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quarta-feira, 25 de março de 2026

O trenzinho que transportava café

Olhando o embarque do café na pequena estação ferroviária da fazenda
Olhando o embarque do café na pequena estação ferroviária da fazenda (¹)

Carros de bois e carroções descem pela estradinha de chão batido. Sacas e mais sacas de café são descarregadas perto dos trilhos e, sem demora, carreiros tocam os animais no rumo contrário. Não há tempo para muita conversa, o trabalho não pode parar. 
Depois de uma safra muito boa - inverno ameno, nada de geada, chuvas na quantidade certa - o café havia recebido um beneficiamento rústico, a qualidade e tamanho dos grãos fora verificada e agora, depois de ensacado, é conduzido até a estação ferroviária pequenina que se construíra, há alguns anos, nos arredores da fazenda. Ali, cada saca de café é novamente pesada e conferida. Espera-se o trem, que, geralmente pontual, não deve tardar. 
Balança para pesagem do café (2)
Balança em que era conferido
o peso do café (²)
Ouve-se, ao longe, um apito, e outro. Os trabalhadores, cansados e suarentos, já sabem: lá vem a maria-fumaça. O café deve ser alocado nos vagões de carga. Vai para longe, e, depois de vencida a serra, ficará à espera em algum dos enormes depósitos junto ao porto, até que, em navios, atravesse o mar rumo a outras terras. 
Encarapitado na cerca da fazenda, um menino observa, à distância, toda a movimentação dos que trabalham. Que saberá, em seus oito ou nove anos, sobre cotação internacional do café, exportação ou concorrência estrangeira? Só tem olhos para a locomotiva que, tanto quanto os trabalhadores, parece ofegante. É o suor de tantas famílias de imigrantes, como a dele, que faz cada cafeeiro se tingir de frutinhos vermelhos que enriquecem o fazendeiro. Pezinhos descalços, tanto esse menino como seus irmãos, todos crianças, têm ajudado os pais e o avô na parte da lavoura que lhes cabe cultivar. A pouca idade nunca é motivo para descartá-los como mão de obra. Escola? Ah, sim, quem sabe no ano que vem...
Com o café nos vagões e mais lenha na locomotiva, o trem se espreguiça para partir. Um apito longo e lá se vai, lentamente, a princípio, e então ganha força. Apertando os olhos, o menino segue a maria-fumaça até que o trenzinho mergulha no horizonte de cafezais. Quando for grande, promete a si mesmo, vai ser maquinista. 

(1) Imagem gerada por inteligência artificial.
(2) Pertence ao acervo do Museu Ferroviário de Jaguariúna.


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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Pastores de ovelhas na Antiguidade

Pastores cuidando do rebanho à noite (*)
A música suave que brota de uma flauta espalha-se pelas colinas. A melodia é acentuada pelo bater de mãos e pés dos ouvintes. Uma pausa, e pode-se ouvir a pouca distância o ruído das águas de um riacho. 
Na noite de verão, as ovelhas, deitadas aqui e ali, ou ainda mastigando tufos de relva (bichos insaciáveis!), não saem das vistas dos pastores que, jovens como são, sabem que é preciso cuidado, predadores podem estar à espreita. 
Algumas vezes, pastores andam solitários, mas, se possível e por segurança, em grupos. O isolamento é matéria-prima para sonhos e projetos que, provavelmente, não irão além da imaginação. Cuidar de ovelhas e cabras alheias é, afinal, coisa para gente simples, de poucos recursos, ganhando o suficiente para viver e nada mais. Mas quem disse que sonhar não é para os pobres?
A música recomeça. Nestas solidões quase desabitadas, o céu, à noite, é estonteante. Pontinhos luminosos incontáveis parecem recordar formas conhecidas e favorecem a fantasia. Há quem diga que estão perto, outros pensam que estão muito, muito longe. Que haverá por lá? 

(*) Imagem gerada por inteligência artificial. O texto, como sempre, é completamente humano. 

