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quinta-feira, 6 de julho de 2023

Pequeno monçoeiro

Um pedaço de madeira, uma faca velha meio cega. O menininho luta para entalhar a forma de um barco, como aqueles que, de vez em quando, vê partir pelo Tietê, no rumo do sertão. 
Ainda é muito cedo e a neblina cobre o rio. Deixando de lado a ferramenta improvisada, corre até o barranco, e olha, e olha... 
Quem sabe? Parece ver movimento ao longe. Seriam os batelões que, há dois anos, haviam partido, levando-lhe o pai, entre tantos outros aventureiros?
A névoa não se dissipa, só um ligeiro ruído na água reacende a esperança. Por pouco tempo. Manejando o varejão, um desconhecido se aproxima, em pé sobre a canoa, e passa adiante, acenando aos olhinhos que o espreitam.
Com persistência grande para pequena idade, volta ao trabalho. Quer fazer o seu barquinho, colocá-lo na água e pensar no dia em que também partirá. Na imaginação de menino, talvez seja isso o significado de ser homem. Abrirá caminho nas florestas, achará ouro, será rico e respeitado. De que mais não será capaz?
Esse sonhar acordado logo acaba, já a mãe é quem grita:
- Anda, menino, vem me ajudar a tirar a palha do milho!...
Pés descalços, corre à casinha em que sós, moram agora a mãe e ele. Manejar o pilão requer uma força que seus braços ainda não têm. Mas, em um acesso de valentia, quer ser grande, quer proteger a mãe, e se esforça para fazer do milho a farinha de que tanto precisam para viver.


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quarta-feira, 18 de março de 2015

A tripulação usual de um batelão monçoeiro

"Batelão" era o nome dado a cada uma das enormes canoas que, ao tempo das monções cuiabanas, eram usadas nas viagens pelo Tietê, Paraná e outros rios. Partia-se de Porto Feliz - então chamada Araraitaguaba (*) - mas o retorno podia ser pelo próprio Tietê ou, em época de grandes chuvas, pelo rio Piracicaba.
Os batelões eram, com frequência, construídos a  partir do tronco de uma única árvore, o que era possível porque, naquela época, havia ainda matas em São Paulo com árvores enormes.
Habitualmente, a tripulação de um desses batelões era composta por oito homens com prática na navegação dos rios, incluindo um piloto (que viajava na popa), um proeiro e seis indivíduos de muita força para remar contra a corrente, habilitados, inclusive, para o uso de varejões em lugar de remos, quando era preciso atravessar as perigosas corredeiras. Entendam os leitores que o número de tripulantes podia variar, ainda que oito fosse o padrão.
Ora, cada uma dessas embarcações devia levar, também, os respectivos monçoeiros e sua bagagem. Em alguns casos, até animais eram transportados. Vê-se, pois, quão árdua era a tarefa dos remadores que, não raro, eram escravos. Assim carregado, um  batelão deslizava pelo leito dos rios, rumo ao interior do Brasil, ficando a borda apenas uns poucos centímetros acima do nível da água. 
Era preciso coragem, mas a esperança de enriquecimento com o ouro levou muita gente a correr todos os riscos, que não eram relacionados somente à navegação. Havia também as doenças, a fome, os ataques de indígenas (paiaguás e guaicurus, entre outros), as chuvas torrenciais e, pequenos mas insuportáveis, mosquitos que tornavam a viagem uma rota infernal. 
Foi assim que se explorou e povoou uma parte considerável do interior do Brasil. Quem ia, queria enriquecer. Voltar? Era apenas incerteza.

Parte que resta de um batelão monçoeiro (Parque das Monções, Porto Feliz - SP)

(*) Os leitores não terão muita dificuldade em compreender a razão para a mudança de nome dessa localidade...


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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Remédios estranhíssimos de antigamente - Parte 3: Cachaça para tratar picadas venenosas

Antes do soro antiofídico (1903), a picada de uma cobra venenosa equivalia, quase sempre, a uma sentença de morte, às vezes muito rápida, às vezes algo mais demorada, frequentemente dolorosa. Vale lembrar, também, que, desde os primeiros tempos da colonização, os europeus que chegavam ao Brasil ficavam aterrorizados diante do número e das dimensões das serpentes venenosas que encontravam, de modo que não tardou a aparecer um certo "conhecimento" popular para tratamento no caso de alguém ser picado, fato que, diga-se de passagem, não era nada incomum. O problema é que os tais "medicamentos" quase sempre não davam muito resultado.
Um relato do Conde de Azambuja, monçoeiro do Século XVIII, provê a explicação de como eram tratadas as picadas de cobra:
"No Pardo (¹) ocorria extraordinário número de ofídios causadores de frequentíssimos acidentes combatidos pela ingestão de altas doses de cachaça salgada." (²)
Espantoso? Há mais.
Não eram apenas picadas de cobra que eram "tratadas" à base de cachaça. As de abelhas recebiam terapia semelhante, se devemos crer em um trechinho proveniente da Literatura, em obra de José de Alencar:
"João Fogaça passou tranquilamente em face deles; apertou a mão a Estácio e beijou-a ao Rev. Padre Inácio. Instruído do que acontecera, o capitão de mato deu logo suas providências para o curativo do pobre sacerdote, cujo corpo apresentava já com a inflamação um aspecto disforme; as fricções de fumo e aguardente aliviaram o enfermo que afinal consentiu repousar algumas horas, depois de obtida a promessa formal de perdão para os selvagens." (³)
Use a interjeição que quiser, leitor. Ao menos, no caso de picada de cobra, a cachaça devia servir, parece, para tornar o infeliz moribundo um tanto alheio à realidade da morte iminente.

(1) Rio Pardo.
(2) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas 3ª ed., vol. 3. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 86.
(3) ALENCAR, José de. As Minas de Prata.


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quarta-feira, 31 de julho de 2013

As aranhas do padre Anchieta


"Umas são um pouco ruivas, cor de terra..."

Quem dentre meus leitores gosta de aranhas? Imagino que poucas pessoas, excetuando, por certo, os pesquisadores que se dedicam a elas - para bem da humanidade, felizmente.
"...outras pintadas, todas cabeludas"
Os monçoeiros que iam pelo Tietê e outros rios rumo ao interior do Brasil no Século XVIII eram acossados de contínuo por montes de aranhas que, caindo das árvores que margeavam os cursos d'água, iam dar nas embarcações - coisa que suscitava, neles, expressões constantes de desagrado, que beiravam ao horror, em alguns casos.
Muito antes dos monçoeiros, no entanto, o Padre José de Anchieta, missionário jesuíta no Brasil, instado a descrever a colônia portuguesa na América e suas particularidades, assim se referiu às aranhas, em uma carta ao Geral de sua Ordem:
"O que direi das aranhas, cuja multidão não tem conta? Umas são um pouco ruivas, outras cor de terra, outras pintadas, todas cabeludas; julgarias que são caranguejos, tal é o tamanho do seu corpo: são horríveis de ver-se, de maneira que só a sua vista parece trazer diante de si veneno." (*)
A carta da qual fazia parte o trechinho acima foi escrita em São Vicente, no fim de maio de 1560. Não se pode, por ela, concluir que Anchieta fosse um apreciador de aranhas, não é mesmo?

