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quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Façanhas bizarras de soldados que acompanharam Hernán Cortés na invasão do Império Asteca

A Hernán Cortés foram atribuídas todas as honras da conquista do México, com pouca ou nenhuma referência aos feitos e valor dos mais soldados - essa foi a queixa que, ao final de sua Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España, fez Bernal Díaz del Castillo. Com notável memória, porque já eram passados muitos anos desde o fim do Império Asteca, fez uma lista extensa dos homens que acompanharam Cortés, mencionando o nome de quase todos, além de algumas de suas façanhas. 
Contudo, nem todos se notabilizaram pelos feitos de armas. Vejam, leitores, dentre os citados por Bernal Díaz, alguns que tiveram fama por outras razões:
"Cristóbal de Olí (1) [...] morreu [...] degolado [...] porque se insurgiu com uma armada que Cortés lhe confiara."
"Pedro de Solis Atrás-da-porta, porque estava sempre em sua casa atrás da porta, olhando os que passavam na rua, mas não podia ser visto [...]."
"um bom soldado (2) que tinha uma mão a menos, que fora cortada pela Justiça em Castela [...]."
"Juan Perez, que matou sua mulher [...]."
"[...] Fulano Suarez o Velho, que matou sua mulher com uma pedra de moer milho [...]."
"[...] Gonzalo de Umbria, muito bom soldado, a este [...] Cortés mandou cortar os dedos dos pés [...]."
"[...] outro soldado que se chamava Yañes, natural de Córdoba, e este soldado foi conosco a Las Higueras, e enquanto isso sua mulher se casou com outro marido [...]."
"[...] outro soldado que se chamava Ribadeo, galego, que nós apelidamos Beberreo, porque bebia muito vinho [...]."
"[...] um soldado que se chamava Álvaro, homem do mar, natural de Palos, do qual se dizia que teve com índias da terra trinta filhos em cerca de três anos [...]."
Finalmente, três homens com o mesmo sobrenome - Tarifa -, dois deles destacados mais pelo que falavam que pelo que faziam:
"[...] três soldados que tinham por sobrenome Tarifa; um foi morador de Guaxaca [...]; outro era chamado Tarifa dos serviços, porque vivia dizendo que servia a sua majestade e não lhe davam nada [...]; e ao outro chamavam Tarifa das mãos brancas, [...], porque não era para a guerra nem para coisa de trabalho, mas apenas para falar de coisas passadas que lhe haviam acontecido em Sevilha [...]." (3)
(1) Foi um dos principais líderes da campanha de conquista de Tenochtitlán.
(2) Seu nome não foi referido por Bernal Diaz del Castillo.
(3) Todos os trechos aqui citados da  Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


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quinta-feira, 22 de abril de 2021