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quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Menino escravo

Com a cesta no braço, vai subindo a rua.
- Salsinha, cebolinha, tomilho, manjericão!... Hortelã...
Do outro lado, sentado em uma cadeira posta na calçada, um homem lê o jornal. Da porta semiaberta logo atrás, sai uma mulher com um avental branco, muito limpo e engomado. Atravessa a rua, escolhe os temperos e entrega a moedinha correspondente. A hora do jantar não tarda.
O menino apalpa as moedas no bolso. Quer ter certeza de que todas ainda estão lá. Continua, ladeira acima.
- Salsinha, cebolinha, tomilho, manjericão!... Hortelã...
Logo se ouve um pateado rápido sobre as pedras da rua. O cavaleiro, ao passar pelo homem que lê o jornal, leva a mão ao chapéu, em cumprimento. O leitor levanta os olhos, acena com a cabeça, e volta a ler. O ruído das ferraduras sobre o calçamento logo desaparece na curva que a rua faz à direita.
 - Salsinha, cebolinha, tomilho, manjericão!... Hortelã...
Cinco meninos brincam com uma bola. Riem, provocam, as janelas de madeira parecem não se importar. Isso é medo apenas para vidraças.
Um erro no jogo e a bola desce, sem governo, até onde está o pequeno escravo. Olhinhos brilhantes, deixa a cesta no chão por um momento e devolve a bola. A brincadeira recomeça.
- Salsinha, cebolinha, tomilho, manjericão!... Hortelã...
A senhora não gosta de vê-lo voltar com sobras. Apalpa de novo as moedinhas no bolso, o coração dispara, falta uma... Não, está logo ali, do outro lado. Os pezinhos que desconhecem sapatos se apressam em subir a ladeira. É preciso estar de volta antes do acender dos lampiões.


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sexta-feira, 28 de junho de 2024

Quando florescerão os ipês?

Ipê-amarelo
Venta forte no cerrado. As últimas folhas caem dos ipês. Só tufos de grama quase seca resistem, aqui e ali, na terra sedenta. 
Com uma vassoura de folhas de taquara, ela persevera em varrer ao redor do casinholo. O marido, tropeiro, se fora, há dois meses, com a gente de serviço. Viagem longa até o mar, sem data certa para volta. A não ser pelos sogros, está sozinha. O filho, casado, mora longe, e não dá notícias há anos.
Dentro de casa, a sogra atiça a chama do fogão, arruma a lenha e quase se esconde na fumaça. Velha forte, acostumada ao trabalho duro, sem reclamar, ajuda na cozinha, boa companhia. O sogro, sentado na porta, segura na boca a sovela, e, com uma faquinha, vai cortando tiras de couro, que os dedos enrijecidos já não conseguem trançar. É toda a memória que ainda retém, lembrança dos bons tempos em que era seleiro de respeito.
Ela continua a varrer. Toda a paisagem, até onde a vista alcança, implora por chuva. Mas se chove, os caminhos dos tropeiros ficam enlameados. Sofrem os homens, sofrem muito mais as mulas.  Duas araras passam voando, com a gritaria de sempre. Quando florescerão os ipês?


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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

Mulher de faiscador de ouro

Ficção histórica ambientada na vida de muitas mulheres casadas com garimpeiros pobres no Brasil Colonial


