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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Sobre a origem da propriedade privada entre os antigos romanos

Não são poucas as controvérsias sobre as origens da propriedade privada neste planetinha em que nós, humanos, vivemos, sem outro lugar para escolher. Quem teria sido o primeiro a colocar um arremedo de cerca ao redor de uma pastagem ou de um terreno fértil para cultivo e dizer: "Isto é meu"? Ou quem teria se apropriado de parte de um rebanho de cabras ou ovelhas e alegado ser o único dono dos animais? 
Não sabemos. É mais provável que o fenômeno tenha ocorrido em diferentes localidades (quase) simultaneamente. Mais intrigante é que essa ideia ganhasse terreno (desculpem o trocadilho), e que a maioria dos sem propriedade engolisse a exclusividade para os poucos que se arrogavam donos de alguma coisa. Não se pode descartar o uso de argumentos relacionados à força física, acrescida de paus, pedras e uma prole numerosa, capaz de defender a autodeclarada propriedade particular de um patriarca. Mais sutil, e não menos persuasivo, poderia ser o argumento de que o direito ao uso exclusivo da terra, por exemplo, seria derivado da vontade dos deuses, em especial quando vindo de alguém que ostentava status sacerdotal e, portanto, capaz de estabelecer comunicação com supostas divindades. 
Quando Roma já era República há séculos, Cícero (¹), político, jurista e orador famoso (²), argumentou que, segundo a natureza, não existia absolutamente nada no mundo que merecesse o conceito de propriedade privada. Contudo, haveria, ainda de acordo com Cícero, algumas razões para explicar o direito de alguns (minoria), em detrimento de outros (quase sempre a maioria): antiguidade da ocupação por um grupo ou família de um campo anteriormente desocupado, ou a ocupação de terras mediante conquista em campo de batalha, além de leis que legitimavam a propriedade privada, dentre outros fatores (³). Cícero não devia desconhecer que, no passado, o patriciado romano fora muito eficiente em ostentar sua pretensa origem vinculada aos semideuses fundadores de Roma para justificar a posse de terras, que, por esse motivo, era negada aos plebeus. Nada surpreendente, portanto, que, em se tratando de Roma, a reforma agrária estivesse, quase sempre, na pauta dos que, em um momento ou outro, por ambições políticas, pretenderam obter apoio popular para dominar a cidade e o mundo. 

(1) Marco Túlio Cícero, 106 a.C. - 43 a.C.
(2) Também devotado à filosofia, em particular aquela que provinha da Grécia. 
(3) Cf. De Officiis, Livro I. 

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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Pastores de ovelhas na Antiguidade

Pastores cuidando do rebanho à noite (*)
A música suave que brota de uma flauta espalha-se pelas colinas. A melodia é acentuada pelo bater de mãos e pés dos ouvintes. Uma pausa, e pode-se ouvir a pouca distância o ruído das águas de um riacho. 
Na noite de verão, as ovelhas, deitadas aqui e ali, ou ainda mastigando tufos de relva (bichos insaciáveis!), não saem das vistas dos pastores que, jovens como são, sabem que é preciso cuidado, predadores podem estar à espreita. 
Algumas vezes, pastores andam solitários, mas, se possível e por segurança, em grupos. O isolamento é matéria-prima para sonhos e projetos que, provavelmente, não irão além da imaginação. Cuidar de ovelhas e cabras alheias é, afinal, coisa para gente simples, de poucos recursos, ganhando o suficiente para viver e nada mais. Mas quem disse que sonhar não é para os pobres?
A música recomeça. Nestas solidões quase desabitadas, o céu, à noite, é estonteante. Pontinhos luminosos incontáveis parecem recordar formas conhecidas e favorecem a fantasia. Há quem diga que estão perto, outros pensam que estão muito, muito longe. Que haverá por lá? 

(*) Imagem gerada por inteligência artificial. O texto, como sempre, é completamente humano. 

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quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Impacto das catástrofes naturais na Antiguidade

Algumas catástrofes naturais são previsíveis, enquanto outras, ainda não. É possível, atualmente, prever quando um furacão está a caminho, de modo que a população pode ser deslocada a tempo de que, pelo menos, não se percam muitas vidas humanas. Mas não existe, ainda, uma previsão confiável e exata de quando e onde um terremoto ocorrerá. 
A maioria dos países tem, em nossos dias, algum tipo de estrutura devidamente estabelecida para uma resposta rápida em caso de ocorrência de uma catástrofe natural. Há pessoal treinado para o resgate de feridos, para assistência médica e para a pronta reconstrução de prédios e vias públicas, se necessário. Mas não era assim na Antiguidade.
Catástrofes naturais eram, quase sempre, atribuídas pelos antigos à fúria dos deuses, fosse por se desagradarem com a conduta humana ou simplesmente porque, poderosos, extravasavam a raiva e irritação, com motivo ou sem ele, sobre os pobres mortais. O certo é que o estágio tecnológico em que se encontravam os diferentes povos da Antiguidade inviabilizava uma resposta imediata às catástrofes, com o agravante de que, como as notícias se deslocavam tão lentamente como lentos eram os transportes, dificilmente se poderia esperar ajuda que viesse de áreas não atingidas.
Em consequência, uma grande catástrofe podia, até, conduzir à destruição de um povo ou à desintegração de uma cultura. Para comprovação desse fato basta considerar o que aconteceu com a civilização minoica em Creta, ou com a ilha de Tera pela erupção do vulcão Santorini.