Três "tigres" para Carlos V

Onça-pintada (Panthera onca)
Depois de derrotar os astecas e tomar Tenochtitlán, sua capital, Hernán Cortés tratou de enviar a Carlos V, rei da Espanha e mandatário supremo do Sacro Império Romano-Germânico, a parte que lhe correspondia do tesouro asteca e do valor relativo aos escravizados. Juntamente iam cartas, contendo relatórios detalhados da guerra e das riquezas que essa "conquista" adicionava ao jovem soberano. Além disso, era intenção de Cortés que ninguém que não ele próprio fosse nomeado governador do território a que se deu o nome de Nova Espanha.
Sabe-se, por informação de Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados que acompanhavam Cortés, que os navios que partiram rumo à Espanha no final de 1522 levavam, também, um curioso e complicado presente para Carlos V: "[...] partiram do porto de Veracruz no dia vinte do mês de dezembro de 1522 anos [...], e no caminho se soltaram dois tigres [sic] dos três que levavam e feriram a alguns marinheiros, e entraram em acordo de matar o que restava, porque era muito bravo e não podiam mantê-lo sob controle [...]" (¹).
Pobres animais expatriados! Não sabemos, ao certo, o que aconteceu aos dois primeiros, e bem pode ser que tenham escapulido e voltado ao seu habitat; o terceiro, porém, não teve tanta sorte. Agora, leitores, cabe recordar que tigres não são nativos do Continente Americano. Colonizadores tinham o costume de chamar "tigre" ao jaguar (Panthera onca), que, no Brasil, é mais conhecido como onça-pintada. Trata-se do maior felino das Américas e exemplares adultos podem passar dos cem quilos. Não é surpresa, portanto, que o malfadado presente destinado a Carlos V tenha ficado pelo caminho.
Sem tigres, ou melhor, sem onças, os navios seguiram viagem, apenas para ter sua missão fracassada diante de um ataque corsário, comandado pelo francês Jean Florin (²). O impacto foi enorme. Cartas, mapas, descrições feitas por Cortés e outros espanhóis caíram nas mãos de Francisco I, rei da França, e serviram de guia em navegações posteriores, empreendidas por franceses, com o propósito de fincar o pé no Continente Americano. Nas palavras de Bernal Díaz, "[...] toda a França estava maravilhada das riquezas que tínhamos enviado a nosso grande imperador, e o próprio rei da França cobiçava ter parte nas ilhas de Nova Espanha [...]" (³).
Anos depois, Florin, o notável corsário que tão igualmente notável prejuízo causara à Espanha, foi capturado e conduzido a Sevilha. Foi enforcado - alguém imaginaria outra coisa?  Sob a perspectiva da Espanha deve ter sido, convenhamos, uma vingança magra, pelo tamanho do desaforo.

(1) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Também chamado Jean Fleury.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Op. cit.


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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Hernán Cortés e a conquista da capital asteca

