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segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Como terminou a primeira viagem de circum-navegação

Dia 6 de setembro de 1522: dezoito homens esquálidos em decorrência de indizíveis privações, chegam ao porto de Sanlúcar de Barrameda, Espanha, em uma embarcação que, literalmente, cai aos pedaços. Eram os únicos a completar aquela que, até onde se sabe, foi a primeira viagem de circum-navegação. 
No diário de Antonio Pigafetta, espanhol que se juntara à expedição comandada por Fernão de Magalhães, e que foi um dos dezoito a voltar, lê-se: 
"Graças à Providência, no sábado, dia 6 de setembro, entramos na baía de Sanlúcar, e, dos sessenta tripulantes que éramos ao sair das ilhas Molucas, só restamos dezoito, quase todos doentes. Quanto aos outros, houve os que fugiram para ficar no Timor, alguns foram sentenciados à morte em decorrência de crimes cometidos, e outros, ainda, morreram de fome." (¹)
Pode-se imaginar qual terá sido a reação dos habitantes de Sanlúcar ao ver chegar esses intrépidos sofredores, depois de sua louca aventura no mar! 
Dois dias mais tarde, os navegadores foram a Sevilha e, para contar que, afinal estavam de volta, dispararam toda a artilharia do navio - ou o que restava dela. No dia seguinte, 9 de setembro, terça-feira, desembarcaram e foram a terra. Não para casa, porém, e sim a cumprir promessa feita em viagem: 
"[...] descalços e levando uma vela na mão, fomos às igrejas de Nossa Senhora da Vitória e de Santa Maria da Antigua, conforme promessa que fizéramos nas ocasiões de angústia." (²)
Enquanto esses celebravam a volta, é possível que, em muitas casas, lágrimas caíssem pelos que nunca voltariam. 

(1) Os trechos do diário de Antonio Pigafetta aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid. 


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sexta-feira, 20 de setembro de 2024

A expedição de Fernão de Magalhães, antes de sair da Espanha

A esquadra liderada por Fernão de Magalhães, cinco navios ao todo, deixou Sanlúcar de Barrameda em 20 de setembro de 1519. Seguiu para as Canárias, onde se abasteceu de água e carvão, e de lá, para a América do Sul, já que a ideia que norteava a expedição era encontrar uma passagem no extremo sul do Continente, de onde pudesse ter acesso ao Pacífico e, então, depois de demonstrar na prática que as Molucas, pelo Tratado de Tordesilhas, pertenciam à Espanha, completar a primeira viagem de circum-navegação, retornando a seu ponto de partida na Europa. 
As pretensões eram grandiosas, os riscos, enormes. Exatamente por isso, Magalhães, muito religioso, como eram aliás, quase todos em seu tempo, ordenou algumas providências antes da partida, que, em seu entender, seriam uma preparação conveniente ao grande empreendimento. Antonio Pigafetta, um italiano que esteve entre os poucos que completaram a viagem, escreveu uma espécie de diário, no qual se lê:
"Pela manhã, todos iam a terra para ouvir missa na Igreja de Nossa Senhora de Barrameda; antes da partida, o comandante deu ordem para que toda a tripulação fosse se confessar e proibiu que, sob qualquer pretexto, alguma mulher fosse embarcada na esquadra." (*)
Considerava-se, na época, que, diante dos riscos, todos deviam estar preparados para morrer. O próprio Magalhães nunca voltou. Provou-se, porém, com essa expedição, que era possível dar a volta ao mundo. A esfericidade da Terra estava, portanto, demonstrada.

(*) O trecho citado do Diário de Pigafetta foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


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sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Ratos no cardápio

De que se alimentavam os marinheiros da primeira viagem de circum-navegação quando faltava comida a bordo


A primeira viagem conhecida de circum-navegação, empreendida por uma expedição espanhola composta por cinco navios, mas comandada, curiosamente, por Fernão de Magalhães, que era português, saiu de Sevilha em 10 de agosto de 1519, uma segunda-feira, e deixou Sanlúcar em 20 de setembro do mesmo ano (¹). Pode-se imaginar que os tripulantes talvez estivessem eufóricos, pela possibilidade de empreender uma viagem nunca antes realizada, na qual esperavam adquirir fama e muita riqueza. E quanto aos que ficavam? Podemos apenas supor o sentimento misto de orgulho e de tristeza, já que a possibilidade de uma separação definitiva de parentes e amigos era real. 
A viagem transcorreu dentro do previsto até que, já em 1520, tiveram de enfrentar o inverno extremo no sul do Continente Americano. É evidente que essa foi uma expedição de alto risco. Supunha-se a existência de um "mar austral", no qual haveria uma passagem para o "outro lado do mundo"; tiveram a sorte de, em meio às buscas, topar com a passagem à qual hoje chamamos Estreito de Magalhães, mas a distância, depois de deixar a costa da América do Sul, até chegar às "ilhas das especiarias", as Molucas, era consideravelmente maior do que a calculada pelo comandante, com base em escassas informações e cartas de marear que vira. Por isso, e pelas condições de navegação da época, tornou-se impossível obter suprimentos em quantidade e qualidade suficientes para tal navegação. 
Sabe-se que a saída do Estreito aconteceu em 28 de novembro de 1520. Estavam, agora, diante do oceano a que chamaram Pacífico, porque assim parecia. Aí tiveram pela frente nada menos que três meses e vinte dias sem provar qualquer alimento fresco, e desnecessário é dizer que o escorbuto grassava entre a marujada, fazendo a tripulação inicial, de mais de duzentos homens, ir-se, gradualmente, reduzindo. De acordo com Antonio Pigafetta, um italiano que, a bordo da embarcação em que estava Magalhães, escreveu um registro da viagem, era esta a situação quanto à comida, capaz de dar calafrios, até hoje, em quem lê:
"O biscoito que comíamos já não se parecia pão, mas um pó misturado com bichos [...] e que, por estar cheio de urina de rato, tinha um cheiro insuportável. [...] Chegamos ao extremo, para não morrer de fome, de comer pedaços do couro que recobria o mastro maior [...]. Este couro, devido à exposição à água [salgada], ao sol e ao vento, estava tão enrijecido que, antes de ser cozido e comido, devia ficar por quatro ou cinco dias na água do mar, para tornar-se mais macio." (²)
Não foi só. Finalmente, no dizer de Pigafetta, "nossa alimentação se reduziu à serragem de madeira, porque nem ratos, tão asquerosos, havia mais [...]."
Depois disso, encontraram ilhas, até então desconhecidas, e, assim, ao menos puderam trocar as mercadorias que traziam (³) por algum alimento. 
Não foi, contudo, o fim dos problemas. Magalhães, envolvendo-se em um conflito tribal entre ilhéus, morreu em decorrência de ferimentos recebidos em Cebu. Agora, a preocupação era: como voltar à Espanha? 
O comando recaiu em Sebastián Elcano, a quem, por estranho que pareça, Pigafetta não fez qualquer referência. Conseguiram chegar às Molucas, fizeram o comércio que esperavam, abarrotaram os dois navios que ainda tinham, mas, na hora da partida, perceberam que um deles não poderia viajar, tão avariado estava. Portanto, apenas o navio Victoria empreendeu a viagem de volta, levando cartas dos tripulantes que ficavam nas Molucas, à espera de uma oportunidade para retornar à terra de origem. Daí por diante, a viagem, como se esperava, foi dificílima. Não foram poucas as vezes em que marinheiros pensaram na possibilidade da permanência em qualquer lugar em que se pudesse viver, tal era o sofrimento no mar. 
Porém...
Após tantas desgraças, o Victoria chegou a Sanlúcar em 6 de setembro de 1522, um sábado, com apenas dezoito homens, entre os quais o senhor Pigafetta, a quem devemos tantas informações (⁴). Dois dias mais tarde estavam em Sevilha, onde um tiro de canhão, vindo do navio que à custa concluía a viagem, anunciou o fim de uma das mais loucas expedições já realizadas. 
O que terá acontecido nessa ocasião? Gente correndo ao porto, pedindo notícias de parentes e amigos, mulheres ou filhos chorando pelos que não haviam voltado, que eram quase todos... Sobreviventes tinham a oportunidade perfeita para contar o que haviam vivido, com o exagero que a distância permitia. Era a rotina a cada navio que retornava após uma longa viagem. 
Ao falar de animais exóticos vistos nas ilhas por onde andaram, Pigafetta teve o cuidado de mencionar terem visto "morcegos tão grandes quanto águias". Ora, mesmo admitindo que fossem como águias das espécies menores, essa história devia cheirar a fake news, pelo menos quanto ao tamanho do mamífero voador. Continuava Pigafetta: "a um matamos e comemos, e nos pareceu ter sabor de frango". Tiveram sorte, portanto, em não arranjar, no começo da terceira década do Século XVI, um problema do Século XXI.

