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segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A ordem era plantar mandioca

A mandioca, de acordo com a Cosmographie Universelle
de Thevet (¹)
A mandioca era fundamental na alimentação dos indígenas do Brasil. Os colonizadores portugueses logo aprenderam seu uso, bem como o elaborado processo que permitia a fabricação da farinha, da qual havia dois tipos, segundo explicação que, no Século XVI, escreveu Pero de Magalhães Gândavo em seu Tratado da Terra do Brasil:
"Há todavia farinha de duas maneiras: uma se chama de guerra, e outra fresca, a de guerra é muito seca, fazem-na desta maneira para durar muito e não se danar; a fresca é mais branda e tem mais substância; finalmente que não é tão áspera como a outra, mas não dura mais que dois, três dias; como passa daqui logo se dana." (²)
Sobre a farinha dita "de guerra", frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (³), observou:
"É chamada farinha de guerra, porque os índios a levam quando vão à guerra longe de suas casas, e os marinheiros fazem dela sua matalotagem daqui para o Reino."
No entanto, como cultura de subsistência que era, a mandioca estava longe de ser uma prioridade entre os agricultores dos tempos coloniais. Mais interessante (e lucrativo) era plantar cana, destinada à fabricação de açúcar. Por isso, não chega a ser surpreendente que, às vezes, acontecesse faltar comida na Bahia. Para sanar esse problema tão sério, em 10 de novembro de 1690 o almotacel-mor, Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho, fez passar bando pelo qual ficavam os moradores de Salvador (então "Cidade da Bahia"), até a uma distância de dez léguas, obrigados a plantar, cada um, quinhentas covas de mandioca. Desobedientes seriam multados em cem mil réis. 
Ainda assim, não foram poucos os autores que, posteriormente, continuaram a falar da falta de farinha de mandioca decorrente da absoluta prioridade outorgada ao cultivo de cana-de-açúcar.
Os muito ricos, quando torciam o nariz para alimentos elaborados com mandioca, tinham a alternativa dos artigos que vinham de Portugal e que, por isso mesmo, eram caríssimos. Na Informação da Província do Brasil Para Nosso Padre (⁴), datada de 1585 e atribuída a José de Anchieta, lê-se que "alguns ricos comem pão de farinha de trigo de Portugal [...], e de Portugal também lhes vem vinho, azeite, vinagre, azeitonas, queijo, conserva e outras coisas de comer" (⁵). Isso, no entanto, já sabem os leitores, não era para qualquer um, de modo que a maior parte dos colonizadores tinha que sobreviver com os produtos da terra, coisa que devia ser a mais óbvia e natural deste mundo, se levarmos em conta as excelentes condições de cultivo e a extensão territorial dos domínios lusitanos na América.

(1) THEVET, André. Cosmographie Universelle vol. 2. Paris: Guillaume Chaudiere, 1575. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil: História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p. 59.
(3) O manuscrito é de c. 1627.
(4) O padre-geral dos jesuítas em 1585 era o italiano Claudio Acquaviva.
(5) ANCHIETA, Pe. Joseph de, S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 428.


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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Por que o peixe-boi era muito apreciado no Período Colonial

O peixe-boi é mamífero sirênio. Portanto, de peixe, só tem o nome pelo qual é popularmente conhecido. No Brasil, as espécies encontradas, uma marítima, outra fluvial, são Trichechus manatus e Trichechus inunguis, respectivamente.
No Século XVI, os colonizadores europeus ficaram maravilhados com ele. Gândavo observou:
"É um peixe muito saboroso e totalmente parece carne e assim tem o gosto dela; assado parece lombo de porco ou de veado, coze-se com couves, e guisa-se como carne, nem pessoa alguma o come que o tenha por peixe, salvo se o conhecer primeiro. As fêmeas têm duas mamas pelas quais mamam os filhos, criam-se com leite (coisa que se não acha noutro peixe algum)..." (¹)
Bem se vê que Gândavo não sabia muito bem como diferenciar peixes de mamíferos. Não era, porém, o único a ignorar tais distinções.

