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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Todos os navios deveriam ter...

Conselhos para os marinheiros que cruzavam o Atlântico no Século XVIII


Tudo que já se escreveu sobre os perigos e sofrimentos das viagens marítimas do passado talvez seja ainda insuficiente para dar conta das cenas de horror, aliás muito frequentes, de que as embarcações eram palco. 
Nem poderia ser diferente, quando uma porção de gente passava meses no mar, enfrentando a fúria das tempestades ou semanas inteiras de calmaria (o que seria pior?), com a mais lamentável alimentação, não poucas vezes com falta de água e, até por consequência, em contínua exposição a doenças, algumas causadas por desnutrição severa, outras por absoluta falta de higiene. Isso tudo em companhia de animais que viajavam vivos, até o momento em que deviam virar comida, pra não falar dos que iam mesmo sem convite: ratos, por exemplo. 
No Século XVIII um grupo de embarcações saiu do Brasil em comboio, uma prática comum na época, para dar alguma segurança, e tomou o rumo de Lisboa, onde poucos dos que empreenderam a viagem chegaram vivos, depois da mais cruel tempestade. Um dos sobreviventes, Elias Alexandre e Silva, escreveu e publicou a Relação ou Notícia Particular da Infeliz Viagem da Nau de Sua Majestade Fidelíssima, Nossa Senhora da Ajuda e São Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro Para Lisboa (para que um título tão grande...), na qual contou toda a desgraça que havia presenciado. Por isso mesmo, fez, logo de saída, uma importante recomendação aos que faziam a rota do Atlântico: deviam ter sempre, em cada embarcação, "paus, massame, mantimentos e aguada, mais do que até aqui se julgava necessário, para se navegar com bonanças, e, sobretudo, [...] um leme sobressalente, que somente costumam levar as naus da Índia, como se Éolo e Netuno só naqueles mares fossem soberbos." (*)
Convém explicar que era preciso levar madeira para o caso de algum conserto indispensável na embarcação, assim como massame, que bem poderia ser útil em caso de avarias decorrentes do mau tempo. Resta indagar se era viável levar mais água e alimentos, tendo em conta a capacidade limitada de cada navio. Já quanto a ter um leme adicional não cabem objeções. Quem porventura estiver disposto a ler a obrinha escrita por Elias Alexandre e Silva não demorará a entender o motivo de sua tão enfática quanto prudente recomendação.

(*) SILVA, Elias Alexandre e. Relação ou Notícia Particular da Infeliz Viagem da Nau de Sua Majestade Fidelíssima, Nossa Senhora da Ajuda e São Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro Para Lisboa. Lisboa: Regia Officina Typografica, 1778, p. 2.


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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Galinhas e gado ao mar!

Na postagem anterior (¹) mostrei que, pelas alturas do Século XVIII, o mais comum alimento na navegação do Brasil para Portugal era o feijão. Agora, veremos que outros suprimentos eram também usuais.
À nau "Nossa Senhora da Ajuda", já em viagem no Atlântico Norte, deparou-se pavorosa tempestade, que bem poderia tê-la submergido para sempre. Ora, o autor da Relação ou Notícia Particular da Infeliz Viagem da Nau de Sua Majestade Fidelíssima, Nossa Senhora da Ajuda e São Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro Para Lisboa, relatou alimentos que se perderam em meio à fúria da tormenta:
"A desordem que isto causava deu motivo a se lançarem ao mar as coisas soltas, e algumas de muito valor, que se achavam em movimento. As capoeiras das galinhas entraram neste número, e por isso se perderam todas as aves, que passavam de oitocentas cabeças. O gado não achando, nem se lhe podendo dar algum asilo, quebrava as mãos, pescoços e pernas, e assim mortas ou moídas se lançaram ao mar mais de vinte e cinco reses." (²)
Cabe aqui a explicação, a bem da clareza, que "capoeiras" eram gaiolas para aves. Bem, a lamentação do alferes Elias Alexandre e Silva não era, por certo, pela vida das galinhas - elas iriam morrer de qualquer jeito - era justamente por não terem ido para a panela. Vale exatamente o mesmo para as cabeças de gado (e não só para as cabeças, claro está).
A oficialidade que viajava precisava, no entanto, de um pouco mais que feijão e alguma quantidade de carne. Logo mais, no desenrolar da tempestade, isso também se perderia:
"Os barris de manteiga, azeite, vinagre, queijos , açúcar e todos os comestíveis menos grosseiros se viam perdidos ou espalhados pelo convés [...]." (³)
Finalmente, para completar o drama, até mesmo alguns tonéis de água se foram:
"Até cinco tonéis de água se abateram no porão, tais eram os nunca vistos balanços!" (⁴)
Afinal, meus leitores, havemos de considerar, a bem da História, que a desdita da gloriosa nau "Nossa Senhora da Ajuda" faz, hoje, a nossa boa sorte. Não fora a notável tempestade em que se meteu, e o alferes Elias Alexandre e Silva não teria assunto relevante para escrever. Teve, porém, e de sobra, pela experiência dramática da qual foi testemunha ocular, o que nos permite, hoje, bisbilhotar com facilidade sobre o que abastecia a cozinha de uma grande embarcação naqueles tempos.

