída a Anchieta, entende-se que, a princípio, a ideia era estabelecer um colégio para catecúmenos em São Vicente. Todavia, Manuel da Nóbrega julgou apropriado mudar a localização porque em Piratininga havia maior fartura de alimentos. 
Assim nasceram a cidade e o colégio de São Paulo, um por causa do outro. Como casa de jesuítas, não foi a primeira fundada em terras portuguesas na América, já que, nesse aspecto, a Cidade da Bahia (Salvador), como sede do Governo-Geral, teve a prioridade; mas, conforme o citado documento de 1584, foi em São Paulo de Piratininga que "se começou de propósito a conversão do Brasil, sendo esta a primeira igreja que se fez entre o gentio (⁴)." (⁵) 

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 38.
(2) Ibid., p. 43.
(3) Ibid.
(4) O termo "gentio" era usado como sinônimo de indígena não catequizado.
(5) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Op. cit., p. 321.


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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Quem foi João Ramalho

Se existe uma personagem do primeiro século da colonização sobre quem pairam dúvidas, essa é, certamente, João Ramalho. Já foi descrito como condenado a degredo, como náufrago, até como fugitivo. É fato, porém, que, em 1532, quando Martim Afonso de Sousa fundou São Vicente, já esse homem vivia há tempos no Brasil e, perfeitamente adaptado ao modo de vida dos indígenas, entre eles constituíra família numerosa. 
Frei Gaspar da Madre de Deus faz um relato pitoresco do encontro de João Ramalho com a gente de Martim Afonso: Índios que andavam à pesca veem chegar a esquadra portuguesa, correm à procura de um esconderijo e observam, pasmados, o ritual de fundação de São Vicente. A toda pressa percorrem o brutal Caminho do Mar, indo dar a notícia a Tibiriçá, seu chefe, que, de imediato, convoca as tribos aliadas para fazer guerra e expulsar os invasores. É aí que entra em cena João Ramalho:
"Perto de Tibiriçá morava João Ramalho, aquele português que aqui chegara muitos anos antes; ele fazia vida marital com uma filha do régulo [o cacique Tibiriçá], e este lhe participou sem demora a notícia que acabava de receber. Ouviu-a Ramalho com alvoroço grande, porque logo assentou que a esquadra era de portugueses [...]. Firme nesta opinião, e desejoso de evitar a guerra que se dispunha contra os brancos, solicitou o socorro, onde os bárbaros [sic] buscavam o aumento das suas forças. Depois de persuadir o sogro de que os forasteiros eram seus nacionais [...], propôs-lhe grandes conveniências que poderiam resultar de receber benigno aos hóspedes desconhecidos [...]." (¹)
O mesmo autor assevera que, ao terceiro dia, a contar do desembarque de Martim Afonso, é que João Ramalho e Tibiriçá, à frente de quinhentos índios flecheiros, chegaram ao lugar em que estavam os portugueses:
"Apresentou-se Ramalho ao capitão-mor, narrou-lhe os sucessos passados da sua vida e assegurou-lhe que, a instâncias suas, vinha o senhor da terra [Tibiriçá] a defendê-los com os índios que ali via." (²)
Percebam, leitores, que, para frei Gaspar da Madre de Deus, beneditino, nascido em São Vicente no começo do Século XVIII, o encontro de João Ramalho e Martim Afonso foi amigável e oportuno, porque teria impedido que os povos indígenas da região se pusessem em armas contra os recém-chegados lusitanos. Seu registro deve refletir, até certo ponto, as lembranças do acontecimento que sobreviveram por muitos anos. 
A Nobiliarchia Paulistana (também de um autor do Século XVIII, Pedro Taques de Almeida Paes Leme), faz referência a João Ramalho, embora incorra em um erro evidente, conforme já veremos:
"[...] João Ramalho, o progenitor de muitas famílias de São Paulo, que foi o fundador da povoação de Santo André da Borda do Campo, que se aclamou vila em 8 de abril de 1553, sendo então o dito Ramalho guarda-mor e alcaide-mor do campo, e tinha o foro de cavaleiro [...]. Este João Ramalho veio de Portugal (era natural de Barcelos, comarca de Viseu), na companhia de Martim Afonso de Sousa, no fim do ano de 1530 [...]."
Ora, não é possível que João Ramalho viesse com Martim Afonso e, ao mesmo tempo, fosse recebê-lo em companhia de algumas centenas de índios! Ao que se sabe, porém, João Ramalho foi mesmo o fundador de Santo André da Borda do Campo, uma povoação que, por enfrentar dificuldades para a defesa contra ataques dos tamoios, acabou desaparecendo. Seus moradores receberam ordem para ir viver em São Paulo de Piratininga. 
Então, problemas à vista!...
O ponto mais controvertido a respeito do português que vivia como índio está relacionado às suas divergências com os jesuítas, mandados a São Vicente para catequizar indígenas. Para perfeita clareza, é preciso dizer que os missionários detestavam João Ramalho (sendo o inverso, ao que parece, igualmente verdade), a quem consideravam um inimigo da doutrinação dos povos indígenas e um perfeito mau exemplo. Basta ver o que disse Anchieta, em uma carta escrita em São Paulo de Piratininga no ano de 1554:
"[...] Uns certos cristãos, nascidos de pai português e de mãe brasílica, que estão distantes de nós nove milhas, em uma povoação de portugueses, não cessam, juntamente com seu pai, de empregar contínuos esforços para derrubar a obra que, ajudando-nos a graça de Deus, trabalhamos por edificar, persuadindo aos próprios catecúmenos com assíduos e nefandos conselhos para que se apartem de nós [...], e não deem o menor crédito a nós, que para aqui fomos mandados por causa da nossa perversidade. Com estas e outras semelhantes, fazem que uns não acreditem na pregação da palavra de Deus, e outros, que já víamos entrarem para o aprisco de Cristo, voltem aos antigos costumes, e fujam de nós para que possam mais livremente viver." (³)
"Para que possam mais livremente viver" - interessante essa observação, não é mesmo, meus leitores? Vejam que nenhum nome é mencionado, mas a situação, bem conhecida, indica que a família causadora de problemas era mesmo a de João Ramalho. Um fator importante, nesse caso, é que Anchieta foi um contemporâneo de João Ramalho e, pelo visto, conhecia muito bem o sujeito. Se, no entanto, restar alguma dúvida quanto à identidade do "pai português", temos o recurso aos registros do padre Simão de Vasconcelos, que, valendo-se da documentação escrita de que sua Ordem dispunha, bem como de testemunhos orais, escreveu, no Século XVII, a Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, na qual encontramos:
"Havia em São Vicente um João Ramalho, homem por graves crimes infame, e atualmente excomungado. Mandou-lhe o padre Leonardo [Nunes] pedir com cortesia, fosse servido sair da igreja, porque pudesse ele celebrar sacrifício, pois não podia em sua presença; fê-lo assim, e celebrou o padre. Porém dois filhos seus, mamelucos, dados por afrontados, determinaram castigar no servo do Senhor a injúria que tinham por feita ao pai [...]." (⁴)
Mas não é só. Descrevendo, em outro trecho, a chegada de Manuel da Nóbrega a São Vicente em 1553, acrescentou:
"Aquele famoso João Ramalho, homem rico na terra, mas infame nos vícios, amancebado público por quase quarenta anos, e de ordinário por essa causa excomungado [...], lembrado agora de seus antigos ódios, e tendo ainda vivo no peito o agravo que cuidou lhe fizera o padre quando o mandou avisar se saísse da igreja, porque ele não podia exercer o sacrifício do altar, por estar censurado; entre as alegrias e parabéns com que o povo recebia por hóspede o padre Nóbrega, andava ele com a caterva de seus filhos, muitos em número, e todos de má casta, mamelucos ilegítimos e desalmados, com arcos, flechas e gritarias, espalhando de alguns deles [os padres da Companhia] crimes péssimos e indignos de seculares, quanto mais de pessoas religiosas [...]." (⁵)
O que se pode notar, de pronto, é que, vivendo em um tempo no qual todas as personagens dessa história já haviam morrido, Simão de Vasconcelos deu eco às informações que denunciavam João Ramalho e sua vasta descendência como uma horda de facínoras, cujo objetivo era emperrar o trabalho dos jesuítas. Não é impossível que, da parte do português, houvesse algum receio de perder a influência considerável que adquirira entre os ameríndios, com os quais se aparentara; por outro lado, levando em conta os costumes que então vigoravam entre europeus, não surpreende que, para os jesuítas, fosse um escândalo a existência de um cristão que, vivendo entre os indígenas, chegara, por assim dizer, a ser um deles. Algum tempo no Brasil, porém, acabaria mostrando aos missionários que, se queriam sobreviver e catequizar, precisariam, até certo ponto, adotar alguns costumes da terra. Não como João Ramalho, porém.

