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terça-feira, 30 de abril de 2019

O dinheiro dos astecas

Olhem para este fruto, leitores: quem de vocês, de imediato, o relaciona a dinheiro?



Poucos, eu creio, com exceção de alguém que cultive cacau - é disso que se trata - ou desenvolva atividade econômica relacionada à sua produção. 
Os astecas, porém, não pensariam assim. É que, entre eles, sementes de cacau eram usadas como dinheiro. Fenômeno parecido aconteceu com muitos outros povos, visto que, antes que qualquer tipo de moeda entrasse em circulação, uma variedade de substâncias, algumas delas até esquisitas, foram usadas como meio de troca. O sal é um bom exemplo: de onde vocês acham que vem a palavra "salário"? O uso de quantidades de metais, ouro e prata em particular, precedeu a cunhagem de moedas, que se diz ter surgido na Lídia (¹), por volta do Século VII a.C. Para que assim acontecesse foi necessário o desenvolvimento das técnicas de trabalho com metais.
Desde então, a maioria dos povos construiu um sistema monetário envolvendo a cunhagem de moedas, sistema esse de complexidade variável, é verdade, mas sempre em vantagem em relação a outros meios de troca, pelas seguintes razões:
  • Moedas eram duráveis (²);
  • Ofereciam uniformidade, tendo por base a quantidade de um dado metal que a(s) moeda(s) contivesse(m);
  • Apresentavam resistência às intempéries, como só metais podem ter;
  • Eram facilmente transportadas de um lugar para outro;
  • Eliminavam as muitas inconveniências (e divergências) decorrentes das trocas diretas;
  • Dispensavam a obrigação de pesar metais a cada nova transação comercial;
  • Finalmente, mas nada desprezível, a cunhagem de moedas podia resultar em uma homenagem a deuses e homens, cuja imagem era nelas gravada (³) - lembrem-se, leitores, de que isso era muito importante, em tempos nos quais os recursos midiáticos para o desenvolvimento do culto à personalidade de líderes políticos eram ainda escassos.
Voltando aos astecas, é preciso considerar que, a despeito do alto grau de desenvolvimento dessa civilização em muitos aspectos, seu sistema monetário, baseado em sementes de cacau, ainda não havia atingido o estágio da cunhagem de moedas quando espanhóis invadiram e conquistaram o México. Os sobreviventes dos constantes massacres de indígenas somente teriam contato com dinheiro amoedado sob a dominação dos novos senhores da região.

(1) Segundo o que disse Heródoto em suas Histórias.
(2) Esse fator é muito importante até hoje: uma dentre as várias técnicas para datar sítios arqueológicos consiste em avaliar a época de cunhagem das moedas neles eventualmente encontradas.
(3) Não se pode afirmar que isso tenha sido uma vantagem para Luís XVI da França.


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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

As comemorações, em 1922, do centenário da Independência do Brasil

Moeda cunhada em comemoração ao
centenário da Independência do Brasil:
uma visão personalista dos acontecimentos,
destacando as figuras do primeiro imperador
(D. Pedro I) e do presidente da República
em 1922 (Epitácio Pessoa).
Em 1922 comemorou-se o centenário da Independência do Brasil. Foram grandes os festejos, tanto na data oficial - 7 de setembro - quanto nos anos precedentes.
Acontece que não foram poucas as críticas relativas às grandes despesas feitas para a comemoração: o País vivia um momento de crise econômica (mais uma, dentre muitas), em que seu principal produto de exportação, o café, estava já demasiadamente desvalorizado, e muitos achavam que era um verdadeiro despropósito que se fizessem grandes gastos com a festa, diante do fato de estar a economia em situação não exatamente invejável. Por outro lado, politicamente, havia uma certa instabilidade, decorrente de agitações que hoje chamamos de Movimento Tenentista, mas pode-se entender que, para um governo bastante questionado, era importante aparentar solidez e credibilidade, e os eventos associados aos cem anos da Independência pareciam especialmente talhados para isso. Um certo ufanismo nacionalista podia ser muito útil para camuflar problemas bem conhecidos mas nunca resolvidos, o que, aliás, é fenômeno político que não está, de modo algum, restrito a uma época ou lugar. Não é, nem de longe, monopólio do Brasil.
A lembrança da data teve, no entanto, um lado positivo. Nos anos precedentes, cresceu o interesse pelo estudo dos acontecimentos relacionados à História do Brasil, valorizou-se a descoberta e análise de documentos antigos, particularmente relativos ao período colonial; publicaram-se livros, atribuiu-se maior importância à cultura nacional, locais de interesse histórico foram restaurados (para, infelizmente, serem depois abandonados, em muitos casos), construíram-se monumentos (alguns de muito bom gosto, a maioria, nem tanto). Enfim, os debates intelectuais que nasceram nesse momento alimentaram o interesse de gente pensante por um bom tempo.
E quanto ao bicentenário, a ser comemorado em 2022? Bem, os próximos anos nos trarão, necessariamente, a resposta...


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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Moedas de troca no comércio de africanos para escravização: Parte 3 - A Macuta

Depois de ler as postagens anteriores sobre mercadorias que eram usadas no comércio realizado na África é possível que você, leitor, venha a interrogar-se se não haveria moedas, como as que hoje conhecemos, empregadas particularmente no tráfico de africanos para escravização. Sim, havia. Há uma obra excelente sobre as moedas portuguesas, em edição do século XIX, mais precisamente de 1856, cujo título é Memória das Moedas Correntes em Portugal, Desde o Tempo dos Romanos Até o Ano de 1856, sendo seu autor Manuel Bernardo L. Fernandes (¹). Nas páginas 266 e 267 encontramos a seguinte explicação:
"A Macuta era moeda de conta, ou forma de contar, de que usavam os negros em alguns sítios da Costa da África, e particularmente em Angola. Estabelecido o número destas moedas que pretendiam por um escravo, avaliavam também em Macutas os diferentes objetos que deviam dar em troca, e por esta forma faziam todas as suas transações. Parece que por este motivo o Sr. D. José I mandou lavrar as moedas de prata e de cobre com o nome de Macutas, e com o valor de Meio Tostão, para ficarem representando como moedas efetivas as formas porque ali se contava."
Embora só existam documentos mostrando Macutas sendo lavradas em Lisboa a partir de 1769, existem moedas de prata e de cobre de 1762 e 1763. Eram, obviamente, uma tentativa lusa de disciplinar o uso de moedas na "África Portuguesa". Interessante é saber que também no Brasil foram lavradas Macutas, conforme atesta o mesmo autor e conforme se vê na fotografia ao lado:
"Em 1814 se lavraram no Brasil 2, 1 e 1/2 Macutas de cobre, para Angola, com metade do peso que tinham as que anteriormente se haviam feito; e parece que por esses tempos se puseram contramarcas ou carimbos nas correntes de cobre lavradas pelo Sr. D. José I e Sra. D. Maria I, para lhes dobrar o valor, tornando-as iguais às de 1814, o que não podemos verificar, porque desde que o Sr. D. João VI foi em 1807 para o Brasil, unicamente do Rio de Janeiro se enviaram as ordens para os valores das moedas das nossas colônias." (²)
Está aí, portanto, para satisfação dos curiosos, uma "moeda de verdade", usada no tráfico de escravos.

(1) FERNANDES, Manuel Bernardo Lopes. Memória das Moedas Correntes em Portugal, Desde o Tempo dos Romanos, até o Anno de 1856. Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias de Lisboa, 1856.
(2) Ibid., p. 271.


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