Noventa e três dias foi quanto durou o cerco a Tenochtitlán, a capital asteca, empreendido por europeus, cujo comandante era o espanhol Hernán Cortés, e por indígenas aliados, principalmente tlaxcaltecas. 
Depois de ser escorraçado de lá em 1520, quando só a duras penas sobreviveu, tendo perdido mais de oitocentos homens, Cortés se preparou como podia para voltar. Reorganizou soldados e aliados, obteve mais cavalos e armas e fez construir embarcações, treze bergantins, que poderiam apoiar o cerco pela água. Era uma providência fundamental para quem queria conquistar uma cidade que estava, literalmente, construída, em grande parte, em uma ilha lacustre.
O processo de cerco e conquista seguiu as práticas comuns em guerras antigas, e que, com adaptações circunstanciais, vigoravam ainda no Século XVI. Tenochtitlán foi cercada por tropas, o suprimento regular de água foi cortado e o de alimentos dificultado. Escaramuças contínuas tinham por objetivo ir minando a resistência dos defensores, enquanto pontes e casas em áreas conquistadas iam sendo destruídas pelo fogo e, não sendo isso possível, eram demolidas. Espionagem e captura de inimigos, dos quais se arrancavam informações, não foram negligenciadas. 
Em termos de planejamento, talvez parecesse uma conquista fácil, mas não foi. O exército à disposição de Hernán Cortés era pouco numeroso e a resistência asteca, raiando ao heroísmo, chegou a provocar nos invasores dúvidas atrozes quanto à possibilidade de vitória. Cortés dividiu a gente que o acompanhava em três grupos, que deveriam atacar a partir de pontos estratégicos. Cada grupo tinha, além de combatentes a pé, alguns cavalarianos, balestreiros e escopeteiros, bem como bergantins com a respectiva tripulação. Índios aliados, em maior número, reforçavam o contingente.
A primeira grande providência, segundo Bernal Díaz del Castillo, soldado espanhol a serviço de Cortés, foi danificar a estrutura que fornecia água à capital asteca: "[...] indo quebrar os tubos, encontramos muitos guerreiros [astecas], que nos esperavam no caminho, porque tinham entendido corretamente que aquele seria o primeiro dano que lhes poderíamos fazer [...], e lhes quebramos os tubos por onde a água ia à sua cidade, e desde então nunca mais foi ao México enquanto a guerra durou" (¹).
O conflito, porém, estava longe de acabar, porque durante a noite uma infinidade de canoas cruzava o lago, vindo de povoações adjacentes, para levar água e alimentos à cidade. Entendeu-se que os bergantins deveriam entrar na luta para impedir a ação dos canoeiros. Obtiveram sucesso limitado, porque algumas canoas sempre escapavam e, além disso, os astecas logo descobriram que, colocando estacas no fundo do lago, as embarcações dos espanhóis ficariam impossibilitadas de navegar. Sua audácia foi tanta que chegaram mesmo a capturar um dos bergantins. Os combates eram contínuos, obrigando os espanhóis, em seus acampamentos, a uma vigilância permanente, dia e noite. O próprio Cortés quase morreu, e só foi salvo pela interferência de um soldado que, na ação, acabou perdendo a vida. Soldados feridos eram obrigados a ir à luta, até porque quase não havia entre eles quem estivesse em completa saúde. Com o passar do tempo, as tripulações dos bergantins encontraram um modo de navegar, a despeito das estacas na água, e, desde então, foram de maior utilidade. 
A captura de alguns astecas ofereceu informações que Cortés não desprezou. Havia ainda uma fonte de que a cidade se servia, e medidas foram prontamente adotadas para inutilizá-la. "[...] chegamos ao lugar em que tinham a fonte", disse Bernal Díaz, "[...] a qual quebramos e desfizemos para que não se servissem dela [...]" (²). 
Várias vezes Cortés enviou mensageiros com propostas de paz, que foram rechaçadas. Havia medo entre os astecas em relação ao que poderia acontecer, principalmente quanto à escravização dos derrotados, pois já chegara à cidade a informação de que inimigos capturados eram, usualmente, não só escravizados, mas tinham essa condição marcada no rosto a ferro quente. Presentes enviados por Cortés ao imperador Cuauhtémoc não foram suficientes para convencê-lo a depor as armas. A luta, portanto, continuou. 
Gradualmente e com grandes dificuldades os espanhóis foram conquistando terreno. Ao chegar perto da praça central da cidade já havia espaço aberto em que cavalos pudessem correr e, com a miséria reinando entre a população sitiada, gente faminta começou a aparecer nos acampamentos espanhóis. A fome e a sede, neste caso, deviam ser maiores que o medo.
Agora, a captura do imperador e seu séquito, que haviam se refugiado em um ponto da cidade que somente poderia ser alcançado por água, era apenas questão de tempo. Segundo Bernal Díaz, Hernán Cortés "ordenou a Gonzalo de Sandoval que entrasse com os bergantins no sítio e rincão da cidade onde se refugiavam Guatemuz (³) e toda a flor de seus capitães e pessoas mais nobres que havia no México" (⁴). Cuauhtémoc tinha, porém, canoas prontas para a fuga, e ainda fez uma tentativa desesperada nesse sentido - inútil, porém: "[...] Garci-Holguin alcançou as canoas [...] em que ia Guatemuz (³), [...] e soube que era o grande senhor do México, e deu sinais para que o aguardassem, mas não queriam e fez como se fosse atirar com escopetas e balestras, e Guatemuz (³) teve medo daquilo, e disse: "Não atirem, que sou o rei do México e desta terra, e peço que não toquem em minha mulher e nem em meus filhos [...], mas que me tomem e me levem até Malinche"." (⁵) "Malinche" era, conforme Bernal Díaz, o modo como os astecas se referiam a Cortés. 
Assim terminaram os noventa e três dias de cerco. Bernal Díaz, algo tagarela como escritor, assinalou a data do acontecimento: "Guatemuz (3) e seus capitães foram aprisionados em 13 de agosto, à hora de vésperas, dia do senhor Santo Hipólito, ano de 1521 [...]. Choveu, trovejou e relampejou aquela noite, e até meia-noite muito mais que outras vezes" (⁶).
Entre os vencedores atribuiu-se tudo à intervenção divina e houve muita festa. Posteriormente, Hernán Cortés não teve escrúpulos em torturar o jovem imperador capturado, para que revelasse o esconderijo de tesouros. Cuauhtémoc foi executado por enforcamento em 26 de fevereiro de 1525, na suposição de que andava tramando uma revolta contra os novos senhores daquilo que fora, até bem pouco tempo, o Império Asteca.