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quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Mílon de Crotona

O maior atleta dos jogos olímpicos da Antiguidade


Crotona é hoje uma cidade italiana, mas foi fundada, na Antiguidade, por gente de origem grega - lembram-se do que era a Magna Grécia, leitores? Tornou-se uma cidade-Estado e nela nasceu, no Século VI a.C., aquele que pode ter sido o maior atleta a competir nos jogos olímpicos da Antiguidade. Seu nome era Mílon, e por causa da origem, ficou conhecido como Mílon de Crotona (*).
Era, portanto, candidato perfeito a se tornar herói de muitas lendas. Sagrou-se vencedor na luta várias vezes, mas em qualquer lenda respeitável é preciso que haja algum exagero. E há: teria carregado um touro de uma extremidade a outra da pista, em Olímpia, em que se realizavam corridas a pé, e, como se isso fosse pouca coisa, em seguida teria matado o touro e tratado de devorá-lo. Lenda, lenda, leitores! 
Não poderia, contudo, faltar um desfecho trágico, como em toda boa história grega da Antiguidade. Humano como era, apesar dos feitos mirabolantes, Mílon envelheceu, sem notar que a força espantosa de que era dotado ia, aos poucos, diminuindo. Um dia, ao passear por um bosque, viu um carvalho no qual lenhadores haviam aberto uma fenda, sem, contudo, concluir o trabalho. Por imaginar que ainda tinha as forças intactas, o herói quis separar as duas partes do carvalho, mas, à medida que puxava, foram-se acabando as energias e, então, as duas partes voltaram à posição original, prendendo os braços de Mílon, que gritou, berrou, esperneou, mas não conseguiu se livrar da prisão em que se colocara. Para cúmulo da desgraça, atraiu a atenção de lobos, que o devoraram. 
Avisei que era lenda, mas diz muito sobre a natureza humana, para quem quiser entender.

(*) Era comum, na Antiguidade, que pessoas fossem designadas pelo local de nascimento. 


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quarta-feira, 20 de março de 2024

Como Heródoto descreveu Babilônia

Imaginava-se que Babilônia seria assim,
antes que escavações arqueológicas a partir
do Século XIX revelassem mais sobre ela (²) 
Muitas cidades da Antiguidade destruídas em guerra foram, depois, reconstruídas. As ruínas eram trituradas e, sobre elas, a nova cidade era erguida. Sucessivas guerras e destruições acabavam criando uma colina artificial, formada pelo entulho acumulado, uma reconstrução após outra. 
A Babilônia que Heródoto conheceu no Século V a.C. já estava decadente. Fora conquistada em 539 a.C. pelos exércitos de Ciro, o Grande. Mas continuava a existir, como lembrança do esplendor que tivera nos dias de Nebuckadnezar II (¹).
Voltemos a Heródoto. Foi assim que ele descreveu Babilônia, afirmando que tinha a forma de um quadrado e que estava situada em uma grande planície:
"Babilônia é cortada pelo rio Eufrates, um rio extenso, profundo e de correnteza veloz [...]. A muralha que cerca as duas partes da cidade corre até chegar ao rio, onde começa uma parede de tijolos cozidos, que segue pela margem. A cidade está repleta de casas com três e até quatro andares e é atravessada por ruas retilíneas, tanto as que existem no sentido do comprimento como as que cruzam por elas e chegam até o rio. Cada rua que chega ao rio tem uma porta de bronze que permite acesso às margens do Eufrates, e, dessa forma, há uma porta para cada bairro existente entre as ruas." (³)
Assim como tantas outras, a cidade de Babilônia também passou por destruições e reconstruções. Mas sobreviveu para, finalmente, ser alvo de um projeto urbanístico e estratégico avançadíssimo para os padrões da Antiguidade. Além da muralha externa de estrutura complexa, era rodeada por um fosso profundo e largo, com o propósito de torná-la virtualmente inexpugnável.  A descrição feita por Heródoto demonstra que foi planejada, ao contrário de muitas povoações da época, que surgiam e cresciam ao acaso, fruto da gradual sedentarização.
Como os babilônios poderiam imaginar que alguém teria a ousadia de entrar na cidade através do rio? A confiança de seus habitantes era tanta que teriam esquecido de trancar as famosas portas de bronze que levavam ao Eufrates, e foi por elas que os exércitos de Ciro alcançaram facilmente os bairros, tendo entrado na cidade pelo leito do rio, cujo curso haviam alterado para que o nível da água baixasse. Heródoto afirmou que o mais importante templo da cidade, o de Bel Marduk, ainda existia em seus dias, e no Século IV a.C., a cidade encantou Alexandre Magno, que nela morreu em 10 de junho de 323 a.C. Depois, Babilônia foi, aos poucos, se transformando em um conjunto de ruínas. 

(1) Mais conhecido pela forma helenizada do nome, Nabucodonosor. 
(2) Cf. MALLET, Alllain Manesson. Beschreibung des ganzen Welt-Kreises. Frankfurt am Main, Johann Adam Jung, 1719. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 
(3) HERÓDOTO, Histórias. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


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quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

O dote de casamento no Código de Hamurabi

O candidato a noivo devia pagar um dote ao pai da mulher com quem pretendia se casar