(1) Lembrem-se, leitores, de que as datas são todas anteriores à introdução do Calendário Gregoriano.  
(2) Os trechos citados do Diário de Pigafetta foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) A intenção era chegar às "ilhas das especiarias" e lá comprar cravo e outros condimentos que pudessem ser revendidos com alto lucro na Europa. 
(4) E algumas desinformações. Seu diário está repleto de notícias fantasiosas sobre humanos gigantes e pigmeus, além de animais estranhíssimos, cuja existência jamais foi comprovada. 


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quarta-feira, 17 de julho de 2024

Introdução da varíola entre os astecas e outros povos indígenas

A varíola não era conhecida na América antes da chegada de europeus. Foi assim, segundo Bernal Díaz del Castillo (¹), que a doença se introduziu entre indígenas, ao tempo em que Montezuma, imperador Asteca, caíra prisioneiro de espanhóis, e que Hernán Cortés se vira obrigado a combater os homens de Pánfilo de Narváez, que vinha contra ele:
"[...] Voltemos agora ao Narváez e a um negro que trazia cheio de varíolas, [..] que foi causa que toda a terra se enchesse delas, de que se seguiu grande mortandade, porque, conforme diziam os índios, nunca antes tinham tido tal enfermidade, e como não a conheciam, lavavam-se muitas vezes, e [...] morreram muitos deles." (²) 
Bernal Díaz também relatou que a varíola foi responsável pela morte de muitos chefes indígenas:
"[...] como naquele tempo a varíola andou tão comum na Nova Espanha, morreram muitos caciques [...]" (³).
Sem qualquer imunidade contra a terrível doença, os indígenas morriam depois de muito sofrimento. Vê-se, portanto, que não só de cavalos, armas de fogo e soldados se fez a chamada "conquista" do Império Asteca e de outros povos da mesma região. A introdução, intencional ou não, de novas doenças, foi muito importante para debilitar a resistência dos povos nativos em sua tentativa de conter os invasores espanhóis. 

(1) Soldado a serviço de Hernán Cortés, o autoproclamado conquistador do México. 
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid.   


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quinta-feira, 14 de maio de 2020

A falta de água em viagens marítimas

A falta de água potável em navios nos séculos XV e XVI estava entre os maiores pesadelos dos marinheiros. Afinal, era água e mais água ao redor, mas os sedentos marujos não podiam nem pensar em bebê-la, porque era salgada. 
Assim, facilmente se explica por que razão, a cada oportunidade, iam todos os navegantes "fazer aguada", ou seja, abastecer os tonéis de água, ainda que, no momento, não houvesse falta. Na Carta de Caminha, relata-se que, mesmo antes que alguém fosse mandado a terra e que, desse modo, se fizesse o descobrimento oficial do Brasil, procurou-se um lugar favorável para aportar em busca de água e lenha, reconhecendo o escrivão que, naquele momento, não tinham escassez dessas coisas: "Fomos ao longo da costa [...], para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso onde ficássemos, para tomar água e lenha, não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui". Navegantes experientes, os portugueses sabiam que, diante de tanta e tão boa água, valia a pena abastecer os navios, pelo risco de não terem como fazê-lo mais tarde, quando prosseguissem no rumo das Índias.
Se estavam em alto mar e faltava água, só havia uma coisa que os marinheiros podiam fazer, e era suplicar aos céus por chuva. Quando ela vinha, os navegadores usavam recolher cada gota, do melhor modo que podiam. Um método era estender lençóis no convés e, cessando a chuva, torcê-los, para recolher o líquido. Segundo Jean de Léry, foi esse o procedimento adotado quando fazia a viagem de regresso à França em 1558, porque no navio estava disponível, diariamente, apenas um copo pequeno de água imunda para cada um. A sede era tanta que até mesmo a água que escorria pelo convés era recolhida e sofregamente ingerida, ainda que muito suja. Bernal Díaz del Castillo, um soldado que se tornou famoso ao escrever sobre a chamada "conquista do México" por Hernán Cortés, da qual participou, fez o registro de experiência similar. "Digo que tanta sede passamos", afirmou (¹), "que na língua e na boca, tão secas, tínhamos rachaduras, pois nada havia para refrigério" (²).
Situação análoga foi provada pelos homens que, com Pedro Sarmiento de Gamboa, contornaram a Patagônia e, no rumo da costa da África, chegaram à Europa (³). O relatório da viagem diz que, em certo dia, já em direção aos arquipélagos perto da África, "[...] às dez da noite caiu um grande aguaceiro, do qual se tomou alguma água, o que foi grande consolo, porque o calor era excessivo e pouca a água que tínhamos, já bastante racionada" (⁴).
Quando, afinal, chegaram ao arquipélago de Cabo Verde, a população local apenas se convenceu quanto à veracidade da viagem que diziam ter feito em razão do péssimo aspecto que tinham os marinheiros, com cabelo e barba que não viam a ação de tesoura ou navalha há muito tempo. Mas Pedro Sarmiento, ao dar conta do sucedido, concluiu: "[...] vínhamos mais cobiçosos de água que de parecer lindos" (⁵).