Peixe-boi (²)

Há, também do Século XVI, a descrição feita por Gabriel Soares, detalhando o método cruel que era usualmente empregado na captura:
"Goaragoá é o peixe a que os portugueses chamam boi [...], o qual peixe tem o corpo tamanho como um novilho de dois anos, e tem dois cotos como braços, e neles umas mãos sem dedos; não tem pés, mas tem o rabo à feição de peixe e a cabeça e focinho como boi; tem o corpo muito maciço [...], não tem escama, mas a pele parda e grossa. A estes peixes se mata com arpões muito grandes, atados a grandes arpoeiras mui fortes, e no cabo delas atado um barril ou outra boia, porque lhe largam com o arpão a arpoeira, e o arpoador vai em uma jangada seguindo o rastro do barril ou boia, que o peixe leva atrás de si com muita fúria, até que o peixe se vaza todo do sangue e se vem acima da água morto, o qual levam atado a terra ou ao barco, onde o esfolam como novilho, cuja carne é muito gorda e saborosa, e tem o rabo como toucinho, sem ter nele nenhuma carne magra, o qual derretem como banha de porco e se desfaz todo em manteiga, que serve para tudo o para que presta a de porco, e tem muito melhor sabor [...]." (³)
Estejam certos os leitores de que, quanto aos colonizadores, a primeira utilidade que procuravam, em qualquer animal que encontravam, era a dos fins culinários. Mau para o peixe-boi, que foi amplamente apreciado. Por leigos e por clérigos.
O Padre Anchieta, pelo que se depreende de seus escritos, apreciava a carne do peixe-boi, embora tivesse lá suas preocupações. Dizia ele:
É excelente para comer-se, não saberias porém discernir se deve ser considerado como carne ou antes como peixe; da sua gordura, que está inerente à pele e mormente em torno da cauda, levada ao fogo faz-se um molho, que pode bem comparar-se à manteiga, e não sei se a excederá; o seu óleo serve para temperar todas as comidas; todo o seu corpo é cheio de ossos sólidos e duríssimos, tais que podem fazer as vezes de marfim." (⁴)
A questão-chave aqui é: "...não saberias porém discernir se deve ser considerado como carne ou antes como peixe". Muito simples, senhores leitores. Anchieta estava conjecturando se a carne do peixe-boi era ou não apropriada para dias de jejum prescritos pela Igreja, como era o caso da Quaresma. Grave problema naqueles tempos, nos quais havia muita religiosidade e, de um modo geral, pouco saber científico.
O caso pode hoje nos parecer irrelevante. Não o era, porém, no Século XVI. Não poucas vezes Anchieta e seus irmãos jesuítas registraram ter passado fome, enquanto percorriam a colônia portuguesa na América fazendo aquilo que criam ser seu dever, ou seja, procurando catequizar indígenas. Um único peixe-boi podia atingir centenas de quilogramas, e acabava sendo um suprimento alimentar muito bem recebido. É o que se percebe nesse trecho de uma carta, também escrita por Anchieta e datada de 31 de maio de 1560: "...e como pouca provisão nos sobrasse para o resto da viagem, lançaram os marinheiros a rede ao mar, e colheram de um só lanço dois dos tais bois marinhos, os quais, apesar de serem tão grandes, não romperam a rede, quando um só deles era suficiente para rasgar e despedaçar muitas redes; e assim, provendo-nos com fartura a munificência divina, fizemos o resto da viagem." (⁵)
Que ideia tinham os jesuítas de si mesmos? O relato dessa pesca que reputavam miraculosa é bastante elucidativo, uma vez que toda a linguagem que Anchieta empregou é quase clonada de um certo milagre registrado no Evangelho segundo São João: "Ascendit Simon Petrus et traxit rete in terram plenum magnis piscibus centum quinquaginta tribos et cum tanti essent non est scissum rete" - e, com serem tantos, a rede não se partiu...

(1) GÂNDAVO, Pero de Magalhães. Tratado da Terra do Brasil. Brasília: Ed. Senado Federal, 2008, p. 40.
(2) SELLIN, Alfred Wilhelm. Das Kaiserreich Brasilien. Leipzig: Frentag, 1885, p. 55.
(3) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 282.
(4) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, pp. 107 e 108.
(5) Ibid., p. 110.


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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Viagem atrasada por falta de feijão