(1) MADRE DE DEUS, Frei Gaspar da. Memórias para a História da Capitania de São Vicente, Hoje Chamada de São Paulo, do Estado do Brasil. Lisboa: Typografia da Academia, 1797, p. 30.
(2) Ibid., p. 31.
(3) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 46.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 47.
(5) Ibid., p. 75.


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sexta-feira, 6 de maio de 2016

A construção de capelas nas aldeias como parte do projeto jesuíta para a catequese de indígenas

Era estratégia dos missionários jesuítas que vieram ao Brasil no Século XVI: sempre que faziam contato com um grupo de indígenas e iniciavam a catequese, tratavam de obter daquela comunidade a permissão para construir uma igreja ou capela em sua aldeia. Explicou o padre Simão de Vasconcelos, em obra datada do Século XVII:
"A primeira coisa que procuraram todos estes pregoeiros do Evangelho foi que os índios catecúmenos fizessem capelas e igrejas acomodadas a suas aldeias, para nelas lhes administrarem o culto divino e necessários sacramentos." (¹)
 Assim que o pequeno local de culto ficava pronto, os padres da Companhia de Jesus começavam a efetuar ali os seus ofícios religiosos. Ora, isso atraía a atenção, mesmo que só por curiosidade, até daqueles que não demonstravam interesse pelos ensinos dos padres. Construir uma capelinha era, então, abrir a porta para a catequese mais ampla.
Outra razão para a existência de uma capela é que, tendo os padres constatado que muitos grupos indígenas eram seminômades, pensavam que com algum estabelecimento permanente (como uma igreja ou capela), os naturais da América, desistindo do costume de mudar a aldeia de lugar, adotariam um estilo de vida sedentário, que os missionários consideravam mais favorável aos seus propósitos. De fato, em alguns casos foi exatamente o que aconteceu, sem falar que, não poucas vezes, governadores-gerais, depois que faziam guerra aos indígenas, estipulavam, como uma das condições para a "paz", que os ameríndios deixassem seus costumes ancestrais e fossem viver em uma aldeia controlada pelos padres.
Ninguém deve imaginar, porém, que as capelas edificadas em aldeias indígenas eram belos templos na melhor alvenaria. Nada disso. Eram construções muitíssimo simples, feitas com qualquer material que estivesse disponível, quase sempre com aquilo que os próprios índios usavam em suas habitações. Aliás, na grande maioria das vezes, eram construídas com mão de obra indígena - voluntariamente ou não. Para que os leitores tenham uma ideia de como eram as ditas capelas, basta notar a humilde descrição daquela que foi a primeira a ser construída em Piratininga, junto ao Colégio de São Paulo: "Fizeram juntamente igreja de taipa de mão, coberta de palha, acomodada à ocasião de tempo." (²)
Tão frágeis eram algumas dessas edificações que, narrando as façanhas atribuídas ao padre Belchior de Pontes, o também padre jesuíta Manoel da Fonseca observou que uma igreja, na Aldeia de Nossa Senhora da Escada, estava em tão má situação que só não vinha abaixo porque era sustentada por escoras:
"Estava a igreja desta aldeia [Nossa Senhora da Escada] arruinada, e para que de todo não caísse, estavam arrimados à parede alguns espeques. Sentiam os índios vê-la naquele estado, e queixando-se em uma ocasião, a tempo em que o padre Pontes por ali passava, ele lhes disse que só depois da sua morte se faria igreja nova. Sucedeu assim, porque conservando-se naquele estado alguns anos, depois de sua morte se fez nova fábrica." (³)
Como regra geral, as primitivas capelinhas, feitas com material pouco durável, foram logo substituídas por construções mais resistentes. Dessas últimas, poucas também restaram, já que um sentido equivocado de progresso levou à demolição de muitas construções coloniais (que deveriam ser alvo de preservação), para que, em seu lugar, outras fossem edificadas.

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 55.
(2) Ibid., p. 91.
(3) FONSECA, Manoel da, S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, p. 196 (Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo). 


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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Costumes indígenas adotados por missionários jesuítas no Brasil

Se é verdade que a catequese  de indígenas (por jesuítas, principalmente, mas não só) representou o fim de algumas tradições da cultura nativa, também é verdade que, para uma adaptação ao Brasil, os religiosos precisaram adotar muitos dos hábitos e costumes dos "brasis", como então se dizia. Em sentido amplo, viver no Brasil, no Século XVI, e mesmo no XVII, pressupunha, em vários aspectos, viver como os índios. De outro modo, a sobrevivência seria quase inviável.

O costume de dormir em redes


Indígena do Brasil dormindo
em uma rede (¹)
Muito do que sabemos sobre o modo de vida dos missionários nesses primeiros tempos de colonização e catequese vem das cartas escritas por José de Anchieta. Em uma delas, redigida em Piratininga no ano de 1554, explicava que os padres da Companhia de Jesus que viviam na Capitania do Espírito Santo haviam adotado o costume indígena de dormir em redes, ficando as camas relegadas apenas aos doentes:
"Em lugar de cama, usa a máxima parte dos Irmãos de uns panos tecidos à maneira de rede, suspensos por duas cordas e traves; todavia, os que padecem de enfermidade de corpo por algum tempo, usam de camas como em Portugal." (²)
Como se sabe, a maioria dos indígenas do Brasil dormia em redes, cuja confecção variava conforme as tradições tribais. Era um modo conveniente de dormir, ao menos para os ameríndios nômades ou seminômades.