Dote de casamento era, na Mesopotâmia da Antiguidade, um valor pago por um homem ao pai da mulher com quem pretendia se casar. Não era, formalmente, a compra de uma esposa, mas um valor que deveria ser guardado pelo pai como garantia para a noiva se, por alguma razão, o casamento se dissolvesse - em caso de viuvez, por exemplo. Na vida real, no entanto, não era exatamente assim que as coisas aconteciam.
O Código de Hamurabi disciplinava essa prática, determinando que, se um homem pagasse o dote para se casar com uma moça, mas desistisse do casamento, não teria o direito de receber o valor pago de volta. No entanto, se fosse o quase sogro que desistisse de conceder a filha em casamento, depois que o dote fora pago, deveria devolver o valor em dobro. Hamurabi devia saber com que tipo de pessoas estava lidando.
O que ocorria quando a mulher, já casada, morria? Havia duas possibilidades:
a) Se não tivesse filhos, o dote ficava pertencendo a seu pai;
b) Se tivesse filhos, o Código dizia: "Se um homem se casar com uma mulher, e ela morrer depois de ter filhos, o dote dela será de seus filhos, não ficará em poder de seu pai."
Uma situação algo complexa ocorria quando um homem se encarregava de pagar o dote para que seus filhos do sexo masculino pudessem se casar, mas morria antes que o filho mais novo contratasse casamento, ficando, pela morte do pai, sem recursos para isso. O Código, então, determinava: "Se um homem [através de dote] escolher esposa para seus filhos, mas morrer antes que seu filho mais novo venha a se casar, então, quando dividirem a herança, os filhos destinarão uma parte como dote para seu irmão mais novo, para que ele possa ter uma esposa."
O dote de casamento foi um costume muito comum em diversas sociedades, e ainda é, em algumas, até hoje. No Brasil, durante muito tempo, vigorou o costume de que a noiva é que devia ter um dote para se casar. Em consequência, mulheres abastadas, que dispunham de um dote avantajado, eram muito cobiçadas para casamento, enquanto outras, com dote insignificante ou inexistente, tinham muita dificuldade em encontrar pretendente. É fácil imaginar os problemas sociais que daí decorriam. 


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sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Pragas de gafanhotos na Antiguidade

Nuvens de gafanhotos, com uma infinidade de espécimes, podem ser devastadoras. Chegam, pousam sobre tudo o que é verde e, quando tornam a voar para longe, nada fica por onde passaram. Os antigos gregos sabiam disso muito bem, e supunham que o deus Apolo é que os livrara em uma ocasião em que gafanhotos ameaçaram a Ática. Por esse motivo, haviam feito uma escultura de bronze que, segundo Pausânias (¹), seria obra de Fídias, na qual Apolo era retratado como "deus gafanhoto". Ainda em conformidade com o mesmo autor, os atenienses confirmavam que a expulsão dos gafanhotos fora obra de Apolo, ainda que não soubessem dizer como o fizera.
Pausânias declarou ter conhecimento de que, em três diferentes ocasiões, gafanhotos haviam se tornado uma ameaça na região do monte Sípilo (²), mas que, por três modos distintos, foram dispersados. Na primeira vez, um vendaval levou-os para longe; na segunda vez, um calor violento, depois de uma chuva, exterminou-os; na terceira vez, foram mortos por frio intenso e súbito que atingiu a região (³).
Uma coisa é certa: na Antiguidade, quando uma praga de gafanhotos atacava uma área e devastava os campos de cultivo, era bastante provável que muita gente acabasse morrendo de fome. Importações em larga escala eram difíceis, excedentes exportáveis nem sempre estavam disponíveis para quem desejava adquiri-los, meios de transporte eram lentos e a chegada de suprimentos vindos de longe podia acontecer tarde demais. E, se os campos não produziam, com que se havia de comprar mantimentos de outros lugares? Pequenos e frágeis, isoladamente, os gafanhotos, aos milhões, eram mesmo um terror, e não deve ser surpresa para ninguém que o súbito livramento da destruição que poderiam causar, fosse, entre os gregos politeístas, atribuído a um deus - Apolo, no caso.

(1) Escritor grego do Século II d.C.
(2) O monte Sípilo localiza-se na atual Turquia, em área que, na Antiguidade, era território da Lídia. 
(3) Cf. PAUSÂNIAS, Descrição da Grécia, Livro I.


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segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

De quem era o jumento?

Como Galba decidiu um caso difícil


Galba, imperador romano (¹)
Galba foi imperador romano, depois de Nero e antes de Oto, mas ficou pouquíssimo tempo no poder: de 8 de junho do ano 68 a 15 de janeiro do ano seguinte, data em que foi assassinado. 
Com tão poucos dias para governar, que teria ele feito de notável? Se devemos crer em Suetônio, uma de suas realizações foi determinar quem era o dono de um jumento, em uma (quase) espécie de justiça salomônica. Foi assim o incidente:
"Ao administrar a justiça em certo momento, no qual se discutia quem seria o verdadeiro proprietário de um jumento, Galba notou que era impossível extrair a verdade apenas com o depoimento de testemunhas. Então mandou que, tendo os olhos vendados, o jumento fosse levado até o lugar onde estava acostumado a beber água e que, lá, fosse deixado à vontade - o dono seria aquele a quem, depois disso, se encaminhasse, sem qualquer coerção." (²)
Era preciso, todavia, mais que julgar o direito de propriedade sobre um jumento para se manter no poder. O exército romano estava em rebelião, disposto a colocar à frente do império aquele que fosse mais conveniente ou que prometesse mais. Oto, sucessor de Galba, também ficou pouco tempo na liderança de Roma: suicidou-se em 16 de abril de 69. 