(1) Bernal Díaz del Castillo foi um soldado espanhol que participou da expedição de Cortés. Escreveu a obra muitos anos depois, já em idade avançada.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Entre 1579 e 1580. 
(4) GAMBOA, Pedro Sarmiento de. Viage al Estrecho de Magallanes. Madrid: Imprenta Real de la Gazeta, 1768, p. 314. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) Ibid., p. 343.


terça-feira, 21 de abril de 2020

Era uma vez um rei que mandava navegar

Era uma vez - por que não? - era uma vez um rei. O rei tinha uma porção de conselheiros, gente da nobreza, funcionários públicos e homens interessados em negócios, que davam palpites no governo, cuidando para fazer o monarca pensar sempre que eram próprias as ideias que favoreciam os interesses de outros. Assim, o rei achava que mandava, a gente da Corte jurava obedecer, como se as ordens reais viessem de Deus, e tudo ficava bem.
Pouco tempo antes, uma frota do reino fizera uma viagem muito longa, alcançando, finalmente, a meta que era perseguida há décadas e lançava gente corajosa em arriscadas aventuras marítimas. O empreendimento se provara lucrativo e era preciso consolidar a nova rota de comércio, além de causar melhor impressão no mandatário das terras distantes, que não ficara muito entusiasmado com a frota anterior que, para dizer a verdade, lhe parecera insignificante.
Dessa vez o rei queria fazer bonito e mandou para o mar uma bela expedição, com o que havia de melhor em navios, com muitos marinheiros, sob o comando de alguns dos melhores navegadores do reino. A festa de despedida dos que iam viajar para tão longe foi muito concorrida. O rei em pessoa compareceu. 
Já no mar, a frota dirigiu-se um pouco mais que o habitual para oeste, parou em um lugar aparentemente desconhecido e aproveitou para reabastecer as reservas de água, embora, naquele momento, não houvesse falta dela. Por ordem do comandante, um navio voltou ao reino para entregar notícias ao rei daquilo que até ali se fizera, enquanto os demais seguiram viagem, não sem trabalhos e perdas significativas. O rei mandara, seus fiéis servidores obedeciam, mesmo ao preço da vida.
Lição de casa para vocês, leitores: coloquem os nomes corretos em personagens e lugares, além de datas, nesta historinha. E vamos falar sério.
Vasco da Gama, que liderou a armada que chegou às Índias em 1498, completando a sonhada rota marítima ao Oriente, levava consigo uns cento e sessenta homens, entre marinheiros e soldados, em apenas quatro navios. Já a frota sob o comando de Cabral, que zarpou de Portugal em 9 de março de 1500, era composta por treze embarcações e levava mais de mil homens. A diferença era enorme.
Portanto, que fique entendido de uma vez por todas: a esplêndida frota comandada por Cabral foi aparelhada para ir às Índias, não para descobrir o Brasil, independentemente de ter o descobrimento ocorrido como um acidente de percurso ou de ser um objetivo secundário da empresa. A expectativa no Reino, ao enviar gente para repetir a viagem de Vasco da Gama,  era firmar relações sólidas de comércio no Oriente, possibilitando a remessa constante de especiarias - no sentido amplo - para a Europa, assim abrindo portas para lucros estratosféricos. Ninguém lançaria ao mar um conjunto de treze luzidos navios, com tantos marinheiros, entre os quais alguns dos mais distintos navegadores portugueses, para ir a um lugar que ninguém sabia o que era, se era, e onde era. Essa é a realidade em relação ao descobrimento do Brasil, por menos lisonjeira que pareça.


quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Descobridores tomavam posse das terras encontradas em nome do rei

Quando chegavam a um lugar que supunham estar descobrindo, navegadores dos Séculos XV e XVI, e mesmo mais tarde, tomavam posse do território em nome do respectivo rei ou imperador, com a formalidade que era, então, corrente. Assim fez Colombo, assim fez Cabral. Assim fizeram muitos outros.
As ordens expedidas para os que navegavam eram enfáticas nesse sentido. Ao mandar Martim Afonso de Sousa ao Brasil em 1530, como líder de uma expedição que devia investigar melhor o litoral e verificar as possibilidades de colonização, dizia o rei D. João III: ".[...] dou poder ao dito Martim Afonso de Sousa para que em todas as terras que forem de minha conquista e demarcação (¹) que ele achar e descobrir possa meter padrões [...] em meu nome [...]." Outro exemplo vem das ordens dadas a Pedro Sarmiento de Gamboa, a quem se encarregou uma expedição pelo Estreito de Magalhães nos anos de 1579 e 1580: "E onde quer que chegardes e saltardes em terra, tomareis posse, em nome de sua majestade, de todas as terras das províncias e partes a que chegardes, fazendo a solenidade e registros necessários, dos quais deem fé e testemunho em forma pública os ditos escrivães que levais." (²)
Sabe-se, mediante registro feito por seu escrivão, que Pedro Sarmiento cumpriu direitinho as ordens recebidas: "[...] o capitão superior Pedro Sarmiento se pôs em pé, e lançando mão a uma espada que tinha na cinta, disse em alta voz, em presença de todos, que fossem testemunhas de como "em nome da Sacra, Católica e Real Majestade do rei D. Filipe nosso senhor, rei de Castela e seus anexos, e em nome de seus herdeiros e sucessores", tomava posse daquela terra perpetuamente" (³). Em outra ocasião, registrou-se que a posse da terra foi declarada "sem contradição dos naturais" (⁴). Não consta, todavia, qualquer relatório de como e se os "naturais" foram informados da cerimônia e de seu significado.
Na lógica da época, quando descobridores tomavam posse de algum território, era como se o próprio rei ali estivesse, na pessoa de seus súditos, declarando que as terras encontradas eram, agora, de sua propriedade, incorporadas ao patrimônio real, com os aspectos práticos que daí resultavam, incluindo o direito a explorar o território e sua população como julgasse conveniente. E, como o rei estava longe, era também aos exploradores que competia, posteriormente, extrair as riquezas existentes, enviando às cabeças coroadas a parte que lhes correspondia. 
Ao desembarcar em 1518 no que viria a ser, mais tarde, a Nova Espanha, Hernán Cortés, no dizer de Bernal Díaz"tomou posse daquela terra por sua majestade e em seu real nome" (⁵). Ambicioso como era, não fazia ideia, contudo, do império que iria encontrar e, depois de combates e perdas terríveis, conquistar e destruir. Seria diferente se, em lugar de um súdito, estivesse lá, em pessoa, o rei da Espanha? Ninguém pode afirmar com certeza, mas os costumes então vigentes e os interesses econômicos, em tudo respaldados por argumentos religiosos, permitem, a quem quer que reflita sobre o assunto, fazer algumas conjecturas. Deixo aos leitores o direito às próprias conclusões.

