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quarta-feira, 17 de julho de 2024

Introdução da varíola entre os astecas e outros povos indígenas

A varíola não era conhecida na América antes da chegada de europeus. Foi assim, segundo Bernal Díaz del Castillo (¹), que a doença se introduziu entre indígenas, ao tempo em que Montezuma, imperador Asteca, caíra prisioneiro de espanhóis, e que Hernán Cortés se vira obrigado a combater os homens de Pánfilo de Narváez, que vinha contra ele:
"[...] Voltemos agora ao Narváez e a um negro que trazia cheio de varíolas, [..] que foi causa que toda a terra se enchesse delas, de que se seguiu grande mortandade, porque, conforme diziam os índios, nunca antes tinham tido tal enfermidade, e como não a conheciam, lavavam-se muitas vezes, e [...] morreram muitos deles." (²) 
Bernal Díaz também relatou que a varíola foi responsável pela morte de muitos chefes indígenas:
"[...] como naquele tempo a varíola andou tão comum na Nova Espanha, morreram muitos caciques [...]" (³).
Sem qualquer imunidade contra a terrível doença, os indígenas morriam depois de muito sofrimento. Vê-se, portanto, que não só de cavalos, armas de fogo e soldados se fez a chamada "conquista" do Império Asteca e de outros povos da mesma região. A introdução, intencional ou não, de novas doenças, foi muito importante para debilitar a resistência dos povos nativos em sua tentativa de conter os invasores espanhóis. 

(1) Soldado a serviço de Hernán Cortés, o autoproclamado conquistador do México. 
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid.   


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segunda-feira, 8 de abril de 2024

Deuses dos astecas

Os astecas, como muitos outros povos indígenas da América, eram politeístas. Algumas de suas divindades eram vistas como benfazejas, enquanto outras eram temidas, pelos malefícios que, supunha-se, eram capazes de fazer.
À semelhança de outras mitologias, alguns deuses estavam associados à natureza (sol e chuva, por exemplo); por vezes, estavam ligados às várias atividades humanas. Aqui está uma pequena lista com alguns dos principais deuses (*) do panteão asteca:
  • Quetzalcoatl, a "serpente emplumada", deus dos sacerdotes, representado como o iridescente pássaro quetzal, estava também associado ao vento e à escrita; 
  • Tlaloc, deus da chuva e da fertilidade;
  • Huitzilopochtli, deus do sol e da guerra, representado como o colibri-azul;
  • Tonatiuh, deus-sol;
  • Yacatecuhtli, deus protetor dos mercadores itinerantes que viajavam pelo império asteca e por domínios de outros povos, atuando também como informantes ou espiões;
  • Mictlantecuhtli, deus da morte.

(*) Adotou-se aqui a grafia mais comum para o nome das divindades astecas, embora outras possam ser encontradas. 


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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Altares domésticos dos astecas

Não só de sacrifícios em altares no alto das pirâmides escalonadas, com intervenção da elite sacerdotal, era feita a religião dos astecas. Essa, por certo, era mais religião de Estado que fenômeno pessoal e quotidiano. Se podemos crer nas palavras de Bernal Díaz del Castillo, soldado espanhol que participou da conquista e destruição do Império Asteca com Hernán Cortés, havia, também, práticas religiosas domésticas:
"[...] cada índio e índia tinha dois altares, um no lugar em que dormiam, outro na porta da casa, [..] cheios de ídolos (¹), alguns pequenos, outros grandes, pedras pequenas e grandes, e uns livrinhos de papel feito de casca de árvore, a que chamam amatl, e neles seus sinais do tempo e coisas passadas. [...]" (²)
Sabe-se que Bernal Díaz escreveu suas memórias da guerra contra os astecas muito tempo depois dos acontecimentos. Quanto é ele confiável? É difícil determinar, mas foi, de qualquer modo, testemunha ocular, e conviveu com os indígenas antes e depois da "conquista", e pôde, assim, fazer observações em primeira mão. É verdade que tudo passava pelo filtro de suas convicções religiosas, mas, ressalvados esses fatores, é interessante que tenha registrado como os astecas que encontrou faziam suas práticas religiosas no âmbito privado. 
Para quem hoje se interessa por estudar a cultura dos povos indígenas, resta lamentar que nem todos os livrinhos com imagens que representavam "coisas passadas" tenham sobrevivido. Os "conquistadores" tinham pressa em apagar tudo o que remetia às crenças nativas e, para isso, muitos deles não hesitavam em queimar qualquer coisa que encontravam. Em uma época em que europeus queimavam pessoas que se atreviam a pensar diferente em matéria de religião, por que não queimariam os objetos de culto dos astecas? 