(*) ANCHIETA, Pe. Joseph de S.J. Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 115.


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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Como se transportavam cavalos nas monções cuiabanas

Quem quer que imagine as monções como agradáveis viagens pelo Tietê e outros rios, até chegar às minas de Cuiabá, estará, por certo, tendo uma alucinação. As monções eram, via de regra, viagens terríveis, nas quais se enfrentavam chuva e sol, nuvens de mosquitos implacáveis, carrapatos infernais, formigas e aranhas que caíam das árvores sobre as embarcações, cento e tantas cachoeiras e corredeiras, falta de água potável, escassez de alimentos. Morria muita gente no percurso, fosse pelas doenças tropicais, por afogamento ou em luta com os indígenas. Aliás, mesmo que uma expedição tivesse o raríssimo privilégio de não ser atacada por paiaguás e guaicurus, era pouco provável que todos os que partiam de Araraitaguaba, cheios de esperanças de enriquecimento rápido, chegassem vivos e saudáveis a Cuiabá. A viagem transformava até mesmo tipos atléticos em pouco mais que farrapos humanos.
Além disso, quero mencionar aqui um aspecto pouco recordado das monções cuiabanas: não eram apenas humanos que viajavam... 
Porcos e galinhas eram, rotineiramente, embarcados vivos, mas para estes o destino final não era Cuiabá - serviriam de alimento pelo caminho. Alguns cachorros eram também levados para que ajudassem nas caçadas que se faziam ao final de cada dia, visando a melhorar as condições de alimentação dos viajantes. Compreende-se que o transtorno para transportar um animal nas canoas e batelões monçoeiros era diretamente proporcional ao tamanho - do animal, por suposto. A "dor de cabeça" máxima era, portanto, levar um cavalo, acomodado sabe-se lá como, e fazê-lo chegar ao término da viagem em boas condições. Por isso, ter um cavalo em Cuiabá era indício de riqueza, como se deduz deste registro que aparece na Nobiliarchia Paulistana, de Pedro Taques de Almeida Paes Leme (séc. XVIII), relativo a Antônio de Almeida Lara:
"O seu tratamento foi sempre igual à sua distinta qualidade, porque em tempo que para ir ao Cuiabá um cavalo se conduzia embarcado em canoa, desde o porto de Araraitaguaba até as minas, e por isso se reputavam por preços exorbitantes, Antônio de Almeida os possuía muito bons."
Conforme veremos na próxima postagem, foi muito útil a Antônio de Almeida Lara ter cavalos, ou melhor, ter um, em particular.


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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Os urubus-brancos que fizeram um desenhista "voar"

Há notícias de monçoeiros que acabaram enlouquecendo na viagem às minas - "surtaram", hoje se diria. É que a longa jornada por rios aparentemente intermináveis, rodeados por matas que também pareciam infindas, ao lado de perigos contínuos, reforçados pelo presenciar quase diário da morte de companheiros de viagem, levava os expedicionários a um verdadeiro teste de resistência não apenas física, mas sobretudo mental.
No século XIX, quando as monções cuiabanas já eram coisa do passado, a Expedição Langsdorff seguiu a mesma rota dos monçoeiros rumo ao Brasil central e, dali, para a região amazônica. Entre os expedicionários estava o jovem desenhista francês Hércules Florence, que prestou trabalho verdadeiramente impagável ao registrar em imagens o que se via no caminho. Por certo não enlouqueceu (não se pode dizer o mesmo do líder da Expedição), mas, no relato escrito que deixou, às vezes ocorreu exagerar. Tem-se uma amostra disso nesta descrição que faz do urubu-rei, urubu-branco ou urubutinga (seja lá qual for o nome que se lhe dê, a ave é a mesma):
Cabeça de urubu-rei ou urubutinga
"Os caçadores trouxeram dois urubus-brancos ou urubutingas, um dos mais belos pássaros das florestas do Brasil: o mais formoso sem dúvida em cores e plumagem; o aspecto, porém, e os hábitos são de legítimo corvo. É do tamanho de um ganso. Tem olhos grandes e redondos; íris de brilhante alvura; pálpebras vermelhas; bico como o dos urubus: comprido, recurvado e de um alaranjado vivo. Abaixo do bico, expande-se uma carúncula carnosa que cai de um lado e de outro, de cor também alaranjada. Desde o olho até esta carnosidade, a pele nua puxa para roxo.
Acima da cabeça há uma parte completamente desnudada, rubra, com penazinhas tão pequenas e separadas que parecem pelos. Por baixo dos olhos e do pescoço saem carúnculas unidas e compridas, de um escuro claro e que, em forma de arco, vão-se ligar acima da nuca, unindo-se então num filete carnoso que desce por trás do pescoço até a base do peito. É vermelho claro em cima, preto no meio e amarelo em baixo. As cores da cabeça são realçadas por um fundo negro do ébano, que bem se pode chamar de moldura. O pescoço é totalmente desnudado de penugem. A pele parece pele de luvas: é amarelo vivo na frente, cor que cambia insensivelmente para vermelho carregado. Esse pescoço nu e tão bem colorido sai de um colar de penas acinzentadas que parecem vir das costas e se reúnem no peito, a formarem novamente uma linha de separação que se esbate pouco acima da barriga. O colar semelha um ornato de mulher. O resto das penas é branco, exceto nas extremidades das asas que são pretas. Os pés são brancos." (*)
Percebendo que talvez tivesse ido longe demais, acrescentou:
"Desculpem-me esta descrição, que não é de naturalista."

Um belo exemplar da ave descrita por H. Florence

(*) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, pp. 36 e 37.


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domingo, 4 de março de 2012

Avanhandava

Quem, no século XVIII, se atrevia a empreender a rota monçoeira que ia, partindo de Araraitaguaba (Porto Feliz), até Cuiabá, tinha de enfrentar uma série de obstáculos. Além da longa viagem, dos ataques de mosquitos, carrapatos, onças e outras feras de diversos tamanhos, da fome como ameaça constante, dos possíveis confrontos com indígenas - o que já seria suficiente para demover a maioria das pessoas de uma rota assim - havia a transpor nada menos que cento e treze cachoeiras (¹), algumas maiores, outras menores, quase todas perigosas, não sendo fato raro encontrar, enroscado às raízes de árvores das margens dos rios, algum cadáver de monçoeiro que se afogara na perigosa travessia.