(1) CAVALIERI, Giovanni Battista. Romanorum Imperatorum effigies. Roma: Vincentium Accoltum, 1583, p. 7. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) SUETÔNIO. De vita Caesarum, Livro VII. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Leis draconianas

Quando se faz uma lei severa demais, é costume dizer-se que é "draconiana". Por quê?
Drácon foi um legislador ateniense que viveu no Século VII a.C., e, segundo Plutarco, revogar a maioria de suas leis teria sido o primeiro ato de governo de Sólon. O Código de Hamurabi, no qual vigorava a lei de talião, ou seja, a retribuição semelhante ao crime cometido - quem matava, devia morrer, quem causava um ferimento, recebia ferida igual - nem de leve chegava perto da severidade das leis de Drácon. O mesmo pode ser dito da Lei de Moisés, também regida, em grande parte, pela lei de talião - "olho por olho, dente por dente" (¹) - talvez explicável pelo contexto social em que foi produzida. 
As leis de Drácon, contudo, iam muito além, porque, segundo Plutarco, "eram em extremo severas e cruéis, impondo penas muito grandes para delitos muito pequenos. Para quase todas as infrações havia a imposição da pena de morte" (²).
É verdade que, para Drácon, aos homicidas cabia a sentença de morte, também admitida para aqueles que cometessem crime de sacrilégio (coisa tanto mais complicada quanto eram quase infinitos os deuses); mas também é fato que o crime de injúria e até mesmo o "furto de frutas e outros vegetais, ou outras coisas de pouco valor" (³), também devia significar um ponto final à existência do infrator. 
Em consequência, logo se tornou corrente o dito de que Drácon, em lugar de tinta, havia usado sangue ao escrever suas leis. Havia mais: interrogado quanto à razão de tanta severidade, Drácon teria respondido que "a seu ver, pequenos delitos mereciam ser castigados com a morte, e, quanto aos grandes crimes, não encontrava, para eles, penalidade maior que a morte" (⁴). Não parece boa a explicação, e bem se pode imaginar que, tendo Sólon revogado as leis de Drácon, toda a cidade de Atenas pôde respirar com alívio.

(1) Cf Exodus XXI, 24-25: "oculum pro oculo, dentem pro dente, manum pro manu, pedem pro pede, adustionem pro adustione, vulnus pro vulnere, livorem pro livore."  
(2) PLUTARCO, Vitae parallelae. Os trechos aqui citados da biografia de Sólon em Vitae parallelae foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) Ibid. 
(4) Ibid. 


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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Roupas finas da Babilônia

Ao contrário do que alguns imaginam, a Babilônia, conquistada por um vasto exército sob a liderança dos persas em 539 a.C., não virou poeira instantaneamente. Perdeu importância política, é fato, mas era, ainda, bela e admirada, e, a despeito de algumas rebeliões contra dominadores estrangeiros, os sábios que nela havia, peritos em investigar o céu, puderam, por muito tempo e sem grandes perturbações, continuar em seus afazeres, um misto de ciência e superstição, à moda da Antiguidade. Assim, a grande cidade foi definhando aos poucos, de tal modo que, no Século I a.C., Plínio, o Velho, pôde escrever, sobre as construções pelas quais era famosa: "Ainda permanece o templo de Bel, inventor da ciência do céu (¹), porém tudo o mais caiu no abandono [...]." (²) 
Contudo, durante algum tempo a região conservou certa importância econômica, ainda que, passo a passo, a população declinasse, com o crescimento de outros centros urbanos não muito distantes. Os romanos, apaixonados por tudo quanto era exótico, não desdenhavam a qualidade das roupas tecidas segundo uma técnica originária da Babilônia. Depois de afirmar a crença geral de que bordados com agulha haviam sido invenção dos frígios, Plínio referiu que "[...] tecer cores diferentes, formando um desenho, foi invenção dos babilônios, e, por isso, esse processo é celebrado com seu nome" (³). Nem mesmo alguma lei suntuária seria capaz de impedir o uso de trajes tão refinados.  
O correr dos séculos se encarregou de juntar poeira e entulho sobre o que restara da Babilônia que, abandonada e esquecida, só acordou no Século XIX do sono em que fora prostrada, quando arqueólogos deram com ela e, com algum esforço, foram capazes de identificá-la, deslumbrando o mundo instruído com o que ainda podia ser encontrado de suas antigas maravilhas. 

(1) Astronomia, que, para os antigos babilônios, era também astrologia.
(2) PLÍNIO, o Velho. Naturalis Historia, Livro VI. 
(3) Ibid., Livro VIII. 
Os trechos aqui citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

A educação das meninas espartanas

A educação das meninas espartanas era assunto de Estado, tanto quanto a dos meninos. Não se esperava, como regra geral, que aprendessem o manejo das armas para a ida aos campos de batalha; contudo, deviam realizar exercícios físicos que fizessem delas mulheres saudáveis, capazes de gerar filhos adequados às exigências militares de sua cidade-Estado.
Se podemos crer no que Plutarco escreveu em Vitae parallelae, Licurgo, o legislador de Esparta, determinou que as meninas "ao contrário do que sucedia em outros lugares, não permanecessem desocupadas em casa, mas deviam exercitar o corpo em corrida, luta, lançamento do dardo e no tiro com arco. Desse modo, seriam tão fortes quanto os rapazes, e seriam aptas a resistir às dificuldades que sobreviessem. [...] Licurgo pensava que as jovens habituadas a esses exercícios [...] seriam posteriormente mais fortes e capazes para resistir às dores do parto" (¹). Portanto, sem mais rodeios, a educação das meninas tinha por objetivo garantir a contínua produção de novos soldados para Esparta.
Não menos curioso é que Licurgo, rompendo com a tradição grega que ordenava às mulheres que cobrissem a cabeça quando em público, teria determinado que as jovens e mulheres espartanas não deveriam fazê-lo. Voltemos a Plutarco: "[Licurgo] fez com que as jovens espartanas, à semelhança dos rapazes, se habituassem a estar com a cabeça descoberta nos lugares públicos [...], com toda a honestidade e respeito, diante da presença dos anciãos e cidadãos de renome. [...] O costume de terem [as meninas] a cabeça descoberta não era fruto de leviandade, mas, [...] com essa prática, estavam sempre limpas e eram tão fortes quanto os rapazes" (²).
Essa educação tinha impacto considerável no comportamento das mulheres espartanas quando adultas. Ainda conforme Plutarco: "Conta-se que Górgona, mulher de Leônidas, ao ter em certa ocasião a companhia de uma estrangeira, foi por ela questionada quanto aos costumes que vigoravam em Esparta, dizendo que, ao que parecia, as mulheres da Lacônia tinham autoridade sobre os maridos. A isso a espartana teria respondido: Não se espante. É que somente nós trazemos homens ao mundo" (³). Como negar, então, que meninas e mulheres de Esparta tinham uma condição muito diferente daquela que podia ser encontrada no restante da Grécia Antiga?