(1) Esculturas ou outras representações de deuses.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias



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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Fundibulários

Fundibulários, também chamados fundeiros, usavam fundas, com quase inacreditável pontaria, para arremessar pedras e outros objetos, não por esporte ou diversão, mas com propósitos bélicos. Eram, portanto, soldados especializados e, por isso, fizeram parte de muitos exércitos na Antiguidade. Tito, por exemplo, ao comandar a conquista e destruição de Jerusalém em 70 d.C., teve fundibulários em suas tropas e, no dizer de Flávio Josefo (¹), marchavam próximo dos lançadores de dardos.
Os projéteis usados por fundibulários não eram, como regra, inocentes pedrinhas de um ou dois centímetros de diâmetro. Aquelas que faziam cair sobre as forças inimigas eram pedras grandes, do tamanho das atuais bolas de golfe e até das de tênis. Como se isso fosse pouco, usavam também objetos pontiagudos e bolas de chumbo. Fode-se facilmente imaginar o estrago que causavam.
Não só na Antiguidade, porém, é que fundibulários tiveram ocupação. No Século XVI, Hernán Cortés e seus soldados, na luta pela conquista do México, provaram na própria carne quão eficientes podiam ser as fundas de guerreiros tlaxcaltecas e astecas. De acordo com Bernal Díaz del Castillo, testemunha ocular que lutou ao lado de Cortés, dos tlaxcaltecas "ao passar enfrentamos grande perigo, porque eram bons flecheiros [...], e também as fundas e pedras que caíam como granizo eram muito más [...]" (²); e, quanto aos astecas, "[...] atiraram tanta vara e pedra com fundas e flechas, que nos feriram daquela vez quarenta e seis dos nossos, e doze morreram das feridas" (³). Quem gostaria de estar sob o efeito dessas chuvas?

(1) Cf. JOSEFO, Flávio. As Guerras Judaicas. Livro V, § 403.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid.


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terça-feira, 7 de setembro de 2021

Arte plumária indígena

Característica presente em muitos povos indígenas do Continente Americano, a arte plumária por eles desenvolvida era (e em alguns casos, ainda é) notável. José de Alencar, em romances classificados como "indianistas", colocou em relevo o uso de penas, não só como expressão artística, mas como fator de distinção tribal. Vejamos, portanto, alguns exemplos.
Em Guarani, o herói Peri usa penas de ema na cabeça:
"Tinha a cabeça cingida por uma fita de couro, à qual se prendiam do lado esquerdo duas plumas de ema matizadas, que descrevendo uma longa espiral, vinham roçar com as pontas negras o seu pescoço flexível."
Por outro lado, no mesmo Guarani, um guerreiro aimoré, que se opõe a Peri, leva um colar de penas de tucano:
"Tinha o rosto pintado de uma cor esverdeada e oleosa, e o pescoço cingido de uma coleira feita com as penas brilhantes do tucano; no meio desse aspecto horrendo os seus olhos brilhavam como dois fogos vulcânicos no seio das trevas."
Já em Ubirajara, novamente a arte plumária é descrita como fator de identificação de dois grupos indígenas, os tocantins e os araguaias:
"Do outro lado da campina assoma um guerreiro.
Tem na cabeça o canitar (¹) das plumas de tucano, e no punho do tacape uma franja das mesmas penas.
É um guerreiro tocantim. De longe avistou Jaguarê e reconheceu o penacho vermelho dos araguaias."
Como sabem, leitores, essas obras de Alencar pertencem ao Século XIX, escritas no intento de dar ao Brasil uma literatura que tivesse personagens verdadeiramente nacionais. No entanto, nessa época muitos povos indígenas já haviam desaparecido ou perdido elementos culturais significativos, em consequência da colonização. Sabe-se, porém, que cada povo tinha preferência por determinadas penas, que geralmente eram escolhidas entre as aves existentes na localidade em que vivia, e isso não se restringe aos indígenas do Brasil. Astecas, por exemplo, foram grandes apreciadores das penas do quetzal (verdes) e do colibri (de coloração azul-turquesa). E, se quisermos voltar ao testemunho de alguém que viveu no Brasil no Século XVI, temos as palavras de Gabriel Soares, senhor de engenho na Bahia e autor do Tratado Descritivo do Brasil em 1587, em que, ao falar dos tupinambás, observou: "[...] fazem carapuças e capas de penas de pássaros, e outras obras de pena do seu uso, e sabem dar tinta de vermelho e amarelo às penas brancas; e também contrafazem as penas dos papagaios com sangue de rãs, arrancando-lhes as verdes, e fazem-lhes nascer outras amarelas [...]." (²)
Creio, todavia, que, em se tratando de arte plumária, a melhor exemplificação só pode vir de trabalhos reais. Portanto, leitores, vejam as fotos (³) e tirem suas conclusões quanto à maestria dos povos indígenas nessas obras.




(1) Palavra indígena de mesmo significado que cocar.
(2) SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, pp. 319 e 320.
(3) Todos os objetos pertencem ao acervo do Memorial dos Povos Indígenas (Brasília - DF), que vocês não devem deixar de visitar, quando puderem.