Hábitos alimentares aprendidos com indígenas


Em uma outra carta, Anchieta descreveu alguns detalhes da alimentação de que dispunham, revelando que, sob esse aspecto, já tinham aprendido bastante com seus catecúmenos:
"O principal alimento nesta terra é a farinha de pau, feita de umas certas raízes que se plantam (a quem chamam mandioca) [...]; isso substitui entre nós  a farinha de trigo. Constituem outra parte da alimentação as carnes selváticas, como sejam os macacos, as corças, certos outros animais semelhantes aos lagartos (³), os pardais, e outras feras; também os peixes dos rios, mas esses raramente. A parte mais importante, porém, do sustento consiste em legumes e favas, em abóboras e outras que a terra produz, em folhas de mostarda e outras ervas cozidas; usamos, em lugar de vinho, de milho cozido em água, a que se ajunta mel, de que há abundância; é assim que sempre bebemos as tisanas ou remédios; e se isto temos com fartura quase que não nos parecemos a nós mesmos pobres." (⁴)

Vestuário leve e ausência de calçados


Em um documento que se supõe escrito também por Anchieta, diz-se que, no Brasil, em razão do clima, era comum que as pessoas não usassem muita roupa - não estava falando dos índios, naturalmente, que isso já é outra história. O caso é que os jesuítas, seguindo a "moda da terra", também não tinham grandes preocupações com vestuário:
"Os nossos Padres e Irmãos vestem e calçam propriamente como em Portugal dos mesmos panos que lá, mas faltam-lhes muitas vezes, mas não se amofinam, porque a terra não pede muita roupa e quanto mais leve e velha tanto é melhor e folgam com ela; e o andarem descalços é uso da terra e não lhes dá tanta pena e trabalho como se fora na Europa [...]." (⁵)

Um exemplo de adaptação ao modo de vida dos ameríndios


É ainda da pena de Anchieta, ao traçar a biografia do Padre Gregório Serrão, que nos chega um exemplo de como vivia um missionário jesuíta que, ao empreender a catequese, estava disposto, se necessário, a abrir mão dos costumes de sua cultura de origem, adotando os hábitos e tradições vigentes entre os nativos da América:
"Residiu em uma aldeia muito tempo, que se ajuntou duas léguas de Piratininga com o Irmão Manuel de Chaves, aprendendo ali a língua e ensinando os meninos da escola, passando muito frio e fome. Pela muita pobreza que então havia de mantimento e vestido, nunca trouxe mais naquele tempo que a roupeta (⁶) velha sobre camisa e ceroulas, dormindo em uma rede, tendo o fogo por cobertor." (⁷) 
Chega a ser surpreendente que Anchieta, capaz como era, até por divertimento, de escrever cartas inteiras usando apenas trechos da Bíblia, tenha resistido aqui à tentação de citar o apóstolo que viveu e trabalhou no mundo greco-romano do Primeiro Século, quando afirmou: "omnibus omnia factus sum ut omnes facerem salvos..." (⁸)

(1) ________ Bilder - Atlas, Siebenter Band. Leipzig: F. A. Brockhaus. 
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 37.
(3) Levando em conta outras referências na obra de Anchieta, é possível que falasse dos jacarés.
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., pp. 43 e 44.
(5) Ibid., pp. 426 e 427.
(6) Hábito tradicional dos religiosos jesuítas.
(7) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Op. cit., p. 490.
(8) Epistula ad Corinthios I, IX, 22 ("Fui de tudo e de todos, para com modos diversos conseguir salvar alguns"). 


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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Tempestade em Piratininga

Para os jesuítas que iniciaram a catequese no Brasil em meados do Século XVI quase tudo o que encontravam era novidade, desde o modo de vida da população indígena que pretendiam doutrinar às características naturais da América do Sul, com suas matas de árvores gigantescas cobrindo serras que pareciam intransponíveis. Sabemos, por exemplo, que as tempestades, no mar ou em terra, deixavam os missionários apavorados. 
Um relato de maio de 1560, incluído em uma carta escrita por José de Anchieta ao padre-geral (¹) dos jesuítas, conta de uma tormenta que abalou Piratininga, ou seja, São Paulo, causando estragos notáveis:
"Não há muitos dias, estando nós em Piratininga, começou, depois do pôr do sol, o ar a turvar-se de repente, a enublar-se o céu, a amiudarem-se os relâmpagos e trovões, levantando-se então vento sul a envolver pouco a pouco a terra, até que [...] caiu com tanta violência que parecia ameaçar-nos o Senhor com a destruição: abalou as casas, arrebatou os telhados e derribou as matas; a árvores de colossal altura arrancou pelas raízes, partiu pelo meio outras menores, despedaçou outras, de tal maneira que ficaram obstruídas as estradas, e nenhuma passagem havia pelos bosques; era para admirar quantos estragos de árvores e casas produziu no espaço de meia hora (pois não durou mais do que isso), e, na verdade, se o Senhor não tivesse abreviado aquele tempo, nada poderia resistir a tamanha violência e tudo cairia por terra." (²)
Ora, temos aqui um Anchieta verdadeiramente loquaz na descrição da tempestade, tão diferente do escritor comedido que usava ser, até por escassez de papel... É que a tormenta deve ter causado nele uma terrível impressão. Talvez hoje alguém dissesse que correspondeu à chegada de uma frente fria, mas, independente da causa, será útil recordar que, na pequenina São Paulo daqueles dias, as construções ocupadas pelos jesuítas e outros colonizadores eram deveras precárias, daí porque o estrago deve ter resultado ainda maior. Outro ponto a observar é que, como religioso, Anchieta, ao que parece, fez em sua carta uma discreta referência a uma passagem do Evangelho Segundo S. Mateus, relacionada ao que se costuma chamar de "fim do mundo": "et nisi breviati fuissent dies illis non fieret salva omnis caro sed propter electos breviabuntur dies illi..." (³) A chuva e a ventania devem ter sido brutais!...
Todavia, o mais interessante do registro de Anchieta, como ele próprio reconheceu, ainda estava à frente:
"O que, porém, no meio de tudo isso, se tornou mais digno de admiração, é que os índios, que nessa ocasião se compraziam em bebidas e cantares (como costumam), não se aterraram com tanta confusão de coisas, nem deixaram de dançar e beber, como se tudo estivesse em completa tranquilidade." (⁴)
Podemos supor que os indígenas, plenamente habituados às súbitas mudanças de humor das condições climáticas, julgaram melhor continuar a festança, até porque de nada valeria a muita preocupação. Nem todo o terror que viessem a expressar seria de alguma utilidade para amainar a fúria das intempéries.

(1) Na ocasião, o padre Diego Laynez.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, pp. 104 e 105.
(3) Mt 24, 22: "Se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém se salvaria, mas foram abreviados por causa dos eleitos."
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J.  Op. cit., p. 105.