(1) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid.
(3) Cuauhtémoc.
(4) CASTILLO, Bernal Díaz del. Op. cit. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(5) Ibid.
(6) Ibid.


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quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Hernán Cortés e a escravização de indígenas no México

Depois da morte do imperador Montezuma, Hernán Cortés, líder de um bando de aventureiros cuja pretensão era a conquista do Império Asteca, concluiu que o levante da população de Tenochtitlán não poderia ser detido e, portanto, não restava a ele e seus homens nenhuma possibilidade de sobrevivência que não fosse a fuga. Nessa ideia parece ter sido até incitado por um astrólogo - lembrem-se, leitores, era o ano de 1520.
A fuga dos espanhóis aconteceu à noite, sob chuva e neblina. Cortés sobreviveu, mas as perdas em soldados, cavalos e armamento foram enormes. Morreram muitos indígenas aliados, morreu Botello, o astrólogo que aconselhara a fuga. O peso do ouro que tentavam carregar dificultava o deslocamento em condições tão adversas. Esse episódio ficou conhecido como "a noite triste". Pergunto: triste para quem?
Mesmo fora da capital asteca, a perseguição ao bando de Cortés continuou. Finalmente, os sobreviventes chegaram a um ponto em que, com alguma segurança, puderam curar os ferimentos recebidos e buscar a ajuda de indígenas que tinham interesse em pôr fim ao domínio asteca. Vê-se que, para Cortes, desistir não era uma opção. 
Medidas radicais logo foram adotadas, no intuito de reencetar a conquista do México. Uma delas veio sob a forma de escravizar todo indígena que matasse um espanhol, conforme explicou Bernal Díaz del Castillo, que, já idoso, fez um relato pormenorizado daquilo que havia vivido como um jovem soldado a serviço de Hernán Cortés: "[...] foi acordado que diante de um escrivão que desse fé do acontecido, se fizesse um documento, pelo qual se considerassem escravos todos os aliados do México [Império Asteca] que houvessem matado espanhóis, porque haviam jurado obediência a Sua Majestade [o rei da Espanha] e se rebelaram, e mataram mais de oitocentos e sessenta dos nossos e sessenta cavalos [...]." (¹)
Antes se prosseguir, talvez sejam necessárias algumas observações. A primeira delas é que, quando ainda julgava ter controle da capital asteca, Cortés havia imposto um juramento pelo qual se reconhecia o rei da Espanha como suserano. Essa era uma formalidade claramente compreensível aos europeus, mas não se pode ter certeza de que os astecas entendiam seu significado e consequências. Não obstante, foi uma justificativa para a escravização dos "rebeldes". Outra observação indispensável está relacionada à intenção de Cortés, ao lavrar um documento, de que fazia tudo dentro da legalidade. Ora, que legalidade era essa? A lógica da conquista, a pretexto de serviço ao rei e à religião.
Para provar que a ameaça de escravização não era apenas bazófia, adotou-se um expediente terrível: "[...] fizeram um ferro com que se havia de marcar os que se tomassem por escravos, que era uma [letra] G, que quer dizer guerra. [...]" (²). E, pouco depois, tiveram ocasião de colocar em prática o "novo regulamento": "[...] em Cachula haviam matado [...] quinze espanhóis, e neste [lugar] de Cachula conseguimos muitos escravos, de modo que em cerca de quarenta dias tivemos aquelas povoações pacíficas e castigadas" (³).
Explicitamente ou sob algum disfarce, a escravização logo seria um dos maiores pesadelos dos povos indígenas do Continente Americano. A varíola e outras doenças se encarregaram de completar o cenário infernal.

(1) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid.
(3) Ibid.