Salto do Avanhandava, de acordo com Hércules Florence (⁴)

Todavia, dentre todas essas cachoeiras, havia uma que, só de ser mencionada, provocava calafrios nos viajantes: era o Salto do Avanhandava, no rio Tietê. Para transpor esse espetacular obstáculo era preciso muito trabalho, tanto de livres quanto de escravos, já que todas as canoas precisavam ser descarregadas para transporte por terra, em meio ao mato que circundava as margens. Um método tão engenhoso quanto antigo era empregado para possibilitar a realização da penosa tarefa: canoas e batelões eram rolados sobre trilhos feitos de toras de madeira, que a espessa floresta que margeava o Tietê provia.
Duas descrições nos darão uma boa ideia do que era o Avanhandava, lugar no qual a natureza fazia uma associação espantosa entre beleza e perigo. O primeiro relato vem do sargento-mor Teotônio José Juzarte, que empreendeu a rota do Tietê em 1769:
"É este Salto de Avanhandava uma obra da natureza cuja altura excede a cinquenta braças que despenhando-se por ele copiosas águas ao ponto que faz uma agradável vista, e figura, causa pavor, e medo, porque fazendo várias figuras, em umas partes à imitação de degraus de sepulcro, em outras fazendo vários redemoinhos pendurados pelo ar, em outras formando grossas e dilatadas fontes à maneira de chafarizes que é tal a bulha que para se ouvirem os homens uns aos outros é necessário gritar, além disto se experimenta nesta paragem um granizo continuado à maneira de chuva, que levanta pela monstruosidade de águas que se despenham seu peso, e sua altura, que caindo em um dilatado espaço que faz embaixo deste salto em o qual são tão grandes as ondas que ninguém as pode penetrar." (²)
O segundo depoimento é de Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff que passou pelo local em 1826:
"O salto de Avanhandava é uma bela e majestosa catarata. Corta o rio segundo uma linha oblíqua, de modo que a víamos bem de frente. Sua largura pode ser de 300 braças, a altura de 40 pés, o que, com a inclinação do álveo, antes e depois da queda, dá os 60 pés entre o porto superior e o inferior. À direita veem-se as águas se precipitarem entre a margem umbrosa, uma ilhazinha coberta também de árvores e uns grandes penedos. Forma-se, pois, duas gargantas por onde atiram-se as massas líquidas em tal agitação e revolvimento de espumas, que densas nuvens de vapores se erguem com neblina cerrada. As águas que caem pelo lado do grande maciço de rocha não são tão revoltas: milhares de cascatinhas divididas por pontas de rochedos constituem um anfiteatro de pedra riscado por fios d'água, alva como neve.
O grande maciço não se prende à margem esquerda. De permeio a eles fica uma ilha, e no intervalo lançam-se, espumantes e furiosas, espadanas de água, que se desfazem em vapores." (³)

Salto do Avanhandava, em imagem de 1920 (⁵)

As diferenças de abordagem nos dois trechos acima devem-se, naturalmente, às distintas perspectivas de seus autores. O primeiro, Juzarte, enfrenta a fúria do salto com preocupação, diante da responsabilidade de ter de passar o Avanhandava com sua gente, que conduz em viagem repleta de contratempos pelo Tietê, para ir povoar uma difícil área de fronteira; já Hércules Florence lança à paisagem seu olhar de artista, buscando na imensa massa de água o equilíbrio estético, a perspectiva correta, que almeja refletir em seus desenhos. Os dois, cada um a seu modo, deixaram um testemunho precioso de um espetáculo que desapareceu. À semelhança de Sete Quedas, hoje sob as águas de Itaipu, o Salto do Avanhandava foi engolido pela represa da Usina Hidrelétrica de Nova Avanhandava. Restam apenas o nome e as imagens do passado, três das quais estão nesta postagem.

Outra imagem do Avanhandava, também de 1920 (⁶)

(1) Segundo o Padre Ayres de Casal, em Corografia Brasílica:
"...das cento e treze, que os navegantes encontram de Porto Feliz até Cuiabá."
(AYRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica  vol. 1. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 271.)
(2) Citado em:
TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas 3ª ed., vol. 3. São Paulo: Melhoramentos, 1975, pp. 248 e 249.
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 40.
(4) Ibid., p. 54. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(5) A CIGARRA, 15 de setembro de 1920.
(6) A CIGARRA, 1º de setembro de 1920.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

As lavouras nas proximidades das Minas do Cuiabá e o que nelas se cultivava

Quem viajava pela rota das monções até as Minas do Cuiabá tinha de levar boa quantidade de suprimentos. Como já se explicou em postagem anterior, esses suprimentos quase sempre acabavam antes do final da viagem e, por vezes, a fome era uma companhia extremamente cruel aos esfomeados do ouro. Por isso, aos poucos foram surgindo roças a distâncias não muito grandes das minas, nas quais os monçoeiros podiam comprar algum mantimento para amenizar as dificuldades da longa jornada que haviam empreendido.
A pergunta é: Por que roças somente tão perto de Cuiabá, e não mais longe, já que eram tão necessárias e certamente haveria compradores para a produção?
Primeiro, as roças não eram vistas como uma prioridade - importante, mesmo, era a busca pelo ouro e, nesse sentido, poucos eram os que se dispunham a desenvolver algum tipo de cultivo. Quando isso acontecia, era interessante estar perto do núcleo de povoação, pois os preços que nas minas se pagavam por gêneros alimentícios eram extremamente altos.
Bananeira, segundo gravura de Debret (*)
Além disso, havia uma outra razão para que a lavoura não se fizesse muito longe da povoação: os confrontos com a população indígena foram, nessa área, particularmente violentos. Inconformados com a presença de "gente nova" em áreas que consideravam como suas, os índios atacavam as roças, levavam a colheita, queimavam casas e outras instalações e, muitas vezes, matavam senhores e escravos que ali viviam (não se surpreenda, leitor: os povoadores não agiam de modo muito diferente). Daí se vê que, por razões defensivas, os agricultores não queriam tentar o estabelecimento de plantações muito distantes, ainda que os monçoeiros muito procurassem por alimentos em seu caminho. Há relatos de gente que foi cultivar áreas distantes e que conseguiu fazê-lo por certo tempo, até que uma monção, por ali passando (em intensa expectativa de comprar novos suprimentos), constatava estar tudo completamente destruído pelas chamas e, para horror geral, chegava-se a avistar ossadas humanas expostas, talvez como uma espécie de advertência.
Sendo as coisas assim, o que se cultivava nas roças existentes nas imediações nas minas? A lista não é muito extensa e inclui, como não poderia deixar de ser, aquilo que produzia sem muita dificuldade: milho (com uma infinidade de aplicações), mandioca (principalmente para se fazer farinha), feijão, batata, melão e melancia, banana e, certamente não para atender necessidades alimentares, fumo. Rotineiramente, criavam-se galinhas e porcos e, algumas vezes, cabras também. Não era muito, mas era disso que se abastecia a população mineradora em Mato Grosso, uma vez que, ao contrário do que ocorria nas Gerais, em que grande parte dos suprimentos vinha de longe, nas costas das mulas dos tropeiros, aqui já não havia essa possibilidade. A distância dos maiores centros de povoação era muito maior e, até por restrições governamentais para evitar o contrabando de metal precioso não quintado, um caminho terrestre que fosse praticável demorou a ser estabelecido.