As pombas esvoaçam aqui e ali, afugentadas pela areia que a lavadeira lança, irritada, contra aves tão incômodas. Por que haveriam de sujar as roupas que já punha a secar na grama, perto do riacho?
Segue esfregando com o sabão de cinza, enquanto rumina umas ideias. O que estava, afinal, fazendo ali, tão longe dos parentes e da vila em que crescera?
Não fora por vontade própria. Um dia, sem dar conversa, o marido aparecera na casinha em que moravam, ele, ela, quatro crianças, e mandara arrumar o que podia carregar porque iam para longe. Ele mandava, o que é que ela podia fazer?
Obedeceu, e dias depois, lá iam os seis. Mas eram sete, ela ainda não sabia que mais um ia na barriga, e logo seriam só quatro, que, das crianças, três morreriam de febres do mato. No caminho, os pés ardiam, a trouxa na cabeça fazia doer o pescoço e as costas, os pequenos choramingavam, o marido não dizia palavra, só mexia o nariz e as sobrancelhas para ajeitar o cigarro de palha no canto da boca. Saberia, de fato, para onde os levava?
Chegaram, afinal, a um vilarejo miserável. Largaram no chão a mudança, se é que assim podia ser chamada, à sombra de uma árvore. Ali mesmo, em alguns dias, estava em pé mais um casebre, onde ela tentava acalmar as crianças e esconder as lágrimas. Que ele não visse nada disso. Do que traziam da vila, já quase toda a comida se acabara. O que seria deles?
A gente, ao redor, só pensava em arrancar ouro da terra. Ali havia pouco, era para gente como eles, faiscadores sem eira e nem beira. Com sorte, para comer, aparecia alguma caça. O mais, só miséria. O marido não dera, pela picareta e pela bateia que usava, os poucos vinténs que tiniam no bolso?
Vão-se os meses, vão-se os filhos, ela perde a conta do tempo. Um dia, foi-se o marido, dizendo que andaria mais adiante, que acharia ouro em outro lugar, que voltaria quando estivesse rico. Como sempre, ela não contestara. 1720, 1721? Ela nem tem certeza. Planta uma rocinha de milho ao redor do casebre, uns pés de mandioca, batata-doce. Disso vive ela e vivem outras como ela. Continua a esfregar os trapos que ainda restam. Outro punhado de areia voa na direção das pombas. Se tivesse pólvora, mandaria todas para a panela.


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quinta-feira, 6 de julho de 2023

Pequeno monçoeiro

Um pedaço de madeira, uma faca velha meio cega. O menininho luta para entalhar a forma de um barco, como aqueles que, de vez em quando, vê partir pelo Tietê, no rumo do sertão. 
Ainda é muito cedo e a neblina cobre o rio. Deixando de lado a ferramenta improvisada, corre até o barranco, e olha, e olha... 
Quem sabe? Parece ver movimento ao longe. Seriam os batelões que, há dois anos, haviam partido, levando-lhe o pai, entre tantos outros aventureiros?
A névoa não se dissipa, só um ligeiro ruído na água reacende a esperança. Por pouco tempo. Manejando o varejão, um desconhecido se aproxima, em pé sobre a canoa, e passa adiante, acenando aos olhinhos que o espreitam.
Com persistência grande para pequena idade, volta ao trabalho. Quer fazer o seu barquinho, colocá-lo na água e pensar no dia em que também partirá. Na imaginação de menino, talvez seja isso o significado de ser homem. Abrirá caminho nas florestas, achará ouro, será rico e respeitado. De que mais não será capaz?
Esse sonhar acordado logo acaba, já a mãe é quem grita:
- Anda, menino, vem me ajudar a tirar a palha do milho!...
Pés descalços, corre à casinha em que sós, moram agora a mãe e ele. Manejar o pilão requer uma força que seus braços ainda não têm. Mas, em um acesso de valentia, quer ser grande, quer proteger a mãe, e se esforça para fazer do milho a farinha de que tanto precisam para viver.


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quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Garimpeiro