Já escrevi neste blog sobre a alimentação dos marinheiros que viajavam de Portugal para o Brasil durante o Período Colonial - quem tiver interesse no assunto, poderá ler "De que se alimentavam os marinheiros e soldados em uma armada portuguesa no Século XVII". Hoje, e também na próxima postagem, faremos a rota em sentido contrário, investigando quais eram os suprimentos providenciados para quem fazia a travessia do Atlântico partindo do Brasil com destino a Portugal.
Vale lembrar que naquela época (mesmo hoje não é muito diferente) havia alimentação para a marujada e passageiros de baixo estrato social, assim como havia coisas reservadas aos altos funcionários administrativos do governo lusitano, bem como a outros passageiros de elevada posição.
Mas vamos ao que interessa. Na segunda metade do Século XVIII uma nau portuguesa, a "Nossa Senhora da Ajuda", fez uma desastradíssima viagem entre o Rio de Janeiro e Lisboa. Sucede que nela viajava um militar, Elias Alexandre e Silva que, depois de sobreviver às maiores peripécias no oceano, uma vez a salvo publicou uma obrinha de título enorme: Relação ou Notícia Particular da Infeliz Viagem da Nau de Sua Majestade Fidelíssima, Nossa Senhora da Ajuda e São Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro Para Lisboa. Quase dá pra cansar...
No dito opúsculo, nosso homem descreveu não apenas as desgraças da viagem, como (para nossa sorte), deixou muitas informações valiosas sobre as práticas relacionadas à navegação em seus dias. Entre outras coisas, explicou que, ao sair da Cidade da Bahia (Salvador), tendo vindo do Rio de Janeiro,  a nau "Nossa Senhora da Ajuda" teve sua partida atrasada em nada menos que quarenta e oito dias, já que faltava, na cidade, um suprimento adequado do mais importante artigo para alimentação da soldadesca e tripulantes: feijão. Escreveu Elias Alexandre e Silva:
"Ao som de caixas se mandou anunciar ao povo o breve dia da saída da nau. Este porém se demorou com causa justa e necessária, não estando da parte de pessoa humana remediar o que só Deus pode fazer. A antecedente frota, que daquele porto tinha saído, embarcou mantimentos bastantes para a longa viagem de três meses, e por consequência muitos feijões, que é o mantimento de menos preço e mais usual em viagens do Brasil; mas sendo tão necessário, e que em as naus régias se dá à tripulação e guarnição delas, era o que menos havia, e na demora de o mandar vir de longe e em outras diligências, se gastaram quarenta e oito dias." (*)
Entende-se, pois, que a quantidade de feijão necessária era grande; entende-se, igualmente, que a Cidade da Bahia e suas adjacências não tinham como fornecer tanto feijão para duas frotas consecutivas (junto com a "N. Sra. da Ajuda" iam outras sete embarcações menores); entende-se, por último, que o único remédio, nesse caso, era esperar que mais feijão viesse de terra adentro.
Senhores leitores, continuaremos o assunto na próxima postagem.

(*) SILVA, Elias Alexandre e. Relação ou Notícia Particular da Infeliz Viagem da Nau de Sua Majestade Fidelíssima, Nossa Senhora da Ajuda e São Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro Para Lisboa. Lisboa: Regia Officina Typografica, 1778, p. 14.


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quarta-feira, 3 de julho de 2013

A importância do milho na alimentação no Brasil Colonial

Ao que se sabe, o milho é originário do território onde hoje é o México, e importantes civilizações pré-colombianas dominavam a técnica de seu cultivo e uso na alimentação. No Brasil, foi amplamente cultivado desde os tempos coloniais, sendo mencionado, em documentos da época, frequentemente ao lado de culturas de mandioca e algodão, estas últimas aprendidas com os povos indígenas que viviam em áreas colonizadas por portugueses.
Sabe-se, por exemplo, por informação da Nobiliarchia Paulistana, de Pedro Taques de Almeida Paes Leme, que Amador Bueno (¹) tinha muitos índios escravizados, e que esses cativos eram ocupados em atividades agrícolas, dentre as quais a de cultivar milho:
"Com o trabalho destes homens, ocupados em dilatadas culturas, tinha todos os anos abundantes colheitas de trigo, milho, feijão e algodão."
Além disso - é o próprio Pedro Taques quem observa - o milho parecia ser muito útil na alimentação não apenas de humanos, mas também na de cavalos, e era fornecido a eles, no Brasil, como ração diária:
"...é o que se dá diariamente no Brasil aos cavalos, principalmente na capital de São Paulo, e tem feito ver a experiência a utilidade que recebem desse alimento, que os faz mais briosos, alentados e capazes de aturarem, como aturam, jornadas de duzentas léguas, sem haverem um só dia de descanso." Compreende-se a importância desse fato, em tempos em que quase toda viagem e/ou transporte terrestre de cargas se fazia com o auxílio de tropas de equinos e muares.
Quem, por sua vez, metia-se em expedições que procuravam ouro, não deixava de prover-se de produtos do milho, particularmente da farinha que dele se fazia, havendo quem, para fornecer tais suprimentos, plantasse roças no caminho dos sertanistas. O seguinte trecho é também da Nobiliarchia Paulistana:
"Foi Francisco Pedroso de Almeida o fundador da fazenda chamada Araraquara, do sertão e estrada das minas dos Goiases, onde se estabeleceu com grossas culturas, de cujos frutos, pelas sementeiras de milho e feijão e criação abundante de porcos, se aproveitavam os viandantes daquela comprida estrada, fornecendo-se de todo o necessário para sustento da jornada..."
Excetuando-se o perigo em que viviam tais agricultores, em razão das constantes escaramuças com índios, o ramo de negócio a que se dedicavam era lucrativo. Os esfomeados do ouro muitas vezes chegavam às roças a quase, literalmente, morrer de fome, e dispostos, portanto, a pagar preços exorbitantes por suprimentos alimentícios, dentre os quais o milho era um dos mais destacados.
Nas minas, então, os preços dos alimentos alcançavam as nuvens: de acordo com Antonil, nas chamadas "Gerais", sessenta espigas de milho eram vendidas por nada menos que trinta oitavas de ouro e, por seis bolos feitos com farinha de milho, cobravam-se três oitavas (²).