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quinta-feira, 20 de maio de 2021

Como indígenas lutavam contra cavalos

Cavalos eram desconhecidos na América antes da chegada de europeus no final do Século XV, e nas guerras de conquista, empreendidas principalmente por espanhóis, mostraram-se formidáveis. O modo como ameríndios reagiram à sua presença pode, talvez, ser comparado ao espanto dos romanos quando viram elefantes no exército de Pirro. Contudo, não tardou para que indígenas descobrissem que homem e cavalo não formavam um só e centáurico ser, que espanhóis não eram deuses e que cavalos eram mortais. Importava, assim, aprender a lutar contra eles.
Conhecendo muito bem o território em que viviam, astecas e outros povos vizinhos tentavam forçar os invasores à luta em terrenos difíceis para a cavalaria, cavavam buracos que, disfarçados com arbustos, eram armadilhas terríveis e tanto mais eficazes se, em seu interior, fossem colocadas estacas pontiagudas.
Mas não era só. De acordo com Bernal Díaz del Castillo, soldado a serviço de Hernán Cortés, estas eram, dentre outras, algumas práticas adotadas por indígenas quando deviam enfrentar homens a cavalo:
  • "Quero dizer que se juntavam seis ou sete dos contrários e se abraçavam com os cavalos [...], e ainda derrubaram a um soldado do cavalo, e se não o socorrêssemos, já o levariam a sacrificar [...]" (¹). Esse incidente ocorreu em luta contra chiapanecas.
  • "[...] muitos deles traziam cordas para jogar laços aos cavalos [...] para derrubá-los, e tinham estendidas em outros lugares, contra os cavalos, muitas redes que costumam usar para caçar veados [...]" (²). Aqui, novamente, Bernal Díaz falava dos chiapanecas.
  • "[...] achamos todos os caminhos bloqueados, cheios de troncos e árvores cortadas, muito obstruídos, que cavalos não podiam passar [...]" (³). Neste caso, ainda era possível desobstruir o caminho, mas a tarefa retardava a marcha e dava aos ameríndios a oportunidade da fuga.
Vê-se, facilmente, que a chamada conquista da América não se fez sem resistência. Cavalos eram caros e pouco numerosos na época em que Cortés chegou ao México. Era preciso, assim, poupá-los, tanto quanto possível. Soldados que combatiam a cavalo levavam uma lança, e perceberam que correriam menos risco e seriam de maior utilidade a seu bando de invasores se, em lugar de tentar atingir indígenas a cada lado, cavalgassem à maior velocidade que podiam, com a lança em riste, à altura do rosto dos oponentes, até obrigá-los à fuga. Intimidavam, é fato, mas não eram invencíveis e não são a única explicação para as vitórias obtidas por grupos relativamente pequenos de europeus que investiam contra exércitos numerosos de ameríndios. Armas de fogo, estratégia eficiente, incentivo às dissensões existentes entre povos indígenas e o auxílio silencioso, ainda que não intencional, de doenças como a gripe e a varíola, tiveram parte no processo de dominação imposto aos povos do Continente Americano.  

(1) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Todos os trechos citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid.
(3) Ibid.


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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Armas dos espanhóis nas mãos de guerreiros astecas

Retirada é uma ação estratégica organizada, quando o confronto aberto parece indesejável ou impossível. Hernán Cortés bem que tentou, mas a saída de seu bando de invasores de Tenochtitlán, após a morte do imperador Montezuma, não foi mais que uma fuga, com um só lema: salve-se quem puder.
Sob o ataque da população local em fúria, espanhóis e indígenas aliados (¹) tentaram escapulir, carregando parte do enorme tesouro que haviam encontrado. Tanto peso, porém, era demais para quem precisava fugir para salvar a vida. Sob chuva, neblina e em terreno difícil, as perdas em homens, cavalos e armas foram terríveis. Para os sobreviventes, essa foi a "noite triste".
Era 1520. Nos meses seguintes, Cortés tratou de reorganizar seu grupo, atraindo mais soldados e obtendo armamento. Os astecas, contudo, não descansavam. Não davam tréguas, enviando grupos de combatentes que não permitiam que europeus e seus aliados pudessem sequer dormir em paz. Além do encontro eventual em templos astecas dos ossos de companheiros que haviam perdido, os invasores logo descobriram que as espadas deixadas em Tenochtitlán não eram desperdiçadas, quando, em algum combate, viam seus oponentes usando "lanças muito longas para matar os cavalos, nelas engastadas as espadas que nos tomaram na noite do desbarate" (²), segundo informou Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados que acompanhavam Cortés.   
Pode-se imaginar qual terá sido a reação dos espanhóis quando viram nas lanças astecas um brilho de lâminas de Toledo!... Mas não foi só. Ainda de acordo com Bernal Díaz, os valorosos astecas logo aprenderam a empunhar as espadas com maestria: "Os capitães mexicanos [...] traziam espadas das nossas, fazendo com elas muitas demonstrações de valentia, e diziam que com nossas armas nos haviam de matar [...]" (³).