Descalço, um homem caminha entre as pedras, até que chega ao lugar preferido, mais ou menos um quarto de légua abaixo da cachoeira. Nesse ponto o rio não é nem muito largo e nem muito fundo, mas costuma render, às vezes, até um bom dourado. Aí, lança o anzol e deixa o pensamento voar.
Já se haviam passado uns dez anos desde que ouvira falar que tinham achado ouro no sertão. Gente que, ano após ano, aumentava os calos manejando a enxada, agora só pensava em enriquecer depressa. Contavam-se histórias maravilhosas de pepitas enormes, encontradas assim, quase na superfície da terra, sem muito trabalho. Com isso a vila ia ficando despovoada, ao menos de homens. Ouro, ouro, era só sobre ouro que se tagarelava, e quase todos os que tinham forças suficientes se juntavam às levas de sonhadores no caminho das minas. Depois de vender os poucos pertences, ainda que já não havia quase interessados em negociar, ele havia comprado algumas ferramentas e, tendo amarrado bem os sacos de couro com farinha e feijão, colocara tudo às costas de um pobre burrico e lá se fora. 
A maior parte dos aventureiros deixava para trás a família, prometendo enriquecer e voltar logo, embora tanto os que iam como os que ficavam se despedissem disfarçando a consciência de que talvez nunca mais se vissem. Ele não sabia dizer como lhe dera na cabeça levar também a mulher e os filhos que, resignados, haviam suportado a marcha rumo ao desconhecido, os dias de calor, as noites gélidas, as feridas nos pés, a comida que ia se acabando, as picadas dos mosquitos, as febres. Com a picareta que imaginara procurar o ouro, havia cavado o último berço para o seu menorzinho, cujo sono fora entregue à guarda de uma cruz improvisada que, bem sabia, logo seria coberta pelo mato.
Com as roupas em trapos, haviam, afinal, chegado à terra dos milagres auríferos. Mas, crua decepção... Ouro, mesmo, era para quem tinha muitos escravos e explorava uma data rentável, não para ele, que era livre, mas só podia contar com os próprios braços para procurar a riqueza nos riachos que não interessavam aos poderosos. É verdade que, esporadicamente, algum faiscador achava uma quantidade de ouro suficiente para melhorar de vida, fazendo renascer a esperança (quem sabe, a credulidade), entre o povo miúdo. Era assim também com ele. 
A mulher, no entanto, já não tinha dessas fantasias. Esperava, no casebre que haviam construído, algum peixe para o jantar. Uma fisgada mais forte na linha o faz voltar à realidade. Será um jaú? Vai puxando com cuidado. A piapara que se contorce é jogada no cesto. Um leve sorriso lhe faz cair do canto da boca o cigarrinho de palha. 


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terça-feira, 9 de novembro de 2021

Quilombola

Escravo, esboço de
Thomas Ender (*)
Havia fugido do engenho. Quando menino, sempre ouvira a mãe dizer: "Ele é teu pai; quando ele morrer, serás livre". O senhor fora enterrado há meses e nada de alforria. A esperança se convertera em ressentimento.
Uma tarde fora mandado, com vários outros, a tirar lenha na mata próxima, e escapulira. Aos poucos, se afastara do grupo, e quando o feitor deu por sua ausência, já estava longe. Bem que ouvira os gritos dos que o procuravam, assim como o latido dos cães, mas nunca pensaria em voltar. Protegido pela noite, caminhara sem descanso e, vindo o sol, tomara o rumo da serrania distante. Quatro dias depois, mais morto que vivo, chegara ao pequeno quilombo, de cuja existência nunca suspeitara.
Afinal, foi admitido, embora com desconfiança. Agora, terá de provar que pode ser útil, que não irá trair a comunidade. Mas é bom caçador, e sabe disso. A capivara gorducha que assam com faminta expectativa não é mau começo. Vivendo entre outros fugitivos, o respeito e a liberdade serão construídos na luta de cada dia.

(*) O original pertence ao acervo da BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

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terça-feira, 10 de agosto de 2021