(1) É o famoso "aclamado" rei em 1640, que, na verdade, recusou a tal aclamação. Veja, sobre isso, a postagem "Sobre a aclamação de Amador Bueno e a interpretação de documentos históricos".


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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A alimentação dos escravos nos engenhos de açúcar do Brasil Colonial

Já houve quem aventasse a ideia de que os escravos que trabalhavam nos engenhos de açúcar no Brasil Colonial tinham uma alimentação, sob certos aspectos, até melhor que a dos senhores que habitavam a casa-grande. Sucedia assim, afirmou-se, porque os escravos recebiam um pequeno pedaço de terra no qual podiam, nas horas de folga, cultivar para si gêneros alimentícios que complementavam a ração diária que recebiam; já os senhores de engenho e suas famílias, afeitos à comida de Portugal, alimentavam-se, rotineiramente, de conservas que recebiam do Reino, que chegavam ao Brasil em muito mal estado, depois de meses de travessia do Atlântico.
Entretanto, os escritos deixados por autores que presenciaram a escravidão nos engenhos de modo algum corroboram tal visão que, se tem algo de "romântica", talvez não corresponda à realidade. É bom lembrar que esses autores, como a maioria das pessoas de seu tempo, não eram contrários à escravidão (o que acrescenta confiabilidade ao seu testemunho), apenas condenavam os maus-tratos a que eram submetidos os cativos.
Uma escrava, de acordo com Thomas Ender (⁶)
Cabe, pois, antes de mais nada, perguntar qual era, afinal, o tempo livre que um escravo de engenho tinha para empreender algum cultivo próprio. Quem já leu, de André João Antonil, (¹) a célebre obra Cultura e Opulência do Brasil Por Suas Drogas e Minas, sabe muito bem que os trabalhadores eram ocupados nos afazeres relacionados à produção de açúcar desde o nascer do sol até entrada a noite, ocorrendo, por vezes, na temporada de safra da cana, que um engenho funcionasse ininterruptamente, dia e noite. Além disso, como veremos em uma postagem que não tardará a aparecer neste blog, muitos senhores sequer faziam respeitar o direito dos escravos ao descanso nos domingos e feriados religiosos, como preconizava a Igreja. Não espanta, pois, que o Padre Antonil/Andreoni não medisse palavras em condenar às penas do inferno os senhores que, extraindo deles até a última gota de suor, abandonavam-nos à penúria absoluta quando se tratava de alimentação e vestuário:
"Porém não lhes dar farinha, nem dia para a plantarem e querer que sirvam de sol a sol no partido, de dia, e de noite com pouco descanso no engenho: como se admitirá no Tribunal de Deus sem castigo? Se o negar a esmola a quem com grave necessidade a pede é negá-la a Cristo Senhor nosso, como ele o diz no Evangelho, que será negar o sustento e o vestido a seu escravo? E que razão dará de si quem dá serafina e seda e outras galas às que são ocasião de sua perdição, e depois nega quatro ou cinco varas de algodão e outras poucas de pano da Serra a quem se derrete em suor para o servir, e apenas tem tempo para buscar uma raiz e um caranguejo para comer?" (²)
Além disso, no Compêndio Narrativo do Peregrino da América (³), provavelmente o primeiro bestseller em terras do Brasil, o autor, Nuno Marques Pereira, oferece a seguinte argumentação:
"Queixam-se muitos senhores, que lhes fogem os escravos, e lhes morrem, sendo que muitos escravos com maior razão se podiam queixar de seus senhores, pelos [sic] terem em suas casas tratando-os tão mal. [...] A fome e o frio metem a lebre a caminho. Como é possível viver um escravo em um lugar onde onde o matam à fome, e o deixam perecer ao frio, e sobre isso o fazem trabalhar?" (⁴)
E prossegue, comparando a situação dos escravos nos engenhos do Brasil à dos bois em Portugal:
"Os lavradores em Portugal, ainda aos bois com que trabalham, lhes dão o sustento necessário, e os recolhem do frio, porque se assim não o fizessem, trabalhariam um ano, porém para o outro haviam de ficar sem bois que os ajudassem. E eu vejo que muitos lavradores do Brasil tratam tão mal a seus escravos, que não só os fazem trabalhar de dia, senão ainda de noite, rotos, nus, e sem sustento. Pois com que razão se queixa um homem destes que assim obra, de que lhe fujam os escravos, e lhe morram, faltando-lhes ele com o necessário alimento para a vida?" (⁵)
Chegamos, pois, meus leitores, aos seguintes termos: Se os senhores, pela fúria de produzir o máximo possível de açúcar, descuidavam do cultivo de gêneros alimentícios até para si mesmos, como supor que teriam alguma preocupação com este assunto em relação a seus escravos? Não é difícil perceber que, nessas condições, é pouco provável que o escravos pudessem, em verdadeiro idílio, cultivar suas hortas, das quais, prodigiosamente, extrairiam melhor sustento do que o disponível para seus senhores. Os documentos acima citados são, nesse aspecto, bastante claros; eventuais exceções, quando as houvesse, eram apenas para confirmar a regra.
Por outro lado, é verdade que, em algumas situações, em tempos posteriores tornou-se comum entregar uma fração de terra aos escravos para que a cultivassem e dela dispusessem para uso próprio - isso não era de todo incomum em fazendas de café, no século XIX - mas, nesse caso, vê-se mais uma vez a perfídia da lógica escravista: se o escravo plantava um "extra" para sua alimentação, ficava o senhor dispensado, por assim dizer, dessa obrigação.
 