(1) PLUTARCO, Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História e Outras Histórias.
(2) Ibid.
(3) Ibid.


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quinta-feira, 5 de maio de 2022

Poetas gregos viviam na corte de governantes da Antiguidade

Anacreonte (²) 
A poesia, enquanto arte, tem e sempre teve muitos apreciadores, embora não se possa afirmar, com idêntica certeza, que sempre andou na moda. Entre os antigos gregos, era muito valorizada. Havia até competições públicas para poetas, os textos em verso eram ouvidos nos anfiteatros e quem escrevia poemas com maestria era tão importante quanto um atleta consagrado nos jogos olímpicos.
Apesar disso, uma questão se impunha naquele tempo: de que viveriam os poetas? Por suposto, não havia editoras, e a circulação de obras escritas não se fazia do mesmo modo que hoje. Na Descrição da Grécia, de Pausânias, autor grego do Século II, somos informados de que muitos poetas achavam acolhida na corte dos governantes. Teria sido o caso, por exemplo, de Anacreonte (¹), patrocinado por Polícrates, tirano de Samos, enquanto Ésquilo (³), nascido em Elêusis, viveu durante algum tempo em Siracusa (⁴). 
Mas... Mas havia, ao que parece, quem preferisse fugir à conveniência do apoio de um mandatário, para preservar a independência ou para evitar viagens.
Homero (⁸)
Esse teria sido o caso, ainda de acordo com Pausânias, de Hesíodo (⁵), autor, entre outras obras, da famosa Teogonia, e de Homero (⁶), a quem são atribuídas a Ilíada e a Odisseia. Sim, são atribuídas, porque desde a Antiguidade houve quem questionasse essa autoria. Os dois poemas, compostos e repetidos oralmente, teriam sido fruto do trabalho de muitos autores, todos anônimos. Sêneca, em
De brevitate vitae, afirmou que "[...] os gregos tinham a mania de questionar quantos remadores tinha Ulisses, se foi escrita primeiro a Ilíada ou a Odisseia e se os livros foram obra de um único autor [...]" (⁷).
Como explicar, porém, a coerência interna que perpassa praticamente toda a Ilíada? Letras não se juntam por conta própria, formando palavras ordenadamente, para compor, ainda por si mesmas, uma obra dessa extensão (aliás, de extensão nenhuma). Alguém tem de ter criado o cerne desse épico, embora não seja absurdo admitir acréscimos e supressões no poema original, fruto da repetição oral e escrita ao longo dos séculos. Seja como for, sabendo tão pouco como se sabe sobre o Hesíodo e o Homero "de verdade", como argumentar que o primeiro detestava viajar, enquanto o segundo preferia o apoio popular e a independência, e, por isso, dispensaram a subvenção de algum monarca de seu tempo? Em casos assim, na ausência de um documento confiável, o melhor que se pode dizer é que não sabemos. Conjecturas são aceitáveis, desde que não percam o caráter de possibilidades que merecem ser investigadas, devido ao desconhecimento de fatos solidamente embasados.

(1) c. 570 a.C. - 495 a.C.
(2) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 6.
(3) c. 525 a.C. - 456 a.C.
(4) Cf. PAUSÂNIAS. Descrição da Grécia, Livro I.
(5) É geralmente aceito que teria vivido entre os Séculos VIII e VII a.C.
(6) Teria vivido, talvez, entre os Séculos X e IX a.C., embora haja quem suponha ter sido muito antes. 
(7) SÊNECA. De brevitate vitae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias
(8) HEKLER, Anton. Op. cit., p. 8.


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quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A reforma agrária de Licurgo

Se Plutarco estiver correto, Licurgo foi responsável por uma reforma agrária em Esparta. Percebendo que havia grande desigualdade entre seus concidadãos, o legislador teria decidido que as terras cultiváveis deviam ser redistribuídas, para assegurar que a ninguém faltasse o sustento.
Mesmo enfrentando oposição - quem esperaria outra coisa? - Licurgo decidiu que cada um teria uma extensão de terra que permitisse a própria manutenção e da família, nem mais e nem menos. Indo adiante, redistribuiu, também, o espaço urbano. Não foi pequena a tarefa.
Tempos depois, de acordo com Plutarco, por ocasião da ceifa do trigo, Licurgo teria dito: "Toda a Lacônia está linda, assemelhando-se à terra de muitos irmãos, repartida entre eles em partes iguais." (*)
Ainda que a liderança atribuída a Licurgo não possa ser definitivamente classificada como fato real ou como lenda, seria esse um exemplo acabado de justiça social? Nem tanto, meus leitores. Apenas os esparciatas foram incluídos no projeto de reforma agrária. Periecos, mesmo livres, mas sem direitos políticos, ficaram fora do jogo da igualdade, e, quanto aos hilotas, nem é preciso dizer: oprimidos e explorados, eram vigiados continuamente para que trabalhassem nas terras, sempre sob a suspeita de que poderiam estar tramando uma revolta.