(1) Principalmente tlaxcaltecas.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid. 


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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

A morte de Montezuma, imperador asteca

Depois de entrar na capital asteca e aprisionar o imperador Montezuma, Hernán Cortés foi informado de que um exército numeroso, sob o comando de Pânfilo de Narváez, mandado desde Cuba pelo governador Diego Velásquez, acabara de desembarcar e estava já em marcha para pôr fim a seus projetos de conquista. Entendendo que sua única chance estava em não fugir ao confronto, Cortés saiu de Tenochtitlán, deixando entre os astecas somente aqueles a quem se confiou a guarda do imperador e a vigilância sobre o riquíssimo tesouro encontrado.
A despeito da franca desvantagem numérica, os comandados de Cortés suplantaram os de Narváez. Não tiveram, porém, muito tempo para comemorações, por chegarem notícias alarmantes do México, dando conta de uma sublevação geral, em decorrência de atitudes imprudentes de Pedro de Alvarado. Retornando a toda pressa, Cortés apenas pôde compreender que, já dentro da capital, ele e seus homens é que eram agora os prisioneiros, ainda que conservassem Montezuma em seu poder. 
Seguiram-se dias de combates sangrentos. De um lado, a população do México lutava para expulsar os invasores; de outro, os espanhóis se davam conta de que dificilmente sairiam dali vivos, mas não queriam renunciar ao tesouro asteca. 
Na tentativa de serenar os ânimos, Cortés compeliu Montezuma a falar ao povo, pedindo calma. A essa altura, porém, outro membro da família real já era apontado como governante, e o imperador prisioneiro não foi recebido com satisfação. Segundo o relato de Bernal Díaz del Castillo, soldado a serviço de Cortés, em um momento de descuido dos que deviam proteger Montezuma, alguém atirou contra ele "três pedradas, uma na cabeça, outra em um braço e outra em uma perna, e posto que lhe pedissem que se curasse e comesse, dizendo-lhe palavras amáveis, não quis [...]".(*) 
O que havia acontecido àquele que fora tratado como um deus, e a quem seus súditos chamavam "senhor, meu senhor, grande senhor"? Com uma autoridade alicerçada na força (sobre outros povos) e na religião (entre seu próprio povo), Montezuma mostrou-se incapaz de liderar os astecas contra um punhado de invasores europeus. 
Teriam as engrenagens do poder funcionado tão bem (pelo menos até ali), a ponto de disfarçarem a incapacidade de liderança por parte do imperador? Foi somente em meio a uma crise sem precedentes que a inaptidão de Montezuma II para o comando do Império Asteca ficou evidente, ainda que ele tenha sido, desde muito jovem, preparado para o cargo que ocupava. 
Supostas profecias, sugerindo a chegada de invasores que destruiriam o mundo asteca têm sido apontadas como causa para sua tímida reação diante das notícias relativas a estrangeiros que se aproximavam. Tentou negociar, ameaçou, bajulou, todavia jamais chamou seu povo às armas, em massa, para cortar a passagem aos que vinham do mar. A vitória teria sido fácil e rápida, se os astecas houvessem atacado com fúria idêntica à demonstrada mais tarde, quando suas crenças religiosas foram questionadas pelos espanhóis. Havia, também, suficientes intrigas palacianas e lutas surdas pelo poder na família real, mas nada disso explica, isoladamente, o comportamento apático do imperador ao receber Cortés e, posteriormente, ao ser aprisionado.
Montezuma morreu, ao que parece, em decorrência da pedrada na cabeça. Até os espanhóis choraram por ele, lamentando que não houvesse sido batizado por um dos religiosos que acompanhavam Cortés.

(*) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

A busca por um tesouro, um imperador aprisionado e a colocação de uma cruz no principal templo asteca