(*) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 1. Paris: Firmin Didot Frères, 1834. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Haja apetite! Alimentos embarcados na monção do governador Rodrigo César de Meneses em 1726

A alimentação de monçoeiros - pobres ou ricos - foi assunto da postagem anterior. Houve, no entanto, exceções à regra absolutamente notáveis. Uma delas foi o excelentíssimo senhor governador capitão-general Dom Rodrigo César de Meneses, obrigado, por ordens de Sua Majestade, o rei de Portugal, a deixar São Paulo, empreendendo a duríssima viagem até Cuiabá, isso em 1726.
Acontece que esse homem não era daqueles que perderiam a pose, mesmo metido em estreita embarcação meses a fio. Por isso, levou consigo gente que cuidasse de tornar sua vida tão cômoda quando fosse possível e, naturalmente, farta matalotagem para satisfazer-lhe o voraz apetite. Seu secretário, Gervásio Leite Rebelo, teve o cuidado de tudo registrar com o máximo critério, de modo que eis aí a lista de tudo o que se embarcou para alimentação específica do governador, assegurando-lhe não ser torturado, diariamente, com o mesmíssimo virado à paulista que se preparava para os demais:

Grãos (não se especificam quais) ............................................ 4 alqueires

Aletria ............................................................................................ 7 arrobas

Cuscuz .......................................................................................... 4 arrobas

Manteiga ....................................................................................... 7 arrobas

Peixe seco ................................................................................... 4 arrobas

Doces ........................................................................................... 8 arrobas

Chocolate ..................................................................................... 4 arrobas

Marmelada ................................................................................... 144 caixas

Biscoitos ....................................................................................... 6 barris

Paios ............................................................................................. 2 barris

Queijos .......................................................................................... 60 unidades

Azeite de oliva ............................................................................. 5 barris

E, para que o digno representante de sua majestade "matasse a sede", embarcaram-se também:

Vinho .............................................................................................. 8 barris

Aguardente do Reino, ou seja, de uva ...................................... 8 frasqueiras

Aguardente da Terra, ou seja, de cana-de-açúcar .................. 3 barris

Para os demais integrantes da dita monção, foi embarcada uma grande quantidade de farinha (150 alqueires de farinha de milho e 100 de farinha de mandioca, além de 23 alqueires de farinha de trigo, o que era pouco usual), 65 alqueires de feijão e 12 porcos.
Ainda assim, o estrito secretário de Dom Rodrigo César de Meneses registrou que o fim da viagem, concluída a 15 de novembro de 1826, se fez sob muita falta de alimentos, a ponto de os remadores estarem bastante enfraquecidos. Nenhuma surpresa, já que eram eles que realizavam o mais árduo trabalho e os que, com frequência, menos cuidados recebiam.


domingo, 11 de dezembro de 2011

Alimentos que os monçoeiros levavam em viagem pelo Tietê e outros rios

Embora confiassem encontrar caça e peixe pelo caminho, os monçoeiros que desde Araraitaguaba (Porto Feliz) partiam para as minas do Cuiabá pela rota do rio Tietê precisavam de considerável volume de suprimentos para a longa jornada. Assim, era rotina que, para "pessoas comuns", a matalotagem consistisse, basicamente, em feijão, farinha de mandioca e/ou farinha de milho, um pouco de toucinho e, obviamente, sal - ingredientes que eram usados a cada noite, ao ser preparada a comida do dia seguinte e que, em seu conjunto, originaram o "virado à paulista". A razão do nome fica portanto evidente, e ilustra muito bem como, de circunstâncias adversas, como eram as da rotina monçoeira, pode nascer uma especialidade culinária. Aliás, os chamados pratos típicos do Brasil encerram uma variedade de casos análogos. Aos que se interessam pelo assunto, digo que consultei um famosíssimo livro de receitas, muito popular no Brasil, que lista quase os mesmos ingredientes para o virado à paulista, apenas usando óleo e temperos diversos e sugerindo algumas guarnições, como ovos fritos e linguiças...
Os escravos remadores e a gente pobre que sonhava enriquecer com o ouro das minas não tinham a possibilidade de complementar a alimentação praticamente igual a cada dia, a menos que por sorte lhes caísse nas garras alguma caça. Se a infeliz vítima era uma anta (¹), então havia festa geral, com o churrasco inesperado seguindo noite adentro.

Araraitaguaba, o local de onde partiam as monções (Porto Feliz, SP)