(*) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

De que se ocupavam as sabinas raptadas para o casamento com romanos

O rapto das sabinas é episódio (talvez) lendário ou (talvez) semilendário, contado para explicar de onde teriam vindo as mulheres que se casaram com os primeiros romanos, aqueles que foram contemporâneos de Rômulo e Remo, heróis (talvez) lendários, ligados às origens e fundação de Roma.
Com tanta lenda, é útil considerar este assunto? Sim, se levarmos em conta o que pode ser extraído dele, não pelo que se dizia, mas pelo que não era dito. 
Plutarco (¹), grego de nascimento, é famoso pelas biografias comparadas que escreveu, as Vitae parallelae. Ao tratar de Rômulo, abordou a questão do rapto das sabinas, referindo que, para que se fizessem as pazes entre os raptores e as famílias das mulheres raptadas (que seriam mais de oitocentas), foi firmado um acordo que determinava o modo como cada uma delas seria tratada, não só pelo respectivo marido, como pelos romanos em geral, quando estivessem em lugares públicos. Vejam, leitores, é interessante: "Deviam ser tratadas com respeito quando andavam pelas ruas, concedendo-se a elas a preferência no caminho; nenhuma palavra obscena devia ser dita em sua presença e nenhum homem devia mostrar a elas descoberta alguma parte do corpo, exceto aquelas que podem ser expostas com decência [...]" (²). Os filhos das sabinas com romanos seriam, pelo acordo, distinguidos, na infância, com adornos especiais, que atestariam diante de todos sua posição de destaque na sociedade.
Outro aspecto, contudo, chama a atenção na lista de direitos das sabinas, um que justifica a análise do caso, porque revela algo importante em relação às ocupações das mulheres romanas na Antiguidade: é que, conforme Plutarco, havia para elas uma só obrigação, que era trabalhar com a lã. Isso devia incluir tarefas como fiar e tecer. Era relevante, pois consta que os primitivos romanos eram pastores de ovelhas e criadores de gado. Era também relevante porque os primitivos romanos, constituindo um povo rústico, não eram dados a muito luxo no viver quotidiano e, portanto, era necessário ter em casa quem soubesse fazer roupas, não só para os dias cálidos do verão, mas também para as épocas invernais. Então, meus leitores, lenda ou realidade, a história das sabinas nos conta um pouco do que devia ser a vida e ocupação das mulheres nos primórdios de Roma, quando os escravos não eram ainda numerosos. O fato de que se supunha que os pais sabinos haviam imposto aos maridos romanos que não explorassem a força de trabalho das mulheres que haviam raptado mostra, por oposição, que, como regra, provavelmente competia a elas uma profusão de tarefas, incluindo cozinhar, cuidar dos filhos pequenos, consertar roupas e até ajudar na agricultura. Não devia ser pouco, como, afinal, não era, em muitos outros povos. 

(1) Nascido em Queroneia, viveu entre c. 45 - 125 d.C.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Plutarco e a dificuldade em escrever sobre acontecimentos remotos

Que lhes parece, leitores: é mais fácil escrever sobre fatos recentes ou remotos? Não duvido que haja quem prefira escrever sobre o que há de mais longínquo no tempo porque, se cometer um erro, é pouco provável que apareça algum sobrevivente para contestar... 
Plutarco (¹), autor de Vitae parallelae, via problemas em tratar daquilo que ocorrera há muito tempo, porque, segundo ele, os testemunhos escritos estavam entremeados de "narrativas fabulosas e acontecimentos trágicos [...] nos quais não se pode crer como verdade" (²). Julgo que tinha razão, embora devamos sempre perguntar, quando olhamos para os antigos mitos, qual terá sido o acontecimento real que induziu tal relato. 
Contudo, se considerarmos os escritos do próprio Plutarco, veremos que suas biografias contêm, aqui e ali, uma porção de acontecimentos fabulosos, pelo menos segundo nossos critérios, além de conceitos anacrônicos, Afirma, por exemplo, que Teseu (o herói grego que teria matado o Minotauro), foi também responsável por mandar cunhar uma nova moeda em Atenas. Ora, admitindo que Teseu tenha existido, ainda que sem realizar todas as estripulias a ele atribuídas, não poderia ter ordenado nenhuma cunhagem de moeda, porque, na época em que supostamente viveu, essa técnica não era conhecida dos gregos. 
É claro que Plutarco, nascido no Século I, nada sabia sobre modernas técnicas de investigação histórica e arqueológica, e dependia, em grande parte, dos documentos antigos que lia e comparava, mas cuja veracidade era difícil de comprovar. Fez, portanto, a seu modo, um bom trabalho. O nosso, hoje, seria mais complicado sem o dele.