Náufragos


As ondas arremessam homens contra a areia. Desde que uma tempestade resultara em grandes avarias, o navio estava condenado. O piloto, mestre experiente nas armadilhas do mar, tratara de conduzir a embarcação para perto de terra. O risco, no entanto, era enorme. A traição de um rochedo submerso se encarregara da sentença final. 
As vagas são ferozes e mesmo bons nadadores têm consciência do perigo. Nadar, boiar, voltar a nadar, ainda quando as forças se esgotam. Sobreviver não é para os fracos.
Que lugar será esse? Ilha, talvez? Terra firme? Estirados na praia, ressentem-se da confusão mental resultante de tanto esforço. Entreolham-se. Contam-se. São onze, ao todo. Onde estarão os outros? 
Um estrondo, olham na direção do mar e veem, à distância, o que restara do casco tomar o rumo das profundezas. A quase alegria que a sensação de chegar à areia trouxera é substituída, em um átimo, pelo mais profundo desânimo. O olhar se perde no horizonte.
Mais tarde, o calor do sol, que seca as roupas, aliado à sede e à fome, os traz de volta à realidade. Alguns, sentados na areia, se entreolham, em uma interrogação que se expressa no silêncio. Três caminham perto da arrebentação, deixando pegadas que as ondas logo se encarregam de cobrir. 
A escassez de palavras é quebrada por dois veteranos de outro naufrágio, que tratam de tomar a liderança. É preciso que se dividam em grupos: um, que permanecerá na praia, tentando recuperar objetos do navio arrastados pelas águas e que possam ser úteis, e outro, que irá à procura de água potável e comida. Ao primeiro ficará a tarefa de providenciar alguma sinalização. Se tiverem sorte, ao passar por ali outro navio, os marujos notarão uma cruz rústica contrastando com a areia tão alva, ou a bandeira improvisada com uma camisa que, para isso, se rasgou. Talvez, então, sejam resgatados.  
Além da linha da praia, em meio à vegetação exuberante, alguns pares de olhos negros observam todos os movimentos dos recém-chegados.


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terça-feira, 17 de novembro de 2020

Esperando a volta do bandeirante

Ela viera do Reino ainda menina e com quinze anos incompletos o pai a casara com um português da terra, duas vezes viúvo e dono de uma casa na vila, com a correspondente criação de porcos e galinhas, e de umas roças de milho e feijão nas redondezas. Passava por rico e, poucos meses depois do casamento, sem muitas explicações, se juntara a uma tropa que, no rumo do sertão, fora procurar ouro e descer índios para a lavoura. Sendo já passados mais de quatro anos, nunca mais se ouvira falar no bando de aventureiros. Por onde andarão? Estarão ainda vivos? Ninguém sabe dizer.
Ela espera e espera... O assoalho de madeira range sob seus pés, enquanto vai à janela pela vez infinita. Fragmentos do existir chegam através da gelosia - o patear dos animais de carga pela ruazinha tortuosa, os resmungos dos tropeiros, uma cabra fugitiva denunciada pelo guizo que leva ao pescoço, os brados de uma vendedora de pães e doces - a vida e a visão se perdem na distância.
- Mamã!...
Os pensamentos se interrompem.
- Mamã, olha!...
É o seu menino quem balbucia, à porta. Dois companheiros cor de bronze, olhos faiscantes e cabelos negros, sorriem, enquanto um deles segura algo entre os dedos. Abaixa-se e deixa voejar um filhote de sanhaço.
- Ah, é tão novinho, onde o pegaram?
O mais velho, com seus sete anos, explica:
- Embaixo da pitangueira, caiu do ninho...
Mais um instante e lá se vão, a correr para o pátio. Ouve-se, entre risos, a algaravia que amalgama o português ao tupi e que, inutilmente, ela tenta compreender. 
Volta, então, à cadeira e retoma o bordado. Ajusta o tecido no bastidor, tem já a linha na agulha e trabalha. Entre um ponto e outro, estranhas inquietações que tornam imperceptível o correr das horas.
Na igrejinha da vila o sino toca para o Angelus. Ela se une às escravas para rezar. Pedem pelos que estão, pelos que foram. Voltarão?
Anoitece, a oração termina. Velas de sebo rústico quebram a escuridão, enquanto lá fora começa a cair uma chuvinha gelada. À espera do bandeirante, ela vai mais uma vez à janela. A vila é só silêncio e trevas.
Partindo da cozinha, o aroma da ceia se espalha pela casa.


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