(1) Uma provável referência às terras que, pelo Tratado de Tordesilhas, seriam de Portugal, mesmo que ainda não estivessem formalmente descobertas.
(2) GAMBOA, Pedro Sarmiento de. Viage al Estrecho de Magallanes. Madrid: Imprenta Real de la Gazeta, 1768, p. 16.
(3) Ibid., pp. 72 e 73.
(4) Ibid., p. 165. Os trechos aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Colombo não encontrou monstros na América

Ilustração de um exemplar manuscrito (c. 1475 - 1525) de As Viagens de Marco Polo

Em uma carta datada de 18 de fevereiro de 1493, cujo destinatário era Dom Gabriel Sanchez, escrivão dos "Reis Católicos", Fernando de Aragão e Isabel de Castela, Cristóvão Colombo, que há pouco havia chegado à América Central Insular com sua pequenina frota, composta por apenas três embarcações, fez a seguinte observação:"Ao contrário do que se imaginava, não encontrei aqui monstros, mas homens de grande respeito e bondosos." Mais adiante, na mesma carta, reiterou: "Não vi monstros, nem há quem deles tenha conhecimento [...]."
Parece evidente que, se foi necessário a Colombo dizer duas vezes que não havia monstros nas terras a que acabara de chegar é porque, em seu tempo, muitos criam piamente que, para além das terras já conhecidas dos europeus, quer em seu próprio continente, ou em lugares da Ásia e da África, haveria, sim, criaturas disformes, estranhas, brutalmente agressivas, monstruosas, enfim. Não que haja alguma prova de que Colombo, homem de certa instrução que era, fosse um adepto dessas tolices, mas seu relato trabalhava com a expectativa dos europeus de seu tempo. Além disso, mesmo autores eruditos do século seguinte ao da chegada de europeus à América costumavam incluir em suas obras alguma menção a seres mitológicos como se, de fato, existissem, talvez porque dessem sua existência como certa, ou, ainda, para não decepcionar os leitores.
É fato que Colombo, a essa altura dos acontecimentos, ainda pensava que havia circunavegado o globo terrestre e chegado às "Índias", Catai e Cipango (os dois últimos, China e Japão, respectivamente), terras orientais referidas por Marco Polo e que ele, Colombo, supunha ser possível alcançar e agregar às possessões da Espanha, navegando para o Ocidente. Portanto, devia esperar que, a qualquer momento, pudesse avistar as maravilhas de que falara o mercador veneziano mais de dois séculos antes. Nesse sentido, a espetacular viagem de Colombo seria uma enorme frustração. É que no caminho para Cipango e Catai havia todo um continente - a América - mas ele ainda não sabia disso. 


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quarta-feira, 11 de maio de 2016

Leis para manter a hegemonia lusitana no mar

As Ordenações do Reino (¹) são famosas, não sem justiça, pela severidade das penas estipuladas em seu Livro Quinto. Mas havia nelas outros aspectos interessantes e menos conhecidos, como era o caso das leis cujo objetivo era manter a posição de destaque que Portugal conquistara no mar. Em qualquer esfera, alcançar a hegemonia é muito difícil; mantê-la, mais ainda. Os legisladores portugueses deviam ter uma consciência bastante nítida deste fato.
No Livro Quinto, Título XCVII, lia-se:
"Se algum piloto, mestre, contramestre, marinheiro, grumete, bombardeiro, espingardeiro, e qualquer outra pessoa desta sorte, que indo nas nossas armadas deixar a nau ou navio em que for ordenado e dela se for sem licença e autoridade do nosso capitão-mor ou do capitão do navio, em que assim for ordenado, se do corpo da armada se partir, ora a armada vá para coisa de guerra, ora de mercadoria, pagará em quatrodobro (²) tudo o que tiver recebido de seu soldo. E sendo de maior qualidade, pagará da cadeia o dito quatrodobro do que tiver recebido, e será degradado por quatro anos para África." (³)
Tentem imaginar, leitores, o que aconteceria se, em uma viagem de descobrimento ou de exploração de um território, uma parte da marinhagem resolvesse ficar em terra, abandonando o navio, onde, costumeiramente, os mareantes de baixo estrato eram sempre maltratados. É perfeitamente possível que, numa situação dessas, ficasse difícil ao comandante, apenas com os marujos restantes, encetar mesmo uma viagem de retorno. E não pensem que isso nunca acontecia: há relatos de marinheiros que, estando na costa do Brasil, abandonaram o navio e fugiram com os índios. Se levarmos em conta as características da América do Sul nesse tempo, poderemos supor que a captura de algum desses trânsfugas era algo tão provável quanto fotografar um dinossauro passeando na superfície da lua...
Os dois dispositivos seguintes são, claramente, destinados a manter em Portugal os segredos e técnicas de construção naval e de navegação oceânica que outros povos ainda não dominavam. O Livro Quinto, Título XCVIII, trazia estrita proibição de que portugueses entrassem no serviço de navegação de algum outro país:
"Mandamos que nenhuns pilotos, mestres, marinheiros, que nossos naturais forem, aceitem partidos alguns em nenhumas navegações, nem armadas, que fora de nossos Reinos e Senhorios se façam, nem vão em elas em maneira alguma, sob pena se o contrário fizerem, e lhes for provado, de perderem por esse mesmo feito todos os seus bens, a metade para a nossa Câmara, e a outra para quem os acusar, e mais sejam degradados por cinco anos para o Brasil."
Havia, em seguida, uma justificativa para a proibição, que, por suposto, não expunha toda a verdade:
"Porque pois em nossos Reinos têm bem em que ganhar suas vidas em nossas armadas e navegações, não é razão que sendo nossos naturais, façam em outra parte as ditas navegações."
Poderíamos, aqui, tecer algumas considerações sobre o conceito de liberdade individual que transparecia em uma lei assim, mas já aí estaríamos deixando o assunto de hoje para navegar por outras águas. Mantenhamos a rota, portanto, para considerar o que dizia ainda o Livro Quinto, Título CXIV, arrematando o assunto das proibições para impedir o acesso ao conhecimento náutico lusitano e dificultar o estabelecimento de frotas poderosas em outros reinos:
"Defendemos (⁴) que pessoa alguma não venda a estrangeiros caravelas, nem naus, para fora do Reino, nem as vá lá fazer a estrangeiros, nem as frete para fora do Reino mais que por um só ano, e não será um ano após outro. Nem tire pano de treu (⁵) que se faça neste Reino, nem madeira, nem tabuado para fazer navios fora do Reino, sob pena de qualquer que o contrário fizer, ser preso até nossa mercê, e perder todos os seus bens para Nós."
As leis eram severas. Alcançaram o objetivo pretendido? Os leitores sabem que não. Pode levar algum tempo para que uma nova tecnologia seja desvendada por outros interessados, que não os seus inventores e/ou descobridores, mas a exclusividade não é eterna. Um exemplo mais recente (e literalmente explosivo) desse fenômeno tem a ver com o estabelecimento de arsenais nucleares. O uso em conflito das primeiras bombas atômicas está relacionado ao fim da Segunda Guerra Mundial. Era, então, tecnologia sofisticadíssima, que um só país dominava. Quantos não a têm, hoje, para desdita da humanidade?