(1) Sobre a verdadeira identidade de André João Antonil, veja a postagem "Antonil e a vida diária em um engenho de açúcar do Brasil Colonial".
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, pp. 26 e 27.
(4) PEREIRA, Nuno Marques. Compêndio Narrativo do Peregrino da América. Lisboa: Oficina de Manoel Fernandes da Costa, 1731, p. 160.
(5) Ibid., pp. 160 e 161.
(6) O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

As lavouras nas proximidades das Minas do Cuiabá e o que nelas se cultivava

Quem viajava pela rota das monções até as Minas do Cuiabá tinha de levar boa quantidade de suprimentos. Como já se explicou em postagem anterior, esses suprimentos quase sempre acabavam antes do final da viagem e, por vezes, a fome era uma companhia extremamente cruel aos esfomeados do ouro. Por isso, aos poucos foram surgindo roças a distâncias não muito grandes das minas, nas quais os monçoeiros podiam comprar algum mantimento para amenizar as dificuldades da longa jornada que haviam empreendido.
A pergunta é: Por que roças somente tão perto de Cuiabá, e não mais longe, já que eram tão necessárias e certamente haveria compradores para a produção?
Primeiro, as roças não eram vistas como uma prioridade - importante, mesmo, era a busca pelo ouro e, nesse sentido, poucos eram os que se dispunham a desenvolver algum tipo de cultivo. Quando isso acontecia, era interessante estar perto do núcleo de povoação, pois os preços que nas minas se pagavam por gêneros alimentícios eram extremamente altos.
Bananeira, segundo gravura de Debret (*)
Além disso, havia uma outra razão para que a lavoura não se fizesse muito longe da povoação: os confrontos com a população indígena foram, nessa área, particularmente violentos. Inconformados com a presença de "gente nova" em áreas que consideravam como suas, os índios atacavam as roças, levavam a colheita, queimavam casas e outras instalações e, muitas vezes, matavam senhores e escravos que ali viviam (não se surpreenda, leitor: os povoadores não agiam de modo muito diferente). Daí se vê que, por razões defensivas, os agricultores não queriam tentar o estabelecimento de plantações muito distantes, ainda que os monçoeiros muito procurassem por alimentos em seu caminho. Há relatos de gente que foi cultivar áreas distantes e que conseguiu fazê-lo por certo tempo, até que uma monção, por ali passando (em intensa expectativa de comprar novos suprimentos), constatava estar tudo completamente destruído pelas chamas e, para horror geral, chegava-se a avistar ossadas humanas expostas, talvez como uma espécie de advertência.
Sendo as coisas assim, o que se cultivava nas roças existentes nas imediações nas minas? A lista não é muito extensa e inclui, como não poderia deixar de ser, aquilo que produzia sem muita dificuldade: milho (com uma infinidade de aplicações), mandioca (principalmente para se fazer farinha), feijão, batata, melão e melancia, banana e, certamente não para atender necessidades alimentares, fumo. Rotineiramente, criavam-se galinhas e porcos e, algumas vezes, cabras também. Não era muito, mas era disso que se abastecia a população mineradora em Mato Grosso, uma vez que, ao contrário do que ocorria nas Gerais, em que grande parte dos suprimentos vinha de longe, nas costas das mulas dos tropeiros, aqui já não havia essa possibilidade. A distância dos maiores centros de povoação era muito maior e, até por restrições governamentais para evitar o contrabando de metal precioso não quintado, um caminho terrestre que fosse praticável demorou a ser estabelecido.