Tendo chegado e conseguido entrar em Tenochtitlán, a capital asteca, Hernán Cortés se fez convidar pelo imperador Montezuma para ir visitar o principal templo da cidade. Os astecas, como se sabe, eram politeístas e, em seus rituais, incluíam a prática de sacrifícios humanos. Em lá chegando, Cortés teve a ideia de propor a Montezuma que se desfizesse de seus deuses, substituindo-os pelas práticas religiosas que os espanhóis traziam: "Para que vossa majestade e todos os seus sacerdotes  saibam, faça-me o favor e tenha por bem que no alto desta torre coloquemos uma cruz, e junto aos santuários [...] ponhamos uma imagem de Nossa Senhora [...]" (*).
Qual imaginam, leitores, foi a reação de Montezuma? Ficou furioso, é claro, e respondeu, ainda que mantendo a compostura: "[...] Se soubesse que tal desaforo me havias de dizer, não te mostraria meus deuses, que consideramos muito bons, nos dão saúde, água e boas colheitas [...], e a eles temos de adorar e oferecer sacrifícios. Peço que não sejam ditas outras palavras para desonrá-los" (*).
Sabemos desse diálogo porque Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados espanhóis, escreveu, muito tempo depois, um relato da chamada "conquista do México", no qual o incidente é referido. Mas, entrando, por um instante, nos domínios da chamada História Contrafactual, convido os leitores a uma reflexão sobre o que poderia ter acontecido se Montezuma, em lugar de ficar furioso com a proposta de Cortés, houvesse concordado, fosse por medo ou curiosidade, ou sabe-se lá que outro sentimento. Tocando as bordas do absurdo: o que sucederia se os astecas houvessem, em massa, decidido que, daí por diante, seriam todos cristãos, pondo de lado suas seculares práticas politeístas? Teriam os espanhóis, num arroubo de alegria, festejado os novos irmãos de fé e, cristãmente, saído do México para ir à Espanha notificar a "seu rei e natural senhor" o sucesso de sua expedição missionária? Quem é que acredita na possibilidade de uma coisa dessas?
Ora, amigos leitores, o bando de aventureiros europeus (espanhóis, majoritariamente), não fora tão longe, passando por tantos riscos e privações, simplesmente pela glória de plantar uma cruz na mais importante pirâmide escalonada do México. Não, a expectativa era outra: riqueza, e muita riqueza, tão rapidamente quanto possível. Que fariam eles, se Montezuma e sua gente concordassem em se fazer cristãos? Iriam, ainda assim, aprisionar o imperador e exigir o gigantesco tesouro, cuja localização haviam, incidentalmente, descoberto?
Posteriormente, tendo aprisionado Montezuma, que, por algum tempo, foi conservado como uma espécie de imperador fantoche, para evitar agitações populares, Cortés impôs aos astecas a concessão de um lugar para símbolos cristãos no templo. Sem capacidade para reagir, Montezuma, a contragosto, teve que concordar. Seguimos com a narrativa de Bernal Díaz: "[...] Montezuma, ainda que com suspiros e semblante muito triste, disse que conversaria com os sacerdotes, e, depois de muitas palavras com eles, se pôs uma altar nosso, afastado de seus malditos ídolos, e a imagem de Nossa Senhora e uma cruz, e com muita devoção e dando graças a Deus, disseram missa cantada o padre da Mercê,  e ajudava a missa o clérigo Juan Díaz e muitos de nossos soldados; ali nosso capitão [Hernán Cortés] mandou pôr um soldado velho como guarda, e pediu a Montezuma que mandasse aos sacerdotes [astecas] que não tocassem em nada, salvo para varrer, queimar incenso e para pôr candeias de cera ardente dia e noite, ramos e flores" (*). 
Creio que são dispensáveis mais palavras para elucidar como andava a suposta "catequese". A Bernal Díaz faltou apenas a ideia de dizer que, para homens tão devotos, como aqueles do bando de Cortés, só mesmo a canonização seria uma recompensa adequada.

(*) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Todos os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 9 de julho de 2020

A praça do mercado público de Tenochtitlán

Os primeiros europeus, parte do bando de Hernán Cortés, que foram à praça do comércio de Tenochtitlán, a capital asteca, ficaram deslumbrados com o que viram. Reinava ali a maior ordem e limpeza, e vasto mercado público atestava o poderio econômico, bem como o desenvolvimento técnico notável, de uma civilização que, não obstante, estava prestes a naufragar, ante a força e astúcia de invasores.
É certo que a visita dos europeus se fez sob olhares atentos de oficiais astecas, mais que desconfiados das intenções dos "hóspedes". Contudo, Bernal Díaz del Castillo, um soldado jovem naquela ocasião, que, muitos anos depois, decidiu pôr no papel suas recordações desses acontecimentos notáveis (para bem e para mal), guardava vívida memória do que havia visto, e escreveu: "[...] quando chegamos à grande praça, que se diz o Tatelulco (¹), como ainda não a havíamos visto, ficamos admirados da multidão de gente e de mercadorias que nela havia, e da grande organização que em tudo tinham [...]; cada tipo de mercadoria tinha seu lugar marcado" (²).
Os homens de Cortés arregalavam os olhos, e mal podiam conter o espanto. Mais de um deve ter tido ímpeto de se lançar sobre as mercadorias à venda. Acompanhemos Bernal Díaz, que, não por acaso, começou a lista de artigos disponíveis por... Ouro, é claro:
"[...] Comecemos pelos mercadores de ouro, prata e pedras preciosas, plumas, mantas [..], escravos e escravas; digo que eram tantos os que estavam à venda naquela grande praça, como são os negros de Guiné que trazem os portugueses, e estavam atados a umas varas longas e com colares no pescoço para que não fugissem, mas outros andavam soltos." (²)
Não era tudo: 
"Em seguida estavam outros mercadores, que vendiam roupas mais simples e algodão, além de outras coisas de fio torcido, e vendedores de cacau, e desta maneira estavam quantos gêneros de mercadoria há em toda a Nova Espanha, ordenadamente, de modo semelhante ao que há em minha terra, que é Medina del Campo, onde se fazem feiras, que em cada rua estão as mercadorias distribuídas por tipo, e assim estavam na grande praça [...]." (²)
Bernal Díaz notou, também, vendedores de peles de animais, alimentos diversos, objetos de cerâmica, madeira, sal, facas de pedra, machados de vários metais e muitos outros objetos. Não havia tempo para observar tudo de uma vez: "[...] a grande praça estava cheia de gente, era cercada de portais, e em um único dia não seria possível ver tudo o que havia [...]." (²)
Talvez os espanhóis ainda não soubessem, mas mercadores, que, por dever de ofício, viajavam de uma parte a outra do Império Asteca, eram frequentemente recrutados para espionagem. Quem mais poderia bisbilhotar sem levantar suspeitas? Tanta prosperidade, porém, tinha os dias contados. Haveria, é certo, um acervo de peripécias à frente, mas, auxiliados por povos indígenas oprimidos, espanhóis derrotariam os astecas e seus aliados. Um império desabava, tornando em escombros sua cultura, visão de mundo, crenças religiosas, estrutura política e econômica. Como sempre acontece, outro mundo estava prestes a surgir, amalgamando elementos antigos àqueles que traziam os europeus.