(1) Legislação compilada e publicada no princípio do Século XVII, mas em grande parte já em uso muito antes disso. As Ordenações estiveram em uso no Brasil Colonial. Mesmo após a Independência, havendo alguma lacuna na legislação brasileira, os juristas recorriam às velhas leis do Reino.
(2) Quádruplo.
(3) Conforme a edição de 1824 da Universidade de Coimbra.
(4) Significava o mesmo que "proibimos".
(5) Usado para navegação sob tempestade.


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quarta-feira, 9 de março de 2016

Zona Tórrida

As grandes navegações dos Séculos XV e XVI provaram que as classificações climáticas adotadas pelos sábios da Antiguidade continham ideias absurdas


"É sempre um prazer ver as velhas e respeitáveis verdades 'respeitadas pelo tempo' de nossa infância esfrangalhadas e atiradas ao vento."
Richard Burton (1)

A ideia de classificar o mundo em três zonas climáticas surgiu, ao que parece, na cabeça de Eratóstenes (cerca de 276 a.C. a 195 a.C.), um sábio helenista que viveu em Alexandria (a do Egito). Foi ele mesmo quem colocou em prática um experimento que permitiu, naqueles tempos remotos, medir com razoável precisão a circunferência da Terra. Mas não foi só. Para chegar à noção de que a Terra tinha três zonas climáticas (frígida, temperada e tórrida), Eratóstenes precisava ter já algum conhecimento das condições do planeta em áreas que nunca havia visitado, além de supor, naturalmente, uma correspondência de climas ao longo da esfera terrestre.
Antes dele, porém, outros já haviam considerado a existência de uma misteriosa região, que, segundo conjecturavam, era tão quente que de modo algum poderia ser habitada. E, como Aristóteles (c. 384 a.C. - 322 a.C.) estava entre os defensores dessa ideia, a dita opinião foi, por muito tempo, considerada por muitos uma verdade incontestável, levando-se em consideração o prestígio atribuído ao pensamento do Estagirita entre a intelectualidade medieval.

Zonas climáticas da Terra, de acordo com a Cosmographia de Petrus Apianus,
publicada em Paris em 1553

As grandes navegações dos Séculos XV e XVI vieram provar que Aristóteles e companhia estavam simplesmente errados. Muito errados. Havia, é fato, uma região da Terra cujas temperaturas eram mais elevadas que as conhecidas na Europa da época. Não era, porém, em absoluto, impossível a existência de vida, inclusive humana, nesse lugar. E, já que na Antiguidade houve, também, quem achasse que a suposta zona tórrida devia ser um ótimo lugar, a coisa assumiu proporções de uma batalha ideológica, ainda que muitos séculos depois que os pensadores gregos e helenistas tinham andado por este pequeno planeta. Um melhor conhecimento da Terra, em decorrência das viagens marítimas, acabou, finalmente, com as dúvidas.
O Padre Simão de Vasconcelos, jesuíta que viveu no Brasil durante o Século XVII, escreveu bastante sobre o "desmentido" em relação às teorias relacionadas à zona tórrida, desde que se descobrira a América e, mais especificamente, desde que se passara a explorar o Hemisfério Sul:
"Confesso que andando correndo esta terra", observou ele, "e considerando a perfeição de sua formosura, me ria comigo algumas vezes, lembrando dos ditos dos antigos, e do engano em que viveram tantos séculos." (²)
Explicou, então, aos leitores das suas Notícias Curiosas e Necessárias:
"Aristóteles, o príncipe dos sábios, no segundo livro de seus Meteoros, capítulo V, com toda a escola de seus discípulos, foi o primeiro que infamou a América (³), apregoando dela e de toda a mais terra que corresponde à Zona a que chamava Tórrida, entre os dois círculos solstícios de Câncer e Capricórnio, ser terra inútil, seca, requeimada e incapaz de fontes, rios, pastos e arvoredos, e, por conseguinte deserta para sempre, e inabitável aos homens, pelos excessivos ardores causados da proximidade do Sol, que anda sempre sobre ela." (⁴)
Dando asas à imaginação, Simão de Vasconcelos pôs-se a pensar sobre qual seria a reação dos sábios da Antiguidade se pudessem ver o que era, de fato, a região do mundo à qual chamavam Zona Tórrida:
"Que diriam, se ressuscitassem hoje conosco, e vissem o que vemos? Sem dúvida que arrependidos diriam que a terra do Brasil, toda a América e toda a meia Zona, a que chamavam Tórrida, não só não é terra inútil, seca, requeimada, deserta, inabitável para gente humana, mas pelo contrário, que é uma região temperada, amena, abundante de chuvas, orvalhos, fontes, rios, pastos, verdura, arvoredos e frutos para perfeita habitação de viventes." (⁵)
Apresentou, por fim, em contraste, a opinião dos que, segundo ele, entendiam que a Zona Tórrida era não somente uma região perfeitamente ecúmena, mas ainda um verdadeiro paraíso terrestre:
"Não só os homens de nossos séculos, houve também muitos dos antigos que acertaram no conhecimento desta verdade. Assim o afirmavam Eratóstenes, Políbio, Ptolomeu, Avicena e não poucos dos nossos teólogos, de que faz menção São Tomás [...], que chegam a defender que nesta parte debaixo da linha equinocial criara Deus o paraíso terrestre, por ser esta a parte do mundo mais temperada, deleitosa e amena para a vida humana. Isto clamavam já tanto dantes estes autores, porém não eram cridos." (⁶)
Paraíso terrestre? Bem, aí já há certo exagero...