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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Natal muito triste para um jumentinho

Conta o padre Simão de Vasconcelos em sua Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, que, nos primeiros e difíceis tempos do Colégio dos jesuítas na Bahia, viveu nele um irmão de nome Domingos, mais conhecido entre os religiosos pelo apelido de Pecorela (¹). Segundo escreveu Simão de Vasconcelos, era esse Domingos Pecorela um homem de pouca instrução, mas muito devoto e extremamente dedicado aos afazeres relacionados à manutenção diária do Colégio:
"Cinco anos serviu este servo fiel à Companhia, e em todos eles se teve sempre por um escravo comprado por dinheiro para o serviço da casa, sem mais querer, nem mais pretender, que o de um servo leal. Entre os mais ofícios da obediência, o principal era ter cuidado em um jumentinho, e ir com ele a todas as partes onde era mandado em busca do sustento da casa, que era pobríssima." (²)
É fato que Simão de Vasconcelos fez sua Crônica mais de um século depois da morte do irmão Domingos, mas usava consultar registros escritos e relatos daqueles que tinham algo a contar. Além disso, não constitui grande dificuldade imaginar quanto era complicado fazer provisões para o sustento dos que viviam no Colégio quando a colonização na Bahia estava apenas começando. Assim, o relato segue explicando que, na falta de comida, Domingos Pecorela era mandado às aldeias de índios amigos, para pedir alguma doação:
"Quando faltava de comer na Casa (que era muitas vezes), não desmaiava Domingos Pecorela: ornava seu jumento, ia-se às aldeias dos índios e entrava com eles com tal graça, falando-lhes pela própria língua, em que era perito, que estes lhe faziam a carga do mais estimado de seus haveres, farinha, caça do mato, batatas, bananas, carás, que é o que possui esta gente quando mais rica, e era naquele tempo o comer de mais estima dos padres." (³)
Pecorela, sempre em companhia do fiel companheiro de quatro patas, ia também buscar lenha e água para o Colégio:
"Bastava significar-lhe o Superior: "Irmão Domingos, ide à lenha para a cozinha", e sem mais demora, a pé descalço [...], aparelhava seu jumentinho e ia ao mato a carregar de lenha, e da mesma maneira à fonte e carregar de água." (⁴)
Ora, o que haveria de incomum nesta história? No Século XVI era perfeitamente normal que animais de carga fossem empregados para o transporte de água (não havia encanamento) e de lenha (principalmente para manter aceso o fogão); por outro lado, não é surpreendente que os padres pedissem ajuda aos indígenas quando lhes faltava o necessário à subsistência. De qualquer modo, dirão os leitores, alguém no Colégio teria que cuidar do jumento...
É que Domingos Pecorela era mesmo muito afeiçoado ao animal que estava sob sua responsabilidade:
"Era tal a humildade simples e simplicidade humilde deste bom irmão, que chegava a ter-se por obrigado a servir ao próprio jumento; assim curava ele, assim se compadecia de seu trabalho, como se fora criatura racional; chegava a descuidar de si por cuidar do asninho." (⁵)
Exagero? O padre Simão de Vasconcelos estava disposto a provar que não:
"Pareceu-lhe [a Domingos Pecorela] algumas vezes que vinha carregado sobre suas forças; e logo compadecido tirou parte da carga das costas do jumento, e pôs às suas, e caminharam ambos carregados; e aos que lhe perguntavam por que tomava aquele trabalho, respondia cheio de compaixão: Porque esta pobre criatura não pôde mais, e que se diria de mim, se viesse ela arrebentando com a carga, e o irmão Domingos folgando?" (⁶)
Pecorela faleceu no Colégio da Bahia em 24 de dezembro de 1554, ou seja, na véspera do Natal. Quanto ao jumento, não se têm dele mais notícias, nem sabemos se, acaso, foi colocado, na mesma noite, em algum presépio vivo. Mas deve ter sentido muito a perda de seu melhor amigo.

(1) Provavelmente faziam um trocadilho com o termo italiano Pecorella, ou seja, ovelha.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 105.
(3) Ibid.
(4) Ibid.
(5) Ibid., pp. 105 e 106.
(6) Ibid., p. 106.


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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Ensino e catequese no Brasil após a expulsão dos jesuítas no Século XVIII

Os jesuítas vieram inicialmente ao Brasil com Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral, em 1549. Desde então passaram a desenvolver a catequese de indígenas e a ensinar filhos de colonos em seus colégios. Sucede que a Companhia de Jesus tornou-se muitíssimo poderosa na América, a ponto de ser acusada de ter intenções de estabelecer, no sul do Continente, um verdadeiro império sob seu controle. No Século XVIII o ideário iluminista, influente até mesmo sobre alguns governantes na Europa (¹), fez com que as suspeitas contra os jesuítas chegassem ao auge, resultando na supressão da Ordem em 1773 (²). A expulsão de Portugal e seus domínios ocorreu antes, em 1759, até porque o Marquês de Pombal, ministro do rei D. José I, não tinha por eles nenhuma simpatia. 
O que aconteceu às missões no Brasil que os jesuítas foram obrigados a abandonar?
Saint-Hilaire, naturalista francês, percorrendo o Rio Grande do Sul um pouco antes da Independência, observou:
"Outrora ensinava-se a ler e a escrever em todas as aldeias, mas essas lições cessaram há muito tempo." (³) 
Referia-se, naturalmente, às aldeias de índios guaranis que haviam sido catequizadas por jesuítas. Deve-se notar que, expulsos os missionários da Companhia, competia ao governo português prover instrução básica à população. Como, porém, notou o próprio Saint-Hilaire, os salários oferecidos aos professores eram muito baixos, disso resultando um desinteresse pelo cargo e, por consequência, muitas povoações deixaram de ter escolas.
Não só o ensino foi abandonado em muitos lugares. A saída dos jesuítas também interrompeu a catequese, ainda que, em alguns casos, religiosos de outras Ordens tenham assumido as missões. Um resultado curioso desse abandono foi registrado no Diário da Expedição que em 1780 saiu para demarcação da América Portuguesa, com a constatação de que havia indígenas semicatequizados que, sem uma doutrinação completa, chegavam, quando interrogados, a expressar uma lista algo sincrética de crenças que, se eram em parte cristãs, eram, também parcialmente, bem pouco ortodoxas. Exemplo? Veja-se o que disse o chefe indígena de uma tribo da região amazônica, que já tinha "alguma luz da doutrina cristã":
"...indagado por alguns princípios da religião que seguiam nas suas terras, respondeu que os bons depois de mortos iam ter muitas mulheres, e os maus iam para uma cova muito funda em que havia muito fogo."

(1) Os chamados "déspotas esclarecidos".
(2) A bula papal, permitindo a restauração da Companhia de Jesus, data de 1814.
(3) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 341.