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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

A morte de Montezuma, imperador asteca

Depois de entrar na capital asteca e aprisionar o imperador Montezuma, Hernán Cortés foi informado de que um exército numeroso, sob o comando de Pânfilo de Narváez, mandado desde Cuba pelo governador Diego Velásquez, acabara de desembarcar e estava já em marcha para pôr fim a seus projetos de conquista. Entendendo que sua única chance estava em não fugir ao confronto, Cortés saiu de Tenochtitlán, deixando entre os astecas somente aqueles a quem se confiou a guarda do imperador e a vigilância sobre o riquíssimo tesouro encontrado.
A despeito da franca desvantagem numérica, os comandados de Cortés suplantaram os de Narváez. Não tiveram, porém, muito tempo para comemorações, por chegarem notícias alarmantes do México, dando conta de uma sublevação geral, em decorrência de atitudes imprudentes de Pedro de Alvarado. Retornando a toda pressa, Cortés apenas pôde compreender que, já dentro da capital, ele e seus homens é que eram agora os prisioneiros, ainda que conservassem Montezuma em seu poder. 
Seguiram-se dias de combates sangrentos. De um lado, a população do México lutava para expulsar os invasores; de outro, os espanhóis se davam conta de que dificilmente sairiam dali vivos, mas não queriam renunciar ao tesouro asteca. 
Na tentativa de serenar os ânimos, Cortés compeliu Montezuma a falar ao povo, pedindo calma. A essa altura, porém, outro membro da família real já era apontado como governante, e o imperador prisioneiro não foi recebido com satisfação. Segundo o relato de Bernal Díaz del Castillo, soldado a serviço de Cortés, em um momento de descuido dos que deviam proteger Montezuma, alguém atirou contra ele "três pedradas, uma na cabeça, outra em um braço e outra em uma perna, e posto que lhe pedissem que se curasse e comesse, dizendo-lhe palavras amáveis, não quis [...]".(*) 
O que havia acontecido àquele que fora tratado como um deus, e a quem seus súditos chamavam "senhor, meu senhor, grande senhor"? Com uma autoridade alicerçada na força (sobre outros povos) e na religião (entre seu próprio povo), Montezuma mostrou-se incapaz de liderar os astecas contra um punhado de invasores europeus. 
Teriam as engrenagens do poder funcionado tão bem (pelo menos até ali), a ponto de disfarçarem a incapacidade de liderança por parte do imperador? Foi somente em meio a uma crise sem precedentes que a inaptidão de Montezuma II para o comando do Império Asteca ficou evidente, ainda que ele tenha sido, desde muito jovem, preparado para o cargo que ocupava. 
Supostas profecias, sugerindo a chegada de invasores que destruiriam o mundo asteca têm sido apontadas como causa para sua tímida reação diante das notícias relativas a estrangeiros que se aproximavam. Tentou negociar, ameaçou, bajulou, todavia jamais chamou seu povo às armas, em massa, para cortar a passagem aos que vinham do mar. A vitória teria sido fácil e rápida, se os astecas houvessem atacado com fúria idêntica à demonstrada mais tarde, quando suas crenças religiosas foram questionadas pelos espanhóis. Havia, também, suficientes intrigas palacianas e lutas surdas pelo poder na família real, mas nada disso explica, isoladamente, o comportamento apático do imperador ao receber Cortés e, posteriormente, ao ser aprisionado.
Montezuma morreu, ao que parece, em decorrência da pedrada na cabeça. Até os espanhóis choraram por ele, lamentando que não houvesse sido batizado por um dos religiosos que acompanhavam Cortés.

(*) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Um exército indígena para ajudar Cortés