(1) BURTON, Richard. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Brasília: Senado Federal, 2001, p. 306.
(2) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Notícias Curiosas e Necessárias das Cousas do Brasil. Lisboa: Oficina de Ioam da Costa, 1668, p. 236.
(3) Sem jamais tê-la visto e, provavelmente, sem ter certeza de sua existência.
(4) VASCONCELOS, Pe. Simão de. Op. cit., p. 220.
(5) Ibid., pp. 228 e 229.
(6) Ibid., pp. 229 e 230.


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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Escorbuto

A alimentação pobre em vitamina C provocou muitas mortes entre marinheiros na era das grandes navegações


O escorbuto, como se sabe, é causado pela carência de vitamina C (¹). Embora já conhecido muito antes, foi ao tempo das grandes navegações que sua ocorrência veio a ser mais notada, porque os marujos ficavam longo tempo no mar, submetidos a uma alimentação péssima, e, como não poderia deixar de ser, quase sem ingredientes frescos. O problema era então gravíssimo, e muitos acabavam morrendo. 
Que tal um limão?
Todas as providências adotadas na época eram falhas, uma vez que a causa da doença era desconhecida. Ninguém sequer sabia da existência de vitaminas, e só muito tempo depois é que se verificou que um suprimento de limões e outras frutas cítricas podia ser muito útil para debelar os casos de escorbuto. 
Por séculos, no entanto, as gengivas inchadas e sangrando, que  aterrorizavam os valentes exploradores do oceano como sinal fatídico da doença, foram atribuídas a causas que não estavam de modo algum associadas a ela. Nieuhof, que esteve no "Brasil Holandês" entre 1640 e 1649, escreveu, logo depois de cruzar a Linha do Equador:
"O calor, aí, é terrível e a grande escassez de água potável - pois que se não pode contar com a das chuvas, alterada pelo ardor dos raios solares - constitui a causa principal do escorbuto." (²)
Como os leitores pode ver, Nieuhof estava completamente errado. No entanto, até que a verdadeira causa fosse descoberta, muita gente perdeu a vida, submetida, talvez, a tratamentos que nada tinham de eficazes (³).

(1) Ácido ascórbico.
(2) NIEUHOF, Joan. Memorável Viagem Marítima e Terrestre ao Brasil. São Paulo: Livraria Martins, s.d., p. 7.
(3) O que surpreende é saber que ainda hoje há casos de escorbuto, e não simplesmente entre pessoas que não têm acesso a uma alimentação saudável. Ocorrem em gente que, por negligência ou desconhecimento, adota uma dieta equivocada.


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segunda-feira, 13 de abril de 2015

Todos os navios deveriam ter...

Conselhos para os marinheiros que cruzavam o Atlântico no Século XVIII


Tudo que já se escreveu sobre os perigos e sofrimentos das viagens marítimas do passado talvez seja ainda insuficiente para dar conta das cenas de horror, aliás muito frequentes, de que as embarcações eram palco. 
Nem poderia ser diferente, quando uma porção de gente passava meses no mar, enfrentando a fúria das tempestades ou semanas inteiras de calmaria (o que seria pior?), com a mais lamentável alimentação, não poucas vezes com falta de água e, até por consequência, em contínua exposição a doenças, algumas causadas por desnutrição severa, outras por absoluta falta de higiene. Isso tudo em companhia de animais que viajavam vivos, até o momento em que deviam virar comida, pra não falar dos que iam mesmo sem convite: ratos, por exemplo. 
No Século XVIII um grupo de embarcações saiu do Brasil em comboio, uma prática comum na época, para dar alguma segurança, e tomou o rumo de Lisboa, onde poucos dos que empreenderam a viagem chegaram vivos, depois da mais cruel tempestade. Um dos sobreviventes, Elias Alexandre e Silva, escreveu e publicou a Relação ou Notícia Particular da Infeliz Viagem da Nau de Sua Majestade Fidelíssima, Nossa Senhora da Ajuda e São Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro Para Lisboa (para que um título tão grande...), na qual contou toda a desgraça que havia presenciado. Por isso mesmo, fez, logo de saída, uma importante recomendação aos que faziam a rota do Atlântico: deviam ter sempre, em cada embarcação, "paus, massame, mantimentos e aguada, mais do que até aqui se julgava necessário, para se navegar com bonanças, e, sobretudo, [...] um leme sobressalente, que somente costumam levar as naus da Índia, como se Éolo e Netuno só naqueles mares fossem soberbos." (*)
Convém explicar que era preciso levar madeira para o caso de algum conserto indispensável na embarcação, assim como massame, que bem poderia ser útil em caso de avarias decorrentes do mau tempo. Resta indagar se era viável levar mais água e alimentos, tendo em conta a capacidade limitada de cada navio. Já quanto a ter um leme adicional não cabem objeções. Quem porventura estiver disposto a ler a obrinha escrita por Elias Alexandre e Silva não demorará a entender o motivo de sua tão enfática quanto prudente recomendação.

(*) SILVA, Elias Alexandre e. Relação ou Notícia Particular da Infeliz Viagem da Nau de Sua Majestade Fidelíssima, Nossa Senhora da Ajuda e São Pedro de Alcântara do Rio de Janeiro Para Lisboa. Lisboa: Regia Officina Typografica, 1778, p. 2.