(1) A postagem de hoje será melhor compreendida com a leitura da anterior, "Viagem atrasada por falta de feijão".

(2) SILVA, Elias Alexandre e. Relação ou Notícia Particular da Infeliz Viagem da Nau de Sua Majestade Fidelíssima, Nossa Senhora da Ajuda e São Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro Para Lisboa. Lisboa: Regia Officina Typografica, 1778, p. 40.
(3) Ibid., pp. 40 e 41.
(4) Ibid., p. 41.


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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Viagem atrasada por falta de feijão

Já escrevi neste blog sobre a alimentação dos marinheiros que viajavam de Portugal para o Brasil durante o Período Colonial - quem tiver interesse no assunto, poderá ler "De que se alimentavam os marinheiros e soldados em uma armada portuguesa no Século XVII". Hoje, e também na próxima postagem, faremos a rota em sentido contrário, investigando quais eram os suprimentos providenciados para quem fazia a travessia do Atlântico partindo do Brasil com destino a Portugal.
Vale lembrar que naquela época (mesmo hoje não é muito diferente) havia alimentação para a marujada e passageiros de baixo estrato social, assim como havia coisas reservadas aos altos funcionários administrativos do governo lusitano, bem como a outros passageiros de elevada posição.
Mas vamos ao que interessa. Na segunda metade do Século XVIII uma nau portuguesa, a "Nossa Senhora da Ajuda", fez uma desastradíssima viagem entre o Rio de Janeiro e Lisboa. Sucede que nela viajava um militar, Elias Alexandre e Silva que, depois de sobreviver às maiores peripécias no oceano, uma vez a salvo publicou uma obrinha de título enorme: Relação ou Notícia Particular da Infeliz Viagem da Nau de Sua Majestade Fidelíssima, Nossa Senhora da Ajuda e São Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro Para Lisboa. Quase dá pra cansar...
No dito opúsculo, nosso homem descreveu não apenas as desgraças da viagem, como (para nossa sorte), deixou muitas informações valiosas sobre as práticas relacionadas à navegação em seus dias. Entre outras coisas, explicou que, ao sair da Cidade da Bahia (Salvador), tendo vindo do Rio de Janeiro,  a nau "Nossa Senhora da Ajuda" teve sua partida atrasada em nada menos que quarenta e oito dias, já que faltava, na cidade, um suprimento adequado do mais importante artigo para alimentação da soldadesca e tripulantes: feijão. Escreveu Elias Alexandre e Silva:
"Ao som de caixas se mandou anunciar ao povo o breve dia da saída da nau. Este porém se demorou com causa justa e necessária, não estando da parte de pessoa humana remediar o que só Deus pode fazer. A antecedente frota, que daquele porto tinha saído, embarcou mantimentos bastantes para a longa viagem de três meses, e por consequência muitos feijões, que é o mantimento de menos preço e mais usual em viagens do Brasil; mas sendo tão necessário, e que em as naus régias se dá à tripulação e guarnição delas, era o que menos havia, e na demora de o mandar vir de longe e em outras diligências, se gastaram quarenta e oito dias." (*)
Entende-se, pois, que a quantidade de feijão necessária era grande; entende-se, igualmente, que a Cidade da Bahia e suas adjacências não tinham como fornecer tanto feijão para duas frotas consecutivas (junto com a "N. Sra. da Ajuda" iam outras sete embarcações menores); entende-se, por último, que o único remédio, nesse caso, era esperar que mais feijão viesse de terra adentro.
Senhores leitores, continuaremos o assunto na próxima postagem.

(*) SILVA, Elias Alexandre e. Relação ou Notícia Particular da Infeliz Viagem da Nau de Sua Majestade Fidelíssima, Nossa Senhora da Ajuda e São Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro Para Lisboa. Lisboa: Regia Officina Typografica, 1778, p. 14.


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