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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Viviam todos em pecado mortal

Ao vir ao Brasil para estabelecer a primeira povoação com status de cidade, Tomé de Sousa, o governador-geral, trouxe consigo alguns jesuítas, dos quais se esperava tanto a catequese de indígenas quanto a assistência religiosa aos portugueses que, por uma ou outra razão, haviam saído do Reino e agora viviam na América. Manuel da Nóbrega liderava o grupo de jesuítas - os outros eram Leonardo Nunes, João de Aspilcueta Navarro, Antônio Pires, Vicente Rodrigues e Diogo Jacome.
Nóbrega, ao que parece, não ficou nada satisfeito com o que viu na terra, não quanto aos indígenas, nem quanto às boas disposições do governador para com sua Ordem, mas no que tocava à conduta dos colonos em geral. Temos a certeza de suas opiniões porque tudo explicou em uma carta, escrita pouco depois de sua chegada em 1549, e cujo destinatário era o Provincial da Companhia de Jesus em Portugal, padre Simão Rodrigues:
"Espero em Nosso Senhor fazer-se fruto, posto que a gente da terra vive toda em pecado mortal. E não há nenhum que deixe de ter muitas negras (¹), das quais estão cheios de filhos e é grande mal. Nenhum deles se vem confessar, ainda queira Nosso Senhor que o façam depois." (²)
O que talvez Nóbrega ainda não soubesse é que seu confronto com portugueses que viviam no Brasil estava apenas começando. Em São Vicente a coisa ganhou um estereótipo na figura de João Ramalho com seus muitos filhos mamelucos, que, não aceitando reprimendas dos padres, eram acusados de, sem nenhuma compostura, proferirem ameaças contra os religiosos. Estes, por sua vez, julgando que não deixavam por menos, teriam advertido que chamariam a Inquisição. Resposta? Que viesse o Santo Ofício, pois seria corrido do planalto à custa de umas boas flechadas...
Julgando que os casamentos com mulheres indígenas decorriam da falta de europeias, Nóbrega insistia com o governo português quanto ao envio de órfãs que viessem para casar no Brasil. Deixando de lado, por agora, a questão dessas pobres meninas que se viam obrigadas a contrair casamento em uma terra distante e com pessoas que desconheciam completamente, sabe-se que, de fato, o pedido algumas vezes foi atendido, provando-se, assim, que não era solução para nada. Não poucos homens em terras coloniais eram casados segundo as leis da Igreja e, a despeito disso, tinham vasta prole com suas escravas, fossem elas indígenas ou africanas.
No entanto, talvez seja possível dizer alguma coisa em defesa dos colonos. Vejamos:
  • Alguns deles eram condenados ao degredo que vinham cumprir pena no Brasil - quem é que haveria de esperar que as terras da América fossem um reformatório conveniente para quem já não tinha boa conduta no Reino?
  • Os colonos que estavam de livre vontade no Brasil haviam saído de um país pequenino, no qual as restrições, legal e socialmente impostas, podiam sofrer um controle relativamente fácil, enquanto que o enorme território colonial era visto como um convite à mais ampla liberdade, para bem e/ou para mal;
  • Mesmo que um colono fosse homem muito religioso, a assistência que poderia obter era bastante limitada, já que, pela época da chegada de Nóbrega, eram pouquíssimos os padres que viviam no Brasil, de modo que ir às missas e comparecer à confissão eram práticas que simplesmente não estavam disponíveis;
  • Não muito tempo depois de pisar em terras do Brasil, Nóbrega acabaria descobrindo que mesmo os poucos padres que viviam entre os colonos andavam longe uma vida exemplar, segundo as normas da Igreja - como esperar perfeição da gente do povo que, como regra, tinha pouca instrução religiosa e que, tendo vindo à América com a expectativa enriquecer o mais rápido possível, não tinha muita preocupação ética quanto aos meios que, para tanto, fossem empregados?
Digo aos leitores deste blog que o elenco de argumentos em favor dos colonos poderia ser bem maior, embora não tenha nenhuma intenção de justificar sua má conduta, em particular no trato desumano para com a população nativa, ainda que isso tenha se repetido, com crueldade crescente, em quase todo o Continente Americano, sob as mais diversas bandeiras de colonização. Será bom recordar, apenas, que de toda essa situação colonial, e do mais que ocorreu depois, é que se formou o Brasil que hoje existe, com suas virtudes (muitas) e seus defeitos (não poucos, como se sabe).

(1) Refere-se, provavelmente, a portugueses que viviam com mulheres indígenas, e não africanas, já que era comum no Século XVI, e mesmo um pouco mais tarde, que europeus residentes no Brasil mencionassem como negros tanto os indígenas como os escravizados trazidos da África. 
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de S. J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 290.


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sexta-feira, 31 de julho de 2015

O uso da música na catequese empreendida por jesuítas no Brasil Colonial

Para os jesuítas que em meados do Século XVI trocaram as aparentes certezas da Europa pelo desconhecido da América, no rumo da missão que se atribuíam de catequizar os "gentios", ou seja, os povos indígenas, logo surgiu a questão de qual seria o método de maior eficácia, tanto para uma primeira aproximação como para o estabelecimento de um sistema regular de doutrinação entre os nativos. Algum tempo de experiência mostrou aos missionários que um poderoso recurso era a música, pela qual os indígenas eram apaixonados. Desse modo, nas escolas estabelecidas por jesuítas nas aldeias (¹) era usual que, ao lado de ler, escrever e contar, fossem ministradas lições de música, tão importantes, naquele contexto, quanto as de doutrina cristã.
O Padre Anchieta é bem conhecido por sua habilidade em pôr os ensinos em versos simples, que podiam ser facilmente memorizados, quer por filhos dos colonos, quer por meninos indígenas, ou ainda por catecúmenos já adultos. Consta ser ele mesmo o autor desta informação:
"No princípio do ano de 1578 veio por governador Lourenço da Veiga, o qual por si mesmo visitou as aldeias da doutrina que estão a cargo dos padres, com muito gosto e lágrimas de devoção, vendo as doutrinas, procissões, disciplinas e comunhões dos índios e as missas oficiadas em canto de órgão, em flautas, pelos filhos dos mesmos índios." (²)
E ainda o mesmo Anchieta, tratando da catequese de meninos que se empreendia em certa aldeia, observou:
"Em uma delas lhes ensinam a cantar e têm seu coro de canto e flautas para suas festas [...]." (³)
Segundo o Padre Simão de Vasconcelos, cujos escritos datam da segunda metade do Século XVII (⁴), foi o Padre Manuel da Nóbrega quem teve a ideia de fazer uso da música como recurso de catequese:
"Nenhuma outra satisfaz tanto a esta gente, como a doçura do canto: nela põem a felicidade humana. Chegou a ser opinião de Nóbrega que era um dos meios com que podia converter-se a gentilidade do Brasil, a doce harmonia do canto; e por esta causa ordenou se lho pusessem em solfa as orações e documentos mais necessários de nossa santa fé; porque à volta da suavidade do canto entrasse em suas almas a inteligência das coisas do céu." (⁵)
Para que ajudassem na catequese que se empreendia na recentemente fundada São Paulo de Piratininga, Nóbrega teria mandado que viessem meninos de São Vicente, já destros na arte de cantar:
"Para mais fácil catecismo de tanta gente, ordenou o Padre Nóbrega que viessem da vila de São Vicente aqueles meninos filhos de índios que [...] tinham ali criado os padres em seminário de boa doutrina, e sabiam já ler, escrever e cantar muitos deles: foram estes de grande ajuda a toda a sua gente, continuando na nova aldeia sua escola e ajudando a beneficiar os ofícios sagrados em canto de órgão com destreza e instrumentos músicos [...]. Juntavam-se à noite a cantar pelas casas cantigas de Deus em sua própria língua, contrapostas às que eles costumavam cantar, vãs e gentílicas [sic] [...]." (⁶)
E acrescentaria, quanto ao gosto que indígenas demonstravam pela música:
"São afeiçoadíssimos à música, e os que são escolhidos para cantores da igreja prezam-se muito do ofício, e gastam os dias e as noites em aprender e ensinar outros. Saem destros em todos os instrumentos músicos [...], com eles beneficiam em canto de órgão Vésperas, Completas, Missas, Procissões, tão solenes como entre os portugueses." (⁷)
Com algum esforço da imaginação, quase podemos ver e ouvir os missionários e seus pequenos discípulos cantando e tocando pelas aldeias. A favor dos jesuítas deve-se notar que, se ensinavam português aos índios, punham, simultaneamente, todo o empenho em aprender a língua dos nativos, fixando-lhe a gramática e nela fazendo escrever e publicar um catecismo.

