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sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Onças-pretas

Onça-preta
Famosas pela ferocidade que se lhes atribuiu desde o início da colonização, as onças foram perseguidas porque capturavam animais de criação, porque histórias reais (algumas) e lendas (muitas) faziam delas terríveis predadoras de humanos e por causa da beleza da pele, que se julgava ser apreciada com maior segurança se o animal de origem estivesse morto.
Que dizer, no entanto, das onças-pretas? Félix de Azara, espanhol que esteve na América do Sul encarregado da demarcação dos limites entre o que se pretendia pertencer à Espanha e a Portugal, fez algumas observações interessantes sobre o que chamou de "tigre negro". Explique-se, portanto, que, nesse tempo, as onças-pintadas eram chamadas muitas vezes de "tigres", enquanto as onças-pardas" eram chamadas "leões"... A confusão começou no início da colonização, quando poucos europeus já haviam visto tigres e leões de verdade, mas haviam ouvido falar deles e não foi preciso muito esforço, portanto, para que imaginassem ver feras asiáticas ou africanas na América. Absurda, como seja, a nomenclatura incorreta demorou a desaparecer. Mas voltemos a Azara e ao que disse sobre o animal que aqui nos interessa:
Onça-preta com muuuuuito sono
"Meia légua mais além o aguaceiro nos obrigou a entrar no rancho de um português, onde comemos um assado que o dono nos presenteou, e me informou ter matado nesse lugar um tigre negro. Já havia ouvido dom José Antonio Zabala dizer que tivera a pele de outro tigre igual, e como não tenho ouvido falar de outros, creio que os ditos tigres não são de espécie diferente dos comuns daqui, mas indivíduos a quem a mesma causa que faz outros tigres, animais e homens brancos, converteu-os em negros, isto é, creio que a causa que produz indivíduos albinos [...] ou os negros em alvos é a que dá a cor negra a alguns destes tigres." (¹)
Em essência, Azara estava certo. A onça-preta é uma variação melânica da onça-pintada (Panthera onca), e não uma espécie distinta. Quando observada atentamente, a belíssima pele da onça-preta revela ter manchas, especialmente visíveis quando sobre ela incidem os raios solares (²).  Bebês onças-pretas só vêm à existência se ao menos um dos progenitores também apresentar o melanismo, e, por isso, não são muito comuns. 

(1) AZARA, Félix de. Viajes Inéditos de D. Félix de Azara. Buenos Aires: Imprenta y Librería de Mayo, 1873, p. 193. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Basta observar as fotos. A onça-preta está entre os seres vivos mais bonitos que conheço. 


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quinta-feira, 22 de abril de 2021

Três "tigres" para Carlos V

Onça-pintada (Panthera onca)
Depois de derrotar os astecas e tomar Tenochtitlán, sua capital, Hernán Cortés tratou de enviar a Carlos V, rei da Espanha e mandatário supremo do Sacro Império Romano-Germânico, a parte que lhe correspondia do tesouro asteca e do valor relativo aos escravizados. Juntamente iam cartas, contendo relatórios detalhados da guerra e das riquezas que essa "conquista" adicionava ao jovem soberano. Além disso, era intenção de Cortés que ninguém que não ele próprio fosse nomeado governador do território a que se deu o nome de Nova Espanha.
Sabe-se, por informação de Bernal Díaz del Castillo, um dos soldados que acompanhavam Cortés, que os navios que partiram rumo à Espanha no final de 1522 levavam, também, um curioso e complicado presente para Carlos V: "[...] partiram do porto de Veracruz no dia vinte do mês de dezembro de 1522 anos [...], e no caminho se soltaram dois tigres [sic] dos três que levavam e feriram a alguns marinheiros, e entraram em acordo de matar o que restava, porque era muito bravo e não podiam mantê-lo sob controle [...]" (¹).
Pobres animais expatriados! Não sabemos, ao certo, o que aconteceu aos dois primeiros, e bem pode ser que tenham escapulido e voltado ao seu habitat; o terceiro, porém, não teve tanta sorte. Agora, leitores, cabe recordar que tigres não são nativos do Continente Americano. Colonizadores tinham o costume de chamar "tigre" ao jaguar (Panthera onca), que, no Brasil, é mais conhecido como onça-pintada. Trata-se do maior felino das Américas e exemplares adultos podem passar dos cem quilos. Não é surpresa, portanto, que o malfadado presente destinado a Carlos V tenha ficado pelo caminho.
Sem tigres, ou melhor, sem onças, os navios seguiram viagem, apenas para ter sua missão fracassada diante de um ataque corsário, comandado pelo francês Jean Florin (²). O impacto foi enorme. Cartas, mapas, descrições feitas por Cortés e outros espanhóis caíram nas mãos de Francisco I, rei da França, e serviram de guia em navegações posteriores, empreendidas por franceses, com o propósito de fincar o pé no Continente Americano. Nas palavras de Bernal Díaz, "[...] toda a França estava maravilhada das riquezas que tínhamos enviado a nosso grande imperador, e o próprio rei da França cobiçava ter parte nas ilhas de Nova Espanha [...]" (³).
Anos depois, Florin, o notável corsário que tão igualmente notável prejuízo causara à Espanha, foi capturado e conduzido a Sevilha. Foi enforcado - alguém imaginaria outra coisa?  Sob a perspectiva da Espanha deve ter sido, convenhamos, uma vingança magra, pelo tamanho do desaforo.

(1) CASTILLO, Bernal Díaz del. Verdadera Historia de los Sucesos de la Conquista de la Nueva España. Os trechos citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Também chamado Jean Fleury.
(3) CASTILLO, Bernal Díaz del. Op. cit.


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