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domingo, 20 de novembro de 2011

Mercadorias que eram contrabandeadas do norte da África no Século XVI

Quem acha que o Tratado de Tordesilhas resolveu todas as questões sobre a posse de terras descobertas por navegadores a serviço de Espanha e Portugal está certamente enganado. Nem sequer havia certeza sobre o ponto de onde deveriam ser contadas as terras de um e outro reino e, em consequência disso, o comércio e mais atividades que se empreendiam por via marítima no século XVI eram, em grande parte, regidos pela lei daquele que, em dada circunstância, estivesse em maior número e com melhores armas.
Na edição de Marburg de
Zwei Reisen nach Brasilien 
esta gravura
ilustra o episódio da captura do

navio contrabandista no norte da África
Há um episódio relatado por Hans Staden (*) que ilustra bem este ponto. Conta que, tendo iniciado sua primeira viagem a partir de Lisboa, foram, ele e os demais de seu navio, inicialmente ao arquipélago da Madeira e, depois, à costa da África. Cabe aqui explicar que o alemão havia se alistado como artilheiro em uma embarcação portuguesa que devia reprimir o comércio de não-portugueses com os mouros do norte da África, além do contrabando, principalmente de pau-brasil, por parte de navios franceses que vinham à América.
Pois bem, foi no norte da África que encontraram um navio a fazer comércio com os chamados mouros e, tendo-o abordado, puseram em fuga os tripulantes, assim como os mouros que, de terra, queriam defender seus parceiros de negócios. Constatou-se então que os proprietários da embarcação "contrabandista" eram, ao menos em parte, de origem espanhola. O que mais nos interessa, porém, é a lista apresentada por Hans Staden das mercadorias que levavam, o que serve para nos dar uma excelente ideia quanto a que coisas eram consideradas valiosas o bastante nesse tempo para que se corresse o risco de um confronto que poria tudo a perder, como aliás, ocorreu neste caso.
Menciona ele que o navio capturado transportava tâmaras, amêndoas, goma arábica, couros de cabra e açúcar, carga que foi deixada na Ilha da Madeira enquanto o navio português, no qual Hans Staden era artilheiro, seguia viagem rumo ao Brasil, não porque se quisesse, mas porque, como ele próprio diz, um vento muito forte, que soprou à noite pela véspera de Todos os Santos (que é 1º de novembro), os empurrou, levando-os rumo a Pernambuco. Terrível a situação desses navegadores do século XVI, quando apenas se sabia aonde se queria ir, sem nunca ter certeza de onde de fato se ia chegar.

(*) STADEN, Hans. Zwei Reisen nach Brasilien. Marburg: 1557.


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domingo, 25 de julho de 2010

Grandes navegadores - Parte III: Uma aventura para valentes de diversas origens

Embarcações portuguesas contavam com marinheiros de diferentes nacionalidades


A maioria dos navegadores que, nos séculos XV e XVI, lançou-se a dominar os oceanos era, sem dúvida, composta por marinheiros profissionais, gente experimentada nas asperezas do ofício. A despeito disso, não conseguiam deixar de lado o entusiasmo pelo que viam nas "novas terras", como sobejamente o demonstram a Carta de Caminha e outros documentos, como o Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza (¹), já mencionado nas postagens precedentes desta série (Parte I e Parte II), no qual podemos ter uma ideia do deslumbramento dos europeus ante a paisagem do Continente Americano, pelo que lemos no seguinte trecho:
"Eu trazia comigo alemães e italianos, e homens que foram à Índia e franceses - todos eram espantados da formosura desta terra; e andávamos todos pasmados que nos não lembrava tornar." (²)
Note-se que Pero Lopes indica haver com ele homens de várias nacionalidades, o que demonstra que as navegações, encabeçadas principalmente por Portugal e Espanha, contaram, como empreendimento, com a participação de pessoas que eram contratadas devido à sua experiência e coragem, independente das origens. E, que isso não ocorreu apenas na expedição comandada por Martim Afonso (irmão de Pero Lopes, cujo Diário citamos) e que não incluía apenas europeus, mas também africanos, pode-se ver, por exemplo, no Livro da Nau Bretoa ), que refere a presença de negros como grumetes:
"Antonio [...] negro criado de Ruy Gomes
Antonio negro escravo de Artur Henriques
Bastiam escravo de Bartolomeu Marchone " (⁴)
Neste caso, o primeiro devia, provavelmente, ser de condição livre, sendo os dois últimos explicitamente citados como cativos. O aspecto interessante é que o primeiro escravo é descrito como "negro africano", mas, quanto ao segundo, não se especifica a origem. Há, além disso, no restante da lista dos navegantes da expedição, vários outros cuja nacionalidade não é identificada, mas seus nomes sugerem que talvez não fossem portugueses, sem omitir que, dos quatro armadores, dois deviam ser italianos, pois são, na ortografia da época, chamados "Bertolameu Marchone" e "Benadyto Morelle".
Além dos marinheiros de profissão havia, porém, quem viesse às Américas em busca de aventura - do que Hans Staden, com muita probabilidade, deve ser o mais famoso exemplo. Seja como for, para muitos marinheiros ou aventureiros, as terras recém-descobertas pareciam ser um lugar encantado, a ponto de não quererem retornar. Quanto a isso, concluímos com uma última citação do Diário da Navegação, no qual se registra, em julho de 1532:
"Aqui se lançaram com os índios três marinheiros da minha nau, e me detiveram oito dias buscando-os e não os pude haver por os índios mos esconderem." (⁵)
Estes, por certo, fizeram parte do grande número de europeus que, integrando-se à vida dos aldeamentos indígenas, começaram a lançar as bases de uma cultura tipicamente mameluca, que, por séculos, caracterizou algumas regiões do Brasil e que ainda hoje persiste em determinados lugares.


(1) Rio de Janeiro: Typ. de D. L. dos Santos, 1867.
(2) Página 54.
(3) Que partiu de Lisboa com destino ao Brasil em fevereiro de 1511 - anterior, portanto, à expedição de Martim Afonso, da qual também fazia parte Pero Lopes de Souza.
(4) Na mesma edição do Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza, p. 105.
(5) Página 70.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Grandes navegadores - Parte II: A coragem ultrapassa o medo