(1) Quase sempre aldeamentos forçados pelas autoridades coloniais, como condição para a paz com os povos nativos do Brasil.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 305.
(3) Ibid., p. 416.
(4) Cerca de um século mais tarde, portanto.
(5) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 1 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 71.
(6) Ibid., pp. 91 e 92.
(7) Ibid., p. 120.


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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Decepções dos jesuítas na catequese de meninos indígenas

Em uma carta escrita em São Vicente, datada de março de 1555, José de Anchieta assinalou, referindo-se ao Colégio de Piratininga:
"Temos uma grande escola de meninos índios, bem instruídos em leitura, escrita e em bons costumes, os quais abominam os usos de seus progenitores. São eles a consolação nossa, bem que seus pais já pareçam mui diferentes nos costumes dos de outras terras; pois que não matam, não comem os inimigos, nem bebem da maneira por que dantes o faziam." (¹)
Os meninos índios, porém, logo cresceram, e lá se foi a "consolação" dos jesuítas - já adolescentes, os catecúmenos não mais queriam saber da rotina do colégio dos padres, e logo iam com seus parentes às práticas que, para os povos indígenas, caracterizavam os verdadeiros homens adultos. É ainda Anchieta quem relata, em uma outra carta, enviada ao Geral Diego Laynez em 1º de julho de 1560:
"Dos moços que falei no princípio foram ensinados não só nos costumes cristãos, cuja vida quanto era mais diferente da de seus pais, tanto maior ocasião dava de louvar a Deus e de receber consolação, não queria fazer menção por não refrescar as chagas, que parecem algum tanto estar curadas; e daqueles direi somente que chegando aos anos da puberdade, começaram a apoderar-se de si, vieram a tanta corrupção, que tanto excedem agora a seus pais em maldade quanto antes em bondade, e com tanta maior sem-vergonha [sic] e desenfreamento se dão às borracheiras e luxúrias, quanto com maior modéstia e obediência se entregavam dantes aos costumes cristãos e divinas instruções. Trabalhamos muito com eles para os reduzir ao caminho direito, nem nos espanta esta mudança, pois vemos que os mesmos cristãos procedem da mesma maneira." (²)
Será bom ressaltar que casos análogos ocorriam em quase todos os lugares nos quais os jesuítas estabeleciam missões, de modo que não será nada difícil imaginar quão frustrante era, para eles, observar que seus esforços resultavam inúteis. Lembrem-se os senhores leitores de que, no Século XVI, não era fácil empreender uma viagem à América, com a certeza quase absoluta de jamais retornar. Se é verdade que a Europa da época não era exatamente o melhor dos mundos, vir ao Continente Americano significava defrontar-se com o desconhecido, sem dispor dos recursos habituais para a sobrevivência. Vale reforçar, ainda, que, independente do que se pense hoje da catequese de indígenas, os jesuítas do Século XVI acreditavam com firmeza no trabalho que faziam e nele empregavam seus melhores esforços, daí porque a "deserção" dos meninos indígenas devia assumir um aspecto em extremo decepcionante. Disso resultou, portanto, uma gradual mudança de postura dos missionários. Se no princípio da catequese a ideia era empregar toda a doçura e caridade cristãs, não demorou para que os padres "jogassem a toalha", de modo que, em carta datada de 16 de abril de 1563, novamente endereçada ao Geral Diego Laynez, já vamos encontrar Anchieta disposto à adoção de práticas coercitivas no trato com os indígenas:
"Parece-nos agora que estão as portas abertas nesta Capitania para a conversão dos gentios, se Deus Nosso Senhor quiser dar maneira com que sejam postos debaixo de jugo, porque para este gênero de gente não há melhor pregação do que espada e vara de ferro, na qual mais do que em nenhuma outra é necessário que se cumpra o compelle eos intrare." (³)
A Europa daqueles dias defrontava-se com a Reforma Protestante, com o Concílio de Trento, com a propagação do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição. Ora, se era aceitável queimar hereges no Velho Mundo, por que pareceria estranho ou impróprio forçar os índios à conversão?

(1) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 79.
(2) Ibidp. 156.
(3) Ibid.


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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Queijadinhas para o padre José

É sabido que, em alguns lugares, durante o Período Colonial, os padres jesuítas não eram muito estimados pelos colonos, ocorrendo não poucos entreveros com os religiosos por questões ligadas à escravização dos índios. De um lado, os colonos forçavam os indígenas ao trabalho, alegando que precisavam da mão de obra; de outro, os padres insistiam que o cativeiro era injusto e impedia a catequese. Rebatendo, diziam os colonos que, nas reduções, os jesuítas também se serviam do trabalho dos índios, a pretexto da catequese... E nesse rumo seguia um confronto interminável, com não poucos episódios dramáticos (como, por exemplo, a expulsão dos jesuítas de São Paulo em 1640).
Pequena imagem do Padre
José de Anchieta
em porcelana, c. 1940 (³)
Ora, se devemos crer no que escreveu o Padre Fernão Cardim sobre as viagens do visitador jesuíta, Padre Cristóvão de Gouvêa, nos anos oitenta do Século XVI, foram os jesuítas, por onde quer que passavam, muito bem recebidos (e Cardim registra esse fato com uma certa admiração, o que demonstra que talvez os religiosos estivessem aguardando outra coisa). Conta-nos, até, um episódio bastante saboroso (em mais de um sentido, como se verá), ocorrido em uma ocasião na qual, tendo ido às "visitas", retornavam bastante fatigados:
"Dali tornamos à vila, e vindo encalmados por uma praia, eis que desce de um alto monte uma índia vestida como elas costumam, com uma porcelana da Índia cheia de queijadinhas de açúcar, com um grande púcaro d'água fria, dizendo que aquilo mandava seu senhor ao padre provincial José (...)." (¹)
Neste caso, pode-se dizer que os padres estavam recebendo mostras de grande apreço, não é mesmo?
O "Padre José", provincial, citado por Cardim é, provavelmente, o Padre José de Anchieta, que exerceu o provincialato jesuíta no Brasil até 1587; dele, o mesmo Cardim diria, em seguida:
"É este padre um santo de grande exemplo e oração, cheio de toda a perfeição, desprezador de si e do mundo; uma coluna grande desta Província, e tem feito grande cristandade e conservado grande exemplo; de ordinário anda a pé, nem há retirá-lo de andar sendo muito enfermo. Enfim, sua vida é vere apostolica." (²)

(1) CARDIM, Pe. Fernão S. J. Narrativa Epistolar de Uma Viagem e Missão Jesuítica. Lisboa: Imprensa Nacional, 1847, pp. 23 e 24.
(2) Ibid, p. 24.
(3) Do acervo do Museu Histórico e da Porcelana de Pedreira - SP.