(1) Tlatelolco.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Todos os trechos dessa obra aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Como os servidores do imperador asteca se comportavam quando falavam com ele

Monarcas de todos os lugares sempre tiveram certos rituais no trato com os súditos, em especial quando o rei ou imperador era visto ou se fazia ver como uma figura dotada de atributos divinos. O cerimonial que os cercava tinha a função de estabelecer a distinção entre quem mandava e quem obedecia, justificando ou tentando justificar por que motivo alguém tinha tantos privilégios, enquanto a maioria tinha poucos direitos e quase infinitas obrigações. 
Sabe-se, pelo relato de Bernal Díaz del Castillo, um soldado espanhol que acompanhou Hernán Cortés na "conquista" do México, que Montezuma (¹), o grande imperador asteca, exigia de seus servidores certos gestos cerimoniais que, continuamente, demonstravam a submissão que lhe era devida:
"[...] Quando iam falar com ele [Montezuma], deviam tirar as mantas de qualidade e colocar roupas de pouco valor, que, no entanto, deviam ser limpas, deviam entrar descalços e com os olhos voltados ao chão, jamais olhando diretamente em seu rosto, fazendo três reverências antes de chegar à sua presença, dizendo nelas: "Senhor, meu senhor, grande senhor!", e quando lhe diziam por que estavam ali, com poucas palavras os despachava; [os servidores] sem erguer o rosto quando se despediam dele, antes com o rosto e olhos postos na terra onde estavam, saíam sem voltar as costas até que estivessem fora da sala." (²)
Para quem vive em um Estado democrático na atualidade, tudo isso pode parecer muito estranho, mas, pergunto: a seu modo, as cerimônias exigidas por Montezuma não são comparáveis, por exemplo, ao ritual da corte de Luís XIV, estabelecido, diga-se de passagem, para atrair a nobreza, mantê-la obediente mediante a servidão às regras de etiqueta, enquanto o monarca, a seu gosto, governava, absoluto, como "Rei Sol"? Nesse sentido, as diferenças estariam apenas em questões de aparência. Na essência, abaixo da superfície, os objetivos eram mais ou menos os mesmos.

(1) Ou Moctezuma, também conhecido como Montezuma II.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 26 de março de 2020

Roubou duas galinhas e quase foi enforcado

Como Hernán Cortés mantinha a disciplina entre seus comandados


No imaginário popular, ladrão de galinhas é o estrato mais baixo entre os gatunos de toda espécie. Pior, ainda, foi a situação de um soldado que, como parte do bando liderado por Hernán Cortés, invadiu o Império Asteca. Antes, porém, que se efetuasse a chamada "conquista" do México, o soldado Mora quase perdeu o fôlego, e de uma vez por todas.
Tem a palavra Bernal Díaz del Castillo, outro aventureiro comandado por Cortés: 
"[...] partimos para Cempoal (¹) por outro caminho, [...] e estávamos descansando porque fazia sol forte, e vínhamos muito cansados, com as armas às costas, e um soldado que se chamava Fulano de Mora, natural de Ciudad Rodrigo, tomou duas galinhas de uma casa de índios daquele povoado [...]." (²)
Ora, leitores, os invasores europeus são frequentemente descritos como aves de rapina, para quem o roubo, a pilhagem, eram ferramentas úteis, quer para sobrevivência, quer para dominação. Mas havia quem prezasse algum sentimento cavalheiresco de honra, e, infelizmente para o ladrão, Hernán Cortés, ainda que ávido por ouro, era um desses. Portanto, não estava disposto a tolerar indisciplina entre seus soldados, mesmo porque o roubo das galinhas fora feito contra um povoado com o qual eles, espanhóis, haviam entrado em amizade. Para que seus sonhos dourados (³) de conquista vingassem, era indispensável ganhar e manter o apoio de nativos desafetos dos astecas.
Para azar do ladrãozinho, Cortés viu o que fizera. Disse Bernal Díaz:
"{...] Cortés ficou furioso com o que, diante dele, fez aquele soldado em um povoado de paz em tomar as galinhas, que logo mandou colocar uma corda em seu pescoço e teria sido enforcado, se Pedro de Alvarado, que estava junto de Cortés, não lhe cortasse a corda com a espada, e meio morto ficou o pobre soldado." (⁴)
Cortés era homem de vontade férrea. Para bem ou para mal, tratava de manter a disciplina entre os comandados, não fosse o caso de algum deles estragar seus planos. Era bom negociador, conversava bem, e não seria um ladrão de galinhas que iria impedi-lo de surrupiar algo infinitamente mais valioso: o tesouro de Montezuma, imperador asteca.