(1) c. 45 - 125 d.C.
(2) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O Asylum criado por Rômulo e Remo

Rômulo e Remo, os lendários fundadores de Roma, existiram? Foram pessoas reais, gente "de verdade"? Não é impossível que houvesse homens de carne e osso por trás da lenda, mas também não há, ainda, provas irrefutáveis nesse sentido. Contudo, estudar o que autores da Antiguidade escreveram sobre eles oferece a possibilidade de abrir uma fresta na janela do passado, para entrever como viviam os primitivos romanos. 
É o que acontece, por exemplo, em relação ao direito de asilo em templos, uma instituição que, atravessando os séculos, existiu, com alguns limites, até nos dias do Império. Ora, de acordo com Plutarco, o asilo foi instituído por ninguém menos que os famosos irmãos Rômulo e Remo, que teriam alegado, para isso, uma revelação vinda do deus Apolo (¹):
"Depois que principiaram a fundação da cidade [de Roma], [Rômulo e Remo] marcaram certo lugar dentro dos muros que serviam de limites à povoação, a fim de que fosse considerado inviolável e sagrado, e deram a esse lugar o nome de Asylum (²). Era tão religiosamente respeitado que todos os que ali se acolhiam estavam seguros, como lugar sagrado que era, sem que ninguém pudesse tocar-lhes, mesmo que houvessem cometido grandes crimes. Portanto, sob essa proteção estavam em liberdade: um escravo não podia ser retirado dali por seu senhor, o devedor estava protegido do credor e o homicida estava fora do alcance do magistrado. [...]" (³)
Desse modo, leitores, tendo se originado com os gêmeos ou não, o direito de asilo foi uma instituição real em Roma, e, quando o cristianismo se tornou a religião dominante, suplantando as divindades tradicionais e seus templos, esse direito, até certo ponto, foi conservado nas igrejas cristãs, quer porque se reconhecia ser útil para impedir algumas arbitrariedades, quer pela força da tradição. 

(1) Febo, entre os romanos
(2) Refúgio.
(3) PLUTARCO. Vitae parallelae. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


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quinta-feira, 24 de setembro de 2020

O Mediterrâneo foi uma via de fusão e irradiação de culturas na Antiguidade

No modo como jovens estudantes são, às vezes, apresentados aos povos da Antiguidade, pode-se ter a impressão de que egípcios, gregos, romanos, fenícios, hebreus, entre outros, viviam, cada um, em isolamento em relação aos demais. Teriam, portanto, cultura própria e exclusiva, quanto à língua, vestuário, escrita, religião, arquitetura, atividades econômicas e quase tudo quanto se possa imaginar. Ora, leitores, acontecia exatamente o contrário.
Embora o grau de intercâmbio entre os diferentes povos tenha variado de uma época para outra, pode-se, em linhas gerais, dizer que o mar Mediterrâneo foi, na Antiguidade, uma poderosa via de comunicação, que resultou em irradiação cultural e em fusão de ideias, a tal ponto que, para quem se dedica ao estudo dos povos estabelecidos ao seu redor, fica às vezes difícil determinar a origem de certos elementos. Querem um exemplo? Vamos ao mais simples. É comum que se diga que nosso alfabeto teve origem entre os fenícios. Será, mesmo? Há quem pense que pode ter começado na confluência de rotas terrestres que ligavam a Mesopotâmia à Palestina e, daí, alcançavam o Egito. Os fenícios, hábeis comerciantes, logo perceberam a vantagem de uma escrita alfabética, muito mais simples e fácil que os hieróglifos egípcios, e, apropriando-se dela, espalharam-na pela bacia do Mediterrâneo, durante suas incansáveis viagens de negócios. Não era preciso pertencer a uma classe sacerdotal ou ter a profissão de escriba para aprender umas poucas letras e fazer uso delas
Especialistas têm-se dedicado à análise do verdadeiro emaranhado de deuses que povos do Mediterrâneo, quase todos politeístas, desenvolveram. É inegável a equivalência entre muitas divindades, ainda que a mais clássica de todas as semelhanças, a dos gregos e romanos, seja alvo de questionamentos. Sabe-se, porém, que, nos primórdios, era generalizada a associação de divindades com forças da natureza, cujo culto, não raro, estava vinculado ao ciclo agrícola anual. Em termos práticos, variava o nome de deuses e deusas, mas os mitos guardavam semelhança e os rituais a eles associados também evidenciavam, ou uma origem comum, ou a inspiração em práticas alheias.
O intercâmbio cultural não foi, contudo, sempre de ordem pacífica. As guerras foram parte desse processo, resultando, eventualmente, em dominação de um povo por outro, mais forte militarmente, mas nem sempre superior quanto aos conhecimentos científicos, à arte ou à tecnologia. Atenas foi vencida por Esparta, a até então obscura Macedônia dominou cidades gregas poderosas e Roma subjugou a Grécia. Mas, como se sabe, a cultura grega exerceu tal encanto sobre os vitoriosos que, em pouco tempo, a elite romana passou a aprender grego e a imitar a arte grega em seus múltiplos aspectos. O maior confronto, no entanto, ao menos em se tratando de consequências, parece ter ocorrido entre Roma e Cartago, esta última, um poderoso império comercial sediado no norte da África. Não havia lugar para dois impérios tão próximos. Roma venceu e eliminou Cartago da concorrência.