No entanto, se o monçoeiro era endinheirado (havia quem arriscasse os bens para tentar fortuna maior nas minas, ainda que fosse muito comum que alguém se desse por muito feliz se pudesse voltar com a vida e uns trapos sobre o corpo), podia incluir, por conta própria, outros itens em sua ração diária, desde que fossem passíveis de conservação, como biscoitos e presuntos. E não imagine o leitor que isso gerava constrangimentos entre os viajantes: nesses tempos anteriores à influência da Revolução Francesa as diferenças sociais eram vistas como coisa normal, que não se devia questionar, e sim aceitar. Nascia-se assim, e ponto final. Qualquer ideia fora disso era olhada com horror, e os poucos que ousavam expressar pontos de vista contrários eram tidos como uma espécie de lepra social altamente contagiosa e, por isso mesmo, perigosíssima, da qual gente decente devia fugir, e o Estado, zelando paternalmente, exterminar. A igualdade, porém, às vezes comparecia sob a forma da fome que acometia a todos, indistintamente, quando os alimentos acabavam ou se perdia uma embarcação que os transportava. Sobre isso, escreveu o secretário de D. Rodrigo César de Meneses, que foi a Cuiabá em 1726: "... tanto mais se quer antes perder um negro, sendo estes tão necessários, que um alqueire de mantimento, feijão ou farinha." (²) Malgrado a óbvia desvalorização da vida de um ser humano que transparece neste registro, vê-se o quanto o fantasma da falta de comida atormentava os monçoeiros. (³)
Exceções a essa regra geral sobre alimentação? Sim, podia haver. Sabemos pelo relato feito pelo Conde de Azambuja, Dom Antônio Rolim, que empreendeu a rota monçoeira em 1751, que usava-se levar algumas galinhas (vivas) para servirem de alimento (mortas, naturalmente) aos que adoecessem em razão das agruras da viagem. Fora disso, embarcava-se alguma cachaça, cuja utilidade oficial era a de medicamento em caso de picada de cobra. (⁴)
(2) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas vol. 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 117.
(3) A postagem "Cobras, lagartos e outros bichos - De que se alimentava a população das minas coloniais quando faltava comida" trata do assunto da falta de alimentos entre monçoeiros e mineradores.
(4) Jamais tente isso, leitor. Evite picadas de cobra, mas se isso acontecer, recorra imediatamente ao soro apropriado.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Cobras, lagartos e outros bichos - De que se alimentava a população das minas coloniais quando faltava comida

Afoitos pela busca do ouro, os mineradores estabelecidos precariamente nas Gerais enfrentaram, por vezes, situações extremas de falta de alimentos. Há relatos de alguns que, na ausência de suprimentos adequados, acabaram comendo lagartixas, lagartos, cobras, içás e lagartas encontradas na madeira apodrecida de algumas árvores. A febre das riquezas que podiam vir rapidamente levava multidões ao esquecimento de uma das mais básicas condições para a sobrevivência, ou seja, a necessidade de que fossem estabelecidas lavouras dos gêneros necessários ao sustento de tanta gente.
Já nas minas de Cuiabá uma série de fatores veio a contribuir para que a fome grassasse no ano de 1725, levando a população mineradora às raias do desespero, em decorrência da falta geral de víveres. Sem poder contar com o abastecimento que vinha de longe, já que uma monção que devia conduzi-los foi exterminada em combate com indígenas, restava à população sobreviver apenas de produtos locais. Ocorre que, a despeito de neste caso haver roças, duas pragas terríveis - de ratos e de gafanhotos - destruíram praticamente toda a safra de milho e feijão. Nos extremos da penúria, consta que um frasco de sal chegou a ser cotado a meia libra de ouro, enquanto que um casal de gatos (para combater os ratos) foi vendido por nada menos que uma libra (¹).
Um século mais tarde, fazer a jornada fluvial pela mesma antiga rota das monções podia, ainda, significar a necessidade de "adaptação" a alimentos que pareciam ser algo estranhos, conforme sabemos pelo relato de um dos desenhistas da Expedição Langsdorff, Hércules Florence:
"Deixando a monção continuar a subir o rio com a habitual lentidão, fomos, eu e os Senhores Riedel e Taunay, por terra umas duas léguas até ao salto do Corau. Não leváramos senão uma espingarda de caça, algumas cargas de chumbo fino, uma bala e dois biscoitos que constituíram nosso jantar. Chegamos antes do pôr do sol ao salto, demo-nos pressa em formar provisório abrigo com folhas de palmeira guacuri. Felizmente matou o Sr. Taunay um lagarto que nos serviu de ceia e que a fome transformou em manjar suculento. Deparou-se-nos também um cacho de bananas que pendia de raquítico tronco. Caso houvessem estado maduras, não teriam escapado à gente de Costa Rodrigues: por incomíveis as deixaram, mas nosso apetite era tal que, assadas assim mesmo verdes, foram regalo precioso." (²)


(2) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 63.


Veja também:

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Animais que aterrorizavam a imaginação dos colonizadores do Brasil (Parte 2): Jacarés

"Era a hora em que a sombra das montanhas sobe às encostas, e em que o jacaré deitado sobre a areia se aquece aos raios do sol."
                                                                                                                         José de Alencar, Guarani

Diferentemente das cobras (que foram assunto de nossa postagem anterior), os jacarés sempre dividiram as opiniões dos colonizadores. Explico: se, por um lado, seu aspecto pareceu amedrontador, com toda aquela possante dentição à mostra, por outro, não demorou que sua caça logo interessasse a muitos que o tiveram na conta de fina iguaria, coisa que não aconteceu com cobra nenhuma. Os trechos de documentos que veremos a seguir demonstram bem essa dupla impressão.
Tendo percorrido o interior do Brasil entre 1825 e 1829 (¹), na condição de desenhista da Expedição Langsdorff, Hércules Florence deixou em seu diário uma interessante descrição de um lago em uma fazenda visitada, cujas águas pareciam bem convidativas, mas cujos habitantes inviabilizavam um banho, ainda que rápido, tudo narrado em vívida linguagem, que bem faz o leitor imaginar facilmente a situação:
"Se por si sós podem esses peixes (²) tirar o desejo de tomar um banho no lago, a presença de enormes jacarés em número superior a tudo quanto até então eu vira, basta para que até em tal nem se pense. Ouve-se-os roncar: veem-se-os no meio dos aguapés das margens, por toda a parte. O lago semelha uma caldeira de azeite a ferver, por tal modo agitam esses anfíbios [sic] a água, nadando rentes à superfície." (³)


Ora, para infelicidade dos jacarés, nem toda a carinha de maldade que têm impediu que os colonizadores se dispusessem a abatê-los, fosse porque, às vezes, os alimentos escasseavam, fosse porque alguns eram mesmo apreciadores de sua carne, sem falar nos usos que em pouco tempo seriam dados ao couro. Isso nos contam monçoeiros que, desde Porto Feliz, partiam via Rio Tietê até longínquas terras no interior do Brasil, como foi o caso, por exemplo, do governador português Dom Rodrigo César de Meneses. De sua ida a Cuiabá em 1726 há um relato feito pelo secretário Gervásio Leite Rebelo, no qual se lê:
"Em 27 e 28 do dito (⁴) se continuou a viagem com bom sucesso, houve bastante caça por ser este rio abundante de aves e de peixe, principalmente capivaras, piranhas e jacarés." (⁵)
Uma pausa aqui é quase obrigatória, para assinalar que, se o trecho mostra claramente que jacarés eram tidos como caça, mostra também que, ou o senhor secretário do governador não revisou o que escreveu, ou não tinha os mais elementares conhecimentos científicos, mesmo para seu tempo: como pode dizer que o rio era pródigo em aves e peixe e exemplificar isto com capivaras, piranhas e jacarés?!


