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sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Cacau e baunilha

A culinária chocolateira de Sebastião da Rocha Pita


O cacau (¹) e a baunilha (²) são plantas nativas do Continente Americano, e parece que foram criados para perfeita harmonia entre si. Sebastião da Rocha Pita, apesar das muitas contestações de contemporâneos à sua História da América Portuguesa (³), tinha, conforme se verá, bom gosto quanto a certo artigo muito amado na atualidade - refiro-me ao chocolate - sobre o qual escreveu, ao falar do cultivo de cacau:
"O cacau [...] é árvore de mediana estatura, de ramos mui apartados do tronco; nasce o pomo todas as luas, sendo mais perfeitos os do verão; têm a forma de um pequeno melão, a cor amarela e suave o cheiro, e dentro umas poucas pevides menores que as amêndoas, mas de mesmo feitio, que são o que propriamente chamam cacau, e dão o nome à árvore e ao pomo; a polpa deste, desfeita em licor suave, serve de regalado vinho aos naturais; as amêndoas ou pevides secas ao sol são a matéria principal do chocolate [...]." (⁴) 
Reconhecendo que a baunilha era uma especiaria notável na composição do chocolate, afirmou, na mesma obra:
"A baunilha nasce em umas delgadas varas, a que no idioma dos naturais chamam cipós, compridas, sempre verdes e cheias de apertados nós, com só duas folhas em cada um; brotam umas bainhas [...]; estando sazonadas, ficam negras; o miolo é cheio de uns grãos mui pequenos, com suco que parece óleo, e cheiro fragrantíssimo, sendo o primeiro ingrediente do chocolate. [...]" (⁵) 
Inicialmente consumido como uma bebida, o chocolate passou por um longo processo de aprimoramento que levou à adição de leite, fazendo nascer, daí, o doce mais apreciado da humanidade. 

(1) Theobroma cacao.
(2) Orquidáceas de várias espécies do gênero Vanilla. 
(3) A primeira edição foi publicada em 1730. 
(4) PITA, Sebastião da Rocha. História da América Portuguesa, 2ª ed. Lisboa: Ed. Francisco Arthur da Silva, 1880, p. 17.
(5) Ibid., p. 18.


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quinta-feira, 28 de maio de 2020

Uma bebida de cacau para o imperador asteca

Com um misto de curiosidade, ambição e medo, os europeus que faziam parte do bando comandado por Hernán Cortés chegaram a Tenochtitlán, a capital asteca, em 1519. Lá foram recebidos pelo temido imperador Montezuma (¹), cujo cerimonial e luxo deixaram os recém-chegados de queixo caído. Não era para menos: apesar de detestados pelos povos que dominavam, os astecas exerciam controle sobre uma vasta região, absorvendo, através de diversos tributos, muito da riqueza produzida.
À hora das refeições, um verdadeiro desfile gastronômico (à moda asteca) passava diante do imperador, tudo servido como a máxima higiene (²). Para acompanhar a comida, vinha uma bebida, que Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados de Cortés, assim descreveu: "[...] traziam umas taças de fino ouro, com certa bebida feita do [...] cacau" (³), salientando que não era usada apenas pelo sabor: "[...] diziam que era para ter contato com mulheres" (⁴). 
Aos muito curiosos, fica a observação de Bernal Díaz, de que a dita bebida era feita "de bom cacau com sua espuma" (⁵).

(1) Ou Moctezuma, também conhecido como Montezuma II.
(2) Pelo que se depreende do relato de Bernal Díaz del Castillo, esse detalhe deve ter impressionado os visitantes.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Ibid.
(5) Ibid.


terça-feira, 30 de abril de 2019

O dinheiro dos astecas

Olhem para este fruto, leitores: quem de vocês, de imediato, o relaciona a dinheiro?



Poucos, eu creio, com exceção de alguém que cultive cacau - é disso que se trata - ou desenvolva atividade econômica relacionada à sua produção. 
Os astecas, porém, não pensariam assim. É que, entre eles, sementes de cacau eram usadas como dinheiro. Fenômeno parecido aconteceu com muitos outros povos, visto que, antes que qualquer tipo de moeda entrasse em circulação, uma variedade de substâncias, algumas delas até esquisitas, foram usadas como meio de troca. O sal é um bom exemplo: de onde vocês acham que vem a palavra "salário"? O uso de quantidades de metais, ouro e prata em particular, precedeu a cunhagem de moedas, que se diz ter surgido na Lídia (¹), por volta do Século VII a.C. Para que assim acontecesse foi necessário o desenvolvimento das técnicas de trabalho com metais.
Desde então, a maioria dos povos construiu um sistema monetário envolvendo a cunhagem de moedas, sistema esse de complexidade variável, é verdade, mas sempre em vantagem em relação a outros meios de troca, pelas seguintes razões:
  • Moedas eram duráveis (²);
  • Ofereciam uniformidade, tendo por base a quantidade de um dado metal que a(s) moeda(s) contivesse(m);
  • Apresentavam resistência às intempéries, como só metais podem ter;
  • Eram facilmente transportadas de um lugar para outro;
  • Eliminavam as muitas inconveniências (e divergências) decorrentes das trocas diretas;
  • Dispensavam a obrigação de pesar metais a cada nova transação comercial;
  • Finalmente, mas nada desprezível, a cunhagem de moedas podia resultar em uma homenagem a deuses e homens, cuja imagem era nelas gravada (³) - lembrem-se, leitores, de que isso era muito importante, em tempos nos quais os recursos midiáticos para o desenvolvimento do culto à personalidade de líderes políticos eram ainda escassos.
Voltando aos astecas, é preciso considerar que, a despeito do alto grau de desenvolvimento dessa civilização em muitos aspectos, seu sistema monetário, baseado em sementes de cacau, ainda não havia atingido o estágio da cunhagem de moedas quando espanhóis invadiram e conquistaram o México. Os sobreviventes dos constantes massacres de indígenas somente teriam contato com dinheiro amoedado sob a dominação dos novos senhores da região.

(1) Segundo o que disse Heródoto em suas Histórias.
(2) Esse fator é muito importante até hoje: uma dentre as várias técnicas para datar sítios arqueológicos consiste em avaliar a época de cunhagem das moedas neles eventualmente encontradas.
(3) Não se pode afirmar que isso tenha sido uma vantagem para Luís XVI da França.


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