terça-feira, 13 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 3): Histórias de Onça

"Era uma onça enorme, que com as garras apoiadas sobre um grosso ramo de árvore, e os pés quase suspensos num galho superior, encolhia o corpo, preparando o seu salto gigantesco."
                                                                                                                                                 José de Alencar, O Guarani

"Era a hora em que a tarde se debruça
Lá da crista das serras mais remotas...
E d'araponga o canto, que soluça,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que s'embuça,
Passa o bando selvagem das gaivotas ...
E a onça sobre as lapas salta urrando,
Da cordilheira os visos abalando."
Castro Alves, A Cachoeira de Paulo Afonso


Depois de ter ficado entendido, pela postagem anterior, que por muito tempo onças-pintadas e onças-pardas foram chamadas, respectivamente, de tigres e leões, chegou a hora de verificar que relacionamento houve entre humanos e esses felinos, o que significa dizer que, pelos documentos de que dispomos, a caça devia ser recíproca. As onças tinham, pelo menos, a vantagem de não serem vistas como especialidade culinária, o que já era muito, em tempos nos quais, na Europa, caçar era frequentemente um privilégio para nobres e monarcas e, por isso, a gente comum, uma vez chegada ao Brasil, lançava-se a perseguir os animais, desfrutando de um "esporte" que pode até parecer sanguinário aos nossos olhos, mas que era considerado "coisa de homem" naqueles tempos.
Na obra de Hans Staden, vê-se, em terra, um
animal que deve ser uma onça-pintada
Uma gravura que aparece na edição de Marburg da obra de Hans Staden, Zwei Reisen nach Brasilien (*), mostra dois animais em terra, aparentando, um deles, ser uma onça-pintada; ainda do século XVI temos, de Pêro de Magalhães Gândavo (**), este relato:
"Os bichos mais feros e mais danosos que há na terra são tigres, e estes animais são deles tamanhos como bezerros, vão-se aos currais do gado dos moradores e matam muito dele e são tão feros e forçosos que uma mão que lançam a uma vitela ou novilho lhe fazem botar os miolos fora e levam-no arrastado para o mato. Também pela terra dentro matam e comem alguns índios quando se acham famintos. Sobem pelas árvores como gatos, e dali espreitam a caça que por baixo passa e remetem de salto a ela, e desta maneira não lhes escapa nada: alguns destes animais matam em fojos os moradores da terra."
Já dá para "sentir o clima" em relação às onças, não é? Veja-se então esta outra referência, agora de Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (***):
"Há também muita diversidade de animais nocivos, que se não comem, como são onças, ou tigres, que matam touros, e se estão famintos acometerão um exército, mas se estão fartos, não só não ofendem a alguém, mas nem ainda se defendem e se deixam matar facilmente."
Bandeirantes e monçoeiros tiveram também seus encontros (e desencontros) com essas feras do Brasil. Uma bandeira metida a apresar índios das missões, obrigada a retroceder, acabou dispersa, como se disse na época, "para maior regalo de tigres e jaguares". Além disso, o Capitão João Antônio Cabral Camello, escrevendo em 1727 sobre a rota das monções, assinalou:
"Este Rio dos Porrudos não cede ao Paraguai na abundância de peixe (...), e nele não faltam onças, que têm feito algumas mortes." (****)
Caça à onça, de acordo com Rugendas (*******)
Um ano antes (em 1726, portanto), durante a monção que levou a Cuiabá o governador Dom Rodrigo César de Meneses, um cozinheiro se extraviou da tropa, fazendo o secretário, a respeito disso, este relato:
"João Francisco cozinheiro de S. Exª que saltando em terra a buscar uma faca que lhe tinha esquecido com tenção a pé seguindo pela margem do rio a canoa até o sítio, onde pousasse a tropa, não apareceu até o presente e se entende que ou se perdeu no mato, ou foi pasto de alguma onça." (*****)
Ainda mais uma aventura de onças caçadoras - dessa vez quem conta é Saint-Hilaire, em suas andanças pelo Rio Grande do Sul e Uruguai (******):
"... Matias veio dizer-nos que acabavam de encontrar quatro tigres, dois grandes e dois pequenos, que estavam comendo o melhor de meus cavalos. Estivera a persegui-los, mas se embrenharam na mata que margeia o lago."
Como se diz, porém, um dia da caça, outro do caçador. Em Corografia Brasílica, obra publicada em 1817, escreveu o Padre Ayres de Casal, ao tratar de uma localidade na então província de Mato Grosso:
"Defronte está a Real Fazenda da Cahyssara, onde se cria numeroso gado vacum e também cavalar, e onde se tem morto grande número de tigres."
Se, no entanto, restar alguma dúvida de que, além de exímias caçadoras, as onças eram também frequentemente caçadas, fosse pela belíssima pele (das onças-pintadas, particularmente) ou porque atacavam o gado (qualquer onça...), basta observar as gravuras que deixaram artistas que estiveram no Brasil no século XIX, tais como Debret e Rugendas, que podem ser vistas como ilustrações desta postagem.

Caça à Onça-Pintada, Debret (********)

(*) Duas Viagens ao Brasil, c. 1557. A imagem foi levemente editada para facilitar a visualização.
(**) Tratado da Terra do Brasil.
(***) Obra provavelmente concluída durante a década de 20 do século XVII.
(****) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed.
São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 132
(*****) Idem, p. 117
(******) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul
Brasília: Senado Federal, 2002, p. 293.
O registro data de 1821.
(*******) RUGENDAS, Moritz Malerische Reise in Brasilien
Paris: Engelmann, 1835 (Biblioteca Nacional)
(********) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2
Paris: Firmin Didot Frères, 1835 (Brasiliana USP)


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