Vamos adiante. Por meio de um outro relato monçoeiro, datado de 1751, desta vez feito por outro governador, Dom Antônio Rolim, o Conde de Azambuja, temos uma descrição de jacarés até detalhada. Compare-a, leitor, portanto, com as fotos desta postagem e veja se esse nobre português andou bem em suas palavras:
"Neste dia se matou o primeiro jacaré, a três ou quatro passos de distância da canoa, que tão pouco espantadiços são. Este, com ser pequeno, pelo que disseram, tinha seis palmos de comprido, quatro pés como lagarto, mais grosso no corpo que um homem pela coxa, rabo comprido à proporção do mais corpo. A pele, pela parte de cima, feita em cintas como armas brancas, é tão dura, que, dando-lhe à mão-tente com uma faca de ponta, apenas lhe entrou grossura de duas moedas de dez réis. A cabeça é comprida, os dentes de cão e sem língua." (⁶)

(1) Já fora, portanto, do tempo colonial.
(2) Os peixes eram piranhas, que serão assunto da próxima postagem.
(3) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 187.
(4) Outubro de 1726.
(5) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas 3ª ed., vol 3. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 121.
(6) Ibid., p. 203.


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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 6): A capivara

"O sol deitou-se, e de novo se levantou no céu. Os guerreiros chegaram aonde a serra quebrava para o sertão; já tinham passado aquela parte da montanha, que por ser despida de arvoredo e tosquiada como a capivara, a gente de Tupã chamava Ibiapina."
                                                                                                                          José de Alencar, Iracema

Hans Staden descreveu a capivara como sendo um animal que podia viver tanto na água como sobre a terra. Tinha, segundo ele, o tamanho superior ao dos cordeiros, a cabeça parecida com a de uma lebre e orelhas curtas, pernas altas proporcionalmente ao corpo, pelo escuro, três unhas em cada uma das patas e, ressaltava, a carne semelhante à de porco. É recorrente, em diversos autores, a visão dos animais meramente como caça, para alimentação, fato a que já me referi nas postagens anteriores.

Capivara pastando à margem de um lago

Compelido a viajar pela rota das monções em 1751, o Conde de Azambuja, D. Antônio Rolim, deixou anotada uma observação sobre a caça às margens do Tietê:
"De caça de pele neste rio só pacas e capivaras. As primeiras são do tamanho de um leitão, com os pés curtos, o pelo como de cão pardo-escuro. Das outras o feitio é de rato, principalmente o da cabeça; o pelo na aspereza é de porco, mas pardo; são do tamanho de um marrão, e o gosto não é bom; a paca sim é mui gostosa." (¹)
Os leitores podem recordar-se de que, em postagens anteriores desta série, outros viajantes relataram uma diversidade bem mais significativa de animais "caçáveis" às margens do mesmo Tietê. O que teria ocorrido em tão breve intervalo de tempo, fazendo com que os animais desaparecessem? Talvez seja possível aplicar também neste caso as palavras do Padre Ayres de Casal, ao referir-se à desaparição de aves chamadas guarás no Maranhão:
"As espingardas têm feito maior destruição nestes viventes em três séculos do que as taquaras dos indígenas em toda a antiguidade." (²)

(1) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, pp. 201 e 202.
(2) Corografia Brasílica, vol. 2, 1817, p. 263.


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domingo, 18 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 5): Os ferozes queixadas

"Com efeito da orla da selva rompia um bando de porcos-do-mato. Mais de cem desses animais selvagens, com a pupila chamejante, ouriçando as ruivas cerdas, e afiando os longos colmilhos nos queixais chocalhados pela sanha, trotavam em fila, e figuravam na relva da campina a verga combusta do imenso arco de algum tamoio gigante.
Assim avançam os ferozes queixadas, rompendo relvas, estraçalhando quanto encontram com os cutelos das presas, ou esmagando-o sob a úngula bissulca das cem patas cadentes que batem o chão. Se o inimigo resiste ao primeiro ímpeto do centro, ou se receiam lhes fuja, as pontas do arco se estorcem, e a vara fatal cinge o mísero, que tomba em pedaços, como a isca à flor de tanque piscoso."
                                                                                                                                        José de Alencar, Til

Semelhantes sob vários aspectos aos porcos-monteses da Europa, os queixadas ou porcos-do-mato (¹) logo atraíram a atenção dos colonizadores, que viam na abundância desses animais a garantia de caça apetitosa e farta. Isso, naturalmente, a despeito do perigo, pois esses porcos selvagens, percorrendo as matas em enormes manadas, eram capazes de aterrorizar até o mais indômito dentre os caçadores. Algo parecidos na forma, os simpáticos e, quase sempre pacíficos caititus, às vezes "pagavam o pato".