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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Sobre os padres que vinham ao Brasil no Século XVI

É de Joaquim Manuel de Macedo (¹) uma curiosa afirmação sobre os padres que, no início da colonização, vinham ao Brasil - diz ele que "os padres entraram com o pé esquerdo na Terra de Santa Cruz" (²). E explica:
"Os padres que naquela época foram chegando não deviam ser dos mais recomendáveis, nem pela sua ilustração, nem por uma grande moralidade, porque os donatários, que no Reino recrutavam nas últimas camadas da sociedade a gente de que precisavam para criar os seus estabelecimentos coloniais, por certo que não teriam mui zeloso cuidado na escolha dos clérigos que fizeram vir."
A situação era de tamanha seriedade que, quando em 1549 vieram os primeiros jesuítas, Nóbrega, um deles, ficou horrorizado com o desregramento que notou entre os "padres seculares" que já andavam pela Colônia. Daí o empenho para que ficasse clara a distinção entre os "padres da Companhia" e os outros.
É fato que o número de sacerdotes era reduzido e de modo algum suficiente para atender a todas as povoações. Era, então, perfeitamente possível que alguém passasse quase a vida toda sem qualquer assistência religiosa, em tempos nos quais a Igreja desempenhava um papel preponderante na sociedade e, por conseguinte, nas ideias que povoavam a cabeça de cada colono. Aprovemos ou não, na época a religião podia ser um fator importante de controle social - uma ferramenta valiosa como freio à má conduta dos colonos, em situações nas quais o Estado era, na prática, ausente. Disso decorria a importância de que os padres fossem exemplos de bom comportamento. Não era, porém, o que usualmente ocorria.
Nóbrega tinha a língua afiada e, em carta datada de 1549, que enviou a seus irmãos de Ordem em Portugal, não economizou nas palavras ao descrever os religiosos que encontrou no Brasil:
"Os clérigos desta terra têm mais ofício de demônios que de clérigos, porque, além do seu mau exemplo e costumes, querem contrariar a doutrina de Cristo, e dizem publicamente aos homens que lhes é lícito estar em pecado com suas negras, pois que são suas escravas, e que podem ter os salteados, pois que são cães, e outras coisas semelhantes, por escusar seus pecados e abominações. De maneira que nenhum demônio temos agora que nos persiga senão estes. Querem-nos mal porque lhes somos contrários a seus maus costumes, e não podem sofrer que digamos as missas de graça, em detrimento de seus interesses. Cuido que, se não fora pelo favor que temos do governador e principais da terra, e assim porque Deus não o quer permitir, que nos tiveram já tiradas as vidas. Esperamos que venha o bispo, que proveja isto com temor, pois nós outros não podemos por amor." (³)
Até quanto ao bispo que viesse, tinha Nóbrega as suas restrições, já que, escrevendo ao padre-mestre Simão Rodrigues a respeito do prelado que devia receber a dignidade episcopal (⁴), observou: "Venha para trabalhar e não para ganhar." (⁵)
Disso se conclui que Nóbrega estava em plena consciência quanto à enormidade do trabalho de catequese que desejava empreender. Que, ao menos, não viessem padres de má conduta para atrapalhar!

(1) Todo mundo conhece Joaquim Manuel de Macedo como romancista - o homem que escreveu A Moreninha. Mas poucos sabem que, por formação, era médico, e que atuou como professor de História no Imperial Colégio de Pedro II.
(2) MACEDO, Joaquim Manuel de. Um Passeio Pela Cidade do Rio de Janeiro. Brasília: Senado Federal, 2005, p. 231.
(3) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 311.
(4) Dom Pero Fernandes Sardinha foi o primeiro bispo do Brasil.
(5) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Op. cit., p. 296.


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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Como os jesuítas ensinavam aos indígenas a doutrina da Trindade

O Padre Manuel da Nóbrega, jesuíta que veio ao Brasil com Tomé de Sousa em 1549, era, apesar de jovem, já experiente em doutrinar, no Reino, a gente que não dava muita importância aos assuntos religiosos. Na Colônia, porém, enfrentaria dificuldades bem diferentes daquelas às quais estava habituado.
Como poderiam comunicar-se os jesuítas com os indígenas que pretendiam catequizar, se não lhes conheciam o idioma? Logo veriam, também, que não estariam lidando com uma única e homogênea cultura indígena - os povos indígenas eram diferentes e numerosos, como eram também diversos o idioma e a cultura. Assim, tratou-se de aprender a língua predominantemente falada no litoral, buscando meios de tornar inteligíveis os ensinos que julgavam ser seu dever transmitir.
Em uma carta dirigida a seus irmãos jesuítas em Portugal, o Padre Manuel da Nóbrega escreveu, a propósito dos indígenas que tentava doutrinar:
"Têm mui poucos vocábulos para lhes poder bem declarar nossa fé. Mas contudo damos-lha a entender o melhor que podemos, e algumas coisas lhes declaramos por rodeios. Estão mui apegados com as coisas sensuais. Muitas vezes me perguntam se Deus tem cabeça e corpo, e mulher; e se come, e de que se veste, e outras coisas semelhantes." (¹)
Ora, meus leitores, já podemos aqui traçar ao menos duas reflexões: ou os padres não tinham suficiente compreensão da língua e cultura dos povos indígenas para explicar o que pretendiam, ou a cultura indígena era muito diferente da dos portugueses e outros europeus no que tange a questões religiosas, daí a dificuldade de encontrar um meio de expressão conveniente para conceitos, por vezes, bastante abstratos.
Creio, senhores leitores, que as duas coisas, de fato, aconteciam.
O jesuíta Belchior de Pontes usava uma
vela 
para ensinar aos índios a
doutrina da Trindade
Como exemplo, tomemos o caso das tentativas que se faziam para explicar aos índios a Doutrina da Trindade. A noção da existência de um Deus-Pai e de um Deus-Filho não era assim tão difícil; entretanto, parecia aos padres quase impossível aclarar o conceito da existência do Espírito Santo. Anchieta, outro missionário jesuíta, relatou em uma carta ao Geral Diego Laynez, datada de 16 de abril de 1563, ao falar da catequese de um índio muito idoso:
"Dando-lhe pois a primeira lição de ser um só Deus Todo-Poderoso, que criou todas as coisas, etc., logo se lhe imprimiu na memória, dizendo que lhe rogava muitas vezes que criasse os mantimentos para a sustentação de todos, mas que pensava que os trovões eram este Deus; porém agora que sabia haver outro Deus verdadeiro sobre todas as coisas, que a ele rogaria chamando-o Deus Pai e Deus Filho; porque dos nomes da Santa Trindade este dois somente pôde tomar, pela razão de que se podem dizer em sua língua; mas o Espírito Santo, para o qual nunca achamos vocábulo próprio, nem circunlóquio bastante, ainda que o não sabia nomear, sabia-o contudo crer como nós lhe dizíamos." (²)
No entanto, um padre, também jesuíta, mas nascido no Brasil no Século XVII, acabaria encontrando uma curiosa e didática solução para o problema. Conta Manuel da Fonseca, outro jesuíta, tratando do modo pelo qual o padre Belchior de Pontes procedia à catequese dos índios na povoação de São Paulo de Piratininga:
"Ajuntava-os em uma praça junto à Igreja da Misericórdia, e postos em fileiras se metia entre eles. Tomava nas mãos uma vela acesa, e com ela lhes declarava o altíssimo Mistério da Santíssima Trindade, explicando como era Deus Trino em Pessoas, e um na essência, porque assim como se notam na vela três coisas, as quais, ainda que são entre si tão distintas, que uma não é outra, constituem um só composto, assim também se notam naquele incompreensível mistério, e que tanto supera a capacidade humana, três Pessoas distintas, e um só Deus." (³)