(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Haja apetite! Alimentos embarcados na monção do governador Rodrigo César de Meneses em 1726

A alimentação de monçoeiros - pobres ou ricos - foi assunto da postagem anterior. Houve, no entanto, exceções à regra absolutamente notáveis. Uma delas foi o excelentíssimo senhor governador capitão-general Dom Rodrigo César de Meneses, obrigado, por ordens de Sua Majestade, o rei de Portugal, a deixar São Paulo, empreendendo a duríssima viagem até Cuiabá, isso em 1726.
Acontece que esse homem não era daqueles que perderiam a pose, mesmo metido em estreita embarcação meses a fio. Por isso, levou consigo gente que cuidasse de tornar sua vida tão cômoda quando fosse possível e, naturalmente, farta matalotagem para satisfazer-lhe o voraz apetite. Seu secretário, Gervásio Leite Rebelo, teve o cuidado de tudo registrar com o máximo critério, de modo que eis aí a lista de tudo o que se embarcou para alimentação específica do governador, assegurando-lhe não ser torturado, diariamente, com o mesmíssimo virado à paulista que se preparava para os demais:

Grãos (não se especificam quais) ............................................ 4 alqueires

Aletria ............................................................................................ 7 arrobas

Cuscuz .......................................................................................... 4 arrobas

Manteiga ....................................................................................... 7 arrobas

Peixe seco ................................................................................... 4 arrobas

Doces ........................................................................................... 8 arrobas

Chocolate ..................................................................................... 4 arrobas

Marmelada ................................................................................... 144 caixas

Biscoitos ....................................................................................... 6 barris

Paios ............................................................................................. 2 barris

Queijos .......................................................................................... 60 unidades

Azeite de oliva ............................................................................. 5 barris

E, para que o digno representante de sua majestade "matasse a sede", embarcaram-se também:

Vinho .............................................................................................. 8 barris

Aguardente do Reino, ou seja, de uva ...................................... 8 frasqueiras

Aguardente da Terra, ou seja, de cana-de-açúcar .................. 3 barris

Para os demais integrantes da dita monção, foi embarcada uma grande quantidade de farinha (150 alqueires de farinha de milho e 100 de farinha de mandioca, além de 23 alqueires de farinha de trigo, o que era pouco usual), 65 alqueires de feijão e 12 porcos.
Ainda assim, o estrito secretário de Dom Rodrigo César de Meneses registrou que o fim da viagem, concluída a 15 de novembro de 1826, se fez sob muita falta de alimentos, a ponto de os remadores estarem bastante enfraquecidos. Nenhuma surpresa, já que eram eles que realizavam o mais árduo trabalho e os que, com frequência, menos cuidados recebiam.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Cobras, lagartos e outros bichos - De que se alimentava a população das minas coloniais quando faltava comida