Queixada ou porco-do-mato

Mas, se os queixadas eram assim tão perigosos, como caçá-los? Frei Vicente do Salvador, ao descrever os ditos animais, deixou-nos um relato de qual era o procedimento empregado em sua captura:
"Há também muitos porcos-monteses; alguns como os javalis de Espanha, os quais andam em manadas, e se o caçador fere algum há logo de subir-se a alguma árvore, porque vendo eles que não podem chegar-lhe remetem todos ao ferido e aos outros que se pegou algum sangue, com tanta fereza que se não apartam até não deixarem três ou quatro mortos no campo, e então se vão em paz, e o caçador também com a caça." (²)
Ainda assim, leitor, se fosse possível (hipoteticamente, claro), fazer uma enquete entre os sertanistas que andavam a percorrer o território ainda ignoto do Brasil nos tempos coloniais, os porcos-do-mato figurariam, sem sombra de dúvidas, entre os grandes terrores que os assaltavam. Alguns relatos mais, que agora consideraremos, podem confirmar esta ideia.
No primeiro deles, é o próprio Frei Vicente do Salvador quem conta de um ataque a uma tropa de entradistas:
"Em a era do Senhor de 1578, em que Lourenço da Veiga governava este Estado, se ordenou em Pernambuco uma entrada para o sertão em que foi por capitão Francisco Barbosa da Silva em um caravelão até ao rio de São Francisco, e por ser a gente muita, e não caber na embarcação, foram setenta homens por terra, levando por seu cabo a Diogo de Crasto, que falava bem a língua da terra e havia já ido da Bahia a outras entradas.
Estes, havendo passado o rio Formoso, foram cometidos de um bando de porcos-monteses, com tanta fúria e rugido de dentes, que os pôs em pavor, mas como tinham as espingardas carregadas, descarregaram-nas neles, e os fizeram voltar, ficando sete mortos, que foram bons para a matalotagem." (³)
Outros relatos vêm de Teotônio José Juzarte, o sargento-mor que, em 1769, conduziu uma monção pelo Tietê afora. Ele mesmo lista os porcos-do-mato entre os grandes perigos que ameaçavam os monçoeiros:
"Há as onças, e tigres e as grandes manadas de porcos-de-mato que são bravíssimos, e de muito longe se ouve o estrépito que fazem com os dentes, de tudo isto se tem grande cuidado durante a noite." (⁴)
E, para confirmarmos que há dia da caça e dia do caçador, outros dois breves trechos do Diário da Navegação anotado por Juzarte, sendo o segundo deles um exemplo no mínimo exótico dos tratamentos dispensados aos doentes no Período Colonial. Sem mais delongas, vamos a eles:
"... e saíram muitos homens a caçar por aqueles matos onde se perdeu um soldado [...]; ... sendo já oito horas da noite ouviram que o soldado gritava, acudindo para aquela parte deram com ele trepado sobre uma árvore sem saber em que parte estava, e disposto a ficar a morrer naquele sertão; contou que o motivo de se trepar naquela árvore fora um grande número de porcos-do-mato que com violenta carreira se encaminhavam para ele, aos quais seguia e perseguia uma onça de extraordinária grandeza, que à vista disto se salvou em cima daquela árvore para passar ali a noite até o dia seguinte para então ver se acertava com o lugar aonde ficavam as embarcações [...]." (⁵)
"... seguindo encontramos uma quantidade de porcos-do-mato que com os dentes faziam grande bulha, embicamos em terra, e logo saltaram alguns caçadores, e com efeito mataram três, os quais se repartiram pelos doentes..." (⁶)
Sim, sua leitura está correta: "os quais se repartiram pelos doentes"! Sucede que a comida escasseava entre os monçoeiros e, ao capturarem alguma caça, reservavam-na para os que estavam mais debilitados.

(1) A lista de animais que aparece na Corografia Brasílica do Padre Ayres de Casal, mencionada na primeira postagem desta série, refere apenas a existência de porcos-monteses no Brasil.
(2) História do Brasil.
(3) Ibid.
(4) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 236.
(5) Ibid., p. 244.
(6) Ibid., p. 271.


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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 4): Churrasco de anta

"Mas Pedro Ruivo ia aguilhoado pelo medo e varava o mato como a terrível anta, que no seu espanto não enxerga obstáculo diante de si."
                                                                                              Aluísio Azevedo, Mistério da Tijuca

"Livre, como o tufão, corre o vaqueiro
Pelos morros e várzea e tabuleiro
Do intrincado cipó.
Que importa’os dedos da jurema aduncos?
A anta, ao vê-los, oculta-se nos juncos,
Voa a nuvem de pó."
Castro Alves, Os escravos


Frei Vicente do Salvador, famoso por ter sido, talvez, o primeiro nascido em solo brasileiro a escrever uma História do Brasil, assim descreveu as antas:
"Há outros animais a que chamam antas, que são de feição de mulas, mas não tão grandes, e têm o focinho mais delgado, e o beiço superior comprido à maneira de tromba, e as orelhas redondas, a cor cinzenta pelo corpo, é branca pela barriga, estas saem a pascer só de noite, e tanto que amanhece metem-se em matos espessos, e ali estão o dia todo escondidos [...]."
Terá nosso primeiro historiador nativo alcançado seu propósito com a descrição que fez? Pode-se ter uma ideia se forem comparadas as suas palavras com o que se vê na foto abaixo.

Anta ou tapir

A anta (também chamada tapir) causou forte impressão nos primeiros colonizadores por suas dimensões - um espécime de bom tamanho pode chegar perto dos trezentos quilos. Toda essa massa era muito interessante para gente acostumada a ver os animais como comida ambulante, embora, conforme logo saberemos, a qualidade da carne e seu sabor fossem um tanto discutíveis. O significado prático disso é que carne de anta não era, geralmente, a primeira escolha, mas era consumida na falta de alguma coisa melhor.
O couro da anta, por outro lado, era apreciado nos tempos coloniais. Dele eram feitos calçados rústicos, mas resistentes, além de outros artigos, o que incluía até armas empregadas nas bandeiras de apresamento de índios. Os testamentos deixados por bandeirantes nos informam que, entre seus pertences, havia quase sempre objetos confeccionados com couro de anta.
Voltemos agora à questão do sabor desse avantajado herbívoro. Hércules Florence, em seu diário da Expedição Langsdorff (1825 a 1829), deixou preciosas anotações a respeito. Uma delas relata as aventuras de uma caçada:
"Depois do meio-dia tivemos o espetáculo de uma caçada de anta (tapir). Supusera o pobre bicho poder passar o rio sem tropeço, mas foi pressentido e, dado o alarma, num momento acudiram todos à margem, saindo logo três canoas a persegui-lo. Debalde mergulhava, debalde nadava largo tempo debaixo d'água para subtrair-se à morte, quando ia alcançar a barranca oposta e atirar-se no mato, a bala certeira de nosso piloto varou-lhe o crânio. Um dos proeiros, bom mergulhador, foi tirá-lo do fundo da corrente." (¹)
Por que toda essa carnificina, aqui descrita com cores que poderíamos rotular de cinematográficas? Ah, leitores, as viagens ao interior nesse tempo traziam aos monçoeiros inúmeras dificuldades e, além das doenças, do cansaço, do desconforto, dos mosquitos, havia sempre a ameaça da fome, pois vastidões sem conta eram percorridas sem que se encontrasse um único habitante e, por conseguinte, sem que se visse um ponto de abastecimento, onde se pudessem comprar gêneros alimentícios. Daí a lançarem-se os expedicionários a caçar o que aparecesse pela frente, era só um passo.
Em outra passagem, diz o mesmo autor:
"Matou-se uma anta. Dizem que a carne desse animal faz sair os humores do corpo, razão pela qual obra como purgante e produz moléstias de pele." (²)
Tal observação, no entanto, não impediu que os expedicionários, poucos dias depois, fizessem um verdadeiro banquete de carne de anta, conforme nos conta o próprio H. Florence:
"O ajudante do guia que fora na véspera a um barreiro (lugar onde há depósitos de sais naturais) fazer durante a noite espera de antas, matou lá quatro desses animais. Quando amanheceu, um batelão foi buscá-los, mas não trouxe senão três, porque o quarto caíra n'água e desaparecera. Nossa gente comeu carne a fartar. A abundância reinava no acampamento: por todos os lados faziam-se assados e churrascos. Mandamos moquear uma boa porção, expondo-a à fumaça de um fogaréu, para poder conservá-la. Só achei comíveis o fígado e o coração. O Sr. Taunay, que depois do naufrágio do Urânia nas Ilhas Malvinas vira-se na contingência de comer carne de cavalo, assevera que a do tapir tem o mesmo gosto." (³)
Satisfeita, pois, a curiosidade quanto ao sabor de carne de anta (ao menos no que se refere à percepção de quem fez o relato), resta dizer que pela cabeça do excelente desenhista da Expedição Langsdorff passou uma ideia extra, pra lá de curiosa, ou seja, a de que antas poderiam servir, nem mais, nem menos, como animais de carga:
"A anta domestica-se com facilidade e poderia prestar, como animal de carga, os mesmos serviços que as bestas. Tem, com efeito, tanta força quanto elas, embora seja de menor tamanho." (⁴)
Como jamais vi por aí uma "anta de carga", tal proposta dispensa maiores comentários.

