segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Como o Luxo Chegou aos Romanos

Historiadores da Antiguidade foram enfáticos em afirmar que os habitantes de Roma, nos primórdios da cidade, prezavam, como virtudes impagáveis, a sobriedade, a frugalidade e o hábito de economizar. 
Que dizer? Eles não podiam, mesmo, ser muito diferentes disso. A primitiva aldeia de pastores e agricultores era pobre demais para cultivar gente dada ao luxo.
Porém, com o passar do tempo, vieram as conquistas militares e, com elas, duas coisas aconteceram:
a) Os romanos passaram a copiar alguns costumes estrangeiros que pareciam úteis, ainda que viessem de inimigos que haviam derrotado;
b) O enriquecimento proporcionado pelas conquistas militares abriu caminho para que hábitos de luxo se infiltrassem na sociedade romana.
Tito Lívio, em Ab urbe condita libri, assinala a entrada do luxo na época em que os romanos, sob o comando de Lúcio Cornélio Cipião (*), também conhecido como "Asiático", derrotaram as forças comandadas por Antíoco III na Batalha de Magnésia (190 a.C.):
"Quando L. Cornélio Cipião voltou a Roma, celebrou-se um notável triunfo e concedeu-se-lhe o apelido de Asiático: seu exército é que começou a introduzir o luxo estrangeiro em Roma." (**)
Ora, meus leitores, o que estava em jogo na Batalha de Magnésia, vencida pelos romanos, era o domínio sobre a Grécia. Podem, portanto, imaginar o botim de guerra em tal ocasião!
Desde o tempo da guerra contra Siracusa (***) os romanos vinham admirando a arte grega. Marco Cláudio Marcelo, o cônsul que comandou a vitória, depois de saquear a cidade derrotada, levou a Roma uma quantidade enorme de obras de arte, que foram consagradas aos deuses, em seus respectivos templos. Segundo Tito Lívio, foi assim que "as obras de arte gregas começaram a ser admiradas em Roma" (****).
Mas, acreditem, não foram apenas as grandes obras de arte produzidas por gênios da cultura grega que ganharam a afeição dos romanos. Coisas aparentemente corriqueiras do dia a dia também conquistaram o coração dos outrora sisudos moradores da Península Itálica, cujo principal alimento era uma espécie de mingau de aveia. Conquistaram o coração, sim, mas inclua-se nisso também o estômago: a comida da Grécia, em particular a arte da panificação, enfeitiçou Roma, a tal ponto que se afirma que, nos dias do imperador Augusto, chegou a haver na cidade nada menos que trezentas e vinte e nove padarias públicas. 
O jeito romano de fazer as coisas, porém, veio a manifestar-se nesta questão.  Para exercer controle e evitar que cada um fizesse o pão como bem entendesse, havia um funcionário público cujo trabalho era fiscalizar continuamente se todos os estabelecimentos de panificação cumpriam seus deveres conforme estipulado, em quantidade e qualidade, quer fazendo o alimento que se vendia para distribuição aos escravos, quer fabricando finíssimos pães, com ingredientes sofisticados, que só frequentavam a mesa dos ricos.

(*) Irmão de Públio Cornélio Cipião, apelidado "O Africano".
(**) Tito Lívio, Ab urbe condita libri
(***) 212 a.C.
(****) Tito Lívio, Op. cit.
As citações de Ab urbe condita libri que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

4 comentários:

  1. Bom....o português coloquial ainda conserva a expressão "luxo asiático".
    Muito provavelmente, tem que se procurar nesta época a origem das "pastas" , "massas" , "pizzarias" , padarias e pastelarias finas que depois se foram espalhando pelo Império.
    Roma era a civilização...

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    1. Sim, certamente. Mas há também os hábitos de luxo que os cruzados trouxeram das terras orientais, e aqueles que os navegadores dos Séculos XV e XVI "importaram" das Índias. Convenhamos: o sucesso alcançado por artigos de luxo, quer na Antiguidade, quer em tempos mais recentes, serve para provar que, como regra, eram excelentes. Quem é que não iria gostar?

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  2. Também concordo que o luxo asiático tem mais que ver com os finíssimos produtos que encontraram no Oriente, a partir dos Descobrimentos. Estou muito contente por terem trazido algumas esquisitices, nomeadamente a canela, que uso todos os dias.
    Beijinhos
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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    1. Tem razão; a canela, em alguns pratos, faz toda a diferença.

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