(1) ou Cempoala.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Sem intenção de trocadilho... 
(4) CASTILLO, Bernal Díaz del. Op. cit.


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terça-feira, 30 de abril de 2019

O dinheiro dos astecas

Olhem para este fruto, leitores: quem de vocês, de imediato, o relaciona a dinheiro?



Poucos, eu creio, com exceção de alguém que cultive cacau - é disso que se trata - ou desenvolva atividade econômica relacionada à sua produção. 
Os astecas, porém, não pensariam assim. É que, entre eles, sementes de cacau eram usadas como dinheiro. Fenômeno parecido aconteceu com muitos outros povos, visto que, antes que qualquer tipo de moeda entrasse em circulação, uma variedade de substâncias, algumas delas até esquisitas, foram usadas como meio de troca. O sal é um bom exemplo: de onde vocês acham que vem a palavra "salário"? O uso de quantidades de metais, ouro e prata em particular, precedeu a cunhagem de moedas, que se diz ter surgido na Lídia (¹), por volta do Século VII a.C. Para que assim acontecesse foi necessário o desenvolvimento das técnicas de trabalho com metais.
Desde então, a maioria dos povos construiu um sistema monetário envolvendo a cunhagem de moedas, sistema esse de complexidade variável, é verdade, mas sempre em vantagem em relação a outros meios de troca, pelas seguintes razões:
  • Moedas eram duráveis (²);
  • Ofereciam uniformidade, tendo por base a quantidade de um dado metal que a(s) moeda(s) contivesse(m);
  • Apresentavam resistência às intempéries, como só metais podem ter;
  • Eram facilmente transportadas de um lugar para outro;
  • Eliminavam as muitas inconveniências (e divergências) decorrentes das trocas diretas;
  • Dispensavam a obrigação de pesar metais a cada nova transação comercial;
  • Finalmente, mas nada desprezível, a cunhagem de moedas podia resultar em uma homenagem a deuses e homens, cuja imagem era nelas gravada (³) - lembrem-se, leitores, de que isso era muito importante, em tempos nos quais os recursos midiáticos para o desenvolvimento do culto à personalidade de líderes políticos eram ainda escassos.
Voltando aos astecas, é preciso considerar que, a despeito do alto grau de desenvolvimento dessa civilização em muitos aspectos, seu sistema monetário, baseado em sementes de cacau, ainda não havia atingido o estágio da cunhagem de moedas quando espanhóis invadiram e conquistaram o México. Os sobreviventes dos constantes massacres de indígenas somente teriam contato com dinheiro amoedado sob a dominação dos novos senhores da região.

(1) Segundo o que disse Heródoto em suas Histórias.
(2) Esse fator é muito importante até hoje: uma dentre as várias técnicas para datar sítios arqueológicos consiste em avaliar a época de cunhagem das moedas neles eventualmente encontradas.
(3) Não se pode afirmar que isso tenha sido uma vantagem para Luís XVI da França.


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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Politeísmo

Religiões politeístas


Muitos povos do passado eram politeístas. Isso significa que, em suas ideias e práticas religiosas, admitiam a existência de múltiplas divindades. Contudo, não se deve pensar no politeísmo como fenômeno religioso restrito ao passado. Há religiões politeístas ainda hoje. 
Mas falemos do passado. Desconhecendo princípios científicos como atualmente entendidos, povos antigos olhavam para chuvas torrenciais, inundações, nevascas, granizo, secas devastadoras, terremotos, erupções vulcânicas, furacões, tsunamis - este planeta é um lugar perigoso - supondo tais acontecimentos como expressões de fúria dos deuses, que precisavam ser aplacados com sacrifícios. 
Gregos e romanos, por exemplo, foram politeístas. Entre divindades maiores e menores, tinham deuses para tudo, de fenômenos naturais à regência das diversas atividades humanas, da agricultura à poesia, da guerra à paz. Egípcios também foram politeístas famosos, elaboraram rituais complexos e estabeleceram um sacerdócio que tinha enorme importância até mesmo em questões políticas. 
O sacrifício de animais não era incomum entre os politeístas da Antiguidade. Servia, em alguns casos, para homenagear os deuses, não faltando quem imaginasse que era necessário, dessa forma, alimentar as divindades. Mais frequente era a ideia de que os sacrifícios funcionavam como uma barganha entre deuses e homens, tendo em vista uma colheita abundante, chuvas regulares, viagens felizes e outros favores mais.