Afoitos pela busca do ouro, os mineradores estabelecidos precariamente nas Gerais enfrentaram, por vezes, situações extremas de falta de alimentos. Há relatos de alguns que, na ausência de suprimentos adequados, acabaram comendo lagartixas, lagartos, cobras, içás e lagartas encontradas na madeira apodrecida de algumas árvores. A febre das riquezas que podiam vir rapidamente levava multidões ao esquecimento de uma das mais básicas condições para a sobrevivência, ou seja, a necessidade de que fossem estabelecidas lavouras dos gêneros necessários ao sustento de tanta gente.
Já nas minas de Cuiabá uma série de fatores veio a contribuir para que a fome grassasse no ano de 1725, levando a população mineradora às raias do desespero, em decorrência da falta geral de víveres. Sem poder contar com o abastecimento que vinha de longe, já que uma monção que devia conduzi-los foi exterminada em combate com indígenas, restava à população sobreviver apenas de produtos locais. Ocorre que, a despeito de neste caso haver roças, duas pragas terríveis - de ratos e de gafanhotos - destruíram praticamente toda a safra de milho e feijão. Nos extremos da penúria, consta que um frasco de sal chegou a ser cotado a meia libra de ouro, enquanto que um casal de gatos (para combater os ratos) foi vendido por nada menos que uma libra (¹).
Um século mais tarde, fazer a jornada fluvial pela mesma antiga rota das monções podia, ainda, significar a necessidade de "adaptação" a alimentos que pareciam ser algo estranhos, conforme sabemos pelo relato de um dos desenhistas da Expedição Langsdorff, Hércules Florence:
"Deixando a monção continuar a subir o rio com a habitual lentidão, fomos, eu e os Senhores Riedel e Taunay, por terra umas duas léguas até ao salto do Corau. Não leváramos senão uma espingarda de caça, algumas cargas de chumbo fino, uma bala e dois biscoitos que constituíram nosso jantar. Chegamos antes do pôr do sol ao salto, demo-nos pressa em formar provisório abrigo com folhas de palmeira guacuri. Felizmente matou o Sr. Taunay um lagarto que nos serviu de ceia e que a fome transformou em manjar suculento. Deparou-se-nos também um cacho de bananas que pendia de raquítico tronco. Caso houvessem estado maduras, não teriam escapado à gente de Costa Rodrigues: por incomíveis as deixaram, mas nosso apetite era tal que, assadas assim mesmo verdes, foram regalo precioso." (²)


(2) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 63.


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quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

De que se alimentavam os marinheiros e soldados em uma armada portuguesa no Século XVII

Data de 1624 a tentativa de ocupação holandesa da região da Bahia - uma área considerada muito interessante não apenas por ser, na época, a capital do Brasil, mas principalmente pelos engenhos de açúcar que havia nas redondezas. Aliás, foi por causa do precioso açúcar, segundo Frei Vicente do Salvador, que Portugal resolveu enviar uma armada que pudesse prestar auxílio aos moradores da terra, na luta pela expulsão dos holandeses.
Para se ter uma ideia da importância da produção açucareira da Bahia nessa ocasião, deve-se levar em conta o número de engenhos que ali havia, comparando-se inclusive com o existente em outras áreas, ainda segundo Frei Vicente do Salvador:

Localidade                                                                  Número de Engenhos
Bahia .................................................................................... 50
Rio de Janeiro ...................................................................... 40
Pernambuco ......................................................................... 100
Itamaracá (era capitania separada) ...................................... 18 ou 20
Paraíba ................................................................................. 18 ou 20

Ora, diante desses dados, compreende-se porque é que, após o fracasso da tentativa de ocupação da Bahia, intentaram os holandeses, a partir de 1630, estabelecer-se em Pernambuco e adjacências.
Mas, retomando a questão da presença holandesa na Bahia, bem se pode entrever a opinião que os moradores daquela região tinham do socorro enviado desde a Europa, já que nosso padre historiador não deixou de salientar que toda a preocupação era com o eventual prejuízo que a falta do açúcar daria às alfândegas. Não nos esqueçamos: eram ainda os tempos da chamada "União Ibérica" (¹) e um rei espanhol. Filipe III, governava Portugal.
A armada que veio ao Brasil precisava, naturalmente, trazer suprimentos que permitissem aos combatentes uma sobrevivência adequada. E, nesse sentido, Frei Vicente do Salvador deixou-nos um registro admirável, que nos permite saber, com precisão, de que se alimentavam os marujos e soldados. Observe-se, pois:
"... se carregaram para a campanha sete mil e quinhentos quintais (²) de biscoito, oitocentas e cinquenta e quatro pipas (³) de vinho, mil trezentas e sessenta e oito de água, quatro mil centro e noventa arrobas (⁴) de carne, três mil setecentas e trinta e nove de peixe, mil setecentas e oitenta e duas de arroz, cento e vinte e dois quartos (⁵) de azeite, noventa e três pipas de vinagre, fora outro muito provimento de queijos, passas, figos, legumes, amêndoas, açúcar, doces, especiarias e sal [...]." (⁶)
A partir disso, podemos fazer algumas considerações:
a) Os alimentos trazidos eram aqueles que tinham condições minimamente satisfatórias de conservação, tanto para a longa viagem como para um período ainda indefinido de combate;
b) Os portugueses já tinham muita experiência nesse sentido, uma vez que estavam habituados a preparar a matalotagem de navegantes que ficavam longos períodos no mar;
c) Era necessário trazer água (que, a propósito, ficava imprestável na viagem), porque a armada poderia encontrar dificuldade para o desembarque de tropas e reabastecimento;
d) Independente da questão de conservação dos alimentos, não se pode deixar de notar que o carregamento refletia, também, as preferências e hábitos alimentares da maioria dos portugueses da época. Esses hábitos influenciaram bastante os costumes do Brasil Colonial, de modo que só gradualmente é que outras tradições culinárias - brasileiras, propriamente ditas - foram se estabelecendo.