(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 23.
(2) Ibid., p. 36.
(3) Ibid., p. 39.
(4) Ibid., p. 23.


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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Animais na História do Brasil (Parte 3): Histórias de onça

"Era uma onça enorme, que com as garras apoiadas sobre um grosso ramo de árvore, e os pés quase suspensos num galho superior, encolhia o corpo, preparando o seu salto gigantesco."
                                                                                                                                            José de Alencar, O Guarani

"Era a hora em que a tarde se debruça
Lá da crista das serras mais remotas...
E d'araponga o canto, que soluça,
Acorda os ecos nas sombrias grotas;
Quando sobre a lagoa, que s'embuça,
Passa o bando selvagem das gaivotas ...
E a onça sobre as lapas salta urrando,
Da cordilheira os visos abalando."
Castro Alves, A Cachoeira de Paulo Afonso


Depois de ter ficado entendido, pela postagem anterior, que por muito tempo onças-pintadas e onças-pardas foram chamadas, respectivamente, de tigres e leões, chegou a hora de verificar que relacionamento houve entre humanos e esses felinos, o que significa dizer que, pelos documentos de que dispomos, a caça devia ser recíproca. As onças tinham, pelo menos, a vantagem de não serem vistas como especialidade culinária, o que já era muito, em tempos nos quais, na Europa, caçar era frequentemente um privilégio para nobres e monarcas e, por isso, a gente comum, uma vez chegada ao Brasil, lançava-se a perseguir os animais, desfrutando de um "esporte" que pode até parecer sanguinário aos nossos olhos, mas que era considerado "coisa de homem" naqueles tempos.
Na obra de Hans Staden, vê-se, em terra, um
animal que deve ser uma onça-pintada
Uma gravura que aparece na edição de Marburg da obra de Hans Staden, Zwei Reisen nach Brasilien (¹), mostra dois animais em terra, aparentando, um deles, ser uma onça-pintada; ainda do século XVI temos, de Pêro de Magalhães Gândavo (²), este relato:
"Os bichos mais feros e mais danosos que há na terra são tigres, e estes animais são deles tamanhos como bezerros, vão-se aos currais do gado dos moradores e matam muito dele e são tão feros e forçosos que uma mão que lançam a uma vitela ou novilho lhe fazem botar os miolos fora e levam-no arrastado para o mato. Também pela terra dentro matam e comem alguns índios quando se acham famintos. Sobem pelas árvores como gatos, e dali espreitam a caça que por baixo passa e remetem de salto a ela, e desta maneira não lhes escapa nada: alguns destes animais matam em fojos os moradores da terra."
Já dá para "sentir o clima" em relação às onças, não é? Veja-se então esta outra referência, agora de Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil (³):
"Há também muita diversidade de animais nocivos, que se não comem, como são onças, ou tigres, que matam touros, e se estão famintos acometerão um exército, mas se estão fartos, não só não ofendem a alguém, mas nem ainda se defendem e se deixam matar facilmente."
Bandeirantes e monçoeiros tiveram também seus encontros (e desencontros) com essas feras do Brasil. Uma bandeira metida a apresar índios das missões, obrigada a retroceder, acabou dispersa, como se disse na época, "para maior regalo de tigres e jaguares". Além disso, o Capitão João Antônio Cabral Camello, escrevendo em 1727 sobre a rota das monções, assinalou:
"Este Rio dos Porrudos não cede ao Paraguai na abundância de peixe [...], e nele não faltam onças, que têm feito algumas mortes." (⁴)
Caça à onça, de acordo com Rugendas (⁷)
Um ano antes (em 1726, portanto), durante a monção que levou a Cuiabá o governador Dom Rodrigo César de Meneses, um cozinheiro se extraviou da tropa, fazendo o secretário, a respeito disso, este relato:
"João Francisco cozinheiro de S. Exª que saltando em terra a buscar uma faca que lhe tinha esquecido com tenção a pé seguindo pela margem do rio a canoa até o sítio, onde pousasse a tropa, não apareceu até o presente e se entende que ou se perdeu no mato, ou foi pasto de alguma onça." (⁵)
Ainda mais uma aventura de onças caçadoras - dessa vez quem conta é Saint-Hilaire, em suas andanças pelo Rio Grande do Sul e Uruguai (⁶):
"...Matias veio dizer-nos que acabavam de encontrar quatro tigres, dois grandes e dois pequenos, que estavam comendo o melhor de meus cavalos. Estivera a persegui-los, mas se embrenharam na mata que margeia o lago."
Como se diz, porém, um dia da caça, outro do caçador. Em Corografia Brasílica, obra publicada em 1817, escreveu o Padre Ayres de Casal, ao tratar de uma localidade na então província de Mato Grosso:
"Defronte está a Real Fazenda da Cahyssara, onde se cria numeroso gado vacum e também cavalar, e onde se tem morto grande número de tigres."
Se, no entanto, restar alguma dúvida de que, além de exímias caçadoras, as onças eram também frequentemente caçadas, fosse pela belíssima pele (das onças-pintadas, particularmente) ou porque atacavam o gado (qualquer onça...), basta observar as gravuras que deixaram artistas que estiveram no Brasil no século XIX, tais como Debret e Rugendas, que podem ser vistas como ilustrações desta postagem.

Caça à onça-pintada, Debret (⁸)

(1) Duas Viagens ao Brasil, c. 1557. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Tratado da Terra do Brasil.
(3) Obra provavelmente concluída durante a década de 20 do século XVII.
(4) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas tomo 3, 3ª ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 132.
(5) Ibid., p. 117.
(6) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 293.
O registro data de 1821.
(7) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. 
Paris: Engelmann, 1835. O original pertence ao acervo da Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(8) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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