Sacrifícios humanos


Algumas vezes, as vítimas destinadas aos sacrifícios eram seres humanos (¹). Horrível? Certamente. Dentre outros povos, os fenícios podem ser citados entre os que sacrificavam pessoas. Essa prática, porém, não esteve restrita à Antiguidade: os astecas, por exemplo, muito mais recentes, chegaram a fazer dos sacrifícios humanos uma espécie de razão de Estado, já que, por meio da religião, sustentavam a coesão interna de seu Império (²), justificando as contínuas guerras pela necessidade da captura de inimigos, cujo coração, ainda palpitante, seria oferecido aos deuses, a fim de assegurar o diário aparecer do sol e a manutenção da ordem no Universo. Privando os povos vizinhos de seus mais saudáveis guerreiros e trabalhadores, os astecas enfraqueciam a concorrência pelo domínio da região em que viviam. Simultaneamente, a imposição de pesados tributos aos povos derrotados em combate garantia o fluxo contínuo de riquezas na direção de Tenochtitlán, a bela e orgulhosa capital asteca no lago Texcoco. 
É difícil julgar o grau de intencionalidade e manipulação das ideias religiosas por parte da nobreza e sacerdotes astecas (³), com vistas à preservação de sua elevada posição social, mesmo porque nem todos os sacrificados eram estrangeiros, mas é bastante provável que os sacrifícios humanos, eventualmente praticados na suposição de obter favores dos deuses, tenham, aos poucos, chegado a ser uma forma deliberada de cravar a mais férrea dominação sobre outros grupos, com os quais era preciso disputar território e recursos naturais. Embora as estimativas variem, supõe-se que sacerdotes astecas efetuavam pelo menos vinte mil sacrifícios humanos a cada ano.  

(1) É evidente que nem todas as religiões politeístas incluíram sacrifícios humanos em seus rituais.
(2) Não foram os únicos a fazer uso de crenças e práticas religiosas para fins políticos..
(3) Muito do que sabemos sobre essas questões decorre de registros feitos por colonizadores espanhóis que, como é natural, filtravam o que observavam por sua própria visão de mundo.


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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Hierarquia social no Império Asteca

Hernán Cortés e seu bando começaram a enfrentar o Império Asteca em 1519, percebendo que, para isso, podiam contar com a ajuda de povos vizinhos, cansados dos pesados tributos a que estavam sujeitos e dos contínuos sacrifícios humanos, cujas vítimas deviam fornecer. Depois de várias escaramuças e de luta renhida pelo controle de Tenochtitlán (a capital asteca), o pequeno exército espanhol venceu. Simplificando bastante, a sociedade que os invasores encontraram (e destruíram) era assim organizada:
  • 1. Imperador, cujo cargo era vitalício. O sucessor de um imperador era escolhido dentro da família real, mas não precisava, necessariamente, ser filho do antecessor.
  • 2. Mulher-serpente, que, a despeito do título, era um homem, e, em nome do imperador, exercia liderança em várias situações da vida diária. Havia também Conselheiros civis e/ou militares e sacerdotes importantes, que assessoravam o imperador em suas decisões (o próprio imperador, antes de ocupar o cargo, era educado como guerreiro e sacerdote).
  • 3. Nobreza, constituída principalmente por altos funcionários e governadores provinciais. De um modo geral, os sacerdotes, bastante numerosos, eram também contados entre os nobres. A nobreza estava isenta de impostos e detinha a propriedade de terras.
  • 4. Povo comum, constituído por homens livres. Alguns trabalhavam na terra, outros eram artesãos (hereditariamente), ou ainda comerciantes.
  • 5. Escravos, que podiam ser tanto estrangeiros aprisionados em alguma guerra, como astecas que, empobrecidos, tinham tantas dívidas que, para pagá-las, eram obrigados a trabalho compulsório. Havia astecas que, sendo livres, preferiam ser reduzidos à condição de escravos, para que, dessa forma, tivessem alimento provido por seu senhor.
Notem, leitores, que a estratificação social vigente entre os astecas pode ser comparada à de vários povos, a começar pela Antiguidade. Com as devidas ressalvas, não lembra, por exemplo, a do Egito Antigo?  Havia, porém, na sociedade asteca, um aspecto que a distinguia de muitas outras: a possibilidade, ainda que pequena, de ascensão social. Um jovem comum, talvez filho de camponeses, podia chegar a ser um nobre, se demonstrasse bravura e competência nas guerras frequentes em que os astecas se envolviam, a fim de dominar outros povos, enfraquecendo-os, e obrigando-os ao pagamento de tributos.


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