(1) 1580 a 1640.
(2) Um quintal era medida equivale a quase 59 kg.
(3) Uma pipa correspondia a 420 litros.
(4) Uma arroba era correspondente a pouco mais de 14,6 kg.
(5) Um quarto geralmente correspondia a meia pipa, portanto 210 litros.
(6) SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil. O autor foi testemunha ocular da ocupação holandesa da Bahia.


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domingo, 27 de novembro de 2011

De que se alimentavam os colonizadores recém-chegados e os náufragos no Brasil

Depois de semanas ou meses no mar, os colonizadores finalmente chegavam às terras do Brasil. O que os esperava? Certamente não uma boa acolhida em uma estalagem confortável (lembre-se, era o século XVI) e, dependendo da localidade e da ocasião, não havia nem mesmo um teto sob o qual descansarem. A embarcação, para que não encalhasse, ficava a uma boa distância no mar, enquanto os novos colonos eram levados à praia em batéis. Com sorte, encontrariam água, frutos e caça. As primeiras povoações demoraram a desenvolver-se e, por isso, quem vinha ao Brasil, fosse de livre vontade ou em virtude de uma sentença de degredo, já sabia que os primeiros tempos seriam muito difíceis.
Se, em lugar de um desembarque, a chegada à costa era consequência de um naufrágio, a situação podia ser ainda pior. O colono que desembarcava podia trazer consigo alguns pertences, ferramentas e mesmo alguns suprimentos; já os náufragos, estavam longe de ter essa possibilidade, ainda que, em alguns casos, conseguissem salvar alguma coisa da embarcação perdida.
Temos, a respeito, o testemunho de Hans Staden (¹) e, como ele, muitos outros que não eram portugueses devem ter vindo parar na costa da América (²). Conta-nos que, estando em uma embarcação espanhola para a qual fora contratado como artilheiro, chegaram, segundo registro do piloto, a 28º Sul, o que nos indica estarem no litoral de Santa Catarina, tendo desembarcado em uma ilha (seria a de mesmo nome?). Ali, depois de fazerem fogo, derrubaram uma palmeira, da qual tiraram o palmito, que era uma novidade para muitos europeus e do qual, nos registros da época, encontramos descrições atribuindo-lhe os mais variados sabores.
A situação desses navegantes, entretanto, piorou, de modo que, nos cerca de dois anos e meio que ali permaneceram, foram obrigados a alimentar-se de coisas que lhes pareciam abomináveis: ratos silvestres, lagartos, mariscos, enfim, aquilo que encontravam, mesmo porque, ainda segundo o relato de Hans Staden, os índios, que inicialmente tinham "cooperado", deixaram de fazê-lo e desapareceram quando as poucas mercadorias que tinham para escambo acabaram. Melhor situação encontraram em outra ilha onde havia uma grande colônia de alcatrazes que, conta-nos, eram fáceis de capturar. Com isso, tiveram carne e ovos.
Finalmente, conseguiram sair dali, mas naufragaram próximo a São Vicente e o nosso informante acabou contratado para trabalhar na defesa da área ocupada por portugueses, fato que lhe resultaria em terríveis problemas, ao ser capturado por tupinambás. Mas é desse tempo no qual serviu na fortaleza lusitana que deixou uma informação que muito nos interessa, por dar uma ideia do que cabia aos recém-chegados colonizadores em termos de alimentação. Mencionando ter um escravo carijó que lhe trazia caça, Staden conta que, no Brasil, não havia muito mais alimento senão aquilo que se achava no mato. É fácil compreender que o confronto permanente com os nativos dificultava, senão impedia completamente, o estabelecimento de lavouras que, afinal, nem poderiam mesmo ser muito extensas, na estreita faixa de terra existente entre o Oceano Atlântico e a Serra do Mar.

(1) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.


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