quinta-feira, 18 de junho de 2020

O corte de cabelo de Teseu

Cabelos longos ou curtos? Na Antiguidade havia quem os quisesse longos, enquanto outros gostavam de tê-los bem curtos. Questão de gosto e costume, sim, mas era, também, questão de conveniência na guerra. Barbas e cabelos longos podiam ser desvantagem em um combate corpo a corpo. 
Glorificando as virtudes de Teseu, herói ateniense, Plutarco explicou, em Vitae parallelae: "Todos os rapazes daquele tempo, no momento em que deixavam de estar sob a disciplina dos mestres, o que acontecia por volta dos quatorze anos, tinham por tradição o dever de ir a Delfos e, em seu templo, oferecer a Apolo o primeiro corte dos cabelos, como um sacrifício de agradecimento. Seguindo o costume de seu lugar de nascimento, Teseu foi a Delfos e lá cortou os cabelos, mas apenas aqueles que ficavam na parte frontal da cabeça [...]" (¹). Portanto, meninos gregos usavam cabelos longos, mas, logo que chegavam à idade militar, deviam cortá-los e, religiosamente, oferecê-los a Apolo. 
Deixando de lado o que pode haver de lendário na história de Teseu, é inegável que o costume grego de que rapazes cortassem os cabelos em Delfos, oferecendo-os a Apolo, encontra eco na tradição romana de que os jovens, no dia em que deixavam de usar a toga pretexta, passando a vestir a toga viril, oferecessem os fios da primeira barba que faziam em um templo, queimando-os sobre um altar. Passavam, nessa ocasião, a ser reconhecidos como homens adultos, o que incluía, ao lado dos privilégios inerentes a um cidadão romano, o dever do serviço militar.
Alexandre, o Grande (³)
Alexandre da Macedônia, ainda conforme Plutarco, via também inconveniência em barbas exageradas nos soldados - considerem, leitores, a hipótese de uma luta corpo a corpo: "Alexandre, rei da Macedônia, sendo sábio, percebeu os males que poderiam vir e, assim, estabeleceu um regulamento para os soldados de seu exército, pelo qual os macedônios estavam obrigados a cortar a barba, para que, durante o combate, não fossem, por causa delas, atingidos pelos inimigos" (²). Não será absurdo, portanto, conjecturar que o costume religioso de oferecer barbas e cabelos aos deuses cumpria uma função muito útil, convencendo a população masculina a fazer um verdadeiro sacrifício (em mais de um sentido), nesses tempos remotos em que instrumentos cortantes não eram nada confiáveis.

(1) PLUTARCO. Vitae parallelaeOs trechos citados nesta postagem foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) Ibid.
(3) HEKLER, Anton. Die Bildniskunst der Griechen und Römer. 
Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 60. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


terça-feira, 24 de setembro de 2019

Quem era Hera

"Que é a atribuição de vícios aos deuses, que não um modo de incentivar sua prática e dar a eles uma desculpa aceitável?"
Sêneca, De brevitate vitae

Não se irritem com o título, leitores: tenho o direito de bulir com as palavras. Na mitologia grega, Hera era casada com Zeus (¹). Esse casal olímpico estava, porém, muito longe de ser um exemplo de felicidade conjugal: Zeus era descrito na mitologia como um incansável adúltero, e Hera (talvez por consequência), como uma ciumenta incorrigível. Que poderia resultar disso? Para os antigos gregos, cada vez que uma grande calamidade natural acontecia - um terremoto, por exemplo - era porque, lá no Olimpo, Zeus e Hera estavam discutindo...
Uma dentre muitas lendas associadas a esse casal briguento fazia menção à ilha de Lemnos, que se acreditava ser o local dos fornos que Hefestos (²) usava para trabalhos em metalurgia, arte em que era perito. Acontece que Hefestos, vendo Hera, sua mãe, ser maltratada por Zeus, que a havia pendurado no céu com uma corrente de ouro, resolveu agir, libertando-a. Em consequência, recebeu um horrendo pontapé de Zeus, suficiente para que fosse arremessado em Lemnos. Ao cair, teve uma perna fraturada e, por isso, mancava continuamente. Outras versões, igualmente antigas, tinham explicações diferentes para o problema de Hefestos.
Vejam, leitores: não é improcedente a ideia de que, na Antiguidade, havia aqueles que colocavam suas próprias características nos deuses que cultuavam. Em alguns episódios da mitologia, divindades olímpicas não eram exemplos do que havia de mais virtuoso entre os homens. De qualquer modo, Hera também foi reverenciada pelos gregos como a deusa da fidelidade conjugal. Seu templo mais célebre era o de Argos, no Peloponeso.

(1) Em Roma, Juno e Júpiter, respectivamente, ainda que a correspondência entre divindades gregas e romanas seja algo discutível. 
(2) Vulcano, para os romanos.


terça-feira, 3 de setembro de 2019

A prática da agricultura e as embarcações usadas na Babilônia

As áreas agricultáveis nos arredores da Babilônia eram repletas de canais de irrigação. Assim é que a água do Eufrates chegava aos campos, permitindo colheitas de cereais, principalmente trigo e cevada, "de duzentos por um, chegando mesmo a trezentos, em safras excepcionalmente boas", segundo afirmou Heródoto no Livro I de suas HistóriasDescontando algum exagero de nosso informante, a irrigação favorecia uma produção elevada, capaz de sustentar a população de toda a área. Dos campos vinham também frutas, com destaque para a produção de tâmaras.
Pode-se imaginar a intensa atividade aí existente. Contudo, os agricultores, parando às vezes suas tarefas para descansar por um instante, podiam ver, a alguma distância, barcos que desciam o rio, rumo à linda Babilônia. Notem, leitores, não eram barcos comuns os que observavam, e sim embarcações redondas, feitas de couro, com armação de salgueiro. É ainda Heródoto quem diz: "Os barcos são controlados por dois remos usados por homens em pé [...], havendo barcos muito grandes e outros menores [...]." (¹)
Esses barcos somente serviam para descer o rio; comerciantes, quando chegavam à Babilônia, entregavam suas mercadorias, desfaziam-se da armação das embarcações e, carregando os couros em jumentos (²), faziam por terra a viagem de volta. 

(1) HERÓDOTO. Histórias, Livro I. Os trechos citados foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(2) De acordo com Heródoto, cada barco conduzia ao menos um jumento, a fim de ter quem carregasse o couro no retorno. Se o barco fosse grande, deveria ter número compatível de animais de carga.


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