Furioso com a ida de Hernán Cortés ao México, ocorrida sem sua aprovação, o governador espanhol Diego Velásquez enviara, desde Cuba, uma expedição sob o comando de Pánfilo de Narváez, com a finalidade de prender Cortés e pôr fim a seus sonhos de conquista. Isto prova que os ambiciosos conquistadores espanhóis contendiam entre si, buscando, a qualquer preço, o prêmio de honras, glória e, principalmente, riquezas incalculáveis.
Numericamente, a vantagem estava do lado de Narváez. Estima-se que dispunha de três homens para cada um do bando de seu oponente. Apesar disso, Cortés acabou vencendo, por adotar uma estratégia mais eficiente. É verdade, também, que pedira ajuda a chefes locais, e, por relato de Bernal Díaz del Castillo, sabemos que um grupo de mil e quinhentos lanceiros, ao qual denominou "índios de Chinanta" (¹), chegou a Cempoal com a intenção de participar do combate contra Narváez. Um aspecto muito interessante desse fato é que, através dele, pode-se ter uma visão da capacidade bélica dos povos nativos da região que viria a ser conhecida como Nova Espanha: "[...] vinham por capitães os caciques [...] e um de nossos soldados [...], e entraram em Cempoal com perfeita ordem, de dois em dois; e traziam lanças muito longas e encorpadas, e têm nelas [...] lâminas de pedra (²), que cortam como navalhas, [...] e cada índio trazia um escudo redondo, e com suas bandeiras estendidas e com muitas plumagens, tambores e trombetas, e entre cada dois lanceiros um flecheiro [...], e entraram tão corajosos, que era coisa de se notar, e sendo mil e quinhentos, pela maneira e ordem como vinham, pareciam três mil [...]." (³)
Impressiona, de fato, a ordem e disciplina reinantes na tropa indígena, facilmente perceptíveis nessa verdadeira fotografia em palavras feita por Bernal Díaz, cru e autêntico, como sempre. Mas por que razão, afinal, indígenas apoiavam Cortés? Esse astuto conquistador já tivera tempo suficiente para perceber que, entre os povos submetidos ao Império Asteca, reinava o maior descontentamento. Tratou, por conseguinte, de obter seu apoio, sempre que possível com promessas e presentes, mas com uso da intimidação, quando não cooperavam de boa vontade. De um modo geral, portanto, apoiavam Cortés, não só por temor aos espanhóis, mas porque odiavam a dominação asteca. 
Contudo, nesse dia da batalha de Cortés contra Narváez, a versão ameríndia da falange macedônica chegou tarde. À altura de sua entrada em Cempoal, Cortés e seu bando já eram vitoriosos e senhores da situação, Não obstante, no dizer de Bernal Díaz del Castillo, "Cortés falou aos capitães indígenas com muita gentileza, agradecendo sua vinda, deu a eles contas de Castela e mandou que voltassem a suas povoações [...]" (⁴). Sem perder de vista as riquezas do Império Asteca, era prudente angariar o maior apoio possível entre povos descontentes, para aquilo que ainda estava por vir.

(1) Chinantla.
(2) Provavelmente obsidiana.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Ibid.