(1) VASCONCELOS, Pe. Simão de S.J. Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil vol. 2, 2ª ed. Lisboa: Fernandes Lopes, 1865, p. 304.
(2) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 190.
(3) FONSECA, Manoel da S.J. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, da Companhia de Jesus da Província do Brasil. Lisboa: Off. de Francisco da Silva, 1752, pp. 113 e 114 (Reedição da Cia. Melhoramentos de S. Paulo).


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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Por que o peixe-boi era muito apreciado no Período Colonial

O peixe-boi é mamífero sirênio. Portanto, de peixe, só tem o nome pelo qual é popularmente conhecido. No Brasil, as espécies encontradas, uma marítima, outra fluvial, são Trichechus manatus e Trichechus inunguis, respectivamente.
No Século XVI, os colonizadores europeus ficaram maravilhados com ele. Gândavo observou:
"É um peixe muito saboroso e totalmente parece carne e assim tem o gosto dela; assado parece lombo de porco ou de veado, coze-se com couves, e guisa-se como carne, nem pessoa alguma o come que o tenha por peixe, salvo se o conhecer primeiro. As fêmeas têm duas mamas pelas quais mamam os filhos, criam-se com leite (coisa que se não acha noutro peixe algum)..." (¹)
Bem se vê que Gândavo não sabia muito bem como diferenciar peixes de mamíferos. Não era, porém, o único a ignorar tais distinções.

Peixe-boi (²)

Há, também do Século XVI, a descrição feita por Gabriel Soares, detalhando o método cruel que era usualmente empregado na captura:
"Goaragoá é o peixe a que os portugueses chamam boi [...], o qual peixe tem o corpo tamanho como um novilho de dois anos, e tem dois cotos como braços, e neles umas mãos sem dedos; não tem pés, mas tem o rabo à feição de peixe e a cabeça e focinho como boi; tem o corpo muito maciço [...], não tem escama, mas a pele parda e grossa. A estes peixes se mata com arpões muito grandes, atados a grandes arpoeiras mui fortes, e no cabo delas atado um barril ou outra boia, porque lhe largam com o arpão a arpoeira, e o arpoador vai em uma jangada seguindo o rastro do barril ou boia, que o peixe leva atrás de si com muita fúria, até que o peixe se vaza todo do sangue e se vem acima da água morto, o qual levam atado a terra ou ao barco, onde o esfolam como novilho, cuja carne é muito gorda e saborosa, e tem o rabo como toucinho, sem ter nele nenhuma carne magra, o qual derretem como banha de porco e se desfaz todo em manteiga, que serve para tudo o para que presta a de porco, e tem muito melhor sabor [...]." (³)
Estejam certos os leitores de que, quanto aos colonizadores, a primeira utilidade que procuravam, em qualquer animal que encontravam, era a dos fins culinários. Mau para o peixe-boi, que foi amplamente apreciado. Por leigos e por clérigos.
O Padre Anchieta, pelo que se depreende de seus escritos, apreciava a carne do peixe-boi, embora tivesse lá suas preocupações. Dizia ele:
É excelente para comer-se, não saberias porém discernir se deve ser considerado como carne ou antes como peixe; da sua gordura, que está inerente à pele e mormente em torno da cauda, levada ao fogo faz-se um molho, que pode bem comparar-se à manteiga, e não sei se a excederá; o seu óleo serve para temperar todas as comidas; todo o seu corpo é cheio de ossos sólidos e duríssimos, tais que podem fazer as vezes de marfim." (⁴)
A questão-chave aqui é: "...não saberias porém discernir se deve ser considerado como carne ou antes como peixe". Muito simples, senhores leitores. Anchieta estava conjecturando se a carne do peixe-boi era ou não apropriada para dias de jejum prescritos pela Igreja, como era o caso da Quaresma. Grave problema naqueles tempos, nos quais havia muita religiosidade e, de um modo geral, pouco saber científico.
O caso pode hoje nos parecer irrelevante. Não o era, porém, no Século XVI. Não poucas vezes Anchieta e seus irmãos jesuítas registraram ter passado fome, enquanto percorriam a colônia portuguesa na América fazendo aquilo que criam ser seu dever, ou seja, procurando catequizar indígenas. Um único peixe-boi podia atingir centenas de quilogramas, e acabava sendo um suprimento alimentar muito bem recebido. É o que se percebe nesse trecho de uma carta, também escrita por Anchieta e datada de 31 de maio de 1560: "...e como pouca provisão nos sobrasse para o resto da viagem, lançaram os marinheiros a rede ao mar, e colheram de um só lanço dois dos tais bois marinhos, os quais, apesar de serem tão grandes, não romperam a rede, quando um só deles era suficiente para rasgar e despedaçar muitas redes; e assim, provendo-nos com fartura a munificência divina, fizemos o resto da viagem." (⁵)
Que ideia tinham os jesuítas de si mesmos? O relato dessa pesca que reputavam miraculosa é bastante elucidativo, uma vez que toda a linguagem que Anchieta empregou é quase clonada de um certo milagre registrado no Evangelho segundo São João: "Ascendit Simon Petrus et traxit rete in terram plenum magnis piscibus centum quinquaginta tribos et cum tanti essent non est scissum rete" - e, com serem tantos, a rede não se partiu...

(1) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p. 40.
(2) SELLIN, Alfred Wilhelm. Das Kaiserreich Brasilien. Leipzig: Frentag, 1885, p. 55.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 282.
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, pp. 107 e 108.
(5) Ibid., p. 110.


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