Navegadores dos Séculos XV e XVI corriam grandes perigos em suas viagens


Na primeira postagem desta série abordei a questão das incertezas enfrentadas pelos marinheiros dos séculos XV e XVI em suas viagens marítimas. Que dizer, entretanto, das dificuldades quotidianas de quem navegava? No mesmo Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza, mencionado em Incríveis Navegadores - Parte I, encontramos, à página 14:
"Sábado 14 do dito mês tomei o sol em três graus e três quartos: este dia todo não ventou; senão choveu muita água, e fazia tão grande calma, que não se podia suportar."
Tente imaginar, leitor, as embarcações a vela, retidas em alto mar pela absoluta falta de vento, estando a marujada inteiramente exposta, ora ao sol, ora às tempestades. Sob o sol, na zona equatorial, o calor do verão podia ser quase intolerável; se chovia, porém, o problema não era menor, como vemos por trechos respectivamente das páginas 22, 23, 29 e 30, em que são descritas tempestades, nas quais a água que lhes molhava o corpo talvez fosse o menor dos inconvenientes:
"Sexta-feira oito dias do mês (¹) [...]. À tarde nos deu uma trovoada de muita água; e entre as naus se fizeram duas mangas (²), de que os marinheiros houveram mui grande medo, por no mar ser coisa mui perigosa."
"Sábado (³)  no quarto-d'alva se fez o vento sudoeste; e veio tão súbito e furioso, que quase não deu lugar a amainar as velas; e ventou com tanta força (o qual ainda nesta viagem o não tínhamos assim visto ventar) que as naus sem velas metiam no bordo por debaixo do mar: era tamanha a escuridão e relâmpagos, que era meio-dia e parecia de noite; à tarde se fez o vento sul. Andava o mar tão grosso e tão feio que nos entrava por todas as partes. No quarto da prima ao sair da lua abonançou mais o vento; ficou o mar tão grande que nos não podíamos ter na nau. Da banda de bombordo me arrebentaram os aparelhos, com o jogar da nau."
Amainada a tempestade, ficavam consequências penosas, como equipamento danificado e perda de suprimentos, tão escassos quanto indispensáveis durante as viagens. Sobre isso, veja-se essa breve citação da p. 47:
"A água que choveu me molhou o mantimento todo, que mais não prestou." (⁴)
Sentiam medo os navegadores? Ora, leitor, eram humanos! É verdade que a luta contínua podia, talvez, fazê-los mais destemidos que o comum dos mortais, mas como não ter medo diante da fúria do mar, da possibilidade sempre elevada de doenças letais, da iminência da morte pela fome ou sede excruciantes? Todavia, a despeito de tamanhas dificuldades, esses incríveis navegadores prosseguiam rumo a suas metas, que muitas vezes eram desconhecidas...
O desconhecido que aterrorizava também compelia a prosseguir, mesmo sabendo que a vitória de  um dia podia transformar-se em derrota e morte em ocasião posterior. Não, não exagero: Bartolomeu Dias, o homem que liderou a ultrapassagem do Cabo da Boa Esperança em 1488, naufragou nas mesmas águas traiçoeiras cerca de doze anos depois; Juan Diaz de Solís foi assassinado por nativos no Uruguai, quando buscava uma passagem do Atlântico ao Pacífico; Fernão de Magalhães, que finalmente conseguiu passar por via marítima entre os dois oceanos, morreu em combate em abril de 1521 nas Filipinas; Juan Sebastián Delcano, o sucessor de Magalhães, morreu de escorbuto em 1526, e mesmo Vasco da Gama, que havia liderado a chegada às Índias em 1498, morreu de malária em Goa, no ano de 1524. Vale ainda acrescentar que, a cada embarcação que naufragava com um grande navegador, perdiam-se também muitos marinheiros anônimos, embora não menos audaciosos. Como um tributo à sua determinação e coragem, citamos, para concluir, os fatos referidos por Pero Lopes de Souza em seu diário (páginas 60 e 61):
"Ajuntamo-nos todos em uma pedra; porque o vento saltou ao mar; e crescia muito a água, que a ilha era quase toda coberta; senão um penedo em que todos estávamos, confessando uns aos outros, por nos parecer que era este o derradeiro trabalho. Assim passamos toda esta noite (⁵) em se todos encomendarem a Deus: era tamanho o frio, que os mais dos homens estavam todos entanguidos, e meio mortos. Assim passamos esta noite com tamanha fortuna, quanta homens nunca passaram."
"E não tínhamos que comer, que havia dois dias que a gente não comia; e muitos homens ficaram tão desfigurados do medo, que os não podia conhecer. Toda esta noite nos choveu e ventou com relâmpagos e trovões: que parecia que se fundia o mundo." (⁶)
Eram os dias  24 e 25 de dezembro de 1531: não deveriam eles celebrar o Natal?...


(1) Março de 1831.
(2) Trombas-d'água.
(3) Sábado, 23 de abril de 1531.
(4) Domingo, 24 de novembro de 1531.
(5) Terça-feira, 24 de dezembro de 1531.
(6) Quarta-feira, 25 de dezembro de 1531.



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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Grandes navegadores - Parte I: A incerteza faz companhia

Navegadores dos Séculos XV e XVI nem sempre sabiam em que lugar estavam


Hoje, quando alguém viaja ou planeja uma aventura qualquer, geralmente sabe aonde quer ir, quanto tempo gastará, quais os equipamentos indispensáveis e, quase sempre, é capaz de dizer o que espera encontrar ao chegar ao seu destino. Essas informações são vitais para a segurança de qualquer viajante. Não era esse o caso dos marinheiros dos séculos XV e XVI, pois quase tudo em suas viagens marítimas era  incerteza.
Um fato que chama a atenção nas navegações dos séculos XV e XVI é que os marinheiros pareciam nunca saber exatamente onde estavam, a menos que suas embarcações "andassem a vista de terra" já conhecida. Veja-se, por exemplo, no Diário da Navegação de Pero Lopes de Souza pela Costa do Brasil até o Rio Uruguai  (¹), de 1530 a 1532, p. 10:
"Sexta-feira 9 dias de dezembro às três horas depois de meio-dia houve vista da terra; e chegando-nos mais a ela, reconhecemos ser a ilha de Tenerife. Como foi noite tiramos as monetas (²); e pairamos a noite toda até o quarto d'alva, que nos fizemos à vela."
Além disso, na página 16, encontramos o seguinte registro: 
"Assim que nesta paragem a pilotagem é incerta: por experiência verdadeira, para saberdes se estais de barlavento ou de julavento (³) da ilha de Fernão de Loronha (⁴), quando estais de barlavento vereis muitas aves as mais rabiforcados e alcatrazes pretos; e de julavento vereis mui poucas aves, e as que virdes serão alcatrazes brancos. E o mar é mui chão."
E mais adiante, ainda na p. 16:
"Segunda-feira 30 dias do mês de janeiro tomei o sol: e estava na altura do cabo de Santo Agostinho; e íamo-lo a demandar pelo rumo de oeste. Este dia não correu pescado nenhum conosco, que é sinal nesta costa de estar perto de terra; e outro nenhum não tem senão este."
Veja, leitor, o documento a que me reporto é de 1530 a 1532 - depois das viagens de Colombo, da de Vasco da Gama às Índias, da de Cabral ao Brasil, mesmo após a de circunavegação (Fernão de Magalhães - Delcano). E, a despeito de todo o conhecimento técnico e prática acumulados, as viagens eram ainda assustadoramente inseguras. Você empreenderia alguma viagem nessas condições? Os navegadores - incríveis navegadores - o fizeram.


(1) De acordo com a  edição de Varnhagen de 1867, que transcrevo na ortografia atual.
(2) Velas pequenas.
(3) Termo náutico, com o mesmo significado de sotavento, que é atualmente mais empregado.
(4) Ou Noronha.


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