quinta-feira, 9 de julho de 2020

A praça do mercado público de Tenochtitlán

Os primeiros europeus, parte do bando de Hernán Cortés, que foram à praça do comércio de Tenochtitlán, a capital asteca, ficaram deslumbrados com o que viram. Reinava ali a maior ordem e limpeza, e vasto mercado público atestava o poderio econômico, bem como o desenvolvimento técnico notável, de uma civilização que, não obstante, estava prestes a naufragar, ante a força e astúcia de invasores.
É certo que a visita dos europeus se fez sob olhares atentos de oficiais astecas, mais que desconfiados das intenções dos "hóspedes". Contudo, Bernal Díaz del Castillo, um soldado jovem naquela ocasião, que, muitos anos depois, decidiu pôr no papel suas recordações desses acontecimentos notáveis (para bem e para mal), guardava vívida memória do que havia visto, e escreveu: "[...] quando chegamos à grande praça, que se diz o Tatelulco (¹), como ainda não a havíamos visto, ficamos admirados da multidão de gente e de mercadorias que nela havia, e da grande organização que em tudo tinham [...]; cada tipo de mercadoria tinha seu lugar marcado" (²).
Os homens de Cortés arregalavam os olhos, e mal podiam conter o espanto. Mais de um deve ter tido ímpeto de se lançar sobre as mercadorias à venda. Acompanhemos Bernal Díaz, que, não por acaso, começou a lista de artigos disponíveis por... Ouro, é claro:
"[...] Comecemos pelos mercadores de ouro, prata e pedras preciosas, plumas, mantas [..], escravos e escravas; digo que eram tantos os que estavam à venda naquela grande praça, como são os negros de Guiné que trazem os portugueses, e estavam atados a umas varas longas e com colares no pescoço para que não fugissem, mas outros andavam soltos." (²)
Não era tudo: 
"Em seguida estavam outros mercadores, que vendiam roupas mais simples e algodão, além de outras coisas de fio torcido, e vendedores de cacau, e desta maneira estavam quantos gêneros de mercadoria há em toda a Nova Espanha, ordenadamente, de modo semelhante ao que há em minha terra, que é Medina del Campo, onde se fazem feiras, que em cada rua estão as mercadorias distribuídas por tipo, e assim estavam na grande praça [...]." (²)
Bernal Díaz notou, também, vendedores de peles de animais, alimentos diversos, objetos de cerâmica, madeira, sal, facas de pedra, machados de vários metais e muitos outros objetos. Não havia tempo para observar tudo de uma vez: "[...] a grande praça estava cheia de gente, era cercada de portais, e em um único dia não seria possível ver tudo o que havia [...]." (²)
Talvez os espanhóis ainda não soubessem, mas mercadores, que, por dever de ofício, viajavam de uma parte a outra do Império Asteca, eram frequentemente recrutados para espionagem. Quem mais poderia bisbilhotar sem levantar suspeitas? Tanta prosperidade, porém, tinha os dias contados. Haveria, é certo, um acervo de peripécias à frente, mas, auxiliados por povos indígenas oprimidos, espanhóis derrotariam os astecas e seus aliados. Um império desabava, tornando em escombros sua cultura, visão de mundo, crenças religiosas, estrutura política e econômica. Como sempre acontece, outro mundo estava prestes a surgir, amalgamando elementos antigos àqueles que traziam os europeus.

(1) Tlatelolco.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Todos os trechos dessa obra aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Uma bebida de cacau para o imperador asteca

Com um misto de curiosidade, ambição e medo, os europeus que faziam parte do bando comandado por Hernán Cortés chegaram a Tenochtitlán, a capital asteca, em 1519. Lá foram recebidos pelo temido imperador Montezuma (¹), cujo cerimonial e luxo deixaram os recém-chegados de queixo caído. Não era para menos: apesar de detestados pelos povos que dominavam, os astecas exerciam controle sobre uma vasta região, absorvendo, através de diversos tributos, muito da riqueza produzida.
À hora das refeições, um verdadeiro desfile gastronômico (à moda asteca) passava diante do imperador, tudo servido como a máxima higiene (²). Para acompanhar a comida, vinha uma bebida, que Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados de Cortés, assim descreveu: "[...] traziam umas taças de fino ouro, com certa bebida feita do [...] cacau" (³), salientando que não era usada apenas pelo sabor: "[...] diziam que era para ter contato com mulheres" (⁴). 
Aos muito curiosos, fica a observação de Bernal Díaz, de que a dita bebida era feita "de bom cacau com sua espuma" (⁵).

(1) Ou Moctezuma, também conhecido como Montezuma II.
(2) Pelo que se depreende do relato de Bernal Díaz del Castillo, esse detalhe deve ter impressionado os visitantes.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(4) Ibid.
(5) Ibid.


quinta-feira, 26 de março de 2020

Roubou duas galinhas e quase foi enforcado

Como Hernán Cortés mantinha a disciplina entre seus comandados


No imaginário popular, ladrão de galinhas é o estrato mais baixo entre os gatunos de toda espécie. Pior, ainda, foi a situação de um soldado que, como parte do bando liderado por Hernán Cortés, invadiu o Império Asteca. Antes, porém, que se efetuasse a chamada "conquista" do México, o soldado Mora quase perdeu o fôlego, e de uma vez por todas.
Tem a palavra Bernal Díaz del Castillo, outro aventureiro comandado por Cortés: 
"[...] partimos para Cempoal (¹) por outro caminho, [...] e estávamos descansando porque fazia sol forte, e vínhamos muito cansados, com as armas às costas, e um soldado que se chamava Fulano de Mora, natural de Ciudad Rodrigo, tomou duas galinhas de uma casa de índios daquele povoado [...]." (²)
Ora, leitores, os invasores europeus são frequentemente descritos como aves de rapina, para quem o roubo, a pilhagem, eram ferramentas úteis, quer para sobrevivência, quer para dominação. Mas havia quem prezasse algum sentimento cavalheiresco de honra, e, infelizmente para o ladrão, Hernán Cortés, ainda que ávido por ouro, era um desses. Portanto, não estava disposto a tolerar indisciplina entre seus soldados, mesmo porque o roubo das galinhas fora feito contra um povoado com o qual eles, espanhóis, haviam entrado em amizade. Para que seus sonhos dourados (³) de conquista vingassem, era indispensável ganhar e manter o apoio de nativos desafetos dos astecas.
Para azar do ladrãozinho, Cortés viu o que fizera. Disse Bernal Díaz:
"{...] Cortés ficou furioso com o que, diante dele, fez aquele soldado em um povoado de paz em tomar as galinhas, que logo mandou colocar uma corda em seu pescoço e teria sido enforcado, se Pedro de Alvarado, que estava junto de Cortés, não lhe cortasse a corda com a espada, e meio morto ficou o pobre soldado." (⁴)
Cortés era homem de vontade férrea. Para bem ou para mal, tratava de manter a disciplina entre os comandados, não fosse o caso de algum deles estragar seus planos. Era bom negociador, conversava bem, e não seria um ladrão de galinhas que iria impedi-lo de surrupiar algo infinitamente mais valioso: o tesouro de Montezuma, imperador asteca.

(1) ou Cempoala.
(2) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Sem intenção de trocadilho... 
(4) CASTILLO, Bernal Díaz del. Op. cit.


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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Hierarquia social no Império Asteca

Hernán Cortés e seu bando começaram a enfrentar o Império Asteca em 1519, percebendo que, para isso, podiam contar com a ajuda de povos vizinhos, cansados dos pesados tributos a que estavam sujeitos e dos contínuos sacrifícios humanos, cujas vítimas deviam fornecer. Depois de várias escaramuças e de luta renhida pelo controle de Tenochtitlán (a capital asteca), o pequeno exército espanhol venceu. Simplificando bastante, a sociedade que os invasores encontraram (e destruíram) era assim organizada:
  • 1. Imperador, cujo cargo era vitalício. O sucessor de um imperador era escolhido dentro da família real, mas não precisava, necessariamente, ser filho do antecessor.
  • 2. Mulher-serpente, que, a despeito do título, era um homem, e, em nome do imperador, exercia liderança em várias situações da vida diária. Havia também Conselheiros civis e/ou militares e sacerdotes importantes, que assessoravam o imperador em suas decisões (o próprio imperador, antes de ocupar o cargo, era educado como guerreiro e sacerdote).
  • 3. Nobreza, constituída principalmente por altos funcionários e governadores provinciais. De um modo geral, os sacerdotes, bastante numerosos, eram também contados entre os nobres. A nobreza estava isenta de impostos e detinha a propriedade de terras.
  • 4. Povo comum, constituído por homens livres. Alguns trabalhavam na terra, outros eram artesãos (hereditariamente), ou ainda comerciantes.
  • 5. Escravos, que podiam ser tanto estrangeiros aprisionados em alguma guerra, como astecas que, empobrecidos, tinham tantas dívidas que, para pagá-las, eram obrigados a trabalho compulsório. Havia astecas que, sendo livres, preferiam ser reduzidos à condição de escravos, para que, dessa forma, tivessem alimento provido por seu senhor.
Notem, leitores, que a estratificação social vigente entre os astecas pode ser comparada à de vários povos, a começar pela Antiguidade. Com as devidas ressalvas, não lembra, por exemplo, a do Egito Antigo?  Havia, porém, na sociedade asteca, um aspecto que a distinguia de muitas outras: a possibilidade, ainda que pequena, de ascensão social. Um jovem comum, talvez filho de camponeses, podia chegar a ser um nobre, se demonstrasse bravura e competência nas guerras frequentes em que os astecas se envolviam, a fim de dominar outros povos, enfraquecendo-os, e obrigando-os ao pagamento de tributos.


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